11.13.2025

O calcanhar de Aquiles da educação - R. Santana

 

O calcanhar de Aquiles da educação
O calcanhar de Aquiles da educação
R. Santana

Crítica boa é aquela que constrói. A crítica pelo prazer de criticar e a crítica tendenciosa não ajudam pessoas, menos ainda, quando se critica certos segmentos profissionais intocáveis e algumas instituições públicas, entretanto, a crítica construtiva, a boa crítica embasada em fatos, isenta, além de indicar erros, equívocos, aponta a boa direção e novos caminhos.
É temerário afirmar, mas o professor é o calcanhar de Aquiles da nossa educação, sem isenção das responsabilidades da família, da sociedade e do estado no processo de aprendizagem e educacional do educando.
Faz-se necessário dizer que o professor, hoje, está no final da linha de produção, ele é mal remunerado, não goza do prestígio social e o respeito de outrora, salvo algumas honrosas exceções, o professor é despreparado e se lhe fosse exigido prova para o seu registro nos moldes da OAB, a maioria absoluta desses profissionais seria reprovada, por isto, ao longo do tempo, deixou-se estigmatizar-se por “coitado”, “injustiçado”, “hei de vencer mesmo sendo professor” etc., ao invés dele soerguer-se, qualificar-se sempre, não negligenciasse o conhecimento, assumisse o seu papal de agente motivador do processo educativo, fosse mais criativo, mais original, tivesse mais compromisso, deixasse de ser um mero reprodutor de idéias alheias e fosse mais profissional e mais educador.
O reflexo do despreparo do professor em todos os níveis da aprendizagem contamina todas as classes profissionais. Atualmente, não é exceção, erros médicos irreparáveis, engenheiros respondendo por homicídio culposo por imperícia profissional, advogados que não sabem peticionar, jornalistas que não sabem redigir, juízes “atropelando” leis, afora a grande massa de analfabetos funcionais egressos do curso fundamental e médio que as escolas públicas e privadas despejam todos os anos no mercado de trabalho, gerando óbices na mão de obra qualificada, atravancado o comércio, a indústria e inibindo o desenvolvimento do país e gerando a “indústria” dos cursinhos e as “fábricas” de diplomas.
Porém, não se pode imputar unicamente ao professor, o baixo nível intelectual e de escolaridade dos nossos trabalhadores, os governantes preocupados em melhorar o “ranking” do país em relação às nações em desenvolvimento e desenvolvidas, nos quesitos alfabetização, grau de escolaridade e tempo de escolaridade, utilizaram-se e ainda se utilizam de programas e instrumentos pedagógicos discutíveis (MOBRAL, Supletivos, Educação Integrada, Cursos de aceleração, Cursos à distância, Educação Continuada etc.), com o objetivo de suprir ciclos não concluídos de jovens e adultos, além do uso irresponsável de metodologias e ações pedagógicas de promoção do educando com graves déficits de aprendizagem.
A família é a principal responsável na formação cidadã e no processo de aprendizagem dos seus filhos nas faixas etárias da infância e adolescência, todavia, numa sociedade moderna em que a ausência diária dos pais, é uma regra e não uma exceção, a família pouco tem contribuído na formação moral e intelectual dos seus filhos, transferindo essas responsabilidades para escola.
O estado brasileiro e a sociedade elitizada levaram muito tempo para aprender a lição que “um país se faz com homens e livros”, nunca se preocuparam de maneira efetiva com a cultura e a educação do povo. O domínio intelectual, político e a exploração do trabalhador perduraram até Getúlio Vargas quando a educação tomou uma nova feição com o seu ministro Gustavo Capanema. A partir do Golpe de 1964, os militares preocupados com o desenvolvimento do país, perceberam a escassez de mão-de-obra qualificada, instituíram os cursos profissionalizantes através da Lei 5.692/71, ao molde educacional norte-americano, porém, cometeram o erro de não qualificar a priori, o professor, o principal formador dessa mão-de-obra – a improvisação foi a tônica...
A Informática, a Cibernética e o uso dos computadores em rede (Internet) não substituem o papel afetivo e humano do professor, a máquina jamais terá sentimento para compreender o choro duma criança, no entanto, o professor não pode prescindir, de agora em diante, dessa nova parafernália tecnológica em sua prática pedagógica e na vida pessoal sem prejuízo de informação e conhecimento.
As reivindicações históricas da classe docente de valorização salarial e melhores condições de trabalho são procedentes, os governantes e as escolas privadas têm sido sensíveis de acordo suas possibilidades orçamentárias, porém, a solução do problema educacional atual não se restringe, somente, ao aumento de remuneração, o professor ao longo do tempo vem negligenciando sua profissão...
Para a erradicação do analfabetismo funcional, dos problemas de aprendizagem, de gente não qualificada para o trabalho, a falta de gosto pelo conhecimento, pelo saber, de evasão escolar etc., será condição sine qua non, breve, que a sociedade e o governo criem mecanismos seletivos para o exercício e no exercício do magistério. A exemplo das empresas privadas, como prestação de serviço, se estabeleçam metas educacionais de qualidade e produtividade, evitando assim, que o magistério seja um “bico”, um repositório de profissionais frustrados, despreparados, mercenários, não vocacionados, que não tiveram facilidades noutras profissões e encontram na prática pedagógica um meio fácil de sobreviver.
Não cabe, somente, ao professor, a tarefa de “empurrar” conhecimento na mente do indivíduo, orientá-lo, ensinar-lhe a aprender, cabe-lhe, também, o papel imprescindível de torná-lo melhor moralmente para vida social.
Alexandre, o Grande, definiu a importância do seu preceptor Aristóteles e o rei Felipe II quando disse: “Se um deu-me a vida; o outro me deu a arte de viver”. Educar não é só instruir ou transformar o sujeito num repositório de conhecimento, educar é um conjunto de ações morais e intelectuais no processo de formação dum indivíduo, portanto, o exercício do magistério deve ser para aqueles que reúnem essas aptidões.
Enfim, o objetivo deste artigo não é tecer crítica fácil a esse segmento profissional da educação, mas lhe chamar a atenção para as novas ferramentas de pesquisa e ensino e, chamar-lhe a atenção para uma nova maneira de pensar e de agir na construção do conhecimento. Hoje, com o avanço da comunicação e a democratização do conhecimento e a rapidez nas informações, é muito pouco ser professor!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 14 de janeiro de 2011.





11.12.2025

A Praça da Matriz - R. Santana

 

A Praça da Matriz
    R. Santana

     Não tínhamos mais de 9 anos de idade cada um. Éramos três crianças peraltas, bonitas e saudáveis. Nós tínhamos em comum morar no mesmo quarteirão da “Praça da Matriz”, quando o padre nos ritos finais dava sua bênção: “Benedicat vos omnipotens Deus”, e concluía: “Pater et filius et Spiritus Sanctus, Amen!” – era o fim. Não entendíamos bulhufas de latim, só entendíamos que tinha chegado ao fim pelo gesto da cruz que o padre fazia e pelo “Amen!” de língua enrolada do padre alemão – era o melhor momento da missa -, nossas mães nos prendíamos à força pelas mãos para que não saíssemos em disparada e fossemos brincar na praça da matriz.
     Era uma praça suntuosa, ajardinada, cheia de bancos, árvores copadas e desenhadas em todo o seu redor, no meio um coreto e, postes de luz, encimados por um globo branco de acrílico, distribuídos estrategicamente em toda sua extensão, iluminando os casais de namorados e os demais. Não dávamos bola pra ninguém, somente, para nossas brincadeiras.
     Além das árvores copadas, dos bancos e do jardim, gostávamos mesmo era do coreto, ali, quando o guarda deixava, subíamos na mureta e ficávamos deslumbrados com a fachada da igreja... Não tínhamos apego à sua nave de estilo gótico, comum a tantas outras igrejas, mas nos deslumbrávamos com sua fachada de duas enormes torres abóbadas e, lá em cima, a escultura de um galo, entre uma torre e outra, um pedestal de forma escalena, desenhado em suas laterais, no topo, a esplêndida estátua de Nossa Senhora da Piedade! Abaixo, depois duma faixa horizontal, quatro janelões retangulares envidraçados e mais abaixo, três grandes portas, a porta principal mais alta do que as suas laterais e outros detalhes arquitetônico singulares.
     O coreto oitavado recebia em suas muretas oito colunas que sustentavam uma abóboda que formava o teto, a parte superior do abrigo. Descobríamos nesses detalhes, que o nosso coreto não era diferente em forma e beleza das linhas arquitetônicas da matriz.
     Gostávamos quando o coreto era usado pela orquestra sinfônica nos dias de festas cívicas e religiosas. O Natal era sem dúvida, a festa mais importante, a festa que mais curtíamos porque sua preparação começava um mês antes com os bazares e as quermesses e findava com a missa do Galo.
     Na noite de Natal, chegávamos mais cedo à praça, todos nós com roupas brancas, camisa de manga comprida e gravata borboleta e sapatos engraxados. Nessa noite, os nossos pais frouxavam na disciplina desde que não sujássemos a roupa nova. Aí, corríamos toda praça, ouvíamos a orquestra sinfônica, elegíamos o casal mais bonito e mais feio de namorados, visitávamos alguns presépios, nos detínhamos naqueles mais inventivos, naqueles que contavam a história dos Reis Magos e a vaca se movimentava ou mugia, e, a manjedoura que abrigava uma Sagrada Família feliz. Não gostávamos de presépios pobres...
     Porém, o ponto alto da noite de Natal não eram os folguedos da Praça da Matriz, mas o retorno para casa depois da missa do Galo, onde a família reunida e alguns convidados tomavam assento numa mesa enorme e as nossas mães começavam servir a Ceia de Natal com peru (o prato principal), uma variedade de saladas, feijão, arroz, castanha de caju, nozes, castanha-do-pará e uma variedade de doces na sobremesa, para os homens, um bom vinho ou um bom champanhe – era uma festa!...
     A festa de Sete de Setembro tinha o seu início e o seu desfecho, também, na Praça da Matriz. Nós percorríamos todas as ruas da cidade de Lagarto, fazíamos nossa parada maior em frente ao palanque do prefeito e de outras autoridades, a fanfarra executava suas músicas, depois, voltávamos para praça e perfilados, ouvíamos o comando: “dispersar” dos diretores de escola.
     Os anos se foram, hoje, matriz e praça não são mais as mesmas, elas não possuem mais a mesma suntuosidade e o mesmo tamanho daquele tempo de criança. Parece que matriz e praça foram encolhidas?... Não! Elas não foram encolhidas, permanecem do mesmo tamanho, despertando sonho, alegria e curiosidade aos olhos, hoje, de outras crianças, o tempo é que levou as nossas crianças e trouxe adultos empedernidos e sem alma.

Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

O Destino - R. Santana

O Destino - R. Santana

          Eu e meu amigo André estávamos desocupados neste final de semana e resolvemos filosofar sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas. Como nossas vidas não têm sido um mar de rosas, primeiro, começamos culpar os nossos pais por terem se conhecidos e ter-nos colocados no mundo; em seguida, nossas mulheres, nossos ex-patrões e os atuais, os parentes e os aderentes, Cristo, os santos dos céus, Deus e finalmente, chegamos ao verdadeiro autor de nossos infortúnios: o destino.
          - Artur, quem tem sorte, mora em cima do morro, cria galinha embaixo e os ovos saem rolando morro acima na hora do almoço! – André estava uma fera, nos últimos tempos, tudo que fazia certo dava errado. Se jogava na vaca dava touro, se jogava na sena os números saiam na quina. Se alguém lhe chamava para almoçar, a comida estava insossa ou salgada.
          - André, quando urubu está de azar o de baixo caga no de cima... Quem tem sorte é como Elias, chegou atrasado para viajar no avião que caiu matando todos passageiros. Isso André, é que é sujeito de estrela... E os negócios dele? Cada vez mais rico!...
          - A minha estrela Artur é no... toda vez que eu dou um traque, ela apaga!... Elias nasceu com aquilo pra lua: casou-se com mulher rica, filha única, jovem e linda. Também, tem uma coisa Artur, nem tudo na vida é perfeito, você sabia que é um baita corno de goteira?
          - Ah!!!... Que é corno de goteira André? Você tem cada uma...
          - Corno de goteira é o camarada que espera, pacientemente, a chuva caindo, embaixo do alpendre de sua casa, o amante de sua mulher sair pra ele entrar.
          - Bem, não sei se teria estômago para tanto!... Lá em casa, eu coloco minha mão no fogo...
          - Cuidado para não se queimar Artur!...
       - Você endoidou seu filho de uma ronca e fuça?... Minha mulher seria incapaz de me trair! – Estou brincando, irmão!... – E, assim, continuamos o tempo todo, discutindo os nossos desígnios e os desígnios doutras pessoas. André mais falante, continuou:
          - Veja a história do presidente da República: saiu do sertão de Pernambuco em cima dum pau-de-arara, não tem diploma de curso superior, cortou o dedo num torno-mecânico, cedo se aposentou. Fundou partido político e duas vezes presidente com mais da metade dos votos válidos do país.
          – André, eu acredito muito na força do trabalho. Thomas Édson, inventor da lâmpada elétrica, dizia que seus inventos eram frutos da transpiração e não da inspiração. Se você trabalha com determinação, estabelecendo e perseguindo metas, o sucesso tarda, mas, chega. Não existe sorte nem azar, tudo depende como se age na vida. Deus deixou escrito: “faz que te ajudarei”. Conta-se que um rapaz ambicioso escreveu na parede do seu quarto em todos os lados: ”eu sou o dinheiro”. Com a força deste pensamento, morreu muito rico.
          - Artur, isso é conto da carochinha! Quantas pessoas se matam de trabalhar, direitas e morrem cavando? Não acredito nisso, acho que quando aqui chegamos tudo lá no céu já está escrito. É como diz o povo: “quem nasceu pra tatu morre cavando”.
          - Meu amigo André, você é muito fatalista! Um filósofo que me esqueci do nome agora, afirmou que quando o homem nasce é uma “tabula rasa”, uma folha de papel em branco, ele vai escrevendo e construindo o seu destino. Ele era contra as ideias deterministas, sustentava que Deus tinha deixado o livre arbítrio para o homem, às vezes, o homem é que não sabe usar a opção certa.
          - Artur, eu não sou uma Maria vai com as outras! Eu sou prático, leio no livro da vida e nas páginas da experiência. Quem nasce pra centavo não ganha real. Quantos triunfam pela sorte e não pelo mérito? Você é um exemplo. Trabalhador, inteligente, mas, vai morrer pobre e esquecido.
          - André, nem sempre a fama e a fortuna lhe trazem paz! Já leu alguma coisa sobre Diógenes? – Não! – Vou tentar resumir duas passagens históricas e interessantes desse homem desprendido:
          - Alexandre, o Grande, general de todos os exércitos, comparado somente a Napoleão Bonaparte, na presença de espírito e nos atos de bravura e conquista, certo dia parou diante de Diógenes que tomava seu de banho de sol e perguntou-lhe:
          - Que tu desejas do maior Conquistador da História?
          – General, eu não quero que tu me tires aquilo que tu não podes me dar... É que Alexandre tinha-lhe feito sombra e impedido dele receber os seus raios solares matinais.
          - Doutra feita, ele presenciou um trabalhador rural fazer das mãos uma concha para beber água. Diógenes que usava uma concha em seus apetrechos disse: - Aprendi, hoje, com um homem simples que nem de cuia eu preciso. – E jogou a cuia fora.
          - É isso aí meu amigo André! O homem pra viver precisa de pouca coisa além de sua inteligência. A civilização e o progresso fizeram do homem um ser dependente, limitado e refém do mundo que construiu.
          - Você poderia ter sido um advogado! Seu discurso deixa a gente desarmado, confuso. Porém, já lhe conheço e sei que é conversa para boi dormir. No livro é uma coisa, mas no dia a dia as coisas são diferentes.
          - Não é necessário elogiar-me para discordar. Se tivéssemos um destino predeterminado, não seriam verdadeiras as promessas de Deus quando fala do livre arbítrio, da escolha do bem e do mal. Ainda incentiva o homem: “faz que te ajudarei”.
          - Meu amigo Artur, eu não tenho condições de discutir filigranas da filosofia e da fé. Eu falo das minhas experiências pessoais e das minhas observações cotidianas.
          - André, você é inteligente! Podo ter cultura limitada mas não é estúpido, sabe discernir o livre arbítrio e fatalidade.
          - Meu amigo o papo está bom, mas, eu vou almoçar. Saco vazio não se põe em pé, tchau!
          - Tchau!...


Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google









 

Júri Inesquecível (Dr. Raimundo Lima) - R. Santana

 

Júri Inesquecível - R. Santana
   (Dr. Raimundo Lima)

