11.12.2025

O Tempo - R. Santana

 


O Tempo
R. Santana

     Estava exausto depois de seis horas de viagem. Embora o ônibus fosse confortável para classe comercial, suas paradas obrigatórias para troca de passageiros me deixavam estressado. O meu filho ainda recomendou na saída de casa: - Pai, o Senhor deveria ter comprado passagem em ônibus Vip, o comercial para toda hora! – Filho, estou sem pressa. Depois de tantos anos longe da terra grapiúna, quero relembrar cada fazenda e cada porteira por onde passar!...
     “Quantos anos teria Clara?” Esta pergunta vinha me perseguindo a mente desde que sair de casa. Comecei puxar pelos meus dotes aritméticos... Eu estava com 52 anos, ela era uns dois ou três anos mais nova... então, ela teria uns 49 ou 50 anos... Não conseguia enxergar Clara com essa idade... Para mim, era a eterna e doce Clara dos folguedos de criança.
     - Vamos brincar de esconder? todos responderam uníssono: - Vamos!... Era o que eu queria... Mais velho e mais safado, via naquela brincadeira a minha quase única oportunidade de beijar e sentir Clara nos meus braços, mesmo em fração de tempo... Mas que me importava o tempo? Se o meu tempo era medido pelo relógio do coração que pulsava no peito de Clara. Cada segundo sentindo seu peito arfar junto ao meu e a sua boca colada à minha, representava um tempo infinito.
     Os nossos encontros nesses entretenimentos de criança, às escondidas, não permitiam que nos falássemos. Os nossos olhos e as nossas mãos traduziam os nossos sentimentos. Falar seria denunciar onde estávamos. Quantas vezes cingimos nossos corpos de tal maneira que esgueirávamos o oitão da barcaça e a molecada não nos encontrávamos, sempre nós que o descobríamos... e... levávamos aos demais nossas descobertas, impingindo ao desafortunado o pagamento de prenda!...
     Bons tempos aqueles da fazenda Ouro Achado. Nela moravam e trabalhavam quatro famílias, inclusive, a minha. Os meus pais eram trabalhadores rurais. Éramos uma família de sete pessoas, o casal e cinco filhos. O Dr. Amaral Silva, grande agricultor, mantinha com os seus agregados as mais íntimas relações de amizade. Esporadicamente, quando ia à fazenda, passar as férias de sua garotada, divertia-se com os seus trabalhadores nas festas que fazia e nos jogos de futebol que promovia nos finais de semana em um campo de várzea que mandou fazer com o seus empregados e os empregados das fazendas vizinhas. Era um homem humano que sempre estava atento às necessidades dos seus camaradas. Quando aos finais da tarde se reunia à turma da fazenda, ninguém o tomava como patrão. Era um homem boníssimo! Todos nós, crianças e adultos o admirávamos. Sua mulher e filhos, embora educados e tratáveis, não dispensavam maiores intimidades...
     O ônibus parou. Começou um entre sai de passageiros. Passei mais de três horas ao lado de uma jovem sem dar-lhe uma palavra. Ela desembarcou e não consigo lembrar nem a cor do seu cabelo... Descubro que estou sendo um péssimo cavalheiro, não exercitando princípios de educação tão elementares como os cumprimentos convencionais comum às pessoas civilizadas. Porém, não o fazia por mal, é que as lembranças da fazenda Ouro Achado, vinham com a força de redemoinho à minha cabeça. Eu não atinava para as circunstâncias, as circunstâncias que reparavam em mim. Ademais não queria ver outra mulher, Clara era o meu sonho e realidade, a minha obsessão e o desejo incontido de encontrá-la.
     Os meus filhos tinham ido levar-me à Estação Rodoviária da capital baiana para o embarque das 10:30 h de um dia de sábado, mês de setembro do ano 2004. Depois de tanto tempo, não me lembro da data... Sei que tinha comprado uma passagem para o Sul do estado, tencionava pernoitar em Pau Brasil e de lá viajar mais uns 15 quilômetros de automóvel em estrada de chão. Eles acharam estranho tão longa viagem: - Pai, depois de longos anos e sem parente lá, o Senhor vai fazer o quê? Não quis lhes dizer os verdadeiros motivos (atrás duma namorada de infância), ainda mais, que não fazia um ano que tinha perdido a mãe deles. Ela tinha adoecido e morrido subitamente... Gaguejei: - Filhos, vou matar a saudade daquela terra e reencontrar alguns amigos de infância! Sei que não fui convincente, eu os conhecia, principalmente, a mais nova que era perspicaz e desconfiada. Mas, e daí? Todos eles estavam situados e encaminhados. O mais velho era médico e as duas mulheres funcionárias públicas federais além de bem casadas...
