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Literatura
Por: *Gustavo
Velôso
Crônica:
“O mar que cabe na palma da mão”
Há
cidades que a gente visita. Outras, a gente carrega.
Buerarema
— para quem conhece — não é apenas um ponto no mapa do sul da Bahia. É dessas
terras que ficam guardadas na memória como se fossem coisa viva, respirando
dentro da gente. E, curiosamente, quanto mais o tempo passa, mais elas crescem.
Outro
dia, percorrendo as páginas de “Com o mar entre os dedos”, que se insere
no gênero das crônicas, reunindo textos que transitam entre memória, cotidiano
e reflexão publicado em 2016 pela Editus, editora da Universidade Estadual de
Santa Cruz (UESC), da autoria intelectual de Antônio Lopes, me dei conta de que
o autor não escreve apenas crônicas. Ele faz outra coisa: ele devolve lugares.
Devolve
Buerarema com suas ruas, seus tipos humanos, suas histórias miúdas — aquelas
que nunca viram manchete, mas que sustentam o mundo.
O
livro é isso: um passeio por experiências, lembranças e episódios que parecem
simples, mas que carregam uma espécie de verdade silenciosa sobre a vida.
E
talvez seja exatamente por isso que funcione.
Porque
ninguém vive de grandes acontecimentos o tempo todo. A vida, no fundo, é feita
desses instantes quase invisíveis — uma conversa, uma lembrança, um detalhe que
só faz sentido para quem viveu.
Antônio
Lopes entende isso. E escreve como quem não quer transmitir uma explicação
profunda. Deixa que o leitor reconheça, por conta própria, aquilo que já sentiu
um dia.
Há,
nas páginas, um certo humor, mas também uma melancolia leve — não pesada, não
triste — apenas aquela sensação de que tudo passa. E passa rápido.
Talvez
por isso o título seja tão preciso.
O
mar, quando escorre entre os dedos, não se deixa prender. É bonito justamente
por isso. É presença e ausência ao mesmo tempo. É o instante que não se repete.
Assim
são as cidades da memória.
Assim
são as pessoas.
Assim
é a vida.
E
talvez seja esse o maior mérito do livro: lembrar, sem alarde, que aquilo que
parece pequeno — uma rua, uma história, um dia comum — é, no fim das contas, o
que realmente fica.
Ou
melhor: o que insiste em não ir embora.
(*)
Gustavo Velôso é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA)
ocupando a Cadeira de nº 15 que tem como Patrono José Haroldo Castro Vieira.
Autor intelectual da Coleção Raízes Grapiúnas Selo FERRADAS com onze volumes.
Em:
18/03/2026

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