2.10.2026

ABL na mídia - BBC - Quem foi Adonias Filho, o esquecido 'Dostoiévski brasileiro'

 

ABL na mídia - BBC - Quem foi Adonias Filho, o esquecido 'Dostoiévski brasileiro'

O jornalista, crítico literário e escritor Adonias Filho (1915-1990) teve uma carreira notória em seu tempo — mas seu nome não parece ter sobrevivido a ponto de merecer espaço no cânone da literatura brasileira.

Em vida, costumava ser chamado de "Dostoiévski brasileiro", uma alusão ao russo Fiódor Dostoiévski, comumente apontado como um dos maiores romancistas da humanidade.

Críticos como Oswaldo Almeida Fischer e Cyro de Mattos não pouparam elogios a ele.

O primeiro chegou a incluir Adonias Filho entre os maiores da língua portuguesa de todos os tempos.

Já Mattos escreveu que a obra dele era "uma das perpendiculares de nossa literatura".

Segundo o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Adonias Filho é frequentemente comparado a Dostoiévski "principalmente pela intensidade com que trata dilemas morais e existenciais".

Assim como seu homólogo russo, ele "mergulha nas contradições psicológicas dos personagens, explorando o conflito entre moralidade e a necessidade de sobrevivência", destaca.

Essa comparação faz mais sentido ao pensar nos livros Servos da Morte e Memórias de Lázaro, por exemplo. Mas não compreende toda a produção de Adonias Filho.

Martins faz a ressalva: o escritor baiano parte de uma ancoragem profunda, lastreada sobretudo nas realidades do nordeste brasileiro, em vez de abordar de forma preponderante as questões filosóficas universais, como fazia Dostoiévski.

"Enquanto o escritor russo foca nas tensões espirituais do homem diante de Deus e do pecado, Adonias Filho aborda problemas sociais e políticos do Brasil, como o cangaço e a seca, elementos centrais da literatura nordestina", pontua o professor.

"Seu trabalho reflete não apenas uma busca pessoal por sentido, mas também um confronto com as estruturas opressivas de uma sociedade desigual. Dessa forma, embora existam semelhanças psicológicas, a comparação não captura toda a singularidade de sua obra."

Trajetória literária e pensamento político

Nascido na Bahia em 27 de novembro de 1915, Adonias Aguiar Filho publicou dezenas de livros — alguns deles traduzidos para idiomas como inglês, alemão, espanhol, francês, japonês e até eslovaco.

Politicamente, integrou a Ação Integralista Brasileira (AIB) — movimento ultranacionalista e tradicionalista católico, de inspiração fascista, fundado pelo escritor e jornalista Plínio Salgado.

Adonias Filho não tinha nem 20 anos quando escreveu seu primeiro romance, que se chamava Cachaça, mas ele destruiu o texto. Seu primeiro livro, o ensaio O Renascimento do Homem, sairia em 1937 — e era baseado na doutrina integralista.

Já o primeiro romance dele publicado foi Os Servos da Morte, de 1946.

A essa altura, Adonias Filho já tinha uma atuação conhecida como crítico literário, colaborando com os Diários Associados, O Estado de S. Paulo, e Folha da Manhã, entre outros.

Também trabalhava como tradutor, vertendo para o português obras de autores como George Sand — pseudônimo de Amandine Aurore Lucile — e Jacob Wassermann.

Para a crítica, suas grandes obras foram Memórias de Lázaro, de 1952, Jornal de Um Escritor, de 1954, e As Velhas, de 1975. Este último ganhou o Prêmio Jabuti, mais tradicional honraria da literatura brasileira.

Analistas de seu trabalho percebem nele influências de nomes como James Joyce, Honoré de Bazac, Albert Camus, entre outros, além do já citado Dostoiévski.

A originalidade de seu texto é atribuída ao estilo conciso e sincopado. Poética, sua prosa é repleta de metáforas e alegorias.

"Os pontos fortes da literatura de Adonias Filho podem ser atribuídos, de maneira significativa, à sua habilidade de combinar uma crítica social incisiva com uma exploração psicológica e emocional profunda de seus personagens", analisa Martins.

"Sua obra transcende o simples retrato da miséria nordestina, ao transformar a seca e os dramas humanos em elementos que reverberam não apenas nas questões sociais, mas também na complexidade das relações interpessoais e familiares", acrescenta.

"Ao contrário de muitos autores contemporâneos, que abordavam a seca de maneira quase documental, Adonias Filho foi capaz de humanizar suas personagens, demonstrando com sutileza o impacto psicológico e moral das dificuldades enfrentadas por essas pessoas."

Seu perfil oficial registrado pela ABL ressalta que ele fez parte do grupo de escritores rotulados como "terceira fase do Modernismo", os que "se inclinaram para um retorno a certas disciplinas formais, preocupados em realizar a sua obra, por um lado, mediante uma redução à pesquisa forma e de linguagem e, por outro, em ampliar sua significação do regional para o universal".

O texto lembra das origens do escritor, na zona cacaueira da região de Ilhéus, para enfatizar que ele "retirou desse ambiente o material para a sua obra de ficção"

"Desenvolveu recursos altamente originais e requintados, adaptados à violência interior de seus personagens. É o criador de um mundo trágico e bárbaro, varrido pela violência e mistério e por um sopro de poesia. Seus romances e novelas serão sempre a expressão de um dos escritores mais representativos e fascinantes da ficção brasileira contemporânea", define a ABL.

Apoio ao golpe de 64

Seu pensamento de raízes integralistas permaneceria conservador por toda a vida. Apoiou o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil em 1964 e chegou a ser cogitado para ter um cargo no governo do então estado da Guanabara.

Era amigo pessoal do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), o criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), o principal órgão de espionagem da repressão.

De 1961 a 1971, Adonias Filho dirigiu a Biblioteca Nacional.

Durante o regime ditatorial, foi agraciado com a Ordem do Mérito Militar, honraria concedida pela presidência da República. E em 1966 assumiu a vice-presidência da Associação Brasileira de Imprensa — organismo que ele presidiria entre 1972 e 1974.

