11.14.2025

Pedagogia do limite - R. Santana

 

Pedagogia do limite
Pedagogia do limite
R. Santana

    Leitores são animais em extinção, não, minto, são animais extintos. O leitor poderá estranhar chamá-los de animais, mas somos o quê? Somos animais inteligentes. O único animal que raciocina e o único que rir!...
    Quis propositadamente chocar o leitor, chamá-los de “animais extintos”, num primeiro momento, mas vou esforçar-me para escrevinhar um texto em homenagem aos mestres, aos professores do passado.
    Claro que não é um texto parecido com o filme produzido e dirigido por James Clavell e estrelado pelo talento do negro Sidney Poitier. O filme ao “Mestre com Carinho” é um ensaio pedagógico e uma lição de postura, de autoridade, de vocação, de desprendimento e compromisso de um jovem professor negro que troca uma carreira promissora de engenheiro para cuidar e ensinar numa escola de jovens adolescentes indisciplinados e desajustados no bairro pobre de East End em Londres.
    Não sei se eles conheciam Vygotsky, Henri Wallon, Piaget, Alfred Binet, se tinham lido Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire e Anísio Teixeira, acho que não, porque sua didática e sua pedagogia eram: o caroço de milho, a régua quilométrica, a palmatória e o castigo de joelho.
    Aqueles métodos de aprendizagem, hoje, são considerados antipedagógicos, não didáticos, bárbaros, brutais e que causavam danos psicológicos e intelectuais nos pimpolhos para sempre. Porém, o tempo, senhor da razão, veio comprovar que essas práticas, parecidas barbáries, contribuíram e foram decisivas na formação moral e intelectual desses educandos, mais, muito mais, do que a escola e a família sem limites atuais.
    Içami Tiba, professor, médico, psiquiatra e a coqueluche do momento - uma versão atualizada dos professores do passado -, em seus best-sellers: “Disciplina: limite na medida certe” e “Quem ama educa!”, mostra que essa nova pedagogia, essa metodologia sem disciplina e essa família sovina no “não” e perdulária no “sim”, que não impõe limite aos seus diabinhos, ao invés de educá-los, transforma-os, plagiando Rousseau: - naturalmente bons em adolescentes “aborrecentes”, desajustados e adultos delinquentes e criminosos.
    Hoje, o professor em sua maioria, é despreparado, desatualizado, descompromissado, sem autoridade, mercenário, refugo doutras profissões - não teve competência pra ser médico ou coisa que valha, se homizia na pedagogia e assemelhados -, não faz jus ao título de magister.
Agora, depois da Internet, a coisa degringolou, a quantidade de informação que circula em tempo recorde é impressionante. O professor não é mais detentor do conhecimento, pois o que ele sabe, qualquer criança que manipula um mouse obtém nos sites de pesquisa em exiguidade de tempo.
    Professores do naipe de Nair Assis Menezes, Challup, Lindaura Brandão, Antônio Pazos Garrido, Manuel Garrido, João Arbages, Osni Capistrano, La Borda, Flávio Simões, Anália São Mateus, Alzair Martins, Josué Brandão, Helena dos Anjos, Lítza Câmara e tantos outros que me falha a memória, são profissionais que escreveram uma nova página na história da educação de Itabuna, substituí-los, é desígnio do tempo e da vida, mas sucedê-los jamais!...
    Caro leitor, dentre os educadores citados, Ewerton Alves Challup, professor Challup, foi um dos mais ilustres precursores da pedagogia do limite em Itabuna. Homem austero no cumprimento do dever, tido pela meninada daquela época como “durão”, “carrasco”, estigmas que se perderam no passado, hoje, sua memória é preservada, suas ações educativas reconhecidas pelos os seus ex-alunos, pelo denodo e dedicação que imprimia em sua prática do dia-a-dia, pelo seu compromisso, pela sua inteligência, por ter contribuído durante longo tempo, na formação moral e intelectual dos seus alunos, por ter sido exemplo de educador e por ter sido eleito pela família daquela época, a educação dos seus filhos.
    O desprendimento por dinheiro do mestre Challup, que dispensava qualquer aluno do seu colégio que não comparecesse às sabatinas ou não fizesse suas tarefas, suas lições, com a conivência e negligência dos pais, lembra Euclides, o pai da Geometria Plana, que certa feita, um dos seus discípulos o questionou se “aquilo” servia para ganhar dinheiro, foi o bastante para que o gênio da matemática lhe desse umas moedas e o mandasse embora...
    Mesmo quando a asma lhe botava na cama, ele não descuidava dos alunos, D. Mariazinha, sua esposa e professora da escola, o substituía. A meninada não tinha folga e os estudantes do “Admissão ao Ginásio”, menos ainda. O “Admissão ao Ginásio” era um vestibularzinho que se fazia de todas as disciplinas para admissão ao ginásio. O estudante que não soubesse Gramática, História do Brasil, Geografia e Matemática na ponta da língua (exames escritos e orais), não entrava no ginásio. Extinto o curso de “Admissão ao Ginásio”, democratizaram-se os analfabetos funcionais.
    A chamada para Ewerton Challup era imprescindível, principalmente aos sábados, se o projeto de gente faltasse, ele, pessoalmente, ia a casa do aluno cobrar a motivo da ausência, se a ausência tivesse motivo fútil, o preço da falta seria dobrado.
    O exemplo Challup justifica a pedagogia do limite. Os tempos são outros, mas psicólogos, pedagogos e orientadores que compartilham do pensamento do professor Içami Tiba, contribuirão, decerto, para resgatar valores há algum tempo esquecidos e a escola continuar como de outrora, a casa do saber e do conhecimento, influindo na formação moral e intelectual, formando bons cidadãos para sociedade.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons 
Imagem: Google


Deus não existe - R. Santana

 

Deus não existe
R. Santana
                                                            I
     Doutor Bruno Santieiro, suava por todos os poros, embora dominasse todas as técnicas de cirurgia do coração. Aquele paciente que já tinha feito uma angioplastia algum tempo atrás, agora, com duas veias obstruídas e um quadro clínico não muito favorável, não dava fôlego ao cirurgião numa by pass e se não fosse a perícia e a destreza inquestionáveis do jovem médico, sua equipe, e uma parafernália de instrumentos e aparelhos de suporte e uma mãozinha de Deus, aquele paciente já teria ido pra cidade de pés juntos.
     Embora a cirurgia tivesse oferecido alguma dificuldade, a intervenção humana tinha sido um sucesso, daí em diante, médicos e família, aguardariam os recados da natureza para o veredicto e Dr. Bruno lhe mandasse de volta ao lar.
     Mais um dever cumprido, ego inflado, consciência tranquila, o jovem cirurgião é surpreendido com os efusivos “Deus lhe pague”, quando de praxe, comunicava à família do seu paciente, o sucesso da cirurgia:
     -A cirurgia foi de risco, mas o resultado foi satisfatório, vamos aguardar a reação
do seu organismo!
     -Deus lhe pague! Deus lhe pague! Deus lhe pague!... – foi a reação da esposa, o médico foi ríspido:
     -Senhora, Deus não existe! Se existisse, milhares de inocentes não padeciam nos leitos dos hospitais nem seriam arrastados pelos desastres da natureza!
     -Pelo o amor de sua família, não blasfeme, não valorize a criatura, mas o Criador, os desígnios de Deus são inacessíveis ao conhecimento do homem, ao homem fica Sua misericórdia!
     -Senhora deixe de pieguices!- sisudo.
   -Não é sentimentalismo... A aliança que Jesus Cristo celebrou com o Pai não foi em vão, a morte não é o fim, mas o começo de um novo tempo no seio de Deus. Sua promessa de vida eterna não pode ser uma mentira! – justificou.
     - O homem não é semente, senhora, a morte do homem sinaliza o retorno da matéria à sua origem, a matéria perdeu a vontade de viver, que vocês chamam de alma, nós, ateus, chamamos de energia, élan vital... – encerrou o diálogo numa rabanada.
                                                            II
     Raimundo Araújo, homem fisicamente desprovido, uma mistura de chofer, moleque de recado, secretário, repositório de queixas, lamentações, enfim, um confidente da família Santieiro, tratado por “Mundinho”, estranhou a demora de sua patroa com o pequerrucho na clínica pediátrica.
    O pimpolho nascera com problemas de saúde, desde sua chegada há 6 anos na casa do famoso cirurgião Bruno Santieiro, que Mundinho é testemunha da labuta dos seus patrões com o seu primogênito, mas àquela tarde, sensações diferentes, pesarosas, envolviam o seu corpo, ele não gostava daquilo... Sua companheira vivia fustigando-o para que frequentasse uma casa espírita, que ele estava desperdiçando sua força mediúnica, os seus pressentimentos encerravam em algo ruim, aí, ela enumerava os acontecimentos que o seu companheiro pressentira, ele negaceava:
     -Maria deixe de bobagem!...
     Católico praticante, não gostava de alimentar os devaneios e as maluquices de sua mulher, Maria possuía uma imaginação fértil e supersticiosa. Embora se declarasse católica, ela cultuava o kardecismo e se Mundinho lhe desse corda, ela frequentaria também os terreiros de candomblé, acreditava em bruxos e bruxarias.
     Porém, naquela tarde, as fantasias de sua mulher não fossem de tudo imprestável, a danada poderia ter lances de razão, estalos de onisciência, lances de verdade se os seus pressentimentos se confirmassem e a família Santieiro tivesse num beco sem saída com o pequeno Bruninho.
  Não se fez esperar mais tempo quando Dra. Karla desce espavorida da clínica, semblante carregado, contida no choro, cheia de ordens, Mundinho é incumbido buscar roupas do menino e dela, transmitisse urgência ao seu patrão, pois o garoto fora internado:
     -Senhor Mundinho – nunca dispensava o tratamento de “senhor” e “senhora” para os empregados – não demore, fale ao Dr. Bruno vir com urgência! - O empregado não se fez esperar...
                                                            III
   Cansaço físico, olheiras visíveis, semblante quebrado, cabisbaixo, contrastavam com o físico alto e esbelto, depois de uma semana, de noites mal dormidas do Dr. Bruno Santieiro, é que o estado de saúde de Bruninho oscilava entre bem e mal, e não, ótimo! A Febre resistia deixar o moleque não obstante os recursos profiláticos empregados. Mundinho compartilhava a dor do patrão, aprendera gostar do pimpolho, inúmeras vezes, saíam a sós para brincarem nos Shoppings ou passarem nas praças a pedido dele e autorizado pelos seus pais.
     Ele não privava da intimidade da patroa – nem os outros empregados -, embora o seu patrão tivesse ideias malucas, o amava, Dr. Santieiro não era um patrão, mas muito mais do que um patrão, chovesse ou fizesse sol, aos domingos, eles jogavam futebol de salão, acompanhava a família à praia ou outro lazer, aonde quer que a família fosse, ele estava a tiracolo e, se Mundinho tivesse uma simples dor de cabeça, já era motivo de preocupação para o médico.
     Vê-lo pra baixo, impotente, de pés e mãos amarradas, a mercê da doença do filho, cortava coração, às vezes, Mundinho tinha vontade de chorar e não o fez não por machismo, mas para não ser flagrado, porque iria apenas aumentar o desespero dos pais de Bruninho.
     Naquela tarde à saída do hospital, não tinham percorrido um quilômetro de volta para casa, quando Bruno pede ao seu motorista que estacione o carro na primeira praça que avistaram:
     -Vamos dar uma andada para arejar os cornos!... - brincou.
   -Patrão, os meus são uns restinhos da primeira mulher se Maria me trai são com os espíritos, a mulherzinha ou vai à igreja ou vai à sessão espírita, a Bíblia de manhã e o Livro dos Espíritos à noite!...
     -E você? – pegou-lhe de supetão.
    -Eu, doutor?... Sou cristão, Jesus é ressurreição e vida!
 -Esse negócio de vida eterna e ressurreição, é conto de carochinha... – mais pensativo:
 -Meu filho está ali padecendo... Inocente, nunca fez mal a ninguém, que justiça divina é essa que o justo é punido e o injusto agraciado?... – com a voz embargada.
     -Doutor, os discípulos de Jesus também tiveram essa inquietação ao verem um cego de nascença. Perguntaram-Lhe: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” Respondeu Jesus: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele obras de Deus”. João 9:1-3. – completou:
     -Os desígnios de Deus e o seu amor são infinitos, às vezes, incompreensíveis, mas Ele tem um lugar para cada um de nós, patrão!
     -Acreditaria Nele se o meu filho ficasse são... – acrescentou:
     -Distribuiria parte do meu patrimônio com os pobres!
     -Deus não é mercador!
     -Fazer o bem não leva ao céu, Mundinho?
    -Não em troca, mas em graça e doação. O exercício da caridade e da solidariedade em primeiro lugar, enfim doutor, o senhor tem que “nascer de novo” e poderá pedir tudo ao Criador de acordo Sua promessa: “Pede-Me, e Eu te darei as nações por herança e as extremidades da Terra por tua possessão”. Sal. 2:8. - concluiu:
     -O homem que exercita sua fé em Jesus Cristo e distribui caridade, solidariedade, Deus é com ele.
                                                            IV
     Naquela noite, Bruno cochilou e dormiu o sono dos justos ao lado do filho, quando ao sol saindo, despertou atoleimado com os gritos do filho:
     -Paiê, paiê, paiê!...
     -O quê foi, filho?
    -Ela (com a imagem de Nossa Senhora nas mãos), me colocou no colo... – o pai o interrompeu:
     -Quem lhe deu esta santinha, meu filho?
     -Mundinho!!!...
     A razão foi vencida pela fé. Somente os puros de coração podem ver Deus e pedir-Lhe resposta para os seus males. Doutor Bruno quedou-se de joelhos e chorou, chorou, chorou...

Autor: Rilvan Batista de Santana.
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

Orgulho Gay - R. Santana

 

Orgulho Gay
R. Santana
1

 

     Nos finais dos anos 80, o caboclo Júlio Barata, conhecido pelos seus amigos e inimigos por “Pezão”, bem aquinhoado financeiramente, comprou uma casa em um bairro de classe média alta em Itabuna, no interior da Bahia, principal cidade do Sul do estado.
     Se o leitor exigente quiser detalhes desta história, quiser saber, por exemplo, se os protagonistas ainda estão vivos, se Júlio Barata é Júlio Barata e se Pezão é Pezão, lhe responderei que todo ficcionista é um mentiroso por necessidade, ou melhor, ele trabalha com a verdade às avessas, meias verdades, pois não se pode expor a história de vida com as personagens vivas, por óbvios motivos e às personagens mortas, por respeito à memória daqueles que se foram.
     Porém, para arrefecer a curiosidade do leitor, quero jurar por todos os santos homens e homens santos que Pezão faz pouco tempo que morreu de um infarto fulminante enquanto assistia os flashes de uma parada gay pela tevê, sua mulher morreu faz mais tempo e filho, filhas e netos estão vivinhos aí, e, tomara que nenhum deles, leia estas páginas, pois quem conta um conto aumenta um ponto.
 

2

     Pezão não era má pessoa. Não era um intelectual, mas não era um ignorante do pé de serra, escondido no recôndito das matas. Embora tivesse nascido e crescido na roça, assim que comprou suas primeiras terras, instalou na casa da sede, do fogão a gás a uma geladeira e um rádio de pilha de ondas médias e curtas para ouvir a Rádio Nacional, coqueluche de uma época distante.
     Com a chegada da energia elétrica, mais situado, com a burra cheia de dinheiro, ele encheu a casa de aparelho de tevê, parabólica, aparelho de som e, mais algumas novidades da vida contemporânea.
     Porém, Pezão não abria mão de certos princípios herdados dos pais e dos avós. Trazia a mulher em corda curta e os filhos em corda mais curta ainda.
     Descarregava os seus medos, as suas frustrações e as suas opiniões em cima de Zé Pequeno, seu preposto de confiança, que junto com o chefe, enfrentava qualquer dificuldade: um Sancho Pança quixotiano que escudava Pezão há mais de trinta anos:
     -É uma safadeza de dar gosto, os homens já estão nascendo efeminados! – Zé Pequeno confirmava:
     -Sinhô sim! – era o seu único vocabulário, se o patrão lhe dissesse: “Zé Pequeno, mate o João”, ele respondia: ” Sinhô sim!”, fiel mais do que um cachorro e traiçoeiro como uma serpente.
     -Zé Pequeno, eles dizem que já nasceram efeminados, eu acho que é falta de couro no lombo!
     -Sinhô sim!
     -Quem já se viu? Usar seios postiços, plástica no bumbum, sutiã, calcinha, saia, corpete, salto à Luis XV e deitar com homem... Quem Já se viu?...
     -Sinhô sim!

