2.06.2026

Os ombros suportam o mundo - Carlos Drummond de Andrade

Os ombros suportam o mundo, de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), considerado o maior poeta brasileiro do século XX, escreveu poemas sobre os mais diversos temas: o amor, a solidão, e a guerra, o seu tempo histórico.

Os ombros suportam o mundo, publicado em 1940, foi escrito na década de 30 e permanece atemporal. O poema fala sobre um estado de cansaço, sobre uma vida vazia: sem amigos, sem amores, sem fé.

Os versos nos lembram os aspectos tristes do mundo - a guerra, a injustiça social, a fome. O sujeito retratado no poema, no entanto, resiste, apesar de tudo.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

 

Soneto de Fidelidade – Vinicius de Moraes

 






Soneto de Fidelidade – Vinicius de Moraes

O poeta Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento


Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive)

 

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure


Foto: Google

 

Importa Que Escola Você Frequentou? - Robert J. Tamasy

Importa Que Escola Você Frequentou?


Por Robert J. Tamasy

 

“Em que você trabalha?” Esta é uma pergunta que comumente fazemos a uma pessoa que acabamos de conhecer, quem sabe durante uma viagem de negócios ou numa cafeteria. É uma forma de travar conhecimento com alguém. As pessoas também perguntam: “Que faculdade você frequentou?” Algumas vezes, estas perguntas surgem durante uma entrevista de emprego. Elas fornecem informações interessantes, mas nem sempre são relevantes para a competência profissional. 

 

Antes de iniciar minha carreira me inscrevi em uma importante faculdade de jornalismo. Diplomei-me e fiz mestrado em jornalismo, mas aprendi mais sobre escrita e editoração em meus primeiros meses como editor de jornal do que durante todos os cinco anos em que estive na faculdade. Grande parte do conhecimento teórico que acumulei na faculdade não tinha aplicação prática para as minhas responsabilidades de trabalho cotidianas. 

 

Como Seth Godin, escritor, empreendedor e blogueiro observou: “O campus onde você passou quatro anos trinta anos atrás pouco contribui para o trabalho que você vai fazer. Eis o que importa: a forma como você encara seu trabalho. O que você construiu? O que você liderou?  Como você toma decisões?... Como você age quando ninguém está olhando? Você não é o seu currículo. Você é a trilha que deixou para trás, as pessoas que influenciou, o trabalho que fez.” 

 

Há muita sabedoria no que Godin diz. Ter o MBA de uma faculdade de economia de destaque ou o diploma de uma prestigiosa universidade parece impressionante, mas não fala das qualidades interiores necessárias para um membro ou líder de equipe de alta qualidade. Nós queremos o relato da trajetória de uma pessoa: o que ela realizou ou as experiências que teve, particularmente as que se relacionam ao trabalho que estão procurando. 

 

Ainda mais importante do que aquilo que fizemos, eu penso, é a forma como encaramos o nosso trabalho e como nos comportamos quando ninguém está olhando. O livro bíblico de Provérbios tem muito a dizer sobre isso: 

 

Encarando o nosso trabalho com alto grau de dedicação.  O meio mais seguro de se construir uma carreira de sucesso ou melhorar as metas de uma companhia, é trabalhar com diligência e determinação, reagindo às oportunidades quando elas surgem. “As mão preguiçosas empobrecem o homem, porém as mãos diligentes lhe trazem riqueza.  Aquele que faz a colheita no verão é filho sensato, mas aquele que dorme durante a ceifa é filho que causa vergonha.” (Provérbios 10:4-5). 


Trabalhando com excelência e efetividade.  Uma pessoa que se esforça por alcançar o mais alto grau de qualidade é rara na sociedade atual. Já que muitas pessoas parecem satisfeitas com a mediocridade, trabalhadores habilidosos que têm orgulho do que são chamados a fazer tendem a ser notados. “Você já observou um homem habilidoso em seu trabalho? Será promovido ao serviço real; não trabalhará para gente obscura.” (Provérbios  22:29). 

 

Priorizando a honestidade.  Às vezes é tentador adulterar informações vitais para obter uma venda ou fechar um contrato, mas como frequentemente lemos nas manchetes ou ouvimos nas notícias diárias, práticas desonestas eventualmente são expostas e suas consequências cobradas. “Os lábios que dizem a verdade permanecem para sempre, mas a língua mentirosa dura apenas um instante.”  (Provérbios 12:19). “Pesos adulterados e medidas falsificadas são coisas que o Senhor detesta.”  (Provérbios 20:10). 