De 1977 até sua morte, em 1990, comandou o Conselho Federal de Cultura.

Para Martins, seu envolvimento com o conservadorismo político pode ter influenciado tanto sua trajetória literária quanto sua recepção crítica.

"O integralismo, com suas raízes fascistas e nacionalistas, foi visto com desconfiança após o golpe de 1964, e sua associação a esse movimento pode ter ofuscado seu talento literário, marginalizando-o em alguns setores da crítica", pontua.

Contudo, na avaliação do professor, a reação política de Adonias não deveria obscurecer a importância de sua obra.

"Adonias Filho tinha uma visão aguçada da literatura e da sociedade brasileira, e sua crítica ao 'romance nordestino' e contribuição ao estudo do romance de 30 foram essenciais para a narrativa literária brasileira. Sua produção não pode ser reduzida apenas a suas escolhas políticas, pois sua reflexão literária e social continua sendo valiosa", argumenta Martins.

"Embora sua afiliação ao integralismo tenha gerado obstáculos, sua obra ainda carrega um valor significativo na história da literatura brasileira."

Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro A Ideologia Modernista: A Semana de 22 e Sua Consagração, o escritor e crítico literário Luís Augusto Fischer concorda que a política tem um peso na visão que se tem sobre a obra de Adonias Filho.

"O fato de ele ter apoiado o golpe de 64 e integrar órgãos federais era conhecido e, de alguma forma, circulava entre os alunos de Letras, na minha geração", comenta, referindo-se a quem cursou a graduação nos anos 1970.

"Isso, por certo, era um estigma. Um embaraço para apreciar sua literatura."

O crítico e ensaísta André Seffrin também reflete sobre o peso das escolhas políticas de Adonias para a posteridade de sua literatura.

"O fato de Adonias se colocar como um autor, se assim podemos dizer, um tanto à direita, pode ter colaborado, sim. Mas isto é apenas um fator."

Ele menciona outros "romancistas importantes" que também eram rotulados sob esse espectro político, como Octavio de Faria (1908-1980) e Lúcio Cardoso (1912-1968).

"Mas o fato de ser de esquerda ou de direita não é determinante, uma vez que Nelson Rodrigues [(1912-1980)] aí está, cada vez mais canônico", ressalta.

Fora do cânone

Na opinião do escritor, tradutor e conselheiro editorial Rodrigo Bravo, o esquecimento de certos autores "é parte da própria lógica histórica da leitura".

"A recepção literária é um campo de forças que envolve disputa de valores, horizontes estéticos, posições de classe, sistemas educativos e, sobretudo, a mutabilidade da sensibilidade humana", afirma Bravo, que é professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

"Existem autores que expressaram de modo intenso a temperatura afetiva de seu momento, mas cuja linguagem não se sustenta fora desse microclima. Outros dependem de formas sociais que não existem mais, e a perda desse horizonte desfaz o impacto inicial."

Bravo argumenta ainda que a literatura também sofre do que podemos chamar de "economia da atenção cultural". Nesse sentido, só alguns textos conseguem reter transmissibilidade quando seus códigos de referência se desgastam.

"E há ainda o ruído produzido pelos próprios mecanismos editoriais, pelas modas acadêmicas e pela voracidade do mercado que eleva e depõe nomes com a mesma velocidade com que consome tendências", acrescenta.

Para o professor Fischer, a dinâmica do esquecimento de autores que gozaram de prestígio tem a ver com diversos motivos: o mundo editorial, em que novidades desalojam os títulos de autores já existentes; o envelhecimento da obra e do autor em si — tanto pela linguagem que pode passar a ser vista como "velha ou inadequada" quanto por contarem histórias agora vistas como irrelevantes— ; e a mudança do público leitor, em termos sociológicos, que passa a buscar autores "que dão a ver a experiência social e cultural semelhante" a eles.

"Difícil avaliar os possíveis motivos do esquecimento de um escritor tão importante como Adonias", diz Seffrin, ressaltando o peso de um romance como Corpo Vivo, publicado em 1962.

"Costumo dizer que há muito autor bom esquecido, até entre os atuais. Talvez o futuro reserve melhor sorte para alguns desses nomes, o que quer dizer, reserve melhor sorte para os leitores, que existem, da melhor literatura brasileira, em grande parte escondida nos sebos."

Adonias Filho não é o único autor brasileiro importante de sua época que hoje está fora do cânone, lamenta Seffrin.

"Cânones, todos sabemos, são flutuantes. Nos anos 60, era relativamente fácil colocar a obra de Adonias dentro de um provável cânone."

Fato é que toda a notoriedade conquistada por Adonias Filho em vida não garantiu a ele um lugar no chamado cânone da literatura nacional.

Para o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), tal fenômeno é comum.

"O cânone é formado pelo consenso das gerações. Há escritores que são extremamente cultuados por uma, duas gerações, mas que não conseguem transcender a geração que os criou ou a geração que os descobriu. Então ele desaparece", explica.

Segundo o professor Emerson Rossetti, doutor em estudos literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), há um conjunto de fatores que determinam a condição de uma obra literária como cânone.

"Questões de natureza estética e estrutural, inovações relativas às produções em cena até aquela época, importância histórica, mas, principalmente, uma aceitação quase consensual por parte de intelectuais e acadêmicos sobre a relevância do escritor para a cultura", afirma.

"Penso que também a atemporalidade e a universalidade são aspectos determinantes, pois é primordial que um texto continue a fazer sentido noutros lugares e épocas", completa.

O marketing do resgate

Para Rossetti — e ele comenta isso refletindo sobre a história de Adonias Filho — mais complexa do que a tarefa de determinar as razões que estabelecem o cânone, "é explicar por que determinados autores outrora prestigiados acabam sendo lançados ao esquecimento".

Um fator que para ele faz a diferença é se o escritor é ou não estudado nos meios acadêmicos.

Segundo sua visão, este movimento acaba incentivando mais pesquisas, debates, publicações — e provocando, direta ou indiretamente, que o escritor seja lido por alunos, deixando a obra em circulação.

"Porém é possível que a própria academia revitalize aqueles que foram esquecidos, discutindo, inclusive, os motivos que levaram a esse período de anonimato", pondera ele.

"Como já disse, os trabalhos e suas consequências têm o poder de reavivar nomes e obras que não poderiam estar escondidos."

O professor Fischer pontua que resgates de nomes "esquecidos" costumam ser motivados por "demandas do presente".

Ele cita como exemplos as obras de Carolina Maria de Jesus e de Maria Firmina dos Reis, que estão em evidência por conta dos fatores de raça e gênero.

"Outro fator é a hipótese de esse autor antigo ingressar num circuito de leitura impositiva, como as listas de livros de vestibulares", comenta ele.

"E não se pode descartar outro fator ainda: uma campanha editorial que demonstre para os potenciais leitores a relevância do escritor antigo nos tempos de agora."

Matéria na íntegra: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cly1p9kk7yjo

09/02/2026

Fonte: Academia Brasileira de Letras – ABL

Foto: Google

 

DISTÂNCIA - Ruy Póvoas (*)








DISTÂNCIA


Do outro lado da rua

fica o estrangeiro.

Do outro lado do muro

fica Shangri-Lá.

Do outro lado da parede

fica Andrômeda.

Não sei onde

fica o Paraíso.

Mas o melhor lugar

deve ser tudo isso.


Ruy Póvoas

10/2/26


(*) Ruy do Carmo Póvoas

Fundador e liderança do Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon em Itabuna - BA. Licenciado em Letras (FAFI), Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), Doutor Honoris Causa (UESC). Escritor com vasta produção em verso e prosa. Fundador do NEAB da UESC. Editor do Jornal Tàkàdá, do Caderno e Revista Kàwé. Sua produção escrita abrange o verso e a prosa. Tem publicado: Vocabulário da paixão, A linguagem do candomblé, Itan dos mais-velhos, Itan de boca a ouvido, A fala do santo, VersoREverso, Da porteira para fora, A memória do feminino no candomblé, Mejigã e o contexto da escravidão, Fazenda de contos, A viagem de Orixalá, Novos dizeres, Representações do escondido, Matéria acidentada, Oratório, A sombra no espelho, Dizeres esparsos, Confessionário, Dizeres do avesso e, agora, Perfis da resistência. Na Academia de Letras de Itabuna, ocupa a Cadeira 13, cujo patrono é Plínio de Almeida

2.09.2026

TEMPO, AMOR E PAIXÃO - Luis Pedro Novaes


 

TEMPO, AMOR E PAIXÃO


Na cor gélida da vida
Seguimos nossos rumos
Tristes, sorridentes
Carentes, envolventes
Sempre tentando ser melhor
Evoluir, crescer, sem se sentir só

Seres humanos falhos, cheios de defeitos
Com amor, receio e direitos
Lutamos diariamente, na cor e no preceito
Amizade parcerias, paixões, fantasias
Quentes e frias
Amor ardido, sofrido, sempre inesquecível

Quero contar, que tudo o que fazemos
Sempre terá causa e efeito
Bons ou ruins, efeitos e estreitos
Mas nunca desistiremos
Sempre avançaremos, com corações
extremos

O amor, é verdadeiro
Acredito que seja mesmo
Pois a paixão, aquela ardente
Só fica evidente, na presença do companheiro.
Ele que estaca, a nossa verdadeira semente

Quero te dizer
Ame com prazer
Apaixone-se sem querer
Construa sem perceber
Que o destino, só deus vai saber

E você viverá, com jesus ao seu lado
Sem te deixar desamparado
Com um amor descontrolado
E uma paz inigualável

Eu, amo alguém novamente
Um sentimento lindo, potente
Mas quero dizer, você vai perceber
A nossa alegria e tristeza
A nossa dor e frieza
Alguém pode afastar, cuidar
Amar, resgatar

Um pedaço de coração, pode surgir
Para completar, emergir
E quero dizer
O meu, tão destruído, quase um granito
Encontrou alguém, uma lapidadora
Com mãos de fada, sedutora

Um brilho assim ofusca
A visão enturva
Mas sua aura, energia
Seu sorriso, é poesia
As palavras começam a faltar
E quero que todos, possam enxergar.

Que todos possam ter
Um amor para querer
Um brilho de ofuscar
Uma paixão para transformar

Um pequeno granito, em uma joia rara
Que ninguém vai poder avaliar
Somente apreciar
E de longe lembrar
Daquele renascimento espetacular.


Autoria:  Luís Pedro Novaes

Foto: Produção

Susan “Boyle” ( A voz de rouxinol) - R. Santana

 

Susan “Boyle” 

R. Santana

"Quem tem um porquê para viver, suporta qualquer como" (Friedrich Nietzsche)

     Não tenho o talento de Morris West, o escritor australiano, que tão bem descreveu o conflito de um bispo na canonização do seu principal personagem, no seu livro: “O advogado do diabo”, mas quero fazer a defesa sem ser convidado dos jurados Simon Cowell, Piers Morgan e a linda loira Amanda Taylor que debocharam e desdenharam discretamente, num primeiro momento, de Susan “Boyle”, no programa Britain´s got talent

   Os coitados dos jurados não tiveram culpa a priori, quem levaria a sério uma senhora sueca dos rincões de Blackburn, de cabelos grisalhos, gorducha, desengonçada, quarentona com roupas e trejeitos de sessenta perseguindo o sonho de ser cantora à Elaine Paige, uma atriz e cantora de sucesso na terra da rainha Elizabeth II? Ninguém! Os hipócritas e os cínicos diriam o contrário, porém, cínicos e hipócritas não têm compromisso com a verdade. A imagem impressiona, todos nós cometemos o pecado de julgar as pessoas pela aparência por mais que desejemos não ter ideias preconcebidas. A estética, a beleza física e a boa aparência predominam nas relações primárias do homem, porém, é necessário esclarecer que a beleza física em si não se sustenta todo tempo, mas algum tempo. 