     Não me lembro o ano, guardo os fatos, mas não gosto de guardar as datas, lembro que era muito jovem quando assisti pela primeira vez um Tribunal de Júri. Fui tangido pela curiosidade, não pelo desejo que o réu fosse condenado ou absolvido, para mim era de somenos importância. Fui atraído mais pelo culto da cerimônia, pela toga do juiz, pelo libelo dos advogados e do promotor, pelas réplicas e pelas tréplicas, pelos discursos inflamados da defesa e da acusação e acima de tudo pelos recursos retóricos e artifícios que os profissionais do direito usam para transformar o mais cruel criminoso num santo ou o mais pacato cidadão que por infortúnio cometeu um crime no mais vil e desalmado criminoso.
      Naquela época, a televisão era privilégio de poucos mortais do Rio e São Paulo. Rádio era a única coqueluche da comunicação e do entretenimento do interior deste país continental. Vídeo game, site, blog, celular e Internet, nem Júlio Verne, o mais celebrado escritor de ficção científica dos tempos modernos, não foi capaz de preconizá-los nos seus livros, portanto, assistir uma sessão de júri, representava um evento inesquecível e prazeroso.
     Dr. Raimundo Lima não era doutor, não era nem bacharel em direito, Raimundo Lima era um rábula de nomeada perspicácia e inteligência, mas amigos e inimigos, simpatizantes e não simpatizantes, chamavam-no e o consideravam doutor, inclusive, os mais festejados intelectuais e magistrados da nossa Comarca, daquela época.
     Quando o conheci, ele já beirava os seus cinquenta anos de vida, transpirava saúde e disposição. Desleixado, terno surrado, gravata desalinhada, botões no paletó sem função, bolsos laterais do paletó abarrotados de coisas, cabelos curtos penteados sem muito esmero, não cultivava barba ou bigode, alto, compleição robusta, voz de barítono prejudicada pelo fumo, simpático sem ser bonito, Dr. Raimundo Lima, no salão do júri, na defesa de um pobre diabo ou de um réu de recursos, era imbatível!...
     Derrotou muitos colegas de diploma e anel nas salas dos judices juratis, não somente, pelo conhecimento do Direito, mas pelos artifícios, pela retórica inteligível, pela representação cênica que dava aos fatos em benéfico do acusado, mas acima de tudo, pela criatividade e factoides que era capaz de produzir.
     Não possuía diploma e anel de bacharel em Direito, sem nenhuma formação acadêmica, sem regularidade escolar, era um autodidata, tinha obtido nos anos quarenta, Provisão do Poder Judiciário para exercer a advocacia, todavia, não se pode empanar sua genialidade e sua erudição, reconhecermos hoje, o seu exemplo, o seu legado, a sua contribuição jurídica e política, é um tributo à sua memória e um resgate de um personagem da história itabunense que não deve ser esquecido ao longo do tempo, pois além de advogado, Dr. Raimundo Lima foi vereador em várias legislaturas e exerceu interinamente, a nossa prefeitura por meses.
     Que o leitor me conceda abrir parêntesis:
     A sociedade não é estática. Desde Augusto Comte, Durkheim e outros sociólogos positivistas, nós aprendemos que os fatos sociais são mutáveis e relativos e os fatos jurídicos não fogem à regra, o que é proibido hoje, amanhã é permitido, a conduta do homem é que permeia e norteia as leis.
     Os gregos criaram os Tribunais do Povo, os diskatas, Sócrates foi condenado beber cicuta por um desses tribunais, cujo crime maior foi ter corrompido a juventude do seu tempo com novos conhecimentos. Naquela época, o tráfico de influência entre os juízes e a política já influíam nas sentenças.
     Os ingleses, os germânicos, os franceses, os romanos, cada um do seu jeito, fizeram dessa instituição do júri, o instrumento, para julgar os seus cidadãos, principalmente, os crimes de bruxaria, os crimes místicos, com a tutela da Igreja Católica, ao invés de sete juízes da sociedade, escolhido entre os mais probos, eram escolhidos doze jurados, número de apóstolos escolhido por Jesus Cristo.
     Em nosso país, essa instituição surgiu ainda com D. Pedro, em 1822, para julgar os crimes contra vida, nos moldes da tradição romana na quantidade de juízes da sociedade. Atualmente, essa instituição é representada por sete homens de conduta ilibada, extraídos de um grupo de 300 ou 500 pessoas, de uma triagem de 21 cidadãos.
     Vejo nessa instituição tradicional um modelo esgotado. A sociedade, hoje, requer além de conduta ilibada dos jurados, sensibilidade, postura crítica, discernimento e compromisso. A sociedade exige que esse modelo seja extinto ou aperfeiçoado com pessoas qualificadas tecnicamente e um número maior de jurados, imunes à retórica fluente e aos artifícios dos bons profissionais do direito e imunes à corrupção.
     É do conhecimento do mais simples cidadão, as injustiças cometidas por esses tribunais quando o réu é pobre e o jeitinho que esses tribunais encontram para beneficiar os mais aquinhoados socialmente e quanta vida tem sido destruída em nome da justiça e de uma falsa isenção.
      Que os profissionais do direito, os renomados juízes, os legisladores e os mais proeminentes cidadãos políticos ouçam a voz do povo.          Leitor, permita-me fechar parêntesis.
     Eu e você, meu caro leitor, voltemos ao inesquecível rábula e puxando o fio da meada, aos fatos que deram origem ao nosso texto e ao título: “júri inesquecível”, porém, juro que não lhe trarei prejuízo de tempo e dinheiro se acrescentarmos alguns fatos pitorescos vividos pelo saudoso Dr. Raimundo Lima em sua longa trajetória política antes dos finalmente.
     Homem correto, coração enorme, sensível, avesso à ingratidão e aos ingratos, pavio curto, certa feita encontrou-se com um velho conhecido que ele tinha tirado da cadeia. Pela intimidade, pela confiança, pediu-lhe o seu voto para vereador. O indivíduo mostrou-se prestimoso e solícito. Mas, receoso, disse-lhe que havia um senão, é que sicrano e fulano, velhos conhecidos, amigos no infortúnio, eram também candidatos à vereança, por isto, ele, eleitor, iria colocar os três nomes no bozó e o premiado seria o seu candidato. O velho causídico sempre com os nervos a flor da pele, sugeriu que o ingrato eleitor, colocasse no bozó a mãe dele e não o seu nome e foi embora bufando...
     Prefeito interino de Itabuna, foi um dos primeiros chefes do executivo municipal, nos finais dos anos sessenta, que criou um programa de rádio, nos moldes do programa de rádio do presidente Lula. Um programa interativo, o povo participava. Tudo transcorria bem... Dr. Raimundo Lima dava conta do que estava fazendo do que ia fazer, quanto aplicou em obras, saúde, educação etc., etc. Ideia nova, administração transparente e compartilhada, o prefeito crescia dia a dia no coração dos munícipes, mas, a oposição perdendo terreno eleitoral, conhecia o seu temperamento impulsivo, o seu descomedimento de linguagem, telefonava-lhe com críticas desairosas, aí, o velho prefeito respondia ao seu interlocutor com impropérios e xingamentos.
     Conta-se que o matreiro advogado curtia uma pescaria nos finais de semana com os amigos de pinga e do tabaco. Numa dessas pescarias, levou no embornal, uma marmita com uma gostosa galinha a molho pardo. Meio dia, o velho político preparou um fogo pra esquentar sua depenada e foi dar uns mergulhos no rio para abrir o apetite e espantar a inhaca, a morrinha, porém, quando voltou, “os amigos da onça” haviam comido sua galinha, deixando somente, as asas, os pés e alguns ossinhos descarnados. Dr. Raimundo Lima conteve-se, comeu o resto do seu fausto cardápio temperado de raiva e frustração e lhes preparou o troco. Algum tempo depois, convidou esses “amigos da onça” para outro passeio e na beira do rio entre um gole de cachaça e uma boa baforada de fumo de corda e alguns minguados bagres no cesto, matreiramente, deixou lá o seu cardápio à disposição dos seus “sagazes amigos” e foi tomar um gostoso banho, quando voltou, encontrou o que esperava: as asas e os pés... Irritado de mentirinha, gritou: “Quem comeu o meu urubu?” E, para lhes justificar que o “animal bípede” no dizer do grego Diógenes, era um urubu, mostrou-lhes as penas. Só não vomitaram os bofes...
     O salão repleto de cadeiras dobráveis e envernizadas, em frente, a mesa do juiz, assessorado por um escrivão, o promotor de justiça, nas laterais, as mesas do advogado de defesa e acusação e, no centro, o réu. O cenário fiel às tradições forenses, para mim, jovem imberbe, aquilo era um santuário da justiça, uma arena da lei, de um lado, o gladiador Wally Lima, imbatível promotor; do outro, a raposa dos tribunais de júri, o não menos imbatível, o rábula Raimundo Lima, ou melhor, Dr. Raimundo Lima.
     Escolha dos jurados, nomes rejeitados pelos advogados, nomes aceitos, tudo nos conformes, instalou-se a sessão naquela manhã no fórum Ruy Barbosa, na cidade de Itabuna que culminou quase 72 horas depois.
     Um crime passional cometido por uma pessoa do povo, um tal José Carlos dos Santos, trabalhador rural, conhecido na roda de amigos e inimigos por “Caxinguelê”, um pobre diabo, sem eira e nem beira, mas patrocinado pelo dono da fazenda. Soube-se ainda na leitura do processo que não era má pessoa. Pai de 8 filhos menores, matou a companheira por ciúme e bebedeira.
     O auditório ficou superlotado. Não havia provas robustas que a vítima tivesse traído o marido. Algumas testemunhas: “ouvir dizer...”, “viram-na com papo...“, “bebendo juntos...”, mas nenhum flagra sexual efetivo, nem uma simples troca de beijos, ou, “mão naquilo” e “aquilo na mão”.
     Todo crime é condenável, mas aquele crime não passaria de mais um crime de somenos importância para sociedade itabunense se não houvesse o matreiro Raimundo Lima de um lado e o intelectual promotor Wally Lima do outro, enfim, uma briga de egos com plateia garantida.
     Processo lido, testemunhas, apartes, réplicas, tréplicas, intervalos, tudo dentro do convencional. Dr. Wally sustentou a tese de crime doloso e motivo fútil - ciúme injustificado. Carregou nas tintas, pintou o quadro de um facínora: um péssimo pai de família, um péssimo filho, um pinguço irresponsável, que torrava o dinheiro da feira com cachaça e jogo de azar. A vítima fazia o papel de pai e mãe e, na pedra do rio, ela obtinha o sustento dos filhos lavando a roupa da patroa e fazendeiras vizinhas. Uma mulher guerreira que teve o seu primeiro filho aos 13 anos de idade com esse bruto e aos trinta e poucos anos de vida, ele ceifou-lhe a existência. O homem possuía uma retórica...
     Lia-se na fisionomia da maioria dos jurados e da plateia, pela oratória rebuscada do promotor, que eles entendiam, mas não compreendiam, ouviam, mas não escutavam, raciocínio erudito, mas inútil, como um atleta esforçado, mas desprovido de talento, foi assim o desfecho da tese de acusação do Dr. Wally Lima.
     No último dia do júri, o velho causídico estava inspirado, derrubou a tese do promotor, provou que a mulher traía o marido, conseguiu juntar aos autos um bilhete de um suposto amante, que o réu tinha ao seu favor toda sua comunidade, que o pobre diabo embora gostasse de tomar uma branquinha seria incapaz de matar uma mosca, menos ainda, não possuía dinheiro para comprar um revólver, que a pecha de suspeito foi em decorrência de ser o marido da vítima, que a arma do crime não foi encontrada, que no dia do crime o réu estava bandeirando cacau, testemunhas de defesa ratificaram, etc., etc., etc.
     Uma mulher de meia idade, sentado na primeira fila da plateia, de quando em vez, choramingava baixinho, porém, quando o Dr. Raimundo Lima, a apontava, cobrando dos jurados sensibilidade, justiça com a mãe do pobre coitado, que os filhos da vítima ficaram sem a mãe, que algum desalmado lhe tirou a vida, mas que o Conselho de Sentença não deixasse atrás das grades o único meio de sobrevivência daquela pobre senhora (apontava a chorona) e dos seus netos.
     O resultado foi uma barbada. O réu foi considerado “inocente”, por sete votos a zero. Muito tempo depois, soube-se que àquela senhora não era genitora do réu nem avó das crianças e o réu não era “inocente”.
     O talento fez a diferença, in dubio pro réu...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
 
Att.: sou um frustrado por não ter feito Ciências Jurídicas e Sociais. 

