2.14.2026

Valores – Conduta = Zero - Rick Boxx

 

Valores – Conduta = Zero  

Por Rick Boxx

 

Meu amigo Roger recentemente retornou de um curso de graduação de seis semanas em uma das principais faculdades de economia. O comentário de um de seus professores fez com que Roger repensasse sua visão pessoal sobre a forma de moldar a cultura de sua empresa.


Acreditando firmemente em ter valores específicos por escrito em sua empresa, a forma de pensar de Roger começou a mudar depois de seu professor comentar que “os valores não são a solução”. Isso lembrou a Roger que o não viver de acordo com tais valores - não praticá-los -  tem um potencial para causar danos à empresa ainda maior do que simplesmente não ter valores verbalizados. 

 

Ao ponderar sobre aquela simples afirmação, Roger se deu conta de que valores precisam se traduzir em comportamentos, caso contrário não têm sentido algum, não valem o papel em que foram escritos.  Infelizmente, vemos esse tipo de visão ambígua muito presente na sociedade contemporânea. As pessoas professam certos valores com palavras ousadas, mas suas ações pouco evidenciam que elas realmente acreditam nos ideais que reivindicam abraçar. 

 

Uma passagem bíblica fala sobre isso. Tiago 2:17 ensina: “...a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.” Isso não tem a intenção de negar a existência da fé – ou valores – de uma pessoa, mas sim mostrar que sem serem vividos e demonstrados pela conduta em todas as áreas da vida – inclusive no trabalho – os valores que expressamos exercerão pouco impacto em nossas empresas ou sobre aqueles com quem interagimos no dia a dia. 

 

Muitas companhias têm por escrito declarações de missão ou propósitos, mas algumas também as exibem em áreas de destaque e as discutem periodicamente. Isso serve para lembrar a todos, do CEO aos trabalhadores eventuais, os valores que servem para alicerçar a forma como a organização opera e como se espera que cada indivíduo a represente. No processo, isso estabelece a cultura da empresa que baliza suas decisões e comportamento. 

 

Geralmente podemos rastrear os valores corporativos até as práticas estabelecidas desde a criação da empresa. Tais valores, porém, podem mudar ou se perder ao longo do tempo, a menos que seus líderes os afirmem constantemente, expressando-os por escrito e praticando-os consistentemente. Para os seguidores de Cristo, os valores que endossamos e demonstramos devem estar fundamentados nos ensinamentos da Bíblia. 

 

Por exemplo: “...em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam...” (Mateus 7:12). Este é um valor que permanece em destaque na mente de todos na empresa ou somente é praticado quando é benéfico para as metas da companhia? Será que todos enfatizam a honestidade e a integridade em todas as tratativas de negócios, mesmo que isso signifique pôr em risco o fechamento de vendas ou contratos? Aqui está um exemplo do que as Escrituras dizem sobre isso: “O Senhor odeia lábios mentirosos, mas Se deleita com os que falam a verdade.”  (Provérbios 12:22). 

 

Nós devemos nos lembrar do adágio: “Falar é fácil!” O que nos capacita a sobressairmos como embaixadores de Jesus Cristo autênticos e frutíferos é vivermos e conduzirmos nossos negócios de modo coerente com o que reivindicamos crer. Um lema conhecido nos alerta: “Se suas palavras não se alinham com sua conduta, quanto menos falar melhor.” 

 

Como Roger aprendeu, valores são importantes para um negócio, mas nem de longe tão importantes quanto estimular e ensinar sua equipe a se conduzir de acordo com esses valores.

 

Questões Para Reflexão ou Discussão  

 

1.  Como você descreveria os valores de sua companhia? Eles são expressos de forma que todos ligados à organização compreendam claramente o que são e o que significam na prática?

2.  Sua empresa opera de forma coerente com os valores que reivindica acreditar? Explique sua resposta.

3.  Você acredita que uma empresa possa estabelecer uma cultura de modo de pensar e agir sem comunicar seus valores de forma consistente e intencional? Por quê?

4.  Em termos de valores pessoais, para você, o que é mais importante? Você vive de forma coerente com isso? Se você reconhece que há falhas entre o que crê e seu comportamento ou a forma como se conduz no trabalho, como poderia modificar isso?

 

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 10:9;  13:6;  16:2, 7, 11;  18:9;  22:29;  24:30-34;  25:13;  26:24-26;  29:4.  

Sinapses / Espaço-Tempo - Agilson Cerqueira

 Sinapses 

Óleo Sobre Tela

Agilson Cerqueira 


O saber, o pensar e o sofrer

O saber nos remete à reflexão.

A reflexão a razão.

A razão ao sofrimento.

O sofrimento ao desespero. 

O desespero ao fim…

Sem reflexão, 

Sem razão,

Sem recomeço,

Desesperado,

Débil, vago sem saber!