     Recostei-me cômoda e prazerosamente na poltrona do ônibus, estirei as pernas e tentei cochilar, não consegui, perguntava a mim mesmo: “como estaria Clara? Será que continuaria viçosa e graciosa como a deixei?” Lembro-me que numa de nossas brincadeiras noturnas em que nos escondíamos dos demais meninos, ao enlaçá-la nos meus braços, tinha-a apertado contra o peito e sentindo o seu corpo tremer de emoção, roubei-lhe um beijo que depois de longos anos o seu sabor permanecia como se fora instantes antes...
     Cheguei à noite em Pau Brasil, depois de fazer uma breve parada em Itabuna e um rápida baldeação de ônibus. Embora tivesse passado muitos anos sem retornar à minha cidade natal, Pau Brasil pouco tinha mudado, exceto o nome. Continuava uma cidadezinha pacata do interior, tendo como lazer algumas praças e bares, pontos obrigatórios de encontros e desencontros dos jovens apaixonados e de velhos conhecidos. A vida noturna estava restrita a um clube da cidade e umas duas casas de entretenimentos, que esporadicamente promoviam festas com artistas de fora ou os artistas da terra.
     Depois de passar uma noite praticamente insone, ansioso para que aquela noite fosse a mais curta da minha existência, levantei-me assim que os galos do quintal da pensão começaram cacarejar e cantar avisando-me que o dia estava despontando. Fiz um lauto desjejum com farofa de cuscuz, inhame, batata-doce, carne-de-sol e ovos estrelados. Quando sair à rua as pessoas já estavam se movimentando para o trabalho.
     - Amigo, tu conheces a fazenda Ouro Achado? – Sim! Respondeu o motorista do táxi estacionado à frente da pensão que eu tinha pernoitado. – Quanto queres para irmos até lá? – É uma estrada de chão. Além de ter chovido muito em nossa região... deve estar intransitável... vou lá por R$ 150,00. Ainda lhe espero com o carro estacionado o resto do dia!... Não lhe fiz pechincha, entrei na pensão peguei a sacola e disse-lhe: - Vamos! E, seguimos estrada fora...
     O taxista não me tinha ludibriado, a estrada estava péssima. Os sulcos e valetas provocados pelas chuvas deixaram-na intransitável e perigosa. O motorista dirigia com aptidão cirúrgica, parecia que conhecia cada metro daquele caminho-estrada. Às vezes, eu fechava os olhos na iminência de um perigo fatal. As ribanceiras excediam em mais de 15 ou 20 metros de altura. Se o carro despencasse embaixo, sobraria pouco de nós, mas, pouco e pouco fomos deixando para trás os perigos e chegamos à fazenda Ouro Achado com sol a pino!...
     Desci do carro e fui abrir a cancela. Parecia a mesma cancela que tinha deixado anos atrás. Se não era a mesma cancela o cenário era o mesmo: os pés de jambo enfileirados, um pontilhão na chegada, o matagal ralo, a chácara ao fundo das casas, as barcaças, uma ladeirinha antes da sede e ao longo do caminho uma fileira de casas de trabalhadores. Acolá avistava-se ainda o campo de futebol limitado por suas traves. O orgulho dos empregados e do patrão da minha época. Todavia, a fazenda não tinha o mesmo esmero dos meus tempos. As casas pareciam estar com a pintura de anos atrás, algumas delas, o limo e a fuligem as tinham encardidos e os telhados tinham perdido a cor do barro queimado, tornando-os pretos e sujos.
     - Oi de casa!... Tem gente aqui?... É de paz!!! Apareceu um moleque adolescente, com os cabelos desgrenhados, roupa mais suja do que rota, mal-encarado, carrancudo, que daria medo se tivesse um porte físico mais avantajado: - Qui deseja sinhô? – Estou procurando por uma moça... uma mulher chamada Clara... se ainda mora aqui? Ele ficou pensativo e depois de longo tempo perguntou: - Num é dona Clarinda, mãe di Zoião e vó di Chica di Zé? Não sabia respondê-lo. “A minha Clara já tinha neta casada?...” - Não! Ela se chama Clara e não Clarinda!... O rapaz ficou atoleimado, não atinava quem eu estava procurando, por fim falou: - Num cunheço ninhuma Clara, sô cunheço D. Clarinda, fia de seu Manué das onças!... – Manoel das Onças?... Clara era filha do famigerado pistoleiro Manoel das Onças, caboclo afamado pela bravura e pelos crimes. Corria mundo caçando e pescando. O sustento da família provinha mais dessas atividades extras do que seu trabalho na roça. Diziam as más línguas que ainda não tinha sido despedido da fazenda porque o patrão tinha medo do seu clavinote. Era melhor ter ao seu lado do que longe de si.
     O rapazola convenceu-me esperar mais um pouco. Os trabalhadores não tardavam chegar das roças de cacau. Era tempo de colheita, safra temporão e pouco restava. A maior parte daquela safra temporão já estava nos cochos e nas barcaças, por isso, eles voltariam mais cedo para sede.