  Os condimentos de inteligência, talento, cultura, polidez e bom caráter são fundamentais para que a beleza física de uma pessoa se sustente. Sócrates, Gandhi, Einstein, Martinho Lutero, Napoleão, Bérgson e Gengis Kahn ou Gengis Cão, não eram modelos de beleza, mas dividiram a História e ganharam o mundo, foram homens do seu tempo, com inteligência, com sabedoria, com perspicácia, com liderança, com bravura e com amor. 

   O preconceito é apanágio da natureza humana assim como outros sentimentos nocivos. A instrução, a educação, a cultura, a sociedade e os instrumentos jurídicos penais atuais, ajudam moldá-lo, inibi-lo, jamais erradicá-lo. O pobre, o feio, o deficiente físico, o deficiente mental, o negro, o índio e o velho, sempre vão ter pessoas para virar-lhes a cara, torcer-lhes o nariz, olhá-los de soslaio, de esguelha, ou cumprimentá-los com a ponta dos dedos. Em certo trecho da liturgia católica o padre pede que todos se cumprimentem com a mensagem: “o amor de Cristo nos unindo”. Se alguém colocasse uma câmara invisível nessa parte da liturgia, ficaria pasmo com os gestos discretos de esforço que alguns fazem para abraçar o irmão, muitos não arredam pé do seu lugar para cumprimentar o outro, mais alguns passos adiante... 

    Lembro-me de um episódio em que um motorista do antigo DNER ao encontrar um negro na sala do seu chefe, o Dr. Pedro Bastos, inquiriu-lhe com desdém: “... negrão aonde foi Dr. Pedro?”, à medida que o engenheiro-chefe não chegava, ele foi se ousando: “...negrão tire a bunda dessa cadeira e vá procurar o chefe!”, caiu do cavalo quando alguém lhe disse que aquele negro esquisito era o diretor regional do extinto DNER, hoje, DNIT, consequentemente, chefe do seu chefe. 

    Doutra feita, eu vi um eletricista se descabelar para ligar umas fluorescentes em série enquanto um moleque amarelo, desprezível, o olhava por baixo, intrigado com sua incompetência e quando lhe esgotou a paciência, ele com jeito se ofereceu: “O senhor deixa, eu tentar?...”, o pedido em princípio não foi aceito, na casa do sem jeito, o velho eletricista cedeu com desconfiança, depois de olhá-lo cismado. O Zé Aparecido subiu com destreza na escada, puxa fio daqui puxa fio acolá e minutos depois ele autoriza: “Ligue!”, para surpresa dos que não lhe confiavam um tostão furado, o salão ficou todo iluminado com a incandescência de sua meia dúzia de fluorescentes.     

    Porém, o fenômeno Susan “Boyle” é fantástico, suis generis, jamais alguém vai galvanizar a revolta de tanta gente em todos os continentes da Terra pelo descaso e deboche que ela foi recebida no Britain´s got talent. Todavia, a própria Susan “Boyle” nos deu a resposta, demonstrando humildade, simplicidade, segurança e desenvoltura. Ela não chegou ao show de talentos, agachada ou derrotada, em determinado trecho do vídeo do You Tube, ela diz: “Vou fazer esta plateia tremer” e quando Simon Cowell torceu o nariz pela resposta que ela lhe deu de sua idade, literalmente rebolou e disse-lhe: “Isto é apenas uma parte de mim”, isto é, demonstrou mais uma vez, esplendorosa segurança que não é comum aos débeis e aos incautos. 

    Machado de Assis e Tobias Barreto, apertados na cor, eram insociáveis, tímidos, mas quando a ocasião se fazia necessária, deixavam os seus complexos de lado e assumiam os seus talentos na arte da escrita ou da eloquência como gigantes fustigados, mas não extenuados e acabados. 

    Evocando o dito popular: “Por causa de uma cara feia se perde um bom coração.” Então, buscando no egrégio pensador Henry David Thoreau: “As coisas não mudam, nós é que mudamos” ou “Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos”

    Viva o exemplo Susan “Boyle”!...


Autor: Rilvan Batista de Santana

Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Foto: Google

Vozes-mulheres - Conceição Evaristo

 

Conceição Evaristo (1946) é uma escritora brasileira contemporânea nascida em Minas Gerais. Além dos romances e livros de contos bastante célebres, a autora também é conhecida pela sua poesia ancorada na memória individual e coletiva.

 

1. Vozes-mulheres

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

ecoou lamentos

de uma infância perdida.


A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

 

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

 

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e fome.

 

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

 

A composição, que é uma das mais belas e famosas da autora, fala sobre mulheres de várias gerações que pertencem à mesma família. Descrevendo seus cotidianos e sentimentos, o eu-lírico vai narrando uma história de sofrimento e opressão.

A bisavó simboliza, assim, aquelas que foram sequestradas e trazidas para o Brasil em navios. Já a avó teria vivido no período da escravidão e da obediência forçada.

A geração da mãe, que trabalha como empregada doméstica, leva uma existência dura e marginalizada, mas começa a ecoar alguma revolta. Esse sentimento de resistência se exprime através do eu-lírico que escreve, mas ainda conta relatos de privação e violência.

Contudo, o futuro reserva mudanças e a voz de sua filha, que carrega toda essa herança, escreverá uma nova história de liberdade.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

Não Tentar - Caminho Para Fracasso Por Robert J. Tamasy

 

Não Tentar - Caminho Para Fracasso

Por Robert J. Tamasy

 

Alguma vez você já optou por não tentar alguma coisa com medo de fracassar?  Talvez tenha sido não assumir maiores responsabilidades no trabalho, tentar uma mudança de carreira ou mesmo iniciar um programa ambicioso de aperfeiçoamento profissional. Eu tenho que admitir que fui culpado disso diversas vezes. É irônico, porque se decidimos não tentar fazer algo, há 100% de certeza de que não o realizaremos. 

