11.06.2025

Antônio Mangabeira e um jeito novo de fazer política - R. Santana (*)

 


Antônio Mangabeira e um jeito novo de fazer política R. Santana (*)

Antônio Mangabeira e um jeito novo de fazer política
R. Santana (*)

Conheci o médico Antônio Mangabeira em 1992, numa situação familiar dramática (minha filha mais velha foi diagnosticada com aplasia de medula e morre um ano depois no Hospital das Clínicas de São Paulo), que o tempo conseguiu eufemizar, mas a dor da saudade é eterna. Antônio Mangabeira, sem alarde, fez um diagnóstico a priori da doença, embasado em sua experiência profissional, e os exames laboratoriais confirmaram-no.
Ciente dos parcos recursos financeiros da família e da gravidade da doença, ele fez uma carta para o médico Hélio Moraes, responsável pelo setor de transplante de medula do Hospital das Clínicas de São Paulo e, solicitou-lhe ajuda e vaga naquele hospital de referência nacional. Mesmo com desfecho desfavorável, a família jamais esqueceu esse gesto de desprendimento e solidariedade e sempre lhe será grata.
O tempo passou, outras circunstâncias surgiram e, Antônio Mangabeira ascendeu em competência médica e empresarial. Hoje, sua clínica de oncologia e outras doenças, é referência em qualidade e resultados auspiciosos no Nordeste e no país. Além de pessoal de apoio e administrativo qualificados, médicos e outros profissionais de saúde competentes que integram seu corpo clínico, a clínica possui aparelhagem específica de ponta. A “Oncosul” está instalada no centro da cidade de Itabuna num prédio confortável, suntuoso, com funções adaptadas para uma clientela fragilizada e alquebrada pela doença.
A história de vida de Antônio Mangabeira é rica em superação e sucesso. Nele se aplica o princípio de que o homem não é produto do meio, mas pode ser influenciado e influenciar o meio ao mesmo tempo. Egresso de escola pública, o filho caçula do representante comercial João Soares França e da costureira Humbertina Mangabeira França, quando terminou o curso médio, foi aprovado no vestibular de medicina da UFBA, feito quase impossível naquela época, para estudantes do interior de escolas públicas.
A sabedoria popular diz que além de talento o indivíduo tem que ter sorte, sem sorte o destino dá um nó. Quando Antônio Mangabeira foi aprovado pela faculdade de medicina da UFBA, seu pai sustentava a família como bodegueiro e sua mãe contribuía na receita familiar como costureira de bairro, portanto, impossível, naquela época, manter um filho estudante de medicina na capital do estado com parcos recursos financeiros e prover todas suas necessidades: moradia, alimentação, livros e transporte, despesas pessoais, aí, surgiu um mecenas, um amigo da família, que lhe proporcionou moradia confortável, a universidade lhe deu alimentação e o governo lhe concedeu um salário-educação até o final do curso.
Formado, o médico Antônio Mangabeira voltou para Itabuna e junto dos amigos e da família, aqui se estabeleceu... Aqui, construiu ao longo dos anos, de maneira honrada, uma carreira médica respeitável e empresarial da saúde de sucesso. Hoje, faz-se necessário informar, por dever de justiça e gratidão, que ele paga o aluguel residencial do homem que lhe deu teto na capital baiana, no tempo das vacas magras, para que ele cursasse medicina.
Ao lado de um grande homem há sempre uma grande mulher que lhe ampara quando a vida pende para um lado e para o outro, que compartilha no sofrimento e celebra na alegria e Antônio Mangabeira teve sorte com sua consorte quando aceitou e foi aceito por Célia Kalil para construírem uma família sob as bênçãos de Deus. Célia Kalil Mangabeira não é uma esposa acomodada como tantas por aí, é uma médica competente, uma mulher inteligente, educada, bem articulada, política, comprometida com projetos de inclusão social de pessoas especiais, coordena na UESC, um programa para pessoas portadoras de síndrome de Down. Ela é uma guerreira, uma revolucionária, uma benfeitora de causas sociais, uma mulher acima do seu tempo.
A vida não é estanque para os idealistas, para os desapegados materiais, para aqueles que pensam no próximo menos favorecido, para aqueles que não se deitam nos privilégios que o destino lhes deu, para aqueles que não desejam Deus pra si e o Diabo para os outros, assim é Antônio Mangabeira, depois do sucesso pessoal, focou servir à comunidade que lhe acolheu de sua cidade natal do Senhor do Bonfim, e em setembro de 2015, em entrevista ao jornalista Kleber Torres, jornal Agora, tornou público o desejo de contribuir mais para Itabuna como prefeito.
Nessa entrevista que Antônio Mangabeira há um ano concedeu ao jornal Agora, deixa claro seu novo jeito de fazer política e administrar. Ele não quer o poder pelo poder, se assim fosse, usaria os mesmos métodos escusos e instrumentos de barganha dos seus concorrentes para chegar ao poder municipal, mas propõe ideias administrativas diferenciadas cujo objetivo é beneficiar o cidadão, a comunidade itabunense.
Aplicar, sem desvios, cada centavo do dinheiro público em obras necessárias e duradouras, promover o desenvolvimento da cidade com parcerias estaduais, federais e privadas. Criar projetos factíveis para alocação de verbas rubricadas federais e estaduais. O adversário dirá, com razão, que essas ações foram tomadas por outros administradores, porém, não com a mesma lisura de Antônio Mangabeira. É sabido que muitos recursos federais e estaduais são corrompidos por maus políticos, antes de chegarem ao seu destino, ou, aplicados em obras superfaturadas que não atendem às necessidades do cidadão de imediato, mas enchem os bolsos de administradores desonestos do dinheiro do povo.
Antônio Mangabeira é único nessa plêiade de candidatos ao executivo municipal itabunense que não tem um passado de mácula, de corrupção, o único capaz de tirar Itabuna da pasmaceira administrativa que se encontra e promover mudanças administrativas necessárias em saúde, em educação, em transporte, em moradia, em segurança, pois não possui o ranço de velhos políticos, políticos que se locupletaram com o poder, ou, deixaram parentes e apaniguados se locupletar, políticos que fatiaram o poder pra governar.
Enfim, “alea jacta est”, a sorte está lançada, Itabuna não merece o desprezo e o abandono atuais, é uma cidade fundada sob a égide do trabalho, do progresso, do desenvolvimento, uma cidade construída pelas mãos calosas dos sergipanos e pessoas de outros rincões nordestinos, uma cidade que clama por um futuro auspicioso, moderno, sem retrocesso, sem atraso, sem conchavos escusos, sem licitações viciadas, sem política do toma lá, dá cá, e o momento é de Antônio Mangabeira, um homem honesto, obstinado, cujo desejo maior, é deixar esta cidade mais aprazível, mais digna para os seus filhos e para aqueles de fora que aqui fincam suas raízes. Itabuna, 25 de agosto de 2016,


(*) Rilvan Batista de Santana, professor aposentado, ex-vereador e membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.
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Carta para Dr. Rafael Kalil - R. Santana

 


Carta para Dr. Rafael Kalil - R. Santana

Prezado Senhor:

 

     Recebi, pelo seu WhatsApp, a incumbência de analisar sua redação com o título a "Arte de pertencer", a priori, peço-lhe vênia para usar este expediente de comunicação, a carta. Ainda não me adaptei com o e-mail nem com o WhatsApp para textos grandes. Hoje, os jovens têm uma linguagem resumida, às vezes, eles são econômicos até nas palavras, a maioria é abreviada. Muito de nossos escritores e poetas do passado usavam a carta em abundância, a exemplo de Rilke, Machado de Assis, Michel Ângelo. A Rainha Vitória foi radical em suas missivas, produziu mais de 3.700 cartas.

     Nossa amizade fez debruçar-me sobre o computador para avaliar a gramática e o conteúdo de "Arte de pertencer", quando me fez essa proposta em seu consultório, pensei não aceitar o honroso trabalho, mas fiquei na casa do sem jeito. Eu sou consciente das minhas limitações literárias, filológicas e um estudioso do nosso idioma. Não me considero um escritor, mas, um amante da palavra escrita e falada.  Na palavra falada sou um desastre, uso a linguagem coloquial para minhas relações interpessoais que dispensa a gramática clássica. Eu sou adepto de Demóstenes, o maior orador de todos os tempos e, de Cícero com suas "Catilinárias" acusando o corrupto Catilina no Senado de Roma.

     Estimado Rafael Kalil, quando leio um texto ou uma obra, não me prendo às filigranas gramaticais, prendo-me ao conteúdo, se possui início, meio e fim, se as ideias estão concatenadas e, se o texto prende o leitor da primeira página à ultima. Quando editei o meu primeiro romance, doei um exemplar ao saudoso prof. Antônio Garrido, que era professor de português de quatro costado, dei-lhe o livro pra analisar o enredo, a sequência de eventos que compõem a história, porém, dois dias depois, ele devolveu-me o livro rabiscado de correção do idioma, fui-lhe curto e grosso: "O senhor leu a história? Gostou do estilo?". Ainda hoje, não gosto que alguém valorize mais as filigranas de gramática dos meus textos do que o conteúdo.