     Pedi autorização ao rapaz para adentrar e percorrer a chácara. Enquanto andava fui rememorando àquelas árvores, muitas delas, eu, meu pai e meus irmãos as tínhamos plantados. D. Lúcia, a sinhá Lúcia, como todos tratavam-na, tinha o maior xodó por aquele pedaço de terra que produzia tantas frutas exóticas e deliciosas. O apreço dela pelo meu pai provinha do zelo que tinha de manter e ampliar sua chácara com novas mudas frutíferas.
     Fiquei sabendo que o Dr. Amaral Silva tinha falecido na capital da Bahia dois anos antes. Hoje, a fazenda pertencia a viúva e filhos. A sinhá Lúcia já estava velha e alquebrada e os filhos eram doutores. Raramente vinham à fazenda, eles não gostavam de mato. Se não fosse o apego da velha por suas terras, os seus filhos já as tinham torrado no cobre.
     O tempo passava e os trabalhadores não voltavam. O relógio marcava 14:45h, começava preocupar-me com um retorno à tardinha, numa estrada sinuosa e mal cuidada. O motorista alertou-me para nova recomposição de preço e a impossibilidade de sairmos dali à noite. Procurei-lhe acalmar no preço do táxi e na viagem de volta. Garanti-lhe que seria uma temeridade viajar à noite naqueles cafundós. Ele também seria recompensado pelo tempo excedente. Prometi-lhe ainda que sairíamos dali cedo, então, iríamos pernoitar na fazenda e voltarmos para cidade pela manhã.
     Não demorou um quarto de hora, os trabalhadores começaram chegar pouco e pouco. Vinham suados, dorso nu, facão pendurado na cintura, alguns com ferramentas e cachos de banana nas costas. Procurei com os olhos Clara mas não a encontrava. Avistei algumas mulheres novas e umas velhas com cabelos desgrenhados e soltos. A maioria de calça e bota de cano curto. Algumas mocinhas estavam de saias curtas e sandálias de borracha.
     O coração começou bater aceleradamente. Ali não estava o homem maduro curtido pelo tempo e pelo trabalho. Ali estava o adolescente com a chama da vida que não tinha envelhecido. Não era um coração velho, era um coração que pulsava ansioso para encontrar a mulher dos meus sonhos. Se fosse um rei, trocaria meu reino por um cavalo para levá-la dali. Como não sou o rei Ricardo, teria que aguardar o destino tecer seus desígnios. Só tinha uma certeza: estava prestes vê-la. O magricela que me recebeu na chegada, levou-me até Clara.
     Era a mesma casa que tanta peraltice tinha feito. Apenas, como tudo na vida, tinha envelhecido ao longo do tempo. Parecia-me que a casa tinha encolhido... Outrora, achava-a enorme, mas naquele momento, achava-a pequena e acanhada. As paredes sujas e encardidas de fumaça (fogão à lenha), dava-lhe um aspecto sombrio e repulsivo. O rapaz começou chamar a dona da casa:
     - Sinhá Clarinda!... Ten um hômi porcurando por vosmicê!! Surgiu da cozinha uma senhora que se encaminhou para atender o chamamento do rapaz: - Qui é Bastião? – O hômi quer falar cum vosmicê! Ela olhou-me de cima abaixo, interrogando-me com os olhos, mal-encarada, com cara de pouca conversa: - Qui diseja? – Estou procurando por Clara, filha de Manoel das Onças e D. Josefa! Ela olhou-me fundo nos olhos como se estivesse procurando alguém lá dentro e disse: - Su eu. Qando piquena o pessoá mi chamava de Clara! Fiquei estupefato, não era possível que a minha Clara tivesse se transformado naquele trambolho. Por mais que tentasse dissimular, eu não consegui controlar a minha surpresa. Será que aquele diabo velho, gorda, cheia de rugas, cabelos brancos, desdentada, era Clara? Não podia ser... eu estava imaginando coisas... quando ela voltou falar: - Cumo si chama o sinhô? – Sou Marcos, filho do Sr. Antônio e D. Maria. Meu pai era o gerente do Dr. Amaral!... A velha de alegria quase que avança em mim, involuntariamente a afastei: “vai pra lá besta fera”, não podia acreditar que tinha viajado mais de 700 km para encontrar aquele espantalho de gente. – Vala mi Deus!... É Marcos di seu Tonho e D. Maria!... Num lembra de eu? Vosmicê dizia qui ia casar cumigo... Num lembra? Não me lembrava. Balbuciei um turbilhão de palavras. Saiu da minha boca pretextos para sair dali e agradecimentos pela breve acolhida, minutos infinitos... Já tinha matado a saudade de todos. Esperava vê-los noutra oportunidade e, fui embora...
     No carro, permaneci calado toda estrada. O motorista ainda aventurou arrancar de mim algumas palavras: - Sr. Marcos parece que o passeio não lhe fez bem? – Sim e não! – Nunca ouvi esta resposta Sr. Marcos. Ou dizemos sim ou dizemos não para uma mesma coisa! – Quando você tiver a minha idade, vai descobrir que a vida é uma moeda de duas faces. Uma face da moeda tem a vida a outra face o tempo. A vida é a dádiva de Deus e o tempo é o senhor da razão e o flagelo da humanidade.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Membro da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google
 

