4.07.2026

Contagem regressiva - Ana Cristina César

 

Contagem regressiva, de Ana Cristina César

A carioca Ana Cristina César (1952-1983) infelizmente ainda é pouco conhecida pelo grande público, apesar de ter deixado uma obra preciosa. Embora tenha vivido uma vida curta, Ana C., como também ficou conhecida, escreveu versos muito variados e sobre os mais diversos temas.

O trecho que trazemos, retirado do poema mais longo Contagem regressiva (publicado em 1998 no livro Inéditos e dispersos) fala sobre a sobreposição de amores, quando escolhemos nos envolver com uma pessoa para esquecermos outra.

A poetisa deseja, a princípio, organizar a sua vida afetiva, como se fosse possível ter controle total dos afetos e superar aqueles que amou.

Mas ela acaba descobrindo que o que amou nas relações anteriores permanece, mesmo com novos parceiros.

Se gosta de poesia achamos que também irá se interessar pelos seguintes artigos:

(...) Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google


 

Sucesso no Trabalho é um Esporte de Equipe - Robert Tamasy

 

Sucesso no Trabalho é um Esporte de Equipe

Por Robert Tamasy

 

Se quisermos encontrar um modelo para sucesso no ambiente de trabalho atual não precisaremos olhar para mais nada além do corpo humano. Enfermidades e doenças são geralmente o resultado de uma parte do corpo não estar funcionando como deveria ou não estar funcionando de modo algum. Imagine um corpo saudável sem um coração pulsando ou sem o cérebro dirigindo os sistemas do organismo. Mesmo que todos os demais componentes estivessem em perfeito funcionamento, a vida sem um dos mais importantes órgãos não seria possível. 

 

De forma semelhante, o sucesso no ambiente de trabalho – individual ou corporativamente – é resultado de muitas pessoas que possuem diferentes pontos fortes, dons e níveis de experiência compartilhar uma missão em comum. 

 

Recentemente tive a oportunidade de me reunir com membros de uma pequena empresa, primeiramente um a um, depois em grupo, para revisar suas respectivas características, forças, necessidades para trabalhar eficientemente com outras pessoas, e seu comportamento em momentos de estresse, quando suas necessidades não são satisfeitas. Através do uso de uma ferramenta de avaliação chamada de Método Birkman, eles aprenderam muito sobre si mesmos e sobre os demais.

 

Um dos grandes benefícios desse tipo de interação é aprender a valorizar e apreciar a capacidade e as diferenças uns dos outros, e como trabalhar em conjunto de forma mais eficiente, compreendendo como eles podem se complementar ao abraçarem vários projetos e tarefas. Os membros dessa firma aprenderam, como geralmente acontece, que o todo pode e deve ser maior do que a soma das partes. 

 

Vemos isso claramente demonstrado em equipes esportivas – atletas desempenhando suas funções e guardando suas posições, seja num campo de futebol, seja numa quadra de basquete ou num rinque de hockey. Todos têm papéis diferentes, mas para que o time vença todos precisam fazer bem o seu trabalho.

 

O conceito de equipe também é frequentemente apresentado na Bíblia, mesmo que um relacionamento crescente com Deus seja algo muito pessoal e individual. Aqui estão alguns princípios que a Bíblia cita:

 

O valor da fricção criativa.  Metal friccionado contra metal é uma antiga forma de afiar uma lâmina. De igual modo nossa interação uns com os outros, mesmo quando resulte em aparente conflito e caos, é uma das melhores maneiras de planejar, avaliar alternativas e descobrir novas soluções para os problemas. “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro.” (Provérbios 27:17). 

 

O benefício do apoio mútuo.  Ás vezes, podemos estar determinados a fazer as coisas do nosso próprio jeito e resistir ao envolvimento de outros.  Entretanto, a combinação das forças, capacidades e habilidades de duas ou mais pessoas trabalhando juntas invariavelmente se prova mais eficaz e produtiva.  “É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se... Um cordão de três dobras não se rompe com facilidade.”  (Eclesiastes 4:9-12). 

