Carta para Dr. Rafael Kalil - R. Santana
Prezado Senhor:
Recebi, pelo seu WhatsApp, a incumbência de analisar sua redação com o título a "Arte de pertencer", a priori, peço-lhe vênia para usar este expediente de comunicação, a carta. Ainda não me adaptei com o e-mail nem com o WhatsApp para textos grandes. Hoje, os jovens têm uma linguagem resumida, às vezes, eles são econômicos até nas palavras, a maioria é abreviada. Muito de nossos escritores e poetas do passado usavam a carta em abundância, a exemplo de Rilke, Machado de Assis, Michel Ângelo. A Rainha Vitória foi radical em suas missivas, produziu mais de 3.700 cartas.
Nossa amizade fez debruçar-me sobre o computador para avaliar a gramática e o conteúdo de "Arte de pertencer", quando me fez essa proposta em seu consultório, pensei não aceitar o honroso trabalho, mas fiquei na casa do sem jeito. Eu sou consciente das minhas limitações literárias, filológicas e um estudioso do nosso idioma. Não me considero um escritor, mas, um amante da palavra escrita e falada. Na palavra falada sou um desastre, uso a linguagem coloquial para minhas relações interpessoais que dispensa a gramática clássica. Eu sou adepto de Demóstenes, o maior orador de todos os tempos e, de Cícero com suas "Catilinárias" acusando o corrupto Catilina no Senado de Roma.
Estimado Rafael Kalil, quando leio um texto ou uma obra, não me prendo às filigranas gramaticais, prendo-me ao conteúdo, se possui início, meio e fim, se as ideias estão concatenadas e, se o texto prende o leitor da primeira página à ultima. Quando editei o meu primeiro romance, doei um exemplar ao saudoso prof. Antônio Garrido, que era professor de português de quatro costado, dei-lhe o livro pra analisar o enredo, a sequência de eventos que compõem a história, porém, dois dias depois, ele devolveu-me o livro rabiscado de correção do idioma, fui-lhe curto e grosso: "O senhor leu a história? Gostou do estilo?". Ainda hoje, não gosto que alguém valorize mais as filigranas de gramática dos meus textos do que o conteúdo.
É fácil apontar os erros, às vezes, são subjetivos, pessoas de presunção e afetação elevadas, que procuram cabelo em ovo. Quando era jovem, eu li muita coisa de Ruy Barbosa. Gostava da lenda que dizia que, na Conferência Internacional de Paz, ele foi o diplomata que mais alçou voo e foi considerado "O Águia de Haia". Contam os curiosos que quando Ruy chegou ao local de conferência, uma das diplomatas europeias, o desdenhou, chamando-o de "macaquito", mas, quando chegou sua vez de representar o Brasil, ele perguntou aos conferencistas em que idioma faria seu discurso - para espanto de todos. Porém, Ruy era vaidoso, na redação do Código Civil no início da República, ele foi preterido pelo dr. Ernesto Carneiro para relatar o Código Civil, foi o bastante para que Ruy Barbosa fosse corrigir os falsos "erros" de português, que deram origem aos livros "Réplicas e Tréplicas".
Esses parágrafos anteriores justificam minha aversão para corrigir os erros de português de outrem e não gosto que corrijam meus textos, salvo, com minha autorização expressa.
Egrégio Dr. Rafael Kalil, li e reli a redação a "Arte de pertencer", é um texto de uma lauda e meia, que didaticamente, pode ser dividido em: o nascimento do ser humano; as relações interpessoais e cognição; vontade e meio ambiente; ser acolhido pela ALITA e o conceito de sorte e destino; a importância da leitura e oratória; a arte de convencer.
Hoje, o nascimento de um bebê é motivo de preocupação desde o nascimento com os cuidados dos obstetras. O filho e a mãe são monitorados desde os primeiros meses. A mãe tem que manter seu peso em dia para evitar uma eclampsia e levá-la à morte, cuidados com a pressão arterial. O bebê não foge à regra, os cuidados com vacinas, mudanças repentinas de hábitos e acidentes imprevisíveis. Vejo nas entrelinhas do texto que o autor se preocupa desde cedo para que o indivíduo pertença e seja acolhido pela família e grupo não familiar.
Para que indivíduo pertença à comunidade e à sociedade, ele tem que desenvolver suas relações interpessoais no trabalho, no trato com sua comunidade, no seu clube recreativo, em sua escola, no seu clube de futebol, com sua igreja, enfim, a relação interpessoal é essencial para seu desenvolvimento afetivo e intelectual. Nesse parágrafo o autor explora o cognitivo, o conhecimento existencial: "cogito ergo sum" do filósofo francês René Descartes que foi o pai do racionalismo de "penso, logo existo". No meu curso de Filosofia, li várias vezes o "Discurso do Método" cartesiano e, ensinei muito a Matemática de Descartes. O autor da redação fecha com São Tomás de Aquino, adepto das ideias de Aristóteles de Estagira, o preceptor de Alexandre, o Grande, filho do rei Felipe III.
Num dos parágrafos da redação "A Arte de pertencer" o autor discorre sobre a vontade de Henri Bergson e o meio ambiente. Bergson vê a vontade como instrumento consciente de aprendizagem. Sua vontade é o norte do homem, se ele tem vontade como sinônimo de ação, desejo, ele vence todos os percalços, todas as dificuldades. Porém, para o homem desenvolver a vontade, ele precisa do meio ambiente, onde mora, vive e se desenvolve. O meio ambiente não é somente o espaço físico, mas, o meio cultural, religioso, educacional, intelectual, familiar, costumes, tradições e pertencimento moral. Porém, não é verdade que o homem é "produto do meio", ele pode receber a influência do meio, mas o homem tem livre arbítrio para decidir seu destino.
"...É importante compreendermos que o não está à plena disposição de qualquer que seja...", realmente, para pertencer à entidade A ou B, além da predisposição da entidade acolhê-lo ao grupo, existem obstáculos que extrapolam ao desejo do candidato em diferentes contextos, o obstáculo mais comum é a limitação de vagas e a indisposição do grupo acolhê-lo. Não é prudente ficar em ambiente que o indivíduo tem uma forte rejeição ou uma leve rejeição. Todavia, a não plena aceitação pode ser de origem religiosa, política, falta de empatia, de ideias conflitantes, em casos extremos, a inveja.
Para se candidatar à Academia de Letras de Itabuna- ALITA, além dos pré-requisitos literários, com domínio da palavra, prosa ou versos, será necessário que o candidato passe pelo crivo de uma eleição, que não é fácil. O desavisado pensa que não existe política acadêmica numa academia de letras, ledo engano, a política acadêmica existe desde à Academia Brasileira de Letras - ABL. Na obra de Jorge Amado, "Farda, Fardão e Camisola de Dormir", ele narra a história duma eleição para escolha de um general ou um civil. Foi um libelo de forças antagônicas que prevaleceu o bom senso com a vitória do candidato da oposição.
Nem sempre o melhor é escolhido, no entanto, é necessário que o candidato esteja embasado em conhecimento específico e conhecimentos gerais. No dia a dia, não se lida, somente, com a sorte, é necessário que o homem tenha o seu saber, adquirido ou experiência de vida. Não se faz um concurso esperando ser bafejado pela sorte, não obstante, a sorte é condição sine qua non para alguns vencerem na vida. Quem é amante da palavra, da escrita e da oratória, tem que ser um leitor contumaz, cujo objetivo é formar subsídios, não se tira algo onde não existe.
Estimado Rafael Kalil, gostei demais de sua redação, de fácil leitura e compreensão, não é um texto pedante, acessível a qualquer leitor. Embora tenha recebido a incumbência de rastrear os erros ortográficos, digitais e gramaticais, não o fiz, recomendaria uma reflexão sobre a necessidade de concatenar as ideias para clareza do texto e a história tenha início, meio e fim e, conclusão lógica. Recomendaria, também, com o estudo cuidadoso da pontuação de sinais gráficos e evitar a repetição de palavra, use as palavras afins.
Enfim, obrigado pela honraria, tenho que enaltecer sua humildade e simplicidade, de confiar suas dúvidas a um sujeito de pouco saber! Fraternalmente, Rilvan Batista de Santana, São Caetano, Itabuna (BA).

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro: Academia Brasileira de Letras - ALITA
Imagem: Google
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Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos