Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Os
versos acima foram retirados do livro Júbilo, memória, noviciado da paixão,
publicado em 1974. Na lírica apresentada encontram-se apenas dois personagens:
o amado e a amada. É a partir deles que nasce o encontro e as expectativas
direcionadas um ao outro.
O
título, dirigido ao amigo, faz lembrar as cantigas cavaleirescas medievais onde
o amado também era assim chamado. Mais uma vez vemos no trabalho de Hilda a
importância do elementos básicos: o eu-lírico se identifica com a terra em
oposição a água, que era aquilo que desejava ser.
O
tom que vigora nos versos é de sensualidade e de desejo. Aqui não é o amor puro
que é invocado, e sim o desejo carnal, a vontade de possuir o outro do ponto de
vista erótico.
Autoria: Hilda Hilst
Foto: Google

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos