1.17.2026

Animais e a Peste - Monteiro Lobato

 

Animais e a Peste

Monteiro Lobato

Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.

- Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.

- Qual? – perguntou o leão.

- O mais carregado de crimes.

O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:

- Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.

A raposa adiantou-se e disse:

- Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.

Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.

Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.

E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.Nisto chega a vez do   burro. Adianta-se o pobre animal e diz:

- A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.

Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:

- Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.

Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimamente eleito para o sacrifício.

 

Moral da Estória:

Aos poderosos, tudo se desculpa…

Aos miseráveis, nada se perdoa.


Foto: Google

A Virtude de Exceder às Expectativas - Robert J. Tamasy

 

A Virtude de Exceder às Expectativas

Por Robert J. Tamasy

 

Frequentemente, em negócios, as pessoas lidam com a tentação de fazer o mínimo possível, satisfazendo as exigências, mas não avançando “um metro a mais” no serviço que prestam a clientes, fornecedores e até mesmo a seus colaboradores. Esta forma de pensar expressa falta de visão, sem mencionar que é egoísta, e não voltada para os interesses dos outros.  

 

Contrariamente a esse tipo de abordagem, tive o prazer de trabalhar com empresas cujo objetivo era o de “exceder às expectativas”. Elas desejavam se certificar de estarem fazendo mais do que haviam sido contratadas para fazer.  Desejavam que a experiência de cada cliente fosse tão memorável que os deixasse ansiosos para fazer negócios com elas novamente. E não apenas isso, mas queriam prestar serviços de maneira tal que tornassem as referências e recomendações de “clientes satisfeitos” virtualmente garantidas.

 

Recentemente minha esposa e eu participamos de um grupo de turismo para diversas partes da Itália durante onze dias. Foi realmente uma daquelas experiências que “superam as expectativas”. Não foi perfeita; alguns hotéis onde estivemos eram melhores que outros. Nosso guia era excepcional; o ônibus no qual viajamos era novo e confortável, e o motorista de primeira classe. Cada parada do nosso tour tinha sido cuidadosamente escolhida para nos proporcionar amplo perfil da vida e cultura italianas.

 

Não sei se esse era o objetivo da agência de turismo, mas o compromisso de exceder as expectativas daqueles que estamos servindo — clientes, fornecedores, colaboradores — reflete a admoestação de Jesus: “Em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam” (Mateus 7:12). 

 

Não há muito tempo, alguns amigos falavam sobre experiências diferentes que tiveram em restaurantes locais. Para um, o pedido da refeição não foi atendido de forma exata e o atendente simplesmente respondeu: “Não sei o que você espera que eu faça a esse respeito.” Uau, isso motivaria você a voltar àquele restaurante?

 

Outro amigo teve experiência diversa. Ele e a esposa comeram num restaurante diversas vezes e o atendente os reconhecesse e lembrasse suas preferências gastronômicas. Esse tipo de serviço excedeu suas expectativas e fez que se tornassem clientes fiéis e frequentes, daqueles que recompensam o bom serviço com generosas gorjetas. 

 

Ao fazer negócios com outras pessoas é fácil tornar-se notável, pelo bem e pelo mal. Se desejamos desenvolver relacionamentos duradouros, “ser notável pelo bem” é sempre a melhor opção, não acha? Em diversos lugares nas Escrituras, como Romanos 13:8, Gálatas 5:14 e Tiago 2:8, vemos a admoestação de que devemos “amar o próximo como a nós mesmos”. Não poderíamos conceber um valor fundamental maior. 

 

Lucrar é importante, assim como permanecer no mercado e desenvolver nossos negócios. Ser perito em nosso ofício é essencial. Mas se amarmos nossos “próximos” como a nós mesmos — clientes, fornecedores e aqueles que trabalham para nós ou conosco — lucros e crescimento certamente virão.  

 

Se minha esposa e eu decidirmos viajar para outro país, pode apostar que vamos nos lembrar da empresa que excedeu nossas expectativas. E esse é um bom estímulo para que eu me esforce para exceder as expectativas de outras pessoas.  

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1. Descreva a última vez que alguém excedeu suas expectativas. O que foi de tão excepcional ou como foi feito para causar uma impressão tão positiva?

2. Por que você acha que é tão difícil encontrar uma empresa dedicada a ultrapassar as expectativas de seus clientes?

3. E você, é mais inclinado a fazer o mínimo possível ou tem o objetivo de não apenas satisfazer as expectativas, mas de ultrapassá-las quando pode?

4. Quais você acha que são os benéficos de longo prazo em manter uma atitude que busca exceder as expectativas? Há alguma desvantagem neste tipo de abordagem empresarial?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 3:27-28; 11:25; 16:7; Mateus 22:34-40; Lucas 6:31; Atos 20:35. 




Foto: Google

1.15.2026

VOVÓ @. COM - Maria Alice Guimarães


VOVÓ @. COM

Raquel de Queiroz me encanta sempre que leio “A arte de ser avó”, que mais parece uma declaração de amor do que uma crônica. Além do manejo perfeito das palavras, não há como desvincular o texto da serena figura da escritora, com aquele jeito de avó. Fofinha, de óculos, sorriso complacente, meiguice e doce cumplicidade. Vovó como mandava o figurino. Como foi a minha e a de tantas vovós de hoje.

Pois é, como tudo mudou com a aceleração da modernidade, as avós mudaram também. Não no mais importante, creio eu, que é no quesito amor maternal elevado à potência dez, mas na forma como esta relação tão especial acontece entre netinhos e vovós nos tempos de @.com.

Mudaram as avós ou mudaram os netos? Inclino-me a afirmar que a mudança maior atingiu as avós. Simples, as mulheres mudaram e isso independe do grau que ocupam na hierarquia familiar. Dos vinte aos oitenta os cosméticos, a academia, o vestuário muda muito pouco. Os hábitos também. Não causaria nenhuma surpresa encontrar a avó curtindo a mesma balada que a neta, visitando a mesmas lojas de jeans, fazendo o maior sucesso nas rodinhas de conversa. Afora as experiências e histórias que compartilham com os jovens sem nenhum constrangimento. Tem ainda a confiança inabalável e o prestígio que uma avó possui com seus netos. Mãe é para educar, reprimir , colocar limites, dizer não, impedir.

Vó não, esta é para defender, dar cobertura às peraltices que mãe não tolera, ouvir segredinhos (e guardá-los), alcançar aquele dinheirinho extra, comprar e dar de presente um tênis de marca que o neto nem precisava, ser cúmplice do namorinho escondido e até permitir que os pombinhos se encontrem na sua casa, sem que os pais desconfiem nem em sonho. E avós modernas têm Orkut, sabem usar o computador, fumam, namoram e dirigem automóvel. São tão arteiras como os netos. Gostam de música, de filmes de ficção científica e adoram comer porcarias, de preferência no schoping. Não que não encarem a cozinha para satisfazer a gula dos marotos. Muitos bolos, chocolates e brigadeiros no melhor estilo abre-embalagens de semi- prontos, melhora a classificação da vovó no ranking e no prestígio familiar. E o que é melhor em tudo isso é que essa vó moderna é fofa também, mesmo não tendo nada de matrona ela dá colo gostoso, abriga na sua cama, faz chá de camomila e curte a dor-de-cotovelo, sempre que essa desgraça acontece com seus netos.

Muitos dizem “minha vó é uma fofa”, querendo dizer querida, amorosa, parceira, macia, gostosa de conviver. Vó é tão especial, que mesmo sendo modernas, joviais e cibernéticas, não se importam nem um pouco em dividir o espaço em sua cômoda, abarrotada de frascos de perfumes e de batons vermelhos, com porta-retratos ostentando aquelas carinhas, que só ela sabe, são o maior e mais descarado amor que uma mulher é capaz de sentir.

 

 Fonte: Pensador

Autoria: Maria Alice Guimarães

Foto: Google

Influência Positiva - Por Jim Langley

 

Influência Positiva

Por Jim Langley

            Anos atrás participei de uma conferência em que o principal palestrante era o Dr. Tim Elmore, autor de best-sellers, orador internacional e presidente fundador da Growing Leaders, organização sem fins lucrativos que auxilia líderes emergentes, acreditando que cada pessoa nasce com qualidades de liderança. Elmore apresentou nove princípios que ele considera fundamentais ao processo de mentoreado, conceitos que todos nós deveríamos considerar quando ajudamos homens e mulheres jovens a crescer na espiritualidade. Ele começou com um acrônimo para explicar o processo: I-N-F-L-U-E-N-C-E (influência em inglês). Gostaria de rever brevemente esses conceitos como ele os apresentou:

Em primeiro lugar, faça um investimento Intencional nas vidas daqueles que Deus coloca sob sua tutela. Precisamos fazer depósitos nessas vidas, assim como o Paulo fez na vida de seu pupilo Timóteo. O CBMC desenvolveu a “Operação Timóteo”, uma excelente ferramenta para promover o crescimento espiritual em outras pessoas. Em 2Timóteo 2:2 Paulo escreveu: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros.”

Depois, devemos ser Naturais e autênticos em nossa abordagem quando nos encontramos com aquelas pessoas que Deus coloca em nosso caminho. Não precisamos impressioná-las com nosso conhecimento bíblico ou realizações seculares. O que elas precisam é sentir nossa disponibilidade para ajudá-las à medida que avançam em sua jornada de vida.

Nossa Fé precisa ser evidente e real.  Devemos não apenas demonstrar nossa fé em Cristo, mas também mostrar fé nas pessoas que estamos mentoreando. Devemos “esperar o melhor” de cada pessoa e crer que Deus certamente trará à tona o melhor quando investimos naqueles que estão seriamente desejando crescer em Cristo.

Devemos desenvolver nossas habilidades para Ouvir (listening, em inglês) para conquistar o direito de falar a outras pessoas. Em certo sentido, homens e mulheres jovens são “alunos” que Deus colocou em nossa vida para que lhes prestemos assistência numa jornada repleta de “perigos, labutas e armadilhas” como expressa o hino Maravilhosa Graça.

Cada pessoa que mentoreamos é única e  devemos procurar Entender  (understand, em inglês) a ela e ao lugar onde sua jornada a trouxe. Deus fez todos nós diferentes e com experiências distintas, e uma aproximação que coloca todos na mesma fôrma pode não funcionar eficientemente.

Elas vão precisar de muito Encorajamento para vencer os obstáculos que podem impedi-las de atingir todo o seu potencial como seguidoras de Jesus Cristo. Hebreus 10:24-25 diz: “...Consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras...procuremos encorajar-nos uns aos outros”.

Também devemos ajudá-las a Navegar em meio às voltas e reviravoltas de suas jornadas, às vezes, servindo-lhes de bússola para guiá-las pela trilha correta e impedir que sejam desviadas por influências incrédulas.

É fundamental demonstrar uma sólida Preocupação (concern, em inglês) com o seu bem-estar. Eles precisam ver e experimentar nosso constante cuidado com seu crescimento em Cristo, mostrando-nos disponíveis quando estiverem lutando com muitas questões, especialmente no início da jornada. Em 1Tessalonicenses 2:7-8,   Paulo escreve sobre serem “bondosos quando estávamos entre vocês, como uma mãe que cuida dos próprios filhos. Sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida.”

Precisam sentir nosso Entusiasmo em tudo o que dizemos e fazemos. Se não podemos nos sentir empolgados pelo nosso relacionamento com Cristo, então provavelmente não estamos preparados de forma apropriada para mentorear um novo seguidor que realmente deseja conhecer Cristo intimamente. O processo de discipulado precisa ser levado com seriedade e entusiasmo.

Questões Para Reflexão ou Discussão 

1. Até este momento, quem foi a pessoa (ou pessoas) que mais influenciou você profissional e espiritualmente? Como exerceram essa influência?

2. Qual dos pontos mencionados sobre como influenciar outros é mais importante para você?

3. Por que você acha que “ouvir” é citado como um aspecto importante para influenciar efetivamente outras pessoas?

4. Cuidado e preocupação são mencionados como elementos fundamentais do processo de influenciar pessoas no relacionamento de mentoreado. Eles não possuem conhecimento e perícia suficientes?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Mateus 28:18-19; Efésios 4:14-16; Colossenses 1:9-12; 2Tessalonicenses 1:3-4; 2Pedro 3:17-18.