Dona Nancy - R. Santana

 

Dona Nancy
R. Santana
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     Não a chamávamos “professora”, era dona Nancy pra lá, dona Nancy pra cá. Dona Nancy era a professora da escola primária Sagrada Família, um misto de escola e residência. Dona Nancy, uma descendente de negro que rejeitava essa condição com o alisamento cuidadoso do cabelo ou o uso de uma peruca de cabelo liso e a escolha de um sarará pra marido. Os filhos, dois puxaram ao pai na cor e os outros dois à mãe. Usando o eufemismo tradicional, dir-se-ia que Nancy era uma negra de alma branca. Corpulenta e atarracada, ensinava e dirigia a Escola Sagrada Família tão bem que os moradores mais afortunados do Banco Raso e adjacências disputavam vagas para seus filhos. Não conhecia Paulo Freire nem Anísio Teixeira, nem Lauro de Oliveira nem Piaget, nem Vygotsky, nem Wallon, enfim, nenhum revolucionário da didática e da educação, porém, o seu feijão - com - arroz era dado com dedicação e competência, ou melhor, seriedade e cobrança que a molecada saía direto para o ginásio passando pelas terríveis provas seletivas de admissão com louvor. Conhecia bem o português, a geografia, a história, a ciência e aritmética. Tinha uma caligrafia de encher os olhos, por mais que a molecada enchesse páginas de manuais de caligrafia nunca chegava imitá-la. Herdara dos seus pais e avós a metodologia e a didática. O moleque recebia todos os dias, uma quantidade enorme de atividades escolares de disciplinas alternadas que o seu aluno teria que dar conta no dia seguinte e ai daquele que não fizesse suas obrigações escolares, o castigo ia desde a reguada ou mandá-lo de volta aos pais que sua psicologia, sua escola nova, sua pedagogia de Lauro de Freitas, eram um reio de couro cru e uma palmatória de jacarandá com um furinho no meio. Não quero que o leitor me pergunte a ciência desse furinho no centro da palmatória, não lhe saberia explicar, sei que havia uma crença que se colocasse um piolho no meio do furinho, com o tempo, a palmatória se partia em duas... A sabatina de tabuada não podia faltar. Dona Nancy, aos sábados, colocava os alunos em círculo e começava sabatinar todas as lições dadas durante a semana. O aluno que soubesse dava bolo naquele aluno que não respondia à pergunta da professora. Todos eram ciosos do conhecimento pelo prazer ou pela palmatória, não se cultivava a negligência, todos sem exceção, eram potencialmente sábios do seu saber.
 
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     O leitor de hoje, que ler estas páginas, poderá tirar conclusões erradas dessa educação autoritária, mas quero lhe apaziguar o ânimo, dizendo que afora o autoritarismo, às vezes, exagerado, os alunos daquela época possuíam uma consciência cidadã e uma boa formação intelectual e jactavam-se dos seus conhecimentos, muitos anos depois, das novas gerações. As datas cívicas e as tradições eram honradas e festejadas, principalmente, a festa junina, o natal, o 13 de maio, o 7 de setembro e o 15 de novembro. Na festa junina, dona Nancy envolvia toda família na arrumação e decoração da palhoça, na aquisição e armação da fogueira, na formação e ensaio das quadrilhas e na compra de traques, chuvinhas, rojões, pequenas bombas, foguetes, fogos de menor risco. Todos os alunos participavam do menorzinho ao maior, até os pais eram presença quase obrigatória tanto como partícipe e para ajudar na disciplina dos seus diabinhos. A professora pedia com antecedência aos pais, milho, amendoim, coco, leite, açúcar, canela, cravo, ovos, jenipapo, caju, uva, maça, ameixa, laranja, tamarindo e tantas outras frutas e outras especiarias e condimentos. No dia de São João, todos traziam somente a barriga e a disposição de brincar no forró até o dia amanhecer e tanto era a fartura de canjica, bolo de milho, bolo de arroz, pamonha, milho cozido, milho assado, arroz-doce, licores, que o dia de véspera era sucedido pelo dia de São João. O Sete de Setembro era a festa cívica maior. A Escola Sagrada Família descia à avenida com os seus garbosos alunos ao rufar dos tambores. As meninas integravam o pelotão das bandeiras com os seus trajes impecáveis como se estivessem fazendo aquilo pela última vez, tamanha era a dedicação. Era um grupo pequeno de uns cem estudantes da manhã e da tarde, mas que somado aos grupos doutras escolas, pareciam grandes contingentes militares, com trajes de época e algumas alegorias, conseguiam brotar nos assistentes os mais escondidos sentimentos patrióticos. Havia um ponto de saída e outro de chegada comum para todas as escolas, o ápice da festa ocorria quando o desfile atingia o palanque das autoridades que estrategicamente, ficava no meio do percurso. Dona Nancy, baixinha e gordinha, se colocava à frente do palanque das autoridades como uma generala de uma grande divisão.
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     Mentira tem pernas curtas e o mal da mentira, é que tem de se continuar mentindo para justificar a mentira anterior. O mais raquítico dos alunos da 3ª. série e o menos brilhante, Milton Nery, não tinha pais, morava e trabalhava com um tio e dono de bar. Quando voltava para casa, no caminho, encontrou um tratorista negro, conhecido de sua família, terraplanando uma área de aproximadamente 2 hectares, onde seria construído o acampamento do extinto DNER. Moleque crescido, ele ficou olhando àquela montanha de cascalho e terra removida e fazendo ziguezague no lugar, na despedida, Milton Nery deu falta do seu lápis. Apavorado, por desencargo de consciência, comunicou ao negro a perda do seu precioso objeto: - Seu Ademário, eu perdi o meu lápis!... Falou por falar, estava convencido que jamais alguém iria achar um objeto tão pequeno no meio daqueles escombros de terra e tocos de árvores, muito menos se dar ao trabalho de levá-lo em sua casa. Mas foi isso que aconteceu: Ademário achou o lápis e ao invés de entregá-lo, entregou-o ao tio padrasto. Milton não tinha comunicado o sumiço do lápis ao rigoroso tio, preferiu pegar o dinheiro no caixa do bar e fazer a reposição. Dois ou três depois o tio chama-lhe na presença do negro e cobra-lhe o lápis: -Milton, que é de o lápis da escola? -Está na pasta! – foi lá, pegou-o na pasta e mostra-o ao tio. -E este (tinha-o escondido atrás das costas para flagrá-lo), que o seu Ademário achou? – a casa caiu!... Tudo foi esclarecido: acreditando que o lápis não seria encontrado, Milton usou o dinheiro do caixa sem pedi-lo para comprar outro lápis igual no grafite e na estamparia da madeira. Pego pelo brutamonte do tio que justificou sua sanha agressiva de uma dúzia de bolos de doer à alma de vergonha e as mãos por ter pegado uns centavos do seu dinheiro para repor um objeto perdido sem avisá-lo. Milton não o avisou porque sabia que o desfecho seria o mesmo. Doutra feita, esse infortunado aluno, num ensaio de desfile, levou um soco de um menino maior por cobrar-lhe mais atenção na marcha e não pisar-lhe o calcanhar. Milton Nery era um ser desafortunado órfão de pais vivos.
 
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     Final de ano, todos ficavam na expectativa das provas finais, a tensão e a angústia eram enormes. Dona Nancy atrelava o conhecimento ao comportamento. Bom aluno no seu critério de avaliação não podia ser danado, traquino, teria que ser doce e subserviente e que o seu pai fosse generoso na hora de encher-lhe a burra para ajudar os festejos da escola. O aluno com o nariz pra cima, de caráter independente, que não dizia amém, que tinha consciência que estava sendo preterido por não ser filho de papai rico, comia no cabresto, suas conquistas eram frutos do seu esforço e não do beneplácito da mestra.
 
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     Peço licença ao leitor para fazer um parêntesis e contar o segredo de Luiza, antes de continuar falando de sua mãe. Luiza não tinha herdado a inteligência, o caráter forte, nem a cor de dona Nancy. Era uma adolescente branca de cabelo gasto, parecida com o pai. Os olhos graúdos talvez, fossem os únicos genes herdados de dona Nancy. Não era uma deusa da beleza, uma rainha do milho, uma princesinha da cidade, mas era uma adolescente apetitosa, de altura mediana, de peitos empinados, quadris bem feitos, bumbum pronunciado e pernas torneadas. Era uma garota comportada e provida de bons sentimentos. Nutria uma paixão secreta por Milton Nery, o personagem carente desta história. Embora não fosse um jovem malhado de físico exuberante, era branco de verdade, de cabelos loiros escorridos, olhos verdes e rosto corado. E, dizem os sábios que os contrários se atraem, ele e Luíza se atraiam, se amassavam e se beijavam e se escondiam quando a oportunidade pintava.
 
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     Segredo confessado. Faz-se justiça com dona Nancy esclarecer que ela não era uma bruxa malvada ou uma mercenária da educação, talvez, para sobreviver numa profissão que nunca foi valorizada pelo capital, ela tivesse de usar a diplomacia da bajulação com quem tivesse mais. Final de ano. Afora a tensão nervosa da meninada e dos pais, o final do ano letivo era uma festa. A sala cheia, a mestra abraçada por uns e beijada por outros, desfilava na sala como uma rainha que os seus súditos desejavam ouvi-la. Nesse dia, ela de cabelo feito, o rosto retocado de pintura, o melhor sapato e o melhor vestido, ela não era tão feia quanto lhe parecesse na labuta diária da sala de aula. Lembro-me que por deferência, Nancy concedia a fala de abertura ao Sr. Inspetor do ensino estadual, remota figura que não existe mais. O preclaro senhor fazia uma extensa preleção das novas leis e as novidades da educação, das virtudes profissionais da professora, da responsabilidade dos pais e do futuro promissor dos seus meninos crescidos: o homem era um xarope!... As provas eram entregues num envelope grande, pintado, desenhado e na sua parte superior a imagem de um pombo com um galho de oliveira no bico e o nome em letras góticas do aluno. Terminada a fala de da regente, o aluno mais sabido falava em nome de todos e era concedido aos pais o direito de dizer alguma coisa que sempre era declinado e começava aí a entrega das provas. Não havia aluno reprovado, o reprovado desistia no meio do caminho. Ela também se recusava dizer a média final do aluno, era um segredo dele e da família, justificava que quantidade não é sinônimo de eficiência. Dona Nancy chamava à mesa, individualmente, os alunos da primeira série até os alunos formandos da 5ª. série. Estes além das provas recebiam um diploma de letra desenhada. Com voz clara e firme, ela, Nancy de Assis, convocava e entregava ao seu aluno, o seu futuro:
     -Maria! -Ricardo! -Samuel!...
 
 
Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro: Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google

O assalto - R. Santana

 

O assalto
O assalto
R. Santana

Um dito do povo diz que “pimenta no olho do outro é refresco”, não me tinha dado conta disto até um mês atrás, quando na saída do banco, fui assaltado por um gajo alto, franzino, vestido de jaqueta, que me deixou traumatizado, estressado, com síndrome do pânico e medo de andar na rua. Hoje, não saio mais de casa sozinho, sobretudo, ir ao banco sacar alguns trocados pra feira, jogar conversa fora com os amigos ou tomar um shop na praça de alimentação do Shopping Jequitibá, estou pouco e pouco, tornando-me antissocial, um misantropo a pulso.
Porém, amigo leitor, eu atribuo os maus bocados que passei aos meus saudosos professores da língua portuguesa que preocupados com as filigranas da língua, ensinaram-me o culto e desprezaram o vulgo, aí, nem aprendi a língua culta, muito menos, a linguagem do malandro, portanto, faz-se necessário dizer aos estudiosos atuais do português que aprendam a sabedoria do bandido e não façam pouco das lições do ENEM!...
Bem, leitor, como diria o prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, deixemos de lado os “considerandos” e partamos para os finalmente:
- Mano, passe o bobo! – O revólver cutucando as minhas costas...
- O quê?
- O redondo!
- Mas, eu nunca dei... – Desapertando o cinto...
- Véi, não é isso não! – Acrescentou:
- O relógio, véi! - Ufa!... Dei-lhe o relógio e ameacei sair...
- Fica na manha, véi, senão, pipoco!
- Eu já lhe dei o relógio! – Tomei fôlego.
- Passe dindin! – Dei-lhe os últimos trocados.
- Fuleiragem, véi!
- Hein!?
- Quero dindin, não couro de rato!
- Foi o que sobrou da luz e da água!
- Papo de elefante, véi!
- Depois que paguei as contas... – Quase chorando.
- Tá tirando onda comigo, véi! Quer comer capim pela raiz!? – Cutucou o revólver ainda mais, e, acrescentou:
- Isto aqui (com o dinheiro na mão) não paga uma pedra, to na seca, como vou curtir um barato, véi!?
- Juro por Jesus Cristo! Não tenho mais um níquel!...
- Fica na moral véi... – E, como se estivesse falando pra si:
- L`oruló babá ómó, ati ómo mimó. Amim!... – Não entendi bulhufas, mas sei que foi providencial:
- Pintou os canas véi!!! – Deu-me um trompaço...
O bandido correu doidamente. A polícia não lhe deu trégua, pega aqui, pega acolá, enfim pegou-o, enquanto isto, os populares me ajudavam levantar do chão e me crivavam de perguntas que eu não sabia responder, eu não queria responder, aliás, eu não tinha voz nem cabeça para respondê-las...

Gênero: Conto.
Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Susan “Boyle” R. Santana

 

Susan “Boyle”
R. Santana

Não tenho o talento de Morris West, o escritor australiano, que tão bem descreveu o conflito de um bispo na canonização do seu principal personagem, no seu livro: “O advogado do diabo”, mas quero fazer a defesa sem ser convidado dos jurados Simon Cowell, Piers Morgan e a linda loira Amanda Taylor que debocharam e desdenharam discretamente, num primeiro momento, de Susan “Boyle”, no programa Britain´s got talent. Os coitados dos jurados não tiveram culpa a priori, quem levaria a sério uma senhora sueca dos rincões de Blackburn, de cabelos grisalhos, gorducha, desengonçada, quarentona com roupas e trejeitos de sessenta perseguindo o sonho de ser cantora à Elaine Paige, uma atriz e cantora de sucesso na terra da rainha Elizabeth II? Ninguém! Os hipócritas e os cínicos diriam o contrário, porém, cínicos e hipócritas não têm compromisso com a verdade. A imagem impressiona, todos nós cometemos o pecado de julgar as pessoas pela aparência por mais que desejemos não ter idéias preconcebidas. A estética, a beleza física e a boa aparência predominam nas relações primárias do homem, porém, é necessário esclarecer que a beleza física em si não se sustenta todo tempo, mas algum tempo. Os condimentos de inteligência, talento, cultura, polidez e bom caráter são fundamentais para que a beleza física de uma pessoa se sustente. Sócrates, Gandhi, Einstein, Martinho Lutero, Napoleão, Bérgson e Gengis Kahn ou Gengis Cão, não eram modelos de beleza, mas dividiram a História e ganharam o mundo, foram homens do seu tempo, com inteligência, com sabedoria, com perspicácia, com liderança, com bravura e com amor. O preconceito é apanágio da natureza humana assim como outros sentimentos nocivos. A instrução, a educação, a cultura, a sociedade e os instrumentos jurídicos penais atuais, ajudam moldá-lo, inibi-lo, jamais erradicá-lo. O pobre, o feio, o deficiente físico, o deficiente mental, o negro, o índio e o velho, sempre vão ter pessoas para virar-lhes a cara, torcer-lhes o nariz, olhá-los de soslaio, de esguelha, ou cumprimentá-los com a ponta dos dedos. Em certo trecho da liturgia católica o padre pede que todos se cumprimentem com a mensagem: “o amor de Cristo nos unindo”. Se alguém colocasse uma câmara invisível nessa parte da liturgia, ficaria pasmo com os gestos discretos de esforço que alguns fazem para abraçar o irmão, muitos não arredam pé do seu lugar para cumprimentar o outro, mais alguns passos adiante... Lembro-me de um episódio em que um motorista do antigo DNER ao encontrar um negro na sala do seu chefe, o Dr. Pedro Bastos, inquiriu-lhe com desdém: “... negrão aonde foi Dr. Pedro?”, à medida que o engenheiro-chefe não chegava, ele foi se ousando: “...negrão tire a bunda dessa cadeira e vá procurar o chefe!”, caiu do cavalo quando alguém lhe disse que aquele negro esquisito era o diretor regional do extinto DNER , hoje, DNIT, consequentemente, chefe do seu chefe. Doutra feita, eu vi um eletricista se descabelar para ligar umas fluorescentes em série enquanto um moleque amarelo, desprezível, o olhava por baixo, intrigado com sua incompetência e quando lhe esgotou a paciência, ele com jeito se ofereceu: “O senhor deixa, eu tentar?...”, o pedido em princípio não foi aceito, na casa do sem jeito, o velho eletricista cedeu com desconfiança, depois de olhá-lo cismado. O Zé Aparecido subiu com destreza na escada, puxa fio daqui puxa fio acolá e minutos depois ele autoriza: “Ligue!”, para surpresa dos que não lhe confiavam um tostão furado, o salão ficou todo iluminado com a incandescência de sua meia dúzia de fluorescentes. Porém, o fenômeno Susan “Boyle” é fantástico, suis generis, jamais alguém vai galvanizar a revolta de tanta gente em todos os continentes da Terra pelo descaso e deboche que ela foi recebida no Britain´s got talent. Todavia, a própria Susan “Boyle” nos deu a resposta, demonstrando humildade, simplicidade, segurança e desenvoltura. Ela não chegou ao show de talentos, agachada ou derrotada, em determinado trecho do vídeo do You Tube, ela diz: “Vou fazer esta platéia tremer” e quando Simon Cowell torceu o nariz pela resposta que ela lhe deu de sua idade, literalmente rebolou e disse-lhe: “Isto é apenas uma parte de mim”, isto é, demonstrou mais uma vez, esplendorosa segurança que não é comum aos débeis e aos incautos. Machado de Assis e Tobias Barreto, apertados na cor, eram insociáveis, tímidos, mas quando a ocasião se fazia necessária, deixavam os seus complexos de lado e assumiam os seus talentos na arte da escrita ou da eloquência como gigantes fustigados, mas não extenuados e acabados. Evocando o dito popular: “Por causa de uma cara feia se perde um bom coração.” Então, buscando no egrégio pensador Henry David Thoreau: “As coisas não mudam, nós é que mudamos” ou “Nunca é tarde para abrirmos mão dos nossos preconceitos”. Viva o exemplo Susan “Boyle”!...

Autor: Rilvan Batista de Santana - ALITA Gênero; Crônica.