     É fácil apontar os erros, às vezes, são subjetivos, pessoas de presunção e afetação elevadas, que procuram cabelo em ovo. Quando era jovem, eu li muita coisa de Ruy Barbosa. Gostava da lenda que dizia que, na Conferência Internacional de Paz, ele foi o diplomata que mais alçou voo e foi considerado "O Águia de Haia". Contam os curiosos que quando Ruy chegou ao local de conferência, uma das diplomatas europeias, o desdenhou, chamando-o de "macaquito", mas, quando chegou sua vez de representar o Brasil, ele perguntou aos conferencistas em que idioma faria seu discurso - para espanto de todos. Porém, Ruy era vaidoso, na redação do Código Civil no início da República, ele foi preterido pelo dr. Ernesto Carneiro para relatar o Código Civil, foi o bastante para que Ruy Barbosa fosse corrigir os falsos "erros" de português, que deram origem aos livros "Réplicas e Tréplicas".

     Esses parágrafos anteriores justificam minha aversão para corrigir os erros de português de outrem e não gosto que corrijam meus textos, salvo, com minha autorização expressa.

     Egrégio Dr. Rafael Kalil, li e reli a redação a "Arte de pertencer", é um texto de uma lauda e meia, que didaticamente, pode ser dividido em: o nascimento do ser humano; as relações interpessoais e cognição; vontade e meio ambiente; ser acolhido pela ALITA e o conceito de sorte e destino; a importância da leitura e oratória; a arte de convencer.

     Hoje, o nascimento de um bebê é motivo de preocupação desde o nascimento com os cuidados dos obstetras. O filho e a mãe são monitorados desde os primeiros meses. A mãe tem que manter seu peso em dia para evitar uma eclampsia e levá-la à morte, cuidados com a pressão arterial. O bebê não foge à regra, os cuidados com vacinas, mudanças repentinas de hábitos e acidentes imprevisíveis. Vejo nas entrelinhas do texto que o autor se preocupa desde cedo para que o indivíduo pertença e seja acolhido pela família e grupo não familiar.

     Para que indivíduo pertença à comunidade e à sociedade, ele tem que desenvolver suas relações interpessoais no trabalho, no trato com sua comunidade, no seu clube recreativo, em sua escola, no seu clube de futebol, com sua igreja, enfim, a relação interpessoal é essencial para seu desenvolvimento afetivo e intelectual. Nesse parágrafo o autor explora o cognitivo, o conhecimento existencial: "cogito ergo sum" do filósofo francês René Descartes que foi o pai do racionalismo de "penso, logo existo". No meu curso de Filosofia, li várias vezes o "Discurso do Método" cartesiano e, ensinei muito a Matemática de Descartes. O autor da redação fecha com São Tomás de Aquino, adepto das ideias de Aristóteles de Estagira, o preceptor de Alexandre, o Grande, filho do rei Felipe III.

     Num dos parágrafos da redação "A Arte de pertencer" o autor discorre sobre a vontade de Henri Bergson e o meio ambiente. Bergson vê a vontade como instrumento consciente de aprendizagem. Sua vontade é o norte do homem, se ele tem vontade como sinônimo de ação, desejo, ele vence todos os percalços, todas as dificuldades. Porém, para o homem desenvolver a vontade, ele precisa do meio ambiente, onde mora, vive e se desenvolve. O meio ambiente não é somente o espaço físico, mas, o meio cultural, religioso, educacional, intelectual, familiar, costumes, tradições e pertencimento moral. Porém, não é verdade que o homem é "produto do meio", ele pode receber a influência do meio, mas o homem tem livre arbítrio para decidir seu destino.

     "...É importante compreendermos que o não está à plena disposição de qualquer que seja...", realmente, para pertencer à entidade A ou B, além da predisposição da entidade acolhê-lo ao grupo, existem obstáculos que extrapolam ao desejo do candidato em diferentes contextos, o obstáculo mais comum é a limitação de vagas e a indisposição do grupo acolhê-lo. Não é prudente ficar em ambiente que o indivíduo tem uma forte rejeição ou uma leve rejeição. Todavia, a não plena aceitação pode ser de origem religiosa, política, falta de empatia, de ideias conflitantes, em casos extremos, a inveja.

     Para se candidatar à Academia de Letras de Itabuna- ALITA, além dos pré-requisitos literários, com domínio da palavra, prosa ou versos, será necessário que o candidato passe pelo crivo de uma eleição, que não é fácil. O desavisado pensa que não existe política acadêmica numa academia de letras, ledo engano, a política acadêmica existe desde à Academia Brasileira de Letras - ABL. Na obra de Jorge Amado, "Farda, Fardão e Camisola de Dormir", ele narra a história duma eleição para escolha de um general ou um civil. Foi um libelo de forças antagônicas que prevaleceu o bom senso com a vitória do candidato da oposição.

     Nem sempre o melhor é escolhido, no entanto, é necessário que o candidato esteja embasado em conhecimento específico e conhecimentos gerais. No dia a dia, não se lida, somente, com a sorte, é necessário que o homem tenha o seu saber, adquirido ou experiência de vida. Não se faz um concurso esperando ser bafejado pela sorte, não obstante, a sorte é condição sine qua non para alguns vencerem na vida. Quem é amante da palavra, da escrita e da oratória, tem que ser um leitor contumaz, cujo objetivo é formar subsídios, não se tira algo onde não existe.

     Estimado Rafael Kalil, gostei demais de sua redação, de fácil leitura e compreensão, não é um texto pedante, acessível a qualquer leitor. Embora tenha recebido a incumbência de rastrear os erros ortográficos, digitais e gramaticais, não o fiz, recomendaria uma reflexão sobre a necessidade de concatenar as ideias para clareza do texto e a história tenha início, meio e fim e, conclusão lógica. Recomendaria, também, com o estudo cuidadoso da pontuação de sinais gráficos e evitar a repetição de palavra, use as palavras afins.

     Enfim, obrigado pela honraria, tenho que enaltecer sua humildade e simplicidade, de confiar suas dúvidas a um sujeito de pouco saber! Fraternalmente, Rilvan Batista de Santana, São Caetano, Itabuna (BA).

 

 

 

 

 


Autoria: Rilvan Batista de Santana

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Membro: Academia Brasileira de Letras - ALITA

Imagem: Google

11.05.2025

Nova carta para Helen K. Friedman - R. Santana

 


Nova carta para Helen K. Friedman - R. Santana

Nova carta para Helen K. Friedman
R. Santana
 
Querida Helen:

