11.07.2025

Tanaguchi, o ateu - R. Santana

 


Tanaguchi, o ateu.
R. Santana

 

     Desta vez, não encontrei Tanaguchi na Praça Olinto Leone, como de costume, mas na saída da Igreja Santa Rita de Cássia no bairro São Caetano. Foi uma surpresa, porque o velho Tanaguchi é um ateu convicto. Não me aproximei do velho amigo, não quis lhe constranger: “você, aqui?”, “se converteu?”, “eis aí a ovelha perdida de Cristo!”, “o Diabo não é tão feio quanto se pinta!”, mas o velho ateu tem olhos de lince e me buscou na multidão:
     - Meu caro Narvil, que prazer!
     - O prazer é recíproco meu velho guru, mas estou surpreso!
     - KKKKKKK...
     - Rindo de mim ou pra mim!? – quase irritado.
     - Não se apoquente meu amigo, jamais riria de você!
     - Então, é pra mim?
     - Nem uma coisa nem outra, mas do que as pessoas pensam do ateu!
     - Não é de admirar um ateu assistindo missa?
     - O ateu é um ser humano com dúvidas, um deísta na melhor das hipóteses, mas não deixa de ser humano, com seus conflitos, suas ansiedades, seus sonhos, e lá no fundo, ele alimenta a esperança de um Deus único, incriado, com atributos morais e intelectuais, assim, a vida teria mais sentido, sem o maniqueísmo de Deus ou o Diabo, ou seja, o bem absoluto e o mal absoluto!
     - Pode-se tampar o Sol com a peneira?
     - Não!
     - Então?
     - Aí está o problema: o ateu não entende os desígnios de Deus... Pra quê tanto sofrimento no mundo? O ateu não aceita um Deus lógico, desumano, impiedoso, que deu pecado original ao homem, vingativo, sem sentimento, que permite a dor e o sofrimento para os justos e os injustos, que permite os sinistros da natureza para bons e maus, e não aniquilou a morte!
     - Tanaguchi, existe um provérbio: “Deus escreve certo com linhas tortas”, não lhe é dado nem a mim conhecer os desígnios do Criador. Pensamos que o mal em si é sofrimento e não é, pode ser uma evolução espiritual, além disto, Deus deixou o “mundo das possibilidades”, o livre arbítrio... – Tanaguchi aparteou:
     - Isto é eufemizar o mal, é racionalizar a fé, mas quem está em cima de uma cama gemendo e chorando de dor, não irá lhe dar ouvido!
     - Tanaguchi, o sofrimento é desumano, até Cristo, como homem suplicou na hora de morrer: “... Tudo é possível para Ti; afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que Tu queres”. Porém, temos que alimentar a esperança que estamos aqui “passando uma chuva”, aqui não é o fim, mas o começo do fim, que Deus reservou ao homem a vida eterna, senão, a vida não tem sentido, a vida é uma merda!...
     - Eis aí o pomo da discórdia: o homem de fé aceita o sofrimento em troca de um pedacinho do céu; o ateu não acredita no céu como morada, pois tem certeza que tudo acaba no jazigo!
     - Perdoe-me, mas não acredito nessa não crença do ateu, quando a coisa aperta, vem o “valha-me Deus”, tudo é de boca pra fora, a exemplo de lhe encontrar aqui, não é incoerência?
     - Não existe incoerência, Narvil! O olhar é subjetivo, você olha com “olhos da fé”, eu olho com “olhos da razão”, é diferente... O crente vê o milagre como manifestação divina, o ateu vê o milagre como emanação energética. Além disto, os rituais, sejam de religiões ou de seitas, são lúdicos, divertidos e, são interessantes do ponto de vista antropológico e não dispensam reflexão sociocultural! Então, ainda acha que sou incoerente?
     - Tanaguchi, mal comparando, li de Platão não sei se em Crítias, Fédon, Mênon ou Górgias, uma discussão dialética sobre a virtude entre um sofista (não guardei o nome) e Sócrates. Sócrates diz-lhe que não sabe o que é virtude e o pobre do homem acredita. Os questionamentos (maiêutica), as réplicas e as tréplicas se sucedem, aí, o sufista na casa do sem jeito, compara Sócrates ao polvo que entorpece a vítima antes de devorá-la... Você deixa o seu interlocutor aturdido e estonteado com sua frieza lógica, portanto, não me resta outra saída, deixar-lhe com suas convicções materialistas, racionalistas e preservar as minhas. – Tchau!
     Tanaguchi ficou tonto!...

 

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras

Imagem: Google
Att.: "Narvil" é um anadromo. 

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