     -Se Juninho virar bicha, eu mato-o!

     -Sinhô sim... – Zé foi reticente, amava o filho do patrão.
     -Saia é coisa de mulher e calça é coisa de homem! Já falei com Maria: se ela usar calça, ela sai daqui com uma quente e outra fervendo...
     --Sinhô sim!...
                                                                           3
     Juninho e as irmãs deixaram a fazendo e foram morar e estudar em Itabuna. Juninho crescia em beleza e frescura, seu pai andava meio desconfiado:
     -Será que vou pagar minha língua?– Pezão dialogava com o seu escudeiro:
     -Sinhô sim!
     -Você acha Zé pequeno?
     -Sinhô... – já entendi, você quis dizer:
     -Sinhô não, não é seu maluco?
     -Sinhô sim!...

4

 

     Como naquela época, a UESC não tinha curso de medicina, Juninho, aluno brilhante, e doido para ficar livre das rédeas de Pezão, convence todos em particular sua mãe, que sabia como conter a brabeza do marido, usando da fraqueza força, estudar em Salvador e com louvor é aprovada de primeira no vestibular da Ufba em medicina.
     Esporadicamente vinha visitar os pais. Sua frescura tinha sido burilada, afora a fala um pouco feminina, os trejeitos tinham sido aperfeiçoados e se ele não se expusesse por muito tempo, ninguém diria que aquele homem de mais um metro e oitenta era uma bicha conhecida e disputada, no seu tempo, pelos homens que gostam dessa fruta nas noitadas e farras estudantis da cidade de Salvador. Não bebia nem fumava.

 

     Sua mãe morria de amores pelo filho, os dois se entendiam pelo olhar. O amor do seu pai não era menor. O velho Julio escondia no peito o medo de descobrir que o filho não fosse macho e quando esses pensamentos lhe vinham à cabeça eram inconscientemente, rejeitados e repudiados.
     Certa feita, Pezão, o seu fiel escudeiro e Juninho foram passear na fazenda. Juninho adolescente, respirando euforia por ter sido aprovado num vestibular de medicina, desleixou-se em esconder os seus trejeitos e acirrava mais a cisma do seu velho, que numa parada obrigatória do carro para o filho mijar, ele adverte ao Zé Pequeno:
     -Se esse filho da puta, mijar de cócoras como uma mulher, eu arranco-lhe a cabeça com essa escopeta!... – manuseou a arma. Zé Pequeno sem entender muito bem, implorou:
     -Sinhô... Sinhô... Sinhô não!... – Zé Pequeno com a destreza e a precisão de um felino tomou-lhe a arma e implorou-lhe com sua linguagem:

     -Sinhô não, Sinhô não!...

     Distante alguns metros do carro, Juninho não percebeu a luta entre a ignorância e o bom senso e como um macho de verdade, lavou o chão de urina ao invés de sujá-lo com sangue.
     Alguns anos depois, Pezão via tevê quando em flashes de reportagem sobre o Orgulho Gay baiano, aparece Juninho travestido e empunhando a bandeira do movimento, defendendo mais liberdade, mais respeito e mais inclusão social. Enquanto isto, o seu pai aturdido confirmava aquilo que há muito tempo desconfiava e com a mão no peito balbuciava:
     -Fi... lho... do peca...do, vergo...nha... da família, vea...do des...cara...do, ver...go...nha da huma...ni...dade!... – desabou e Zé pequeno acudiu—o:
     --Sinhô... Sinhô... Sinhô não! – o moribundo com voz rouca, estertora, reprovou o seu fiel companheiro que emendou:
     -Morte... Sinhô não!!!...

     Zé Pequeno chorou, chorou...


Gênero: conto
Autor: Rilvan Batista de Santana

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google






Carta para o Frei José Raimundo - R. Santana

 

Carta para o Frei José Raimundo

Itabuna, 05 de dezembro de 2009.


Para: Frei José Raimundo da Silva Oliveira
M. D. Pároco da Igreja Santa Rita de Cássia – São Caetano, Itabuna (BA).

Preclaro Frei José Raimundo:

Geminiano - R. Santana

Geminiano
R. Santana

      Li em algum lugar, quiçá em Harold Robbins: “Quem não tem superstição não tem alma”. Um pensamento feliz do escritor nova-iorquino, pois todo homem é supersticioso, é um sentimento inato, gravado na alma de cada indivíduo. Quem ainda não deu uma olhadinha no seu horóscopo antes de fechar um negócio ou numa desilusão amorosa?...
    O brasileiro é uma alma mística, contemplativa, espiritual, mas de atitudes práticas, concretas, machistas. Poucos se permitem confessar os medos, as esperanças, as angústias e as dúvidas que lhes afligem, ao padre, ao pastor, ao psicólogo, ao babalorixá, então, recorrem à leitura dum horóscopo de jornal ou de revista.
    Os astrólogos, os feiticeiros contemporâneos, batem o pé que os nascidos entre 20 de maio a 20 de junho, os geminianos, são instáveis na vida e no amor. Embora sejam versáteis, brilhantes, de palavra fácil, inteligentes, intuitivos, simpáticos, extrovertidos, de amizade fácil, providos de grande senso de justiça e fiéis aos seus ideais e aos amigos mais do que um cachorro, jogam tudo pro alto sem motivo aparente e tornam-se ranzinzas, polêmicos, infiéis, mal-humorados, às vezes, obtusos, cabeças-duras e fracassados.
    Somente quem é geminiano sabe como é difícil ser geminiano. O geminiano, a grosso modo é de paz, mas por ser impulsivo, destemperado, não leva desaforo pra casa, porém, não alimenta ressentimento, maldade, vingança, é capaz de estender a mão ao seu mais figadal inimigo sem resquício de mágoa.
    Alguém pode achá-lo cínico, sem-vergonha, desprovido de resíduos morais, de amor-próprio, ledo engano, é de sua natureza pacífica, gosta da amizade, tem ojeriza ao ódio, à vingança, aos golpes baixos, às articulações nocivas, enfim, despreza o mal e às maldades...
    Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, nasceu um dia após terminar Gêmeos, canceriano da gema, não acreditava que o comportamento e o destino do homem fossem determinados pela ascendência ou descendência dos astros ou das cartas de tarô ou bruxarias. Porém, a maioria dos seus livros traz alguma passagem dos seus personagens consultando cartomantes, pitonisas, ciganas e astrólogos, o mais famoso deles, é o seu conto “A Cartomante”.
    Para o meu amigo leitor que corre atrás do pão suado de cada dia, peço-lhe que me permita contar de maneira sucinta esse conto machadiano:
    - É um triângulo amoroso entre Vilela, Camilo e Rita. Vilela é o marido de Rita que é amante de Camilo. Rita tem como guru uma cartomante que lhe mostra o caminho do amor e da felicidade...
    Camilo faz pouco de sua ingenuidade e desdenha a cartomante e os seus vaticínios. Certo dia, ele recebe um estranho bilhete do seu amigo de infância Vilela, que lhe solicita um encontro com dia, hora e local.
    Antes do encontro, movido por sentimento de premonição, Camilo deixa de lado os seus pruridos morais e resolve consultar, para desencargo de consciência, a cartomante que tanto desdenhara e termina acreditando no seu embuste.
    Por isso, apressou o tílburi ao encontro de Vilela, mas quando chegou, encontrou sua amante morta e foi morto com um tiro à queima roupa pelo marido traído. – Termina assim o conto de Machado de Assis.
    O geminiano é inapto para o comércio e o empreendedorismo, não obstante ser um vulcão de ideias renovadas, não leva a termo um empreendimento por muito tempo, é emocionalmente inconstante, embora não seja um estroina, valoriza mais as coisas do intelecto e da alma do que bens e dinheiro.
    Tem a fé de São Francisco de Assis numa semana, na outra semana, ele é agnóstico com a mesma veemência e ardor. Não chega ser ateu, mas é incapaz de sustentar por muito tempo as mesmas convicções religiosas e a mesma denominação.
    Embora pareça bronco aos olhos daqueles que julgam pela aparência, o geminiano é versátil intelectualmente, uma cabeça pensante sem ser lógica, tem um desempenho acima da média nas ciências humanas e tropeça na Matemática, na Física, na Química... Consegue dominar bem os seus atos impulsivos, suas atitudes são refletidas e analisadas amiúde, porém, não tem capacidade de síntese, é um prolixo de natureza na fala e na escrita.
    O geminiano tem um coração bandido e leviano, gosta de Maria, é apaixonado por Rita e ama Marina ao mesmo tempo. Gosta mais de sexo de que do coração. Sua paixão dura enquanto não é correspondido pela sua amada, parodiando Vinícius Moraes, o seu amor é eterno se não seduz... O geminiano em matéria de bem-querer, ele é comparado ao alpinista que tem um grande desafio na escalação duma montanha, mas quando a escala a graça é outra montanha mais alta.
    Porém, se o leitor amigo estiver enfadado dessa prolixidade astrológica e rompesse-lhe a paciência e perguntasse:
    -Tu és astrólogo, quiromante, bruxo, cartomante, babalorixá, pai-de-santo ou pitonisa para conhecer tão bem os mistérios da alma e do coração? – responder-lhe-ia em cima da bucha:
    -Meu amigo, eu sou geminiano!..


