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4.01.2026

Dez chamamentos ao amigo - Hilda Hilst

 





Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo. Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse

 

Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.

 

Te olhei. E há tanto tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

 

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

 

Os versos acima foram retirados do livro Júbilo, memória, noviciado da paixão, publicado em 1974. Na lírica apresentada encontram-se apenas dois personagens: o amado e a amada. É a partir deles que nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro.

O título, dirigido ao amigo, faz lembrar as cantigas cavaleirescas medievais onde o amado também era assim chamado. Mais uma vez vemos no trabalho de Hilda a importância do elementos básicos: o eu-lírico se identifica com a terra em oposição a água, que era aquilo que desejava ser.

O tom que vigora nos versos é de sensualidade e de desejo. Aqui não é o amor puro que é invocado, e sim o desejo carnal, a vontade de possuir o outro do ponto de vista erótico.


Autoria: Hilda Hilst

Foto: Google

 

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