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2.06.2026

O poder - R. Santana

O poder

R. Santana 


             "Dê o poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é." (Maquiavel)


          João de Jovita morava na comunidade Mata Escura de uns 500 habitantes, um pouco mais ou um pouco menos, vezeiro frequentador do bar de Maneca e, também, do cabaré da caftina Helvécia. Não fumava nem bebia, gostava de jogar conversa fora. Solteiro, no cabaré de Helvécia já tinha se deitado com a maioria das quengas. Sobrevivia de sua burara de cacau, que lhe dava um bom dinheiro nas boas safras. Era de boa índole e de paz, na comunidade se dava bem com todos, não tinha inimigos, se ele tinha inimigos, eram inimigos na moita, por debaixo do pano.

          Quando o prefeito da cidade foi a esse povoado inaugurar a incipiente rede de energia elétrica, no seu inflamado discurso, ele prometeu aos moradores que o povoado da Mata Escura, pelo histórico de desordens e bagunças, necessitava urgente de uma subdelegacia, que no próximo encontro com o governador, ele iria colocar na pauta essa reivindicação – fez uma pausa e perguntou:

          - Quem seria o subdelegado? – alguns poucos, indicaram Maneca do bar, mas a maioria se manifestou que haveria conflito de interesse entre a atividade de Maneca e a subdelegacia, então, por unanimidade dos presentes, João de Jovita foi indicado. O prefeito de bom grado concordou, porém, seria de bom grado consultá-lo, não poderia lhe nomear à revelia, vai que dar errado, ele não aceite...

          Dias depois, João de Jovita foi chamado pela administração municipal para colocar os pingos nos is: - se ele iria aceitar a nomeação do governador para assumir a subdelegacia de Mata Escura? Na antessala do gabinete do prefeito, João afundou a bunda na poltrona enquanto esperava a secretária lhe autorizar a entrada no gabinete de sua excelência por quase 45 minutos. Não se sentia bem com o paletó e os sapatos que lhe apertavam os pés. Jurou pra si que jamais voltaria aquele lugar de poder, quando fazia essas conjecturas, a secretária, morenaço pra ninguém botar defeito, anunciou sua entrada:

          - Entre, senhor João de Jovita!

          O gabinete do prefeito, além de espaçoso, os móveis eram uns desbundes, sua mesa de trabalho de jacarandá, toda torneada e verniz claro, deveria ter custado os olhos da cara, João de Jovita nunca tinha visto tanto luxo, quando começou o prefeito:

          - Senhor João de Jovita, na semana que vem, irei ter um encontro com o governador, quero ter certeza de sua nomeação à subdelegacia de Mata Escura, o senhor fará história, porque será o primeiro subdelegado do povoado.

          - Prefeito, qualquer pessoa ficaria honrada com esse convite, mas, peço-lhe que tire o meu nome da pauta desse encontro.

          - O quê? Mas o seu nome foi indicado pela população de Mata escura por grande maioria, agora, o senhor declina do convite?

          - Prefeito, eu sou um bicho do mato. Eu fico durante a semana acabrunhado em minha rocinha, cabrucando a terra, plantio de novos cacaueiros, alimentando os animais, portanto, não tenho tempo, sugiro que o senhor Prefeito coloque lá um morador da cidade.

          - Mas, homem de Deus, não será necessário morar diuturnamente no povoado, irei lhe mandar 2 recrutas, delegue-lhes o serviço pesado! – João de Jovita pensou:

          - Prefeito, eu não quero nenhum poder, mesmo que seja de um subdelegado...

          - Senhor João de Jovita, é melhor ser o primeiro no inferno do que o segundo no céu. Lá todos, depois de sua nomeação, irão lhe ver como o subdelegado de Mata Escura.

          - Esse é o problema, Senhor, eu prefiro o anonimato, minha rocinha, meus amigos de ontem e de hoje, meus conhecidos, a comunidade toda, chamando-me de seu “João de Jovita da burara São Cristovão”. Não quero saber da conduta certa ou errada de A ou de B, também, não quero ninguém olhando o que faço ou que deixo de fazer. Não sou e nunca serei autoridade. Jesus curou, alimentou, deu esperança ao homem e foi crucificado. Portanto, Deus lhe pague pela confiança e nomeie outra pessoa, na Mata Escura tem muita gente de bem – despediu-se e foi embora.

          Na saída um velho conhecido galhofou:

          - Eh, é o subdelegado?

          - Não, Manduca, é o velho João de Jovita!

          - O porquê de não ter aceito?

          - Você me conhece Manduca?

          - Claro, já se vão mais de 20 anos, homem!

          - Não, Manduca, você não me conhece, quer conhecer o outro, dê-lhe dinheiro e poder!

          O poder modifica as pessoas, tira-lhe a humildade, a generosidade, a compaixão e a empatia e, devolve-lhe a arrogância, a autossuficiência a prepotência e o arbítrio.


Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

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