Hoje, 7 de Setembro, do ano cristão de 2016, às 22 : 00 h, foi que abrir sua carta e a li, enviada uma semana antes. Não tome isto, falta de consideração, é que grudado na TV, assisti de cabo a rabo, o grande circo montado na Câmara Federal e no Senado para o impeachment de Dilma Vana Rousseff. O último índio da tribo dos pataxós do Sul da Bahia e o núncio apostólico no Brasil, Dom Giovanni d'Aniello, a priori, já sabiam o resultado. Mas dava um prazer freudiano, ouvir e ver, os vetustos deputados e senadores do estado brasileiro, fundamentarem o crime da senhora presidenta da nossa republiqueta: pedaladas fiscais (“despedaladas fiscais” para Belluzzo) e créditos suplementares.
Querida Helen, nunca simpatizei com o PT, mas a determinação e a coragem dessa mulher, a História lhe será justa, mesmo sabendo que seria destituída sem “crime de responsabilidade”, mas por ações administrativas necessárias de governo, de suas funções de presidente do país, enfrentou de peito erguido e queixo levantado, o cinismo de seus algozes. O golpe parlamentar que lhe foi dado efetivou-se por conta de natureza cordata do brasileiro, que não é radical, não possui pensamento xiita, aposta no “jeitinho brasileiro” e no amadurecimento democrático e, deixa que o processo eletivo das eleições vindouras, varra da vida pública esses escroques da política em todas as esferas do poder.
Porém, não quero falar de política, sou daqueles que “religião, política e mulher, não se escolhe, se abraça”, pois ninguém é perfeito, quando se escolhe, escolhe-se com qualidades e defeitos. Quero falar de literatura, que, grosso modo, tenho certa experiência, não sou um Federico Garcia Lorca, um Ernest Hemingway, um Jorge Amado, um Adonias Filho, um Harold Robbin, um Morris West, mas um apaixonado por quem possui a maestria do uso da palavra. Escrever com estilo, com clareza, com criatividade, com domínio da forma convencional e não convencional, é um privilégio de poucos, pois a palavra voa e a escrita permanece para sempre.
Querida Helen, sei que aí na terra do Tio Sam, não lhe passa despercebido nada que ocorre aqui nas “Terras do Sem-Fim”, do nosso Jorge Amado, porque a Internet revolucionou o mundo da comunicação, suspira-se no Ocidente e ouve-se o som no Oriente em tempo real. Porém, quero lhe dar uma notícia fresquinha: o nosso escritor vivo mais importante, Cyro de Mattos, foi escolhido, no dia 15 de Agosto deste ano, para ocupar a cadeira nº. 22, na Academia de letras da Bahia – ALB, sufragado por 27 dos 28 membros efetivos que compareceram à sessão da ALB.
Cyro de Mattos é um escritor laureado aqui e no exterior, em contos, novelas, romance, poesias, literatura infanto-juvenil... Ele tem uma caminhada de meio século na literatura do Sul da Bahia com 50 livros publicados e outros no prelo para serem publicados. Claro que sua ascensão às letras do estado da Bahia, não irá baixar o dólar, nem resolver os atuais problemas cruciais do país, todavia, é uma vitória das letras da nossa terra que já foi do cacau, pois antes dele, apenas, Jorge Amado, Itazil Benício e Hélio Pólvora tiveram esse privilégio.
Sei que vai conjecturar sobre o novo acadêmico da Academia de Letras da Bahia – ALB, sua curiosidade literária é invejável, por isto, no decorrer desta carta, quero lhe dar o máximo de informações possíveis sobre o escritor eleito no mês passado para integrar àquela casa do saber da cultura baiana. Claro que vou fixar-me mais em considerações literárias, mas sem prejuízo de opiniões pessoais.
Querida Helen, conheci pessoalmente Cyro de Mattos na FICC (ele era o presidente), no dia 19 de Abril de 2011, na fundação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA. Antes, o conhecia de foto e manchetes de jornais e da leitura “en passant” de alguns poemas e crônicas seus publicados na imprensa local. De lá pra cá, li: “O velho campo da desportiva”, “O goleiro Leleta e outras fascinantes histórias do futebol”, “Vinte Poemas do Rio”, “O menino camelô”, “Histórias Dispersas de Adonias Filho”, “Palhaço bom de briga”, “Os brabos” e “Os ventos Gemedores”. Para o romance “Os ventos Gemedores”, eu dediquei uma crônica intitulada: “Terras do Japará” que se encontra no “Saber-Literário”, no “Recanto das Letras” e no site da “ALITA”.
Quando o conheci, Marcos Bandeira, um intelectual sem afetação, um homem generoso, fez um relato sucinto da atividade literária de Cyro de Mattos e concluiu brincando: “Para Cyro se imortalizar só precisa morrer...” Tomei esta frase como gancho e um mês depois, publiquei uma crônica nos principais sites de literatura do país, com o título sugestivo: “Conheci um imortal”, onde deslumbro minha admiração pelo escritor e poeta Cyro de Mattos.
Querida amiga da terra do Tio Sam, hoje, nenhum escritor baiano, pelo conjunto da obra e pela versatilidade, é mais merecedor ocupar a cadeira 22 da ABL e receber o título “Doutor Honoris Causa” da UESC do que o itabunense Cyro de Mattos. Sua obra literária é rica e extensa em vários segmentos da literatura: contos, crônicas, poemas, romance, novelas, ensaios e infanto-juvenil. Talvez, não seja uma literatura revolucionária e de escola, a exemplo de Machado de Assis, Dante Alighieri, Mário de Andrade, Fernando Pessoa, Kalil Gibran, Olavo Bilac, Goethe, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, mas é uma boa literatura e, ficará eterna para posteridade.
Porém, Helen, ninguém é perfeito, já dizia a filósofa minha avó, que “perfeito só no ceu”, o nosso escritor não goza de popularidade sequer dos seus conterrâneos, não é lido nem reconhecido fora de Itabuna, diferente de Jorge Amado e Adonias Filho, que são lidos e reconhecidos aqui e lá fora, os expertos atribuem aos traços não sociáveis de sua personalidade, dizem as más línguas que ele é manipulador, egocêntrico, não generoso com os novos escritores e, escreve sobre a mesmice, sem gênio criativo, uma literatura linear, sem sobressaltos e explora assuntos esgotados. Acredito que essas homenagens irão mudar a opinião de seus patrícios.
Enfim, minha querida Helen, perdoe-me não possuir o dom da síntese e puxar e repuxar o assunto além da conta, gosto da digressão, o pensamento lógico é pra ciência e não pra literatura, o ceu é o limite na criatividade, o ficcionista não tem compromisso com a verdade do outro, mas com sua verdade. Na próxima carta, prometo-lhe primar pelo resumo, escrever o necessário será regra, porém, não me peça tanta informação, não seja tão abelhuda. Fraternalmente, Narvil. Itabuna, 07 de Setembro de 2016.


Autor: Rilvan Batista de Santana

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Luíza - R. Santana

 

Luíza - R. Santana

 

     Nós tínhamos a idade da inocência. Os nossos olhos expressavam o que era proibido aos nossos corpos. Não nos tocávamos, exceto, quando sua mãe falhava no zelo. A “Escola Sagrado Coração de Jesus” era o nosso dia a dia. Lá estudávamos, lá aprendíamos o conhecimento dos livros, lá, eu e Luíza brincávamos de amor, lá, a professora Name, sua mãe, cuidava de nosso futuro.
     Hoje, lembro-me a dedicação de Luíza nos estudos, não obstante sua mãe ser nossa professora, ela estudava com gosto, desenvolta em todas as matérias, com exceção da aritmética. Sua dificuldade em tabuada levava-me, a contragosto, usar a palmatória em suas mãozinhas nas sessões de sabatina de vez em quando, pois eu tinha mais facilidade nessa matéria mais do que nas outras. Certa feita, sua mãe deu-me meia dúzia de bolos para aprender usar a palmatória: “... é assim que se bate!”, Luíza chorou por dó e sentimento de culpa, eu chorei de ódio da professora Name.
     Sua mãe relaxava o cuidado com Luíza em acontecimentos especiais: 7 de Setembro, competições esportivas, representações teatrais de Natal, da Semana Santa, eventos comunitários de arte e cultura, mas esperávamos ansiosos as festas juninas, professora Name curtia o forró, todos os anos, contratava um marcador para formar e desenvolver as quadrilhas juninas e, no dia de São João, a escola abria para comunidade.
     A dança junina é freudiana, o instituto sexual fica à flor da pele, os cavalheiros dançam quase colados às damas, quanto mais desenvolto for o corpo, maior é o desempenho do par, o cavalheiro arrasta a dama pelo salão com leveza e requebro, o tempo da música é demorado, nenhum casal se destaca, todos os casais são contemplados pelo som gostoso do forró e do baião, os pés acelerados e de forma regular, dão o ritmo da dança.
     Marcar a quadrilha exige experiência e conhecimento, o marcador é o maestro da dança, todos os atos estão sob seu comando, ele não usa a batuta, mas usa os “comandos” que regem os movimentos dos dançarinos com harmonia e graça.
     Eu ficava em frente à Luíza na fila dos homens, ela, na fila das mulheres, esperávamos, somente, o primeiro comando pra começar e quando o marcador gritava “balancê”, o corpo começava balançar, em ritmo alternado, ora homem, ora mulher, quando ele gritava “en avant” todos caminhavam avante com os braços balançando e voltávamos aos nossos lugares quando ouvíamos o comando: “returner”.
     No “tour”, eu abraçava Luíza na cintura enquanto isto, ela colocava o braço esquerdo no meu ombro e girávamos para direita. No ritmo da dança, os cavalheiros cumprimentavam as damas e as damas os cavalheiros. Na quadrilha junina, as evoluções são várias: primeiras marcas no centro, grande passeio, troca de damas, troca de cavalheiros, o túnel, “en avant tour”, o caminho da roça, caracol, desviar... Divertíamo-nos muito, quando o marcador gritava: “olha a cobra”, “é mentira”, aí os grupos se refaziam do susto.
     Após formar grandes rodas, em galope, sempre no ritmo da dança, os cavalheiros e as damas despediam-se, encerrava-se a quadrilha, os músicos continuavam tocando e o espaço era liberado para os adultos dançarem, enquanto, eu e Luíza aproveitávamos o descuido de sua mãe, às escondidas, íamos “namorar”.
     Luíza não gostava de fogos, tinha um medo mórbido de bombas, quando insistíamos, ela se aventurava soltar “chuvinhas”, traques, “cobrinhas”, ou seja, fogos que não ofereciam riscos explosivos. Eu não gostava nem destes fogos, uma “cobrinha” tinha invadido minha bota e me deixou com o pé queimado por algum tempo. No São João, gostávamos mesmo de dançar, comer canjica, bolo de tapioca, milho verde e, quando os adultos deixavam, tomávamos dois dedos de licor de jenipapo, de cacau, ou, nos empanturrávamos de doces.
     Ah, bons tempos eram aqueles, tempos de inocência, acreditávamos em nossas juras de amor sem pejos, nós não éramos o dono do mundo, mas éramos filhos de Deus, o dono. Tudo era cor de rosa e o ceu de brigadeiro, a maldade passava distante da gente, a dor e o sofrimento não eram nossos aliados. Em casa, nossa preocupação maior, era realizar as tarefas escolares de Name, a vida valia a pena...
     Não nos beijávamos, aliás, não conhecíamos o beijo com gosto de sexo dos adultos, conhecíamos, somente, o beijo como expressão de afeto dado na face, quando, eu e Luíza demos a nossa primeira “bitoca”, nos sentimos culpados, uma mistura de prazer e pecado ficaram em nossas mentes por algum tempo.
     Eu amava Luíza, amava sua inocência, seu jeito meigo, sua voz delicada, seus cabelos cor de mel, e, amava sobremaneira suas mãos... Mãos cor de jambo, mãos delicadas, mãos de dedos compridos e unhas aparadas, cor de rosa, mãos inteligentes, mãos divinas, mãos de deusa.
     A “Escola Sagrado Coração de Jesus” ficava num princípio de bairro, onde havia mais mato do que casa, com muitas árvores esparsas, no recreio, os mais velhos iam brincar futebol no campinho da escola, os pré-adolescentes iam brincar embaixo de árvores frondosas, eu e Luíza ficávamos entre os últimos, os últimos, pois ficávamos a sós, ali, embaixo de uma jaqueira ou um pé de jambo, trocávamos juras de amor eterno, então, brincávamos de médico, marido e mulher, ou, pais ardorosos:
     - Amor, que é de Juninho?
     - Foi jogar bola com os vizinhos!
     - Mas... ele é pequeno, vai se machucar...
     - Oxente querido, Juninho é um rapazinho... – ou, brincávamos de médico:
     - Doutor... uma dorzinha no coração... – eu colocava o “estetoscópio” no peito...
     - Mas... seu coração está batendo normal, senhora! – Luíza retrucava:
     - Doutor, este aparelho está ruim, ouça o meu coração! – deitava a cabeça no seu peito...
     - Senhora... o coração contou-me que seu mal é de amor!...
     - Que coração abusado, doutor?... – arrependia-se:
     - Coitado... ele deve ter razão... tem cura doutor?
     - Sim!
     - Prescreva o remédio já, doutor!
     - Aqui, não!
     - Onde, doutor?
     - No hospital!
     - Pois, leve esse coraçãozinho pra lá, doutor! – enlaçava Luíza e levava-a pra outro ponto      mais escondido da jaqueira.
     - E agora, doutor?...
     - Deixe de pressa, senhora!...
     Amor infinito, juras eternas, inocência sempre, maldade exorcizada, carinho sublime, momentos eternos, felicidade sem fim, eu e Luíza, Luíza e eu...



Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

O agregador - R. Santana

 

O agregador - R. Santana
O agregador
R. Santana


Segundo o Aurélio, pai dos “burros”, agregar é reunir, congregar, acumular e associar. Quem não agrega, desagrega... O agregador é diferente do líder, este, nem sempre agrega, Hitler e Napoleão, por exemplo, foram líderes de seu povo, mas desagregaram países e continentes, o agregador não impõe, põe, ele não se faz aceitar, é aceito.

O desagregador destrói, o agregador constrói. O desagregador desestabiliza, o agregador estabiliza. O agregador estabiliza o ambiente, o desagregador o desestabiliza. O agregador sempre de bem com a vida, o desagregador é um indivíduo de personalidade ciclotímica, ora deprimido, ora exuberante.

Pegando carona no episódio Domingos Montagner, segundo depoimento dos seus colegas, era um agregador, por onde passava, deixava saudade: família, amigo, sorridente, generoso, elegante, nobre, modesto e sociável. É sabido que quando se morre, mesmo o inimigo, não se tripudia sobre o cadáver, guarda-se o melhor de sua memória, porém, quando a pessoa é de má índole, perdoa-se, mas não se acende vela nem deixa saudade, o menos polido diz: “... já vai tarde pra os quintos do inferno”.

Nenhuma entidade pública ou empresa privada é desenvolta quando o dirigente é desagregador, os prepostos, inconscientemente, não produzem quanto se fosse dirigida por um líder, um agregador, pois o desagregador, naturalmente, é egoísta, manipulador, autossuficiente e arbitrário.

O papel do agregador numa entidade pública ou empresa é diferente, ele procura juntar todos os indivíduos com o mesmo objetivo, para isto, administra os dissidentes, delega poder, compartilha as tarefas e promove um ambiente funcional de segurança e psicológico de paz.

Porém, o líder e o agregador não se forjam na escola, conta a lenda que Gengis Khan e Maomé eram analfabetos; o primeiro, unificou a Mongólia e estendeu seu domínio até a China no ano 1162, uma área equivalente três vezes o Brasil; o segundo, é o Jesus Cristo dos muçulmanos. A educação pode ilustrar o líder ou o agregador, mas a disposição psicológica é inata, ambos nascem pra liderar, o ambiente e a educação dão o toque final.

A diferença do líder e do agregador, é que o agregador sempre usa o bom senso, enquanto o líder, às vezes, usa o contrassenso. Mas ambos são importantes pra História da Humanidade.

Não é tarefa fácil agregar, principalmente, cabeças pensantes, pois cada um enxerga o mundo de acordo os seus princípios morais e suas convicções ideológicas. É comum alguém dizer que os governantes preferem o povo ignorante, pois é mais fácil de liderar, agregar, enquanto o povo letrado, pensante, é difícil enganá-lo, este não tem nada de tolo.

Portanto, é condição necessária que o povo seja instruído, educado, assim, irá conter os falsos líderes e os desagregadores, povo ignorante, é povo que se deixa levar, “Maria vai com as outras”, não possui discernimento aguçado, age mais com o coração do que com a razão. O homem ignorante só pensa em si, nas necessidades imediatas, ao passo que, o homem de conhecimento não pensa só em si, mas o que é bom para todos, o que será bom para seus filhos e seus netos.

O processo político partidário eletivo é o único instrumento democrático que temos para separar o joio do trigo, o bom do ruim, o honesto do desonesto, o empreendedor do não empreendedor, o líder do falso líder e o agregador do desagregador.


Autor: Rilvan Batista de Santana
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O travesti - R. Santana

 


O travesti - R. Santana


          No início dos anos 80, moravam na Serra do Padeiro, região dos índios Tupinambás, “Chico Zabelê” e “Ana Tanajura “. Ele, bicho do mato, cabra macho, caboclo valente, homem hábil no biscol e no clavinote, burareiro de cacau; ela, outrora vedete do baixo meretrício de Buerarema, se conheceram jovens, se amancebaram, formaram uma família e construíram uma fazenda de cacau e algumas cabeças de gado no sopé da montanha do Padeiro.
          Analfabetos de pai e mãe e madrinha de apresentar, assim que os meninos ficaram taludos, eles compraram uma casa na cidade de Itabuna e colocaram os filhos na escola. Não deixaram a fazenda, os filhos ficaram aos cuidados de uma irmã de Chico Zabelê, de 15 em 15 dias, eles vinham pagar as despesas de cereais no armazém, desobrigar outras despesas pessoais dos meninos e da tia “Clô”, e, matar a saudade dos moleques. Nas férias escolares, de Junho e final de ano, todos, tia e sobrinhos, arribavam pra “Fazenda São José”, podar cacau, beber leite no úbere da vaca e tomar banho no riacho do Padeiro.
          Aonde Chico Zabelê ia, sua mulher ia atrás, para o seu vizinho de fazenda, a elogiava: “ela é mios zóios e mias zorêias”, e acrescentava: “mio pé di boi”, ou seja, Ana Tanajura cuidava de tudo, enxergava tudo, não arredava o pé da fazenda, exceto, de quinzena em quinzena, para visitar os filhos e colocar ordem na casa de Itabuna. Ela não bebia nem fumava, não tinha vaidades femininas, seu mundo se abreviava em cuidar da burara, do marido e dos filhos. Embora fosse dona de 2000 arrobas de cacau, se misturava sem destaque, com as mulheres de outros caboclos menos afortunados que o marido e, as mulheres dos seus trabalhadores. Ela não possuía pabulagem nem a empáfia das mulheres dos outros fazendeiros da região.
          Chico Zabelê não fumava, bebia de quando em vez para ‘isquentar o fio”, justificava, uma fera inocente, não possuía pabulagem, mas era um homem de pouca conversa, as más línguas afirmavam que seu clavinote tinha derrubado muitos “índios” e posseiros pra cravar mais de 100 hectares naquelas terras sem fim. Seu único divertimento depois das “horas marianas”, era ouvir a “Voz do Brasil” e a “Rádio Globo”, no seu rádio “SEMP”, portátil, último modelo, depois, fazer “sapeca iaiá” com sua mulher e embuchá-la com 12 filhos, afora as percas, ao longo dos anos.
          A vida da família de Chico Zabelê continuaria sem sobressalto, se João Luís, o filho mais velho, não resolvesse estudar medicina em Salvador. Sua mãe se desmanchou em lágrimas, seus irmãos ficaram desolados... Seu pai, mais duro, não chorou, mas ficou acabrunhado, tentou dissuadi-lo, porém, João Luís fincou o pé, queria ser doutor pra ajudar aquela gente pobre da Serra do Padeiro, seu argumento foi mais forte do que o sentimento de família, na casa do sem jeito, Chico Zabelê e Ana Tanajura cederam e ele arribou de mala e cuia pra Salvador.
          João Luís não se tornou médico, aproveitou a ignorância de seus pais, pediu-lhes dinheiro, de burra cheia, maior de idade, foi correr mundo, depois fixou-se em São Paulo. Ele alimentava os pais com mentiras megalômanas diversas. Cansados, desiludidos de verem o filho doutor, explorados financeiramente e psicologicamente, Chico Zabelê e Ana Tanajura deixaram de responder às cartas e às extorsões do filho mais velho e ingratidão tira a afeição, João Luís foi ignorado pelos pais e irmãos.
          Porém, filho é laço eterno, basta um gesto de desculpa, um “mea-culpa”, um choro de arrependimento e, tudo volta ao normal. Os pais são semideuses, eles perdoam e justificam todos os pecados dos filhos, os filhos são entes que precisam sempre de proteção e defesa, os filhos são etenos meninos. E, João Luís era mestre na arte de dissimular... Astuto, escreveu aos pais e aos irmãos (agora, quase todos adultos), uma chorosa e lamurienta carta e pedia pra voltar: “...estou cansado de dar murro em ponta de faca...”, mas tinha uma surpresa, como surpresa só revelaria no tempo certo.