À Dra. Adriana Vandoni Curvo - R. Santana

 

Itabuna, 09 de junho de 2008.
À Dra. Adriana Vandoni Curvo:
Preclara Senhora:

Doutora Adriana, como é importante vivermos num país em estado democrático e de direito! Onde há liberdade de expressão e as liberdades individuais são preservadas e depois das 18 horas, o mais vil assassino é respeitado em seu domicílio! E, as pessoas podem atingir a honra de um presidente da República e nada lhe acontece!... Recebi o seu artigo intitulado: “Presidente, vá se foder!”, acrescido de sua biografia de professora de Economia e especialista em Administração Pública pela FGV/RJ e um pedido em letras maiúsculas em vermelho para passar o e-mail adiante, não o fiz (os incautos poderão fazê-lo), e não o farei não que discorde do cerne do seu pensamento, que não seja mais um brasileiro descontente. Mas, com a devida vênia, discordo da pobreza de argumento do seu texto sem falar nos termos chulos e desairosos usados. Não sou do PT, nunca fui eleitor do Sr. Luis Inácio de Silva, não pelo fato dele não ser intelectual (eu também não sou intelectual), mas por não gostar das atitudes xiitas do seu partido e do seu proselitismo demagógico. Todavia, como brasileiro e respeito às instituições, em particular, a instituição da “Presidência da República do Brasil”, chamá-lo de cachaceiro e usar termos de baixo calão, obsceno, atitude assim, não contribuirá para elevar as exportações, para melhorar o nosso poder aquisitivo, para reduzir a inflação, para diminuir o desmatamento, melhorar o meio ambiente, reduzir a fome e a miséria, ao contrário, atitude desrespeitosa assim, servirá para denegrir o nosso país perante o mundo e continuarmos com a pecha e o estigma de povo subdesenvolvido e atrasado. Acredito que com sua formação intelectual, a senhora poderia contribuir com projetos na área econômica que atendessem aos anseios e às necessidades do povo, projetos na área energética que dentre em breve será o calcanhar de Aquiles de todas as nações pela diminuição dos recursos naturais, projetos para triplicar a produção de alimentos etc. e etc. Mandar um chefe de estado “se foder” é nivelar-se às pessoas mais rudes e mais grotescas que não tiveram os princípios mais ínfimos de educação, polidez e civilidade. A crítica humorada e inteligente sempre permeou na imprensa, nas charges, no pasquim, nos tablóides, em todos os governos e em todas as épocas. Muitas dessas críticas serviram para mudar o rumo da nossa história de pátria, de liberdade. Quem não lembra do chamamento do “último exilado” de Jô Soares? Críticas sutis e ardilosas que dobravam qualquer ditador de plantão, mas falar de “algumas doses” e da moral de um presidente e sua família, é mais do que “simplesmente corajosa”, é leviandade de expressão e falta de respeito ao cargo supremo do país. Viva a democracia e o estado de direito!!! Atenciosamente, Rilvan Batista de Santana

Nota do autor: Peço ao leitor que considere esta carta como de valor literário. A História não pára, hoje, são outros atores, novos personagens...

Judite - R. Santana

 

Judite
Judite
R. Santana

                                                                                            I

Quando a conheci nos últimos anos da década de 70, ela já era uma mulher madura, deveria ter uns 45 anos de idade. Altura mediana, forte sem ser gorda, de pele trigueira, cútis lisa, sem marcas de expressão, olhos esverdeados, um sorriso solto e uma predisposição inata de servir quem quer que lhe procurasse, não importava o dia e a hora. Ninguém do Jardim Primavera, jamais lhe ouvira dizer: - não! – parecia que seu tempo era superior ao tempo dos demais mortais. Ninguém nunca lhe vira doente ou com queixumes.
Os adultos e os mais velhos chamavam-na de “dona Judite”, a molecada de “tia Judite”, os mais íntimos, de “mãe Judite”. Todos respeitavam-na. Não tinha filhos legítimos mas era a mãe legitimada daquela meninada circunvizinha. Às vezes, sua casa estava alegre, em polvorosa, com vários moleques, comendo e brincando. Quando havia necessidade, ralhava com dureza de mãe e coração de avó:
-Pedrinho meu filho, você vai quebrar o espelho com essa bola! – era sua bronca
Pouco se sabia de sua origem. Sabia-se que tinha ficado viúva ainda nova, de um funcionário graduado do governo federal e jamais quis contrair novas núpcias. Não foram poucos os pretendentes que deram com a cara na porta, quando não sabiam distinguir o interesse homem e mulher duma amizade.

                                                                                            II
Falava-se que era filha de uma rica e tradicional família do Rio Grande do Sul. Fazia 10 anos que se mudara para cidade de Itabuna, interior da Bahia. Quando chegou do Sul foi morar com o marido (recém aposentado), no município de Camacan, na rua de Mascote, centro da cidade, numa confortável e aprazível casa. Tinham sido atraídos pela fama do cacau. Aposentado, o marido dela, o Sr. Júlio Medeiros, tinha comprado uma propriedade rural nesse município, com a intenção de investir os recursos economizados na vida pública e não ficar ocioso. Mas, não afeito às carraspanas do campo, morreu dois anos depois de febre tifóide. Sozinha, vendeu os bens e mudou-se para Itabuna.
No final de cada ano letivo, ficava com a casa cheia de sobrinhos e sobrinhas que costumeiramente, vinham passar as férias na casa da tia “baiana”, apelido carinhoso por ter adotado a Bahia e não o Rio Grande do Sul, para viver e morrer. Quando cutucada, justificava:
-Quem bebe a água dessa terra, fica presa por um cordão umbilical invisível. Vocês depois de formados mudarão pra aqui de mala e cuia. Duvidam? – os sobrinhos ficavam calados.

                                                                                            III

Hoje, mais de três décadas depois, acho que dona Judite era uma santa. Não sou santófilo - não sei se existe este termo, se não existe, estou adicionando à língua, afinal, isso não é apanágio só de Guimarães Rosa, os pobres mortais também têm esse direito -, ou seja, não acredito que alguém beatificado e canonizado, torne-se santo a oferecer graças e milagres, mas acredito numa vida santa e testifico-lhe, depois de tanto tempo, que essa mulher teve uma vida santa.
Era católica sem ser piegas. Ia à igreja quase todos os dias, mas sem farisaísmo, ia porque gostava de viver em oração, não para demonstrar ao vizinho da frente ou de lado sua religiosidade. Ia como se estivesse assegurando os ensinamentos proféticos que a fé sem a obra é inócua.
Judite tinha uma missão. Não a missão de sua xará judia que decapitou a cabeça de Holofernes para libertar Betúlia e por extensão seus irmãos de raça. Mas, a nossa Judite teve a missão de matar a fome dos necessitados, minorar o sofrimento dos doentes, enxugar as lágrimas dos desesperados, levar conforto ao idoso, sorriso à criança, companhia ao solitário e ajudar alguém encontrar o seu caminho, usando a arma do amor.
Tinha uma vida discreta, sem ostentação, quando alguém lhe questionou por que não fundava uma instituição para atender maior quantidade de pessoas, respondeu:
-Não sei lidar com essas coisas, além disso teria que conviver com políticos que não comungam com os mesmo ideais e que não são solidários com os menos favorecidos. Não tenho vocação política. – o interlocutor insistiu:
-Dona Judite, é ficar em cima do muro e apoiar o vitorioso.
-Meu filho, não é preciso. Deus dá o frio conforme o cobertor. A minha solidariedade é do tamanho do meu merecimento, se não faço mais pelo meu semelhante é que o meu merecimento não condiz. Alguns abnegados usam esse disfarce político em nome da caridade, porém, falta-me jeito, não tenho coragem...

                                                                                            IV

O dia despertou normal e alegre. Cedo ainda o sol já penetrava nas frestas das janelas e das portas da maioria daquelas casas populares do Jardim Primavera. Judite não esquentava cama, levantava-se todos os dias mais cedo do que suas duas auxiliares da labuta doméstica. Não tinha marido e nem filhos para cuidar. Podia se dar ao desfrute de acordar com sol a pino, mas por mais que desejasse gozar desse ócio não conseguia. E, se o hábito é uma segunda natureza, Judite, chovesse ou fizesse sol, às 5 h, já estava em pé no trabalho da casa.
Pela manhã, Judite socorreu uma vizinha, que deixou o seu filho mais novo aos seus cuidados, enquanto ia ao hospital cuidar da saúde do mais velho. Era comum suas vizinhas, principalmente as que tinham filhos menores, socorrerem-se dela. Doida por criança, sublimava suas frustrações por não tê-los tido, emprestando seu colo aos filhos daquelas mulheres que precisavam atender suas eventuais necessidades. Noutro dia:
-Comadre Judite, você fica com Marquinhos enquanto irei participar de uma entrevista de emprego da CACAU & CHOCOLATE S.A.?
-Comadre Maria, não precisa pedir. Se eu não estiver, deixe-o com as meninas, quantas vezes forem necessárias, já lhe disse! – ela não tinha problema, tinha solução.
O dia já entrava no crepúsculo vespertino, quando alguém toca a campainha de sua casa, gritando socorro:
-Dona Judite!!!... - ela saiu dos fundos reclamando:
-O quê foi Paulinho? Quer me matar de susto, seu diabinho!...
-Mamãe mandou chamar a senhora. A casa de dona Flor está fumaça pura, parece que estar pegando fogo!... – fez o moleque esperar somente o tempo de vestir uma calça e trocar as sandálias por um sapato fechado – Vamos Paulinho! – saíram em debandada.
Havia mais fumaça do que fogo. Alguém já tinha ligado para o Corpo de Bombeiro. A casa ainda continuava fechada e o pessoal atônito, receoso em invadi-la. Parecia que não havia ninguém no imóvel, ledo engano... Quando o fogo começou colocar a língua de fora, eis que surgem dona Judite e Paulinho. Ele, com um palmo de língua do lado de fora como um cachorro cansado; ela, esbaforida, cansada, porém, num relance de olhos, juntou as energias latentes que tinha e começou dar voz de comando:
-Vamos amigos!!! – e, num gesto felino pulou o muro.
O exemplo fica. Os indecisos começaram também, pular o muro da frente, o que separava a casa da rua e sem muita dificuldade, adentraram no seu interior, seguindo os passos, o exemplo e a voz de comando de dona Judite.
Porta e portão escancarados, sem muita organização, mas com excesso de solidariedade, latas e baldes de água foram jogados no fogo que teimava em se arrefecer, em certos cômodos, apresentava-se com mais entusiasmo. Porém a turba não deu moleza, minutos depois, que pareceram infinitos, o mal estava debelado. A fumaça é que ainda resistia deixar o ambiente.
Judite conhecia a casa de olhos vendados, não foi difícil descobrir donde vinham um choro desesperado e uns gritos de socorro e, com ajuda de dois ou três voluntários, arrombaram a porta de um dos quartos dos fundos da casa. Ainda não havia fogo, porém, a fumaça pouco e pouco ia tomando conta do recinto e por mais desesperada que fosse a situação, teve equilíbrio e discernimento para orientar os demais:
-Juca, leve o menino maior! Marly, tome essa criança, deixe a outra comigo!... – assim, num átimo de tempo, as tarefas foram distribuídas.
Na rua, as palmas e as vaias se confundiam, é que a chegada atrasada dos bombeiros coincidiu com a aparição na porta de Judite, Juca e Marly, cada um trazendo nos braços uma criança. Provocou no povo um sentimento simultâneo de alegria e revolta. Júbilo pela salvação das crianças e revolta dos moradores pela demora dos soldados do fogo, homens acostumados enfrentar e dominar grandes sinistros, tão necessários nesses infortúnios.
Como profissionais zelosos, fizeram ouvidos de mercador. Inundaram a casa de água, eliminando os possíveis focos de fogo. A demora foi explicada: estavam em serviço, tentando evitar um maluco se jogar de um edifício por ter perdido sua mulher. E, como só havia uma viatura disponível no quartel, em circunstâncias sinistras simultâneas, priorizavam atender os casos começados. Em seguida, com a chegada de uma ambulância, socorreram às pessoas que mais fumaça tinham inalado e estavam com a respiração comprometida, as mais sofridas eram uma criança de colo e dona Judite.