Priscila - R. Santana


                                                    Priscila
                                                   R. Santana
                                                           I

     Um tufãozinho de ar foi o bastante para que a vela se desprendesse do pequeno pires e saísse rolando em cima da cômoda de quatro gavetas abarrotadas de roupa, pingando fogo em cima da toalha plástica que a cobria e ficasse presa num frasco de perfume, esparramando e queimando o espermacete.
   A combustão do plástico e do espermacete, em poucos minutos, abriu um buraco na cômoda, puxando a vela para cima da roupa da primeira gaveta.
     O fogo pouco e pouco começava formar labareda e subir uma pequena fumaça das roupas de nylon de Mônica. A fumaça, inicialmente, não se espalhou pelo quarto, subia em direção ao forro de PVC.
     A pequenina Ana Paula, dormia com a inocência de um anjo na cama de sua mãe, enquanto Priscila, uma robusta rottweiler, se escornava em um tapete estendido na cerâmica, na cabeceira mais baixa do móvel.
     Mônica não arredava o hábito de todas as noites, antes de sair para trabalhar, rezar com os joelhos afundados em uma almofada, defronte à cômoda (em cima, uma imagem de Santo Expedito), pedindo ao Santo, padroeiro das causas justas e urgentes, que lhe protegesse e colocasse sob a proteção de sua palma, sua família em particular, agora, Ana Paula e Priscila, mas assustou-se quanto lhe veio à mente o nome do animal: “Priscila? Será que estou pecando, meu Deus?!” Susto desfeito quando se lembrou que o seu Santo protetor tinha sido um soldado romano e antes da sua conversão, ele tinha usado a fidelidade, a bravura e a robustez do rottweiler para perseguir e guardar-se do inimigo, assim como faziam os pastores dos Alpes, para sua proteção e a guarda dos seus rebanhos.
     A fumaça tomava corpo, as labaredas já alcançavam uns 20 cm, não demoraria as chamas passarem para segunda prateleira e atingir às demais, chegar até à cama, fumaça e fogo sufocassem e tostassem a criança e o animal.
     Priscila percebeu a inquietação da criança, ela também começava inquietar-se, embora o fogo ainda estivesse distante, a fumaça começava incomodar suas narinas, decerto, o nariz sensível da pequena Paulinha de oito meses de vida começava irritar-se.
     O fogo e a fumaça engrossavam!...

                                                  II
     Mônica Angel Sá não se sentia diminuída, humilhada, por ser garota de programa, também, não fazia marketing do seu jovem e belo corpo. Há dois anos que tinha deixado de trabalhar numa grande construtora de imóveis residenciais em decorrência do seu envolvimento amoroso com um dos seus diretores, mas antes de ser despedida, arrancou-lhe uma bela soma de indenização trabalhista, sua casa e o reconhecimento paterno de sua filha em juízo e não auferiu mais recursos, sensibilizada com os pedidos dramáticos do seu ex-chefe e amante para que não estragasse o seu casamento e não o arruinasse na empresa.
     Embora ela fosse meticulosa e discreta, todos os seus vizinhos sabiam ou imaginavam que sua atividade à noite não se restringia somente aos estudos (depois da faculdade, os motéis, os flats ou os hotéis rotativos), porém, sua simpatia, o seu carisma e os seus préstimos suplantavam qualquer resquício de preconceito e desconforto que alguém da vizinhança quisesse levantar.
     Depois do parto de Ana Paula, manteve-se fiel aos cuidados maternos por uns seis meses, todavia, o jeitinho é filho da necessidade, as contas chegando, a pensão alimentícia insuficiente, ela arranjou uma moleca, mais menina que mulher, para tomar conta de Ana Paula, enquanto fazia do prazer o seu ofício, mais às tardes do que à noite.

                                                  III
     O seu celular registrava três chamadas perdidas de André. Mônica resistia no retorno das suas ligações, o seu coração lhe pedia para retorná-las, sua mente dizia não. Sentia-se bem com André, gostava de sua companhia e do seu sexo, tinham quase a mesma idade, ambos jovens, um homem rico e um perfeito cavalheiro, mas trazia na mão esquerda o estigma de uma aliança, ela sentia medo, já tinha exorcizado os traumas sofridos com o pai de sua filha, ressuscitá-los, seria mais uma experiência dolorosa.
     O seu coração e o seu corpo se renderam quando André ligou pela enésima vez:
    -Não quer falar comigo?...
    -Claro, quero!...
    -Passei a tarde lhe ligando!
    -O celular estava descarregado...
    -Quero lhe ver!
    -Hoje, não! – valorizou-se.
    -Posso saber por quê?
    -Estou péssima e a menina não veio trabalhar!
   -São19 horas, daqui a pouco estarei aí, telefona pra moça! – ordenou.
     A moça faltou. A razão perdeu para emoção, André não teve muito trabalho para lhe convencer da exiguidade do tempo:
    -Amor, não vamos demorar, Paulinha está afogada no sono, deixe Priscila cuidando de sua segurança!...
                                                  IV
     Às 22 horas, a fumaça já era visível, o fogo cuspia labaredas pelo telhado da casa, os curiosos já tomavam conta da rua e da calçada de Mônica quando o carro dos bombeiros chegou. Uma vizinha no meio do povo gritava histérica para que os bombeiros adentrassem rápido na casa e salvassem a criança. O pedido dela ligou todos os comandos, enquanto alguns homens disparavam jatos de água sobre o foco do fogo, outros vasculhavam a casa em busca da criança e nada de encontrá-la...
     Concomitante, André e Mônica dispararam no meio do povo. Mônica tresloucada gritava pela filha, foi contida pelos soldados do fogo:
     -Os nossos homens estão cuidando de sua filha!!!
    -Que é de minha filha?! – gritava.
    -Paciência!...
     O fogo foi completamente debelado, o incêndio ainda não havia se espalhado pela casa, ficou restrito ao quarto da dona da casa.
    A cama, o colchão, o berço e a cômoda ficaram completamente carbonizados, o fogo, também, deixou um enorme buraco no forro se não tivesse sido feito pelo sinistro incidente, o quadro de estrelas que surgiu no céu através dele, era gostoso de ver.
     Quando os três bombeiros reapareceram na porta da casa, traziam um semblante de decepção. Um deles trazia nas mãos, uma boneca chamuscada e retorcida, a única coisa que encontrara de Paula. Ninguém dizia nada, mas todos cobravam com os olhos e gestos o paradeiro da criança, quando Mônica se desvencilha dos soldados e corre gritando:
     -Que é de minha filha???... – então:
     -Priscila!!!...
                                                  V
     André estranhou naquele dia o comportamento frio da amante. Ela, além de uma linda mulher, tinha fogo no rabo, nos seus 30 anos de vida, jamais encontrou outra igual nem semelhante na cama, o seu sexo era feito com grunhidos e gemidos, um animal no cio, uma experta do sexo, uma profissional do prazer, mas naquele dia, ela limitou-se ao feijão com arroz e ao papai-mamãe com muita dificuldade, ele não se conteve:
     -Amor, eu estou triste...
     -Foi o quê?
    -Fui egoísta insistindo que você fizesse amor! – desabafou André.
   -Não, eu também estava a fim, bobo!...
   -Não! – completou:
  -Você é folgada, desprendida, sem pruridos, hoje, não lhe reconheci!
 -Coisas de mulher, a minha menstruação está perto de vir, além disto, hoje, acordei com um pressentimento que algo ruim vai me acontecer! – Justificou.
     -Isso é bobagem! Não sou supersticioso...
   -Sou devota de Santo Expedito, ele me protege, diuturnamente, com sua palma e sua cruz e quando algo ruim está para me acontecer, ele me avisa, com esses maus pressentimentos!...
     -Coincidência, amor!
    -Sinais de verdade seu herege!... – brincou.
                                                  VI
     Ana Paula foi apresentada à Priscila nos primeiros dias de nascida, três quatro meses depois, Mônica já a escanchava no seu lombo e brincava pela casa. O animal parecia gostar e comportava-se com doçura e delicadeza.
     Não era criada amarrada ou marginalizada no quintal. Embora, ela possuísse sua casa no fundo do quintal coberta de telha de amianto e piso de cerâmica, a usava quando lhe dava na telha ou quando sua dona lhe exigia. Corrente, somente, quando Mônica saía com ela para suas caminhadas.
     Deus tem um propósito para cada uma de suas criaturas, mesmo na dor e no sofrimento há uma razão de ser, o homem ainda não alcançou o mistério da vida e sua eternidade é uma interrogação.
     O esquecimento de Mônica em travar o ferrolho da porta do fundo de sua casa, naquela noite, foi um sinal de Deus, pois à medida que a fumaça ia deixando o quarto irrespirável, a porta aberta tornou o sinistro menor e serviu de exemplo para mostrar ao homem a presença do Criador.
      Assim que as labaredas começaram subir e a fumaça engrossar, Paulinha inquietava-se afundada sobre os lençóis e colchas, começou choramingar, Priscila pulou na cama...