Abra-se parêntesis:
          No meado dos anos 80, surgiu Roberta Close, primeira modelo transexual a posar nua para edição brasileira da revista Playboy. Sua exposição na principal revista de modelos nus do país, deu a Roberta Close (Luiz Roberto Gambine Moreira, nome de batismo), projeção nacional e quiçá internacional, pois além de bonita, ela rompia com muitos estigmas: os homossexuais enrustidos, os gays, os travecos, deixaram o armário e a leva de seus seguidores cresceu em proporção geométrica.
          Ela causou tanta impressão no meio na imprensa e no meio artístico, pela beleza e desafio aos preconceitos, que foi chamada para desfilar em inúmeras marcas de moda de renomes, a exemplo de Thierry Mugler, de Guy Laroche, de Jean Paul Gaultier e trabalhar como atriz. Além da revista Playboy, também teve destaque em editoriais para Vogue, Globo, Última Hora, Estadão, enfim, toda imprensa falada e televisada do país.
          A família brasileira assustou-se!...
Fecha-se parêntesis.


          Domingo, dois meses depois: jagunços, trabalhadores, meeiros, mulheres do trampo, meninos, meninas, Chico Zabelê, Ana Tanajura e filhos, aguardavam ansiosos por João Luís, no terreiro da “Fazenda São José”, quando alguém avistou de longe uma Rural Willys e gritou:
          - Olhe, ele chegou! – não demorou muito tempo, quando o automóvel parou no terreiro, o filho de Ana Tanajura e uma linda mulher se despediram do motorista e aproximaram-se da pequena multidão. Agora, mais alto, mais corpulento, mais bonito, a cara da mãe, cheio de bigode e cavanhaque, João Luís, apresentou sua mulher aos pais e irmãos: “mãe, pai, irmãos, Layse, a surpresa...”. Foi um beija-beija, “muito prazer em lhe conhecer”, um chororô, “lindos cunhados”, quando Layse beijava Chico Zabelê, surge da multidão, como uma bomba, um moleque que colocou tudo a perder:
          -Ih! Seu Chico Zabelê beijou um homem! Ah, ah, ah... – antes que todos se recuperassem do susto, acrescentou:
          - Gente, olhe o “pomo-de-adão” e os pés dele!!! – a desgraça estava feita. Todos perceberam que Layse não era mulher, Chico Zabelê reagiu:
          - Fio mardito, tu é casado cum home!? – João Luís ficou perturbado, gaguejou, titubeou, quis explicar o inexplicável, não convenceu... Chico Zabelê furioso:
          - Fora de minha fazenda seus xibungos! – os irmãos de João Luís fizeram coro:
          - Fora seus viados! Fora maricas! Não já ouviram papai falar? – a multidão não aguardou a resposta, perdeu as estribeiras, depois de rasgar o vestido de Layse, deixando-a, apenas, com tapa-sexo de esparadrapo, botou pra correr o casal, com bofetadas, vaias, apupos e achincalhes:
          - Fora viados! Ah, ah, ah, ah!!!!
          Ambos foram encontrados mortos, num lamaçal, dois dias depois, com estacas no cu. A família não chorou...

 



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna -  ALTA 

 

Att.: Imagem que ilustra a história é do Google/DARK BLOG

Esta história ocorreu nos meados dos anos 80, há 40 anos, quando a intolerância e a ignorância eram normais.

 


Bom senso na ALITA - R. Santana

 


Bom senso na ALITA - R. Santana

Bom senso na ALITA
R. Santana

René Descartes, racionalista, de pensamento histórico: “cogito, ergo sum” ou, “dubito, ergo cogito, ergo sum”, que através do pensamento, justifica o ser, o eu, a existência e, a frase não menos histórica que todo homem jacta-se de possuir “bom senso”. E foi o bom senso que levou a presidente da Academia de Letras de Itabuna-ALITA, Dra. Sônia Maron, antecipar para esta semana, próximo dia 16 (sexta-feira), às 19 horas primeira convocação e às 20 horas, segunda convocação, a eleição por voto de seus membros fundadores e efetivos, a diretoria da ALITA para o biênio de 2017 e 2018.

No dia 07 deste mês, em nota editorial sobre o encerramento das atividades da ALITA e da 2ª. revista “Guriatã”, conclamei aos alitanos no diário on-line “Saber-Literário”, o seguinte:

“...Aproveito a oportunidade para conclamar aos acadêmicos da diretoria da ALITA, mais ação administrativa, mais integração com a comunidade, mais projetos comunitários, mais ação política, agregar todos os membros sem tendência de grupo, torná-la mais democrática e mais transparente.
Uma academia não pode e não deve ser, somente, um repositório de reuniões de condestáveis, mas aberta às diversas tendências intelectuais e culturais. Sua importância se dará à medida que for significativa para comunidade.
Uma academia de letras de uma cidade, de um estado, de um país, expressa o que existe de melhor intelectualmente e culturalmente numa sociedade e deve ser dirigida por um líder não por um chefe. O líder a diversifica e a agrega, o chefe coloca-a aos interesses dos proeminentes de plantão e dos apaniguados. O rosto de uma academia, deve ser o rosto da comunidade...”

Uma academia de letras moderna, a inspiração dá lugar à transpiração, ao trabalho, não ao ócio ou devaneio, ou, ao chá das 17 horas como na ABL.

A presidente da ALITA, Dra. Sônia Maron, deixará um legado de ineficiência administrativa, que poderá ser justificado, “eufemizado” e compreendido, se fatores decisivos e alheios à sua vontade, a exemplo de falta de saúde ou graves problemas familiares.

Lembro-me que na reunião de 14 de maio de 2015, para escolha da nova diretoria da ALITA, Dr. Marcos Bandeira, disse não acreditar que a presidente Sônia Maron, desejasse mais um segundo mandato face sua fragilizada saúde, mas foi surpreendido com sua posição contrária, que além de aceitar o segundo mandato, conjeturou com o escritor Cyro de Mattos, os nomes que comporiam sua chapa para reeleição.

Porém, quem lamenta o que não deu certo, sofre em dobro, não se chora sobre o leite derramado, não se deve olhar pelo retrovisor, o passado ruim deve ser sepultado e enterrado para sempre, importa agora, que se eleja no próximo dia 16, um nome que agregue todos os segmentos intelectuais da cidade com objetivo comum de soerguimento e desenvolvimento da nossa entidade literária itabunense.

Se me fosse dado o privilégio de traçar o perfil do próximo presidente da ALITA, sugeriria um nome leve, benquisto socialmente, não tendencioso, sem sectarismo, que não fosse intolerante, agregador, de ideias avançadas, não conservador, desenvolto, que saiba lidar com o dissenso e a crítica e seus diretores tenham o mesmo ideário.

Enfim, que a nossa casa das letras e do conhecimento, não seja, somente, casa de pensamento platônico, de sonhos, de metáforas, mas seja, também, uma casa de ações práticas, projetos comunitários, porta-voz dos que não têm voz e de consciência política aristotélica. Fraternalmente, Rilvan Batista de Santana. Itabuna, 13 de dezembro de 2016.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 13/12/2016
Alterado em 13/12/2016

Bullying - R. Santana

 


Bullying
R. Santana

1

     Em mil novecentos e oitenta e quatro, quando colocar apelido em alguém, zombar o sujeito intencionalmente e repetidamente, não eram atos infracionais previstos no Código Penal, mas brincadeira de mau gosto, às vezes, acabava em morte. Naquela época, nas escolas e, em nenhum lugar, ninguém conhecia o termo inglês “bullying”, todavia, zombar, tripudiar, ridicularizar e sacanear eram termos conhecidos. Ninguém levava a sério problemas psicológicos, aliás, eles eram resolvidos em brigas de rua. Quantas vezes fomos testemunhas de brigas de estudantes por causa de apelidos físicos ou morais? Inúmeras vezes. Diz o provérbio popular que “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Juro por “estes olhos que a terra há de comer”, que serei fiel ao conto que na mesa de bar, entre uma cerveja e outra, alguém me contou. Não sei se tenho o talento pra contar essa história ou estória tão bem quanto esse amigo de boteco, porém, importa a mensagem e o leitor amigo, de imaginação brilhante, dê a esse conto os retoques necessários pra que o torne machadiano perfeito. Numa cidade “X” do interior baiano, um jovem trabalhador rural, era conhecido pelo apelido de “Cabeção”. Nem os parentes chamavam-no pelo prenome ou nome, mas pela alcunha de “Cabeção”. Se um cobrador desavisado perguntasse em sua rua o nome de: “José Alberto Ávila Santana”, iria receber um seco: “não o conheço!”, mas a cidade “X” inteira conhecia: “Cabeção”. Porém, um ex-colega de escola de José Alberto, cismou de apelidá-lo toda vez que o encontrava, aqui, ali, acolá... Quando o encontrava na igreja, na Praça da Matriz, no campo de várzea, na feira-livre, no mercado, enfim, em todos os lugares, era “cabeção” pra lá, “cabeção” pra cá. José Alberto até que se tinha acostumado com o apelido, mas seu ex-colega fez de sua vida um inferno de zombaria, de caçoar, de humilhação etc. O sentimento de ódio, de revolta, começou crescer no íntimo de “Cabeção”, a razão foi substituída pela ira e o desfecho ocorreu em um dia de domingo quando José Alberto usufruía os carinhos e os braços de sua amada na praça principal da cidade “X”: “Cabeção, já pensou essa cabeçorra com par de chifres? Ah, ah, ah... “ , foi o bastante, José Alberto armou-se com revólver e quando o reencontrou logo depois, deu-lhe vários tiros e seu ex-colega veio a óbito no hospital. A cidade ficou em polvorosa, os que não os conheciam, achou o crime fútil e que o criminoso merecia uma pena severa. Os que os conheciam, previram o crime, pois a vítima tornou-se inconveniente, não escolhia hora nem lugar para depreciar e ridicularizar José Alberto.