 

A importância do aprendizado compartilhado.  “Nenhum de nós é mais inteligente do que todos nós juntos” – diz o ditado. Uma das melhores maneiras de sermos uma equipe eficiente é compartilhando o entendimento, sabedoria e compreensão que adquirimos e obtivemos de outras pessoas.  “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros.” (II Timóteo 2:2). 

 

 

1.   Você á passou pela experiência de ter parte importante do corpo sem funcionar de modo apropriado? Quais foram os sintomas e como o restante do corpo tentou compensar dando suporte ao órgão ou membro doente? 

 

2.   Como você vê seu trabalho diário, como indivíduo ou como parte de uma equipe de pessoas trabalhando com vistas a uma meta ou objetivo em comum?

 

3.   Em sua experiência, quais os maiores benefícios ou recursos decorrentes da abordagem das oportunidades e desafios de trabalho como equipe? Como uma perspectiva de equipe pode enriquecer o crescimento e fertilidade espiritual?

 

4.   Quais os maiores obstáculos ou impedimentos para se trabalhar eficientemente como equipe?

 

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Romanos 12:4-8; 1Coríntios 12:12-26; 2Coríntios 3:5; 2Timóteo 1:13.

 

4.06.2026

Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos

 

Textos dos outros — Crônica “Um milagre”, de Graciliano Ramos

Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.

A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve-Rainhas.

Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.

Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada.

Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.

A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.

Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.

(Crônica garimpada no livro As cem melhores crônicas brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos, editora Objetiva.)

*** 

NOTAS

1. Ninguém deveria ter que grifar e glosar um texto de Graciliano Ramos com loas pra convencer outro adulto bem letrado de que aquilo é bom. Mas há gente esclarecida que, em tempos de fome e feiura, atravessa campos cheios de abóboras, pepinos, melancias, e chega lá na outra ponta dando instruções aos serviçais: “não vi nada de especial, podem passar o trator”. Às vezes é a mesma gente que mostra às visitas e leva à grande feira da cidade… capim. Capim que qualquer um cultiva e que nasce nos terrenos mais desgraçados e inférteis. Então estou enfiando os pés nas botas e colocando a cabeça no chapéu pra conduzir uma curta visita guiada a este lote.

2. Primeiro, uma colheita de construções que não são mato: “anúncio miúdo”, “sentimento forte”, “em conformidade com o intelecto do seu portador”, “oração artística”, “uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão”, “essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência”, “fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos”, “a fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se”, “refugiar-se no banheiro”, “estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada”, “[um milagre pequeno, mas] bem inferior aos antigos”. Nada rebuscado, tudo sem rodeios e muito simples — mas é o simples que poucos conseguem compor…

…e que rudes leem em estado apático. Existem leitores habitados por um tipo de serenidade palerma que cruzam um texto pleno de construções atípicas e não percebem o que é bem dito. Transportam à leitura interesses mesquinhos como a fofoca, então só querem saber o que aconteceu e com quem.

A experiência de poder acessar os trechos mais grifados dos livros digitais no Kindle mostra que aquilo que vinga com o povo são as passagens sentimentais e de autoajuda, não as construções industriosas e as sutis análises de comportamento dos personagens. Nessa agremiação de motor biblioterápico, um Borges faria o recurso da canetinha amarela secar pelo desuso. Se o Brasil é uma pessoa, quem tem o hábito de ler é uma unha e quem sabe ler é a cutícula dessa unha.

2.1. Acredito que um bom autor clarividente atine que de todos os seus leitores — sejam eles vinte pessoas ou um milhão — só um baixo percentual vale a pena. Mas o bom autor não pode expressar isso em público. Ele depende dos maus leitores — o leitor por modismo, o leitor pra passar o tempo, o leitor voyeur, o leitor livro-é-sapato-elegante, o leitor que acha que é capaz e não é, o leitor parasita só-continuo-lendo-se-me-der-atenção-sempre-que-eu-quiser, o leitor isso-eu-também-faço, o leitor OK-mas-prefiro-Shakespeare, o leitor sem critério que acende o mesmo incenso à realeza e aos vermes — pra se estabelecer no mercado das letras. Esse mercado já não é exatamente livre, pois ser bem relacionado favorece muitas coisas. Menos livre ele é quando o bom autor fica refém de tontos. ¿Quantos tontos não “amam de morte” Machado de Assis? Nem é preciso se esforçar em cálculos, basta estar vivo e atento pra fazer uma estimativa. Ter voltado ao pó preserva o escritor de tanto mau senso e afetação.

