Sexta-Feira Santa
Lua absíntica, verde, feiticeira,
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.
É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.
A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.
Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz
e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação
Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p.
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Cruz e Sousa
João da Cruz e
Sousa foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Simbolismo, conhecido pelo
seu nome de artista Cruz e Sousa. A sua obra poética é marcada por uma profunda
espiritualidade, misticismo, musicalidade e um uso inovador da linguagem, explorando
o transcendente e o etéreo. Enfrentou o preconceito racial e a pobreza ao longo
da sua vida, o que se reflete na sua escrita com temas de dor, sofrimento e
busca pela redenção através da arte.


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