11.13.2025

Carta para Pedro - R. Santana

 

Carta para Pedro
Itabuna, 01 de maio de 2011.

Carta para Pedro
Estimado afilhado:

Quero lhe parabenizar pelo título de doutor que lhe foi conferido, o mês passado, aí na terra do Tio Sam. Nunca duvidei de sua competência e que chegaria tão longe, todavia, você não me deve nenhum preito de gratidão, mas à mulher que lhe pariu e propiciou o seu primeiro título de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e nos deixou antes do combinado.
Lembro-me de sua luta, de sua preocupação, de suas noites perdidas, debruçada na máquina de costura para que não lhe faltasse o lápis, a caneta, o caderno, o livro e algum dinheirinho para fazer jus às suas necessidades de rapaz. Lembro-me de suas recomendações: “.... Professor, ajude-me na educação deste menino...” Lembro-me, também, de sua alegria na investidura da promotoria e da vida digna que lhe proporcionou até quando Deus lhe deu vida.
Mas caro afilhado, quero lhe agradecer pelos comentários que fez no ensaio que elaborei com o título: “O homem nasce para ser feliz?...”, os seus comentários, além dos subsídios teóricos que você me propõe, os seus comentários soergueram a minha auto-estima, é que o enviei para vários filósofos, pessoas doutas, faculdades de filosofia e universidades e deram-me boca calada como resposta. Ainda pensei parodiar o nosso ex-presidente FHC e dizer-lhes que “esquecessem o que escrevi“, não o fiz para não passar por um desdém ainda maior dessa gente sabichona.
Não quis imitar Santo Tomás de Aquino – a história dos motores e dos movimentos -, explico a existência de Deus e das coisas que ocorrem no mundo com o capítulo: “O mundo das possibilidades” e dou um desfecho filosófico, metafísico, quando explico a natureza de Deus.
Porém, querido afilhado, esse ensaio não tem por princípio fazer coro ao ateísmo ou negar a existência do Ser dos seres a exemplo de Nietzsche e doutros filósofos de semelhante estatura moral e intelectual, mas evitar o estigma de “Deus permitiu” de tudo de ruim que ocorre com o homem e a natureza, além de excluir resquícios deterministas e coloca no lugar certo a teoria do livre- arbítrio.
Antes que me traia a memória, quero lhe parabenizar mais uma vez e sua consorte Kamile pela notícia de mais um herdeiro que se aproxima. Para mim que sou um bocó, um jeca nordestino com mania de mexer com as palavras, nunca viajei o país e não tive recursos nem condições para conhecer o mundo lá fora, ter um filho é mais importante do que ser doutor porque o título morre com o indivíduo e o filho é a continuação da vida.
Pedro, num dos trechos de sua carta você se preocupa com a minha fé, acho que em decorrência da minha proposta teórica no ensaio “O homem nasce para ser feliz?...”, quero lhe dizer que o pensador se estriba na razão e o homem no coração. O homem tem que se alimentar da fé e a simbologia a materializa, por isto, eu nasci, cresci e irei morrer Católico.
Jamais me afastarei dessa denominação religiosa, dentre outros motivos, compartilho com outros leigos que é a única igreja fundada por Jesus Cristo, é um fato histórico inconteste, afora não existir outro líder religioso de mais autoridade na História, portanto, sou cristão por convicção, compreendo os seus defeitos quando me lembro que a igreja é santa e pecadora.
Todavia, não poderia lhe dizer a mesma coisa sobre a minha prática religiosa. Ultimamente, com a mudança do padre, tenho sido arredio na freqüência da minha igreja, como você sabe, não sou nenhum beato, nenhum papa-hóstia, não participo de grupo, no entanto, eu sou um católico que não falto às missas de finais de semana e as assisto pela televisão quase todos os dias. Porém, as missas na igreja, as missas presenciais, têm o seu lugar na prática do cristão.
A missa televisiva, a missa à distância, não lhe proporciona bate-papo com os amigos, não lhe proporciona um encontro inesperado, não lhe proporciona tomar um copo de mingau na praça da igreja ou tomar um cafezinho no bar da esquina, para os mais jovens, a missa à distância, não proporciona a participação dos folguedos das festas religiosas ou namoriscar com moças bonitas!...
Você é discreto, econômico em palavras e atos, não me irá perguntar se a transferência de um padre é motivo suficiente para alguém deixar de freqüentar, normalmente, a igreja que não é do padre, mas da comunidade. Se me perguntasse, eu diria que não foi esse o motivo, não obstante manifestar, publicamente, a minha solidariedade ao religioso transferido pela injustiça que lhe foi feita.
Às vezes, acho que está em mim o problema, com a idade, nos tornamos mais exigentes, não ficamos satisfeitos com algumas práticas ultrapassadas, alguns discursos sem significado subsidiando os Evangelhos, de padres que não avançaram no tempo, padres que não falam a linguagem do povo, padres que não conhecem os problemas de sua comunidade e ainda usam o “pecado” como principal instrumento de evangelização e conversão.
Estimado afilhado, eu soube que o novo padre é intelectual, é preparado, embora, numa de suas práticas, ele falou que “a igreja não precisa de intelectuais, mas de homens de fé”. Pensei que não o tivesse entendido ou ouvido bem sua fala, mas, ele repetiu a frase e a justificou. Se me fosse dado alguma intimidade com o nosso líder religioso, teria lhe dito: “Padre, Jesus Cristo fundou sua igreja e escolheu Saulo (São Paulo), versado nas Leis dos judeus, intelectual brilhante, para consolidá-la”. Caro Pedro, será que o homem não leu São Tomás de Aquino, D. Helder Câmara, Alberto Magno, Santo Antônio de Lisboa, Tereza de Ávila, dentre outros doutores da igreja?...
Pedro, mais uma vez, peço-lhe que perdoe a minha prolixidade, permita-me ir até o fim desta carta e justificar o meu afastamento parcial da minha paróquia, é que não lhe falei ainda do bafafá que causou o meu texto solidário ao padre que foi desterrado de mala e cuia para ser subalterno doutro padre, numa igrejinha distante, onde congregam duas dúzias de beatas, uns minguados homens e mulheres de boa fé, o coroinha, os remanescentes da “Passarela do Álcool” e um cachorro vira-lata que, diuturnamente, faz a sentinela da porta.
“Pois é”, como diz o tabaréu, assim que o padre se foi o novo padre me “intimou”, de riso na boca, ele deu-me uma admoestação com respingos de ameaça de processo. O homem estava uma fera, mas os detalhes ficarão para o seu retorno à velha pátria de palmeiras e sabiá, onde as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, conforme o nosso poeta Gonçalves Dias.
Já lhe disse, não sei quando, que a idade traz rugas e reflexões, nos tornamos mais seletivo, mais ranzinza, mais cioso do tempo, mais exigente, menos tolerante, por isto, eu tenho evitado, ultimamente, de ir com freqüência à igreja, não tenho mais paciência para suportar homilia repetitiva (lembro-me do meu avô para afirmar alguma coisa por demais conhecida: “... é igual missa de padre...”), ou didática, Cristo, pouco usou dos conhecimentos dos seus antepassados em seus ensinamentos. Ele usou e abusou de parábolas simples, mas cheias de significado para explicar sua doutrina.
Pedro, o nosso padre parece um bom homem, digo-lhe “parece”, pois me lembrei mais uma vez dos ditos do meu avô João Zabelinha: “Meu neto, desconfie de homem do riso frouxo e de mulher casada que anda sempre de cara fechada...”, o homem tem o riso frouxo... Não sei se o dito do velho ainda serve para os dias de hoje, porém, é bom ficar com o pé atrás e dar curso ao tempo...
Apesar dele ser um homem culto, suas prédicas são prolixas, confusas, maçantes, enfadonhas e de incoerência lógica. Ele não tem um pensamento uniforme, coerente, o seu discurso começa em Gênesis vai para Mateus passa por Êxodo e desembarca nas cartas de São Paulo, sem encadeamento das idéias, apenas, um desbunde de conhecimentos decorados, um xarope!...
Não me lembro da data, mas lembro-me que foi numa Quinta-Feira, na missa das 19:00 horas, quando um irmão de fé me cutucou: “Amigo, eu não entendo muitas palavras que este padre fala, o senhor sabe o que é “escatológico” e “exegético” ?...” Assim é o novo padre, além de não ter um pensamento lógico, vomita um rol de palavras difíceis que a pessoa comum ignora, o pior, é que ainda tira uma de mestre-escola e as começa definir buscando a origem do grego ou do latim, é ridículo...
Meu caro afilhado, a minha fé continua no mesmo lugar, a minha crise não é com a instituição, mas com pessoas e métodos, e, bom cristão que sou, espero dentro de poucos dias, jogar esses ressentimentos fora e voltar à rotina.
Enfim, dê um beijo em Cauã, Kamile... Aqui, das terras do cacau, ficarei rogando aos céus que o menino que se encontra a caminho, nasça com saúde e paz!...