Ficando conhecido pelo compromisso com a integridade.  Outra forma de tentação é comportar-se de forma diferente quando pensamos que ninguém está vendo, em comparação com quando sabemos que nossas ações estão sob escrutínio. Uma pessoa íntegra, porém, é aquela cujo comportamento, público ou privado, permanece o mesmo. “Quem anda com integridade anda com segurança, mas quem segue veredas tortuosas será descoberto.” (Provérbios 10:9). “A integridade dos justos os guia, mas a falsidade dos infiéis os destrói.”  (Provérbios 11:3). 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1. Quando conhece uma pessoa, especialmente dentro do contexto profissional, você pergunta em que ela trabalha ou sobre a faculdade que fez? Que nível de importância você atribui a esta informação?

2. Para você, quais são os fatores mais importantes a serem considerados na avaliação para saber se uma pessoa está qualificada para um novo trabalho ou para maiores responsabilidades?

3. Como você descreveria uma pessoa que trabalha sempre com diligência e/ou excelência?

4. Você concorda que honestidade e integridade são qualidades importantes para distinguir-se no mercado de trabalho? Por quê?  Para você, estes traços são comuns atualmente e como são avaliados? 

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Salmos 25:21; Provérbios 12:11,24,27; 13:4, 6; 14:5; 15:9; 20:14; 21:5; 29:10; Tito 2:7-8.

 

 

2.05.2026

Cora Coralina: a doceira que se tornou poeta popular após publicar seu primeiro livro aos 75 anos

Mulher, viúva, de fora do eixo Rio-São Paulo, doceira, de pouca escolaridade. Parece difícil entender como uma escritora como Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), se tornou uma das mais conhecidas poetas da literatura nacional.

Pois a autora goiana, cuja morte faz 40 anos nesta quinta-feira (10/07), rompeu bolhas com sua escrita simples — por vezes considerada simplória — e, reconhecida na velhice, passou a ser nome presente em livros escolares e ter algumas frases bonitas de sua lavra estampada em diversos espaços, inclusive nas redes sociais.

"A literatura de Cora Coralina ocupa um lugar singular na produção brasileira por conjugar um percurso marginal ao sistema literário com uma estética ancorada na oralidade, na memória e no cotidiano do interior do país", diz à BBC News Brasil o poeta Carlos Willian Leite, presidente do Conselho Estadual de Cultura de Goiás e editor da Revista Bula.

Leite ressalta que a autora construiu sua obra a partir de uma "vivência distante dos grandes centros culturais, produzindo textos que traduzem, com linguagem acessível e sensível, o universo simbólico do Brasil interiorano".

O sociólogo Clovis Britto, professor na Universidade de Brasília (UnB) e estudioso da obra de Cora Coralina, classifica a literatura da goiana como "de resistência".

"Ela poetizou a 'vida mera das obscuras', que era o modo como designava a vida das pessoas marginalizadas na sociedade", diz ele.

Essa visão também é compartilhada pelo linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), no Ceará.

Para ele, ao dar voz às camadas sociais menos visíveis, especialmente na Cidade de Goiás (ou Goiás Velho), sua terra natal, Cora Coralina "desafiou e expandiu as fronteiras da literatura tradicional".

Mulher da Vida

Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.

FonteArticle Information

AuthorEdison Veiga

Foto: Podução

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Matemática e Filosofia - Agilson Cerqueira

Cerqueira Engenharia

Os iguais, a matemática e a filosofia - agilson cerqueira - A necessidade de equivalência progressiva do pensamento sempre será uma genialidade medíocre quando a ele for atribuída a satisfação explícita do singular sem lógica do raciocínio!

Essa frase, atribuída a Agilson Cerqueira, propõe uma reflexão crítica sobre a natureza do pensamento humano, a lógica e a busca por equivalência (padronização ou igualdade)

Aqui está uma análise do pensamento contido na frase:

  • "A necessidade de equivalência progressiva do pensamento": Refere-se à tendência humana (ou intelectual) de padronizar ideias, buscar igualdades, criar fórmulas gerais ou nivelar pensamentos para que se tornem homogêneos e comparáveis.
  • "Sempre será uma genialidade medíocre": O autor sugere que essa busca por igualdade/equivalência, embora pareça inteligente ou organizada, é limitada, superficial ou comum ("medíocre").
  • "Quando a ele for atribuída a satisfação explícita do singular sem lógica do raciocínio": Esta é a chave da frase. A busca pela igualdade torna-se um erro (genialidade medíocre) quando tenta encaixar ou validar casos únicos ("singular") ou ideias excepcionais sem passar por um processo lógico rigoroso. 