Medite: “Pais que Levam seus Filhos à Igreja, Dificilmente vão Buscá-los na Cadeia”


Fonte: Revista Americana Adventista

Foto: Google


1.14.2026

Tempo: Amigo ou Inimigo? - Por Robert J. Tamasy

Tempo: Amigo ou Inimigo?
Robert J. Tamasy

No mundo empresarial e profissional, bem como em outras áreas da vida, o tempo tem um quê de paradoxo. Quando enfrentamos um prazo final inflexível, o tempo parece se mover com incrível rapidez, fazendo subir nosso nível de estresse. Porém, quando estamos esperando ansiosamente por uma importante decisão, talvez uma promoção ou a resposta de um cliente potencial sobre a assinatura ou não de um contrato, o compasso do tempo parece diminuir significativamente.

Durante recente viagem à Itália, observei o que ocorre em grande parte da Europa. Os negócios, inclusive o varejo e restaurantes, geralmente fecham logo depois do horário do almoço, permitindo que as pessoas descansem e se revigorem. É comum que pessoas tirem diversas semanas, até mesmo um mês, de férias durante os meses de verão.

Americanos, em contrapartida, parecem escravizados pelo tempo. Relutam em tirar férias, com medo que um concorrente conquiste alguma vantagem ou, talvez, seu líder encontre outro para ocupar sua posição enquanto estiver fora. Trabalhadores engolem o almoço na mesa de trabalho, temendo atrasar as demandas de seu emprego.

Semanas atrás passei por nova cirurgia, que me apresentou perspectiva diferente a respeito do tempo. Feita para substituir uma válvula da aorta, foi realizada por um procedimento menos invasivo que a cirurgia de tórax aberto há 12 anos. Assim, a recuperação foi muito mais fácil e rápida, mas a seriedade da operação ajudou a colocar as coisas em perspectiva.

Do ponto de vista do trabalho, a atividade que desempenho, embora acredite que seja importante, poderia facilmente ser feita por outra pessoa, caso eu não estivesse mais apto a desenvolvê-la. Algumas das coisas que faço eu simplesmente poderia não fazer mais e pronto. Mas do ponto de vista dos relacionamentos que mantenho, com minha esposa, filhos, netos, amigos e com aqueles com quem me encontro para mentoreado, é onde minha ausência seria mais sentida.

A questão é: daqui para a frente, onde meu tempo será melhor investido? Não querendo dizer que eu deveria deixar de fazer o trabalho que aprecio e sinto que fui vocacionado para fazer, mas não às custas do tempo que eu deveria estar passando com as pessoas importantes da minha vida.

A Bíblia nos adverte a “remir o tempo, porquanto os dias são maus” (Efésios 5:16). Isso não quer dizer que o tempo seja inerentemente mau, mas a passagem do tempo continua inexorável, quer tentemos usá-lo com inteligência ou não. Recordo das aulas sobre gerenciamento do tempo a que assisti anos atrás. Na verdade, “gerenciamento do tempo” é uma designação errônea, já que não podemos gerenciá-lo. Não podemos colocá-lo em um cofre ou unidade de armazenamento para uso futuro. Não se trata de mercadoria que podemos preservar; só o que podemos é decidir utilizá-lo o mais eficiente e significativamente possível.

Outra passagem bíblica sobre o tempo, Eclesiastes 3:1-18, apresenta a seguinte perspectiva: “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu.” Para mim, isso significa que há tempo para focar minha atenção e energia para atender prazos fatais críticos, mas que também há tempo para estar com minha família, praticar passatempos preferidos, ou simplesmente procurar me restaurar física, mental e espiritualmente. Como alguém disse, é pouco provável que em seu leito de morte alguém tenha expressado seu arrependimento: “Eu gostaria de ter passado mais tempo no trabalho.”

Questões Para Reflexão ou Discussão  

1. Você acha que o tempo passa velozmente algumas vezes, e outras parece se arrastar? Por que isso acontece?

2. Você já tinha pensado na ironia de se estudar “gerenciamento do tempo”, quando ele não pode ser administrado ou controlado?

