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4.11.2026

Poemas religiosos - Gregório de Matos

 







1) Ao braço de Menino Jesus

O todo sem a parte não é todo,/A

parte sem o todo não é parte,/Mas a

parte o faz todo, sendo parte,/Não se

diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus

todo, /E todo assiste inteiro em

qualquer parte,/Em qualquer parte

sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,/ Pois

que feito Jesus em partes todo,/ Assiste

cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,/Um

braço, que lhe acharam, sendo

parte,/ Nos diz as partes todas deste

todo.


2) Ao dia do Juízo

O alegre do dia entristecido,/ O

silêncio da noite perturbado/ O

resplendor do sol todo eclipsado, / E o

luzente da lua desmentido!

Rompa todo o criado em um

gemido,/ Que é de ti mundo?/ Onde

tens parado?/ Se tudo neste instante

está acabado,/ Tanto importa o não

ser, como haver sido.

Soa a trombeta da maior altura,/ A

que a vivos e mortos traz o aviso/ Da

desventura de uns, d’outros ventura.

Acabe o mundo, porque é já preciso,/

Erga-se o morto, deixe a sepultura,/

Porque é chegado o dia do juízo.

 

3) O poeta na última hora da sua

vida

Meu Deus, que estais pendente em

um madeiro,/ Em cuja lei protesto de

viver,/ Em cuja santa lei hei de morrer/

Animoso, constante, firme e inteiro.

Neste lance, por ser o derradeiro,/Pois

vejo a minha vida anoitecer,/ É, meu

Jesus, a hora de se ver/ A brandura de

um Pai manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor, e meu

delito,/ Porém, pode ter fim todo o

pecar,/ E não o vosso amor que é

infinito.

Esta razão me obriga a confiar,/ Que

por mais que pequei, neste conflito/

Espero em vosso amor de me salvar.


4) Inquietação salvacionista

Como não hei de ter medo/ de um

pão que é tão formidável/ vendo que

estais todo em tudo,/e estais todo em

qualquer parte?/ Quanto a que o

sangue vos beba,/ isso não, e perdoai-me:/ como quem tanto vos ama, / há

de beber-vos o sangue?/ Beber o

sangue do amigo/ é sinal de

inimizade;/ pois como quereis que o

beba/ para confirmarmos pazes?/

Senhor, eu não vos entendo,/ vossos

preceitos são graves,/ vossos juízos são

fundos/ vossa ideia inescrutável./ Eu

confuso neste caso/ entre tais

perplexidades/ de salvar-me, ou de

perder-me/ só sei que importa salvar- me.


Fonte: Poetas baianos

Foto: Google

 

 

 

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