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna
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Cidade menina - R. Santana

 

Cidade menina
Cidade menina
R. Santana



O dia 28 julho é uma data significativa para Itabuna, é o dia do seu aniversário de emancipação política desde os idos de 1910, este ano, Itabuna fez 101 anos. 101 anos de luta, de trabalho, de desenvolvimento, de prosperidade e de afirmação histórica, uma das principais cidades da Bahia. Uma referência cultural, terra de poetas, de trovadores, de escritores e artistas Uma cidade menina que pouco e pouco deixa para trás sua coirmã Ilhéus que um dia lhe teve mando administrativo e político. Hoje, é o comércio mais pujante e a economia mais promissora do Sul da Bahia.
Itabuna é uma cidade jovem, uma cidade menina de 101 anos... O quê
significa um século para uma cidade? Nada ou quase nada. E, diferente do homem, que vai se quebrantando e se definhando ao longo do tempo, a cidade cresce, se desenvolve, se remoça, e fica mais bonita ao longo dos anos, São Paulo, Paris, Roma, Londres e Nova York são exemplos de cidades muitas vezes centenárias e mais jovens e mais bonitas, cada dia.
Tabocas de Félix do Amor Divino ou Itabuna de Firmino Alves foi amoldada pelos braços fortes dos retirantes nordestinos, dos tropeiros, dos trabalhadores rurais, dos mascates, dos plantadores de cacau, dos vaqueiros, dos comerciários, dos comerciantes e dos burareiros, dos coronéis do cacau, também, forjada com o sangue de pequenos fazendeiros que não se rendiam às tramóias do caxixe.
É um equívoco alguém dizer que Itabuna não tem “identidade cultural”, não tem “história” nem “memória”, é negar Jorge Amado, Valdelice Pinheiro, Plínio de Almeida, Minelvino, Telmo Padilha, Helena Borborema, Walter Moreira, Firmino Rocha, Zélia Lessa, dentre outros. Afirmar que Itabuna não tem “identidade cultural” é negar a FICC, a Editus, a Litterarum, a TV Itabuna, o jornal AGORA, o Clube dos Poetas, as escolas de capoeira e as academias ALITA e AGRAL e o Centro Cultural Adonias Filho, onde se desenvolve dança de salão, dança de rua, ballet, jazz, modelo e manequim, pintura, fotografia, etc., etc.
Seria importante que esta terra respirasse cultura, tivesse educação de qualidade, um Centro de Convenção, alguns Mecenas patrocinando artistas, escritores e cientistas. Seria importante que Itabuna tivesse teatros, museus, salas de cinema, programas culturais em rádio e TVs, mas é recorrente e justo o argumento que esta terra é uma cidade menina, é uma princesinha que ainda não desabrochou e quando o seu tempo chegar, ela irá adquirir os mesmos status de civilização de cidades do Sul e Sudeste do país e quiçá os mesmos fumos civilizatórios do mundo.
É verdade que Itabuna tem políticos desonestos, empresários egoístas e mercenários, porém, é verdade que homens desonestos, criminosos, corruptos, malfazejos têm em todas as sociedades, desde que gente se entende por gente, todavia, é verdade que qualquer sociedade, também, abriga homens trabalhadores, corretos, de idoneidade ilibada, e, graças ao Criador, é maioria, senão, estaríamos perdidos...
Não se pode negar o valor dos bens intelectuais, espirituais e morais na formação de um povo e quão são necessários na definição do comportamento e no caráter do homem, porém, o homem é corpo e alma, matéria e espírito, ambos têm que ser alimentados, ou seja, o homem se alimenta de poesia, de prosa, de pintura, de fotografia, de dança, de filosofia, de religião e doutras expressões culturais, mas se alimenta, também, de pão, de leite, de café, de feijão, de arroz, de carne, de galinha, de peixe, portanto, o homem é um ser interativo, o escritor, por exemplo, é tão necessário quanto o padeiro, o peixeiro, o açougueiro, todos têm sua importância na vida comunitária.
Será que um governo só de filósofos como queria Platão, resolveria os problemas do povo? Não! Pois as coisas ficariam no mundo das idéias e a prática é condição sine qua non da vida. Se Jesus Cristo tivesse vivido, somente, em oração, não praticasse a cura, a multiplicação dos pães, a ressurreição de Lázaro, não teria construído sua igreja que já tem 2000 anos.
Às vezes, certas homenagens prestadas no dia da cidade, por políticos, entidades e indivíduos aos benfeitores comunitários ou pessoas de destaque em determinada atividade, não são justas, são ações bajuladoras, de caráter pessoal, elas não têm o reconhecimento da população, são puxa-sacos, são egos feridos, políticos e intelectuais vaidosos que usam de artifício político ou midiático para se promoverem através do outro que já é reconhecido pela sociedade, não são homenagens verdadeiras.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 02 de agosto de 2011.

Crônica da melhor idade - R. Santana

 

Crônica da melhor idade
R. Santana

 

