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3.18.2026

Crônica: “O mar que cabe na palma da mão” - Gustavo Velôso (*)

 


Cultura | Literatura

Por: *Gustavo Velôso

Crônica: “O mar que cabe na palma da mão”

Há cidades que a gente visita. Outras, a gente carrega.

Buerarema — para quem conhece — não é apenas um ponto no mapa do sul da Bahia. É dessas terras que ficam guardadas na memória como se fossem coisa viva, respirando dentro da gente. E, curiosamente, quanto mais o tempo passa, mais elas crescem.

Outro dia, percorrendo as páginas de “Com o mar entre os dedos”, que se insere no gênero das crônicas, reunindo textos que transitam entre memória, cotidiano e reflexão publicado em 2016 pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), da autoria intelectual de Antônio Lopes, me dei conta de que o autor não escreve apenas crônicas. Ele faz outra coisa: ele devolve lugares.

Devolve Buerarema com suas ruas, seus tipos humanos, suas histórias miúdas — aquelas que nunca viram manchete, mas que sustentam o mundo.

O livro é isso: um passeio por experiências, lembranças e episódios que parecem simples, mas que carregam uma espécie de verdade silenciosa sobre a vida.

E talvez seja exatamente por isso que funcione.

Porque ninguém vive de grandes acontecimentos o tempo todo. A vida, no fundo, é feita desses instantes quase invisíveis — uma conversa, uma lembrança, um detalhe que só faz sentido para quem viveu.

Antônio Lopes entende isso. E escreve como quem não quer transmitir uma explicação profunda. Deixa que o leitor reconheça, por conta própria, aquilo que já sentiu um dia.

Há, nas páginas, um certo humor, mas também uma melancolia leve — não pesada, não triste — apenas aquela sensação de que tudo passa. E passa rápido.

Talvez por isso o título seja tão preciso.

O mar, quando escorre entre os dedos, não se deixa prender. É bonito justamente por isso. É presença e ausência ao mesmo tempo. É o instante que não se repete.

Assim são as cidades da memória.

Assim são as pessoas.

Assim é a vida.

E talvez seja esse o maior mérito do livro: lembrar, sem alarde, que aquilo que parece pequeno — uma rua, uma história, um dia comum — é, no fim das contas, o que realmente fica.

Ou melhor: o que insiste em não ir embora.

(*) Gustavo Velôso é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) ocupando a Cadeira de nº 15 que tem como Patrono José Haroldo Castro Vieira. Autor intelectual da Coleção Raízes Grapiúnas Selo FERRADAS com onze volumes.

Em: 18/03/2026

 

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