                                                  VII
    Mônica partiu porta adentro seguida pelos bombeiros, desesperou-se quando viu o seu quarto esfumaçado e o que restou dos móveis, carbonizado. Nenhum sinal de Priscila e Paula. Sua cabeça doía, suas vistas turvaram, sem rumo, partiu para outros cômodos (três quartos, dois sanitários, sala, cozinha e quintal) da casa, debalde esforços, quando num estalo, partiu porta fora, para o quintal, sempre gritando:
     -Que é de minha filha???... – então:
     -Priscila!!!
                                                  VIII
     Amigo leitor, eu não herdei o talento de Dante Alighieri que descreveu com maestria, os cenários do céu, do paraíso e do inferno nem o dom dos pincéis de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Van Gogh ou o nosso não menos talentoso argentino brasileiro, Hector Julio Paride Bernabó, o Carybé para descrever com exatidão, emoção, cores e cenário de Priscila e Ana Paula, deitadas no piso, na casa da cachorra, uma ao lado da outra num abraço aconchegante e distantes do mundo, quando Mônica e os soldados do fogo as encontraram.
    Todos deram um freio de arrumação diante da casinha de Priscila. Mônica com riso nervoso, gritava:
     - Santo Expedito!... Santo Expedito!... Santo Expedito!... Meu Deus!... Meu Deus!... Meu Deus!... – os bombeiros completavam:
     -Milagre!!!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro: Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem Google

Pedrinho - R. Santana

 

Pedrinho

Pedrinho
R. Santana


A maioria das histórias da carochinha, o moleque peralta chama-se Joãozinho. Não vou lhe contar uma história da carochinha, mas uma história verdadeira, ocorrida nos bons tempos do curso científico, o antigo colegial. Porém, o peralta desta história é Pedrinho. Moleque pela idade, mas de uma argúcia e uma inteligência incomuns, naquela época, ele não passava dos 15 anos. Pedrinho era o mais novo da turma, entrou na universidade ainda imberbe.
Não era o mais bonito mas ganhava todas garotas que cruzavam seu caminho. Acredito que era pelo seu bom humor, seu jeito irresponsável e ingênuo. Não urdia nenhuma maldade, seu negócio era pregar peças hilárias, levando todos ao riso, às vezes, a própria vitima de suas galhofas. Tinha uma aptidão inata para colocar apelido. Os apelidos que Pedrinho colocava nos professores e nos colegas, pegavam como visgo, lembro-me de alguns: “Macarrão 18”, “Pingüim”, “Chabu”, “Chuchu”, “Saborosa”... cada apelido estava relacionado ao estereótipo da pessoa, algum traço da personalidade ou outro detalhe da conduta que chamasse à atenção dos demais colegas e professores.

Chabu era uma professor de Física que passou umas três aulas para calcular 10 elevado à 7ª. Potência. Quando ele começava calcular, os alunos cientes de sua inaptidão matemática, cada um dava um palpite e o infeliz se enrolava todo. Com uma dor de barriga de mentirinha, se mandava para secretaria e lá ficava até o término da aula e aí ficávamos a ver navio com as fundamentais aulas de Física e o cálculo adiado para o outro dia, até que Pedrinho que era um craque em matemática deu um basta e solucionou o problema.
Professora Georgina era uma alma boa. Era uma coroa solteirona que continuava trabalhando por amor à profissão e aos alunos. Suas aulas de História eram recheadas de tiradas divertidas e curiosas sobre generais, imperadores, príncipes e estadistas. Era uma mulher avançada para o seu tempo:
-Vocês sabiam que todos Césares gostavam de homem? – Pedrinho tomou a defesa de Júlio:
-Julio César era macho, professora!...
-Machochô filho, aquilo era uma bichona gulosa. Seu séqüito era formado pelos mais fortes gladiadores que nas horas vagas, eles transformavam-no numa Cleópatra! - todos caíram na risada.
Não pense o leitor que suas aulas de História eram desprovidas de conteúdo teórico. Quando ela abordava um tema histórico, ela abordava o fato com as causas, as conseqüências, os efeitos econômicos, os aspectos religiosos e por aí a fora. Jamais fez uma prova decoreba, ou o aluno assimilava ou não respondia.
Professora Georgina não era uma professora, era mais do que isso, era uma educadora.

Leite (leite só no nome e na brancura dos dentes), diretor do colégio CEI e capitão da Polícia Militar da Bahia, era um negro forte e exigente. Era uma exigência autoritária. Embora fosse uma exigência com base em regras discutidas a priori com todos segmentos interessados, à aplicação dessas regras, excediam ao bom senso. Se um aluno cometesse uma falta grave ou fosse reprovado mais de uma vez, ele não concederia matrícula no ano subseqüente, seu lema era: “a escola foi feita para todos, porém, vamos priorizar os alunos que reconhecem seu valor”.
Entre os alunos, capitão Leite era tratado por “Mr. Coffee” (mais um feito de Pedrinho), embora tivesse uma fachada de lutador de sumô e fosse durão, Mr. Coffee não resistia à lábia de Pedrinho:

-Capitão Leite, o colégio não vai desfilar no dia 7 de setembro?
-Pedrinho, o problema é que tem poucos instrumentos e alguns danificados, além disso falta pouco mais de um mês. Não sei se daria tempo para arrumarmos tudo até lá.

