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2.04.2026

Traduzir-se - Ferreira Gullar

 







Traduzir-se

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

O poema escrito em primeira pessoa pretende promover uma reflexão profunda sobre a subjetividade do artista. Vemos aqui uma procura por autoconhecimento, um esforço para desvendar o interior e as complexidades do sujeito poético.

Convém sublinhar que não se trata só da relação do poeta com ele mesmo como também com todos os outros que estão a sua volta.

Os versos, sucintos, carregam uma linguagem seca, sem grandes rodeios, e têm como objetivo investigar aquilo que o eu-lírico carrega dentro de si.

Fagner, no princípio dos anos oitenta, musicou o poema Traduzir-se e fez do título do poema também o título do seu álbum, lançado em 1981.


Fonte: Pensador

Foto: Google

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