3. Onde você falha em termos de filosofia do tempo? Você aproveita e folga no trabalho quando tem oportunidade, descansando e se revigorando? Ou você encara o tempo como um inimigo, determinado a realizar o máximo de trabalho e atividade em cada minuto que passa acordado? Em qualquer dos casos, o que o motiva?

4. Como – se é que poderia – você faria para “remir o tempo” mais eficazmente?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 23:4-5; Eclesiastes 3:1-18; Gálatas 6:10; Colossenses 4:5-6.

Medite: “Pais que Levam seus Filhos à Igreja, Dificilmente vão Buscá-los na Cadeia”


Foto: Google

Fonte: Arquivo

 

 

 

 

 

 

Procura-se - Ademilton Batista

 

⁠⁠“Procura-se

A Alma perdida do Ser Humano,

Enquanto Ele ainda é Humano!

Nela, permite-se introduzir a “Poesia” com todas as belezas e encantamentos que ela possui

e um sentido.

De então,

retornar ao Humano que restou, dando-lhe um pouco de alegria ao Ser. "Ademilton Batista


Autor: Ademilton Batista
Fonte: Pensador
Foto: Google

1.13.2026

To be or not to be (resumo) - Machado de Assis


To be or not to be

Machado de Assis 

O conto foi publicado pela primeira vez no ano de 1876, em cinco partes, no Jornal das Famílias. A narrativa gira em torno de André Soares, um homem de 27 anos que está destabilizado e frustrado com a sua carreira. Quando perde uma promoção no trabalho que desejava há muito tempo, o protagonista toma uma decisão drástica: terminar com a própria vida.

No entanto, quando pega uma barca na intenção de se jogar no mar, ele conhece Cláudia, uma mulher por quem se apaixona e que altera subitamente o seu destino.

Tinha um cartão de barca na algibeira; dirigiu-se para a ponte das barcas de Niterói. Mais de um olhou para ele; ninguém podia ter idéia de que ali estava um homem em véspera de morrer. Aproximou-se a barca, entraram os passageiros, e com eles André Soares, que foi sentar-se primeiro num dos bancos interiores, à espera que a barca chegasse ao meio da baía; então procuraria a popa ou a proa e atirar-se-ia ao mar. A barca seguiu caminho; os passageiros conhecidos conversavam, os desconhecidos aborreciam-se, e neste número incluo André Soares (compreende-se) e uma moça que lhe ficava a dois palmos de distância no mesmo banco.

  

Autoria: Machado de Assis

Fonte: Pensador

Foto: Google


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TO BE OR NOT TO BE 

(SHAKESPEARE) 

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso

É mais nobre a cerviz curvar aos golpes

Da ultrajosa fortuna, ou há lutando

Extenso mar vencer de acervos males?

Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,

Que as angústias extingue e á carne a herança

Da nossa dor eternamente acaba,

Sim, cabe ao homem suspirar por ele.

Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!

Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,

Quando o lodo mortal despído houvermos,

Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.

Essa a razão que os lutuosos dias

Alonga do infortúnio. Quem do tempo

Sofrer quisera ultrajes e castigos,

 

Injúrias da opressão, baldões do orgulho,

Do mal prezado amor choradas máguas,

Das leis a inércia, dos mandões a afronta,

E o vão desdém que de rasteiras almas

O paciente mérito recebe,

Quem, se na ponta da despida lamina

Lhe acenara o descanso? Quem ao peso

De uma vida de enfados e misérias

Quereria gemer, se não sentira

Terror de alguma não sabida coisa

Que aguarda o homem para lá da morte,

Esse eterno país misterioso

D’onde um viajou sequer já regressado?

Este só pensamento enleia o homem;

Este nos leva a suportar as dores

Já sabidas de nós, em vez de abrirmos

Caminho aos males que o futuro esconde,

E a todos acovarda a consciência.

Assim da reflexão á luz mortiça

A viva cor da decisão desmaia;

E o firme, essencial cometimento,

Que esta ideia abalou, desvia o curso,

Perde-se, até de ação perder o nome.


1.12.2026

Esopo - Biografia


Esopo, biografia

Esopo (séc. VI a.C) foi um fabulista grego que entrou para a história como o primeiro criador de fábulas e é considerado o maior e mais famoso representante deste estilo literário.