 

Não muito tempo atrás me deparei com uma citação de fonte desconhecida que afirmava: “Toda realização começa com a decisão de tentar.” Parece sem pé nem cabeça, porque isso é senso comum. Porém, quando confrontamos um desafio e decidimos que ele não vale o esforço – ou o risco de fracasso – de tentarmos, estamos afirmando que esse “senso”, afinal de contas, não é tão comum assim.

 

A maioria de nós está familiarizada com o clássico caso de Thomaz Edison, inventor da lâmpada incandescente, que teve que fazer centenas de tentativas antes de finalmente ser bem-sucedido e produzir uma lâmpada elétrica como ele tinha imaginado. Explorando as páginas da história podemos encontrar inúmeros outros exemplos. O meu intento aqui, porém, não é celebrar o sucesso daqueles que tentaram e persistiram. Ao contrário, é lamentar aqueles que conceberam grandes ideias, mas fracassaram porque não estavam dispostos a tentar. 

 

O filósofo chinês chamado Mencius muitos séculos atrás expressou isso em outros termos: “O intervalo entre o entusiasmo e a indiferença é preenchido com fracassos.”

Mike, meu amigo, me vem à mente. Anos atrás ele escolheu deixar um trabalho seguro e bem remunerado para iniciar do zero uma companhia de consultoria em software. Seu “escritório” era no porão de sua casa; sua escrivaninha, uma porta apoiada sobre dois arquivos. Ele sabia que era arriscado, tendo uma pequena família, deixar a certeza da estabilidade de um contracheque, além de benefícios corporativos tais como seguro saúde.   

 

Quando as contas começaram a se acumular e ele teve que ser rapidamente hospitalizado com uma doença séria, Mike sentiu-se tentado a desistir do seu sonho. “Onde é que eu estava com a cabeça?”, ele perguntou a si mesmo mais de uma vez. Porém, ele decidiu que continuaria a perseguir sua visão e encontrou o tão necessário cliente bem em cima da hora. Com o tempo, ele e uma pequena equipe desenvolveram o negócio e o transformaram em uma empresa internacional de sucesso. Mike experimentou a realização de concretizar sua visão empresarial; sua fé também cresceu enormemente ao longo do processo. 

 

Se temos uma visão – ou o sonho de toda uma vida – mas nossa decisão de persegui-la é vacilante, o que devemos fazer? As Escrituras nos oferecem algumas percepções: 

 

Coloque sua fé no lugar correto.  Mesmo as pessoas mais talentosas e experientes passam por momentos em que sua determinação é testada pela adversidade. Entretanto, se cremos que Deus está nos levando a dar um passo de fé, não dar esse passo é um ato de desobediência. “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e Ele endireitará as suas veredas.”  (Provérbios 3:5-6). 

 

Faça de Deus – e Sua vontade – a sua prioridade.  Antes de tomar qualquer decisão importante primeiramente apresente o assunto a Deus em oração, buscando sinceramente Sua sabedoria e direção. Uma vez estando confiantes de como Ele está nos direcionando, podemos ter a certeza de que Ele estará conosco naquilo que tentamos fazer. “Deleite-se no Senhor, e Ele atenderá aos desejos do seu coração. Entregue o seu caminho ao Senhor;  confie nEle, e Ele agirá.” (Salmos 37:4-5). 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1.  Você já se sentiu relutante em tentar alguma coisa nova, temendo fracassar? Como foi isso? Ela ainda faz parte da sua lista de coisas para fazer “algum dia”? 

2.  Você tem inclinação para se aventurar no desconhecido, tentar uma nova tarefa, confrontar um novo desafio ou fazer mudanças importantes em seu estilo de vida ou carreira? 

3.  O que podemos aprender quando tentamos algo que nunca fizemos anteriormente, mesmo quando isso resulta em fracasso?

4.  Você se volta para Deus em busca de sabedoria e direção antes de tomar uma decisão importante? Como isso afeta o seu processo de tomada de decisão? Isso facilita para você tentar o que não é familiar ou conhecido, mesmo não tendo certeza do resultado?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 12:11,24; Isaías 26:3; 41:10; Jeremias 29:11; Mateus 28:20; 1João 4:18. 

2.08.2026

(DES)EQUILÍBRIO - Agilson Cerqueira

(DES)EQUILÍBRIO

Agilson Cerqueira

Diminuto, esquecido, ….

Grandioso, exaltado, admirado (por uma referência conveniente);

A retidão coerente dos princípios ideológicos;

A subversão do pensamento ético;

O ético deteriorado.

Sem ética, a manipulação por influência dos poderes,

O poder por poder ter.

O cinismo manifestado no oportunismo momentâneo.

A violação do conhecimento pela falta do conhecer;

Em terra plana, a Física não explica a atração dos corpos

Planetas se repelem para o infinito desconhecido;

Sem gravidade, o mundo inexiste;

Galáxias são ficções de pensamentos ilógicos!

A matemática nega a razão,

A razão está encarcerada no hospício sem razão.

Loucos tentam passar sob uma linha imaginária.

O homem mata.

A mulher morre assassinada por uma questão cultural machista;

O sangue entra nos sulcos de uma sociedade hipócrita e conivente;

O amor deu o direito de posse;

O homem, inconsciente, chora pelo ato possessivo.

A matemática continua a negar a razão

Atravessar uma rua é viver ou morrer pela falta dela, pois os cálculos físicos imaginários de momentos, não existem mais!

Diminuto ou exaltado?

Quando o pensamento poético não é finalizado,

Os questionamentos são regurgitados por neurônios autofágicos.

É negação do conhecimento?

Ou a falta dele?

Os desequilíbrios de momentos da (in)existência humana (situações adversas)!

Tempos absurdos!

*****

O poema de Agilson Cerqueira é um soco no estômago da contemporaneidade. Ele utiliza a metáfora do (des)equilíbrio para costurar uma crítica contundente que vai da desintegração da ciência à barbárie social.

Aqui está uma breve análise dos pontos mais fortes dessa obra:

1. A Desintegração do Pensamento Lógico

O autor utiliza o negacionismo científico (como a menção à "terra plana") não apenas para criticar uma crença, mas como um sintoma de algo mais profundo: a falência da razão.