Em suma: A frase critica a tentativa de forçar equivalências (tratar o "singular" como igual) sem que haja uma lógica sólida por trás, sugerindo que a verdadeira "genialidade" não reside na simplificação/equivalência forçada, mas sim na análise lógica e rigorosa da particularidade.

Dizemos que duas proposições são logicamente equivalentes (ou simplesmente que são equivalentes) quando são compostas pelas mesmas proposições simples e os resultados de suas tabelas-verdades são idênticos. Proposições Logicamente Equivalentes Equivalências da Condicional As duas equivalências que se seguem são de fundamental importância. Estas equivalências podem ser verificadas, ou seja, demonstradas, por meio da comparação entre as tabelas-verdades. Ficam como exercício para casa estas demonstrações. Porém, a utilização da tabela-verdade será nosso ‘Plano B’. Vamos conhecer 2 regras que facilitarão a vida de vocês na hora da prova!

Fonte: Agilson Cerqueira

Imagem: Google

 

2.04.2026

Prémio Literário Natália Correia 6ª Edição

Prémio Literário Natália Correia 6ª Edição: inscrições abertas até 31-03-2026. Participe enviando livros completos!

Estão abertas até 31-03-2026 as inscrições para Prémio Literário Natália Correia 6ª Edição, uma iniciativa literária organizada por Câmara Municipal de Ponta Delgada (Portugal).

🌍 Quem pode participar:

Pessoas de qualquer país

🪪 Menores de 18 anos:

Não podem participar

👮 Responsável por esta seletiva:

Câmara Municipal de Ponta Delgada

https://www.instagram.com/ponta.delgada/

Proposta:

"Já estão abertas as candidaturas à 6.ª edição do Prémio Literário Natália Correia e decorrem até 31 de março. Em 2026, o género a concurso é 𝗙𝗶𝗰𝗰̧𝗮̃𝗼. As obras devem ser originais, inéditas e escritas em língua portuguesa. Podem candidatar-se autores de todas as nacionalidades, a partir dos 16 anos (obras individuais ou coletivas)." (Câmara Municipal de Ponta Delgada)

💡 Tema:

Livre dentro da ficção.

🎭 Categorias temáticas aceitas:

Gênero/Tema Livre

📝 Formas literárias aceitas:

Livros completos

Limites:

Livros devem ter mínimo de 80 páginas.

🔓 Taxa de inscrição:

Não há

💸 Custo MÍNIMO para escritores selecionados:

Não há

🏆 Benefícios, ou prêmio MÁXIMO, para autores selecionados:

€ 7.500,00

️ Como inscrever-se:

Confira as instruções para participação no edital oficial >>> https://www.cm-pontadelgada.pt/acontece/noticias/noticia/abertas-candidaturas-ao-premio-literario-natalia-correia-2026

IMPORTANTE: Se você for participar, guarde uma cópia do edital oficial (conteúdo do link acima), para consultar sempre que precisar.

📣 O resultado será divulgado em:

https://www.instagram.com/ponta.delgada/

Dúvidas sobre esta seletiva?

Contate a entidade responsável: Câmara Municipal de Ponta Delgada

Aviso legal: 1) Seleções Literárias [S.L.] é só um blog de divulgação cultural. 2) Cada concurso literario é de total responsabilidade da entidade indicada em "Responsável". 3) A fonte OFICIAL de informações é o edital indicado em "Como inscrever-se". Havendo divergência entre S.L. e o edital, o que vale é o edital. 4) S.L. não intermedeia contato entre participantes e entidade responsável. 5) A divulgação de uma seletiva não é "atestado de idoneidade": se lhe parecer suspeita, não participe. 6) S. L. removerá conteúdo sinalizado como suspeito, mas não tem competência para repreender organizadores nem tomar quaisquer providências contra terceiros. 7) Menores de 18 anos devem consultar os pais/tutores antes de participar dos concursos literários abertos.

Traduzir-se - Ferreira Gullar

 







Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

O poema escrito em primeira pessoa pretende promover uma reflexão profunda sobre a subjetividade do artista. Vemos aqui uma procura por autoconhecimento, um esforço para desvendar o interior e as complexidades do sujeito poético.