                                                                                        V
The day after, os fatos do sinistro foram esclarecidos: os donos da casa tinham ido ao centro da cidade às 14 h. Ele, para atender o chamamento duma empresa distribuidora de produtos alimentícios para um teste de motorista; ela, comprar um remédio de uso contínuo na Farmácia do Povo. Como era costume, em viagens curtas e para protegê-los, deixavam seus filhos com brinquedos, trancados no quarto dos fundos enquanto voltavam. Porém, naquele dia, um curto circuito na velha instalação, tinha sido a causa daquela pirotecnia que com ajuda de Deus e do povo, especialmente dona Judite, seus filhos não tinham morrido sufocados de fumaça ou carbonizados.
Judite não tivera a mesma sorte, com um histórico de doenças respiratórias crônicas e ter inalado muita fumaça, morreu um dia depois de hospitalizada, assistida por alguns parentes e muitos amigos.

                                                                                            VI

A moribunda, entubada, com a respiração ofegante, ainda lúcida para perceber que na vidraça do Centro de Terapia Intensiva, muitos rostos se sucediam e muitos gestos eram feitos com desejos de sua cura. Não podia falar por causa dos aparelhos mas de quando em vez acenava com os dedos abertos em V de vitória. Não a sua vitória, porém, a vitória de ter salvo a vida de três criaturinhas de Deus.

                                                                                                VII

O pátio e os corredores do hospital Sta. Cruz estavam lotados de gente apreensiva com notícias freqüentes do agravamento clínico de Judite, quando um preposto veio anunciar que ela teria tido uma parada cardíaca irreversível em decorrência da agravante insuficiência respiratória:
-Senhores, a paciente Judite Santos e Medeiros, teve uma parada cardiorespiratória e entrou em óbito. A direção solicita que os parentes compareçam à secretaria. Nossas condolências e boa noite!

                                                                                            VIII

O cortejo ia subindo a ladeira em direção ao cemitério com centenas de pessoas orando e cantando cânticos de despedida quando alguém que não era do meu convívio se aproxima e pergunta-me:
-Quem morreu?
-Um anjo!... – respondi-lhe abruptamente.
-Anjos não morrem, senhor! – respondeu-me.
-Tu tens razão garoto, anjos não morrem!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: conto
 

O enigma - R. Santana


O enigma
O enigma
R. Santana

I
Era um casal menos jovem e mais maduro. Ele beirando os 42 anos de idade, ela, na faixa dos 38 anos com aparência de 30. Ele, escravo dos prazeres da vida. Ela, escrava da beleza. Ambos errados e ambos certos na vida que levavam, mas separados por convicções íntimas e contrárias. Ele condenava sua vida de renúncia e sacrifício para prolongar o encontro com o nada . Ela condenava sua vida farta e fútil para chegar mais cedo ao nada.
José Roberto Sampaio e Helena Santos Sampaio, para os amigos e não amigos por JR e Lena. JR, branco, alto, forte, cabelos entremeados de fios brancos e empregado público. Lena, morena, altura mediana, magra, cabelos de cor indefinida, às vezes castanhos, pretos doutras vezes, loiro e cor de mel quando estavam na moda Se não tinham um casamento sonhado, sonhavam em manter-se casados. Aos trancos e barrancos, na falta e na fartura, na tristeza e na alegria, na doença e na saúde, eles já tinham quase duas décadas juntos, comendo o mesmo sal, com as escovas de dente no mesmo armário e dormindo na mesma cama, exceto, quando o bafo de bebida de JR era insuportável. Enfim, um modelo de casal encontrado em qualquer lugar do mundo.

II
Não tinham filhos. No início do casamento, Lena tivera algumas perdas a contragosto. Quando a gravidez começava, ainda no primeiro mês ou no segundo mês, por motivos banais, quando Lena menos esperava, descia uma enxurrada de sangue em suas pernas anunciando o aborto involuntário. Tinha feito vários tratamentos, pensou até fazer uma inseminação artificial, mas desistiu diante dos custos, considerando também que naquele tempo o processo de inseminação artificial, do bebê de proveta, estava em fase incipiente mesmo em alguns centros médicos especializados.
JR e Lena começaram racionalizar: se Deus não lhes dera um filho é que o filho não seria a solução, mas parte dum problema existencial. Os anos foram passando, outros problemas exigindo solução e o desejo e o capricho foram esquecidos.
Ultimamente, ele só chegava a casa mais embriagado do que sóbrio. Depois do trabalho, ele e mais alguns colegas, sentavam-se no bar mais próximo, depois de alguns copos de cerveja ou de duas ou três talagadas de cachaça, conhaque ou whisky, estavam prontos para discutir e solucionar os problemas do Brasil e do mundo.
As discussões entre JR e Lena, nessa época, ficaram mais acirradas e azedas. Ela o culpava da vida dissoluta e irresponsável, com colegas, mulheres e barzinhos, que ele estava levando. Ele a culpava de ser uma pavonácea, refém de cosméticos e cremes, perseguindo uma beleza e um tempo perdidos.

-Lena, nós somos as uvas preferidas de Deus... Você já observou o seu processo de envelhecimento? – Lena estava com vontade de mandá-lo pra cucuia, mas quando se falava em “velho”, “envelhecimento”, “envelhecer”... seu medo e seu complexo eram mais fortes do que sua lucidez.
-Não entendi seu pinguço!... Por quê somos as uvas preferidas de Deus? – Lena estava azeda. Se não fosse a curiosidade atiçada por JR em comparar uva com ser humano, não lhe daria nenhuma trela, ultimamente, deixava-o conversando sozinho na maioria das vezes.

-È fácil querida observar como as uvas envelhecem. Novas, são viçosas, verdes ou vermelhas, elas têm uma cor viva, uma membrana lisa, hidratada, delicada, empencada e feliz, a fruta mais bela que a natureza pintou. À medida que vai envelhecendo, vai murchando, perdendo o viço, escurecendo a cor, desidratando, textura enrugada, virando passas...
O homem é a uva preferida de Deus. Dotou-o de bom senso, sabedoria e inteligência, mas não lhe poupou do envelhecimento e da consciência da morte.
Também, à medida que envelhece vai perdendo o viço, murchando, perdendo a cor, desidratando e enrugando a pele, perdendo os músculos, morrendo por dentro, secando... – Lena estava absorvida com a veracidade da semelhança. Nunca tinha prestado atenção que o homem e a uva envelhecem murchando... Todavia, não iria lhe dar mão à palmatória:

-O homem tem recurso para retardar o envelhecimento não se pode comparar com uma uva!... – argumentou.

-Não adianta. Retarda, mascara, puxa daqui, estica acolá, mas se novo não morre, a velhice é conseqüência e, o desfecho é parecido. Por isto, alguém já disse que seria bom se todos morressem jovens e bonitos! – disse-lhe JR.

-A ciência evolui dia-a-dia, não duvido que o homem não progrida a ponto de encontrar um elixir da juventude e de longa vida, uma panacéia para todos os males...


III


Aquilo não estava certo, porém, o pecado carnal e a libido eram mais fortes. Pela segunda vez tinha tido àquela mulher nos braços. Não tinha havido nada além de uns beijos ardentes e apaixonados e se não fosse sua mãe barulhenta, teria chegado à hora H. Se não fosse sua mãe, desta vez, os seus instintos carnais e os dela teriam sido. consumados. Bafejado pela sorte, Neto ainda teve tempo de justificar a presença de D.Lena naquela manhã em sua casa e não ser flagrado:

-Mãe, dona Lena vai me dar banca de português... – adiantou Neto.
-Menino, qual dinheiro que tenho pra pagar banca?
-Não é preciso dona Josefa. Neto tem feito muitos mandados pra mim sem cobrar um níquel, além dele colocar em ordem as tralhas do meu quintal e limpar a minha garagem.- acudiu Lena.
-Não sabia que vocês eram tão amigos! Quê hora tu faz isso pra dona Lena, Neto?
-À tarde, mãe, quando não estou na escola e a senhora está no trabalho. – Realmente. Lena foi lhe pedindo um favor, depois mais outro, inclusive, com o assentimento do marido em que a coisa foi tomando corpo e compromisso.
Um toque aqui, outro acolá, um olhar indiscreto, um seio à mostra, uma coxa a descoberto, romperam a timidez e os escrúpulos morais de Neto e Lena passou ser a mulher dos seus sonhos eróticos. E, se não fosse sua mãe, naquela tarde, os seus sonhos teriam sido transformado em realidade pela cumplicidade de ambos.
Emanuel Augusto Neto era um adolescente com cara de adolescente de 16 anos de idade. Compleição e altura acima de sua faixa etária, um pouco mais baixo que JR. Filho único de dona Josefa, não tinha outra obrigação naquela idade a não ser estudar, cuidar da casa na ausência da mãe e jogar bola nos finais da tarde quase todos os dias.

