4.03.2026

Espero-te - Valter Luis de Oliveira Moraes (*)

 

Valter Luis de Oliveira Moraes (*)

Espero-te

Nesse momento, espero-te.

Simplesmente espero-te ansiosamente para vê-la como poema lírico e revolucionário, impulsionando a vida.

Espero-te para ver teu lindo sorriso trazido pelos ventos.

Pelas chuvas torrenciais,

Pelo sol,

Pela lua.

Espero-te em todos os instantes que meus olhos vejam a beleza da arte.

Da estética flutuante da poesia em você.

Espero-te no lugar mais profundo do meu coração,

Para admirar teus versos recitados na minha alma,

Que dorme profundamente.

 

Valter Luis de Oliveira Moraes (*)

Natural de Ibicaraí- Ba. Graduado em filosofia - UESC. Pós-Graduado em Psicologia em Relação ao Trabalho - Universidade de Guanambi- Unigrade.

Pós-Graduado em Economia das Sociedades Cooperativas -  Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC.

Bancário, Diretor da Federação dos Bancários da Ba/Se.

Poeta, escritor, com várias participações em antologias poéticas pelas editoras: Cogito, Tertúlias, Via Literarum,

Agora Editora Gráfica, Shan Editores Ltda, Editora Ceala - Centro de Estudios por la amistad de latinoamérica, Ásia e África e a Fundação Maurício Grabois - FMG.

Autor do livro: Vida, Minha Vida, Prosa Poética. Edição VM - 2024.


Autoria: Valter Luis de Oliveira Moraes,

Foto: Produção

Ponto de literatura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

 

 

Sexta-Feira Santa - Cruz e Souza

 







Sexta-Feira Santa

Lua absíntica, verde, feiticeira,

Pasmada como um vício monstruoso...

Um cão estranho fuça na esterqueira,

Uivando para o espaço fabuloso.

 

É esta a negra e santa Sexta-Feira!

Cristo está morto, como um vil leproso,

Chagado e frio, na feroz cegueira

Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.

 

A serpente do mal e do pecado

Um sinistro veneno esverdeado

Verte do Morto na mudez serena.

 

Mas da sagrada Redenção do Cristo,

Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,

Brotam fosforescências de gangrena!

 

Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).

In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 85

Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Simbolismo, conhecido pelo seu nome de artista Cruz e Sousa. A sua obra poética é marcada por uma profunda espiritualidade, misticismo, musicalidade e um uso inovador da linguagem, explorando o transcendente e o etéreo. Enfrentou o preconceito racial e a pobreza ao longo da sua vida, o que se reflete na sua escrita com temas de dor, sofrimento e busca pela redenção através da arte.

O Estado de ser e os problemas do Ser - Agilson Cerqueira

 

O Estado de ser e os problemas do Ser

Agilson Cerqueira


Inebriar-se ou embriagar-se não é fugir — é um método.

Um experimento contra a tirania da inconsciência.

Pois existir, quando plenamente percebido, não é um dado — é um privilégio.

A lucidez não ilumina: ela expõe.

E o que ela expõe não é o mundo, mas a impossibilidade de habitá-lo sem fissuras.

Há, portanto, uma tensão irreconciliável:

entre o esquecimento, que dissolve o ser, e a consciência, que o torna insuportavelmente nítido.

Não se trata de escolher entre dois estados, mas de reconhecer que ambos falham.

O esquecimento falha porque não sustenta.

A lucidez falha porque sustenta demais.

O sujeito, então, não é algo estável —

é um movimento de oscilação.

Um pêndulo sem centro.

Aquilo que se chama “eu” não passa de um intervalo entre percepções, uma tentativa precária de continuidade num fluxo que não admite permanência.

Conhecer-se torna-se impossível,

não por falta de profundidade,

mas por excesso de instabilidade.

O ser não é oculto — é inconsistente.

E talvez por isso o outro se torne intolerável: não por diferença, mas por revelar que também ele sustenta, com igual fragilidade,

a ficção de existir.

Recusar-se a ser o outro

é, no fundo, recusar a evidência

de que não há saída fora dessa condição.

Ser é estar preso numa estrutura sem fundamento, onde o instante é tudo o que há — e, ainda assim, não se sustenta.

O agora não é presença: é ruptura contínua.