Do seu padrinho,
R. Santana

Gênero: carta
Autor: Rilvan Batista de Santana






Compromisso - R. Santana

 

Compromisso
Compromisso
R. Santana


Do alto dos seus 83 anos de vida bem vivida, tio Pedro, diz que o homem não é obrigado assumir nenhum compromisso, porém, uma vez assumido, tem o dever de cumpri-lo, pois se ele for useiro e vezeiro em negligenciá-lo, chegará um momento, que sua palavra não valerá um tostão de mel coado.
A tradição popular diz que longe é o tempo que o homem não assinava nota promissória, nem cheque, nem duplicata, nem escritura, mas um fio de bigode e a palavra selavam qualquer compromisso moral, financeiro e material. Hoje, se a assinatura não é cumprida, a palavra menos ainda, por isto, foram criados instrumentos de proteção ao crédito e identificação do indivíduo e empresa (CERASA, SPC, CPF, CNPJ, SNPC), além doutros registros que permeiam as relações do grupo, da comunidade e da sociedade, mesmo assim, os velhacos se multiplicam...
O baiano Rui Barbosa foi profeta e feliz no seu pensamento quando disse: “De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, desanimar-se de justiça e ter vergonha de ser honesto”. É engraçado quando os políticos jactam-se de sua honestidade, de honrar sempre os seus compromissos, como se a honestidade deixasse de ser uma obrigação, mas uma qualidade extraordinária, uma virtude de poucos.
A falta de compromisso de certas profissões é nociva, às vezes, fatal. Quantas pessoas morrem nos hospitais por negligência profissional de médicos e enfermeiros? Quantos sinistros naturais poderiam ser evitados se os responsáveis pela atividade pública fossem comprometidos? Quantas mortes no trânsito seriam evitadas se os motoristas fossem comprometidos com as regras de trânsito? Quantos desvios de comportamento de crianças, jovens e adolescentes seriam evitados se os profissionais da educação fossem mais comprometidos? Eis alguns exemplos, dentre muitos, que a falta de compromisso pode acarretar.
O compromisso deixou de ser imediato para ser mediato. Hoje, qualquer jovem ou adulto, desde cedo, tem consciência que se não tiver compromisso com sua qualificação profissional, será rejeitado no mercado de trabalho. Atualmente, não basta a qualquer profissional ter formação intelectual ou prática, é necessário que ele tenha em mente a necessidade (compromisso) de se recapacitar, sempre, enquanto estiver na ativa.
Os compromissos afetivos e sociais são de somenos importância, uma boa justificativa recompõe a confiança entre as partes. Quem ainda não deixou a namorada ou o namorado na praça a ver navio? Qual o convidado que não faltou a uma festa de um amigo, feito o compromisso? Qual o estudante que não foi vítima de professor irresponsável? Qual a entidade filantrópica que não tem problema de frequência com seus membros?... Todavia, se o sujeito acostuma-se tratar e não cumprir, pouco a pouco, sua credibilidade irá para o beleleu porque quem não é honesto no pouco não é honesto no muito, é o que diz a sabedoria popular.
Os princípios éticos, morais, bom senso, todos se jactam de tê-los, no entanto, alguns preferem negligenciá-los, quase sempre, a falta de caráter acontece com aqueles em que a vergonha é moeda rara. O homem de princípios morais arraigados, de conduta ilibada, não foge aos seus compromissos mesmo que surja um contratempo em sua vida, o homem de vergonha mesmo diante do imprevisto, de um infortúnio, ele esgota todas as possibilidades até cumprir o seu dever.
Hoje, alguém dá um “chapéu”, enganar, faltar ao compromisso, corromper e usar o “jeitinho brasileiro”, a “Lei de Gérson”, é não ser trouxa, é esperteza, é regra geral, é sabedoria, é maioria; porém, cumprir o compromisso, ser honesto e não querer levar vantagem, é ser bobão, é ser ultrapassado, é ser trouxa, é ser Mané, é minoria!...

Autor: Rilvan Batista de Santana - Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Itabuna, 04 de julho de 2011.




ESCOLA PÚBLICA - R. Santana

 

ESCOLA PÚBLICA
ESCOLA PÚBLICA
R. Santana


Estamos, praticamente, no início do ano letivo de 2006. As escolas particulares, geralmente, começam suas atividades no meado de fevereiro, enquanto as escolas públicas iniciam de fato, sem embromação e o famoso “faz-de-conta que o professor ensina e o aluno aprende”, depois do carnaval oficial, acrescido a priori, de datas agendadas para abril ou maio de algum movimento paredista (em nosso estado virou praxe, em parte pelo descaso das políticas de valorização salarial do trabalhador do ensino: em parte, pela falta de compromisso de alguns profissionais que já começam o ano letivo com atestados médicos ou outros estratagemas menos oficiais), com interstícios no calendário de março de algumas datas prefixadas de paradas estratégicas, de alerta às autoridades educacionais e à comunidade.
Alguém já disse que o professor em nosso país está no final da “linha de produção”, não pelo fato dele não produzir, mas pelo fato do estigma histórico, herdado dos jesuítas, que o magistério é um sacerdócio, que o normal é o sacrifício pessoal do trabalhador em educação e da sua família, para manter a imagem poética de um abnegado... Claro que no Século XXI, com uma sociedade capitalista, consumista, essa imagem de eterno injustiçado não poderá subsistir por muito tempo. Por isso, esse confronto perene de gestores do governo e trabalhadores em educação só irá terminar quando a sociedade e os governantes priorizarem a educação em todos os níveis de ensino. Começando com a implantação de mecanismos de produtividade e estímulos, passando parte desse serviço para a iniciativa privada com instrumentos de fiscalização e cobrança regidas por uma legislação moderna e desburocratizada que impedisse qualquer arapuca (atualmente, o número de escolas particulares e de cursos, crescem mais do que a capacidade do governo em fiscalizá-los), de se credenciar ao MEC. Hoje, o sistema educacional privado se caracteriza pela visão empresarial distorcida do lucro desonesto e sem compromisso institucional, para justificar, lembraria o caso divulgado pela mídia nacional de um analfabeto funcional (um pedreiro) ter feito vestibular em uma “conceituada” universidade do rio de Janeiro e ter sido aprovado.

De vez em quando surgem paradigmas, métodos e idéias salvadoras para solucionar o problema da educação, consequentemente, da aprendizagem, do cognitivo: Escola Nova, Escola Grapiúna, Escola Paulo Freire, Escola Piagetiana, Escola de Vygotsky. Ultimamente, um senhor judeu, chamado Reuven Feuerstein, que criou uma teoria metodológica (Programa de Enriquecimento Instrumental-PEI), para recuperação da aprendizagem das vítimas II Guerra Mundial, invadiu o mercado brasileiro e empurrou goela adentro do governo baiano esses instrumentos de aprendizagem, com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos alunos da rede estadual (um programa de 10 anos de custo financeiro elevado e controle editorial triplicado), esse programa se salva não pelo fato de ter aumentado a capacidade cognitiva dos nossos alunos, mas por aumentar a carga horária e o salário de muitos profissionais do ensino, principalmente, os excedentes. Senão, seria mais um dinheiro jogado no ralo do desperdício público.
Entretanto, é necessário que citemos bons exemplos pedagógicos. Em nossas escolas públicas, funciona um instrumento que se não tivesse sido tão descaracterizado em seu objetivo inicial, seria um grande mecanismo de justiça pedagógica e administrativa, chamado: Conselho de Classe. Caro leitor (que ainda não fechou a página o link), o Conselho de Classe é um colegiado constituído de professores, coordenadores, representante da direção e, quando a escola tem uma linha mais democrática , um representante de classe, cujo objetivo é a promoção do aluno (o Conselho não reprova), ou a sua manutenção na série por baixo rendimento de aprendizagem – além da falta de aprendizagem, eram acrescidas análises de condutas inadequadas do aluno .
Esse Colegiado também funciona no final de cada Unidade letiva, para uma avaliação parcial da aprendizagem e a pontuação dos problemas daquela Unidade, sem caráter progressivo.
O Conselho de Classe surgiu com o advento da Lei nº. 5.692 /71, no bojo das preocupações das autoridades educacionais dessa época, em adequar o nosso sistema educacional (tradicional, acadêmico e inútil no dia-a-dia), ao sistema educacional dos norte-americanos, que priorizavam um ensino técnico e profissionalizante, para atender às necessidades de um mercado florescente de novas tecnologias e indústrias mais automatizadas.
A preocupação inicial, quando o Conselho foi implantado, que ele fosse um instrumento de avaliação qualitativa, isto é, analisando o aluno em suas potencialidades e em sua conduta. Não o olhava mais pelo viés da aprendizagem decorada e sem significado... Além disso, o Conselho teria a função de corrigir as injustiças praticadas por alguns chefes de disciplina travestidos de professor. Era comum o aluno ser reprovado por décimos de ponto, pela autoridade autoritária e inquestionável do professor. O Conselho de Classe chegou e fracionou essa autoridade, tornando o processo de avaliação da aprendizagem e do comportamento do aluno uma responsabilidade de todos os profissionais envolvidos no seu processo educacional.
A Lei nº.9.394/6l, no seu Art. 12, ratifica e embasa juridicamente a independência pedagógica e administrativa (não financeira, as escolas públicas não têm receitas próprias, recebem os recursos financeiros dos governos), das unidades escolares quando afirma: “prover os meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento ou, articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola“.
Como tudo na vida, o Conselho de Classe envelheceu, hoje, não possui as mesmas prerrogativas iniciais, foi desvirtuado, acrescido de novos elementos ao sabor dos coordenadores e do diretor de plantão e, principalmente, pelo comodismo e falta de compromisso da maioria docente. Seria necessário que o Conselho fosse reestruturado e conscientizado na comunidade discente e docente. Sem casuísmo e ingerência tendenciosa de coordenador, diretor (salvo, em casos estribados em suporte jurídico), e acima de tudo, seria necessário que o professor como agente de transformação se compenetrasse das suas responsabilidades e do seu papel de educador e usasse do se bom senso (Descartes afirmava que todos jactam-se em tê-lo) nas mais imprevisíveis decisões de avaliação.
Enfim, queremos fechar esta matéria com a pretensão de levar ao conhecimento dos leitores que o problema da educação em nosso país é sério e como tal deve ser encarado. Não existe fórmula milagrosa. A sociedade e o governo têm de se compenetrar que para ter mudança, é necessário que os programas públicos educacionais sejam cumpridos, o profissional do ensino estimulado e exigido. Não se pode fazer do magistério um “bico” e entulhá-lo de profissionais despreparados e desmotivados. Acabar com a preocupação estatística de demonstrar o que não existe, para o mundo e os organismos financeiros internacionais, com o objetivo de abocanhar financiamentos para projetos sem operacionalidade prática e que só servem para entulhar de papéis as mesas de técnicos e burocratas do governo e proceder como procederam os países asiáticos, que a educação dos seus povos é a principal função do estado e a pasta governamental de mais investimentos. E, não continuar com uma educação de povos culturalmente e socialmente subdesenvolvidos.

Post Scriptum:
Opinião de um educador
Escrito há três anos, mas continua atual em 2009.
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 26/07/2012
Alterado em 03/08/2012

Democracia, herança grega - R. Santana

 

Democracia, herança grega
Democracia, herança grega
R. Santana


A Grécia é o berço da democracia. Sócrates foi condenado beber cicuta por decisão de maioria simples de um tribunal de Atenas. Alexandre, o Grande, da Macedônia, usou ações democráticas para apaziguar os ânimos dos povos conquistados e manter sua hegemonia.
Hitler formou o Eixo (Itália, Espanha e Japão...), e os Aliados (Estados Unidos, Inglaterra, Rússia...), formaram outra frente bélica. Houve muitos conchavos, muitas “ações democráticas”, muita diplomacia, muitas ações de bastidores, muitas futricas para que a II Guerra Mundial levasse seis longos anos, ceifando vidas inocentes, promovendo holocaustos, barbarizando, destruindo a autodeterminação de alguns povos, toda essa carnificina em nome da liberdade e da democracia.
Depois da II Guerra Mundial, é a ONU que resolve os conflitos entre as nações através do voto, da democracia, da diplomacia e quando em vez, através da bala, dos aviões com toneladas de bomba, enfim, com a mesma tirania de Hitler, Mussolini, Stálin e o presidente Roosevelt. Por decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas que justifica os cinco votos permanentes (Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e República Popular da China), comete crimes contra humanidade, empunhando a bandeira da democracia e da paz.
Porém, o exercício da democracia é difícil, principalmente em um colegiado, onde prevalece a vontade do mais astuto, do mais sagaz, do mais loquaz, às vezes, dos sub-grupos mais influentes e sectários ou daqueles que jactam-se de ter mais estofo democrático e prestígio intelectuais.
O jeca que não tem o uso fácil da palavra, não possui inteligência social, não se livrou do complexo de inferioridade e ainda não dominou sua inteligência emocional, suas ideias são engolidas facilmente, pelos doutos da palavra, pelos que não têm resquícios de generosidade e o egoísmo é o seu bem maior. Neste ambiente, o exercício da democracia é a sedução da retórica.
Existe indivíduo que perturba o ambiente democrático pelo gosto de perturbar, se alguém apresenta uma boa ideia, ele sempre é contra, mesmo que a maioria absoluta seja favorável, ele é contra e faz questão de registrar que é contra, é o chato radical!... Ele não contribui com novas ideias, não analisa as contribuições dos seus pares, ele só é consenso se sua vontade prevalece. Esse indivíduo usa intencionalmente, a boa fé daqueles que pensam como Voltaire: "Eu posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las”, ele tem consciência que talvez não seja “ouvido”, mas jamais lhe será cerceado o direito de “falar.” Esse indivíduo causa prejuízos irreparáveis em qualquer assembleia.
Existe, também, o autoritário travestido de democrata, o lobo com pele de cordeiro, esse indivíduo manipula com facilidade as mentes incautas, ele usa sofismas, aparentemente verdadeiros e a falsa persuasão: “Se for da vontade dos colegas...”, “Eu penso assim, mas não é obrigado todos pensarem comigo”, “Se o colega X é favorável, eu também sou...”, etc. etc.
Porém, o exercício democrático poderá ser aperfeiçoado, adaptado, jamais desprezado ou substituído. Em nenhum lugar o autoritarismo é a solução para os problemas humanos. Centralizar as decisões de uma entidade ou de um governo em uma pessoa ou em um grupo é contrariar a natureza do homem.
O livre arbítrio, a capacidade de escolha, poder optar por uma, duas, ou mais alternativas, faz bem à mente de qualquer indivíduo, todos nós gostamos da capacidade de escolha e quando esse exercício de democracia é cerceado, o homem se insurge à situação opressora com forças primitivas, instintivas e irracionais, ele é capaz de romper qualquer sistema, a execução de Muammar Khadafi pelos rebeldes, é um exemplo recente, o povo Líbio depois de décadas de opressão rompeu com o seu governo, uma turba incontrolável de rebeldes, em nome da democracia e da liberdade, cometeu barbárie tão execrável quanto o governo do repugnante coronel Khadafi.
Mas a democracia é o único instrumento capaz de promover mudanças sociais profundas. Instrumentos democráticos como eleição, plebiscito e impeachment são necessários para solução de problemas de uma prefeitura, de um estado e de um país, são capazes até de mexer no ordenamento jurídico e em cláusulas pétreas de uma nação. Não existe outro instrumento mais eficaz para ouvir o povo do que o plebiscito.
Por isso, a democracia é imprescindível na construção de uma nação, de um país, mesmo nos países onde o estado de direito não é respeitado, nenhum ditador quer ter a pecha de antidemocrático e autoritário.
A democracia é necessária, contribui para o desenvolvimento, reduz as desigualdades sociais, é condição sine qua non para que o homem viva livre e em paz, pois melhor morrer do que não ter liberdade.

Autor: Rilvan Batista de Santana – Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 27/07/2012
Alterado em 03/08/2012

O desespero do Diabo - R. Santana

 

O desespero do Diabo
R. Santana

     Não faz muito tempo o Diabo reuniu os seus assessores e comunicou o seu desespero:
     - Eu estou farto de tanta gente ruim! – Assim começou o Senhor das trevas... No seu discurso, alegou que quando rompeu com Deus, pensou fundar o “Império das Trevas”, de gente boa, gente santa, gente direita, gente que não lhe desse trabalho, por isto, deu muita abertura, escancarou as portas do Inferno, mas fazer o quê? Estava sozinho! Precisava de gente para fundar o seu reino, gente pra colocar a mão na massa!... Pensou que no decorrer dos Séculos, ele pudesse separar o joio do trigo, mas o diacho é que só tinha joio não tinha trigo, os filhos de Deus desconfiaram de tanta bonança, do caminho largo demais, sem percalços, tudo permitido e aceito, esmola grande até cego desconfia, então, os filhos de Deus enveredaram pelo caminho estreito e o tiro tinha saído pela culatra!... Reconhecia o seu erro logístico, deveria ter imitado o Altíssimo e ter estabelecido regras rígidas de conduta, pois quem o procurasse, seria por convicção, seria por amor, lhe fosse fiel, não lhe traísse as ideias, lhe fosse companheiro, amigo, mas lhe restou: malfazejos, assassinos desalmados, políticos venais, comerciantes inescrupulosos, juízes corruptos, policiais criminosos, padres e pastores pedófilos, traficantes, afora os escravos do vício e da luxúria. Portanto, iria reunir o seu staff e conversar com o Criador, não foi Ele que criou o homem? E, completava:
     - Quem pariu Mateus que balance... Pela misericórdia de Jeová não lhe foi difícil ser ouvido:
     - Altíssimo, confesso-Lhe que fui vencido, não cuidarei mais de alma humana – começou o anjo rebelde -, quero Lhe entregar todas as almas que estão no inferno!...
     - Lúcifer, quando criei o homem, Eu lhe dei raízes e asas...
   - Senhor, o homem não soube usar o conhecimento nem o livre arbítrio, hoje, o homem é a maldade em si... Não nasce bom como disse Rousseau, ele já nasce mau!...       - O Senhor deu corda ao Diabo:
     - O quê tu queres Satanás?
     - Tu deste a vida ao homem, agora, Tu dê-lhes o céu como abrigo...
     - Satanás, o homem foi a única criatura que me agachei... Eu peguei o barro e o modelei à minha semelhança, portanto, Eu o amo, se tu o converterdes, o céu será o seu refúgio!
     - Senhor, varei Séculos ensinando Te arrenegar, como irei, hoje, convencer o homem Te amar!?
    - Espírito das Trevas, o meu amor é infinito, conheceste o meu fiel servo Abraão e o desafio que lhe fiz quando intercedeu para que Sodoma e Gomorra não fossem destruídas?... Ide e mostre tua verdadeira face e os homens arrependidos terão o céu como abrigo!...
     Leitor amigo, o Anjo que me contou esta história, jurou de pés juntos, que o Arrenegado vociferou, vociferou, vociferou... mas não voltou mais ao céu, menos ainda, na presença do Senhor... Mais uma vez as Escrituras Sagradas se cumpriram quando diz: “... demais, entre nós e vós está firmado um grande abismo, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para nós...” (Lucas, 16:19-31). E, o Anjo completou:
     - Filho, o Inferno está em polvorosa e o Bruxo das Trevas em maus lençóis. Descobriram o que ele foi fazer no Céu, agora, é chamado pelos opositores de “traíra”, “Joaquim Silvério dos Reis”, “Judas”, pois além dele quebrar a hegemonia de poderes, ele não consultou os infernenses... – não o deixei concluir:
     - Quem lhe faz oposição? - Os criminosos, os pervertidos, os sindicatos, os ladrões, os pedófilos, professores enganadores... – insisti:
     - Anjo, eu quero saber dos políticos!? - Ah, ah, ah!... Políticos? Alguns políticos querem ser o presidente do Inferno!
     - Meu Anjo, os nomes?...
   - Saddam Hussein, Bush, Hitler, Pinochet, Papa Doc, Stalin… - eu o interrompi novamente...
     - E brasileiro? - F. Pei.., Méd..., AC..., C. Sil..., C. Bran..., Fig..., C. Pres... C. Marigh..., G. Var..., eles preferem ser o primeiro no Inferno a ser o segundo no Céu... – continuou:
     - Mas o brasileiro é jeitoso de natureza, é manhoso, é malandro, é escorregadio, é oportunista e gosta do poder... Por enquanto, ainda estão com Satanás, mas quando a turba do mal se levantar contra o Tinhoso, os brasileiros darão o bote e assumirão o comando do lugar das trevas.
     Leitor amigo, a declaração do Anjo me fez pensar quão difícil será a extinção do mal porque nem o Diabo dá conta...

Autor: Rilvan Batista de Santana.
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google

O ateu - R. Santana

 

O ateu
R. Santana

                                                                                          1

     O cirurgião Mauro Brandt era um ás no bisturi, um médico de mancheia, se o mal não fosse de morte Dr. Brandt dava um jeito, pois além de cirurgião, era versado em outras áreas médicas, o homem era um cientista, porém, os seus pacientes ficavam sem jeito com suas heresias: “Quem lhe salvou foi o meu bisturi, não Jeová!”, “Ah, foi Jesus Cristo? Não o encontrei na mesa de operação!...”, por isto, à boca miúda, ficou conhecido com o epíteto: “O ateu”. Não pense o leitor que Dr. Brandt se espinhava com o apelido, gozava de satisfação quando se lembrava das caras assustadas de suas pacientes beatas diante de suas heresias, dos seus desdéns religiosos e sua falta de fé.
     Mauro Brandt Júnior, um dos seus filhos, hoje com 36 anos de idade, amava o pai, mas reprovava suas blasfêmias, suas brincadeiras de mau gosto, quando podia, ele chamava a atenção do pai:
     - Pai, respeite a fé e a religião dos outros!...
     Doutor Brandt não era má pessoa, afora sua incredulidade, nunca dizia não aos seus pacientes, era prestativo, se alguém batesse em sua porta, sempre lhe encontrava predisposto realizar uma ação beneficente. Era um homem de posse, seria muito mais se negociasse sem pejo o seu talento. Gostava de luxar, dos prazeres da carne, do poder, porém, não era escravo do dinheiro ou de posição social, para o médico, o dinheiro e o status eram meios e não fins.
     Para o Dr. Brandt, a vida é fruto do acaso universal, explosão de forças energéticas da natureza, e, o processo deu origem às formas primárias e secundárias dos seres vivos. Ele não vê a origem do homem em Gênesis, a Bíblia é o eufemismo da vida, é a maneira fácil para explicar a origem do homem e Deus. Nenhuma espécie surgiu “pronta” na face da terra, ele acreditava que todos os seres vivos sofreram mutações e seleção natural até o estágio atual, Darwin que mais se aproximou da origem das espécies.
     Enfim, Dr. Brandt cultivava, sem vergonha, com propriedade, ideias positivas, kantianas, nietzschianas com desenvoltura e convicção e que a razão sobrepuja a fé e as emoções.

                                                                                     2

     O Hospital Dr. Alexander Fleming reservou uma sala no 10º. Andar, contígua à administração, uma sala de estudo e repouso para Dr. Brandt dado sua importância profissional e serviços prestados. Naquela boquinha da noite, quando se preparava para ir embora, foi chamado às pressas, por uma estagiária, para atendimento de emergência:
     - Dr. Khalil do CC-E, solicitou sua presença, urgente! – debochado:
     - Se Khalil tivesse tanta urgência não lhe mandaria, ele sabe que sou doido por mulher bonita, usaria o interfone! – a estagiária corou:
     - Mas, é que... é que... houve um acidente grave!
     - Doutorzinha, desde quando não tem acidente grave nesta cidade com mais carros do que gente!?
     - É... é... – Dr. Brandt perdeu a paciência:
     - Desembuche jovem! Perdeu o fôlego!?
     - É sua filha... – Ela não completou. O médico num gesto brusco, bufando, deixou a sala, pegou o elevador de descida e correu para o CC-E - Centro Cirúrgico-Especial.
     Dr. Brandt teve três filhos: um homem e duas mulheres. Kelly, sua filha mais nova, foi a vítima desse acidente e sua mãe Paola. O doutor Khalil não lhe deu a notícia pessoalmente, por prudência, para lhe poupar, também, preocupado com a vítima, não podia desperdiçar tempo, enquanto a estagiária foi chamá-lo, ele agilizou todos os procedimentos e quando Dr. Brandt chegou ao centro cirúrgico, o anestesista, as enfermeiras, Dr. Khalil e o seu assistente já estavam apostos na mesa de operação.
     Paola fraturou o antebraço, um corte superficial na cabeça, e algumas escoriações generalizadas de menor gravidade, sem risco de vida. Porém, ficou internada para as observações de praxe e por insistência do médico de plantão no mesmo Hospital Dr. Alexander Fleming, onde Kelly seria operada.
                                                                                     3
     Quando Dr. Brandt chegou ao CC-E, os procedimentos já estavam sendo ultimados. Kelly ainda gritava de dor com as mãos pressionadas no abdome traumatizado. Dr. Brandt, a contragosto do seu colega Khalil, assumiu a cirurgia. Algum tempo depois, Kelly anestesiada, se deixava aos cuidados do seu pai, dos seus colegas e das enfermeiras.
     O bisturi de Dr. Brandt fez uma incisão cuidadosa no abdome de Kelly, o quadro traumático mais feio do que aparentava na ultrassonografia, o sangue pouco e pouco se espalhava pelas alças do intestino delgado, à altura do duodeno, era grande o trabalho das enfermeiras pra limpá-lo, como se mais de um vaso sanguíneo tivesse rompido...
     O tempo urgia, a pressão da mocinha oscilava, aparelhos foram ligados para regular a respiração e os batimentos cardíacos, mas a vida se esvaía, o quadro parecia irreversível... chumaços de algodão ensopados de sangue, quando... de repente... num átimo de tempo... Dr. Brandt deixa os seus instrumentos na bandeja... fez uma expressão no rosto de vencido e disparou para Capela do hospital, quedou-se e ajoelhou-se em busca de Deus:
     - Senhor perdoe este desgraçado! Este miserável que tantas vezes zombou de Ti!... Sei que não mereço o teu perdão, blasfemei o tempo todo, zombei das coisas sagradas, mas não permitas que a minha filha desça ao vale da morte... Hoje, fui vencido pelas forças da natureza, não por falta de aptidão, já fiz centenas de operações iguais com sucesso absoluto... Vós perdoastes Saulo que prendeu e açoitou os teus discípulos, Tu perdoaste Pedro que te negaste três vezes, Tu perdoaste aqueles que te açoitaram e te colocaram na cruz, inclua-me entre eles, Senhor!... – O suor escorria - lhe pelo corpo...
     Na sala de cirurgia a Providência tinha operado... Dr. Khalil, tenso, suado, ultimava as últimas suturas, os últimos arremates!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna
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O pesadelo - R. Santana

 


O pesadelo
R. Santana

     O suor escorria-lhe pelo corpo... A coberta e o travesseiro repuxados e rasgados pelos movimentos bruscos dos pés e mãos de Marcos que na ânsia de se livrar do Dr. G. mexia-se e remexia-se sem parar, enquanto o câncer roia-lhe as entranhas e a alma, mais a alma do que as entranhas. O médico lhe aparecia cuspindo fogo com bocarra assustadora, falando, gritando e deixando-lhe maluco!...
     Fazia tempo que Marcos pouco dormia ou nada dormia desde que Dr. G. lhe comunicara o diagnóstico dos exames. Não entendia os desígnios de Deus, sempre lhe tinha sido amigo e fiel, procurou-Lhe no amor e não na dor. Agora, estava perdido, decerto, Deus lhe abandonara.
     Não tinha medo da morte, mas se assustava com o sofrimento da doença, com sua nocividade, com sua maneira silenciosa e vil como que mina o ânimo e o corpo com os seus tentáculos de caranguejo, deixando o sujeito sem autoestima, desnorteado, igual ao lutador de boxe que toma de cheio um soco na fronte e não deseja beijar a lona, mas lhe escurecem as cordas e os cantos do ringue...
     Dr. G. cuspia palavras de fogo: “Não existe operação, o seu câncer é sistêmico, você vai se estrebuchar em sangue nesta cama”. Marcos com respiração sôfrega não compreendia: “Hein... hein... hein!?”, Dr. G. mais enfurecido gritava: “Tu vais morrer se desmanchando em sangue!!!”, o mundo caía-lhe sobre a cabeça.
     Quando ele soube que tinha câncer, revoltou-se com Deus, não aceitava a mortal doença e atribuía ao Criador sua má sorte, sua desdita, seu infortúnio, que estava sendo castigado, mas não iria Lhe pedir piedade, clemência, nada fizera de mal durante sua vida para que merecesse esse triste fim, renegava o tempo que dobrara os joelhos para Lhe adorar, não O consideraria mais, seu Pai, mas um padrasto perverso, desalmado, pouco se lixando para os seus filhos de si não gerados.
     Era um homem de fé, comungava com Jesus Cristo quando disse: “Será que alguém de vocês que é pai, se o filho lhe pede um peixe, em lugar do peixe lhe dá uma cobra? Ou ainda: se pede um ovo, será que vai lhe dar um escorpião?” (Lucas 11, 11-12). Portanto, não era justo Deus colocar sobre si aquele pesado fardo, aliás, nunca tinha entendido a crucificação do Seu filho unigênito para redimir os nossos pecados nem essa história de “pecado original” - a fé não lhe embotava a razão!...
     A doença lhe quebrara o ânimo, minou sua fé, destruiu sua autoconfiança, porém, deu a Marcos a certeza que o homem é necessário e contingencial, um ser limitado, o homem é suas circunstâncias, as coisas ocorrem por conta das possibilidades contingenciais, isto é, não existe castigo, o sofrimento não é o cutelo usado por Deus para castigar o homem, o mal está inserido no mundo das possibilidades, Deus é a única possibilidade necessária e essencial que existe por si, idéia lógica que subsiste por si, conceito puro necessário à unidade da razão de acordo Kant. Portanto, a dor, o mal e os infortúnios estão inseridos no mundo das possibilidades e não no desejo de Deus, em vão culpá-Lo ou a si.
     A felicidade é um estado de espírito, o homem não nasce para ser feliz, mas para ter felicidade, ou seja, o homem não é feliz, o homem está feliz, a felicidade lhe é tirada toda vez que há um desequilíbrio no seu mundo de possibilidades contingenciais e reais que independem de sua vontade.
     Marcos mais ofegante, voz grunhida, suor espesso, esforçava-se cada vez mais para responder às provocações do Dr. G. que lhe aparecia, agora, travestido de homem-bruxa, voando em círculos, escanchado sobre uma vassoura, cuspindo palavras de fogo e olhos incandescentes que lhe emprestavam as feições do tinhoso: “O câncer vai lhe comer o corpo infeliz!!!”, respondia ao médico na bucha: “Tu és um miserável, agente da morte! Tu és um derrotado, tu vês, impotente, a morte ceifar-lhe o trabalho de anos!... Tu não tens desgosto do nada que tu és diante do infortúnio? Tu não és Deus, tu quanto eu, quanto ele, não passamos de pó!...”
     A tensão lhe seria demais, o seu coração teria explodido se mecanismos de defesa do seu corpo não reagissem e Marcos não se soerguesse do pesadelo num sobressalto. Sentado na cama, ainda ofegante, assustado, porém, de alma renascida, curvou-se depois, de joelhos no chão, chorou e orou, orou e chorou, chorou e orou...
 
 

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Generosidade e solidariedade - R. Santana

 

Generosidade e solidariedade
R. Santana

     Tenho um amigo que alimenta certa desconfiança quanto às ações de generosidade e de solidariedade, embora reconheça que esses sentimentos produzem sensações de bem estar e felicidade no homem que pratica, às vezes, a prática esconde interesses inconfessáveis, principalmente, quando a mídia é envolvida. Alguém pratica uma boa ação com o objetivo de ser reconhecido pela sociedade e não por simples altruísmo ou abnegação ao outro, é muito comum os políticos e os religiosos usarem falsas ações generosas e solidárias para conseguirem interesses escusos. As ações generosas e solidárias não precisam ser de grande monta, às vezes, um pequeno gesto encerra uma lição de vida.
     Quem não se sensibiliza com o gesto de alguém que pára o carro para um idoso atravessar a rua fora da faixa de pedestre? Ou, o garoto que deixa de comprar sua merenda para socorrer um necessitado? Então, alguém que recebe um elogio profissional de um colega mais experiente? São gestos simples, mas que expressam o sentimento altruísta do homem. O homem mesquinho e egoísta que não é afeito à generosidade e à solidariedade, não possui grandeza na alma, pensa que irá perder algo se sua conduta for voltada para o próximo e deixa de ter a satisfação da máxima: “...quem oferece flores, fica com as mãos perfumadas.”
     O incauto não goza desse sentimento agradável de felicidade que servir ao próximo oferece. Quem leu “Cartas a um jovem poeta” de Rainer Maria Rilke, endereçadas ao jovem Franz Xaver Kappus, um jovem que vacilava entre a literatura e a carreira militar, encontra ali um exemplo de generosidade: Rainer um escritor consagrado, no auge da maturidade produtiva, com sério problema de saúde, debruça-se sobre os versos de Kappus e o estimula encontrar o caminho da vocação e da criatividade. Em suas cartas-respostas, jamais critica as poesias de Kappus, se são boas ou ruins o leitor não sabe, ele recusa-se exprimir a mais leve censura gramatical ou critica o estilo, apenas, exorta-lhe que encontre o seu veio literário e sua criatividade. Para Rilke, poesia era a leitura da alma e das coisas ao seu redor, Deus estava em todos os lugares e pessoas, ele cultivava a ficção, mas não endeusava o abstrato...
     Há uma fábula do leão e do rato de Esopo, recontada por La Fontaine que define bem o que é generosidade solidariedade, muito embora a mensagem principal da fábula é respeitar os mais fracos, fracos de físico e espírito, porém, pode-se fazer outras leituras dessa estória. La Fontaine conta que um leão faminto passeava pela floresta em busca de alimento, de repente encontra um ratinho que facilmente é preso pela pata do rei da floresta, no momento que ia degustar o frágil animal, o leão foi vencido pelo argumento do arguto ratinho que seria um desperdício comê-lo, pois era pequenino e não ia matar-lhe a fome, o leão não foi estúpido e num gesto de generosidade solta o animalzinho certo que jamais seria recompensado, quis ser generoso... Algum tempo depois, o leão cai na rede de um caçador e fica aprisionado. O ratinho surge e solidariamente o socorre roendo a malha da rede e libertando o leão. A fábula dentre outros ensinamentos, encerra, também, lições de solidariedade e generosidade: o leão foi generoso no momento que não comeu o ratinho, poderia tê-lo feito sem considerar o tamanho do roedor e, o rato foi solidário com o felino quando lhe ajudou escapar do caçador. A generosidade e a solidariedade são ações do amor.
     O amor age através da solidariedade e da generosidade. A pessoa generosa e solidária é desprendida, pensa mais no próximo do que em si. Irmã Dulce e madre Tereza de Calcutá são exemplos emblemáticos de desprendimentos, de amor aos humildes, de doação, agiram em nome do amor, modificando pessoas e circunstâncias adversas.
     Um pensamento de madre Tereza de Calcutá encerra o amor que se deve empregar em suas ações: “Não sei ao certo como é o paraíso, mas sei que quando morrermos e chegar o tempo de Deus nos julgar, Ele não perguntará, quantas coisas boas você fez em sua vida? Antes, Ele perguntará quanto amor você colocou naquilo que fez?”, ou seja, as ações têm que ser feitas com amor, mas o amor se completa com a obra: “O amor sem obras é morto”.
     Enfim, sejamos generosos e solidários com amor...

Autor: Rilvan Batista de Santana Itabuna
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Memórias - R. Santana

 