Convém sublinhar que não se trata só da relação do poeta com ele mesmo como também com todos os outros que estão a sua volta.

Os versos, sucintos, carregam uma linguagem seca, sem grandes rodeios, e têm como objetivo investigar aquilo que o eu-lírico carrega dentro de si.

Fagner, no princípio dos anos oitenta, musicou o poema Traduzir-se e fez do título do poema também o título do seu álbum, lançado em 1981.


Fonte: Pensador

Foto: Google

2.03.2026

Carolina Maria de Jesus

 

Carolina Maria de Jesus

Moradora da Favela do Canindé, em São Paulo (SP), Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) nasceu em Sacramento (MG) e veio para a capital paulista no período que as comunidades começavam a se expandir com mais frequência na cidade. Cursou apenas as primeiras séries do Ensino Básico, mas costumava utilizar diários para registrar diversos detalhes sobre o seu cotidiano difícil, marcado pela miséria, entre outras dificuldades enfrentadas por uma mulher negra, pobre e mãe daquela época. Em 1958 o jornalista Audálio Dantas foi à favela do Canindé escrever uma matéria sobre o local, que se expandia próximo ao Rio Tietê. O jornalista se encantou com a história de Carolina e publicou parte do material em 1958 em um jornal do grupo Folha de S. Paulo e em 1959 na revista O Cruzeiro, inclusive com uma versão em espanhol. Essas publicações projetaram Carolina como escritora, e em 1960, a autora lançou sua obra mais conhecida, Quarto de despejo, que contém parte dos relatos registrados em mais de 20 cadernos que possuía em casa. Atualmente, a obra já foi traduzida para 14 idiomas e vendida em mais de 40 países. Carolina publicou outros livros, como Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de fome (1963) e Provérbios (1963). A autora também possui duas obras póstumas, como Diário da Bitita (1982) e Meu estranho diário (1996). Hoje é considerada uma das principais escritoras negras do Brasil, e estudiosos organizaram o seu acervo, que além dos diários, também continham cadernos com poemas, contos, romances e até composições. Em maio de 2017, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) incluíram o livro Quarto de despejo como leitura obrigatória para os seus vestibulares.

Fonte: carolina_maria Foto: divulgação/Audálio Dantas

Foto: Divulgação

 

E agora, José? - Carlos Drummond

 






E agora, José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Um dos maiores e mais conhecidos poemas de Drummond, "José" exprime a solidão do indivíduo na cidade grande, a sua falta de esperança e a sensação de estar perdido na vida. Na composição, o sujeito lírico se interroga repetidamente acerca do rumo que deve tomar, procurando um sentido possível.

José, um nome muito comum na língua portuguesa, pode ser entendido como um sujeito coletivo, simbolizando um povo. Assim, parecemos estar perante a realidade de muitos brasileiros que superam inúmeras privações e batalham, dia após dia, por um futuro melhor.

Na reflexão sobre o seu percurso é evidente o tom disfórico, como se o tempo tivesse deteriorado tudo em seu redor, o que fica nítido em formas verbais como "acabou", "fugiu", "mofou". Listando possíveis soluções ou saídas para a situação atual, percebe que nenhuma delas funcionaria.

Nem mesmo o passado ou a morte surgem como refúgios. Contudo, o sujeito assume a sua própria força e resiliência ("Você é duro, José!"). Sozinho, sem a ajuda de Deus ou o apoio dos homens, continua vivo e segue em frente, mesmo sem saber para onde.

Fonte: Pensador

Foto: Google

 

Homem comum - Ferreira Gillaar

 





Homem comum

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei

O sujeito poético em Homem comum (trecho acima) procura se identificar e por isso vai em busca da sua identidade.

Durante caminho de descobrimento, ele mapeia percursos materiais (representados pela carne) e imateriais (simbolizados pela memória). O sujeito então se apresenta como resultado das experiências que viveu.

Aqui o eu-lírico se aproxima do universo do leitor ("sou como você feito de coisas lembradas e esquecidas") demonstrando partilhar com ele experiências cotidianas ("ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião") e inquietações sobretudo humanas, transversais a todos nós.

 

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PROSEANDO A MENTE INQUIETA Agilson Cerqueira Há em mim um prumo quebrado e uma régua incapaz de medir o abismo. Carrego instrumentos feitos ...

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