Assim, as palavras “loucura e lucidez”

perdem o sentido.

Porque ambas partem do mesmo erro:

acreditar que há um estado correto do ser.

Não há.

O que existe é apenas a consciência

tentando justificar o fato bruto de estar aqui.

Sem motivo.

Sem centro.

Sem garantia.

E talvez o pensamento mais radical

não seja compreender isso

— mas continuar, mesmo assim.


Autoria: Agilson Cerqueira

Foto: Produção

 

blog; rilvanbatistadesantana.blogspot.com (link)

Um blues para a liberdade - Alineci Cardoso (*)

 








Um blues para a liberdade - Alineci Cardoso (*)

Cante uma canção

Vestida de liberdade

em verso e prosa

Na frente

Nas costas

Da América martirizada

Um blues para a

liberdade

Que sangra

Que chora os seus filhos perdidos

sem teto

Sem terra

Sem nada

Um blues para a Liberdade

Amputada

Exilada

Um blues para a

Resistência

De um povo que chora e ri

E decerto se encharca

Àqueles

Que não perdem a Coragem


(*)Alineci Cardoso, natural de Itororó-BA, é graduada em Filosofia/UESC e Psicologia/Unime.. Pós Graduada em Neuropsicologia, Saúde Mental, e Dependência Digital.

Participação em Antologias: pela Cogito Editora ( Mulher Poesia), Poiesis Antologia Poética Vol 4. Via Literarium (Pétalas e Lâminas), Antologia Poética I, I e III.


Autora: Alineci Cardoso

Foto: Produção


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com 

4.02.2026

Grupo Social - R. Santana

 


Grupo Social

R. Santana

 

“E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que lhe seja adequada” (Gênesis: 2 – 18)

 

          O homem por natureza não veio ao mundo pra ficar sozinho. Ele não gosta de solidão, gosta de viver em grupo, o grupo mais histórico é o grupo familiar. Mas se algum desavisado, perguntar-me: “E, a solitude?”,  responderei: “Solitude não é solidião!" A solidão é carregada de tristeza, angústia e irritação, enquanto, a solitude é um modo de vida... Algumas pessoas preferem ficar sozinhas, liberdade plena, elas não gostam de compartilhar sua vida com o outro. A solitude é desejada, é alegre, é saudável, é feliz; a solidão é involuntária, é depressiva, é melancólica, às vezes, doente.

          Abre parêntesis:

          Ainda jovem, comecei trabalhar no magistério itabunense e cidades vizinhas, notadamente, Itajuípe e Buerarema. Juntei algum dinheiro em 1 ano de trabalho e comprei uma casa popular por preço de bagatela, e, deixei a casa dos meus tios que me criaram. Meu tio, do alto de sua experiência de vida, dizia: “...puta só e ladrão só”, e, justificava: “... tudo de certo ou errado que fizer, só você sabe”.

          No início, senti-me um “Sheik” das arábias: “jovem, casa própria, emprego, dinheiro no bolso e liberdade”.

          À medida que o tempo passava, tudo dentro de casa foi ficando de ruim pra péssimo: a comida sem gosto, os serviços caseiros por obrigação, a cama tinha “pulgas”, o estudo mais difícil e a solidão chegou, como não bebia, não fumava nem jogava, não tinha namorada, afundei-me no trabalho diuturno. 

    Fecha parêntesis.

          A interação do homem com o seu semelhante é uma necessidade e melhora sua autoestima, sua condição física e emocional, por isto, valoriza-se tanto os amigos, as amigas e a família. O homem que não teve família, passou na vida e não viveu. A vida completa é: Deus, Pátria e família. O destino do homem não é viver isolado numa ilha como Robson Crosué.  

          Hoje, as novas tecnologias produzem a formação de grupos sociais sem o homem arredar o pé de casa, com valores, objetivos comuns e sentimento  de pertencimento. A Internet propicia ao pai falar com seu filho que mora na Austrália, em tempo e imagem reais. São muitos os grupos do homem moderno: familiar, religioso, educativo, político e etc. Todos esses grupos interagem-se com o uso de redes sociais: WhatsApp, Instagram, “Xis”, Facebook, etc.