     A vida é uma mer... merreca!... O homem nasce, cresce e morre. É uma lei irrevogável do Criador. O meu tio Pedro do alto de sua sabedoria de vida diz: “quem novo não morre velho não escapa”. Se o dinheiro pudesse comprar ou adiar a morte, São Pedro estaria com os bancos abarrotados nos céus. Porém o Criador nivelou todo mundo. A partir do nascimento, o indivíduo entra na fila da eternidade. Uns no início, outros no meio e outros no finalzinho... Com o Criador não tem essa de furar fila e, é a única fila que ninguém quer furar. Pelo contrário, alguém cede de bom alvitre:
     - Se quiserdes pode ir. Eu não tenho pressa...
     - Não! Vades primeiro, se lá for bom vens me dizer! - Ninguém tem pressa. Até Cristo no seu momento humano disse: “Pai, afastas de mim este cálice!...”
     O homem é o único animal que tem consciência da morte, da velhice, do final. Os outros animais não têm consciência, eles possuem o inato instinto de sobrevivência diante da iminência de um perigo.
     Nora Ney cantou bem os versos do poeta que traduzem esse drama do ser humano: “...velhice chegando e eu chegando ao fim”. A velhice é o prenúncio da morte. A energia que dá ânimo à vida começa fluir como o som de um violão flui por suas cordas...
     Entretanto, não diria que: “o salário do pecado é a morte”. Diria que o salário do pecado é a velhice. Acho que o Criador deixou a velhice para o homem como sinal de sua limitação, de sua pequenez e para que ele tome consciência que biologicamente obedece a um ciclo da natureza tanto quanto obedece um dos mais insignificantes seres vivos da natureza.
     Graças ao Criador quem pela fé consegue sublimar esses conflitos da velhice e morte, fazendo de sua existência um repositório de promessas e esperanças, é feliz.
     Não faz sentido se aprofundar nos mistérios da vida num diminuto texto, que sigamos o bom senso dos mais vividos: religião, política e mulher não se escolhem se abraça, pois nenhuma responde às nossas aspirações e às nossas perguntas. O homem tem qualidades e defeitos por mais que o sublimemos...
Mas deixando de lado essa filosofia de botequim, passemos falar da velhice e da morte de maneira mais suave e aprazível já que são estados irreversíveis da natureza.
     Comecei dizendo que essa vida é uma merreca para não dizer outra palavra mais cacófona e nojenta. A vida velha, a idade velha, passou chamar melhor idade, mais light para designar sua decrepitude. Agora, como irei chamar de melhor idade? Idade da discriminação, da dor e do sofrimento? Poder-se-ia dizer que é a idade do “junta”. Junta tudo! Junta reumatismo, junta pressão alta, junta diabetes, juntam cardiopatias, juntam doenças respiratórias, junta mal de Parkinson, juntam doenças genitais... seria melhor idade se o homem com a experiência de 50 anos tivesse a vitalidade de 20 anos.
     Quer deixar uma pessoa idosa fula da vida, pergunte-lhe a idade. Se for bem conservada, irá responder-lhe que tem a idade que aparenta, se for decrépita, irá responder-lhe que é falta de educação perguntar a idade do alguém. Quanto mais velha, maior o sentimento ferido. Não pela idade em si, mas, pela consciência do ocaso...
     Lembro-me que numa roda de colegas, a professora H. quis tergiversar quando lhe perguntaram sua idade. Um colega moleque, brincalhão, espirituoso, notando seu embaraço, respondeu:
     - H. é mais velha do que o rascunho da Bíblia!
     - G., estou feia assim, mas já fui uma uva!
     - Eh! H., eu já vi muita coisa neste mundo de meu Deus. Já vi lagarta virá borboleta, cactos dá flor, mas uva virá abacaxi... Esta é demais H., vai com tuas mentiras pra lá!...
     O pai do saudoso vereador Eduardo Fonseca, fundador do bairro que tem o seu nome, tinha ojeriza ser chamado de velho. Certo dia, apareceu um cigano em sua bodega e como não sabia seu nome, chamou-lhe pelo epíteto dos cabelos encanecidos: - velho quanto é um quilo daquela jabá? - Foi o bastante: - velho é molambo que se joga no lixo, me chamo Antônio Fonseca! – Cigano é uma raça que não leva desaforo pra casa, incontinenti: - não quer ser velho gajão?... Então, entra na forja!... – Foi-se embora sem a jabá.
     Um conhecido de mesa de bar, depois de algumas caipirinhas e uns copos de cerveja, filosofava:
     - meu caro, toda essa teoria de melhor idade é balela, é conversa bonita para alimentar o ego dessa gente. Quer uma receita da melhor idade? A melhor idade é aquela que um desconhecido não lhe chama de “coroa”,”tio” ou “vô” e não precisa de acompanhante para pegar os trocados do banco no final do mês e viagra é produto publicitário!...



Autor: Rilvan Batista de Santana
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
Att.: esta crônica está no livro: “Labirintos e Palavras” – Editora Guemanisse – Teresópolis (RJ).








Conheci um imortal - R. Santana

 


Conheci um imortal
R. Santana

     Não o conhecia pessoalmente, eu o conheci no dia 19 de abril deste ano, conhecia-o “en passant” pela leitura aqui e acolá de seus textos literários ou através de ouvir dizer dos amigos e dos menos amigos, às vezes, por curiosidade intelectual, recorria aos seus textos para compará-los aos de Jorge Amado, Adonias Filho, Clodomir Xavier, Telmo Padilha, ou seja, aos meus escritores preferidos da terra do cacau. Mas, conheci anos atrás, nas lides políticas, o seu pai e o seu irmão, porém, faz-se necessário dizer, para ser fiel à verdade, que conheci mais o seu pai do que seu irmão.
     Embora eu goste de poesia, gosto mais da boa prosa. A prosa é mais descritiva e mais acessível a qualquer leitor. A poesia é mais sintética, mais analítica e mais metafórica, poucos mortais entendem a linguagem in tout do grande poeta, tomemos a guisa de exemplo alguns versinhos de dois monstros sagrados da poesia, Bandeira e Drummond:
     “Vou-me embora pra Pasárgada
     Vou-me embora pra Pasárgada
     Aqui eu não sou feliz
     Lá a existência é uma aventura...”

     Ou,
     “No meio do caminho tinha uma pedra
     tinha uma pedra no meio do caminho
     tinha uma pedra
     no meio do caminho tinha uma pedra...”
     Os autores usam uma linguagem figurada para explicar uma crise existencial em que “Pasárgada” é o lugar da boa vida, da felicidade e da oportunidade e a personagem se muda pra lá, enquanto a “pedra” representa o obstáculo do dia a dia, por isto, prefiro a prosa à poesia.
     Foi mais pela prosa do que pela poesia que conheci o escritor de poesias infantis, poeta, contista, cronista, ensaísta e o jornalista Cyro Pereira de Mattos. Sua prosa é leve, solta, narrativa quase coloquial... Sua linguagem é clara, acessível para o culto e o menos culto, o leitor vive os personagens e as circunstâncias de sua prosa e sua poesia naturalmente, diria que o seu estilo se aproxima ao estilo popular de Jorge Amado sem descambar na linguagem chula.
     Cyro de Matos tem orgulho de ter nascido na terra do caxixe, do cacau e da jaca, terra construída por homens aventureiros, homens curtidos pelas intempéries dos sertões da Bahia e de Sergipe, todavia, ele soube sublimar esse regionalismo, numa linguagem moderna e universal.
     No seu livro “O Goleiro Leleta”, Cyro mistura o seu amor pelo futebol com personagens folclóricos e inesquecíveis em quatro lindos causos, onde, no primeiro conto, o escritor dá espaço ao moleque das peladas de várzea. E, poeticamente, despeja suas proezas de jogador artilheiro que numa competição histórica, uma revanche entre o Bahia de Badeco e doutor Viterbo e o Brasil da “rua de cima”.
     A revanche do Bahia, no último domingo daquele ano, no campo da beira rio, com direito a torcida, traves novas e juiz com roupa preta, quase iria para o leito do rio Cachoeira, junto com a bola, se o filho de Augusto Matos e eterno preterido por Badeco, não tivesse condicionado sua entrada no Bahia, e, Badeco na casa do sem jeito, o deixou entrar com sua bola novinha de couro dada pelo pai e fizesse três providenciais gols de olé na defesa, deixando o zagueiro Magarefe a ver navio, depois da festança dos colegas e apupos dos adversários, ele debocha de Badeco que lhe pede pra que continuasse efetivo no seu time:
     - Só se for pra nunca mais sair da ponta-direita!...
     As histórias dos goleiros Galalau e Leleta são exemplos de superação e amor. Galalau um moleque desengonçado, o mais velho do time “Estrelinha da Várzea”, frangueiro no início, que despertava o deboche dos adversários: “Au! Au! Au! Galalau é bom pra mingau!...”, supera sua má condição física e é estigmatizado por belas defesas com uma só mão, além de colocar os outros times no chinelo.
     A história do goleiro Leleta faz jus uma sessão de psicodrama, pois Leleta recebe a notícia de repente que Neco, o seu pai, tinha morrido, num jogo decisivo entre Burburinho do Paraíso e Rio Claro, não obstante Leleta tivesse jogado sob forte carga emocional, fecha o gol e dá a vitória ao time de Burburinho do Paraíso, o seu lugarejo.
     Porém, o contista e poeta Cyro de Matos sai de cena quando ele conta os maus-bocados que Zé Gordinho, o seu amigo de infância, passou por não assistir o jogo do Botafogo de Garrincha, Nilton Santos, Didi e Zagalo com a Seleção Amadora de Itabuna de Santinho, de Florizel, dos irmãos Riela, de Tombinha, de Zé do Carmo e de Abiezer, no velho campo da desportiva, no conto: “O dia em que vi Garrincha jogar”.
     Além da emoção contida que Matos desembucha nesse conto: “... Comecei suar frio e a ficar com a respiração quase presa... Ainda trêmulo, a voz meio engasgada, fiz um esforço e gritei: Garrincha! Garrincha! Garrincha! – ele me acenou, riu e fez com o dedo polegar um sinal indicativo que tudo estava legal...”, ele registra no livro de maneira subjacente que herdou do seu pai o amor pelo futebol: “... O único vício do meu pai estava no futebol, melhor dizendo, a única diversão que ele gostava... Chegava cedo ao estádio, por volta das treze horas, antes mesmo de ser aberto o portão que dava acesso para o local da sombra e da arquibancada”.
     O depoimento de Cyro de Matos sobre o seu pai, reportou-me ao ano de 1973 ou 1974, eu não me lembro bem, embora os fatos sejam verdadeiros, quando rapazinho, conheci o senhor Augusto Matos na campanha de José Oduque à prefeitura de Itabuna. Lembro-me que era um homem moreno, baixo, forte, não sei se baiano, sergipano ou doutro lugar do Nordeste, sei que pelos traços de caboclo não era do Sul nem do Sudeste. Lembro-me que era um homem simples de poucas letras, um jeca da palavra, mas naquela época era tido como grande fazendeiro de cacau e empresário na locação de imóveis, eu recordo-me de ter ouvido José Oduque lamentar sua desdita de locador: “... esse negócio de aluguel de casa é com Augusto Matos”.
     Augusto Matos, naquela época com suas palavras simples, de homem inculto: “... antigamente vocês comia na cuinha, agora, com Zé Oduque vocês vai comer no cuião!”, conseguiu avalizar e alavancar a candidatura de José Oduque e fazê-lo prefeito. O seu exemplo de homem do povo ficou no folclore da política itabunense.
     Hoje, muitos anos depois, foi que conheci pessoalmente o seu filho, o poeta Cyro de Matos, preocupado com a construção de uma academia de letras itabunense, certamente, ele empenhará o seu nome e o seu prestígio de escritor bem sucedido, junto aos outros escritores, na fundação dessa Academia de Letras de Itabuna – ALITA, uma casa que irá zelar pela palavra e pela escrita. Uma casa que irá corrigir as injustiças feitas aos escritores do Sul da Bahia e aos cultores da literatura e da arte.
     Para o jurista Marcos Bandeira: “Cyro só precisa morrer para ser imortal”, para mim, bocó da palavra e da escrita, que nunca viu um imortal de carne e osso, que o mortal não é imortal, regozijo-me por ter conhecido em vida, Cyro de Matos, um imortal!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA - ALITA
Imagem: Google

