11.07.2025

São Benedito - R. Santana

 


São Benedito R. Santana

São Benedito
R. Santana
Candinho era conhecido no Treze, mais por sua fé inabalável em São Benedito do que pela sua profissão de mestre-escola na pequena comunidade distrital de Lagarto. Negro polido nas maneiras, instruído, postura de devoto, Bíblia no peito, não perdia uma missa na igreja de Santa Luzia.
Não tinha nada de tolo, de tolo só a cara e o jeito de andar, seus alunos tinham-no em boa conta e a comunidade o admirava, não obstante o falsete de sua voz e seus trejeitos efeminados. Não tinha problema financeiro, solteiro, não criava nem curió pra não ter despesa com milho-alpista, sua escola estava sempre cheia, filhos de gente graúda, as más línguas juravam de pés juntos que Candinho tinha muito dinheiro aplicado na poupança, pois era sovino e não tinha vício de mulher.
Porém, todo ser humano tem seu calcanhar de Aquiles, o nosso bom Candinho também, de tal maneira que lhe deu origem esta página e lenda no seu lugarejo: contava-se que era aficionado por jogo da sorte grande. Ele jogava muito, principalmente, nas Mega - Senas. Jogava individual ou nos bolões, não ganhava, mas jogava.
O desespero bateu-lhe à porta de tanto perder dinheiro na lotérica, sovina, deixou de jogar por algum tempo e recorreu ao santo. Embora considerasse heresia, começou pedir para São Benedito pela “Sorte Grande”. Ajoelhava-se diante da imagem do santo em ritual, rezava a oração do Credo e o Pai e Nosso e, implorava ao santo:
- Meu santo protetor, mais uma vez peço sua proteção, minha conta bancária está no vermelho, ajuda-me ganhar na Mega-Sena, os números são esses... – e, enumerava-os.
Não jogava, mas conferia metodicamente os resultados dos jogos na lotérica na semana subsequente, no início, tinha um sentimento de tristeza, porém, lembrava que não havia jogado e se alegrava: “...ainda bem que não joguei, São Benedito!” E, voltava com o mesmo lengalenga ao santo:
- Meu Santo Mouro, meu Preto Velho, fiz bem não jogar na semana passada, não acertei nem quadra, fiz um terninho... Garanto-lhe meu bom siciliano que esta semana vou jogar com sua bênção... Vou reformar esta igreja! – não jogava.
Na semana seguinte, Candinho estava lá nos pés do santo com novas lamúrias e mais exigente:
- Meu Preto Velho, esta semana escapei por pouco, se jogasse teria perdido meu rico dinheirinho, pois você não me abençoou... Aliás, que tem de melhor o paralítico Philip Scaglione que ao ver a procissão dos monges do monastério Zoccolanti, ficou de pé e foi atrás do cortejo com suas bênçãos? Eu não sou fiel no dízimo? Derrama suas virtudes sobre mim, porque a sena está acumulada! – São Benedito indiferente...
Candinho deixou de ir à igreja por algum tempo. Desenvolto, falante, tornou-se taciturno, deixando todos preocupados, quando os vizinhos e amigos chamavam-no para missa, dava a mesma desculpa sempre: “estou gripado!” Até seus alunos, meninos com menos de 12 de anos de idade, foram ao mestre com objetivo de ajuda-lo, mas ele resistia... Um fato novo mudou a cabeça de Candinho: - depois de um longo período de estiagem na região, uma procissão de São Benedito fez desabar chuva grossa.
Eis aí, ele de volta:
- Meu Preto Velho, amigo de São José, esta semana fez chover em abundância para bons e ruins desta antiga capitania de Sergipe D`EL-Rey, dê-me sua bênção para que eu ganhe sozinho a sorte grande... – São Benedito mexeu-se no pedestal pela primeira vez:
- Candinho! Candinho! Pra que tanto dinheiro!?
- Eu quero ser o Barack Obama brasileiro, eu quero ser político!
- Mas Candinho, lá a cultura é outra. Lei é lei! Não existe “Petrolão”, “Mensalão”, “Cuecão de Reais”... Ladrão não é eufemizado, não tem foro privilegiado, ladrão do dinheiro do povo é proscrito... Então, é assim que me segue? – Candinho empalideceu, gaguejou:
- En en...en... então, se se... se... senhor, fa fa... faço o quê?
- Vai dar aula, continue professor, pois no Japão é o único que não se dobra para o Imperador!
Candinho não mais jogou e morreu feliz!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Itabuna, 16 de Janeiro de 2016.

 

Tanaguchi, o ateu - R. Santana

 


Tanaguchi, o ateu.
R. Santana

 

     Desta vez, não encontrei Tanaguchi na Praça Olinto Leone, como de costume, mas na saída da Igreja Santa Rita de Cássia no bairro São Caetano. Foi uma surpresa, porque o velho Tanaguchi é um ateu convicto. Não me aproximei do velho amigo, não quis lhe constranger: “você, aqui?”, “se converteu?”, “eis aí a ovelha perdida de Cristo!”, “o Diabo não é tão feio quanto se pinta!”, mas o velho ateu tem olhos de lince e me buscou na multidão:
     - Meu caro Narvil, que prazer!
     - O prazer é recíproco meu velho guru, mas estou surpreso!
     - KKKKKKK...
     - Rindo de mim ou pra mim!? – quase irritado.
     - Não se apoquente meu amigo, jamais riria de você!
     - Então, é pra mim?
     - Nem uma coisa nem outra, mas do que as pessoas pensam do ateu!
     - Não é de admirar um ateu assistindo missa?
     - O ateu é um ser humano com dúvidas, um deísta na melhor das hipóteses, mas não deixa de ser humano, com seus conflitos, suas ansiedades, seus sonhos, e lá no fundo, ele alimenta a esperança de um Deus único, incriado, com atributos morais e intelectuais, assim, a vida teria mais sentido, sem o maniqueísmo de Deus ou o Diabo, ou seja, o bem absoluto e o mal absoluto!
     - Pode-se tampar o Sol com a peneira?
     - Não!
     - Então?
     - Aí está o problema: o ateu não entende os desígnios de Deus... Pra quê tanto sofrimento no mundo? O ateu não aceita um Deus lógico, desumano, impiedoso, que deu pecado original ao homem, vingativo, sem sentimento, que permite a dor e o sofrimento para os justos e os injustos, que permite os sinistros da natureza para bons e maus, e não aniquilou a morte!
     - Tanaguchi, existe um provérbio: “Deus escreve certo com linhas tortas”, não lhe é dado nem a mim conhecer os desígnios do Criador. Pensamos que o mal em si é sofrimento e não é, pode ser uma evolução espiritual, além disto, Deus deixou o “mundo das possibilidades”, o livre arbítrio... – Tanaguchi aparteou:
     - Isto é eufemizar o mal, é racionalizar a fé, mas quem está em cima de uma cama gemendo e chorando de dor, não irá lhe dar ouvido!
     - Tanaguchi, o sofrimento é desumano, até Cristo, como homem suplicou na hora de morrer: “... Tudo é possível para Ti; afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que Tu queres”. Porém, temos que alimentar a esperança que estamos aqui “passando uma chuva”, aqui não é o fim, mas o começo do fim, que Deus reservou ao homem a vida eterna, senão, a vida não tem sentido, a vida é uma merda!...
     - Eis aí o pomo da discórdia: o homem de fé aceita o sofrimento em troca de um pedacinho do céu; o ateu não acredita no céu como morada, pois tem certeza que tudo acaba no jazigo!
     - Perdoe-me, mas não acredito nessa não crença do ateu, quando a coisa aperta, vem o “valha-me Deus”, tudo é de boca pra fora, a exemplo de lhe encontrar aqui, não é incoerência?
     - Não existe incoerência, Narvil! O olhar é subjetivo, você olha com “olhos da fé”, eu olho com “olhos da razão”, é diferente... O crente vê o milagre como manifestação divina, o ateu vê o milagre como emanação energética. Além disto, os rituais, sejam de religiões ou de seitas, são lúdicos, divertidos e, são interessantes do ponto de vista antropológico e não dispensam reflexão sociocultural! Então, ainda acha que sou incoerente?
     - Tanaguchi, mal comparando, li de Platão não sei se em Crítias, Fédon, Mênon ou Górgias, uma discussão dialética sobre a virtude entre um sofista (não guardei o nome) e Sócrates. Sócrates diz-lhe que não sabe o que é virtude e o pobre do homem acredita. Os questionamentos (maiêutica), as réplicas e as tréplicas se sucedem, aí, o sufista na casa do sem jeito, compara Sócrates ao polvo que entorpece a vítima antes de devorá-la... Você deixa o seu interlocutor aturdido e estonteado com sua frieza lógica, portanto, não me resta outra saída, deixar-lhe com suas convicções materialistas, racionalistas e preservar as minhas. – Tchau!
     Tanaguchi ficou tonto!...

 

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras

Imagem: Google
Att.: "Narvil" é um anadromo. 

Jipe - R. Santana

 

Jipe - R. Santana

 

“Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o louco persistir na sua loucura, acabará sábio” (Raul Seixas)

     Pense nesta história, caro leitor: se o prefeito de uma cidade resolvesse homenagear a figura mais popular de sua cidade e propusesse erigir estátua na praça, o faria com base nos feitos do homenageado e no reconhecimento da comunidade, mas se os feitos do homenageado não passassem de loucas e excêntricas manifestações, que o homenageado fosse conhecido pelo apelido e não pelo nome de batismo, será que o prefeito teria sucesso nesse pleito? Claro que não! Mas, se o homenageado fosse Afrânio Batista Queiroz, maluco beleza itabunense, carinhosamente apelidado de Jipe, claro que sim! Pois Jipe é a figura folclórica mais popular de Itabuna e quem mais povoou o imaginário lúdico da criança daquela época, além de obter a compreensão do adulto de seu tempo.
     Não se sabe até onde é lenda e até onde é fato: conta-se que Afrânio, jovem, pediu ao pai um Jeep Willys de presente, o velho prometeu, mas não lhe deu, ignora-se o motivo do descumprimento paterno, contudo, foi a gota d´água para o distúrbio mental de Jipe. Daí em diante, ele proveu-se de apetrechos (rádio de pilha, lanterna, retrovisores, antena, buzina, volante, caixa às costas, etc.), e, tornou-se um homem-carro.
     Com fôlego de maratonista, Jipe percorria com seu “Jeep” imaginário, cidades circunvizinhas de Itabuna, algumas com distância acima de 20 Km. Com uma caixa cheia de apetrechos às costas, antena balançando da esquerda pra direita, pra cima e pra baixo, rádio de pilha ligado em alguma FM ou AM, retrovisores laterais, volante para manobrar o “carro”, lanterna, jipe é alegria da molecada aonde vai. Quando chegava à cidade, percorria a rua principal, fazia demonstrações de baliza na praça, parava quando alguém lhe oferecia combustível (água) – não tomava bebida alcóolica, fiel às leis de trânsito.
     A molecada fazia uma festa quando Afrânio saía da cidade com o seu “Jeep”. Os moleques acompanhavam Jipe com tampa (volante) de panela nas mãos, numa imitação hilariante, assim, eles divertiam-se e divertiam a todos.
     Suas aptidões de chofer deixaram marcas na Avenida Cinquentenário, Jipe acompanhava os automóveis com pensamento criativo nas manobras que deixavam as pessoas embasbacadas, se ia estacionar entre 2 carros, ele fazia o movimento de baliza com precisão de um piloto de Fórmula-1: colocava o seu “Jeep” à altura do retrovisor do carro estacionado, dava uma ré em diagonal, ia pra frente e pra trás no limite da vaga, puxava a “trava” de mão, dava-se por satisfeito.
     Jipe era um louco talentoso, inteligente, instinto aguçado, criativo, feliz em seu mundo imaginário, nunca fez o mal, alma pura, recolhido em sua ideia obsessiva, perseguiu o objeto do desejo e o alcançou não do modo normal, concreto, mas do modo imaginário, no mundo das ideias, lugar que somente os loucos têm acesso, lugar que tudo é possível, lugar onde não há censura, não há proibição, lugar em que o superego não decide e onde a fantasia é real.
     O homem desde o princípio do mundo investiga a mente humana, mas pouco evoluiu até agora, fisiologicamente tem havido avanço, no entanto, existe ainda muito mistério. Há um adágio popular que "cada doido tem sua mania”, o que é verdade, aí se justifica o estereótipo de Afrânio Batista Queiroz.
     O modelo “Jeep” 1918 bateu o motor em 2010 e Jipe foi morar no céu e parodiando os versos do poeta desconhecido, o destino de Jipe é viajar... Viajar na rua, na estrada, na luz, no ar, nas estrelas, nos cometas, nos planetas, porque o signo de Jipe é viajar, sempre aprender viajar... Jipe, o audaz, Jipe, o incansável, Jipe, o maratonista, Jipe, o homem-carro... Seu destino é viajar, sempre viajar, viajar, viajar, viajar...




Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: foto original (Google)

Cristais Quebrados - R. Santana

 

Cristais Quebrados - R. Santana
 

     Doutor Fernando D´Angelo Consetti jamais desconfiou de sua esposa Maria Eduarda, ambos tinham cumplicidade de vida invejável, ambos se amavam, ambos eram referências de casamento, ambos eram presenças obrigatórias nos eventos sociais e ambos se completavam com o amor das filhas Milena e Mariana. Porém, o destino faz surpresa que a razão condena, naquela noite, enquanto Maria Eduarda dormia, o médico Fernando Consetti, impulsionado por estranha curiosidade, pegou seu celular, no canto do sofá, e começou bisbilhotar seu Whatsapp:
     “O nosso segredo está cada dia mais insuportável... Fernando e as meninas têm que saber, não dar mais para esconder, senão vou à loucura!”
     “Depois que te encontrei, lamento o tempo que tivemos longe um do outro, quero dizer ao mundo quanto tu és importante em minha vida.”
     “Calma! Calma! Depois da formatura das meninas, irei dar um jantar de apresentação, é difícil viver nessa farsa, todos irão nos compreender...”
     “Posso comparecer à festa de formatura de Milena e Mariana?”
     “Não! Como iria lhe apresentar?”
     “Soube que será uma festa de arromba... ninguém daria por mim!”
     “Sim!”
     “Então?”
     “Fernando é muito perspicaz...”
     “Mas não me pedirá identificação!”
     “De jeito nenhum!”
     Naquela noite, Fernando Consetti não mais pregou os olhos, relutava em acreditar que sua amada esposa o estivesse traindo, mas o diálogo e as imagens do Whatsapp não lhe deixavam dúvidas: Maria Eduarda estava lhe traindo com um homem bem-apessoado e muito mais novo! Agora, ele tinha as respostas de suas saídas pra visitar uma pobre tia paterna do outro lado da cidade, que Maria Eduarda resistia lhe apresentar com pretextos estapafúrdios.
     Quando ele a conheceu seu pai já havia morrido. Sua mãe possuía uma pequena lanchonete e Maria Eduarda estudava faculdade de enfermagem, 27 anos atrás. Ambos se amaram e se apaixonaram nos primeiros encontros, simbiose de sentimentos. Ambos com trabalho e determinação construíram um patrimônio considerável e mais importante do que o material, construíram uma família linda.
     Daquela noite em diante, Fernando Consetti de comportamento alegre, brincalhão, otimista, tornou-se sério, taciturno e arredio. Já não ficava nas refeições conversando abobrinhas ou conjeturando projetos com a família, sentava-se mudo e saía calado, quando Milena e Mariana cutucavam-no com o objetivo de lhe envolver nas conversas de família, ele era econômico nas palavras:
     - Paizinho, já contratou o “Buffet” para nossa festa?
     - Sim! – então:
     - Já contratou o mestre de cerimônias?
     - Não! – as meninas aflitas:
     - Ainda não contratou o mestre de cerimonias, paizinho!?
     - Não se preocupem...
     - Sugerimos-lhe o jornalista Egydio Antonelli!
     - Tá!
     Suas filhas conversavam e tergiversavam, às vezes, sobre coisas que não lhes diziam respeito, a exemplo da bebedeira do vizinho, o sortudo da Mega-Sena, Bill Gates, etc., mas ele não falava nem rosnava. Sisudo estava e taciturno continuava, nada lhe cheirava nem fedia, um estranho no ninho.
     Maria Eduarda não sabia mais como lhe agradar, pois o homem gentil, carinhoso, amável, de antes, quase não lhe dava uma palavra, substituiu a doçura pela rudeza, as palavras lhe saíam de estucadas, atropeladas, quase inaudíveis, com raiva, deixando-a apavorada, aí se refugiava no quarto em choro contido e pressentimento ruim.
     Pressentia que o marido havia descoberto o seu segredo e se perguntava: “Como?”, “Será que me seguiu?”,      “Será que foi no celular?”, “O celular tem senha, e o trago com cuidado. Será que ele realmente descobriu?      Não vejo como?...”
     Uma força estranha brotava dentro de si, pressentia que algo sinistro estava pra acontecer... O quê? Não tinha resposta. Esperava que todos lhe compreendessem, pois Carlos Eduardo não carrega culpa, ela sim, escondeu de Fernando Consetti, das filhas e da sociedade que tinha outra pessoa em sua vida, portanto, era a única responsável por ter escondido das pessoas queridas o que não se esconde: o amor maior! Jurou pra si que depois da formatura, revelaria o que já deveria ter sido revelado fazia tempo e não o fez por falta de coragem.
     Maria Eduarda conhecia bem seu marido, talvez ele resistisse, por amor próprio, no primeiro momento, porque ninguém gosta de ser enganado, porém, com o tempo, ele assimilaria tudo mais do que os outros, pois sabia que Fernando Consetti é mais coração do que razão. E o bom coração não alimenta ódio, mágoa, desprezo, ou, ressentimentos menores. Por isto, estava decidida por um fim naquela situação que lhe tinha dado o destino.
     Milena e Mariana amavam sua mãe, mas o prato da balança pendia mais pra o pai. Ele desde cedo cuidou delas com cuidados extremos: do banho ao penteio dos cabelos. Nas reuniões da escola, ele mais do que a mãe, era presença constante. Qualquer folga no trabalho, saía e se divertia com as filhas, na rua, nos jardins, nos parques de diversão, nas brinquedotecas, sempre com as filhas, por isto, a situação atual deixava as moças preocupadas, aguardavam a formatura pra colocar os pontos nos ís.
     A deslealdade da pessoa amada talvez seja o sentimento mais pérfido do ser humano. Ninguém gosta de ser traído... A traição transforma o amor em ódio, destrói todos os sentimentos bons alimentados por uma pessoa ao longo da vida, até o traidor não justifica sua traição, mesmo em graves circunstâncias, o segredo mais pérfido, o mal absoluto, a verdade liberta.
     Maria Eduarda transformou o amor de Fernando Consetti em ódio, o tempo seria o bálsamo para fechar todas as feridas, mas até lá, a deslealdade e o ódio deixariam muitos corações despedaçados, mágoas e decepções eternas. Todavia, juízos precipitados causam danos e injustiças irreparáveis.
     A mansão dos Consettis parecia coisa de cinema: iluminação direta e difusa (em alguns ambientes), garçons espelhados por todos os cantos, cadeiras e mesas espalhadas à borda da piscina, cozinha repleta de servidores para que tudo fosse a contento, na parede frontal, um grande banner exibia as imagens de formandos de Milena e Mariana, Fernando Consetti se desdobrava em gentileza para ser um anfitrião perfeito e Maria Eduarda, toda graciosa, vestida à moda de Grace Kelly.
Não se podia reclamar do “Buffet”, comida e bebida de qualidades aos montões, os garçons se esmeravam no atendimento.
     Música para todos os gostos, a Banda “Xis” se revezava com dois vocalistas: um com música jovem, popular; o outro, com música menos popular, afeita para homens e mulheres cinquentões.
O jornalista Egydio Antonelli cerimoniava com competência, nada saía da pauta, um vídeo lhe ajudava contar a trajetória de vida dos formandos, ambas tinham lutado pra chegar até ali, porém, os pais tinham sido decisivos, mas num trecho do depoimento, ambas destacaram a dedicação especial do pai.
     A certa altura da festa, Egydio convidou os pais para falar, Maria Eduarda foi sucinta: elogiou as filhas, agradeceu aos presentes o comparecimento e elogiou o marido. Fernando Consetti fez um discurso:
“Senhores e Senhoras”:
     “Os pais se realizam no sonho cumprido de seu filho. Quando o destino frustra esse sonho não sofre somente o filho, os pais sofrem mais do que o filho, hoje, o destino está do nosso lado, Milena e Mariana realizaram seus sonhos.”
     “Embora ficasse lisonjeado com a fala de minhas filhas, não fui mais que minha esposa nessa caminhada, pois se não fosse seu trabalho administrativo no hospital, nas fazendas, na lida doméstica, no seu apoio emocional, jamais eu teria desempenhado bem o papel de paizão! Maria Eduarda é guerreira, é companheira e mãe estremada.”
     “Portanto, nós queremos agradecer a presença de todos os amigos e amigas nesta festa, nossa felicidade, agora, nunca será empanada no que possa vir no futuro”
     “Muito obrigado, que Deus lhes pague... E, Parabéns para Milena e Mariana!”
     Às 3 h: 30 min do dia seguinte, os convidados deixaram pouco e pouco a mansão dos Consettis, a festa foi encerrada.
     12 horas depois:
     Os empregados da mansão dos Consettis estranharam os patrões dormindo àquela hora, evidente que a festa de formatura terminou de madrugada, mas não era costume o casal dormir até tarde, festa ali era constante e os patrões acordavam sem prejuízo de suas atividades de trabalho, naquele dia, os ponteiros do relógio marcavam 15 h:30 minutos, nada... Então, eles levaram suas preocupações pra Milena e Mariana.
A surpresa e o pavor tomaram conta de todos: Fernando e Maria Eduarda abraçados na cama e a caminho da eternidade... Tudo estava em seu lugar, exceto dois cálices de cristais quebrados!
     Um mês depois:
Cedo ainda, o mordomo anuncia a presença de um moço às herdeiras Consetti:
     - Ele deseja falar com as senhoritas!
     - Quem é? – apresentou-lhes um cartão onde se lia: “Carlos Eduardo N. Souza – Engenheiro Civil”
     – Mande-o entrar! – minutos depois:
     - Meus pêsames!
     - Obrigado! – responderam ao mesmo tempo Milena e Mariana e completam:
     - Deseja o quê?
     - Meu nome é Carlos Eduardo... – interromperam-no:
     - Lemos o seu cartão!
     - Eu sou filho... filho... filho... – desembuche rapaz!
     - Eu sou filho bastardo de Maria Eduarda Nascimento Consetti!
     Elas desabaram em choro, e choraram... Compreenderam que aquele segredo mantido por sua mãe por mais de três décadas, fez de seu pai vítima e assassino-suicida! Jamais a perdoariam...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro Efetivo da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

11.06.2025

Carta para diretora do site da ALITA Raquel Rocha - R. Santana

 


Carta para diretora do site da ALITA Raquel Rocha - R. Santana

Carta para diretora do site da ALITA Raquel Rocha - R. Santana


Amiga Raquel Rocha:

Estou lhe enviando uma edição corrigida da obra: “Cristais Quebrados”. Se passar pelo crivo de sua avaliação que seja publicado no site da ALITA.
Porém, algum inconveniente que eu seja informado. Ultimamente, os meus trabalhos têm sido postados (letras graúdas), somente, em link, que os tornam mais difícil para leitura. Ninguém abre o site em “Rilvan”...
Peco pela franqueza: “...não compreendo o tratamento restrito e contencioso da ALITA comigo”, pois ajudei-lhe fundar, fui seu tesoureiro por 2 anos, participei de sua instalação, participava de todos os trabalhos acadêmicos, contribuo mensalmente para ALITA de forma fiel, mas não sou convidado por essa diretoria nem para reuniões extraordinárias, não fiz parte de sua primeira revista Guriatã... Desconheço suas ações culturais para sociedade itabunense ultimamente.
Acho que qualquer organização só cresce quando os seus dirigentes sabem agregar todos seus associados, não pode haver favoritismo, nem discriminação, todos têm que ter o mesmo tratamento, sem estrelismo, as diferenças individuais devem ser respeitadas, os dirigentes têm que ter grandeza de espírito.
O meu desabafo não é só em relação ao site, mas em todas as ações da academia, aliás, não sei e acho que ninguém sabe, hoje, o que a academia vem realizando culturalmente pra nossa terra que já foi do cacau.
Uma academia de letras não pode e não deve ser administrada por pessoas que discriminam, ressentidas, facciosas, que se deixam manipular por eminências pardas, pessoas que não têm projetos comunitários, pessoas rabugentas, pessoas improdutivas, pessoas trancadas em seu mundo, pessoas de pensamento estreito, pessoas que não agregam, pessoas sem liderança, pessoas sem carisma, pessoas que não reúnem, mas espalham...
A ALITA foi criada sob a égide de mentes democráticas, a exemplo de Marcos Bandeira, Eduardo Passos, Dinalva Melo, Ruy Póvoas, Genny Xavier, Sione Porto, e, outros próceres que a memória insiste em não lembrá-los, mas se perdeu em futricas, em mágoas pessoais, na incapacidade de dialogo de algumas “estrelas”, e em manipulações de intelectos que aprenderam somente dominar. Lembro-me que no primeiro ano de criação da ALITA, a diretoria provisória sob a liderança de Marcos Bandeira, foi discutido e feito o seu Regimento e Estatuto, registrados em cartório, instilada em cerimônia pomposa no auditório da FTC, a constituição praticamente de seus 40 membros efetivos e correspondentes e algumas ações literárias em escolas públicas e na comunidade. A comunidade itabunense estava pouco e pouco absorvendo a nova entidade literária...
As políticas do silêncio, das vaidades contidas, dos egos inflados e da supervalorização pessoal de alguns não ajudam na construção de uma academia de cultura. O contraditório ajuda em novas ideias, se a maioria se comportar como lagartixa (balançar a cabeça sempre), pra que diacho serve o intelecto e as opiniões diferentes? O dissenso é o combustível da democracia.
O site da Academia Brasileira de Letras (ABL), academia fundada pelo democrata Machado de Assis, é um exemplo a ser seguido, todos os acadêmicos têm voz e vez.
Que a Páscoa sirva para reflexão desses corações empedernidos de ressentimentos...
Desculpe-me, não existe nada de pessoal, estou lhe enviando esta mensagem, apenas, por ser a diretora do site da ALITA e a pessoa mais profissional da comunicação que conheço ali, certamente, irá repassá-la pra quem de direito o meu descontentamento que não é de hoje!...
Certo de sua atenção, eu reitero protestos de estima e apreço, que o silêncio não seja a resposta, pois seria ratificar o meu desprazer.

Atenciosamente ou fraternalmente? Não Sei!
Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 25 de março de 2016.

Nota Editorial (Saber-Literário)


Esta carta seria enviada para confreira Raquel Rocha e diretoria da ALITA, pelo descaso e alijamento que venho sofrendo como membro efetivo ao longo do tempo. Além de não ser convidado para suas reuniões ordinárias e extraordinárias, as minhas produções literárias (independente de boas ou ruins), foram publicadas em link com objetivo explícito de não me dar visibilidade.

Não fiz parte de sua primeira revista histórica "GURIATÃ". As minhas produções criativas (mais de 250), nenhuma serviu, não passei pelo crivo do editor Cyro de Mattos...

Quero deixar registrado que não tenho nada de pessoal com a confreira Raquel Rocha, ela me é gentil, educada, apenas, dirijo-me á diretora do site da ALITA, que por força do Estatuto, ela não tem independência administrativa - foi sua justificativa em e-mail.

Esta carta foi envidada em parte no dia 25 de março do ano em curso, mas a política do silêncio como resposta da diretoria, motivou-me publicá-la neste diário literário online.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 17/04/2016

Coala - R. Santana

 

Coala
R. Santana

No dia 26 de maio do ano cristão de 2016, encontrei-me sem querer querendo com meu velho guru Tanaguchi, no lugar de sempre: Praça Olinto Leone, no centro da cidade de Itabuna. Quando algumas caraminholas fustigam minha cabeça, recorro ao velho guru para tirar minhas dúvidas ou acrescentar mais algumas, pois como Sócrates, Tanaguchi puxa e repuxa o assunto, ele nunca esgota um tema, mas o estica sem limite para compreensão da maioria dos mortais.
- Bom dia, Tanaguchi!
- Que o dia seja bom... Mas, o que faz aqui tão cedo?
- Jogar conversa fora!
- Mas, sair de tão longe...
- Não é tão longe assim, moro do outro lado do rio Cachoeira, já não lhe dei meu endereço?
- Sim!
- Então, homem?
- Desculpe-me Narvil, mas quando se caminha para o ocaso, as pernas não respondem mais ao nosso desejo, por isto, nunca lhe visitei!
- Explica, mas não justifica. Você tem uma frota de ônibus grátis à disposição, não é tão má ser idoso!
- Já me desculpei...
- Ok! – mudei de assunto:
- Os coalas estão em extinção... – quase inaudível.
- O quê?
- O coala está em extinção na Austrália: primeiro, o homem o matava para fazer bolsas, sapatos, e outros apetrechos da moda feminina, com a proibição legal, o homem abandonou essa prática abominável; segundo, os coalas vêm sendo dizimados pelo fogo de prolongadas estiagens em seu habitat, até as folhas de eucaliptos são queimadas, deixando-os sem comida... – e completei:
- Darwin teve razão quando nos deixou crer: somos o capricho de uma seleção natural sem fim, todavia, nesse processo seletivo, o homem é o mais forte e mais predador que os outros animais - “homo homini lúpus”- e assusta, pois é o único animal que pensa. Ou não é, Tanaguchi!?
- Concordo. Mas, aonde quer chegar com esses animaizinhos marsupiais, homem?
- Tanaguchi, não se preocupe, são digressões, cultura inútil, sem nenhuma contribuição para filosofia ou ciência. Eu fui tocado por um DVD que meu neto gosta, intitulado: “Out Back”, “mundo animal”, que suscintamente, é a história de um coala (branco) diferente chamado Johny. Ele está entediado de sua vidinha de bibelô turístico da cidade e decide aventurar a vida selvagem com ajuda do macaco Higgens e um demônio da Tasmânia: Hasmih. Este trio passará por aventuras emocionantes e a vida de Johny torna-se encantadora, protagoniza muitas histórias, principalmente, com a ajuda de Higgens que questionado pelo coala: “Que devo fazer?” Responde: - Seja você mesmo!
- Ah, meu caro Narvil, sua historinha é uma mensagem de autossuficiência, de autoafirmação, de rompimento com o estado das coisas, o rompimento com a vida arrumadinha, mas infeliz, para se aventurar no desconhecido e fizer aquilo que gosta, é uma lição de vida que muitos deveriam seguir e a receita é simples no dizer de Higgens: - Seja você mesmo!
- Quando era jovem me preocupava: “Quem sou eu, de onde vim, para onde vou?” Hoje, deixei de lado esses questionamentos existenciais, estou preocupado com a vida, não com a vida dom de Deus, mas viver a vida, seus problemas cotidianos e as relações com o outro. Todavia, jamais deixar de praticar a ética, a moral, a justiça, a partilha, a solidariedade, a amizade, a paixão e o amor. Por isto, lhe contei a história de Johny, meu caro guru!
- Concordo. O lado metafísico da vida é chato e árido, o importante é estar vivo, gozar das benesses da vida e olvidar o sentimento de culpa de Adão e Eva. Aliás, nunca entendi esse tal de “pecado original”, nascemos como uma página em branco, as nossas atitudes, as nossas escolhas e as nossas experiências vão se somando e definirão a nossa vida boa ou má. Se nós usamos o livre arbítrio para escolher o lado errado da vida, a adversidade não é destino, mas o resultado de nossas escolhas!
- Certa feita, Tanaguchi, eu ouvi alguém dizer: “eu não mexo nas coisas, as coisas que mexem comigo”, ou seja, ele se achava estigmatizado de nascença!
- Não é verdade que alguém nasce sob o signo da cruz, do destino, mas é verdade que a cruz é construída ao longo da vida. O homem quando chega ao mundo, encontra uma diversidade de madeirame, alguns escolhem a madeira mais leve para construir sua cruz; outros, não têm o mesmo cuidado!
- E, as circunstâncias acidentais?
- O mundo é de possibilidades, possibilidades contingenciais, possibilidades necessárias, possibilidades reais...
- Isso é o quê?
- Certas coisas independem de nossa vontade, a exemplo dos acidentes naturais, das doenças, de alguns sinistros, tudo tem raiz contingencial, isto é, existe a possibilidade. Existe a possibilidade necessária, que se impõe por si, não deixa de ser, existe em si, a exemplo de Deus. E, a possibilidades real, ligada à influência do meio ambiente. Não existe fatalismo, existe livre arbítrio, possiblidades...
- Há uma receita para bem viver?
- A vida não é um bolo de noiva, mas um conjunto de fatores existenciais: tristeza, alegria, expiação, provas, o bem e o mal. Viver bem é administrar a fortuna e o infortúnio com equilíbrio, ter consciência da exiguidade de nossa vida, que tudo é passageiro, que nada é absoluto (exceto Deus), que não existe tempo ruim que não se acabe nem tempo bom que dure sempre. O poeta foi feliz quando diz: “E deixa a vida me levar - vida leva eu!”
- Tchau meu amigo, nos veremos amanhã!
- Amanhã poderei não estar vivo, a morte me cobra...


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Carta para Helen K. Friedman - R. Santana

 


Carta para Helen K. Friedman - R. Santana
Carta para Helen K. Friedman
R. Santana

Querida Amiga Helen:

Depois que tomei duas doses cavalares de caipirinha (pobre tem alergia a whisky), li e reli sua amável carta. Quando a recebi pelos Correios, no meio de um calhamaço de faturas de cartão de crédito, contas de telefone, internet, lojas de roupa, lojas de calçados, prestação de carro, eu estranhei que não tivesse usado o Whatsapp, o e-mail, o "MSN Messenger", então o Skype, mas usou o tradicional meio de comunicação: a carta. Pensei que os jovens tivessem extinguidos velhos meios de comunicação, o seu gesto diz que não.
Não existe situação mais desagradável, minha cara Helen, do que em uma sala que se espera alguém ou alguma coisa, as pessoas debruçadas em seus celulares, enviando ou recebendo mensagens, é um silêncio fúnebre, é um silêncio que incomoda, comunicação às avessas, a pessoa está ali e não se encontra ali, é o fim das relações próximas, é o fim do toque e dos afetos, do olho no olho, é o fim do tête-à-tête, é o fim da conversa.
Gentileza gera gentileza, portanto, quero lhe agradecer pela amável cartinha que me enviou. Sua preocupação com a minha saúde, com as minhas produções literárias, com as produções literárias do Sul da Bahia, os comentários que fez sobre o momento político e econômico adverso do nosso país, mesmo morando distante, aí na terra o Tio Sam, são conjeturas atuais.
A minha saúde está sob controle, não me descuido do check-up médico anual, porém, as doenças não mandam recado, quando menos se espera, elas aparecem de forma abrupta, às vezes, agressivas. Lembro-me de um saudoso colega que levou seu irmão, às pressas para o hospital, lá ficou, morreu de um infarto fulminante, e seu irmão voltou para casa alguns dias depois. Eis o exemplo, minha estimada Helen, das surpresas que a vida nos reserva.
Política para mim, não cheira nem fede, eu sei que o homem é um animal político, aprendi com Aristóteles, mas reservo-me o direito de não tecer comentário, nem a favor da situação nem da oposição, os políticos são farinha do mesmo saco, eles não estão preocupados com o próximo, mas quem está próximo, notadamente, sua família e seus amigos. Enfim, minha cara Helen, eu concordo com o sempre lembrado Mário Covas, que disse: “Que bom seria se apenas um político pegasse febre aftosa, assim, todo rebanho teria que ser sacrificado”.
O Sul da Bahia é um celeiro de expressão cultural, temos aqui bons escritores, temos aqui bons poetas, temos aqui bons músicos, temos aqui bons letristas, temos aqui bons intérpretes, temos aqui bons artistas plásticos, temos aqui bons atores, ou seja, é uma terra abençoada pelo deus da criatividade. Dispensa-se falar dos que já se foram, pois todos têm seus nomes inscritos na memória do povo, portanto, faz-se necessário tecer alguns comentários no parágrafo a seguir, aos que estão vivos, e puxando brasa para minha sardinha, irei falar dos meus autores preferidos.
Daí de longe, talvez você não os conheça, mas gosto da prosa e da poesia de Florisvaldo Mattos, da prosa de Aleilton Fonseca, dos textos de Ruy do Carmo Póvoas, dos textos de autoestima de João Batista de Paula, da poesia de Ceres Marylise, de Lourival Piligra Pereira Júnior, de Wagner Albertsson, de Eglê Santos Machado, de Oscar Benício dos Santos, de Joselito dos Reis e de Genny Xavier. Estes são os poetas e escritores regionais que aprecio e tenho admiração.
Não tenho produzido tanto quanto gostaria de produzir, falta-me inspiração, criatividade, não prazer pelo trabalho, eu gosto de escrever, gosto de literatura, todavia, eu não descobri (talvez nunca descubra) ainda o veio da mina: um livro diferente. Observo como autodidata, que os escritores e poetas consagrados, foram consagrados não pela quantidade de sua escrita, mas pela qualidade, pela diferença, alguns poetas e escritores se consagraram, apenas, com um livro.
Machado de Assis escreveu poesias, crônicas, ensaios, contos, novelas, romances, porém, se popularizou com “Dom Casmurro”. Sidney Sheldon, escritor e roteirista norte-americano, escreveu muitos romances, muitos roteiros, o seriado “Casal 20”, no entanto, o “Outro Lado da Meia Noite” é o livro de cabeceira do seu leitor. O poeta, escritor e político italiano Dante Alighieri, deixou para sempre sua poesia épica: “Divina Comédia”. Menos dramático, mais sonhador, Miguel de Cervantes, hoje é conhecido pela bravura romanesca de Sancho Pança em “Dom Quixote”. Quem ainda não assistiu ao filme ou leu o livro “O Conde de Monte Cristo”? Acho que poucas pessoas deixaram de assistir esse filme ou não leram esse romance de Alexandre Dumas. Mário de Andrade, poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta brasileiro, um dos pais do nosso Modernismo, ficou conhecido com seu romance Macunaíma. O nosso maior escritor de epopeia, Euclides da Cunha, ficou lembrado para sempre com “Os Sertões”. Quem não se comoveu com a história de Ernest Hemingway, “O velho e o mar”? Nenhum vivente que o tenha lido ou assistido o filme. Outro romance que virou filme: “Zorba, O Grego” de Níkos Kazantzákis, ficou pra história da literatura universal. Não se pode esquecer do britânico George Orwell, e seu livro revolucionário e profético: “Grande Irmão”, o “Big Brother” dos nossos dias.
Walt Disney foi pioneiro nas histórias infantis animadas, deixou um legado que ainda hoje, mexe com a imaginação de nossas crianças, porém, ele era mais empreendedor do que escritor cinematográfico, suas histórias infantis têm uma diversidade de autores, portanto, ele não serve para justificar a nossa tese, mas para ilustrar quão significativo é esse ramo da literatura.
Aqui, em nosso país, o pioneiro de histórias infantis, sem sombra de dívida, é o paulista Monteiro Lobato com sua coletânea: “O Sítio do Pica Pau Amarelo”. Dentre os autores mais recentes, o mineiro Ziraldo Alves Pinto, “Ziraldo”, com o “Menino Maluquinho”. Ana Maria Machado, escritora de obras infanto-juvenis de mancheia, celebrizou-se com o livro: “De olho nas penas”. Maurício de Souza à moda Walt Disney, consagrou-se com as histórias animadas nas TVs e em gibis: “A Turma da Mônica”. Não podemos esquecer: “O Meu Pé de Laranja Lima” (José Mauro de Vasconcelos); “O Pequeno Príncipe” (Saint Exupéry), e “O Menino do Dedo Verde” (Maurice Druon).
Portanto, minha nobre doce amiga Helen, no ocaso da vida, nunca produzirei para ser divisor de nenhuma literatura, as minhas produções não são conhecidas sequer dos meus conterrâneos, sou um escritor “sem nenhum leitor”, daqui uns dias instituirei um prêmio para quem for meu leitor e, como a Mega Sena, ficará acumulado. Escrever por escrever alimentará o meu vício, mas não satisfará meu ego, lá no fundo do meu ser, sempre terei a sensação de fracasso.
Querida Helen, aqui não vai nenhum comentário desairoso, apenas à guisa de exemplo, para lhe dizer como dói não ser reconhecido, seu trabalho passar ao largo, aqui, um poeta que não herdou o talento de Fernando Pessoa, migrou para o conto e a crônica, não reconhecido, aventurou-se escrever um romance que nada vendeu (“O livro é uma mercadoria como qualquer outra; não há diferença entre o livro e um artigo de alimentação. (...) Se o livro não vende é porque ele não presta” - Monteiro Lobato). Então, ele cansado de escrever para adulto, no ocaso da vida, na casa do sem jeito, desembarcou com mala e cuia na literatura infanto-juvenil, pelo jeito da carruagem o destino de suas produções será o sebo. Não tenho o mesmo desprendimento desse escritor, por isto, não estou produzindo.
Certamente, Monteiro Lobato teve seu olhar de editor acentuado, embora grande escritor, movia-lhe o interesse do lucro, nem sempre o livro que não vende é ruim. Hoje, o livro além de ser bem escrito, criativo, é necessário um suporte de marketing por detrás para se tornar vendável. Se o autor não tiver “nome”, se a crítica especializada não lhe for favorável, se a mídia não lhe ajuda, o seu livro emperra e não é vendido. As más línguas contam que Paulo Coelho quase não vendeu seu primeiro livro. O grande poeta Manuel Bandeira custeou suas produções literárias, pois não conseguia editor, suas obras não davam lucro...
Amiga Helen, com o advento da Internet, das Redes Sociais, de Sites e Blogs, o livro impresso perderá espaço para os digitais. Hoje, existe uma grande produção de E-Books, além do fácil acesso, os livros virtuais são mais fáceis de vender, os aplicativos de downloads, baixam e imprimem um livro em alguns minutos, afora o alcance de milhares de internautas para sua divulgação em tempo recorde. Acredito que num mundo globalizado, de informação à distância, instantânea, tempo e imagem reais, o livro de papel, no formato tradicional, será substituído pela literatura virtual e condensado: - os minicontos, os poemetos, os sonetos, e os poemas haicai.
Enfim, minha querida amiga Helen, eu espero não ter sido prolixo, esforcei-me para lhe colocar a par dos últimos acontecimentos culturais da terra que já foi do cacau e justifiquei não ter mais produzido. Que Deus lhe proteja, que demore aí, somente, o tempo suficiente para concluir o seu doutorado em línguas neolatinas, depois volte para ensinar o que aprendeu aos jovens de nossas universidades públicas tupiniquins. Cordialmente, Narvil. Itabuna, 09 de junho de 2016.
 

Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Desejo de matar - R. Santana

 

Desejo de matar R. Santana

Desejo de matar
R. Santana

Ano 2016, mês de Maio, Sexta-feira 13, o “Hyundai HB 20” de Dimitri Petrovich Petrov, deslizava sem pressa na Avenida Santos Dumont na cidade “X”. Ele não tinha pressa, quase não respondia às perguntas do seu sobrinho emprestado Marcos. Marcos cuidava dos interesses comerciais de sua tia Natasha e de Dimitri. Naquele dia, ele dirigia o automóvel, enquanto seu tio ia sorumbático no banco de detrás. Para animá-lo, Marcos enchia-lhe de perguntas:
- Tio, as câmeras do hotel irão nos flagrar?
- Tomei todas as precauções!
- Como assim?...
- Segredo!
- Segredo!? Não estamos juntos!? Se o senhor não confia em mim, que Saulo Fontes fique impune, aliás, a justiça não lhe incriminou!
- Sua família contratou bons advogados...
- Então!?
- Seus advogados construíram álibis, nós os descontruiremos. Quando ele estiver sob a mira da minha “Glock 18”, irá se borrar de medo e frouxar... – Dimitri além de médico, dono de clínica, tinha feito CPOR/NPOR, portanto, oficial do Exército da reserva não remunerada e praticava tiro esportivo.
- Concordo. Tio, eu estou com o senhor pra o que der e vier, mas tem que haver cumplicidade, não pode haver segredo entre mim e o senhor!
- Já leu a história da onça e do gato?
- Não!
- Não? A fábula encerra que o gato escondeu da onça o pulo que lhe salvou a vida!
- Não vejo a relação!
- O pulo do gato nos manterá vivo, rapaz!
- O senhor está misterioso... – Dimitri contemporiza:
- Eu lhe trouxe porque confio em sua lealdade, além disto, você e Leyna foram criados juntos, frequentaram a mesma escola... – acrescentou:
- E, temos em comum a morte de Saulo, não é?
- Sim!...
Às 23,30 h, tio e sobrinho estacionam o carro no hotel “Hollywood”. O hotel estaria em silencio se um casal jovem não o adentrasse de modo espalhafatoso, simultaneamente. Dimitri foi recebido com deferência pelo recepcionista:
- Doutor, o seu quarto é de número 308. Boa noite... – acrescentou:
- Ah, gostei da fábula que me recomendou: “A onça e o gato”, a onça já está aí, qualquer dificuldade, lembre-se do “pulo do gato”...
Dimitri preferiu subir pelas escadas, dispensou o elevador (justificou claustrofobia), enquanto Marcos usou o elevador até o 3º. Andar e o aguardou deitado na poltrona da sala. Dimitri demorou mais do que o previsto e deixou Marcos irritado:
- Porra tio, quanto tempo!? – Dimitri não lhe respondeu, puxou-o pelo braço, abriu a porta do quarto e o empurrou pra dentro:
- As câmaras foram desligadas antes de chegarmos, não existe nenhuma imagem registrada, daqui a pouco, este andar terá um blackout de 5 minutos, tempo suficiente pra entrarmos no quarto 309 de Saulo e matá-lo!
- O tempo é suficiente?
- Sim!
- E... depois de entrarmos?
- A luz volta ao normal e teremos mais 1 hora pra fazer o serviço e sairmos sem ser vistos... – o corredor ficou escuro, Dimitri apressou o sobrinho:
- Rápido!
Não foi difícil o tio e o sobrinho entrarem no quarto 309, sem luz, usaram a tocha do celular de Marcos. Saulo dormia a sono solto, assustou-se quando o blackout terminou e Dimitri apontava-lhe uma arma:
- Leyna chora vingança...vou lhe matar, canalha! – Saulo desmaiou.

***

25 anos antes:

Leyna gostava da mãe, no entanto, era mais apegada ao pai: um amor freudiano, uma admiração e confiança extremas. Natasha tinha ciúmes de sua filha caçula e compensava esse amor não correspondido com o amor dos filhos mais velhos: Yuri e Ivan. A afeição que faltava na filha sobrava nos filhos mais velhos. Os meninos eram carinhosos e prestimosos com a mãe, se lhe doesse a unha do dedo mindinho, eles ficavam solícitos e preocupados.
Leyna era o xodó de Dimitri, seu desejo era uma ordem. Seu pai, nos finais de semana, levava-a para todos os eventos infantis da cidade, casas plays, não perdia um aniversário. Nas reuniões dos pais e professores de sua escola, sua mãe quase não comparecia, mas chovesse ou fizesse sol, seu pai estava lá.
Quem censurasse o amor preferencial de Dimitri por Leyna em detrimento de Yuri e Ivan, ele apressava-se justificar: “ela é nossa caçulinha, os irmãos entendem isso, o amor é o mesmo, todos são meus benjamins”, e, era verdade, não havia preferência ostensiva, talvez, os cuidados fossem diferentes pela fragilidade do gênero feminino.
Quando Leyna completou 15 anos de idade, exigiu do pai um passeio no Disneylândia - Los Angeles - Califórnia, Estados Unidos -, o pai lhe sugeriu uma grande festa de debutante, mas ela não arredou o pé, nenhum argumento a demoveu da ideia:
- Paizinho, eu não quero festa!
- E, Yuri e Ivan?
- Virão com a gente...
- Eles estão estudando pra o ENEM!
- Então, eu, você e mãezinha, tá? – a solução foi embarcar para os Estados Unidos, um mês depois.
Leyna foi criada como princesa plebeia e os parentes seus súditos, quando atingiu a maioridade, os cuidados da família eram os mesmos de menos 18 anos de idade: afora a faculdade de medicina, todos os passos que dava, os irmãos, o pai e a mãe vinham atrás.
Começou namorar firme com Saulo Fontes quando os cuidados demais dos pais e irmãos, tornaram-se desnecessários e constrangedores... Porém, o costume do cachimbo põe a boca torta, de quando em vez, eles apareciam onde ela estava de surpresa.

Após 25 anos:

- Filha, quem é esse rapaz?
- Somos colegas do curso de residência médica!
- Marcos me disse que é um “galinha”!...
- Marcos é um despeitado, ainda não percebeu paizinho?
- Ele lhe tem como irmã!
- Seu ciúme me incomoda... dessa boa intenção o inferno está cheio!...

***

- Acorda vagabundo! – Saulo acordou aturdido com as bofetadas de Marcos. Dimitri o admoesta:
- Calma Marcos, não se humilha um homem que vai morrer!
- Isso não é homem! É um verme, e verme se pisa, se destrói... – Saulo soergue-se (a pistola de Dimitri, continua lhe cutucando), e surpreende-os:
- Eu não sou verme! Você que é mau-caráter, calhorda, dissimulado e baixo. Seu tio sabe que andava perturbando e chantageando Leyna? – Marcos deu-lhe outra bofetada, mas foi contido pelo tio:
- Endoideceu Marcos!? Você não vê que ele está mentindo pra se safar!? Não acredito numa palavra deste criminoso de mulher! – Saulo o desafia:
- Prove que fui eu que a matei? – Dimitri perde a calma:
- Rapaz, não queira zombar de nossa inteligência, todas as evidências concorrem pra lhe culpar: foi a última pessoa que esteve com Leyna, seu RG foi encontrado em cima do corpo, suas digitais estavam presentes – baixou a cabeça envergonhado -, seu esperma também foi encontrado... além de assassino, cínico!?
- Quem ama não mata! Eu amava sua filha... As provas que o senhor citou não provam nada, não se esqueça que estávamos num motel, a justiça não me incriminou... – Marcos intervém:
- Aperte esse gatilho, tio! Vamos ficar aqui nesse lero-lero, quer que o mate? – puxou a pistola.
- Calma Marcos, quer ser preso!? Guarde essa arma!
- Deixe-me dar cabo desse miserável. A polícia não terá elementos para nos incriminar!
- Calma Marcos, há um provérbio na terra dos meus pais que diz: ” "Quando o ódio e a vergonha se casam, a filha deles é a crueldade." Quero lhe torturar mentalmente até a morte... – Saulo o interrompe:
- Quer me matar? Mate-me logo, não me torture! Mas, o senhor irá se arrepender pela morte de um inocente. A polícia já tem material do verdadeiro assassino, aliás – pega o celular na cama – tenho aqui algumas provas... - liga o gravador do celular e a voz de Leyna enche o quarto:
“Amor, Marcos vai me matar se não terminarmos o noivado...”
“Amor tenha cuidado, novamente me ameaça, agora, usa você...”
“Tenho medo que faça alguma maldade com paizinho, eles andam pra fazenda a sós..”
Dimitri era todo ouvido, um sentimento de dúvida tomou-lhe a mente: “...será que irei matar um inocente?”, “...Judas Iscariotes, junto de mim!?”, sem frouxar a arma nas costas de Saulo, grita para Marcos:
- Assassino!!! – Marcos com a arma em punho, quase chorando:
- Eu a amava mais do que esse palerma... ela não me deu ouvido... naquela noite.. quando eles saíram do motel... antes dela entrar em casa, eu a chamei pra conversar... ela resistiu, tive que lhe pegar a pulso... – Dimitri empurrou Saulo e frente a frente com Marcos:
- Vai morrer bandido!!! – Marcos puxa o gatilho primeiro, mas a arma... tac..tac...tac...tac... – Dimitri sem se mexer:
- A pistola está descarregada... entende, agora, “o pulo do gato”!? Leve pra o inferno essa lição!!! – e, dispara no sobrinho uma saraivada de tiros fatais.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Louro “Rico” - R. Santana

 


Louro “Rico” - R. Santana

Louro “Rico”
R. Santana
Mesmo que eu seja indiciado pelo juiz Sérgio Moro na Operação Lava Jato para dizer o nome completo (prenome, nome e sobrenome) de Louro “Rico”, não o farei não por má fé, mas por completa ignorância. Sei que ele não participou do propinoduto da Petrobrás, isto, eu juro por todos os santos canonizados pelo papa. Aliás, ele não sabe nem o que significa e tem raiva de quem sabe o que é: “petrolão”, delação premiada, tornozeleira eletrônica, “Japonês”, “pedaladas fiscais”, créditos suplementares, impeachment, ou, crime de responsabilidade. Louro “Rico” está acima ou abaixo dessas baboseiras de corrupção e picuinhas políticas, é uma alma ingênua e coração puro.
Se algum filho de Deus perguntar o que me fez abrir o notebook para escrever esta crônica, dir-lhe-ei que depois de ler alguns autores da literatura de autoestima, de autoajuda, a exemplo de João de Paula, Dale Carnegie, Lair Ribeiro, Roberto Shinyashiki, Lauro Trevisan e Içami Tiba, eu concluo que Louro “Rico” é melhor do que todos, porque eles são sabidos, teóricos, primeiro se ajudam (vendem milhares de livros e enchem a burra e, ajudam o próximo mais próximo), depois ajudam os incautos que acreditam no seu palavreado.
Louro “Rico” tem por divisa: “tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva”, nunca o vi acabrunhado, se maldizendo, não fala de crise, sempre o encontro com a autoestima lá em cima: “...esta semana vou ferrar uns gados numa fazenda que comprei recente...” – não possui nem gado nem fazenda, ao invés de falar de miséria ou pobreza, ele brinca de riqueza, de bonança.
Caro leitor, não pense que o nosso personagem é alienado, não é, sente quando os preços da cesta básica sobem além da inflação, quando o talão de luz ou talão de água incomoda o bolso, quando os filhos e a mulher queixam-se de dificuldades da vida. Quando moço, foi pedreiro de profissão, depois de meia idade, tornou-se construtor independente de imóveis populares, portanto, um cidadão consciente de suas responsabilidades profissionais e sociais, não um sujeito alheio à realidade que o cerca. Porém, nada o deixa pra baixo, afirma: “tudo tem jeito, só não tem jeito pra morte”, assim, simplifica e suaviza a vida.