3. Graciliano Ramos é cruel com a personagem da sua crônica, uma mulher que se pensa agraciada por Nossa Senhora e que resolveu homenagear a santa num “anúncio miúdo” de jornal. Ele zomba da simplicidade dela criando um cenário apocalíptico que possa justificar seu melodrama:

“Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro.”

Dá pra imaginar a expressão sardônica de Graciliano, na mente ou também na cara, ao juntar uma metralhadora, um guarda assassinado, gritaria, apitos, correria, buzinas, incêndio, um tropeçar em lençóis, uma testa na quina da mesa, a audição duma bala inexistente. “Momentos de aflição” que teriam feito uma coitada clamar pela mãe de Jesus, de trato mais fácil até pelo estereótipo da mulher acolhedora. Saída praticamente ilesa do pandemônio, ela agradece a graça alcançada — não tête-à-tête com a Virgem, pois não se atreve a tanto, mas publicizando a dádiva a “viventes ordinários”. Se o classificado foi algo que Graciliano de fato viu e não inventou, é um agradável exercício fantasiar a mulher pegando um dos diários seguintes, encontrando seu anúncio sendo estudado e conjecturado nos motivos, sentindo-se humilhada porque não foi tudo isso — ¿quer dizer que uma dor de barriga ou arruaceiros falando alto nas ruas não valiam o esforço de demonstrar gratidão? —, escondendo a folha do marido (ou do filho), sondando vizinhas pra saber se elas leram o jornal. A chacota fica completa no último parágrafo:

“Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.”

Sendo uma variante do gaslighting ou apenas frieza diante dum sentimento religioso forte, essa crônica é ouro.

4. “Um milagre” também mostra que fórmulas de escrita que funcionam pra uns podem ser dispensáveis pra outros, pois dá pra escrever bem de diversos modos. Parecem mais propensos à radicalidade estilística aqueles pitocos com mania de grandeza que acabam colando na fórmula pessoal de um escritor já reconhecido — e inacessível — e tentam aplicá-la a tudo pra forjar finura no debate textual sobre qualidade e bom gosto. Descobrem que o Prestigiado Autor rechaçava adjetivos — e se põem a descer espadas mal amoladas quando encontram quaisquer adjetivos na literatura moderna. Descobrem que a Magnânima Autora rechaçava advérbios de modo — e põem a língua pra fora quero-que-todos-vejam-meu-asco quando se deparam com advérbios de modo. Por aí vai. ¿E quanto ao Prestigiado Autor e à Magnânima Autora? Embora tenham criado as próprias regras do que cabe ou não na construção de um texto, muitas vezes reconhecem colegas que trabalham com outros valores, às vezes até bem opostos dos seus. O Mario Vargas Llosa ceifador de adjetivos admirava Gabriel García Márquez, O Adjetivoso, e escreveu uma tese de 600 páginas sobre ele.

Por isso aí está uma crônica breve de Graciliano Ramos repleta daquelas palavras que alguns rejeitam de modo incisivo nos seus códigos: justamente, infelizmente, precipitadamente, vagamente (duas vezes), realmente. Mas também não é pra qualquer um acertar assim.

5. Se essas NOTAS ampliaram sua visão da crônica “Um milagre”, recomendo que você a leia de novo.


Fonte: Textos dos Outros

Foto: Google

 

 

Com licença poética (1976) - Adélia Prado

 







Com licença poética (1976), de Adélia Prado

O poema mais famoso da escritora mineira Adélia Prado é Com licença poética, que foi incluído no seu livro de estreia chamado Bagagem.

