To be or not to be
Machado de Assis
O conto foi publicado pela primeira vez no ano de 1876, em cinco partes, no Jornal das Famílias. A narrativa gira em torno de André Soares, um homem de 27 anos que está destabilizado e frustrado com a sua carreira. Quando perde uma promoção no trabalho que desejava há muito tempo, o protagonista toma uma decisão drástica: terminar com a própria vida.
No entanto, quando pega uma barca na intenção de se jogar no mar, ele conhece Cláudia, uma mulher por quem se apaixona e que altera subitamente o seu destino.
Tinha um cartão de barca na algibeira; dirigiu-se para a ponte das barcas de Niterói. Mais de um olhou para ele; ninguém podia ter idéia de que ali estava um homem em véspera de morrer. Aproximou-se a barca, entraram os passageiros, e com eles André Soares, que foi sentar-se primeiro num dos bancos interiores, à espera que a barca chegasse ao meio da baía; então procuraria a popa ou a proa e atirar-se-ia ao mar. A barca seguiu caminho; os passageiros conhecidos conversavam, os desconhecidos aborreciam-se, e neste número incluo André Soares (compreende-se) e uma moça que lhe ficava a dois palmos de distância no mesmo banco.
Autoria: Machado de Assis
Fonte: Pensador
Foto: Google
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TO BE OR NOT TO BE
(SHAKESPEARE)
Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou há lutando
Extenso mar vencer de acervos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e á carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despído houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas máguas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lamina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida coisa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
D’onde um viajou sequer já regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão á luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.


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