Memórias
Memórias
R. Santana


D. Zazá era o seu nome. Uma negra miúda, raquítica pelo cigarro, cabelos lisos pelo uso de cosméticos específicos, dentes amarelos de nicotina, corpo franzino e de idade indeterminada. Uns diziam que ela com 40 anos já não morria mais. Eu achava que ela aparentava uns 30 anos de idade, mas como diz o adágio: “negro quando pinta tem três vezes 30”, até hoje não sei sua idade.
Deus apertou na cor do negro, porém, para compensar-lhe, deu-lhe uma juventude duradoura. O branco é bonito na juventude, mas de velhice prematura. As rugas, as pálpebras caídas, a queda de cabelo, cabelos encanecidos, pele escamosa e as pintas senis são marcas da decrepitude do branco que começam surgir logo depois dos 40 anos de vida. O negro parece que ao nascer a natureza passa-lhe piche siliconizado. Sua pele sempre lisa e brilhante, dentes brancos e cabelos pretos mesmo depois dos 50 anos fazem dele um eterno moço. Quando a velhice chega mesmo, o negro já não se lembra da data de seu nascimento de tão velho.
Jovem estudante universitário, eu tinha sido indicado pelo prefeito para assumir o cargo de professor de matemática no único colégio de ensino fundamental e médio do município de Itabuna. Como todo jovem, absorvia facilmente, todas as idéias revolucionárias da época. Tinha herdado as idéias de direita, mas debandado com mala e cuia para os movimentos teóricos de esquerda. Não era um ativista, um revolucionário pragmático, mas um estudioso e admirador de Karl Marx e Engels, ou seja, um pacífico e passivo intelectual. Por isto, eu tinha na alma certos ranços e preconceitos sem admissão explícita que só o tempo cura. Ao adentrar na escola, deparo-me com aquela negra debruçada no balcão da secretaria, afetada, aparentemente estressada, fumando que só uma caipora. Pensei que fosse uma serviçal da limpeza.
- A professora Zazá está? – O senhor deseja o quê?- Fiquei parvo, atrapalhado, esperava uma resposta, não outra pergunta, balbuciei: - é... que... esperava encontrá-la para entregar-lhe este ofício (mostrei-lhe o ofício) do Exmº. Sr. Secretário da Educação, para incluir-me na programação escolar do ano subseqüente e definir a carga horária. – O quadro de professor está completo. Será que o Secretário não tem conhecimento? – Não lhe respondi de imediato, contive-me, conhecendo-me e necessitando do emprego, fui menos “pavio curto” e mais racional: - trouxe o ofício para professora Zazá, que é uma ordem e não um pedido do prefeito para o secretário, se a senhora afirma que o quadro funcional da escola está completo, dê-me isso por escrito que voltarei ao secretário (dei uma bofetada na negra com luva de pelica), ela respondeu-me ríspida: - isto é uma atribuição do diretor da escola, a minha é programar e coordenar os trabalhos pedagógicos para o retorno do ano letivo! – Contra-ataquei, respondi-lhe: - O ofício lhe é nominal, por favor, receba-o e dê o encaminhamento! – A negra não disse sim, nem disse não, pegou o documento sobre o balcão e deu-me as costas como resposta, entrando para o interior do estabelecimento.
Tomei como acintosa essa atitude dela. Jurei para mim, que vingar-me-ia na primeira oportunidade, não sabia como nem quando, saberia esperar e pensava: “essa negra pernóstica pensa que é a dona do mundo!...” Xinguei mentalmente os ascendentes e descendentes daquela negra até a quinta geração e se fosse um negro teria colocado tudo na lata sem medo ou titubeio. Não sei, hoje, o motivo de tanto ódio. Acredito que em sentimentos racistas atávicos e na possibilidade real de ser barrado por uma negra no meu primeiro emprego.
Fui admitido. Jovem e caxias, consegui imprimir o meu método de trabalho e até ter uma função administrativa nessa escola do município e uma direção geral numa escola do estado algum tempo depois. Estabeleci unilateralmente, algumas regras no meu relacionamento profissional com a professora Zazá, a exemplo de procurá-la, somente, por dever de ofício e jamais permitir-lhe dois dedos informais de prosa. Quando percebia sua presença, esgueirava-me e fugia discretamente para outro local, noutras palavras: eu a ignorava como pessoa.
A negra Zazá era culta, possuía uma retórica leve e inteligível. Dona de um raciocínio lógico e discursivo, nas reuniões pedagógicas dos últimos horários das sextas-feiras, ela desprendida e tendenciosa, empurrava goela adentro da incauta maioria docente todas as ações que seriam realizadas durante as unidades letivas sem discussão ou oposição. Vez ou outra, alguns gatos pingados se arvoravam e contestavam, todavia, quando era matéria do interesse da Sra. Supervisora, ela manipulava com ajuda dos seus puxa-sacos e acólitos que acompanhavam-na na votação. A oposição só tinha sucesso em matéria de somenos importância, subjacente aos interesses da maioria.
Lembro-me que certa feita recebi na festa de confraternização do final do ano letivo, o título de “Questionador”. Noutra oportunidade, teria ficado honrado, pois questionar é levantar problema e exigir solução. Discutir alternativas nos modus operandis do trabalho, significa sugerir seu constante processo de aperfeiçoamento. Porém, recebi o título como uma crítica pejorativa e subjacente não da maioria dos meus pares (possuía também muitos simpatizantes descomprometidos), mas de um grupo tendencioso que estava na cúpula daquele educandário manipulando mentes e administrando a escola com interesses egoístas e inconfessáveis.
Embora tivesse uma certa ojeriza àquela negra, os fatos e o seu valor intelectual forçavam-me reconhecer que era uma adversária fria, racional, simulada e perigosa. Para não ser esmagado e antipatizado profissionalmente, comecei usar estratégias que fossem do interesse da maioria mesmo em detrimento das minhas idéias pessoais. Às vezes, encampava e apoiava suas iniciativas quando percebia que era o desejo da todos. Essas táticas renderam-me novas simpatias e desequilibrou a influência inconteste da profa. Zazá nas decisões administrativas e pedagógicas da escola. Comecei também observar que entre mim e a negra, apareceu naturalmente, um respeito e uma admiração recíprocas. Deixamos de nos digladiar e passamos ter interesses profissionais comuns.
Nunca fui racista. Sei que o racismo em nosso país é camuflado e existe, é uma hipocrisia negá-lo. O racismo é cultural e histórico. As miscigenações constantes têm melhorado a eugenia do negro, assim como o acesso à educação, às profissões, ao trabalho. As leis que punem a discriminação têm contribuído para inclusão do negro em nossa sociedade contemporânea. Porém, esses avanços sociais e profissionais não podem ser atribuídos somente aos movimentos culturais e políticos impetrados pelos negros. A história é testemunha de muitos homens brancos abnegados que empunharam a bandeira da abolição escravocrata. Alguns brancos pagaram com a vida a defesa dessa bandeira. A liberdade do negro brasileiro não é produto somente dos históricos quilombos, também, é produto eloqüentes de muitos tribunos que levavam para o Senado e a para Câmara os anseios dessa raça marginalizada e esquecida nos fundos das casas-grandes, movidos por sentimentos humanitários e altruísmos. Quando a princesa Izabel assinou a lei Áurea, apenas materializou e formalizou o desejo da sociedade brasileira do Século XIX.
Final do ano de 1992, a minha filha mais velha apresenta um problema de saúde que de início achamos de somenos importância (anemia profunda), que com alimentação à base de ferro, muita verdura, vitaminas e os remédios prescritos pelo médico, o problema seria resolvido, considerando que era uma adolescente e todo organismo novo, geralmente, reage a qualquer forma de
tratamento por mais incipiente que seja. Ledo engano, há doenças que mesmo o jovem sucumbe e vai a óbito. Ana Paula resistiu bravamente no Hospital das Clínicas em São Paulo, por um ano, de uma plasia de medula, uma irmã gêmea da leucemia, mas ela sucumbiu e faleceu em meus braços em 11 de novembro de 2003.
Não sei se já lhe disse que D. Zazá era uma católica fervorosa, acho que não. Embora fosse uma pessoa inteligente, racional, ela era uma barata de igreja como dizem os hereges. Participava religiosamente dos eventos, das missas e das campanhas de solidariedade. Qualquer contratempo com alguém na escola, ela convocava todos para corrente de oração. Quantas vezes eu tinha participado profissionalmente para pedir ou agradecer a intercessão divina? Inúmeras. Nunca tinha me dado na telha que um dia estaria lá naquela sala de reuniões pedagógicas da escola para implorar uma centelha do amor de Deus para mim. Os meus pedidos de socorro e dos meus pares ao Criador foram em vão... Deus não faz milagre. Deus põe e o mundo dispõe. A cura pela fé ocorre quando o sistema bioenergético do indivíduo é receptivo à energia desprendia dos pensamentos positivos ou pelo progresso da ciência. Deus não deixou o sofrimento, o mundo é que produz as condições e as forças negativas para humanidade através de quebra da lei natural de evolução da matéria e do pensamento.
O nosso calvário começou no dia que fazíamos feira no extinto hipermercado Messias. Ana Paula jovem bonita, ela passeava entre as prateleiras do mercado atrás de saborosas guloseimas para si e para os irmãos. Sem mais nem menos, fomos surpreendidos por sua queda e desfalecimento momentâneo. Às pressas, levamo-la para o hospital COTEF, que ficou internada e para nós um estranho pedido da médica para que se procedesse uma transfusão de sangue e de plaquetas, pois seu organismo estava com níveis baixíssimos. A partir dali, ela e nós começamos uma maratona via cruci.
Dois negros de alma branca (lá vai o preconceito arraigado, alma não tem cor), dois negros de alma solidária foram inesquecíveis nesses dias de infortúnios: o negro Edu e a negra
Zazá. D. Zazá nos acompanhou desde os primeiros diagnósticos da ONCOSUL até a transferência de Ana Paula pra São Paulo. Zazá e Edu foram amigos e irmãos na desventura.
Hoje, pergunto a Deus, será que esse foi o preço que tive de pagar para aprender que a maldade e a bondade não têm cor? Não, não acredito que Deus use seus filhos inocentes como instrumentos de punição de pecado de outrem. Ademais certos
sentimentos são herdados de gerações que nos precederam. A minha antipatia pela professora Zazá e vice-versa, ocorreu porque herdamos dos nossos antepassados esses sentimentos sociais de ódio e discriminação. Noutras circunstâncias, prevaleceram os sentimentos de amizade, de empatia, de compromisso e divisão da dor.
O negro Edu surgiu na contramão histórica de D. Zazá. Conheci-lhe também na mesma escola, desde do início mantivemos uma relação profissional e pessoal respeitosa. Não privava do seu circulo de amigos, porém não era seu inimigo, éramos conhecidos... Na nossa desdita, foi prestimoso e solícito em todas as ocasiões.
Seria injustiça não dizer que nessa caminhada difícil não contamos com outros seres humanos solidários. Foram tantos que a memória se recusa nomeá-los. Aqui em Itabuna e na capital paulista, foram inúmeros os gestos de bondade e apoio que recebemos. Tivemos, naturalmente, alguns empecilhos, principalmente, de ordem financeira e estada, mas eram problemas solúveis ao contrário da doença de Ana Paula, que se agravava à medida dos dias de sua fase terminal. Ela sofrendo, eu e a mãe dela sofrendo com ela. Se for aqui que purgamos os nossos pecados, ela morreu santa e morremos com ela.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna – ALITA







Caboclo Ló - R. Santana

 

