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4.14.2026

Poemas de Edgard Allan Poe









SONÊTO À CIÊNCIA

Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!

Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!

Por que rasgas assim o coração do poeta,

abutre, que asas tens de triste Realidade?

 

Poderia êle amar-te, achar sabedoria

em ti, se ousas cortar seu vôo errante e ao léu

quando tenta extrair os tesouros do céu,

mesmo que a asa se eleve indômita e bravia?

 

Não furtaste a Diana o carro? E não forçaste

a Hamadríade do bosque a procurar, fugindo,

estrêla mais feliz, que para sempre a esconda?

 

Não arrancaste à Ninfa as carícias da onda,

e ao Elfo a verde relva? E a mim, não me roubaste

o sonho de verão ao pé do tamarindo?

 

TAMERLÃO

Doce consolação nesta hora extrema!

Tal, Padre, agora não será meu tema...

Não direi loucamente que um poder

terreno me liberte do pecado

sôbre-humano de orgulho, em mim a arder.

O tempo de sonhar é já passado:

Dizes que isso é esperança; e a desvairada

chama é só a agonia de um anseio!

Se creio na Esperança... Ó Deus! Bem creio...

Sua fonte é mais divina, mais sagrada...

Ancião louco eu não quero te chamar,

mas isso é coisa que não podes dar.

 

Conheces de um espírito o segrêdo,

da soberba atirado em plena lama?

Herdei, ó coração a palpitar,

teu quinhão de desprêzo, com a fama,

a glória consumida, a cintilar

de meu trono entre as jóias, qual coroa

infernal. Porque dor alguma o inferno

pode agora trazer, que me dê mêdo.

E anseias pelas flores, coração,

e pelo sol das horas de verão!

Dêsse tempo defunto o canto eterno,

com seu soluço intérmino, reboa,

em teu vazio, nos sons enfeitiçados

de um dobre doloroso de finados.

 

Do que hoje sou, já fui bem diferente.

Usurpador, obtive, conquistei

o diadema que cinge a fronte ardente.

Roma e César não deu a mesma ousada

herança, que me estava reservada?

A herança de um espírito de rei,

para lutar, espírito altaneiro,

triunfalmente, contra o mundo inteiro.

 

Em região montanhosa ao mundo vim.

As brumas de Taglay pulverizavam,

à noite, o seu orvalho sôbre mim,

e acredito que as asas, em violentos

tumultos, e as tormentas, e os mil ventos,

em meus próprios cabelos se aninhavam.

 

Êsse orvalho, depos, do céu tombando

(entre noites de sonhos condenados)

era um toque de inferno sôbre mim,

enquanto rubras luzes, cintilando

em nuvens, que oscilavam quais pendões,

pareciam-me, aos olhos malcerrados,

do poder régio as predestinações,

e dos trovões profundos o clarim

sôbre mim se atirava, proclamando

que, em humanas batalhas, estentórea

– criança louca! – a minha voz bradava

(como minha ala se regozijava

e ante êsse grito o coração saltava!)

o grito de combate da Vitória!

 

Na fronte sem abrigo se esparzia

a chuva rude, e o vento me tornava

desatinado, cego, ensurdecido.

Era apenas um ente que lançava

louros em mim, pensava então, e a fria

fúria do ar fustigante, a meus ouvidos

cantava a evocação de destroçados

impérios, o clamor dos capturados,

o rumor dos cortejos, a canção

com que aos tronos rodeia a adulação.

 

Minhas paixões, desde êsse infausto dia,

sôbre mim exerceram tirania

tamanha, que, somente com o poder,

se pôde o meu caráter conhecer.

Mas, Padre, então, ali vivia alguém...

então... na juventude... quando a chama

das paixões mais se alteia e mais se inflama

(porque paixões só a juventude tem),

alguém que soube ver, no peito de aço,

de uma fraqueza feminil o traço.

 

Não tenho têrmos... ai... para dizer

o quanto é doce o verdadeiro amor!

Nem tentarei agora descrever

dessa face lindíssima o primor,

pois seus contornos são, na minha mente,

sombras que ao vento vão, volùvelmente.

Recordo ter-me outrora debruçado

sôbre folhas de ciência do Passado,

até que cada letra, tão fitada,

e cada têrmo se desvanecesse

e seu próprio sentido se perdesse

em fantasias e, por fim, em nada.

 

Ah! todo o amor bem elas merecia

e era o meu afeto qual de criança.

Razão tinham os anjos de a invejar.

Seu jovem coração era um altar

em que meus pensamentos e a esperança

eram o incenso, a oferta que subia

com pureza infantil, imaculada,

de seu jovem modêlo copiada.

Por que os abandonei, pela paixão

da luz, que inflama e empolga o coração?

 

Crescemos... e conosco o amor crescia...

vagueando na floresta e nos desertos.

Na tormenta meu peito a protegia

e quando, amiga, a luz do sol sorria.

E se ela contemplava os céus abertos,

sòmente em seu olhar os céus eu via.

 

A primeira lição do amor nascente

está no coração, pois, sob o ardente

sol, vendo êsses sorrisos sem cuidados,

rindo de seus brinquedos estouvados,

eu me lançava no seu seio arfante

e em lágrimas minha alma se expandia.

Ah! dizer mais eu não precisaria,

nem acalmar temores vãos, perante

quem ficava, sem nada perguntar,

voltando para mim o quieto olhar.

 

E embora merecesse mais que o amor,

a minha alma impaciente se exaltava

quando, num cume de montanha, a sós,

a ambição lhe falava em nova voz.

Todo o meu ser só nela consistia;

o mundo e tudo quanto êle encerrava,

na terra, no ar, nos mares, a alegria,

os quinhões pequeníssimos de dor,

que eram nôvo prazer, os ideais,

noturnos sonhos de vaidade impura,

e as coisas mais sombrias, porque reais

(as sombras... e uma luz bem mais obscura!)

nas asas do nevoeiro se evolavam

e assim confusamente se tornavam

numa imagem, num nome... um nome... duas

coisas, unificadas, porque tuas.

 

Eu era ambicioso.

 Já tiveste paixões, Padre? Não! Não as conheceste!

Um trono para mim, filho do lôdo,

que o mundo dominasse quase todo,

sonhei, a maldizer a minha sorte.

Mas, como todo sonho, também êste,

sob o vapor do orvalho, voaria,

não viesse da beleza o brilho forte

que o cumulava, ainda que, se tanto,

por um minuto, por uma hora, um dia

pesar-me na alma com dobrado encanto.

 

E passeávamos juntos, pela crista

de elevada montanha, donde a vista

caía, dos penhascos escarpados

e altivos, das florestas, nos outeiros

esparsos, de bosquetes coroados,

rumorejando com seus mil ribeiros.

Falava de poder e de vaidade,

porém mìsticamente, que a verdade

a ela eu não queria revelar

no que dizia; e então, em seu olhar,

talvez eu lesse, descuidadamente,

um sentimento, do meu próprio irmão.

O brilho de suas faces parecia,

para mim, transformar-se em refulgente

trono; e eu consentir não poderia

que elas brilhassem só na solidão.

 

De grandezas então eu me envolvia

tomando uma fantástica coroa;

e não era, contudo, a Fantasia

que seu manto viera em mim lançar.

E se entre a humanidade, a turba alvar,

é o leão da ambição, que se agrilhoa,

entregue à mão de um domador que o mande,

não é assim no deserto; lá, o que é grande

conspira com o terrível e o sem-par

para as almas com o sôpro incendiar.

 

Contempla Samarkand! Contempla-a agora!

Não é rainha da terra e se alcandora

sôbre as cidades tôdas? Não lhes traz

os destinos na mão? E não desfaz,

solitária e fidalga, tudo quanto

de glória e fama neste mundo medra?

Se cair, sua mais humilde pedra

há de formar de um trono o pedestal.

Quem é seu soberano? Tamerlão.

Êsse que os povos viram, com espanto,

subir, calcando aos pés cada nação,

um bandido com a coroa real!

 

Ó amor humano! Tu, que dás, no mundo,

o que esperamos vir do céu profundo;

que cais na alma, qual chuva abençoada

sôbre a planície adusta e calcinada;

e, não podendo dar ventura, fazes

do coração deserto sem oásis;

tu, idéia que tôda a vida encerra

em música de sons tão singulares

e belos, que na selva têm seus lares,

adeus! adeus! pois conquistei a Terra!

 

Quando a Esperança, essa águia da amplidão,

os altos cimos já não mais avista,

suas asas se curvam, de mansinho,

e o olhar se volta, doce, para o ninho.

Era o sol-pôr; e quando o sol declina

um desespero sobe ao coração

de quem ainda quisera ter à vista

o esplendor estival da luz solar.

A alma aspira a bruma vespertina,

tão cariciosa, atenta a perceber

o som da treva (ouvido sempre pelos

que sabem dar-lhe ouvido) a se arrastar,

como quem quer, em meio a pesadelos,

fugir de algum perigo, sem poder.

 

Que importa brilhe a lua, a lua fria

com seu fulgor mais lúcido e mais forte?

Seu sorriso e seu brilho são gelados,

naquelas horas de melancolia,

como um retrato feito após a morte

(vendo-o, nem respiramos, assustados).

E a juventude é como um sol de estio,

cujo poente é o mais triste, porque então

já nada mais ignora o coração

e o que guardar quisemos no fugiu.

Pareça a vida, pois, qual flor de um dia,

com a beleza que, esplêndida, irradia.

 

Voltei para o meu lar, não mais meu lar,

pois tudo o que fazia assim se fora.

Penetrei no musgoso umbral e embora

fôsse meu passo lento e comedido

veio uma voz da pedra do limiar,

a voz de alguém que u conhecera outrora.

Oh! desafio o inferno a que apresente,

nos seus leitos de fogo, mais ferido

coração, ou desgraça mais pungente!

 

Eu creio, Padre, eu firmemente creio,

e bem sei – pois a morte, que me veio

da longínqua região abençoada

onde não mais existem ilusões,

vai entreabrindo os rígidos portões

e cintilam os raios da verdade,

que não vês, através da Eternidade...

Sim, eu creio que Eblis pôsto havia

sua armadilha, sob a humana estrada.

E se não, por que, quando eu me perdia

no bosque santo dêsse ídolo, o Amor,

de asas de eneve sempre perfumadas

com o incenso das ofertas mais sagradas,

no bosque iluminado intensamente

pelos raios do céu, nesse bosque onde

nenhum ser, por mais ínfimo, se esconde

a seu olhar de águia, abrasador,

por que, então, a ambição se insinuou,

sem ser vista, entre os sonhos, a crescer,

até lançar-se, a rir, ousadamente,

nas madeixas do Amor, do próprio Amor?

 

UM SONHO

SONHEI, entre visões da noite escura,

com a alegria morta, mas meu sonho

de vida e luz me despertou, tristonho,

com o coração partido de amargura.

 

Ah! que não vale um sonho à luz do dia

para aquêle que os olhos traz cravados

nas coisas que o rodeiam e os desvia

para tempos passados?

 

Aquêle santo sonho, sonho santo,

enquanto o mundo repelia o pária,

deu-me o confôrto, como luz de encanto

a conduzir uma alma solitária.

 

E embora a luz, por entre a tempestade

e a noite, assim tremesse, tão distante,

que poderia haver de mais brilhante

no claro sol da estrêla da Verdade?

 

HINO A ARISTÓGITON E HARMÓDIO

 

I

 

COM GRINALDAS de mirto, embainho a espada

como a dêsses campeões de almas serenas

quando, em peito tirano mergulhada,

restituía a liberdade a Atenas.

 

II

 

Heróis! Vossa alma eterna se alcandora

nas ilhas de ventura abençoada

em que descansam os titãs de outrora

e Diomedes e Aquiles têm morada.

 

III

 

De mirto verde adornei meu gládio,

Como Harmódio, fidalgo e bom, fazia,

ao derramar, sôbre a ara do Paládio,

o sangue, em libação, da Tirania.

 

IV

 

Vós livrastes Atenas de opressões,

vingastes o mal feito à liberdade

e vossa fama irá, de idade a idade,

embalsamada no eco das canções.

  

ROMANCE

Ó, ROMANCE, que acenas e cantas,

cabeceando, com as suas asas fechadas,

entre as fôlhas que tombam das plantas,

lá na sombra das águas paradas,

papagaio multicolorido,

a minha ave cassa eira tens sido.

Ensinaste-me a ler; com teus têrmos

balbuciei a primeira das frases,

quando, criança, já de olhos sagazes,

me afundava nos bosques mais ermos.

 

Hoje, o eterno Condor das idades

tôda a altura dos céus faz temer

com a tormenta do Tempo, a correr;

e, de tanto fitar tempestades,

um momento não há, de lazer.

E se uma hora, voando mais calma,

vem lançar seu frouxel em minha alma,

ó, meu canto, na lira não vibras,

pois o meu coração tem por crime

que êsse efêmero instante se rime,

sem que tremam também suas fibras.

 


 VÉSPER

ERA em pleno verão.

Andava a noite em meio.

E as estrelas, no seu revoluteio,

luziam desbotadas, ao clarão

maior da lua fria,

que, entre a turba dos astros que a servia,

dos céus vinha lançar

seu brilho sôbre o mar.

 

Olhei por um instante

o seu sorriso enregelante,

para mim frio, tão frio...

e lá passou, qual fúnebre atavio,

uma nuvem, que em flocos se reparte.

Voltei-me então, a olhar-te,

Vésper altiva e nobre,

de esplendor que a distância não encobre,

e mais caro seu brigo me há de ser;

pois o prazer

é o que de mais esplêndido tu trazes

para o meu coração,

nas ondas que, no céu, à noite, fazes,

e é bem maior a minha admiração

por tua chama afastada

que por aquela luz, tão perto, mas gelada.

 

                          O LAGO

NO VERDOR de meu anos, meu destino

foi só habitar, de todo o vasto mundo,

uma região que amei mais do que tôdas,

tanto encantava a solidão de um lago

selvagem, que cercavam negras rochas

e altos pinheiros, dominando tudo.

 

Mas quando a Noite, em treva, amortalhava

êsse recanto e o mundo, e o vento místico

chegava, murmurando melopéias,

então, ah! sempre em mim se despertava

o terror dêsse lago solitário.

 

Não era, êsse, um terror, porém, de espanto,

mas um delicioso calafrio,

sentimento que as jóias mais preciosas

não inspiram , nem fazem definir;

nem mesmo o amor, nem mesmo o teu amor.

 

Reinava a Morte na água envenenada

e seu abismo era um sepulcro digno

de quem pudesse ali achar consôlo

para seus pensamentos taciturnos,

de quem a alma pudesse, desolada,

no tôrvo lago ter um Paraíso.

 

  CANÇÃO


EM TUA FESTA de núpcias eu te vi,

ardendo de rubor.

E havia só venturas junto a ti;

e era, a teus pés, o mundo, todo amor.

 

E, em seu olhar, a luz incandescente

(ah! qualquer que ela fosse!)

era o que, para o meu olhar dolente,

existia na terra de mais doce.

 

E era o rubor, o pejo purpurino

da virgem (por que não?) .

Mas uma chama infrene, em desatino,

a seu brilho, ai!, nasceu no coração

 

de quem, na festa nupcial, te via

ao vir-te êsse rubor.

E só venturas junto a ti havia;

e era, a teus pés, o mundo, todo amor...

 

A MARIE-LOUISE SHEW

DE TODOS para quem tua proposta é o dia;

de todos para quem é tua ausência a noite,

um eclipse total do sol no céu profundo;

de todos os que sempre, a chorar, te bendizem,

pela esperança, a vida e, sobretudo, pela

ressurreição da fé, bem fundo sepultada,

na Humanidade, na Verdade, na Virtude;

de todos que, no leito ímpio do desespêro,

esperavam a morte e de pronto se ergueram

à tua voz murmurante e suave – “A luz se faça!” –

sob a voz murmurante e suave, que se espelha

no seráfico ardor de teus olhos esplêndidos;

de todos os que mais te devem e que, gratos,

rendem-te ardente culto, oh! lembra o mais sincero,

recorda-te do mais fervente e devotado

e pensa que êle traça êstes versos tão frágeis

e que, ao traçá-los, treme, ante o só pensamento

de sua alma em comunhão com o espirito de um anjo!

 

  A HELENA

TUA BELEZA, Helena, faz pensar

nesses barcos de Nice que, por mar

perfumado, levavam, docemente,

outrora, o viajor cansado e doente

ao seu nativo lar.

 

Quanto oceano sulquei, desesperado!

E em teu nobre perfil, na flava coma,

no encanto pela Náiade imitado,

volto à Grécia gloriosa do passado,

ao esplendor de Roma!

 

Sim! No nicho fulgente da janela,

à luz de ônix, teu vulto se revela,

lâmpada a mão, uma estátua pagã.

Ó, Psique, que me vieste dessa bela

e sagrada Canaã!


“O DIA MAIS FELIZ”

I

 

O DIA mais feliz, a hora mais doce,

conheceu-os a minha alma desolada.

De orgulho e poderio, a mais ousada

esperança (bem sinto) consumou-se.

 

II

 

De poderio? Assim pensei! Mas, ai,

tôda esperança é já desvanecida!

Visões do florescer de minha vida,

pobres visões, mortas visões passai!

 

III

 

E tu, orgulho, que tenho ainda contigo?

Teu veneno herde uma outra fronte incalma

onde, sutil, se instile êsse inimigo.

Que possa ao menos descansar minha alma!

 

IV

 

O dia mais feliz, a hora mais doce

que meus olhos já viram ou verão,

de orgulho e poderio a aspiração

mais luminosa, tudo (eu sei) finou-se.

 

V

 

Mas se a esperança fôsse dada, ainda,

de orgulho e poderio, com a mesma fria

dor que outrora senti, não quereria

nunca mais reviver essa hora linda.

 

VI

 

Pois negro era o feitiço de sua asa

espalmada, a esvoaçar, donde caía

potente essência destruidora, em brasa,

por sôbre a alma que bem a conhecia.


SONHOS

FÔSSE-ME a infância um sonho prolongado!

Nem a alma despertasse, até que o brilho

da manhã viesse numa Eternidade!

Mesmo que o longo sonho fôsse triste,

desesperado, bem melhor seria

que o despertar da fria realidade,

para quem, no seu peito, só tem tido

e tem, na terra deliciosa, um caos

de paixões fundas, desde o nascimento.

Mas seria – êsse sonho eternamente

continuado – tal como os outros eram,

na minha infância e, se me fôsse dado,

só um louco aspiraria a céu mais alto.

Tivesse eu mergulhado, à luz do sol,

num céu de estio, em sonhos de luz viva,

e de prazer, voasse o coração

a regiões imaginárias, longe

de meu lar, entre sêres só pensados

por mim – que mais eu quereria ver?

Uma vez. . . uma só – e essa hora estranha

jamais esquecerei – certo feitiço

ou poder me empolgou; o frio vento

fustigou-me, na noite, e deixou na alma

sua impressao. . . e, ou foi a lua cheia

brilhando, das alturas, no meu sono,

tão fria . . ou as estrêlas. . . ou o que fôsse,

tal sonho foi apenas como o vento

dessa noite... deixemo-lo passar.

Tenho sido feliz, embora em sonhos.

Tenho sido feliz, e amo dizê-lo.

Sonhos! Na sua forte côr de vida,

como nesse rumor sombrio, nevoento,

que imita a realidade, trazem, para

o delirante olhar, mais belas coisas

de Paraíso e Amor – e minhas, todas! –

do que já pôde a jovem Esperança

conhecer em suas horas de mais luz.

 

A ISADORA

I

 

SOB O ALPENDRE vestido de vinha,

cujas sombras se espraiam à frente

da varanda de tua casinha,

sob as fôlhas do lírio tremente

cujas flôres purpúreas, de leve,

fecham sempre teus dedos de neve,

vi-te, em sonhos, a noite passada,

qual rainha das ninfas, qual fada,

encantando a roupa da flora,

belíssima Isadora!

 

II

 

Quando ao sonho pedi que então fôsse

sôbre tua alma, fugindo, voar,

teu olhar violeta voltou-se

para mim, parecendo irradiar

o profundo prazer sem igual

de um sereno, inefável amor;

de tua frente de lírio o palor,

que recorda uma Noite Imperial

no seu trono, de estrêlas ornada,

arrastou-me até tua morada.

 

III

 

Ah! nunca eu comtemplado tivesse

os teus olhos de sonho e paixão;

azuis como os céus lassos, dormentes,

de que pende a áurea franja dos poentes!

Tua imagem (é estranho!) hoje cresce

clara, e velhas lembranças, que são

despertadas, em vêm, uma a uma,

como sombras silentes na bruma,

onde o luar calmamente se abriga,

quando o vento noturno as fustiga.

 

IV

 

Como música em sonhos ouvida,

de harpa ignota uma corda tangida,

como a voz fugitiva das aves

que não voltam, a voz dos ribeiros,

murmurando entre verdes outeiros,

ouço os sons de tua voz, tão suaves.

e um Silêncio encantado caminha,

como o que nos meus lábios se aninha

quando em sonhos, vou trêmulo expor,

só a ti, todo o meu grande amor.

 

V

 

Escutada nos vales distantes,

flutuando desta árvore àquela,

a cantiga das aves radiantes

para mim não parece tão bela

quando as coisas mais simples que falas,

sem que um eco as divulgue, a imitá-las,

Ah! de ouvir-te a paixão me consome

pois, se suave tua voz o enuncia,

até mesmo êste meu rude nome

é doce melodia.

                                   

HINO TRIUNFAL

I

 

COMO A PRECE funéria será lida,

para que o canto mais solene se ouça,

num réquiem pela morta, a mais querida

das mortas, a mais moça?

 

II

 

Seus amigos a vêem, cheios de espanto,

no caixão que a comporta,

e choram, desonrando, com seu pranto,

a beleza da virgem que está morta.

 

III

 

Êles a amavam só pela riqueza,

odiando o orgulho seu;

e, quando foi de enfermidades prêsa,

amaram-na, e por isso ela morreu.

 

IV

 

Dizem-me (enquanto falam sôbre “o manto

ricamente bordado que a amortalha”)

que minha voz é cada vez mais falha

e débil para o canto;

 

V

 

que essa voz deveria tão solene

erguer-se, e lastimosa,

que, ao tom da litania dolorosa,

a morta já não pene.

 

VI

 

Ela voou para o célico esplendor

tendo ao lado a esperança.

E eu choro, desvairado pelo amor,

a morta esposa criança.

 

VII

 

A morta que ali jaz e, com desvêlo,

vieram perfumar...

Porém, se a morte dorme em seu olhar,

há vida em seu cabelo.

VIII

 

Bato, pois, alto, em golpe demorado,

nas tábuas do caixão.

Seja o meu canto doloroso, então,

por êsse rouco som acompanhado.

 

IX

 

Morreste! E era só junho para tua alma!

Ah! não devias perecer tão linda!

Tu não podias perecer ainda,

morrendo assim tão calma!

 

X

 

Dos amigos da terra és separada,

e da vida, e do amor,

para alçares-te à gloria imaculada,

ao celeste esplendor.

 

XI

 

Por isso, minha voz, hoje, sombrias

preces não erguerá,

mas em teu vôo te acompanhará

ao som de Hino Triunfal de antigos dias.

 

 

 

e nunca vi como outros viam.

Minhas paixões eu não podia

tirar de fonte igual à deles;

e era outra a origem da tristeza,

e era outro o canto, que acordava

o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sózinho.

Assim, na minha infância, na alba

da tormentosa vida, ergueu-se,

no bem, no mal, de cada abismo,

a encadear-me, o meu mistério.

Veio dos rios, veio da fonte,

da rubra escarpa da montanha,

do sol, que todo me envolvia

em outonais clarões dourados;

e dos relâmpagos vermelhos

que o céu inteiro incendiavam;

e do trovão, da tempestade,

daquela nuvem que se alterava,

só, no amplo azul do céu puríssimo,

como um demônio, ante meus olhos.

 

   LENORA

AH! foi partida a taça de ouro! o espírito fugiu!

Que dobre o sino! Uma alma santa já cruza o Estígio rio!

E tu não choras, Guy de Vere? Venha teu pranto agora,

ou nunca mais! No rude esquife jaz teu amor, Lenora!

Leiam-se os ritos funerários e o último canto se ouça,

um hino à rainha dentre as mortas, a que morreu mais môça.

E duplamente ela morreu, por que morreu tão môça!

 

"Pela riqueza a amastes, míseros, o seu orgulho odiando,

e, doente, a bendissestes, quando a morte ia chegando.

E como, então, lereis o rito? Os cantos de repouso

entoareis vós, olhar do mal? Vós, o verbo aleivoso,

que o fim trouxestes à existência tão jovem da inocência?"

 

Peccavimus; mas não se irrites! O réquiem tão solene

e embalador ascenda aos céus, que a morta já não pene!

Para aguardar-te ela se foi, tendo ao lado a Esperança

e tu ficaste, louco e só, chorando a noiva criança,

meiga e formosa, que ali jaz, magnífica, sem par,

com a vida em seus cabelos de ouro, mas não em seu olhar,

com a vida em seus cabelos, sim, e a morte em seu olhar.

 

"Ide! Meu coração não pesa! Sem canto funeral,

quero seguir o anjo em seu vôo com um velho hino triunfal.

Não dobre mais o sino! que a alma em seu prazer sagrado

não o ouça, triste, ao ir deixando o mundo amaldiçoado.

Ela se arranca aos vis demônios da terra e sobe aos céus.

Do inferno, à altura se conduz e lá, na luz dos céus,

livre do mal, da dor, se assenta num trono, aos pés de Deus!"

                      

 HINO*

SANTA MARIA! Volve o teu olhar tão belo, 09i9

de lá dos altos céus, do teu trono sagrado,

para a prece fervente e para o amor singelo

que te oferta, da terra, o filho do pecado.

Se é manhã, meio-dia, ou sombrio poente,

meu hino em teu louvor tens ouvido, Maria!

Sê, pois, comigo, ó Mãe de Deus, eternamente,

quer no bem ou no mal, na dor ou na alegria!

No tempo que passou veloz, brilhante, quando

nunca nuvem qualquer meu céu escureceu,

temeste que me fôsse a inconstância empolgando

e guiaste minha alma a ti, para o que é teu.

Hoje, que o temporal do Destino ao Passado

e sôbre o meu Presente espêssas sombras lança,

fulgure ao menos meu Futuro, iluminado

por ti, pelo que é teu, na mais doce esperança.

 

 PARA HELENA*

VI-TE uma vez, só uma, há vários anos,

já não sei dizer quantos, mas não muitos.

Era em junho; passava a meia-noite

e a lua, em ascensão, como tua alma,

nos céus abria um rápido caminho.

O luar caía, um véu de sêda e prata,

calma, tépida, embaladoramente,

em cheio, sôbre as faces de mil rosas,

que floresciam num jardim de fadas,

onde até o vento andava de mansinho.

Caía o luar nas faces dessas rosas,

que morriam, sorrindo, no jardim

pela tua presença enfeitiçado.

 

Toda de branco, vi-te reclinada

sôbre violetas; e o luar caía

sôbre a face das rosas, sôbre a tua,

voltada para os céus, ai! de tristeza!

 

Não foi o Destino, nessa meia-noite,

não foi o Destino (que é também Tristeza)

que me levou a êsse jardim, detendo-me

com o incenso das rosas que dormiam?

Nenhum rumor. O mundo silenciara.

Só tu e eu (Meu Deus! como palpita

o coração, juntando estas palavras!) ...

Só tu e eu... Parei... Olhei... E logo

tôdas as coisas se desvaneceram.

(Lembra-te: era um jardim enfeitiçado.)

 

Fugiu a luz de pérola da lua.

Os canteiros, os meandros sinuosos,

flôres felizes, árvores aflitas,

tudo se foi; o próprio odor das rosas

morreu nos braços do ar que as adorava.

 

Tudo expirara... Tu ficaste... Menos

que tu: a luz divina nos teus olhos,

a alma mos olhos para os céus voltados.

Só isso eu vi durante horas inteiras,

até que a lua fôsse declinando.

Ah! que histórias de amor se não gravavam

nas celestes esferas cristalinas!

que mágoas! que sublimes esperanças!

que mar de orgulho, calmo e silencioso!

e que insondável aptidão de amar!

 

Mas, afinal, Diana se sepulta

num túmulo de nuvens tormentosas.

Tu, como um elfo, entre árvores funéreas,

deslizas. Só teus olhos permanecem.

Não quiseram fugir. E não fugiram.

Iluminando a estrada solitária

de meu regresso, não me abandonaram

como o fizeram minhas esperanças.

 

E ainda hoje me seguem, dia a dia.

São meus servos – mas eu sou seu escravo.

Seu dever é luzir em meu caminho;

meu dever é salvar-me pro seu brilho,

purificar-me em sua flama elétrica,

santificar-me no seu fogo elísio.

Dão-me à alma Beleza (que é Esperança).

Astros do céu, ante êles me prosterno

nas noites de vigília silenciosa;

e ainda os fito em pleno meio-dia,

duas Estrelas d`Alva, cintilantes,

que sol algum jamais extinguirá.


 

 O COLISEU

PADRÃO da antiga Roma! Ó rico relicário

de altas meditações, abandonado ao Tempo

por séculos de fausto e poderio, sepultos!

Afinal... afinal, depois de tantos dias

de peregrinação cansada ​​e ardente sêde

das fontes imortais de Ciência que em ti jazem,

eu, homem transformado e humilde, me ajoelho

nas sombras, para que a alma, avidamente, sorva

a grandeza, a tristeza e a glória que são tuas.

 

Que amplidão! Vetustez! E lembranças de outrora!

E que silêncio! Que êrmo! E que noite profunda!

Eu agora vos sinto, em toda a vossa fôrça,

ó sortilégios, como o monarca israelita

nunca ensinou iguais no Hôrto das Oliveiras,

ó encantos, como nunca os êxtases caldaicos

puderam arrancar das estrêlas tranqüilas!

 

Lá, onde um herói caiu, uma coluna tomba!

Lá, onde a águia do Império em ouro flamejava,

o morcego vigia, à fusca meia-noite.

O vento, que agitava outrora a loura coma

das romanas, só ondula os cardos e os caniços.

E onde se recostava o rei, num áureo trono,

desliza, fantasmal, para seu lar marmóreo,

sob o turvo clarão de pálido crescente,

o silente e  veloz lagarto das ruínas!

 

Mas êsses muros, vede! Arcadas que a hera veste,

plintos feitos de pó, fustes enegrecidos,

derruídos capitéis, frisos desmantelados,

cornijas que se vão desfazendo... essa ruína

e as pedras côr de cinza, essas pedras, é  tudo

o que de colossal e de glorioso o Tempo

corrosivo deixou para mim e o Destino?

 

"Não é tudo, isso! – diz-me o Eco. – Não é tudo!

Sempre é sempre, uma voz profética e alta se ergue

de nós, ou de qualquer ruína, para os sábios,

como sobem ao sol os cantos de Memnon.

Escuta-a o coração dos homens poderosos;

despótica, domina  as almas gigantescas!

Não somos sem poder, nós, as pálidas pedras!

Nem tôda a nossa fôrça está perdida,

nem a magia do renome antigo,

nem tôda a maravilha que nos cerca,

nem todos os mistérios que em nós jazem,

nem tôdas as lembranças que se prendem

a nossos flancos, como um vestuário

mais fulgurante do que a própria glória!

 

 

 A MARIE-LOUISE SHEW

AQUÊLE que estas linhas traça, outrora,

no louco orgulho do intelectualismo,

defendia o "poder do verbo", crendo

jamais haver na mente um pensamento

que fôsse intraduzível em palavras.

Mas, agora, a zombar dessa jactância,

dois dissílabos suaves, estrangeiros,

sons da Itália, só de anjos murmurados

quando sonham ao luar, que faz do orvalho

"sôbre o outeiro do Hermon um rio de pérolas",

tiraram, dos abismos dêste peito,

almas de pensamentos não pensados,

visões tão belas, singulares, célicas,

que nem mesmo Israfel, cantor seráfico

("a mais doce das vozes já criadas")

poderia narrar. Quebrou-se o encanto!

Cai a pena, impotente, da mão trêmula.

Com teu nome por tema, embora o ordenes,

eu não posso escrever... Nem penso ou falo...

Ai! nem sinto... Pois não é sentimento

ficar assim, imóvel, à dourada

e enorme porta aberta sôbre os sonhos,

contemplando, extasiado, o panorama,

trêmulo, por só ver, de cada lado

e pela longa estrada, entre impurpúreas

névoas, e na distância, onde termina

a perspectiva – a ti unicamente.

 

 ULALUME

ERA O CÉU de um cinzento funerário

e a folhagem, fanada, morria;

a folhagem, crispada, morria;

era noite, no outubro solitário

de ano que já me não lembraria;

ficava ali bem perto o lago de Auber,

na região enevoada de Weir;

bem perto, o pantanal úmido de Auber,

na floresta assombrada de Weir.

 

Lá, uma vez, por um renque titânico

de ciprestes, vagueei, em desconsôlo,

com minha alma, Psique em desconsôlo.

Era então o meu peito vulcânico

qual torrente de lava que no solo

salta, vinda dos cumes de Yaanek,

nas mais longínquas regiões do pólo,

que ululando se atira do Yaanek

nos panoramas árticos do pólo.

 

Tristonha e gravemente conversamos,

mas a idéia era lassa e vazia

e a memória traidora e vazia;

que o mês era de outubro não lembramos,

nem soubemos que noite fugia.

(Ai! A noite das noites fugia!)

Não recordamos a lagoa de Auber

(e já fôramos lá, certo dia);

não pensamos no charco úmido de Auber,

nem no bosque assombrado de Weir.

 

Quando a noite ia já desmaiada

e as estrêlas chamavam pela aurora,

pálidos astros apontando a aurora,

eis que surge, no extremo da estrada,

uma luz fluida, nebulosa; e fora

dela se ergue um crescente recurvo,

coroa adamantina, e se alcandora;

surge, claro, o crescente recurvo,

diadema de Astarté, que se alcandora.

“Menos fria que Diana é essa estrêla”,

digo, a girar num éter feito de ais,

sorridente, num éter feito de ais.

 

Viu o pranto, que a mágoa revela,

nas faces em que há vermes imortais

e, por onde o Leão se constela,

vem mostrar o caminho aos céus, letais

caminhos para a paz dos céus letais;

a despeito do Leão, vem-nos ela

iluminar, com os olhos triunfais.

Das cavernas do Leão, vem-nos ela,

cheia de amor nos olhos triunfais.”

 

Mas diz Psique, tremendo de aflição:

“Dessa estrela, por Deus, desconfia!

Dêsse estranho palor desconfia!

É preciso fugir de luz tão fria!

Apressemo-nos! Voemos, então!”

E, perdidas de tanta agonia,

suas asas se inclinavam para o chão;

soluçava e, de tanta agonia,

as plumas rastejavam pelo chão,

tristemente roçando pelo chão.

 

“Isso – falei – é um sonho de criança!

Oh! sigamos a luz que facina,

mergulhemos na luz cristalina!

É um clarão de beleza e de esperança

o que vem dessa luz sibilina.

Olha-a: entre as sombras, como gira e dança!

Guie-nos, pois, essa estrêla, que ilumina

nossa estrada, com tôda a confiança;

que nos guie para onde se destina.

Nessa estrela tenhamos confiança,

pois nas sombras, assim, volteia e dança!”

 

Dou um beijo a Psique, que a conforta,

impedindo que o mêdo se avolume,

que a dúvida, a tristeza se avolume,

e da estrêla seguimos o lume

até que nos deteve uma porta

de tumba, e uma legenda nessa porta.

“Doce irmã – perguntei –, dessa porta

que tragédia a legenda resume?”

“Ulalume!” – responde-me. – Ulalume!”

“Essa é a tumba perdida de Ulalume!”

 

E me vi de tristezas referto,

como a folhagem sêca que morria,

a folhagem fanada que morria!

E exclamei: “Era outubro, decerto,

e era esta mesma, há um ano, a noite fria

em que vim, a chorar, aqui perto,

fardo horrível trazendo, aqui perto!

Nesta noite das noites, sombria,

que demônio me arrasta aqui tão perto?

Bem reconheço agora o lago de Auber

na região enevoada de Weir;

bem vejo o pantanal úmido de Auber,

na floresta assombrada de Weir!”

                                          

OS SINOS

I

 

Escuta: nos trenós tilintam sinos

              argentinos

Ah! que mundo de alegria o som cantante prenuncia!

        Como tinem, lindo, lindo,

              no ar da noite fria e bela!

        Vão tinindo e o céu inteiro se constela,

        florescente, refulgindo

              com deleites cristalinos!

           Dão ao Tempo uma cadência tão constante

            como um rúnico descante,

com os tintinabulares, pequeninos sons, bem finos

    que nascendo vão dos sinos

                sim, dos sinos, sim, dos sinos.

 

II

 

Escuta: em núpcias vão cantando os sinos,

                   áureos sinos!

    Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!

            No ar da noite, embalsamado,

            como entoam seu enlêvo abençoado!

               Tons dourados, lentas notas,

                          concordantes...

                E tão límpido poema aí flutua

      para as rôlas, que o escutam, divagantes,

                            vendo a lua!

                Volumoso, vem das celas retumbantes

      todo um jôrro de eufonia que se amplia!

                            Que se amplia!

                             Que se amplia!

                      “O futuro é belo e bom!” – clama o som,

                       que arrebata, como em êxtases divinos,

                 no balanço repicante que lá soa,

                que tão bem, tão bem ecoa,

            na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos

                       carrilhões e sinos, sinos,

     no rimado, consonante som dos sinos!

 

III

 

Escuta: em longo alarma bradam sinos,

                    brônzeos sinos!

Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!

     Treme a noite, com pavor,

     quando os ouve em seu bramido assustador!

          Tanto é o mêdo que, incapazes de falar

          se limitam a gritar,

                     em tons frouxos, desiguais,

clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,

contendendo loucamente com o frenesi do fogo,

                que se lança bem mais alto,

                que em desejo audaz estua

           de, no empenho resoluto de algum salto

           (sim! agora ou nunca mais!),

        alcançar a fronte pálida da lua!

                 Oh! os sinos, sinos, sinos!

                 De que lenda pavorosa, de alarmar,

                       falam tanto?

             Clangorantes, ululantes, graves, finos,

             quanto espanto vertem, quanto,

no fremente seio do ar!

                 E por eles bem a gente sabe – ouvindo

                        seu tinido,

                        seu bramido –

                 se o perigo é vindo ou findo.

              Bem distintamente o ouvido reconhece

                        pela luta,

                        na disputa,

                        se o perigo morre ou cresce,

pela ampliante ou decrescente voz colérica dos sinos,

                         badalante voz dos sinos

                 sim, dos sinos, sim, dos sinos,

                     carrilhões e sinos, sinos,

no clamor e no clangor que vêm dos sinos!

 

IV

 

Escuta: dobram, lentamente, os sinos,

                férreos sinos!

Ah! que mundo de pensares tão solenes põem nos ares!

   Na silente noite fria,

   quando a alma se arrepia

à ameaça dêsse canto melancólico de espanto!

   Pois em cada som saído

   da garganta enferrujada

                há um gemido!

   E os sineiros (ah! essa gente

   que, habitando o campanário

                solitário,

        vai dobrando, badalando a redobrada

            voz monótona e envolvente...),

       quão ufanos ficam êles, quando vão

            tombar pedras sôbre o humano coração!

    Nem mulher nem homem são,

    nem são feras: nada mais

               do que sêres fantasmais.

     E é seu Rei quem assim tange,

     é quem tange, e dobra, e tange.

                  E reboa

            triunfal, do sino, a loa!

         E seu peito de ventura se intumesce

            com os hinos funerários lá dos sinos;

         dança, ulula, e bem parece

         ter o Tempo num compasso tão constante

         qual de rúnico descante

               pelos hinos lá dos sinos,

                    ah! dos sinos!

         Leva o Tempo num compasso tão constante

         como em rúnico descante,

               pela pulsação dos sinos,

         a plangente voz dos sinos,

               pelo soluçar dos sinos!

         Leva o Tempo num compasso, tão constante

         que a dobrar se sente, ovante

     bem feliz com êsse rúnico descante

          com o reboar que vem dos sinos,

     a gemente voz dos sinos

     o clamor que sai dos sinos,

  a alucinação dos sinos,

               o angustioso,

lamentoso, longo e lento som dos sinos!

 

 

UM ENIGMA*

“SEMPRE é raro achar – diz Dom Salomão Zebral –

parte de idéia, até no verso mais profundo.

Através do que é leve e fácil ver-lhe (qual

olhando por chapéu de Nápoles)  o fundo.

Tal chapéu será o nada? E há damas para usá-lo!

E ainda pesa que um teu poema, ó Petrarca

tolo, penugem vã de mocho, que a um abalo

torvelinha, a esvoaçar, enquanto o olhar o abarca!"

Ninharia Assim é – por certo Salomão

fêz bem o julgamento – é bolha de sabão

efêmera, em geral, fugaz e transparente.

Aqui, porém, Lewis, querida, podes crê-lo,

opacos, imortais, são os meus versos, pelo

nome lindo que esconde o poema – e está presente.

 

* O nome de SARAH ANNA LEWIS encontra-se neste sonêto em acróstico, formado pela letra, em versal e grifo, do primeiro verso; a segunda, também em versal e grifo, do segundo verso; a terceira, versal e grifo, do terceiro verso; e, assim por diante, até a décima-quarta letra, em versal e grifo, do décimo-quarto verso. (N. T.)

 

                                ANNABEL LEE

HÁ MUITOS, muitos anos, existia

num reino à beira-mar, em que vivi,

uma donzela, de alta fidalguia,

chamada ANNABEL LEE.

Amava-me, e o seu sonho consistia

em ter-me sempre para si.

 

Eu era criança, ela era uma criança

no reino à beira-mar, em que vivi.

Mas tanto o nosso amor ultrapassava

o próprio amor, que até senti

os serafins celestes invejarem

a mim e a ANNABEL LEE.

 

Por isso mesmo, há muitos, muitos anos,

no reino à beira-mar, em que vivi,

gélido, de uma nuvem, veio um vento

matar ANNABEL LEE.

E seus nobres parentes se apressaram

em tirá-la de mim: encerrarem-na vi

num sepulcro bem junto ao mar, que chora

eternamente ali.

 

Foi inveja dos anjos: mais felizes

éramos nós aqui.

Sim, foi por isso (como todos sabem

no reino à beira-mar, em que a perdi)

que veio um vento, à noite, de uma nuvem

matar ANNABEL LEE.

 

Mas nosso amor, imenso, era mais forte

do que o tempo e que a morte,

do que a própria esperança em que o envolvi.

E nem anjos celestes nas alturas,

nem demónios dos mares abissais

jamais minha alma afastarão, jamais,

da bela ANNABEL LEE.

 

Pois, quando surge a lua, em meus sonhos flutua,

no luar, ANNABEL LEE.

E, quando se ergue a estrêla, o seu fulgor revela

o olhar de ANNABEL LEE.

E junto a ela eu passo, assim, a noite inteira,

junto àquela que adoro, a espôsa, a companheira,

na tumba, à beira-mar, do reino em que vivi,

junto ao mar que por ti

soluça eternamente, ANNABEL LEE.

 

                                   

                                 A MINHA MÃE

PORQUE os anjos (bem sei) na celestial altura,

quando falam de amor entre si, meigamente,

não podem encontrar uma expressão mais pura

que a de mãe, nem mais linda, ungida e comovente,

eu, de há muito, te dou êsse nome perfeito,

pois tu és, para mim, mais do que mãe, por certo,

desde que a morte veio instalar-te em meu peito,

ao tornar, de Virgínia, o espírito liberto.

A minha própria mãe, morta no albor da vida,

foi minha mãe, tão-só; mas tu és mãe daquela

que tanto amei; por isso, és muito mais querida,

infinitamente és mais querida do que ela,

assim como minha alma achava mais preciosa

que a própria salvação – minha adorada espôsa.

 

  O PALÁCIO ASSOMBRADO

NO VALE mais verdejante

que anjos bons têm por morada,

outrora, nobre e radiante

palácio erguia a fachada.

Lá, o rei era o Pensamento,

e jamais um serafim

as asas soltou ao vento

sôbre solar belo assim.

 

Bandeiras de ouro, amarelas,

no seu teto, flamejantes,

ondulavam (foi naquelas

eras distantes!)

e alado odor se evolava,

quando a brisa em horas cálidas,

por sôbre as muralhas pálidas

suavemente perpassava.

 

Pelas  janelas de luz,

o viajor dançar via

espíritos que a harmonia

de alaúde tinham por lei.

E, sôbre o trono, fulgia

(Porfirogênito!) o Rei,

com a glória, com a fidalguia,

de quem tal reino conduz.

 

Pela porta, cintilante

de pérolas e rubis,

ia fluindo, a cada instante,

multidão de ecos sutis,

vozes de imortal beleza

cujo dever singular

era sòmente cantar

do Rei a imensa grandeza.

 

Mas torvos, lutuosos vultos

assaltam o solar!

(Choremos! Pois nunca o dia

sôbre o êrmo se há de elevar!)

E, em tôrno ao palácio, a glória

que fulgente florescia

é apenas obscura história

de velhos tempos sepultos!

 

Pelas janelas, agora

em brasa, avista o viajante

estranhas formas, que agita

uma música ululante;

e, qual rio, se precipita

pela pálida muralha

uma turba, que apavora,

que não sorri, mas gargalha

em gargalhada infinita.

 

 

  O VERME VENCEDOR

VÊDE! é noite de gala, hoje, nestes

        anos últimos e desolados!

Turbas de anjos alados, em vestes

        de gaze, olhos em pranto banhados,

vêm sentar-se no teatro, onde há um drama

        singular, de esperança e agonia;

e, ritmada, uma orquestra derrama

        das esferas a doce harmonia.

 

Bem à imagem do Altíssimo feitos,

        os atôres, em voz baixa e amena,

murmurando, esvoaçam na cena;

        são de títeres, só, seus trejeitos,

sob o império de sêres informes,

        dos quais cada um a cena retraça

a seu gôsto, com as asas enormes

        esparzindo invisível Desgraça!

 

Certo, o drama confuso já não

        poderá ser um dia olvidado,

com o espectro a fugir, sempre em vão

        pela turba furiosa acossado,

numa ronda sem fim, que regressa,

        incessante, ao lugar da partida;

e há Loucura, e há Pecado, e é tecida

        de terror tôda a intriga da peça!

 

Mas, olhai! No tropel dos atôres

        uma forma se arasta e insinua!

Vem, sangrenta, a enroscar-se, da nua

        e êrma cenam junto aos bastidores...

A enroscar-se... Um a um, cai, exangue,

        cada ator, que êsse monstro devora.

E soluçam os anjos – que é sangue,

        sangue humano, o que as fauces lhe cora!

 

E se apagam as luzes! Violenta,

        a cortina, funérea mortalha,

sôbre os trêmulos corpos se espalha,

        ao tombar, com rugir de tormenta.

Mas os anjos, que espantos consomem,

        já sem véus, a chorar, vêm depor

que êsse drama, tão tétrico, é "O Homem"

        e o herói da tragédia de horror

        é o Verme Vencedor.


DESEJAS ser amada? Leva então

pelo mesmo caminho o coração.

Sê tudo o que és e nada

sejas do que não és!

Assim, terás o mundo aos pés

e, com a graça, a beleza inigualada,

serás sem fim louvada em tôda parte

nada mais sendo que um dever – o amar-te.


                           

 SILÊNCIO

HÁ QUALIDADES incorpóreas, de existência

dupla, nas quais segunda vida se produz,

como a entidade dual da matéria e da luz,

se que o sólido e a sombra espelham a evidência.

 

Há pois, duplo silêncio; o do mar e o da praia,

do corpo e da alma; um, mora em deserta região

que erva recente cubra e onde, solene, o atraia

lastimoso saber; onde a recordação

 

o dispa de terror; seu nome é "nunca mais";

e o silêncio corpóreo. A êsse, não temais!

Nenhum poder do mal êle tem. Mas, se uma hora

 

um destino precoce (oh! destinos fatais!)

vos levar às regiões soturnas, que apavora

sua sombra, elfo sem nome, ali onde humana palma

 

jamais pisou, a Deus recomendai vossa alma!

 

 

                                      

  EULÁLIA

             SOLITÁRIO eu vivia

             num mundo de agonia

      e minha alma era qual água estagnada,

até que fiz da suave e linda Eulália

      a minha enrubescida desposada,

até que fiz da jovem, loura Eulália,

      a minha sorridente desposada.

 

             Não possuirão jamais

             os astros imortais

      dêsses olhos de criança o resplendor.

              E nenhum floco de vapor

             que o luar possa compor

      irisando-o de pérola e de rosa

será igual à mais simples das madeixas

              de Eulália, tão modesta e tão formosa,

será igual à mais pobre das madeixas

             que lhes cercam a fronte luminosa.

 

             A Dúvida, a Aflição

             nunca mais voltarão,

       pois sua alma os meus suspiros retribuir;

             e enquanto o dia flui

             e Astarté, refulgente,

             fulgura fortemente,

minha adotada Eulália, a contemplá-la,

             ao céu envia seu olhar de espôsa,

minha jovem Eulália, a contemplá-la,

             o olhar violeta no alto céu repousa.

       

 

                                 ISRAFEL

       "E o anjo Israfel, em quem as fibras do coração

        formam um alaúde e que tem a mais doce voz de

        todas as criaturas de Deus."

                             (Alcorão)

 

HÁ NO CÉU um espírito "em que as fibras

do coração formam um alaúde".

Canção nenhuma tem a mágica virtude

do teu canto, Israfel! Quando a voz vibras,

os astros que andam no firmamento

(contam as lendas) em desatinos,

cessam seus hinos,

emudecidos de encantamento.

 

Vacilante, flutua

no seu zênite a lua;

mas, se te ouve a canção,

enamorada, enrubescida de paixão,

a luz purpúrea no céu detém,

e as sete Plêiades, ante essa voz,

cessam também

a carreira veloz.

 

Diz o côro estrelado, a multidão

de astros, que o ouvir-te encanta,

que deves, Israfel, a inspiração

ao alaúde de teu coração;

êle é que canta

quando, trêmulas, vibras

as suas vivas, singulares fibras.

 

Mas os céus, Israfel, percorreste

onde cumpre um dever quem fundamente pensa

e onde o Amor é um deus sem par;

onde o olhar das huris se reveste

dessa beleza imensa

que só na estrela vamos adorar.

 

Tu não erras, portanto,

Israfel, se te esquivas

a um desapaixonado canto!

Sejam-te dados todos os louvores!

És o melhor, és o mais sábio dos cantores!

Feliz eternamente vivas!

 

Os êxtases do céu perfeitamente

se harmonizam com teu ritmo ardente;

teu pesar, e ventura, e ódio, e amor

de tua lira se casam ao fervor.

Bem deve cada estrêla estar silente!

 

Sim, teu é o Cé;, mas esta Terra

é um mundo de doçuras e de dores;

nossas flôres nada mais são que – flôres,

e o que de sombra encerra

tua perfeita ventura

é, para nós, a luz do sol mais pura.

 

Se eu, porém, Israfel, morasse onde viveste,

se vivesses onde eu

vivo, magicamente assim não poderias

cantar terrestres melodias;

e um hino mais audaz, talvez, do que êste,

minha lira faria arrojar-se no céu.

            

          PARA ANNIE

GRAÇAS A DEUS! A crise,

o perigo passou!

O mal languidescente

afinal se acabou.

E essa febre chamada

vida se conquistou!

 

Tristemente me sinto

das fôrças despojado

e músculo algum posso

mover, assim deitado.

Mas que importa? Prefiro

ficar assim deitado.

 

E em meu leito descanso,

com tamanho confôrto

que, ao ver-me, poderiam

imaginar-me morto;

talvez estremecessem,

como quem olha um morto.

Gemidos e lamentos,

suspiros e aflição

agora se acalmaram,

com a palpitação

cruel no meu peito. Horrível

essa palpitação!

O mal-estar, a náusea,

a impiedosa agonia,

tudo se foi, com a febre

que a mente enlouquecia:

febre chamada vida,

que em meu cérebro ardia.

 

De todos os tormentos,

o que mais amargura

cessou: o ardor terrível

da sêde que tortura,

sêde do rio naftálico

da Paixão vil e impura.

Oh! eu bebi de uma água

que tôda a sêde cura!

 

Água que flui com um canto

que o ar de doçura inunda,

de uma fonte bem pouco

escondida e profunda,

de furna que no solo

quase não se aprofunda.

 

E, ah! nunca loucamente

se diga e seja aceito

que é sombrio o meu quarto

e apertado o meu leito,

pois nunca o homem descansa

em diferente leito.

Para dormir, deitai-vos

em semelhante leito.

 

Nêle, a alma supliciada

dorme, sem dolorosas

recordações, não tendo

mais saudades das rosas,

das velhas inquietudes

de seus mirtos e rosas.

 

E, aqui jazendo, o espírito,

tão calmo e satisfeito,

crê que o cerca um mais santo

odor de amor-perfeito,

odor de rosmaninho,

misto de amor-perfeito,

de malva, do belíssimo

e puro amor-perfeito.

 

E assim feliz repousa,

mergulhado em perene

sonho da lealdade

e da beleza de Annie,

mergulhado nas ondas

das longas tranças de Annie.

 

Ela beijou-me e, terna,

acariciar-me veio.

E eu caí, docemente,

a dormir no seu seio.

Dormi profundamente

sôbre o céu de seu seio.

 

Cobriu-me, ao apagar-se

a luz no castiçal,

e orou para que os anjos

me livrassem do mal

e a Rainha dos anjos

me afastasse do mal.

 

E durmo em tal confôrto,

Agora, no meu leito

(dêsse amor satisfeito)

que me acreditais morto.

E é tal o meu confôrto

a repousar no leito

(seu amor no meu peito)

que me imaginais morto

e tremei, com trejeito

de quem contempla um morto.

 

Mas o meu coração

fulge mais que a perene

luz dos astros celestes,

pois fulgura por Annie

e se abrasa na chama

do amor de minha Annie,

só pensando na chama

do olhar de minha Annie.

 

 

                                     

Edgar Allan Poe, © 2014 June Ann.

 

                BALADA NUPCIAL

A ALIANÇA coloco na mão,

de grinaldas a fronte ornamento;

tenho jóias, cetins, em montão.

Ah! sou feliz neste momento.

 

Dá-me amor, afeição verdadeira,

meu senhor; mas fiquei sem alento

ao ouvir-lhe a promessa primeira,

pois sua voz tinha um som de lamento,

semelhante ao da voz derradeira

de alguém, morto ao lutar na trincheira,

que é bem feliz neste momento.

 

Porém êle acalmou-me, com um lento

beijo, que na fronte alva senti.

E, num sonho, nas asas do vento,

para o campo dos mortos parti.

Suspirei, a pensar que elê, ali,

fôsse o meu morto amor, D’Elormie:

“Oh! sou feliz neste momento!”

 

E a palavra assim foi proferida

e trocamos assim juramento.

Ah! que importa se fui fementida,

se traí, se tenho a alma ferida?

Este anel provará, a quem duvida,

que sou feliz neste momento.

 

Tivesse eu, ó meu Deus, despertado!

Porque sonho, e a sonhar me atormento,

sem que o espírito saiba, agitado,

se houve um êrro e se, por ter errado,

êsse morto, êsse morto olvidado

será feliz neste momento.

 

 

                                 

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