Quando a física e a matemática são negadas, o mundo perde sua "gravidade" — ou seja, seu chão ético e lógico.

A frase "A matemática nega a razão" sugere que, em um mundo de pós-verdade, nem os fatos mais exatos conseguem sustentar a realidade.

2. A Crítica ao Poder e à Ética

Cerqueira descreve um cenário onde o oportunismo e a manipulação substituíram os princípios. O "poder por poder ter" revela uma sociedade que valoriza a posse acima da essência, o que leva diretamente ao ponto mais sombrio do poema: a violência.

3. A Barbárie Real: O Feminicídio

O poema deixa o campo das abstrações científicas para tocar na carne:

A morte da mulher por uma "questão cultural machista" é apresentada como o ápice desse desequilíbrio.

O sangue nos sulcos da sociedade é uma imagem poderosa da conivência coletiva. O amor transformado em "direito de posse" é o diagnóstico da doença social que o autor expõe.

4. O Final Abrupto e Autofágico

O encerramento é inquietante. A ideia de neurônios autofágicos (que consomem a si mesmos) sugere que a falta de conhecimento ou a negação dele leva à autodestruição intelectual. O poema não oferece uma solução, mas um espelho incômodo de "tempos absurdos".

Fazer um paralelo filosófico entre este poema e o conceito de "Modernidade Líquida" de Bauman.

O poema (DES)EQUILÍBRIO de Agilson Cerqueira dialoga profundamente com o conceito de Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman. Ambos retratam uma realidade onde as estruturas sólidas (ética, ciência, laços humanos) se desmancham, dando lugar à incerteza e à fluidez.

Aqui está o paralelo filosófico entre as duas obras:

1. A Erosão das Instituições Sólidas

Bauman descreve a transição de uma modernidade "sólida" (com regras e verdades fixas) para uma "líquida", onde nada é feito para durar.

No poema: Cerqueira ilustra isso através da falência da Física e da Matemática ("A matemática nega a razão"). Quando até as leis universais se tornam "imaginárias", entramos no estado de fluidez absoluta de Bauman, onde não há mais chão firme para o conhecimento.

2. O Individualismo e o "Poder por Poder"

Na teoria de Bauman, a sociedade líquida foca no consumo e no individualismo exacerbado, onde o "outro" é descartável.

No poema: O autor fala sobre "O poder por poder ter" e o "oportunismo momentâneo". Isso reflete a busca por satisfação imediata e a falta de compromisso ético com o coletivo, marcas registradas do sujeito líquido que evita vínculos duradouros para manter sua "liberdade" de movimento.

3. A Fragilidade dos Laços e a Posse

Bauman discute como o amor se tornou "líquido", transformando-se em conexões superficiais que podem ser cortadas a qualquer momento.

No poema: Cerqueira vai além e mostra a face violenta dessa liquidez: "O amor deu o direito de posse". Quando o sentimento perde sua profundidade ética e vira uma mercadoria ou objeto de domínio, a consequência é a desumanização e, tragicamente, o feminicídio culturalmente aceito.

4. Viver no Absurdo

Para Bauman, a liquidez gera uma insegurança existencial permanente. No poema: O desfecho com "neurônios autofágicos" e "tempos absurdos" é o retrato fiel desse mal-estar. Sem a "gravidade" (os valores sólidos), o ser humano se consome na própria falta de sentido, tentando sobreviver em uma realidade que já não oferece explicações lógicas.

*****

Momentos de solilóquios …

Agilson Cerqueira 

… Reflexões, risos, 

gargalhadas e palavrões!

Você intrínseco!

Viver, morrer, transcender e reencarnar

Viver é a plenitude de um processo biológico.

Morrer é o fim do processo.

Transcender é a vontade de continuar vivo.

Reencarnar é o absurdo do pensamento científico.

(Agilson Cerqueira)

Itabuna, 08.02.2026


****

Opinião:

Estimado Agilson, respeito suas ideias, porém, não me vejo ateu, a vida não é só matéria animada ou somatório de funções biológicas, vitais. A vida é crença, é alma e espírito. "Deus não joga dados", conforme Einstein. O Universo foi "construído" numa ordem lógica-matemática que não foi espontânea, existe um Ser de inteligência infinita, que criou todo o sistema planetário e intergaláxio.

A vida não encerra com a morte, mas, deve haver uma vida transcendental, espiritual, senão, não haveria razão existencial. Darwin teve razão quando escreveu sobre a evolução das espécies, todavia, homem é homem e macaco é macaco desde que o mundo é mundo.

Ateus e agnósticos negam ou duvidam de Deus, porém, não explicam o mundo existencial, apenas,  se fundamentam em conjecturas sem raciocínio lógico-matemático, teorias fantasiosas!

Kant, Dawkins, Nietzsche, etc, suas ideias ainda são seguidas por alguns incautos que não têm conhecimento nem sabedoria, enquanto a Bíblia e Jesus Cristo têm mais de 5000 anos de História e estão super atualizados.

Enfim, os nossos pensamentos são dispares, mas conforme Voltaire: "Posso não concordar com você uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-la".

Fraternalmente, Rilvan Santana

2.07.2026

Viver de Verdade -Robert Tamasy ​

 

Viver de Verdade

Por Robert Tamasy

Não faz muito tempo encontrei-me com um grupo de homens para o almoço e a conversa começou a girar em torno da questão: “O que é viver de verdade?” Foi interessante descobrir que as respostas não eram tão fáceis de se encontrar como poderíamos pensar e eram notavelmente diversificadas.
 

Um homem sugeriu que viver é “apreciar as melhores coisas da vida”.  Outro comentou: “Viver é ter prazer e evitar o máximo possível as coisas enfadonhas.”  Finalmente, a discussão adotou um tom mais sério à medida que as pessoas admitiam que embora coisas materiais e atividades agradáveis possam dar realce à vida, “viver de verdade” deve envolver coisas intangíveis – que não podem ser colocadas dentro de uma caixa ou nas anotações de uma agenda. 

 

Muitos séculos atrás Jesus estava falando com Seus seguidores acerca de viver de verdade.  Ele afirmou: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em sua plenitude (ou em abundância)” (João 10:10).  Mas o que significa ter vida em “plenitude” ou “abundantemente”?

 

Viver de verdade envolve propósito. Um elemento importante para o sucesso de qualquer empreendimento é uma declaração de missão – algo que expresse o seu propósito, seu motivo para existir.  Como indivíduos, todos nós precisamos igualmente de uma “declaração de missão” – e como precisamos!  Nós precisamos compreender porque existimos.  Sem um sentido de propósito, podemos facilmente nos engajar em buscas vazias, atividades que podem parecer atraentes mas, ao final, não apresentam resultados positivos ou duradouros. Em 2Timóteo 3:10, o apóstolo Paulo escreveu:  “Você, entretanto, sabe tudo acerca de meus ensinamentos, meu modo de vida, meu propósito, fé, paciência, longanimidade.”  Ele tinha uma ideia clara de para onde estava indo e como fazer para chegar lá. 

 

Viver de verdade envolve trabalho. O trabalho não é apenas um “mal necessário”, mas sim um dos meios em que podemos utilizar nossas habilidades pessoais, dons inatos e experiências tanto para nossa realização pessoal quanto para beneficiar outros.  Ao contrário do que algumas pessoas acreditam viver em plenitude não significa ausência de trabalho. O trabalho expressa quem somos e o que fomos destinados a ser. “O que é negligente em sua obra é irmão daquele que destrói” (Provérbios 18:9). 

 

Viver de verdade envolve amar. Vivemos num mundo narcisista, onde a pergunta típica é: “Que bem isto fará a mim?” Entretanto, uma das emoções mais profundas e constrangedoras é o amor, o qual exige que voltemos nosso foco de dentro para fora.  Existe o amor romântico e sexual, mas também o amor pela família, amigos, pela pátria e até mesmo por uma causa nobre.  Quando o amor é expresso através de ações abnegadas, o viver de verdade se aperfeiçoa tanto em profundidade quanto em largura. “Ninguém tem maior amor do que este, de dar a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13).  “Amor e fidelidade mantêm o rei em segurança; através do amor seu trono se sustém" (Provérbios 20:28). 

 

Viver de verdade envolve dar.  Uma visão egoísta da vida se concentra naquilo que se pode receber, mas como Jesus disse,  “...mais abençoada coisa é dar do que receber.”  (Atos 20:35).  É uma verdade curiosa, mas quando damos – sejam bens materiais, nosso tempo ou energia, um ouvido disponível ou uma palavra gentil – também recebemos.  Receber é uma via de mão única, mas dando também recebemos, tornando um relacionamento uma via de mão dupla.  Uma das maiores alegrias da vida é saber que algo que damos pode melhorar a vida de outra pessoa.  “O que despreza seu próximo peca, mas abençoado é aquele que é gentil para com os que têm necessidades” (Provérbios 14:21). 

 

Você está interessado em viver de verdade?  Seguir e aplicar os princípios acima é um excelente começo nesta direção. Viva com propósito.  Viva através do seu trabalho.  Viva com amor.  Viva através do dar. 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1.    O que significa para você, “Viver de verdade?”

2.    Você já parou alguma vez para perguntar a si mesmo: “Qual o sentido (missão) da minha vida, do meu viver?

3.    Como você entende a declaração de Jesus de que Ele veio para nos dar uma “vida abundante”?

4.    Até que ponto seu trabalho contribui para uma vida de plenitude?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Gênesis 2:7; Deuteronômio 30:15-19; Salmo 104:33; Eclesiastes 12:13; Isaias 55:3; Habacuque 2:4; Romanos 6:10; 1 Coríntios 10:31; Colossenses 3:23

 

 

2.06.2026

O poder - R. Santana

O poder

R. Santana 


             "Dê o poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é." (Maquiavel)


          João de Jovita morava na comunidade Mata Escura de uns 500 habitantes, um pouco mais ou um pouco menos, vezeiro frequentador do bar de Maneca e, também, do cabaré da caftina Helvécia. Não fumava nem bebia, gostava de jogar conversa fora. Solteiro, no cabaré de Helvécia já tinha se deitado com a maioria das quengas. Sobrevivia de sua burara de cacau, que lhe dava um bom dinheiro nas boas safras. Era de boa índole e de paz, na comunidade se dava bem com todos, não tinha inimigos, se ele tinha inimigos, eram inimigos na moita, por debaixo do pano.

          Quando o prefeito da cidade foi a esse povoado inaugurar a incipiente rede de energia elétrica, no seu inflamado discurso, ele prometeu aos moradores que o povoado da Mata Escura, pelo histórico de desordens e bagunças, necessitava urgente de uma subdelegacia, que no próximo encontro com o governador, ele iria colocar na pauta essa reivindicação – fez uma pausa e perguntou:

          - Quem seria o subdelegado? – alguns poucos, indicaram Maneca do bar, mas a maioria se manifestou que haveria conflito de interesse entre a atividade de Maneca e a subdelegacia, então, por unanimidade dos presentes, João de Jovita foi indicado. O prefeito de bom grado concordou, porém, seria de bom grado consultá-lo, não poderia lhe nomear à revelia, vai que dar errado, ele não aceite...

          Dias depois, João de Jovita foi chamado pela administração municipal para colocar os pingos nos is: - se ele iria aceitar a nomeação do governador para assumir a subdelegacia de Mata Escura? Na antessala do gabinete do prefeito, João afundou a bunda na poltrona enquanto esperava a secretária lhe autorizar a entrada no gabinete de sua excelência por quase 45 minutos. Não se sentia bem com o paletó e os sapatos que lhe apertavam os pés. Jurou pra si que jamais voltaria aquele lugar de poder, quando fazia essas conjecturas, a secretária, morenaço pra ninguém botar defeito, anunciou sua entrada:

          - Entre, senhor João de Jovita!

