Traduzir-se
Uma parte de
mim
é todo
mundo:
outra parte
é ninguém:
fundo sem
fundo.
Uma parte de
mim
é multidão:
outra parte
estranheza
e solidão.
Uma parte de
mim
pesa,
pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de
mim
almoça e
janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de
mim
é
permanente:
outra parte
se sabe de
repente.
Uma parte de
mim
é só
vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma
parte
na outra
parte
– que é uma
questão
de vida ou
morte –
será arte?
O poema escrito em primeira pessoa
pretende promover uma reflexão profunda sobre a subjetividade do artista. Vemos
aqui uma procura por autoconhecimento, um esforço para desvendar o interior e
as complexidades do sujeito poético.
Convém sublinhar que não se trata só
da relação do poeta com ele mesmo como também com todos os outros que estão a
sua volta.
Os versos, sucintos, carregam uma
linguagem seca, sem grandes rodeios, e têm como objetivo investigar aquilo que
o eu-lírico carrega dentro de si.
Fagner, no princípio dos anos oitenta,
musicou o poema Traduzir-se e fez do título do poema também o título do seu
álbum, lançado em 1981.
Fonte: Pensador

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