ABL na mídia - BBC - Quem foi Adonias Filho, o esquecido 'Dostoiévski brasileiro'
O jornalista, crítico literário e escritor Adonias Filho (1915-1990)
teve uma carreira notória em seu tempo — mas seu nome não parece ter
sobrevivido a ponto de merecer espaço no cânone da literatura brasileira.
Em vida, costumava ser chamado de "Dostoiévski brasileiro",
uma alusão ao russo Fiódor Dostoiévski, comumente apontado como um dos maiores
romancistas da humanidade.
Críticos como Oswaldo Almeida Fischer e Cyro de Mattos não pouparam
elogios a ele.
O primeiro chegou a incluir Adonias Filho entre os maiores da língua
portuguesa de todos os tempos.
Já Mattos escreveu que a obra dele era "uma das perpendiculares de
nossa literatura".
Segundo o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na
Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Adonias Filho é frequentemente
comparado a Dostoiévski "principalmente pela intensidade com que trata
dilemas morais e existenciais".
Assim como seu homólogo russo, ele "mergulha nas contradições
psicológicas dos personagens, explorando o conflito entre moralidade e a
necessidade de sobrevivência", destaca.
Essa comparação faz mais sentido ao pensar nos livros Servos da Morte e
Memórias de Lázaro, por exemplo. Mas não compreende toda a produção de Adonias
Filho.
Martins faz a ressalva: o escritor baiano parte de uma ancoragem
profunda, lastreada sobretudo nas realidades do nordeste brasileiro, em vez de
abordar de forma preponderante as questões filosóficas universais, como fazia
Dostoiévski.
"Enquanto o escritor russo foca nas tensões espirituais do homem
diante de Deus e do pecado, Adonias Filho aborda problemas sociais e políticos
do Brasil, como o cangaço e a seca, elementos centrais da literatura
nordestina", pontua o professor.
"Seu trabalho reflete não apenas uma busca pessoal por sentido, mas
também um confronto com as estruturas opressivas de uma sociedade desigual.
Dessa forma, embora existam semelhanças psicológicas, a comparação não captura
toda a singularidade de sua obra."
Trajetória literária e pensamento político
Nascido na Bahia em 27 de novembro de 1915, Adonias Aguiar Filho
publicou dezenas de livros — alguns deles traduzidos para idiomas como inglês,
alemão, espanhol, francês, japonês e até eslovaco.
Politicamente, integrou a Ação Integralista Brasileira (AIB) — movimento
ultranacionalista e tradicionalista católico, de inspiração fascista, fundado
pelo escritor e jornalista Plínio Salgado.
Adonias Filho não tinha nem 20 anos quando escreveu seu primeiro romance,
que se chamava Cachaça, mas ele destruiu o texto. Seu primeiro livro, o ensaio
O Renascimento do Homem, sairia em 1937 — e era baseado na doutrina
integralista.
Já o primeiro romance dele publicado foi Os Servos da Morte, de 1946.
A essa altura, Adonias Filho já tinha uma atuação conhecida como crítico
literário, colaborando com os Diários Associados, O Estado de S. Paulo, e Folha
da Manhã, entre outros.
Também trabalhava como tradutor, vertendo para o português obras de
autores como George Sand — pseudônimo de Amandine Aurore Lucile — e Jacob
Wassermann.
Para a crítica, suas grandes obras foram Memórias de Lázaro, de 1952,
Jornal de Um Escritor, de 1954, e As Velhas, de 1975. Este último ganhou o
Prêmio Jabuti, mais tradicional honraria da literatura brasileira.
Analistas de seu trabalho percebem nele influências de nomes como James
Joyce, Honoré de Bazac, Albert Camus, entre outros, além do já citado
Dostoiévski.
A originalidade de seu texto é atribuída ao estilo conciso e sincopado.
Poética, sua prosa é repleta de metáforas e alegorias.
"Os pontos fortes da literatura de Adonias Filho podem ser
atribuídos, de maneira significativa, à sua habilidade de combinar uma crítica
social incisiva com uma exploração psicológica e emocional profunda de seus
personagens", analisa Martins.
"Sua obra transcende o simples retrato da miséria nordestina, ao
transformar a seca e os dramas humanos em elementos que reverberam não apenas
nas questões sociais, mas também na complexidade das relações interpessoais e
familiares", acrescenta.
"Ao contrário de muitos autores contemporâneos, que abordavam a
seca de maneira quase documental, Adonias Filho foi capaz de humanizar suas
personagens, demonstrando com sutileza o impacto psicológico e moral das
dificuldades enfrentadas por essas pessoas."