***
 

2


     O criminalista Giovanni Rossetti, sem demérito dos demais advogados, era inteligente, erudito, arteiro e possuía o dom da palavra, todavia, com a morte do filho mais velho em acidente de carro, seu humor e sua vontade de viver foram lá pra baixo: do respeito jurídico ao ostracismo. Ninguém mais lhe confiava uma causa, pois o velho advogado trocou o livro pelo whisky, a cerveja, o aguardente 51, e, quando não tinha mais dinheiro, aceitava de bom grado uma cachaça “murcha venta”. Mas, Dr. Giovanni era um homem bom, homem de muitos amigos e muitos admiradores que desejavam que ele tivesse o destino da Fênix, que renascesse das próprias cinzas e, dentre esses amigos fiéis, o advogado trabalhista, Dr. Edwaldo Sampaio Jr se destacava. Quando “Cabeção” vitimou seu ex-colega de escola, homiziou-se na fazenda de Dr. Sampaio que o deixou lá até passar o flagrante, findo o flagrante, o entregou à justiça, mas no compromisso de lhe oferecer apoio jurídico. O júri foi marcado depois de algum tempo, cumprido os trâmites legais. Dr. Edwaldo Sampaio Jr recorreu aos préstimos do velho amigo, Giovanni Rossetti, uns seis meses antes, depois de muita luta pra encontra-lo sóbrio e outra luta para aceitar a causa: “Sampaio, estou fora de forma, há 2 anos não piso os pés no fórum, perdi a credibilidade, o respeito dos meus pares...” Dr. Sampaio, não desistiu: “Não é verdade Giovanni, ainda és o melhor criminalista da Região, por outro lado, tu conheces o rapaz, vais deixa-lo à toa, a mercê de grandes advogados contratados pela família da vítima?”, ele permanecia irredutível, mas Dr. Sampaio lembrou-lhe um fato que o fez mudar de opinião: “Olhe meu caro, foi “Cabeção” que deu os primeiros socorros no acidente de Lucas, eu e tu lhe seremos gratos para sempre; tu eras o pai, eu, era o padrinho de Lucas”.


***
3


Seis meses depois:

     O auditório do fórum da cidade “X” estava repleto no júri de José Alberto: os parentes da vítima, os parentes do criminoso, jornalistas, repórteres de rádio da capital soteropolitana, estudantes de direito, advogados e gente do povo. Muitos, movidos pela curiosidade de verem o pinguço advogado de defesa. Muitos apostavam que Giovanni Rossetti entraria no tribunal grogue ou quase grogue e a pena do criminoso seria a máxima, pois a família da vítima havia contratado um advogado de renome da capital, além de um assistente para o promotor, portanto, ases do Direito na acusação, mas no primeiro momento, todos foram tomados de surpresa e expectativa, porque Giovanni Rossetti adentrou a sala do tribunal, sóbrio, garboso, cheio de si, e, um calhamaço de documentos embaixo do braço. A sessão teve início, o oficial de justiça anunciou a entrada do juiz-presidente e todos ficaram de pé. Os 21 cidadãos intimados para serem jurados se apresentaram, como de praxe, 3 de cada lado foram dispensados, 7 jurados foram escolhidos por sorteio e formou-se o Conselho de Sentença. O juiz, a acusação e a defesa formularam perguntas ao réu. O juiz fez uma extensa explanação do processo com fatos e provas e as conclusões da acusação e da defesa. Cinco testemunhas da defesa e 5 testemunhas de acusação foram ouvidas. As testemunhas de acusação limitaram-se dizer que elas conheciam a vítima, uma pessoa extrovertida, brincalhona, natureza pacífica, que não merecia ter sido assassinada por um ex-colega de escola por motivo tão fútil, principalmente, que ninguém conhecia o nome verdadeiro do criminoso, mas pela alcunha de “Cabeção”. As testemunhas de defesa acrescentaram que a vítima não trabalhava, vivia a expensas da família, deixou os estudos cedo, embora cordato, tinha atitudes de moleque, brincadeiras inoportunas, e gostava de zombar as pessoas menos afortunadas. E, gostava de tripudiar, ridicularizar e sacanear o réu, não respeitava hora nem lugar. A acusação e a defesa fizeram algumas perguntas de praxe e os debates deram início. O promotor e os seus assistentes usaram suas 2 horas para incriminar o réu. Eles sustentaram que o crime tinha sido premeditado, doloso (outras qualificações), que se fosse matar por causa de apelido, metade da população da cidade “X” seria dizimada, pois todos possuem apelidos na família, na escola, no clube de futebol, no trabalho e que o apelido era uma forma de intimidade, que o apelido aproxima as pessoas, que o apelido era uma forma de carinho com o outro, que muitas pessoas são mais conhecidas pelo apelido do que pelo prenome e nome. O Excelentíssimo Senhor Promotor arrematou o discurso: - O mundo não conhece Edson Arantes do Nascimento, mas em qualquer aldeia africana, os aficionados por futebol conhecem Pelé. Se alguém perguntar aqui, quem é Maria das Graças Meneghel, ficará sem resposta, mas se alguém perguntar quem é Xuxa, a resposta será imediata. Se alguém perguntar ao mais erudito deste auditório quem foi Manuel Francisco dos Santos, todos vão lhe olvidar, porém, se perguntar ao mais ignorante deste auditório quem foi Garrincha, ele dará a resposta de chofre. Por isto, Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, Senhores do Conselho de Sentença e Senhores Advogados, o réu merece a pena máxima, porque sua mente é complexada e doentia e o torna potencialmente perigoso para o convívio social, o cárcere público é o seu lugar – o auditório ficou em polvorosa, foi necessário que o juiz intervisse para normalizá-lo. A defesa quase que não aparteou o promotor nem seus assistentes, salvo, quando um dos seus advogados assistentes, dirigiu palavras pejorativas ao réu: “energúmeno”, “besta-fera”, “primitivo”, “facínora”, etc., boa parte do auditório também não gostou da desqualificação do réu nem Giovanni Rossetti. A família da vitima não podia queixar-se do seu advogado de acusação pela intempérie verbal, todavia, o auditório seleto, de pessoas esclarecidas, queria argumentos consistentes, provas robustas, não apelação!... O MM Juiz Presidente do Tribunal, após algumas recomendações ao escrivão, permitiu que a defesa se manifestasse. Giovanni Rossetti iniciou curvando-se para o auditório, a recíproca foi de descrédito, mas alguns esporádicos “VV” de vitória foram dados ao advogado. Calmo, sereno, mas com certa malícia nos olhos, Giovanni Rossetti iniciou a defesa de “Cabeção”: - Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, Excelentíssimo Senhor representante do Ministério Público, Senhores do Conselho de Sentença e Senhores advogados, bom-dia! – fez uma pausa... - Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, Excelentíssimo Senhor representante do Ministério Público, Senhores do Conselho de Sentença e Senhores advogados, bom-dia! – fez uma pausa maior... - Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, Excelentíssimo Senhor representante do Ministério Público, Senhores do Conselho de Sentença e Senhores advogados, bom-dia! – o juiz fez algumas recomendações, mas a defesa fez-se de ouvidos moucos... - Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, Excelentíssimo Senhor representante do Ministério Público, Senhores do Conselho de Sentença e Senhores advogados, bom-dia! – o juiz não se controlou: - Dr. Giovanni Rossetti, o Senhor está sóbrio? Respeite este Tribunal! Nós não temos tempo pra ficar lhe ouvindo repetidas vezes: “Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, Excelentíssimo Senhor representante do Ministério Público, Senhores do Conselho de Sentença e Senhores advogados, bom-dia!”, qual é sua intenção!? Se o Senhor veio aqui brincar, procure sua turma! – a bronca foi acompanhada com alguns apupos de apoio da plateia. Rossetti não perdeu a fleuma, deixou que os apupos parassem e continuou: - Senhores Jurados, todos aqui, presenciaram o descontrole emocional do Excelentíssimo Senhor Juiz Presidente deste Tribunal, para que sejamos justos, ele se descontrolou porque é humano e atitudes más incomodam, ele não é mau, é um jurisconsulto, um homem ilustrado, com discernimento aguçado, compreensivo, de bom senso – a plateia já não se mexia, silêncio absoluto, expectativa enorme -, agora, Senhores Jurados, imaginem um sujeito de escolaridade elementar, uma pessoa simples, vida sofrida, vaqueiro, trabalhador rural, o tempo todo ser chamado, pejorativamente de “Cabeção”, por um ex-colega de escola de vida abastada, que não sabia quanto custava 1Kg de feijão, 1Kg de arroz, 1 pacote de café, 1kg de carne, pois com 30 anos de idade, nunca trabalhou, nunca teve carteira de trabalho assinada – fez uma pausa e continuou: O ilustre Dr. Promotor, em sua retórica elitista (o promotor solicitou um aparte, mas o juiz negou), que graças a Deus nunca soube o que é fome. O nosso constituinte (faz-se necessário dizer: seu patrão que pagou os meus honorários), não tem onde cair vivo porque morto se cai em qualquer lugar. Se ele almoça bem meio-dia, à noite, merenda ou não come nada. – fez uma pausa para pigarrear, ou, recurso de retórica: - O nosso digníssimo representante do Ministério Público pintou um quadro poético em que alguns famosos são mais conhecidos pelos seus apelidos do que pelos nomes de batismos, porém, são realidades distantes deste réu, um inapropriado recurso retórico usado pelo Dr. Promotor para justificar o mal que a vitima fez ao meu constituinte, por muito tempo, todos nós conhecemos: “Xuxa”, “Pelé”, “Toquinho”, “Chacrinha”, o saudoso “Garrincha”, e tantos outros que são ou eram conhecidos pelos seus apelidos, porém, esses apelidos são suas verdadeiras identidades para sempre, inclusive, identidades laborais. – deu uma olhada no relógio para saber o tempo que lhe restava... - O apelido repetido, pejorativo, agressivo, dito em lugares inadequados, torna-se agressão física, moral, e psicológica, de danos mentais irreparáveis. A pessoa estigmatizada socialmente, como mecanismo de defesa, ele desenvolve as seguintes atitudes: se esconde com medo de ser agredida, reage com agressividade, então, suicida-se. – olhou o relógio mais uma vez, o tempo urge... - Senhores Jurados, o meu constituinte agiu em legítima defesa, porque a vítima o estava empurrando para o suicídio cada vez mais, as testemunhas foram unânimes em afirmar que José Alberto, o “Cabeção”, se isolava, não mais ia à igreja, à Praça da Matriz, ao campo de várzea, à feira-livre ou ao mercado. Escondia-se de todos e de tudo, a única coisa que ainda lhe movia viver era sua namorada e naquele dia fatídico a vítima deu-lhe o golpe final: “Cabeção, já pensou essa cabeçorra com par de chifres? Ah, ah, ah...“ Ele também não premeditou o crime, ele agiu por impulso, ódio acumulado, frustrações, desespero e irracionalidade. Por isto, Senhores Jurados, peço-lhes por amor a Deus, que antes de responderem os questionários de “sim” e “não”, reflitam sobre o sofrimento deste homem - apontou o réu -, que foi empurrado pelas circunstâncias fazer o que sua natureza sempre rejeitou e prova disto, é que em seu primeiro depoimento ao delegado, se desmanchou em lágrimas de arrependimento por ter tirado uma vida. Senhores Jurados, a Justiça não é cega, cego é o injusto!... Não houve tréplica, houve réplica, não mais com o mesmo entusiasmo, depois da fala da defesa. O Dr. Juiz entregou as cédulas aos Senhores Jurados, dadas as instruções de praxe, pouco mais de 1 hora, o Juiz volta ao plenário, todos ficaram de pé, o oficial de justiça recolhe as cédulas, o Juiz contabiliza os votos, pede silêncio ao plenário e dá o veredito: - Senhores, antes do veredito, eu quero lhes pedir desculpas pelo meu descontrole emocional na fala da defesa. Conheço Dr. Giovanni Rossetti faz algum tempo, porém, eu confesso-lhes que seu artifício me irritou, depois, todos nós compreendemos seu estratagema. Quero lhe pedir desculpa, em particular, pelo mal entendido, desejo que ele volte sempre a este Tribunal. Parabenizo, também, o Dr. Promotor pela brilhante atuação e estender os meus parabéns aos seus assistentes de acusação. Quero agradecer aos Senhores Jurados, pois de fato, são eles os verdadeiros juízes. – arrumou os papéis e anunciou o veredito: - O Conselho de Sentença por unanimidade absolveu o Sr. José Alberto Ávila Santana. Que o oficial de justiça lavre o termo de absolvição e o envie à autoridade responsável pelo sistema prisional de nossa cidade. – completou: - A Sessão está encerrada. Obrigado!

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Rilvan Santana

Site literário ou obituário? - R. Santana

 

Site literário ou obituário?
Site literário ou obituário?
R. Santana


Algum desavisado, pelo título, poderá antecipar: “Oxente, não é sua academia?” De chofre, responder-lhe-ia: “Já foi amigo, hoje, é de alguns condestáveis, que o silêncio é sua dialética, ademais, não critico a instituição em si, a instituição é perene, porém, seus membros são pobres mortais com defeitos e qualidades, mas que alguns pecam em enxergar em si, excelências e, defeitos nos outros, ou seja, Deus pra si e Diabo para os que não lhes dizem amém sempre”.
No ano que findou, depois que fui informado que haveria eleição na academia, escrevi: “Bom senso na ALITA”, quando ressaltei a necessidade de renovação em sua administração e tracei, mais ou menos, o perfil de um novo presidente para a instituição: um presidente agregador, competente e desenvolto na comunidade itabunense.
Mas, estimado leitor, voltemos ao título: “Site literário ou obituário?”, permita-me antes, com devida vênia, perguntar-lhe: “Já acessou o site da ALITA?”, se me responder que “sim”, vai concordar com esse título, pois ali, afora alguns textos e informações de lançamento de livro do pessoal da corriola, os demais espaços registram as mortes recentes e não recentes de personagens ilustres da comunidade itabunense ou além mar de Ilhéus; se me responder que “não”, peço-lhe que o acesse e irá constatar que nosso argumento não é gratuito, não é de “inimigo” ou, de pessoa ressentida por admoestação e alijada do grupo, mas de pessoa que gostaria de ver a academia sair da pasmaceira que se encontra.
Entendo e pratico no meu diário online, que o registro do passamento das pessoas que contribuíram para nossa terra que já foi do cacau, é condição sine qua non, porém, deve ser uma informação passageira, não duradoura, quase definitiva. Acho um desvio de finalidade de um site acadêmico ou qualquer veículo de informação e de conhecimento.
Embora de saudosa memória, me “arrepio” quando abro (há um mês) o site da ALITA e lá encontro a imagem da professora Litza Câmara, vem à mente, suas aulas no Colégio Firmino Alves ou quando me empurrava, a contragosto, goela adentro, as teorias didáticas de Nerici e genéticas de Lauro de Oliveira na Faculdade de Filosofia. É justa sua homenagem, assim como de Ramon Vane, José Adervan, e, tantos outros, porém, não condiz com a finalidade de um site de literatura, cujo objetivo maior, é propiciar aos seus leitores, informações literárias, científicas, a indicação de bons livros, bons contos, boas crônicas, bons poemas, de autores regionais e do país.
Certamente, essa linha editorial mórbida não é da acadêmica Raquel Rocha, é notória sua competência na área de comunicação, todavia, ela possui prerrogativas limitadas, isto é, ela reina, mas não governa... Sei quanto é difícil lidar com personalidades autossuficientes, pseudo-democráticas, egocêntricas e “estrelas”.
Esta semana, um estimado confrade, telefonou-me e avisou que haveria reunião (não sou convidado há um ano), naquele dia, na ALITA, que a presidente estava lhe responsabilizando pelo meu comportamento difícil. Respondi-lhe que sou de trato fácil, amigo, solidário, fiel, todavia, não gosto que me subestime, porque de energúmeno, de jeca, só tenho a aparência e o jeito de andar. Contudo, não denigro ninguém, não sou néscio para fazer ataques pessoais, eu expresso o meu descontentamento de ideias, não sou repositório da verdade, mas acredito que a verdade surge no contraditório, na boa discussão, não acredito no “magister dixt et dixt”.
A ciência surgiu da observação de Francis Bacon, do susto de Isaac Newton (a maçã caiu em sua cabeça e descobriu a Lei da Gravidade), da maiêutica de Sócrates, da curiosidade de Einstein, de Fermi, de Darwin, de tantos outros gênios da humanidade. A ciência assim como a literatura e a arte, evoluem pelo descontentamento, pela mudança, não pelo “status quo” permanente, não pela resistência ao novo e medo de mudança. Ideias centralizadoras, resquícios autoritários, nunca contribuíram para o desenvolvimento da humanidade.
Entrei na ALITA, graças ao espírito generoso de Dr. Marcos Bandeira (não nos conhecíamos, ele conhecia as bobagens que eu produzia e lhe enviava por e-mail e mais 5000 amigos virtuais). Não fui movido pelo desejo de “imortalidade”, mas fui movido pelo desejo de fazer parte do “nous aristotélico”, isto é, estar entre as inteligências mais reconhecidas da cidade. Todos nós somos mortais. A obra consistente, inspirada e diferente, permanecerá. Não é qualquer “obrinha” que ficará para posteridade, mas a obra diferente, o resto, irá pra o lixo da História. Não importa se o sujeito pertence a mais de uma academia de letras, de ciências, de artes, de Jurídicas, se pertence a clubes de poetas, de escritores, etc., importa, se ele não é um mero reprodutor de temas esgotados, de ideias conhecidas e ultrapassadas, mesmo que seja erudito e membro de muitas confrarias.