Como era até então desconhecida do grande público, o poema faz uma breve apresentação da autora em poucas palavras.

Além de falar de si mesma, os versos também mencionam a condição da mulher na sociedade brasileira.

O poema é ainda faz referência a Carlos Drummond de Andrade porque usa uma estrutura semelhante ao seu consagrado Poema das Sete Faces. Drummond, além de ter sido um ídolo literário para Adélia Prado, era também um amigo da poetisa novata e impulsionou muito sua carreira.

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

Canção, de Cecília Meireles

 






Canção, de Cecília Meireles

Em apenas quinze versos, Cecília Meireles consegue compor na sua Canção uma ode à urgência do amor. Singelo e direto, os versos convocam o retorno do amado.

O poema, presente no livro Retrato natural (1949), também conjuga elementos recorrentes na lírica da poetisa: a finitude do tempo, a transitoriedade do amor, o movimento do vento.

Canção

Não te fies do tempo nem da eternidade,

que as nuvens me puxam pelos vestidos

que os ventos me arrastam contra o meu desejo!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,

nácar de silêncio que o mar comprime,

o lábio, limite do instante absoluto!

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã eu morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço

a anêmona aberta na tua face

e em redor dos muros o vento inimigo…

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,

que amanhã eu morro e não te digo…


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

4.05.2026

Açaimei-me



Açaimei-me
Agilson Cerqueira

Visão em Desconstrução

Óleo Sobre Tela 

Agilson Cerqueira 


 Açaimei-me

Agilson Cerqueira*

Não me acontecem epifanias.
Não há clarões, nem súbitas compreensões que reorganizem o mundo.
O que há é a permanência — sólida, repetida — da estupidez.
Ela se infiltra nas falas, nas certezas, nos gestos automáticos.
Diante disso, não argumento, não confronto, não elaboro.
Reduzo-me ao essencial: calo.
Não por sabedoria, mas por economia.
Não por virtude, mas por recusa

*Professor, Engenheiro, Matemático, Prosador e Artista Plástico. 
Licença: Creative Commons.

Amor é fogo que arde sem se ver - Luís de Camões

 







Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor.


Nesse poema, Luís Vaz de Camões (1524-1580), poeta português que dispensa apresentações, trabalha o tempo todo com antíteses, o que alcança a grande expressividade do poema:


Fonte: Cultura Genial

Amor é fogo que arde sem se ver, de Luís de Camões

Imagem de Luís de Camões com coroa de folhas na cabeça

Camões, o maior escritor do Classicismo

4.04.2026

Dúvidas do viver - Agilson Cerqueira







Dúvidas do viver

(Ensaio de Prosa Poética em golpes secos)

Agilson Cerqueira*.


Não sei.
E não importa.
Penso.
Não sai do lugar.
Produção,
Nome bonito pro vazio.
Sinto.
Não explica.
Razão falha.
Sentimento também.
Sem saída.
Cético —
De quê?
Prático —
Pra quê?
Nada sustenta.
Nem povo,
Nem Intelectual.
Ciente inconsciente.
Nem isso.
Não ser —
Sem drama.
Querer ser —
Erro.
O ser não falta.
Nunca houve.
Inquietude corrói.
Insatisfação gasta.
Nada constrói.
Tudo desgasta.
Resta —
Nem resto.
Nem nada.

*Professor, Engenheiro, Matemático, Prosador e Artista Plástico. 
Licença: Creative Commons.


Assim eu vejo a vida - Cora Coralina (1889-1985)

 

Cora Coralina (1889-1985)

Cora Coralina

Nascida em Goiás, Ana Lins dos Guimarães Peixoto (conhecida no meio literário como Cora Coralina) começou a publicar apenas aos 76 anos.

Com pouca educação formal, a escritora frequentou a escola somente até a terceira série do curso primário. Para se sustentar foi doceira e, nos tempos livres, escreveu poemas.

A sua poesia é marcada pelo tom informal e pela relação de cumplicidade que estabelece com o leitor.