Doglândia - R. Santana


Doglândia
R. Santana

        Os cachorros estavam em polvorosa, todos queriam falar ao mesmo tempo. O cachorro que estava com o microfone pedia silêncio e ordem:
 - Senhores, há uns 15 minutos que lhes peço silêncio e ordem para que eu possa ler a pauta. Depois os senhores reclamam dos humanos... – esbravejou.
 A Confederação dos Cachorros Nacionais – CCN, tinha marcado uma assembleia para discutir os problemas urgentes que a grosso modo eram os empecilhos para que todos tivessem uma digna vida de cachorro.
Lá estavam representados todos os cachorros do país: do vira-lata ao sofisticado pit-bull do presidente da república de Doglândia. Nas primeiras cadeiras ficaram os Poodles, os Rottweilleres, os São Bernardos, os Yorksires, os Malteses, os Labradores, os Huskys Siberianos, os Foxes Terrieres e os filas brasileiros.
Lá em Doglândia também se encontravam: o cachorro do presidente, o cachorro do ministro, o cachorro do secretário, a cachorra da primeira dama, o cachorro do deputado, o cachorro do senador e o cachorro do ministro da Justiça. Todavia quem estava conduzindo os trabalhos, era um cachorro barbudo, sem pedigree, mas que tinha notoriedade nacional, pois transitava em todas as camadas sociais, nas classes sociais pobres, ele tinha mais penetração.
 - Senhores, nós iremos falar inicialmente, sobre a nossa comida que com algumas exceções, torna-se cada vez pior – alguém no auditório solicita à palavra:
- Senhor Secretário, eu represento o Nordeste. A vida de cachorro lá não é fácil, nós comemos as sobras dos nossos amigos humanos. A recíproca que “é melhor ter um cachorro amigo do que um amigo cachorro”, lá não é verdadeira. Esse negócio de ração é pra cachorrada rica do Sul de Doglândia. Eu soube que aqui na Capital Federal, os cachorros almoçam alcatra e filé mignon... – o orador não terminou de falar:
 - uau, uau, uau, uau, uau...o latido era geral!...- o cachorro Secretário bateu na mesa:
- Senhores cachorros, assim não é possível! A algazarra não constrói. Ganhar no grito é coisa de humano, temos que ouvir o nosso orador, depois cada um se manifesta – o silêncio voltou a reinar no auditório.
- Ia dizendo que os cachorros dos deputados, os cachorros dos senadores, os cachorros dos ministros... comem filé mignon, alcatra e outras delícias humanas, quando fui interrompido. Não é nenhuma aleivosia, é verdade, aqui todos passam bem, lá no Nordeste, nem os nossos amigos humanos degustam dessas iguarias... – foi interrompido mais uma vez:
- O Laulau me concede um aparte?
 Aparte concedido. Porém, gostaria de informar ao cachorro amigo, que não me chamo de Laulau, mas de Lulinha, fique à vontade! – esclareceu o orador.
-Desculpe-me companheiro, tudo começa com “L”, troquei alho por bugalho. Mas quero esclarecer ao nobre orador que onde há fumaça, existe fogo. Não é de todo mentira, sei que isso acontece quando os nossos amigos humanos deixam os seus sobejos. Geralmente, os cachorros daqui comem comida industrializada em nome de uma boa saúde e, diga-se de passagem, alimentação cada vez mais fedorenta, come-se apulso... é àquela história: “quem não tem cachorro, caça com gato”. A mídia extrapola um pouco, mas não é de todo mentira.     - Justificou o orador.
O Secretário mais uma vez, chamou à atenção dos demais companheiros para não divagar com discussões estéreis de somenos importância, lembrava-lhes que havia uma pauta extensa e significativa para maioria:
- Senhores cachorros, não vamos transformar nossa assembleia em um caldeirão de futilidades. Se os nossos amigos estão comendo bem na Capital Federal não lhes cabem críticas, o importante é que trabalhemos para que todos tenham uma vida de cachorro digna. – falou o Secretário.
No meio da cachorrada surgiu uma cachorra magrinha, de pelos luzidios, da raça Basset, doida para falar. Pelo seu pequeno tamanho e sua voz rouca não tinha conseguido ainda ser ouvida. Pelos olhos de lince do Secretário, foi enxergada de longe, com as mãozinhas levantadas pedindo para falar.
- Senhores, nós vamos ouvir à senhorita ali do meio! – interrompeu o Secretário. Todos fizeram silêncio. A pequerrucha com um bonezinho branco e óculos escuros se destacava pela beleza.
 - Amigos, eu comungo com o cachorro Secretário. Se houver dissensão entre nós, jamais iremos ter sucesso nas nossas reivindicações. A comida não é a coisa mais importante das nossas discussões. Eu sou do Nordeste, jamais irei trocar uma buchada de carneiro ou um pedaço de carne de bode por um prato refinado de caviar. Além disso, lá desfrutamos de liberdade que não a encontramos aqui. – todos foram unânimes nas ovações.
- Muito bem senhorita! Posso saber sua graça? – perguntou o Secretário.
- Hanna!
- Senhorita... – interrompeu a cachorra:
-Por favor, pode me tratar por “senhora”, embora eu seja nova, já tenho três filhotes e um marido. – advertiu Hanna.
- Eu gostei do seu aparte. A senhora foi lúcida e objetiva em suas colocações. Temos que nos unir naquilo que é do interesse da maioria e não aos casos pontuais. O cachorro do presidente, do ministro, do deputado e de outras autoridades, são cachorros que vivem no bem bom e milhões doutros cachorros passando fome e necessidade. Por isto, na pauta colocamos os assuntos relevantes e do interesse da maioria. – definiu o Secretário.
Uma Poodle tratada, cheia de lacinho, perfumada, de nariz arrebitado, suspendeu a mão pedindo pra falar. Foi atendida, pois estava com a mão estirada fazia algum tempo:
- Senhores, eu não concordo com o Secretário que tenhamos que seguir literalmente sua pauta. Ele definiu muito bem os assuntos, mas se esqueceu de acrescentar em sua pauta “o que houver...”, de praxe em todas as reuniões, às vezes, surgem coisas importantes para discussão que não estão na pauta! – todos concordaram. - O Secretário, político, polido e educado, pediu-lhe para que a elitizada cachorra continuasse sua fala:
- Senhores, eu não quero causar nenhum mal estar, porém, têm coisas que são do interesse duma classe privilegiada que passam ser do interesse de todos pela gravidade e... por exemplo... - fez uma pausa como se tivesse esquecido de algo, aí começou uma balbúrdia...
– O Secretário teve que intervir:
- Senhores, quando um cachorro fala, o outro murcha a orelha. Vamos ouvir as colocações da senhorita Poodle! – a balbúrdia foi controlada.
-Senhores cachorros, o meu nome é Laika, moro em uma casa rica aqui na capital de Doglândia. A minha queixa talvez não tenha sentido para maioria da minha raça, mas muitos irão considerar a minha queixa procedente. Explico-lhes: - Eu e mais milhares de cachorros somos agredidos no dia a dia em nossa natureza. Alguns humanos sublimam suas frustrações, seus complexos, suas fobias, suas decepções amorosas em cima dos cachorros. Enchem-nos de perfume, de laços de fita, de vestuário, transformando-nos em seus bibelôs de luxo e de prazer. Pensam os humanos que é fácil ficar o tempo todo perfumado ou cheio de talco? Não, não é fácil. Quero ter cheiro de cachorro. Além disso, senhores cachorros, muitos nos usam em suas fantasias sexuais doentias. As filhas das dondocas nos aborrecem, levando-nos pra aqui e pra acolá contra nossa vontade. - Tenho dito!... – todos bateram palmas de pé. A discussão continuou. Um vira-lata usou da palavra para manifestar sua vida de cão vagabundo:
-Cachorros amigos, eu não tenho dono, moro na rua, não me queixo por isso. Sou livre. Vou para onde quero sem dar satisfação a ninguém, mas nem tudo é flor! Não desejo perfume nem talco, todavia, sinto falta de alguns cuidados como um banho de vez em quando, remédios, inseticidas para debelar os nossos inimigos carrapatos e pulgas. Hoje, antes de chegar aqui, corri como um cachorro-louco, porque os humanos estão com uma carrocinha levando os cachorros sem dono para fazer linguiça. Quando o cachorro é saudável, é bonito, eles deixam-no de quarentena até surgir um humano que se interesse e leve-o para sua casa. Os humanos fazem isso também com os seus filhos adotivos. Por isso, quero passar um abaixo-assinado, para os senhores entregá-lo à Sociedade Protetora dos Animais, em nome de todos. – concluiu.