Seu perfil oficial registrado pela ABL ressalta que ele fez parte do
grupo de escritores rotulados como "terceira fase do Modernismo", os
que "se inclinaram para um retorno a certas disciplinas formais,
preocupados em realizar a sua obra, por um lado, mediante uma redução à
pesquisa forma e de linguagem e, por outro, em ampliar sua significação do
regional para o universal".
O texto lembra das origens do escritor, na zona cacaueira da região de
Ilhéus, para enfatizar que ele "retirou desse ambiente o material para a
sua obra de ficção"
"Desenvolveu recursos altamente originais e requintados, adaptados
à violência interior de seus personagens. É o criador de um mundo trágico e
bárbaro, varrido pela violência e mistério e por um sopro de poesia. Seus
romances e novelas serão sempre a expressão de um dos escritores mais
representativos e fascinantes da ficção brasileira contemporânea", define
a ABL.
Apoio ao golpe de 64
Seu pensamento de raízes integralistas permaneceria conservador por toda
a vida. Apoiou o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil em 1964 e
chegou a ser cogitado para ter um cargo no governo do então estado da
Guanabara.
Era amigo pessoal do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), o
criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), o principal órgão de
espionagem da repressão.
De 1961 a 1971, Adonias Filho dirigiu a Biblioteca Nacional.
Durante o regime ditatorial, foi agraciado com a Ordem do Mérito
Militar, honraria concedida pela presidência da República. E em 1966 assumiu a
vice-presidência da Associação Brasileira de Imprensa — organismo que ele
presidiria entre 1972 e 1974.
De 1977 até sua morte, em 1990, comandou o Conselho Federal de Cultura.
Para Martins, seu envolvimento com o conservadorismo político pode ter
influenciado tanto sua trajetória literária quanto sua recepção crítica.
"O integralismo, com suas raízes fascistas e nacionalistas, foi
visto com desconfiança após o golpe de 1964, e sua associação a esse movimento
pode ter ofuscado seu talento literário, marginalizando-o em alguns setores da
crítica", pontua.
Contudo, na avaliação do professor, a reação política de Adonias não
deveria obscurecer a importância de sua obra.
"Adonias Filho tinha uma visão aguçada da literatura e da sociedade
brasileira, e sua crítica ao 'romance nordestino' e contribuição ao estudo do
romance de 30 foram essenciais para a narrativa literária brasileira. Sua
produção não pode ser reduzida apenas a suas escolhas políticas, pois sua
reflexão literária e social continua sendo valiosa", argumenta Martins.
"Embora sua afiliação ao integralismo tenha gerado obstáculos, sua
obra ainda carrega um valor significativo na história da literatura
brasileira."
Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) e autor do livro A Ideologia Modernista: A Semana de 22 e Sua
Consagração, o escritor e crítico literário Luís Augusto Fischer concorda que a
política tem um peso na visão que se tem sobre a obra de Adonias Filho.
"O fato de ele ter apoiado o golpe de 64 e integrar órgãos federais
era conhecido e, de alguma forma, circulava entre os alunos de Letras, na minha
geração", comenta, referindo-se a quem cursou a graduação nos anos 1970.
"Isso, por certo, era um estigma. Um embaraço para apreciar sua
literatura."
O crítico e ensaísta André Seffrin também reflete sobre o peso das
escolhas políticas de Adonias para a posteridade de sua literatura.
"O fato de Adonias se colocar como um autor, se assim podemos
dizer, um tanto à direita, pode ter colaborado, sim. Mas isto é apenas um
fator."
Ele menciona outros "romancistas importantes" que também eram
rotulados sob esse espectro político, como Octavio de Faria (1908-1980) e Lúcio
Cardoso (1912-1968).
"Mas o fato de ser de esquerda ou de direita não é determinante,
uma vez que Nelson Rodrigues [(1912-1980)] aí está, cada vez mais
canônico", ressalta.
Fora do cânone
Na opinião do escritor, tradutor e conselheiro editorial Rodrigo Bravo,
o esquecimento de certos autores "é parte da própria lógica histórica da
leitura".
"A recepção literária é um campo de forças que envolve disputa de
valores, horizontes estéticos, posições de classe, sistemas educativos e,
sobretudo, a mutabilidade da sensibilidade humana", afirma Bravo, que é
professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
"Existem autores que expressaram de modo intenso a temperatura
afetiva de seu momento, mas cuja linguagem não se sustenta fora desse
microclima. Outros dependem de formas sociais que não existem mais, e a perda
desse horizonte desfaz o impacto inicial."