-Se o Senhor me autorizar, irei formar um grupo e fazer uma campanha para recuperar e comprar mais instrumentos. Porém, é preciso que os professores de educação física sejam engajados. – Pedrinho era danado na brincadeira mas quando se tratava de coisa séria, ele se transformava. Sabia planejar, administrar, tinha boas idéias e gostava de ouvir novas sugestões.
Ele envolveu toda escola, do matutino ao noturno. Os pirralhos que eram relegados noutros desfiles por causa do tamanho e da série, foram os mais comprometidos e quando alguém argumentava, Pedrinho justificava: - é o sonho da maioria, ademais, eles se cotizaram com ajuda dos pais e compraram os instrumentos que faltavam. Teve uma mãe que em comissão visitou os principais empresários e conseguiu todo pleito reivindicado.

O desfile foi um sucesso. Na frente saiu um rapaz travestido de D. Pedro I, montado a cavalo de puro sangue (emprestado de um fazendeiro), empunhando a espada, gritando: “Independência ou Morte!...” e, atrás, um grande retrato a óleo de José Bonifácio, levado por duas lindas jovens. No meio das alas, a banda marcial tocando hinos alusivos à Independência do Brasil.
Cada ala caracterizava feito, tradição ou folclore. Havia a ala indígena, a ala de soldados com armas primitivas e uma ala de cartazes e tabuleiros de alimentos, representando as comidas e as bebidas da época. Para fechar as alas, foram acrescidas alas de simbologias mais populares, como as de capoeira, colheita do cacau e as indispensáveis baianas com suas vestimentas típicas.
O capitão Leite ia à frente, com sua farda de gala, parecendo um imperador africano sem a serpentina trasladada por escravos. Ia a pé, postura ereta e queixo pra cima, olhando no horizonte, de quando em vez, acenava com a cabeça para cumprimentar uma autoridade ou uma pessoa de sua intimidade. Ia orgulhoso de sua escola.

Passados os festejos, a rotina volta ao dia-a-dia da moçada. Pedrinho ficou de bola cheia. Ele não tinha recebido os louros do reconhecimento da direção, todavia, colegas e professores entenderam que se não fosse o denodo e o trabalho dele na organização, o desfile não teria tido tanto sucesso. Os mais velhos diziam que nunca tinham visto nada igual. Quando insistiam com Pedrinho que a direção foi omissa, ele respondia da boca pra fora:

-Foi um trabalho de equipe. Todos merecem os louros da vitória. A direção fez sua parte, reconheço que poderia ter feito muito mais. Para mim, se tivesse havido um prêmio, teria que ser dividido com cada mãe e cada pai. Eles foram os mais abnegados. Teve um pai que alugou um carro para ir e levar na fazenda, o cavalo montado por D.Pedro I. Outro doou sozinho dois instrumentos. Além disso, cada pai teve de fazer uma vestimenta nova para seu filho. Mister Coffee condicionou que ninguém desfilaria com farda velha e surrada.

-Senhores alunos, apresento-lhe o professor Heyde Muller. Ele é odontólogo e vai ficar conosco até o final do ano – falou o Jô Arbages, vice-diretor da escola. – De chofre, Pedrinho observou: - José, ele parece um camarão de vermelho – passamos chamá-lo de “Camarão”.
Professor Heyde era um homem de altura acima da média. Usava paletó e camisa listrada colorida. Um pouco descuidado no trajar. Um paletó azul desbotado, calça bege e camisa avermelhada, destoando do conjunto. Quando o professor Arbages deixou a sala, ele começou falar :

-Sou filho de Jaguaquara, formado pela Universidade Federal da Bahia. Acho que vou ficar pouco tempo aqui em Itabuna – tinha voz nasalada. Chegamos a comentar, eu e Pedrinho, “deve ser outro Chabu” – Ledo engano, depois da rápida apresentação, o professor Camarão dissertou sobre célula vegetal. O homem era um ás!... Passeava na Botânica, corria na Biologia, enveredava na Zoologia e brincava com a Química e a Física. Ficamos impressionados. Comentei com Pedrinho:

-O homem é cobra Pedrinho!
-Quebramos a cara em nosso juízo – admitiu Pedrinho.

Tudo que é bom dura pouco. Três meses depois o professor Heyde foi embora para o Sul do país ensinar em uma universidade federal. Soubemos depois que tinha feito um concurso, muito concorrido e passado com louvor.