A palavra latina “fábula” deriva do verbo fabulare (“conversar”, “narrar”), o que mostra que a fábula tem sua origem na tradição oral. A propósito, é da palavra latina “fábula” que surgiu o substantivo português “fala” e o verbo “falar”.

De acordo com uma biografia egípcia do século I a.C., é provável que Esopo tenha nascido em Trácia, onde atualmente se localiza a Turquia. Foi vendido como escravo em Samos para um filósofo, que posteriormente lhe concedeu a alforria.

Plutarco ou Lúcio Méstrio Plutarco (historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo médio platônico grego), afirmou que Esopo foi conselheiro de Creso, o ultimo rei da Lídia (atual região da Turquia e Uşak), e que costumava lhe contar histórias sobre animais com teor moral.

Suas viagens por lugares diferentes como Oriente Médio, Egito e Babilônia, enriqueceram e corroboraram com suas histórias. Assim, Esopo, teria angariado uma série de pequenas histórias, protagonizadas por animais que vivenciavam situações tipicas do dia-a-dia dos seres humanos, mas carregadas de moralidade.

“A Lebre e a Tartaruga”

Demétrio de Falero, orador da Grécia Antiga, redigiu em prosa no século IV a.C., a primeira coletânea das fábulas de Esopo. No século I da era cristã, Fedro, um escravo liberto, escreveu em latim diversos livros de fábulas que imitavam as fábulas de Esopo e se tornaram igualmente célebres.

A coleção de Esopo era lida no século V em Atenas, uma das épocas de maior efervescência cultural grega. Seus escritos faziam parte da tradição oral, assim como as obras de Homero, por isso, só foram reunidas e escritas depois de 200 anos.

Maximus Planudes, um monge bizantino e humanista do século XIV, revisou as fábulas, que até então, eram atribuídas a monges bizantinos por conta da similaridade moral entre as historias e os evangelhos bíblicos.

Esopo inspirou muitos poetas medievais, que fizeram usos de suas fábulas, elas também influenciaram Jean de La Fontaine (1621 – 1695), escritor e fabulista francês.

E torno de sua morte surgiram várias lendas, uma delas diz que ele faleceu em Delfos, lançado de um precipício sob a acusação de sacrilégio.

Algumas frases famosas de Esopo

Nenhum gesto de amizade, por muito insignificante que seja, é desperdiçado.

O amor constrói, a violência arruína.

Quem tudo quer, tudo perde.

Unidos venceremos. Divididos, cairemos.

Um pedaço de pão comido em paz é melhor do que um banquete comido com ansiedade.

Não se deve contar com o ovo quando ele está dentro da Galinha.

Fábulas famosas atribuídas a Esopo

A raposa e as uvas

A lebre e a tartaruga

O lobo e o cordeiro

A formiga e o escaravelho

O asno e a carga de sal

O lobo e a ovelha

O cervo e o leão

O cão e a sombra

O lobo e o cão

O cervo, o lobo e a ovelha

O lobo e a cegonha

A andorinha e as outras aves

A raposa e o corvo

O leão, a vaca, a cabra e a ovelha

O leão e o rato

O asno e o leão

A rã e o touro

O cavalo e o leão

A porca e o lobo

A raposa e o leão

O rato e a rã

O galo e a raposa

O cão e a ovelha

A raposa e o corvo

As lebres e as rãs

A porca e a loba

O lobo e o cabrito

O cão e a sombra

O leão e o rato

A gralha e os pavões

Assista a adaptação audiovisual da fábula “A Lebre e a Tartaruga” produzida e publicada pelo canal Turma Mirim


Fontes:

https://www.infoescola.com/generos-literarios/fabula/

https://www.infoescola.com/biografias/esopo/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Esopo

https://www.culturagenial.com/fabulas-de-esopo/

https://www.ebiografia.com/esopo/

A última crônica - Fernando Sabino

 

A última crônica

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

    O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.


Autoria: Fernando Sabino
Fonte: Pensador
Foto: Google

1.11.2026

Tabacaria - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

 

Tabacaria


O poema do heterônimo Álvaro de Campos, com o famoso verso: tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



Autoria: Álvaro Campos (Fernando Pessoa)

Foto: Google

 

 

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