Sartre, Graciliano Ramos e Mário Quintana, não se notabilizaram como acadêmicos, este último, depois de tanto concorrer para ABL e ser rejeitado, brincou: “...eles passarão, eu, passarinho...” Não me satisfaz ser membro de uma academia, se o preço for balançar a cabeça como lagartixa, entretanto, honra-me pertencer ao mundo dos “imortais” se o meu pensamento for livre, independente, limitado, apenas, por princípios éticos e morais.
Enfim, estimado leitor, que conhece o site da ALITA e o compromisso daquele que não a conhece, conhecê-la: "Site literário ou obituário?..."


Rilvan Batista de Santana, Itabuna, 18.02.2017
Licença: Creative Commons.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 17/02/2017
Alterado em 18/02/2017

Contrassenso na Academia de Letras de Itabuna - ALITA

 


Contrassenso na Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Contrassenso na Academia de Letras de Itabuna - ALITA


“... O membro renega seu perfil acadêmico e vai ao público para difamar sua entidade, melhor seria, se, por coerência, pedisse seu afastamento...”

“Atitudes injuriosas e difamatórias “

“Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro”


Estas aleivosias foram assinadas pelos preclaros membros da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, abaixo, com o objetivo de denegrir-me e caluniar-me com inverdades que pratiquei com a instituição, que modestamente ajudei fundar e fiz parte da sua primeira diretoria como 1º. Tesoureiro em tempos difíceis.
Antes de tecer os comentários que embasam e justificam minha defesa, declinarei, a priori, os nomes dos signatários do nefasto "manifesto de desagravo" que injustamente pedem o meu afastamento, a minha renúncia do quadro da ALITA:

- Sônia de Carvalho de Almeida Maron;
- Ruy do Carmo Póvoas;
- Lurdes Bertol Rocha;
- João Otávio de Oliveira Macedo;
- Cyro Pereira de Mattos;
- Carlos Eduardo Passos;
- Marcos Antônio Bandeira;
- Sione Porto;
- Janete Ruiz Macedo;
- Raquel Rocha;
- Margarida Cordeiro Fahel;
- Ary Cardoso Teixeira;
- Silmara Santos Oliveira;
- Maria Delile Miranda;
- Maria Palma de Andrade
- Maria de Lourdes Netto Simões;
- Carlos Valder do Nascimento
- Maria Luísa Nora

Itabuna, 10 de março de 2017.

Histórico

No dia 19 de abril de 2011, participei a convite do ilustre Dr. Marcos Antônio Bandeira, para fundar uma academia de letras em nossa cidade.
No início, eu fiquei assustado, descrente do convite, pensei que fosse uma “pegadinha”, não conhecia, naquela época, o egrégio magistrado. Sempre escrevi e com advento da INTERNET, publicava as minhas “bobagens” para todos os itabunenses que eu possuía na minha caixa de e-mail, inclusive, para o eminente Marcos Bandeira.
Trabalhamos juntos mais de 02 (dois) anos, eu, na 1ª Tesouraria, ele como presidente. Administramos os parcos recursos com parcimônia e sabedoria: pagamos a festa da posse, as primeiras despesas administrativas, contratou-se uma secretária e, as primeiras despesas com a transferência de local da FICC para o Ed. Dilson Cordier, 110, salas 209/210.
Com a eleição da atual presidente, fui alijado da ALITA, inclusive, com notificação protocolada de admoestação, pois me insurgir pelo desvio de finalidade do site da ALITA, que contemplava alguns membros mais do que outros.
Há 2,0 (dois) anos não recebo e-mail para participar das reuniões ordinárias da instituição acadêmica, com raras e honrosas exceções, sou convidado quando existe eleição (veja convite pra eleição da ALITA, no Saber-Literário em 12.03.2017).
Os meus textos deixaram de ser publicados no site da ALITA, Não fui contemplado com a primeira publicação da revista “Guriatã”, na segunda edição, fui contemplado por muita insistência com minha crônica-conto: "Jupará”.
Possuo tudo arquivado da ALITA, enquanto atuei como seu membro. No "manifesto de desagravo", os próceres da academia falam em "liberdade de expressão", não fiz outra coisa, senão, exercitar a minha liberdade de expressão todo esse tempo. ~
Não me insurgir contra a instituição, nunca a difamei e, jamais tive por princípio atitude antiética, sempre fui cordato com os meus pares, não por ser uma “figura inexpressiva”, mas para prestigiar a competência. No início da fundação da academia, abrir mão do patrono Machado de Assis, que escolhi e conheço parcialmente sua obra, para atender ao desejo duma figura expressiva da literatura que condicionou sua entrada na academia se Machado de Assis fosse seu patrono, aí, fiquei com Walker Luna, um grande poeta contemporâneo, mas que não o conhecia.

Justificativa

Não guardo ressentimento do Sr. Cyro de Mattos nem da Sra. Sônia Maron, principais artífices desse malfadado manifesto de desagravo. Eles possuem ambições e influências que não as possuo. Nunca ataquei a instituição, quer queiram, quer não, eu ajudei fundar. Não faço ataques pessoais, porque não sou nenhum energúmeno para não avaliar suas consequências, faço sim, críticas construtivas para melhorar e ser reconhecida de utilidade pública a nossa ALITA.
Não nego a palavra a nenhum membro da instituição, mas sou vítima dessa atitude pequena. Eventualmente, encontro-os no shopping e não me reconhecem, aliás, o leitor é testemunha de que em seu “manifesto de desagravo”, eles potencializam essa atitude: “Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro”.
Ninguém que não é do meio, sabe o que é ALITA, nesses 04 (quatro) anos da atual presidente, a instituição não teve o mesmo desempenho da sua coirmã AGRAL. A AGRAL tem sala própria, mais reconhecida pela sociedade, inclusive, com vários projetos comunitários. O Presidente de honra Ivann Krebs Montenegro é um agregador, um homem que respeitou as diferenças em sua gestão, nunca cerceou ninguém, não dividiu a AGRAL, reconhecido na comunidade e uniu os seus pares num mesmo ideal. Não deixou nenhuma eminência parda, nenhum medalhão, tomar as rédeas de sua administração e influir decisivamente.
Depois que ALITA foi criada, muitos dos seus membros abandonaram-na, homens doutos e mulheres de saber reconhecido: Antônio Laranjeira Barbosa, Antônio Lopes da Silva, Dinalva Melo de Nascimento, Luís Antônio dos Santos Bezerra, Marialda Jovita Silveira e Genny Xavier. Acho que faltou competência para agregá-los.
Escrevi que me fosse permitido traçar o perfil do próximo presidente da ALITA, na minha modesta opinião, teria que ser um agregador, com habilidade diplomática, democrata, aceito e não imposto, com trânsito livre na sociedade itabunense, que saiba cristalizar todas as oportunidades e empreendedor.
Fiz críticas produtivas ao site da ALITA. Entendo que o objetivo de qualquer site é passar informação atualizada aos seus leitores. Não se pode transformar um site literário num obituário: é justa a homenagem póstuma, porém, tem que ser passageira, uma informação fúnebre, mas rápida.
O objetivo do site de literatura é divulgar as produções dos seus membros, democraticamente, sem preferências individuais, sem apadrinhamento, sem tendência.
Respeito a decisão de todos os signatários do malfadado manifesto, porém, far-se-ia justiça ouvir todos os interessados, não somente os recalcitrantes às mudanças, ao novo, ao bom senso cartesiano, não às futricas e às maledicências e aos resquícios autoritários. Sugerir que um membro renuncie aos seus direitos vitalícios, adquiridos da mesma forma que os outros, nos remete aos tempos discricionários, um passado obscuro, toda pessoa prejudicada tem o direito de se manifestar, se defender... Procedimentos unilaterais, sem ouvir o outro, não será respaldado em nenhum tribunal, pois em “dúbio pro reo”.
Causa-me espanto, signatários de reconhecido saber jurídico e signatários com outros saberes se unirem para assinar um “manifesto público” com aleivosias e acusações levianas com um dos membros fundadores da ALITA, que sempre se pautou eticamente, moralmente, na vida pessoal e profissional.
Agora, resta aos senhores, expulsar-me da ALITA, rasgando seu Regimento e seu Estatuto, embasados naqueles que me querem cercear. Atenciosamente, Rilvan Batista de Santana. Itabuna (BA), 16 de março de 2017.


Post Scriptum:

Hoje, 16.03. 2017, que li o “manifesto de desagravo”, por isto, a resposta extemporânea...

Fonte: Itabuna Centenária Arte & Literatura - ICAL

Edição: 10.03.2917
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 17/03/2017
Alterado em 25/03/2017

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