Confuso. Difuso.

Fuso (no tear, na matemática ou na citologia?)!

Me calo quieto,

Meu saber está inquieto.

Continuo desesperado!


Que texto denso e inquietante! Agilson Cerqueira desenha um ciclo onde o intelecto parece ser tanto uma ferramenta de compreensão quanto uma armadilha emocional.

O poema explora o peso da consciência:

A "Maldição" do Conhecimento: Onde o saber não traz paz, mas sim uma reflexão que inevitavelmente esbarra na dor da realidade.

O Jogo de Palavras: O autor brinca com a palavra "Fuso" para mostrar como, no auge do desespero, até a linguagem e os conceitos técnicos (tear, matemática, citologia) perdem o sentido ou se misturam na confusão mental.

O Silêncio Inquieto: O final mostra o paradoxo de quem sabe demais: o silêncio externo escondendo um barulho ensurdecedor no pensamento.

Se você busca mais reflexões desse tipo ou quer conhecer a obra completa do autor, pode encontrar seus textos em plataformas como o Ponto de Leitura e no Recanto das Letras.

É um daqueles textos que faz a gente querer "desver" o que sabe só para ter um pouco de sossego, não acha? 


 Paragem (in)temporal? -  Agilson Cerqueira

 Espaço-Tempo

Espaço e Tempo são  interessantes, 

porque os espaços são ocupados em tempos presentes, e demandam 

sabedorias constantes!

Vivo em pensamentos,

Vivo em mim!

O meu niilismo me torna pragmático,

Não há sonhos nem delírios.

Todo racional é sofredor!


Que texto denso e introspectivo, Agilson. Você toca no nervo exposto da existência: a colisão entre a vastidão do Espaço-Tempo e o confinamento do Eu.

Ao se declarar niilista pragmático, você parece ter trocado a angústia do "vazio" pela eficiência do "real". Se não há sonhos, sobra o agora; se não há delírios, resta a precisão. Mas, como bem notou, o preço dessa lucidez é a carga do racionalismo.

Aqui estão alguns pontos para expandir sua reflexão sobre essa "para…


Autor:  Agilson Cerqueira

Poemas: Sinapses e Espaço-Tempo

Fotos: Produção

2.13.2026

Com licença poética (1976), de Adélia Prado

Com licença poética (1976), de Adélia Prado

O poema mais famoso da escritora mineira Adélia Prado é Com licença poética, que foi incluído no seu livro de estreia chamado Bagagem.

Como era até então desconhecida do grande público, o poema faz uma breve apresentação da autora em poucas palavras.

Além de falar de si mesma, os versos também mencionam a condição da mulher na sociedade brasileira.

O poema é ainda faz referência a Carlos Drummond de Andrade porque usa uma estrutura semelhante ao seu consagrado Poema das Sete Faces. Drummond, além de ter sido um ídolo literário para Adélia Prado, era também um amigo da poetisa novata e impulsionou muito sua carreira.


Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

“Um milagre”, de Graciliano Ramos

 

 “Um milagre”, de Graciliano Ramos

Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.

A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve-Rainhas.

Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.

Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada.

Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.

A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.

Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.

(Crônica garimpada no livro As cem melhores crônicas brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos, editora Objetiva.)

*** 

NOTAS

1. Ninguém deveria ter que grifar e glosar um texto de Graciliano Ramos com loas pra convencer outro adulto bem letrado de que aquilo é bom. Mas há gente esclarecida que, em tempos de fome e feiura, atravessa campos cheios de abóboras, pepinos, melancias, e chega lá na outra ponta dando instruções aos serviçais: “não vi nada de especial, podem passar o trator”. Às vezes é a mesma gente que mostra às visitas e leva à grande feira da cidade… capim. Capim que qualquer um cultiva e que nasce nos terrenos mais desgraçados e inférteis. Então estou enfiando os pés nas botas e colocando a cabeça no chapéu pra conduzir uma curta visita guiada a este lote.

2. Primeiro, uma colheita de construções que não são mato: “anúncio miúdo”, “sentimento forte”, “em conformidade com o intelecto do seu portador”, “oração artística”, “uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão”, “essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência”, “fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos”, “a fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se”, “refugiar-se no banheiro”, “estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada”, “[um milagre pequeno, mas] bem inferior aos antigos”. Nada rebuscado, tudo sem rodeios e muito simples — mas é o simples que poucos conseguem compor…

…e que rudes leem em estado apático. Existem leitores habitados por um tipo de serenidade palerma que cruzam um texto pleno de construções atípicas e não percebem o que é bem dito. Transportam à leitura interesses mesquinhos como a fofoca, então só querem saber o que aconteceu e com quem.