          Seu José de minha rua ficou de queixo caído quando soube que sua audiência com o meritíssimo juiz não seria “tête-à-tête”:

          - Dotor qui negoço é esse? Num vô falar cum home cara-cara?

          - Não, seu José. O Senhor vem para o escritório, eu vou ligar o celular, coloco-o em sua frente, o senhor irá falar, quando sua excelência lhe perguntar, deixe que falo pelo senhor!

          - Qui pesti, num pudê falar?!

          - Para isso, o senhor paga ao seu advogado – o seu José entendeu.

          As mudanças nos meios de comunicação, desde o Século passado, foram rápidas e radicais. Não faz muito tempo, passei enorme decepção quando conversei com a mãe de um recém advogado, saiu:

          - Seu filho tem muitos livros de Direito?

          - Livros físicos?

          - Sim!

          - Não se usa mais! Os livros tradicionais empoeiram a estante, agora, é tudo feito pela Internet, até as audiências! Papel? Tudo é feito no computador!...

          Por isso, vivemos num mundo de profissionais incompetentes, profissionais do mundo virtual e não do mundo real, concreto, o grande problema, é que não lhes ensinaram pensar, o mundo da tecnologia pensa por esses ineptos profissionais, na esteira da incoerência entre a tecnologia e a ignorância. 


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA

Foto: Google

         

 

         

4.01.2026

Dez chamamentos ao amigo - Hilda Hilst

 





Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

 

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

 

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

 

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

 

Os versos acima foram retirados do livro Júbilo, memória, noviciado da paixão, publicado em 1974. Na lírica apresentada encontram-se apenas dois personagens: o amado e a amada. É a partir deles que nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro.

O título, dirigido ao amigo, faz lembrar as cantigas cavaleirescas medievais onde o amado também era assim chamado. Mais uma vez vemos no trabalho de Hilda a importância do elementos básicos: o eu-lírico se identifica com a terra em oposição a água, que era aquilo que desejava ser.

O tom que vigora nos versos é de sensualidade e de desejo. Aqui não é o amor puro que é invocado, e sim o desejo carnal, a vontade de possuir o outro do ponto de vista erótico.


Autoria: Hilda Hilst

Foto: Google

 

Princípios Que Podem Ser Postos em Prática - Robert Tamasy

Princípios Que Podem Ser Postos em Prática

Por Robert Tamasy

 

Recentemente tive a oportunidade de passar algum tempo com Albert, um amigo de longa data que foi líder no CBMC durante muitos anos. Ele foi o orador convidado de um retiro e falou sobre as coisas que aprendeu sobre a aplicação de princípios bíblicos em seus negócios, bem como em sua vida pessoal. 

 

Albert disse que um dos critérios que a experiência lhe ensinou e mudou sua vida foi: “Deus, em Sua Palavra, nunca irá lhe dar um princípio que não possa ser posto em prática.” E acrescentou: “Quando você segue os princípios bíblicos, nunca erra.” 

 

Essa não é uma declaração sem sentido. Meu amigo continuou, citando exemplos e mais exemplos de momentos em que, mesmo quando parecia contrário a sua intuição, ele escolheu seguir as diretrizes das Escrituras e descobriu, para sua alegria, que elas funcionaram conforme o prometido. Albert não estava dizendo que dar ouvidos aos princípios bíblicos será sempre fácil ou que o resultado será sempre aquele que esperamos, mas como ele comentou: “Um pai amoroso jamais lhe pedirá para fazer algo que não seja bom para você – e o Senhor é o nosso Pai amoroso.” 

 

Isso me levou a pensar: Quais são alguns desses princípios da Bíblia, dados por Deus, que nos asseguram que Ele os estabeleceu tendo em vista o nosso bem? Livros e mais livros poderiam ser escritos sobre este tema, mas aqui estão alguns exemplos que me ocorreram: 

 

Não trabalhamos apenas para nós mesmos.  Iniciamos nossa carreira geralmente pensando em termos de “meu trabalho”, “meu emprego”. Porém, a Bíblia ensina que o trabalho que desempenhamos é parte do nosso chamado divino, e que os talentos e dons que possuímos e até mesmo as oportunidades que surgem em nosso caminho, provêm de Deus. “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos.” (Efésios 2:10). 