Caboclo Ló
Caboclo Ló
R. Santana

Eu o conheci na Praça Olinto Leone. Não lhe perguntei onde morava nem o que fazia, não soube o seu de nome de batismo, apenas, disse-me que o tratasse por ”Caboclo Ló”, depois desse dia, nunca mais o vi, acho que não morreu, apresentava boa saúde, acho, também, que esteve em Itabuna de passagem, todavia, em pouco mais de uma hora de bate-papo o desconhecido deixou-me muito impressionado.
Não tinha aura de intelectual, caboclo, baixo e atarracado, não despertava, à primeira vista, empatia, uma pessoa comum como tantas outras pessoas que cruzam o nosso dia a dia, aprendi que “Se a aparência explicasse a essência, o sabor seria desnecessário”, portanto, não tomei susto de sua sabedoria, não julgo ninguém pela aparência, no entanto, para desencargo de consciência, confesso que o desconhecido me surpreendeu em conhecimento e informação.
Cedo, dia de domingo, a Praça Olinto Leone estava vazia de gente, somente os pássaros e os saguins em cima das árvores davam vida ao ambiente, Caboclo Ló estava sentado num banco do jardim defronte a agência do Banco do Brasil, me aproximei e de praxe o cumprimentei:
- Bom dia, senhor!
- Se o dia for bom, no final lhe direi! – fiz que não entendi, olhei pra o céu, tentei puxar conversa:
- Hoje, o dia promete!...
- Ontem, a previsão do tempo no JN deu muito Sol no Sul da Bahia!
- Parece... – ofereci-lhe um cigarro:
-Fuma?
-Não, não fumo!
- Nunca fumou, quando moço?
- Rapazinho, eu tentei impressionar as garotas, era costume na época, os galãs de cinema apareciam nos pôsteres soltando baforadas e com mulheres bonitas... Porém, conheci a minha esposa que é religiosa e me convenceu de deixar o vício e o fumo... – não o deixei terminar:
- O vício e o fumo!? Não é a mesma coisa?
- Não. O vício é dependência e a dependência é mais nociva do que a droga. O vício é um ato de vontade e se o sujeito exerce controle sobre sua vontade: o fumo, o álcool, a cocaína, a maconha, o crack e outros venenos não lhes farão mal, serão comparáveis a um animal felino não domesticado, que não causa dano vê-lo de longe e jamais lhe abraçar!
- De que maneira, se o consumo de droga é generalizado? Nem a polícia dá cabo!
- Professor, o homem é suas circunstâncias, circunstâncias boas e ruins influenciam o destino do homem. O mal é mais acessível, é necessário um espírito forte para não se contaminar com o nocivo. O aparelho repressor do estado sozinho não resolve o narcotráfico e o vício, mas, a educação, a religião e as políticas públicas de bem estar social podem mudar esse quadro de vicissitudes...
- Caboclo Ló – já com intimidade – as escolas, os governos e as igrejas já fazem isso!
- Não o suficiente!
- E fazer mais o quê?
- Trabalhar mais com a família!
- Como?
- Professor, a educação doméstica é tudo... Os pais têm que ser presença, exemplo, ultimamente, o pai ou a mãe deixa aos outros a educação dos seus filhos desde a creche!
- Ninguém sobrevive sem trabalho!
- Eu sei, mas tem que haver meio termo, não se pode colocar o trabalho acima da educação dos filhos. Alguns pais pensam mais no seu bem estar profissional e social, valorizam mais os bens materiais do que a educação, ao invés de homens de bem, homens de bens, para os pais pobres, que se ampliem os programas sociais... – interrompi:
- Desculpe-me Caboclo Ló, bem ou mal, essas ações têm sido colocadas em prática pelo governo e pela sociedade!
- Não em regime de guerra! Estamos numa guerra, a maldade humana não tem mais limite, os pais estão enterrando os filhos, as leis são fracas... Além da educação e da conscientização na mídia dos malefícios da droga, urge a necessidade de trancafiar os narcotraficantes por tempo integral, sem redução de pena, sem benefícios, tomar-lhe todos os bens, reduzir a maioridade penal e considerar os viciados doentes e sujeitos a internação hospitalar. Não se resolveria num passe de mágica, mas depois de algum tempo, o quadro seria outro! – tergiversei:
- Faz sentido... – puxei outro assunto:
- O senhor soube do acidente de carro que uma criança foi vítima?
- Acidente? Não!
- O pai foi colocar o carro de ré na garagem e imprensou a criança de três anos na parede, socorreram-na, mas foi inútil, coisas do destino!
- Destino, professor!?
- O senhor não acredita no destino, na fatalidade!?
- Desculpe-me professor, mas não acredito em sorte, azar, determinismo. Sei que alguns fatos fogem às leis da razão, o livre-arbítrio também não explica, aí, atribuímos à fatalidade!
- Então, foi o quê?
- Olhe, tenho pensado nessas leis da existência humana e Deus, alguns “porquês” são irrespondíveis ou as respostas são meias verdades, se o senhor tivesse tempo, iria colocar o meu pensamento, aliás, o pensamento não é meu, li um texto, não me lembro do autor, lembro-me do título: “O homem nasce para ser feliz?...”, porém, comungo... – não o deixei terminar, era tudo que queria, pois tinha minhas dúvidas:
- Por favor, fique à vontade, é necessário que se dê tempo ao tempo...
- Não existe determinismo, destino, predestinação ou coisa que valha e o livre-arbítrio não explica tudo, mas existe um mundo de possibilidades determinantes do comportamento humano, das coisas do mundo e da existência de Deus!
- Possibilidades determinantes? Não entendi!...
- Sim, possibilidades que estamos sujeitos... Fatos que, às vezes, fogem ao entendimento lógico, de natureza absurda, contingenciais, ou, possibilidade que existe por si, essencial, necessária, “conceito puro e fundamental à unidade do juízo”, e as possibilidades reais!
- O senhor está filosofando demais, não estou afeito a esse tipo de raciocínio, seja claro!
- Professor, o senhor me disse que ensinou Matemática por vários anos, o exercício lógico, os axiomas e as proposições abstratas foram o seu ofício, agora, me diz que não entende os princípios que lhe expliquei?
- Nunca gostei de raciocínios puros. O exemplo materializa o abstrato, por isto, peço-lhe que me dê exemplo desses princípios!
- A dedução é perigosa, particularizar os raciocínios dedutivos, corre o risco de sofismar, mas segundo o autor desse texto: “O homem nasce para ser feliz?...”, existe um “Mundo de Possibilidades”, desde o universo até o nascimento de uma flor!
- Então, essas “possibilidades” decidem o nosso destino?
- Sim e não!
- Sim, quando são reais, aí, aparece o livre-arbítrio; não, quando são contingenciais; aí, aparece o “destino”, a “predestinação”, o “determinismo” ou coisa que valha!
- Caboclo Ló, o senhor parece professor!
- Eu!? – deu uma gargalhada – Não, não sou professor, fiz o “curso primário”, mas o mundo foi o meu mestre, todavia, adquiri desde cedo o hábito de leitura e de escrita, isto me ajudou compreender o mundo. Mas, posso saber por que pareço um professor?
- O senhor é muito didático, cheio de detalhes...
- É necessária uma fundamentação lógica! – continuou:
- Vamos lá: “Possibilidade necessária” é Deus, Verdade Absoluta, indiscutível, que existe por Si, mesmo quando o ateu nega Deus, ele se contradiz, portanto, Deus é “Possibilidade necessária”. Se Deus existe, o Universo foi criado sob uma lógica universal, “Ele não joga dado”, há Leis que regem a natureza, porém, nada é imutável, exceto Deus, daí, surgem possibilidades... – completou:
- A “Possibilidade real”, o nome por si justifica, é o que existe de real, um conjunto de circunstâncias reais, por exemplo, se alguém tem um pai que é músico ou gosta de música, existe a possibilidade real dele se tornar um músico e não um engenheiro... – eu o interrompi:
- Mas, se ele não quiser ser músico?
- Aí, entra o livre-arbítrio, porém, não se pode negar essa possibilidade! – continuou:
- Porém, é diferente de um acidente, de um naufrágio, de um vendaval, de um raio que cai na cabeça de alguém, etc., etc., são “Possibilidades contingenciais”. Veja o caso lamentável da criança que morreu imprensada: - o pai tinha carro, correu atrás do carro sem o pai vê-lo, houve o descuido do pai, a mãe foi negligente, ou seja, a criança não nasceu determinada morrer atropelada pelo pai, mas possibilidades e circunstâncias concorreram para o “fatalismo”.
Não mais repliquei, despedi-me de Caboclo Ló e fui embora.

Autor: Rilvan Batista de Santana - Academia de Letras de Itabuna (ALITA)
Rilvan Santana

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