IV

-Juca, rendo-me aos desígnios da natureza feminina. Por mais que eu pense não consigo desvendar a alma da mulher. A minha por exemplo, nesses três primeiros meses está tão diferente, tão compreensiva, amiga, bem melhor do que quando começamos namorar. – desabafou JR.
-JR, não existe nenhum enigma, nenhum mistério. Lena está mais madura, centrada, estar tendo consciência de sua importância em sua vida. Embora você tenha seus defeitos, é com você que ela se acha... - explicou o amigo de JR.
-Sei disso Juca, à medida que ficamos mais velho, os impulsos vão diminuindo, os desejos arrefecidos, a cabeça no lugar... Mas, nada disso ocorreu com Lena. Ela continua vaidosa, brigando com cada ruga, emperiquitada de manhã à noite, fogosa na cama, mas com um senso de humor e uma felicidade surpreendentes. Às vezes Juca, penso que é sua irmã gêmea que tomou o seu lugar com um temperamento e um caráter diferentes. Como ela não tem irmã gêmea, o mistério permanece...

V

O chamego tinha virado xodó. Era Lena lá e Neto cá, principalmente, quando o marido e a mãe não se encontravam. Os cochichos maledicentes dos vizinhos não eram mais segredos, como em toda situação parecida, o marido e os pais são os últimos a saber, às vezes, nunca sabem e ninguém tem coragem de meter a mão em cumbuca. Quando alguém aparece querendo denunciar, cônscio de estar prestando um grande feito, é logo admoestado:

-Seu Zeca se eu fosse o senhor diria ao seu JR essa safadeza!
-D. Nina, ainda bem que a senhora falou se, se... se eu fosse a senhora não me meteria nessa casa de marimbondo. Primeiro, porque não viu nada, não pode provar nada; segundo, o marido dela anda com o moleque pra cima e pra baixo como um filho que não teve; terceiro, entre o marido e a mulher não se mete a colher. Se for um corno manso, além de achar ruim, vai lhe chamar de fofoqueira e desocupada e se for um corno brabo, poderá dar cabo da mulher e do moleque. O melhor dona Nina, é que deixemos como estar pra ver como é que fica... – ninguém da rua falou mais do assunto.

VI
JR tinha chegado mais cedo naquele dia. Encontrou a mulher mais alegre do que pinto no lixo. Seu pressentimento é que se sua sogra viria passar uma temporada com a filha, não quis precipitar–se, deixou que as coisas acontecessem, sua prudência foi recompensada:
-Jota, querido, tenho uma coisa pra lhe falar! – anunciou Lena.
-Sou todo ouvido!...
-Eu quero lhe falar no quarto, depois que fizermos amor...
-Você está me deixando nervoso!... derreteu-se JR..
Depois de muito affair e JR tomar uns dois goles de whisky, Lena conta para seu esposo que estava com dois meses de grávida e não lhe tinha ainda falado por não ter certeza. Acreditava que fosse uma irregularidade menstrual, e a gravidez fosse como tantos outros rebates falsos. Somente com os exames médicos em mãos é que se encheu de coragem. Agora, estava lhe contando e que ele não propalasse aos amigos para não ocorrer como doutras vezes que a gestação gorava e era grande sua frustração e a dele.
A alegria de JR para os colegas foi contida, graças aos veementes apelos da mulher para que deixasse naturalmente a barriga anunciar-se. Quando tivesse com cinco ou seis meses de grávida, sua protuberância abdominal, naturalmente, chamaria à atenção dos colegas e conhecidos. Na sua idade, e sendo o primeiro, seria alvo de exclamações e admiração “tu estás grávida?”, “JR você é um danado!”, “enfim, uma boa descoberta!”, por isto, JR engoliu seco, deixou as coisas acontecerem, confiava na intuição da mulher.


VII


-Tu estás grávida? – perguntou Neto.
-Estou grávida. – respondeu-lhe Lena.
-JR já sabe?
-Sim! E, é todo alegria. Só fala nesse filho... – foi a última conversa de Lena e Neto.

VIII

Sobre à mesa, em sua repartição, JR encontrou mais uma vez uma carta fechada, com poucas palavras e nenhuma explicação: “quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio”. Um enigma. Parecia mais uma charada do que uma denúncia. Era a terceira vez que chegava ao seu local de trabalho, uma missiva lhe endereçada. No início pensou que fosse alguma brincadeira de mal gosto de algum colega. Porém, depois de muita pergunta e especulação, concluiu que não era arte de nenhum colega. Além disto, ninguém em seu trabalho sabia da gravidez de Lena. Se Lena não estivesse grávida, teria dado menos importância àquela lúgubre mensagem e jogado-a no lixo. Mas o diabo da mulher apareceu grávida de um momento pra outro, depois de tantos anos e tantas perdas...
Ultimamente, andava triste, soturno e macambúzio. Tinha deixado até de ir tomar às saídas do trabalho, um trago com os colegas. O pessoal da repartição estava preocupado e sem condições de ajudá-lo, pois ele não se abria, por mais que eles perguntassem. Desculpava-se que não estava bem de saúde e não queria que a mulher soubesse. Um dos colegas ainda ousou-se:
-JR é nessa hora que a mulher tem que participar. Ela não respondeu: “... na saúde e na doença, na alegria e na dor...”, quando o padre fez o casamento? – JR terminava achando graça.
-Flávio você é um pilantra. Eu preocupado e você com os sacramentos do padre!... Faz tanto tempo que nem me lembro o quê respondi e muito menos as juras de Lena. Tem coisa Flávio, que a cumplicidade dói, é melhor que cada um carregue seu fardo. – assim, JR encerra o seu drama íntimo e impede que as especulações prosperem.

IX

Sete meses. Não era mais possível Lena esconder a barriga e não era necessário. Teve uma certa apreensão inicial em decorrência da idade. Suas colegas ficavam galhofando dela e do marido:

-Ah!!!... Agora que esses dois abriram o bico quando não mais tinham como esconder hein?... Você, JR, estava preocupado era com isso? Com um filho?... – era o tempo todo gozação dos colegas e amigos.

Lena já não mais tinha sossego. Fazia uma camisinha hoje, uma toca amanhã, uns sapatinhos de crochê depois... não parava a máquina de costura. Quando sobrava um dinheirinho extra, completava o enxoval com vestuário pronto das lojas.
Tinha se acostumado à rabugice do marido, seu enfezamento inexplicável, atribuía ao fato dele ser pai depois dos 40 anos de vida. Às vezes, ele estava feliz, fazendo planos para chegada do rebento, de outras vezes, se fechava em seu mundo e suas respostas eram monossilábicas, quando se dava ao trabalho de respondê-las.


X

Naquele dia JR tinha acordado bem humorado. À noite, tinha feito amor, tomando todos os cuidados e posições para não ser um estorvo na barriga da mulher. Tinha-lhe levado café na cama e impediu-lhe que saísse dela:

-Descanse querida, basta o prazer que você me proporcionou toda noite. Se prepare hoje, quero repetir a façanha de ontem, agora que deixei de extravagâncias, estou doando testosterona!... - brincou ele.

Existem pessoas que não nasceram pra ser feliz. Se o infortúnio e as desventuras as perseguem seus sensores e desconfiômetros ficam alertados a maior parte do tempo. Se tudo lhe vai bem na vida, algo interior diz-lhe que não existe tempo bom que não se acabe e JR nunca soube lidar com isso.
Logo naquele dia de céu limpo e azulado sem prenúncio de chuvisco, chuva, muito menos tempestade, que ao sair de casa, por debaixo da porta, alguém jogou um diabinho de um papel, jeitosamente dobrado em quadro com o seguinte veneno: “corno manso é pior do que corno de goteira; o primeiro, o marido deixa o lugar para o amante; o segundo, o amante deixa o lugar para o marido”.
A cabeça de JR entrou em parafuso. Passou o dia planejando matar a mulher e o amante. Mas, quem era o amante? Todos os seus suspeitos eram amigos comuns além de serem (segundo sua avaliação), incapazes de tal vilania e traição. Seria Neto o amante dela? Mas, Neto não passava de um adolescente crescido, com menos idade do que o primeiro filho perdido de Lena, além dele ser considerado um filho que ainda não tinham tido.

XI

À noite, daquele dia, amou-a como nunca. Estava sedento de sexo. Fez sexo na cama, na cozinha, no banheiro, no sofá... Lena estava perplexa com o novo homem. Tinha-lhe deixado cansada e saciada. Há anos que seu marido não tinha um desempenho daquele. Quê estaria acontecendo? Não quis respostas, ambos cansados e saciados, deitou-se e dormiu.
Pela manhã, cedo ainda, não o encontrou deitado ao seu lado como era costume. Pensou que estivesse preparando o seu café. Naqueles dias de gravidez e nos primeiros anos de casados, ele tinha-lhe deixado mal acostumada com o café na cama. À medida que o tempo passava, algo estranho começou crescer dentro de si. Pensou de início que o marido estava na cozinha fazendo o café, porém, o silêncio negava-lhe esse sentimento, depois, pensou que ele tivesse saído para o trabalho. Resolveu, da cama, chamá-lo:
-Amor!!!... – nenhuma viva alma. Não resistindo esperá-lo, levantou-se.

Quase desmaia de susto. Saiu gritando chamando os vizinhos que pela curiosidade e pelo seu estado interessante, todos acudiram-na. Lá estava estirado no sofá, José Roberto Sampaio, funcionário público federal, 44 anos, amigo dos prazeres da vida e fraco de espírito, morto por um tiro no peito, com o revólver crispado nos dedos e numa escrivaninha próxima, todas as cartas recebidas e um bilhete que dizia:

 Prefiro conceder-lhe o benefício da dúvida : in dubio pro reu” JR


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: conto

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