          O gabinete do prefeito, além de espaçoso, os móveis eram uns desbundes, sua mesa de trabalho de jacarandá, toda torneada e verniz claro, deveria ter custado os olhos da cara, João de Jovita nunca tinha visto tanto luxo, quando começou o prefeito:

          - Senhor João de Jovita, na semana que vem, irei ter um encontro com o governador, quero ter certeza de sua nomeação à subdelegacia de Mata Escura, o senhor fará história, porque será o primeiro subdelegado do povoado.

          - Prefeito, qualquer pessoa ficaria honrada com esse convite, mas, peço-lhe que tire o meu nome da pauta desse encontro.

          - O quê? Mas o seu nome foi indicado pela população de Mata escura por grande maioria, agora, o senhor declina do convite?

          - Prefeito, eu sou um bicho do mato. Eu fico durante a semana acabrunhado em minha rocinha, cabrucando a terra, plantio de novos cacaueiros, alimentando os animais, portanto, não tenho tempo, sugiro que o senhor Prefeito coloque lá um morador da cidade.

          - Mas, homem de Deus, não será necessário morar diuturnamente no povoado, irei lhe mandar 2 recrutas, delegue-lhes o serviço pesado! – João de Jovita pensou:

          - Prefeito, eu não quero nenhum poder, mesmo que seja de um subdelegado...

          - Senhor João de Jovita, é melhor ser o primeiro no inferno do que o segundo no céu. Lá todos, depois de sua nomeação, irão lhe ver como o subdelegado de Mata Escura.

          - Esse é o problema, Senhor, eu prefiro o anonimato, minha rocinha, meus amigos de ontem e de hoje, meus conhecidos, a comunidade toda, chamando-me de seu “João de Jovita da burara São Cristovão”. Não quero saber da conduta certa ou errada de A ou de B, também, não quero ninguém olhando o que faço ou que deixo de fazer. Não sou e nunca serei autoridade. Jesus curou, alimentou, deu esperança ao homem e foi crucificado. Portanto, Deus lhe pague pela confiança e nomeie outra pessoa, na Mata Escura tem muita gente de bem – despediu-se e foi embora.

          Na saída um velho conhecido galhofou:

          - Eh, é o subdelegado?

          - Não, Manduca, é o velho João de Jovita!

          - O porquê de não ter aceito?

          - Você me conhece Manduca?

          - Claro, já se vão mais de 20 anos, homem!

          - Não, Manduca, você não me conhece, quer conhecer o outro, dê-lhe dinheiro e poder!

          O poder modifica as pessoas, tira-lhe a humildade, a generosidade, a compaixão e a empatia e, devolve-lhe a arrogância, a autossuficiência a prepotência e o arbítrio.


Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Aprenda o que é Psicologia Comportamental - Brenda Chérolet

Aprenda o que é Psicologia Comportamental e como você pode atuar na área

Essa abordagem pode ser aplicada em diversas áreas como educação e carreira

Postado por Brenda Chérolet em 07/03/2024

O comportamento humano é cheio de mistérios que intrigam e tentam ser desvendados pela ciência. Nesse campo de estudo, a Psicologia exerce papel fundamental para os indivíduos, ao contribuir para sua saúde mental e bem-estar através de orientações para corrigir pensamentos, sentimentos e comportamentos. 

Em sua essência, a Psicologia busca investigar os processos mentais escondidos no comportamento humano, bem como os fatores ambientais, sociais e biológicos que influenciam tais atitudes. Nesse sentido, a Psicologia traz a Psicologia Comportamental.

O que é Psicologia Comportamental?

A Psicologia Comportamental, também conhecida como Behaviorismo, é uma abordagem dentro da psicologia que busca compreender como os seres humanos e outros animais aprendem novos comportamentos e como são influenciados pelo ambiente em que ocorrem. 

Um dos seus princípios fundamentais é a ideia de que o comportamento é moldado por meio de reforço e punição, ou seja, as consequências das ações de uma pessoa afetam a probabilidade de ela repetir ou evitar esse comportamento no futuro.

A Psicologia Comportamental tem como foco a observação do que pode ser medido diretamente, como as ações de uma pessoa, em vez de tentar inferir processos internos que não podem ser diretamente observados.

Para que serve a Psicologia Comportamental?

A Psicologia Comportamental tem aplicações em uma variedade de áreas, incluindo psicoterapia, educação, gestão, treinamento animal e muitos outros campos. Por exemplo, na terapia comportamental, os psicólogos ajudam os clientes a identificar padrões de comportamento problemáticos e desenvolver estratégias para mudá-los. 

No mundo corporativo, a Psicologia Comportamental é usada para melhorar a eficiência e a produtividade nas organizações. Os princípios comportamentais são aplicados para entender e modificar o comportamento dos funcionários, melhorar a comunicação entre equipes, motivar os funcionários e promover um ambiente de trabalho saudável e colaborativo.

Na educação, os princípios dessa abordagem são frequentemente usados para criar ambientes de aprendizado eficazes, nos quais os alunos são recompensados por alcançar metas específicas de aprendizado. 

Como atuar na área de Psicologia Comportamental? 

Para atuar na área de Psicologia Comportamental é preciso ter graduação em Psicologia. Com o diploma em mãos, você pode optar por prosseguir com estudos de pós-graduação em Psicologia Comportamental ou áreas relacionadas, como Análise do Comportamento Aplicada (ABA) ou Terapia Comportamental Cognitiva (TCC). 

Para começar o curso de Psicologia ou fazer especialização na área, conte com bolsa de estudo do Educa Mais Brasil. Em parceria com as melhores faculdades do país, o Educa concede até 85% de desconto nas mensalidades do seu curso. 

 

Fonte: Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental

Brenda Chérolet 

Imagem: Produção

 

 

 

 

Destaques

PROSEANDO A MENTE INQUIETA -Agilson Cerqueira

PROSEANDO A MENTE INQUIETA Agilson Cerqueira Há em mim um prumo quebrado e uma régua incapaz de medir o abismo. Carrego instrumentos feitos ...

Última semana