Os seus versos giram em torno do cotidiano e das experiências de vida que procura transmitir através da poesia, como é possível comprovar através do poema Assim eu vejo a vida:

 

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.

 

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

Solucionando Conflitos e Disputas nos Negócios - Rick Boxx

 

Solucionando Conflitos e Disputas nos Negócios

Por Rick Boxx

 

Ao longo dos anos venho tendo o privilégio – e o desafio – de ser mediador em disputas entre sócios em diversos negócios. Em grande parte dos casos, encontrar a solução não é algo agradável ou fácil, mas muito necessário. Quando uma pessoa começa a se sentir desconsiderada de alguma forma por seu parceiro o relacionamento pode deteriorar rapidamente. 

 

Essas disputas resultam de muitos fatores, mas comumente são geradas por falhas na comunicação. As acusações do tipo  “ele disse”, “ela disse”, “eles disseram”, se somam e as ameaças de processo se avolumam. Parcerias formadas com as melhores das intenções e grandes expectativas são destruídas – geralmente de modo desnecessário - por causa de um único acontecimento.

 

Por isso é essencial abordar e trabalhar para resolver o problema com cuidado. No processo de mediação, provar que sua posição é a certa não deve ser o maior objetivo, mas, sim, considerar como trabalhar de modo mais eficiente para encontrar uma solução razoável – aquela que deve trazer ganho para todas as partes envolvidas.

 

Falando a Seus seguidores, Jesus fez observações específicas acerca de conflitos interpessoais e sobre como eles deveriam ser resolvidos. Por exemplo, Ele advertiu: “Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. Faça isso enquanto ainda estiver com ele a caminho, pois, caso contrário, ele poderá entregá-lo ao juiz...” (Mateus 5:25).

 

Dois princípios importantes são mencionados aqui. Primeiramente, reconhecer áreas de conflito e resolvê-las antes que pequenos problemas cresçam e se transformem em grandes causas de contenda. Hoje nós chamamos a isso “fazer tempestade em copo d’água”. 

 

O segundo ponto mostrado por Jesus implicava em evitar, sempre que possível, ter que levar uma disputa para ser resolvida por um juiz em um tribunal. As razões para isso são muitas:

 

- Disputas legais são caras.

- AS decisões tomadas pelos juízes podem ser arbitrárias.

- O resultado obtido por meio do tribunal deixa de resolver as questões emocionais e relacionais envolvidas.

- Os grandes recursos da sabedoria de Deus e o poder de cura podem ficar de fora do processo.

 

É verdade que às vezes é inevitável levar uma questão diante do tribunal. Uma ou mais partes podem não estar dispostas a procurar um mediador ou um árbitro que lhes possibilite trabalhar na busca de soluções aceitáveis. Entretanto, isso é uma pena, porque embora resulte num julgamento legal, é grande a possibilidade de que os sentimentos feridos impeçam a continuidade de relacionamentos empresariais que anteriormente eram apreciados. Se você está em conflito com um sócio, procure envolver uma terceira parte sábia e racional, em quem ambos confiem, para ajudá-los a esclarecer o assunto rapidamente. 

 

O apóstolo Paulo, escrevendo para um grupo de cristãos contenciosos da antiga cidade de Corinto, instigou-os: “Quando algum de vocês tem uma queixa contra um irmão na fé, como se atreve a pedir justiça a juízes pagãos, em vez de pedir ao povo de Deus que resolva o caso?  Será que vocês não sabem que o povo de Deus julgará o mundo? Então, se vocês vão julgar o mundo, será que não são capazes de julgar essas coisas pequenas? Por acaso vocês não sabem que nós julgaremos até mesmo os anjos? Muito mais, então, devemos julgar as coisas desta vida! Portanto, se surgir alguma questão dessas, será que vocês vão procurar pessoas que são desprezadas na igreja para julgarem esses casos? Que vergonha! Será que entre vocês não existe alguém com bastante sabedoria para resolver uma questão entre irmãos?” (I Coríntios 6:1-5). 

 

 

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