O Secretário comunicou à Assembleia que o cachorro de Bush, Barney, tinha tido a gentileza de enviar um e-mail, desculpando sua ausência, justificando as preventivas medidas de segurança que tinha de seguir para não ser mordido pelo cachorro de Osama bin Laden, terrorista raivoso, que quando não mordia, explodia carrocinhas de bombas, espalhando carne de cachorro para todos os lados... Alguém da plateia, intempestivamente, sem os mínimos requisitos de civilidade, interrompe a fala do Secretário:
- Não seria necessário ler as desculpas desse famoso cachorro! Ele quer fazer média diplomática com os seus irmãos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Para mim, tanto o cachorro de Bush e de Osama são da mesma laia. Dou um pelo outro e não quero volta! – mesmo sem ser chamado, foi aplaudido com fervor.
- Senhores, em todo lugar há bons e maus cachorros. Cachorros sérios, cachorros corruptos e cachorros ladrões ocupam simultaneamente, os tribunais, os legislativos, os executivos, os Estados Maiores, as Forças Armadas, as polícias, os bancos, as indústrias, o comércio, enfim, como os humanos, nós temos, também, tumores benignos e malignos, mas graças ao nosso protetor São Roque, os benignos são maioria. – todos assentiram.
- Senhores, nós estamos aqui há 4 horas, já colocamos enésimos problemas, porém, nenhuma proposta para encaminhamento. Quero ouvir, doravante, propostas sucintas para solução dos nossos problemas. Para racionalizar os nossos trabalhos, de agora em diante, somente o cachorro inscrito usará à palavra por um minuto, um minuto e meio para réplica e tréplica, os demais cachorros usarão a prerrogativa do voto. – o Secretário exigiu objetividade dos conferencistas e delegados, surge à primeira proposta:
- Senhores, meu nome é Kid, nasci aqui em Basilândia, capital do país e sou companheiro do ex-deputado Robert Justus. Gostaria de levar aos meus pares à proposição: “... serão denunciados ao Fórum Internacional dos Cachorros – FIC, os corruptos, os corruptores, os traficantes, os ladrões, os sonegadores, os mentirosos, os facínoras. Que sejam presos sem direito a sursis ou gozem de redução progressiva de pena, suas aposentadorias anuladas, suas rações reduzidas e seus bens confiscados...” – não terminou de falar. As palmas estridentes e os gritos de vivas ouviam-se nas galerias, nos mezaninos e até fora do prédio. Parecia que Kid tinha solucionado, com uma dúzia de palavras, os males de 500 anos de história de Doglândia. O Secretário, também convencido da panaceia de Kid, disparou a campainha, conclamando para que todos retornassem aos seus lugares, que iria formalizar a proposta:
- Cachorros amigos, o senhor Kid tem uma proposta interessante, acho que teve apoio da maioria absoluta. Quero apenas convidar os cachorros advogados para analisarem os aspectos jurídicos, em seguida, encaminharemos formalmente aos órgãos da República e aos Fóruns Internacionais... - os sábios juristas já se encaminhavam pra mesa, quando do fundo da sala se ouve uma voz de barítono:
 -Senhores, um momento, eu gostaria de fazer algumas considerações se me for permitido... –era um fila brasileiro que pelo seu tamanho, ele tinha se acomodado nas poltronas do fundo por serem mais espaçosas. O Secretário concedeu-lhe a contragosto à palavra:
-Senhor, a proposta do nosso companheiro Kid já foi ovacionada e encaminhada à mesa para ser formalizada. Concedo-lhe à palavra se for uma questão de ordem, senão, que não haja solução de continuidade em nossa reunião!
- Senhor Secretário, sou um tabaréu do interior, não sei bem o que é “questão de ordem” e não me interessa saber. Só sei que estava aqui em meu canto lhes ouvindo e ruminando no meu pensamento o certo e o errado. Sei também, que uma democracia se caracteriza pela opinião de todos, inclusive, a opinião dos que não concordam. – o desconhecido se firmava...
-Não estamos aqui para cercear o direito de ninguém, mas o conflito não é bem vindo em matéria discutida e aprovada. – falou o Secretário.
-Concordo com o ilustre Secretário quando fala em matéria “discutida e aprovada”. O senhor Kid teve a sorte de sua proposta ser aprovada sem discussão como um axioma. Não sei se sua proposta resolveria os nossos problemas endêmicos. Não me agrada a onda de “denuncismos”, de delações, de dedos-duros, de falsos moralistas. Já vimos esse filme com os humanos, nada melhorou, nada solucionou... – foi interrompido:
- Seu nome, senhor? – perguntou o cachorro Kid. – Descartes, Senhor!
-Senhor Descartes, sua crítica a priori à nossa proposta, teria que ser embasada numa solução – argumentou Kid.
 - Acho que não existe uma solução à vista, de imediato. Não se resolvem maus costumes, somente, com denúncias, delações, decretos e punições. É necessário que se crie uma cultura ética duradoura de pais para filhos. Denúncias vazias, poderes corrompidos, delações, impunidades e injustiças são os exemplos que os humanos estão nos oferecendo, ultimamente, sem soluções efetivas, sua proposta é semelhante. Pergunto-lhe e aos demais companheiros, é essa a solução que queremos?... – contra-argumentou. A maioria dos cachorros presentes, estava dividida. Um burburinho começou tomar corpo, foi necessário que o Secretário disparasse a campainha pedindo-lhes silêncio:
-Senhores, nós não podemos continuar o trabalho nesta balbúrdia. Silêncio!... Uma oradora está inscrita e quer falar. – as coisas foram se acomodando. Todos viram quando uma cachorra gatinha subiu no palco com um papel nas mãos com a intenção de dizer alguma coisa:
-Senhores e senhoras, eu me chamo Picles da família Poodle, uma das famílias mais elitizada de Doglândia. Eu concordo um pouco com o senhor Descartes, o “denuncismo” termina atingindo e enxovalhando inocentes. Neste país todo mundo tem o rabo preso, principalmente, os poderosos, por isto, escrevinhei uma proposta e gostaria de ler o resumo para os senhores. – e leu alto para que todos ouvissem-na, desde o cachorro da primeira fila até o último do mezanino ou da galeria, o sistema de som lhe ajudava:
- A minha proposta consiste em:
- Eleger 16 de agosto o dia do protesto, doravante. Nesse dia, faríamos manifestações em praças públicas, na mídia, com o auxílio de cachorros famosos como Floquinho, Rin Tin Tin, Scoby Doo, Snoopy, Bidu, Banzé, Ideiafix e outros artistas, divulgando e exaltando as boas ações da nossa raça;
- Os cachorros privados e de rua espalhariam pum, coco, xixi, pipi, nos tapetes, dos órgãos públicos e empresas privadas, nas ruas, nas praças no comércio nos bancos, nas indústrias, proporcionais às ações ruins praticadas no ano anterior, ou seja, quanto maior tivesse sido os escândalos, em dobro seria a sujeira;
-Deixarmos a critério dos órgãos policiais, da Justiça, do Ministério Público, a tarefa preventiva, investigativa e punitiva;
-Enfim, que as más ações não sejam as manchetes principais de qualquer mídia, que criemos na mídia uma consciência e uma cultura éticas. -Tenho dito!- as aclamações foram duradouras e estridentes.
Pickles tinha surpreendido a cachorrada. Sua proposta não era uma caça às bruxas ou um ode à impunidade, mas um drama sem final trágico.
Não houve mais aparte nem réplica, nem tréplica, talvez, a cachorrada estivesse cansada. À saída, alguém falou com Spinoza:
- E aí cachorro filósofo?
- Se a razão não resolve, talvez, a merda e o xixi sejam a solução!
Assim terminou a assembleia e o grande encontro da cachorrada em Doglândia. Qualquer semelhança não é mera coincidência, é semelhança mesmo!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Foto: GOOGLE