O homem sábio disse: “a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece”. A oralidade não se sustenta por muito tempo, a pura expressão verbal não tem fé de ofício, ou seja, a credibilidade pode ser questionada, aí fica o dito pelo não dito, enquanto a escrita é perene, é documento, é o registro dos fatos, é o preto no branco, é a prova, porém, o mais importante é o exemplo que passa de geração pra geração. As boas atitudes são transmitidas de pais para filhos em toda sociedade. Os gestos de solidariedade, de amizade, de compartilhar, de abnegação e de amor ao próximo permanecem para sempre.
Hoje, Louro “Rico” está velhinho, mas não perdeu a aptidão de servir, sua capacidade de ser útil e seus conselhos de autoestima ainda são concorridos. Não é rico, mas repete a todo instante o adágio popular: “Ninguém é tão pobre, que não possa dar, nem tão rico, que não possa receber”, por isto, nunca diz “não” se pode dizer “sim” ao sujeito que lhe implora ajuda.
Quando as coisas não vão bem, refugio-me em sua casa para ouvir seus conselhos. Tenho muito gosto em vê-lo. Por maior que seja o problema do indivíduo, ele o faz pequeno. Ele não censura, não admoesta, nem desenvolve sentimento de culpa mesmo se alguém não teve uma conduta correta em alguma situação, quando muito, desperta no sujeito sua autocrítica.
Louro “Rico” não tem diploma de doutor, cursou a faculdade da vida, aprendeu com o mundo, mas é rico em sabedoria, em lição de vida. Não é demais repetir: dos autores literários de autoajuda que li, sem lê-lo no livro, ele é o melhor. Suas lições de vida valem mais do que um livro. Ele tomou como princípio o pensamento de Cora Coralina: “O saber a gente aprende com os mestres e com os livros. A sabedoria se aprende com a vida e com os humildes”.
O objetivo desta crônica é homenagear Louro “Rico” pela sua presença de espírito, pelo seu otimismo natural, pela energia positiva que ele passa, e, sustentar a tese de que a mente má direcionada é responsável pelo nosso insucesso, bem direcionada, é a fonte do nosso sucesso. O adágio popular: “não existe doença, mas doente”, ilustra o nosso pensamento, o mal em si não existe, o que existe é o nosso modo de ver as coisas.
Não existe sorte nem azar, tudo depende do nosso modo de agir, o homem é seu pensamento coadjuvado pela vontade de querer. Se o homem pensa positivo não há espaço para energia negativa, o poder do pensamento debela qualquer mal. Conta-se que certo homem pobre, focou o dinheiro como mudança de vida e escreveu em todas as paredes de seu quarto: “eu sou o dinheiro”, não muito tempo depois ficou multimilionário. O contista não fecha sua história se ele teve a mesma determinação na busca da felicidade, pois nenhum escravo é feliz, a realização material se completa se completo for o espírito.
Enfim, Louro “Rico” possui pensamento positivo, apesar da idade alquebrada, sua sabedoria e otimismo fazem dele uma referência recorrente para o enfrentamento do fardo da vida. Viver não é fácil, porém, mais difícil é se o homem não domina a arte de viver, se ele é um repositório de energia negativa, portanto, urge lembrarmos, prezado leitor, de sua máxima de vida: “tristeza não paga dívida e do mundo nada se leva”. A autoestima, certamente, é a chave da felicidade.


Autor: Rilvan Batista de Santana

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Angústia de poeta - R. Santana

 


Angústia de poeta 

R. Santana

     Fazia tempo que o poeta Kiko Salles angustiado se debruçava sobre suas medalhas na mesa quando sua mulher de forma afetiva, mas dura, chama-o pra cama:
     - Meu velho, o tempo está frio, vamos dormir! – ele não responde, ela insiste:
     - Cuidado com sua bronquite!
     - Sara, não me apoquente, não vês que estou refletindo!?
     - Os poetas vivem no mundo da lua... – brincou.
     - Não brinca, Sara!
     - Meu velho, tristeza não paga dívida, a saúde vem antes, sem a saúde ninguém produz, portanto, vem pra cama homem! – ele continuou onde estava.
     Kiko Salles já estava acostumado com Sara, muito tempo de convivência não mudou sua natureza prática, ela lê como ninguém, sua produção literária, gosta dos seus contos infantis, não gosta de seus poemas, ela adora suas crônicas, principalmente, as crônicas do passado, dos seus amigos de infância, as situações vividas pela família e as crônicas que Kiko fala da mãe, por exemplo, são poemas em prosa e Sara goza de prazer em lê-los.
     Porém, ela é prática, mulher de ação no trato com os serviçais e com a vida, sensível, mas não a ponto de deixar de dormir uma noite fria como aquela por questões literárias. Não entende aquelas brumas do marido, de quando em vez, ele refugiava-se em si mesmo, deprimia-se, demorava sair do estado de “catarse” e voltar ao cotidiano, mas isto ocorria com frequência quando algum crítico de expressão literária lhe era severo.
     Naquele dia, Kiko Salles não se angustiou em vão, havia sofrido o maior desapontamento que um artista da palavra pode passar: o não reconhecimento público, a prova in loco de não ser lido. Ele havia sido convidado para abrir o seminário de “Literatura no Extremo Sul da Bahia” promovido pelo “Colégio Estadual Zeus” e quando o diretor o apresentou como o poeta vivo mais importante da região, o entusiasmo do auditório foi nenhum, não houve vaias, mas um silêncio acusador, ninguém o reconheceu nem pelo nome nem pela presença. Não se soube depois se a saída espirituosa do diretor atenuou o constrangimento do poeta, mas justiça lhe faça que tentou: “Prezados alunos, o CEZ irá premiar 5 alunos inscritos em 1000, no final do seminário, que apresentar melhor resumo biográfico do nosso convidado. O primeiro prêmio, um “Computador”; o segundo, um “Celular”; o terceiro, o mais novo “Aurélio”; o quarto e o quinto, um DVD com as questões do ENEM dos últimos três anos. Nunca mais ninguém daqui, vai ignorar o poeta Kiko Salles!” – deu-se início ao congresso cultural.
     Naquela noite, enquanto Sara dormia, ele refletia sobre sua atividade produtiva literária, além de poemas, fez ensaios, novelas, crônicas, contos, contos infantis, e romance, por isto, não compreendia não ser popular em sua cidade, cidade que tantos versos lhe foram dedicados, tantos trabalhos literários divulgam seu nome. Agradeceu, mas não gostou do arranjo do diretor do colégio de ensino médio CEZ, a emenda foi pior do que o soneto, salvo se o concurso de sua pequena biografia já estivesse programado. Tranquilizou-se depois com o pensamento objetivo de Sara: “Meu velho, nenhum profeta é reconhecido plenamente onde nasceu, Jesus Cristo não é unanimidade em Israel”.
     Embora Kiko Salles seja septuagenário, é alto, forte e, fisicamente está bem, não apresenta fraqueza intelectual próprio da velhice, produz como moço, não faz muito tempo, publicou seu novo romance. Todavia, seu humor não é mais o mesmo, seu estado de espírito é instável: ora bem humorado, ora mal-humorado. Porém, as más línguas sustentam que o seu mau humor é histórico, não chegou com a velhice, quando moço teve fama de intratável, despótico, egoísta e autossuficiente.
     Alguns dias depois do episódio CEZ, o poeta voltou apresentar comportamento estranho: nervoso, taciturno, inapetente, leitura compulsiva, escrita frequente, desleixo pessoal e rabugento. A boa Sara já estava acostumada aos transtornos psicossomáticos e às ansiedades sem motivo ou quase sem motivo do marido, sua intervenção era providencial, no início, ele resistia lhe contar suas angústias, na casa do sem jeito, abria-se como macaxeira e desembuchava seus ressentimentos:
     - O filho da puta da RBS não quer publicar o meu romance!
     - Se você bancar o livro?
     - Sara, que proposta estapafúrdia! Além de produzir, eu vou bancar o livro?
     - Manuel Bandeira, Fernando Pessoa e Monteiro Lobato bancaram seus livros... – Kiko Salles explodiu:
     - Endoideceu Sara? Quem lhe contou essas maluquices?
     - Li em algum lugar!...
     - Ah ah ah... – Sara não gostou:
     - Não deboche!...
     - Não estou debochando, mas não deixa de ser risível, tu entendes de literatura o que entendo de missa!
     - Deixe de ser presunçoso! Eu sou pedagoga e boa leitora, além de conhecer toda ginástica que faz para publicar seus livros, sempre sua produção foi independente e o Editor: $$$.... – Kiko Salles levanta o braço...
     - Vai me bater!? Faça isto e o mundo vai conhecer o grande embuste da literatura baiana! – Kiko Salles cai em si, pede-lhe desculpa:
     - Perdoe-me, foi um gesto insensato, não irá mais acontecer!
     - Acho bom... Juízo homem!
     Kiko Salles encerra-se no quarto de visitas e só saiu de lá dois dias depois, sem comer e beber, com ajuda dos filhos e da própria Sara.



Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

 

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