 

Ter que esperar não faz mal a ninguém.  Muitos de nós somos pessoas voltadas para a ação, e ter que esperar para que objetivos e desejos se cumpram testa nossa paciência até o limite máximo. Porém, se descobrirmos que precisamos esperar, Deus tem uma boa razão para essa espera. “Descanse no Senhor e aguarde por Ele com paciência...” (Salmos 37:7). “Parem de lutar! Saibam que Eu sou Deus!...” (Salmos 46:10). 

 

Dificuldades na vida podem ser degraus para o crescimento espiritual.  Quando encontramos dificuldades somos propensos a explorar alternativas para fugir das circunstâncias. Mas geralmente é no cadinho das adversidades que aprendemos as grandes lições de Deus e somos levados à maturidade espiritual. “...também nos gloriamos nas tribulações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele nos concedeu.” (Romanos 5:3-5).

 

Você não pode exceder a generosidade de Deus.  A generosidade não surge naturalmente na maioria de nós. Apegamo-nos aos nossos contracheques e lucros, raciocinando: “É tudo meu. Eu que ganhei.” Agimos como se dando a outros, mesmo a causas de caridade meritórias, poderia resultar em que ficássemos sem recursos para nós mesmos. Mas II Coríntios 9:7 declara:  “...Deus ama quem dá com alegria.”  Jesus também ensinou que não precisamos nos preocupar com não termos o suficiente: “Deem, e lhes será dado: uma boa medida, calcada, sacudida e transbordante será dada a vocês. Pois a medida que usarem também será usada para medir vocês.” (Lucas 6:38). 

 

 

3.31.2026

Cafezinho – Rubem Braga

 





Cafezinho – Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:

- Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um "cafezinho". Para quem espera nervosamente, esse "cafezinho" é qualquer coisa infinita e torturante.

Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:

- Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:

- Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:

- Ele está?

- alguém dará o nosso recado sem endereço.

Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:

- Ele disse que ia tomar um cafezinho...

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:

- Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

***

A crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem havia saído para tomar um cafezinho.

Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.

*****

Autoria:  Rubem Braga

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

 

O JUMENTINHO VAIDOSO

 








O JUMENTINHO VAIDOSO

Um jumentinho chegou em casa todo contente e disse para  sua mãe:

- Mãe você não sabe como sou querido!!!  Fui a Jerusalém e todo mundo me aplaudiu e gritava:

"Viva, viva, salve, salve..."

 

Então a mãe perguntou:

- Quem você estava carregando?

 

- Ah mãe.. era um tal de Jesus Cristo!!!

 

Então a mãe lhe disse:

- Amanhã volte lá, mas não carregue ninguém.

 

No outro dia o jumentinho foi para Jerusalém e voltou triste...

- Mas, mãe, como pode !?... As pessoas nem me olharam, passei despercebido entre as pessoas, e teve gente que até me enxotou.

 

E a mãe, sabiamente, esclareceu:

- É isso aí meu filho...


...VOCÊ SEM JESUS, É APENAS UM JUMENTO !!

 

LEMBRE-SE SEMPRE DISSO !!

 

Autoria – Desconhecida

Foto – produção

Amavisse - Hilda Hilst

 





Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

 

Um arco-íris de ar em águas profundas.

 

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.

 

Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.

 

Os versos acima compõem a parte II de uma série de vinte poemas publicados em 1989 sob o título Amavisse. A lírica amorosa de Hilda Hilst, até então pouco conhecida pelo grande público, foi lançada pelo selo Massao Ohno. Mais tarde, em 2001, Amavisse foi reunido com outros trabalhos e acabou por ser publicado numa antologia chamada Do desejo.

O título do poema acima já chama a atenção do leitor, Amavisse é uma palavra latina que, se traduzida, quer dizer "ter amado". De fato, os versos retratam uma paixão profunda, com uma entrega sem fim por parte do eu-lírico.

A composição de Hilda Hilst é altamente erótica, basta reparar nas expressões sensuais utilizadas como "assim te apreendo brusco", "te respiro inteiro". Há um excesso, uma violência, um desejo de posse, de trazer o outro para capturá-lo.

É interessante observar que o poema carrega os três elementos essenciais: fogo, ar e água. O fogo pode ser lido no verso "favas douradas sob um sol amarelo”; o ar e a água são encontrados no trecho “um arco-íris de ar em águas profundas”.

 

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

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