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Carta para Amanda - R. Santana

 

Carta para Amanda
R. Santana

Querida amiga:


Recebi sua cartinha carinhosa e cheia de elogios que a humildade e a prudência me impedem de divulgá-la na integra, porém, sem os afáveis e não merecidos adjetivos, não vejo motivo de não lhe responder, pelo menos, parte de sua cartinha. Não cuide que não lhe goste, que não lhe tenha um afeto maior que a minha querida cidade de Itabuna, que não lhe queira bem, é que o seu amor por mim, impede-lhe de enxergar os meus obstinados defeitos, aí, os seus elogios me deixam sem jeito. Se eu estou bem de saúde? Claro que estou bem, prova disto, estou lhe respondendo quase tudo que me perguntou, mas lhe sou sincero ao afirmar que o homem deveria viver no máximo 35 anos e se gozasse de saúde. É pouco tempo? Não, minha amiga, veja os homens que marcaram a História e viveram menos do que 35 anos de vida: Alexandre, o Grande, Jesus Cristo, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Mozart, Noel Rosa... Trinta cinco anos, o homem está no ápice de sua atividade física e mental. Vejo como hipocrisia alguém falar da velhice como a “melhor idade” se a velhice é a idade da dor aqui e acolá, a idade mal de Alzheimer, da diabetes, da hipertensão, do mal de Parkinson e doutras patologias geriátricas, além do velho ser por toda vida refém de remédios. Vida boa, minha amiga, é aquela que se vive em abundância!... Querida Amanda, certa feita um médico me disse que o remédio é uma necessidade, é importante morrer com dignidade... Para mim, digna é a morte de um jovem pilotando um Fórmula 1 (razão de sua vida), do que um velho que morre entubado de remédios numa UTI para não sentir dor. O remédio para o idoso, minha amiga, é como se alguém consertasse um carro velho, conserta-se o câmbio, degringola a embreagem, solda-se o radiador, o sistema de temperatura não resiste. Porém, minha amiga, quando tu me perguntas (olhe como estou esnobe, o verbo na 2ª. pessoa...), se ainda sou católico, tomo como uma provocação: “Quo vadis domine?”, não poderei responder como Jesus Cristo, que respondeu ao apóstolo que fugia para não ser queimado por Nero, imperador romano: “Já que abandonaste o meu povo, vou a Roma para ser crucificado, outra vez”, sou católico. O bom cristão nunca fica pulando de galho em galho. Hoje, que as garagens deixaram de guardar os carros para servirem de sala para um novo pastor, bem faz quem é fiel à igreja fundada por Jesus Cristo. Conheço-te, sei que vais me recriminar, tu vais alegar que é melhor abrir uma “igreja” todo dia, do que uma cadeia, porém, não sei qual é o mal maior: aquele que explora a fé dos incautos, ou, aquele que se deixa arrastar na vereda do pecado? Tu és inteligente, tens a retórica e a lógica no sangue, tu deves discernir com precisão o que é melhor para o homem. Querida Amanda, a igreja de Roma, ao longo desses XX Séculos, cometeu vários acertos e muitos equívocos, mas não é à toa que é a única igreja que está em pé depois de 2000 anos. O cisma provocado por Lutero e Calvino, não lhe foi tão prejudicial quanto essa enxurrada, hoje, de denominações religiosas, onde picaretas, charlatães, falsos apóstolos e falsos pastores oferecem curas milagrosas, aproveitando-se do desespero de pessoas simples e ingênuas e amealhando riquezas espúrias. Acho que a igreja católica está em crise de vocação. Os nossos sacerdotes, com algumas exceções, não possuem preparo intelectual nem vocação religiosa para exercerem bem os seus ministérios, são pálidas figuras que não têm autoridade nem liderança para arrebanhar mais ovelhas, deveriam possuir, pelo menos, a ousadia protestante para aliciar novos seguidores. Suas homilias não cativam nem atraem... Os ritos católicos pecam pelo tempo, embasados em releituras bíblicas desde São Paulo e São Pedro, se não fossem alguns sacramentos como a eucaristia, o batismo, a unção dos enfermos e o matrimônio, afora, a música e a mídia, a debandada dos fiéis para essas igrejas de porta de garagem, dos falsos curadores, seria maior. Minha amiga, tu és a rainha da tentação, quisestes saber, também, se eu gosto do novo padre, tu sabes que não tenho papas na língua, que peco pela franqueza, ademais, a igreja não tem mais tribunais de inquisição, temos um estado democrático de direito, nem a ABIN tem subsidos para molestar o cidadão direito. Ademais, os bispos atuais, têm outra mentalidade e não poderiam ser diferentes, os meios rápidos e modernos de comunicação, escancaram para o mundo os deslizes, as truculências e o autoritarismo das autoridades em tempo recorde, por isto, responder-te-ei a seguir, as entrelinhas da tua capciosa curiosidade. Não gosto nem desgosto do nosso padre, para mim, ele não fede nem cheira, ele não me diminui nem me acrescenta, é uma pessoa inteligente, mas desprovido de carisma, sem grande vôo, acho que não irá passar de pároco, seu discurso evangélico é igual resma de papel pardo, grande e amarelo! Esta semana, ele estava uma arara, se enrolou numa fábula, quis mandar um recado para alguém que o critica, disse que ignora os seus desafetos - não aprendeu a lição de Jesus Cristo, que mandou perdoar setenta vezes sete, ainda mais, na Semana Santa... Espero nunca ser um infausto para ti, pois a nossa benquerença não é virtual, a nossa amizade não foi construída em falsa dialética, tu nunca serás decepcionada por mim, soubestes sempre aceitar as minhas qualidades e tolerar os meus defeitos. Do teu amigo, que te preza e estima,

Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 03. 04.2012 :
Rilvan Santana

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