A experiência de poder acessar os trechos mais grifados dos livros digitais no Kindle mostra que aquilo que vinga com o povo são as passagens sentimentais e de autoajuda, não as construções industriosas e as sutis análises de comportamento dos personagens. Nessa agremiação de motor biblioterápico, um Borges faria o recurso da canetinha amarela secar pelo desuso. Se o Brasil é uma pessoa, quem tem o hábito de ler é uma unha e quem sabe ler é a cutícula dessa unha.

2.1. Acredito que um bom autor clarividente atine que de todos os seus leitores — sejam eles vinte pessoas ou um milhão — só um baixo percentual vale a pena. Mas o bom autor não pode expressar isso em público. Ele depende dos maus leitores — o leitor por modismo, o leitor pra passar o tempo, o leitor voyeur, o leitor livro-é-sapato-elegante, o leitor que acha que é capaz e não é, o leitor parasita só-continuo-lendo-se-me-der-atenção-sempre-que-eu-quiser, o leitor isso-eu-também-faço, o leitor OK-mas-prefiro-Shakespeare, o leitor sem critério que acende o mesmo incenso à realeza e aos vermes — pra se estabelecer no mercado das letras. Esse mercado já não é exatamente livre, pois ser bem relacionado favorece muitas coisas. Menos livre ele é quando o bom autor fica refém de tontos. ¿Quantos tontos não “amam de morte” Machado de Assis? Nem é preciso se esforçar em cálculos, basta estar vivo e atento pra fazer uma estimativa. Ter voltado ao pó preserva o escritor de tanto mau senso e afetação.

3. Graciliano Ramos é cruel com a personagem da sua crônica, uma mulher que se pensa agraciada por Nossa Senhora e que resolveu homenagear a santa num “anúncio miúdo” de jornal. Ele zomba da simplicidade dela criando um cenário apocalíptico que possa justificar seu melodrama:

“Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. A fuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha. Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro.” 

Dá pra imaginar a expressão sardônica de Graciliano, na mente ou também na cara, ao juntar uma metralhadora, um guarda assassinado, gritaria, apitos, correria, buzinas, incêndio, um tropeçar em lençóis, uma testa na quina da mesa, a audição duma bala inexistente. “Momentos de aflição” que teriam feito uma coitada clamar pela mãe de Jesus, de trato mais fácil até pelo estereótipo da mulher acolhedora. Saída praticamente ilesa do pandemônio, ela agradece a graça alcançada — não tête-à-tête com a Virgem, pois não se atreve a tanto, mas publicizando a dádiva a “viventes ordinários”. Se o classificado foi algo que Graciliano de fato viu e não inventou, é um agradável exercício fantasiar a mulher pegando um dos diários seguintes, encontrando seu anúncio sendo estudado e conjecturado nos motivos, sentindo-se humilhada porque não foi tudo isso — ¿quer dizer que uma dor de barriga ou arruaceiros falando alto nas ruas não valiam o esforço de demonstrar gratidão? —, escondendo a folha do marido (ou do filho), sondando vizinhas pra saber se elas leram o jornal.

A chacota fica completa no último parágrafo:

“Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.”

Sendo uma variante do gaslighting ou apenas frieza diante dum sentimento religioso forte, essa crônica é ouro.

4. “Um milagre” também mostra que fórmulas de escrita que funcionam pra uns podem ser dispensáveis pra outros, pois dá pra escrever bem de diversos modos. Parecem mais propensos à radicalidade estilística aqueles pitocos com mania de grandeza que acabam colando na fórmula pessoal de um escritor já reconhecido — e inacessível — e tentam aplicá-la a tudo pra forjar finura no debate textual sobre qualidade e bom gosto. Descobrem que o Prestigiado Autor rechaçava adjetivos — e se põem a descer espadas mal amoladas quando encontram quaisquer adjetivos na literatura moderna. Descobrem que a Magnânima Autora rechaçava advérbios de modo — e põem a língua pra fora quero-que-todos-vejam-meu-asco quando se deparam com advérbios de modo. Por aí vai. ¿E quanto ao Prestigiado Autor e à Magnânima Autora? Embora tenham criado as próprias regras do que cabe ou não na construção de um texto, muitas vezes reconhecem colegas que trabalham com outros valores, às vezes até bem opostos dos seus. O Mario Vargas Llosa ceifador de adjetivos admirava Gabriel García Márquez, O Adjetivoso, e escreveu uma tese de 600 páginas sobre ele.

Por isso aí está uma crônica breve de Graciliano Ramos repleta daquelas palavras que alguns rejeitam de modo incisivo nos seus códigos: justamente, infelizmente, precipitadamente, vagamente (duas vezes), realmente.

Mas também não é pra qualquer um acertar assim.

5. Se essas NOTAS ampliaram sua visão da crônica “Um milagre”, recomendo que você a leia de novo.

Despedida - Cecília Meireles

 








Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranquilo:

quero solidão.

 

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.

E como o conheces? - me perguntarão.

- Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão.

 

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

 

A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação...

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?

 

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.

 

Despedida está presente no livro Flor de poemas, publicado em 1972. Vemos nos versos a procura pela solidão. Essa busca é um caminho, faz parte de um processo.

A solidão é uma analogia para a vontade de morrer, que se expressará no final dos versos quando ela afirma: "Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra."

A construção do poema é feita com base no diálogo, com um interlocutor do outro lado, com quem se estabelece uma comunicação. Uma pergunta que fica é a quem que o eu-lírico se dirige exatamente. No sexto verso vemos, por exemplo, a seguinte questão "E como o conheces? - me perguntarão".

Despedida é uma criação marcada pela individualidade, repare no uso exaustivo dos verbos em primeira pessoa ("quero", "deixo", "viajo", "ando, "levo"). Essa sensação é reforçada pelo uso do pronome possessivo "meu", que se repete ao longo do poema.


Fonte: Cultura Genial
Foto: Google

 

 

2.12.2026

Luís Pedro Santos Novaes - Administração

 

"O Ponto de Leitura" registra com muita  alegria, a colação de grau em Administração de Empresa do jovem Luís Pedro Santos Novaes.
Itabuna (BA), 14 de março de 2026

2.11.2026

Eu egóico... (Freud) - Agilson Cerqueira



     Pausa para descanso Óleo sobre tela - Agilson Cerqueira

Assim eu vejo a vida - Cora Coralina (1889-1985)

 Cora Coralina (1889-1985) 

Cora Coralina

Nascida em Goiás, Ana Lins dos Guimarães Peixoto (conhecida no meio literário como Cora Coralina) começou a publicar apenas aos 76 anos.

Com pouca educação formal, a escritora frequentou a escola somente até a terceira série do curso primário. Para se sustentar foi doceira e, nos tempos livres, escreveu poemas. 

A sua poesia é marcada pelo tom informal e pela relação de cumplicidade que estabelece com o leitor

Os seus versos giram em torno do cotidiano e das experiências de vida que procura transmitir através da poesia, como é possível comprovar através do poema Assim eu vejo a vida:

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.


Fonte:  Processador 

Foto: Produção


Minha mãe – Machado de Assis

 

 








Minha mãe – Machado de Assis


Quem foi que o berço me embalou da infância

Entre as doçuras que do empíreo vêm?

E nos beijos de célica fragrância

Velou meu puro sono? Minha mãe!

Se devo ter no peito uma lembrança

É dela que os meus sonhos de criança

 Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas

Cheia de um terno amor — anjo do bem

Minha fronte infantil — encheu de rosas

De mimosos sorrisos? — Minha mãe!

Se dentro do meu peito macilento

O fogo da saudade me arde lento

 É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora

E as rezas me ensinou que da alma vêm?

E a imagem me mostrou que o mundo adora,

E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!

Não devemos nós crer num puro riso

Desse anjo gentil do paraíso

 Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente

Que ela reza por mim no céu também;

Nas santas rezas do meu peito ardente

Repetirei um nome: — minha mãe!

Se devem louros ter meus cantos d’alma

Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!


Fonte: Wikisource

Foto: Google

2.10.2026

Heterometria: o pensamento livre - Agilson Cerqueira

Heterometria: o pensamento livre

    Agilson Cerqueira

Sem ritmo,

Sem rima,

Sem métrica.

Poesia e dialética,

Sentimentos expostos ao avesso:

O arrepio!

O desafio!

A lágrima!

O riso!

A timidez!

A altivez!

A indolência!

A desobediência!

Entre a tese, a antítese e a síntese:

Vida intensa!

 

O poema "Heterometria: o pensamento livre", de Agilson Cerqueira, utiliza a estrutura dos versos livres e brancos para exaltar a liberdade criativa e a complexidade da experiência humana.

Aqui estão os pontos centrais da obra:

Quebra de Formas: Ao declarar-se "Sem ritmo, / Sem rima, / Sem métrica", o autor rejeita o rigor do formalismo poético tradicional, associando a estética da heterometria (versos com diferentes medidas) à própria liberdade de pensamento.

A Dialética da Vida: O poema faz uma referência direta à dialética hegeliana (tese, antítese e síntese). Ele apresenta a vida como um campo de oposições constantes — como timidez e altivez, ou riso e lágrima — que culminam na "síntese" de uma existência intensa.

Exposição Emocional: A obra foca na visceralidade  ("sentimentos expostos ao avesso"), listando reações físicas e estados de espírito que compõem o desafio de viver sem as amarras das convenções.


*****

Artista Plástico Agilson Cerqueira: 


Moradores de rua

Óleo sobre Tela

(Agilson Cerqueira)


Dom Quixote e Sancho Pança

(Agilson Cerqueira)




Autor:  Agilson Cerqueira

Foto: Produção

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