Bravo argumenta ainda que a literatura também sofre do que podemos
chamar de "economia da atenção cultural". Nesse sentido, só alguns
textos conseguem reter transmissibilidade quando seus códigos de referência se
desgastam.
"E há ainda o ruído produzido pelos próprios mecanismos editoriais,
pelas modas acadêmicas e pela voracidade do mercado que eleva e depõe nomes com
a mesma velocidade com que consome tendências", acrescenta.
Para o professor Fischer, a dinâmica do esquecimento de autores que
gozaram de prestígio tem a ver com diversos motivos: o mundo editorial, em que
novidades desalojam os títulos de autores já existentes; o envelhecimento da
obra e do autor em si — tanto pela linguagem que pode passar a ser vista como
"velha ou inadequada" quanto por contarem histórias agora vistas como
irrelevantes— ; e a mudança do público leitor, em termos sociológicos, que
passa a buscar autores "que dão a ver a experiência social e cultural
semelhante" a eles.
"Difícil avaliar os possíveis motivos do esquecimento de um
escritor tão importante como Adonias", diz Seffrin, ressaltando o peso de
um romance como Corpo Vivo, publicado em 1962.
"Costumo dizer que há muito autor bom esquecido, até entre os
atuais. Talvez o futuro reserve melhor sorte para alguns desses nomes, o que
quer dizer, reserve melhor sorte para os leitores, que existem, da melhor
literatura brasileira, em grande parte escondida nos sebos."
Adonias Filho não é o único autor brasileiro importante de sua época que
hoje está fora do cânone, lamenta Seffrin.
"Cânones, todos sabemos, são flutuantes. Nos anos 60, era
relativamente fácil colocar a obra de Adonias dentro de um provável
cânone."
Fato é que toda a notoriedade conquistada por Adonias Filho em vida não
garantiu a ele um lugar no chamado cânone da literatura nacional.
Para o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor na
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), tal fenômeno é comum.
"O cânone é formado pelo consenso das gerações. Há escritores que
são extremamente cultuados por uma, duas gerações, mas que não conseguem
transcender a geração que os criou ou a geração que os descobriu. Então ele
desaparece", explica.
Segundo o professor Emerson Rossetti, doutor em estudos literários pela
Universidade Estadual Paulista (Unesp), há um conjunto de fatores que
determinam a condição de uma obra literária como cânone.
"Questões de natureza estética e estrutural, inovações relativas às
produções em cena até aquela época, importância histórica, mas, principalmente,
uma aceitação quase consensual por parte de intelectuais e acadêmicos sobre a
relevância do escritor para a cultura", afirma.
"Penso que também a atemporalidade e a universalidade são aspectos
determinantes, pois é primordial que um texto continue a fazer sentido noutros
lugares e épocas", completa.
O marketing do resgate
Para Rossetti — e ele comenta isso refletindo sobre a história de
Adonias Filho — mais complexa do que a tarefa de determinar as razões que
estabelecem o cânone, "é explicar por que determinados autores outrora
prestigiados acabam sendo lançados ao esquecimento".
Um fator que para ele faz a diferença é se o escritor é ou não estudado
nos meios acadêmicos.
Segundo sua visão, este movimento acaba incentivando mais pesquisas,
debates, publicações — e provocando, direta ou indiretamente, que o escritor
seja lido por alunos, deixando a obra em circulação.
"Porém é possível que a própria academia revitalize aqueles que
foram esquecidos, discutindo, inclusive, os motivos que levaram a esse período
de anonimato", pondera ele.
"Como já disse, os trabalhos e suas consequências têm o poder de
reavivar nomes e obras que não poderiam estar escondidos."
O professor Fischer pontua que resgates de nomes "esquecidos"
costumam ser motivados por "demandas do presente".
Ele cita como exemplos as obras de Carolina Maria de Jesus e de Maria
Firmina dos Reis, que estão em evidência por conta dos fatores de raça e
gênero.
"Outro fator é a hipótese de esse autor antigo ingressar num
circuito de leitura impositiva, como as listas de livros de vestibulares",
comenta ele.
"E não se pode descartar outro fator ainda: uma campanha editorial
que demonstre para os potenciais leitores a relevância do escritor antigo nos
tempos de agora."
Matéria na íntegra: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cly1p9kk7yjo
09/02/2026
Fonte: Academia Brasileira de Letras – ABL
Foto: Google

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