Professor Arbages, tinha sido exonerado da vice-direção e retornado à sala de aula. Ensinava Matemática.Tinha sido nosso professor na 1ª.. Série do curso científico e voltava agora para concluir a terceira série.
Hoje, acho que o professor Arbages não dominava o conteúdo matemático com profundidade. Porém, era um mestre na organização e na didática. No primeiro dia de aula, ele dava todo conteúdo programático da série, a bibliografia e o mais assombroso, as datas a priori das provas, inclusive, os dias de revisão. Chovesse ou fizesse sol, suas datas eram intransferíveis, salvo por força de um imprevisto na escola ou pessoal. Se tivesse de fazer uma alteração a posteriori, ele o faria com enorme antecedência. Suas aulas eram esquematizadas em fichas, a maioria ensebadas pelo uso.
Certa feita, a turma encabeçada por Pedrinho, fez uma proposta ao professor Arbages:

-Professor, nós queremos falar com o senhor!
-À vontade Pedrinho...
-Professor, nós estamos no último ano. Todos aqui estão cônscios que se não estudarmos muito, não iremos passar no vestibular. Lá ninguém irá nos ajudar, cada um que cuide de si. Cada um é fiscal do outro, porque todos são concorrentes entre si. Por isto, gostaríamos de obter de todos professores uma ralação de confiança. O professor aplica a prova e nos deixa a sós. Ninguém irá colar, todos serão fiscalizados simultaneamente!...
-Pedrinho, é uma situação nova, tem que ser testada. Se vocês corresponderem à confiança dos professores, a mim em particular,eu aceito
A primeira prova foi de português, foi um sucesso. Um ajudou o outro mas na maior discrição. Tínhamos feito um acordo que só ajudaríamos o colega em pequenas dúvidas, todos teriam que estudar.
Todos estavam ansiosos em relação à prova de matemática. Arbages era um bicho-papão. No dia da prova ele aprontou uma pegadinha, se não fosse a perspicácia de Pedrinho todo mundo teria caído. Na hora de distribuir a prova, ele deixou cair “inadvertidamente” o gabarito.
-Colegas, pode ser uma cilada. Vamos confirmar esses resultados se forem verdadeiros, iremos usá-los com critério para não gerar o gérmen da desconfiança no professor.
Eram as respostas da prova. Porém, foram usadas alternando os erros e acertos de um pra outro que o professor Arbages não teve a menor desconfiança. Ademais a folha de gabarito foi deixada onde caiu e entregue ao professor no seu retorno.

Duas historinhas que ocorreram antes do término do ano letivo que não as esqueço: uma com a professora de Geografia e a outra com o capitão Leite.
A falta de reconhecimento do dia 7 de setembro do diretor da escola tinha mexido com os brios de Pedrinho. Embora ele dissesse que a organização do desfile tinha sido um trabalho de equipe, no fundo ele sabia que tinha sido o principal timoneiro. E cozinhou em banho-maria uma oportunidade para pregar um estratagema em Mr. Coffee. Essa oportunidade surgiu. Uma autoridade importante da Secretaria de Educação da Bahia, tinha agendado uma palestra sobre “As Perspectivas do Mercado de Trabalho”.
José Antônio, um dos nossos colegas, era eletricista prático. Era um aluno esforçado, mas tinha dificuldade de aprendizagem, Pedrinho que lhe ajudava nas tarefas da escola, às vezes, nas provas. José Antônio era seu amigo e devedor.

-José Antônio, quero lhe pedir um favor!

-Pedrinho, não me peça, ordene!...

-Então, vamos combinar em casa, depois das aulas. Eu você e José. Combinado? – Combinado! - respondemos simultaneamente.

Depois das aulas fomos para casa de Pedrinho. Era cedo ainda, menos das 22:00 h, fomos bem recebidos pelos pais dele. José Antônio era íntimo da casa, da cozinha à geladeira. Eu nunca tinha ido. Fomos levados para o seu quarto. Eu e José Antônio, estávamos ansiosos para saber as intenções de Pedrinho, deveria ser algo importante, ele estava muito cheio de salamaleque.

-Amanhã à noite, irá ter uma palestra no CEI. Gostaria de melar a festa do Leite!- falou Pedrinho.
-Como? –perguntei-lhe.
-Nosso engenheiro eletricista irá dar um jeito!...- apontou para José Antônio.
-Quê jeito? – perguntou José Antônio.
-Um black-out na escola. Já comprei o silêncio do porteiro e sua cumplicidade. Combinamos que vocês irão chegar mais cedo para armar o alçapão e na hora de levar o palestrante e os alunos para o auditório ou pouco depois, é só desarmá-lo e provocar àquela escuridão!...
-Qual a minha participação? – perguntei-lhe.
-Você vai assoviar se alguém da direção chegar para que José Antônio fique ciente. Nenhum aluno vai entrar antes de vocês.
-Pedrinho, isso pode dar expulsão!
-Não se preocupem, se algo der errado, estarei lá para assumir a culpa. Tenho pontos de sobra em todas matérias. Eles podem expulsar-me mas não podem me reprovar. Qualquer problema, tenho tio advogado, coloco-os na justiça e, se for reprovado, estou novo, irei concluir o científico numa escola particular. Somente o porteiro poderia abrir o bico, porém, acho difícil, dei-lhe dinheiro na presença de dois colegas a título de pagamento de uma velha dívida. Se ele der na língua, tudo será esclarecido e ele poderá perder o emprego. Lembrem-se também que sou menor - Pedrinho tinha pensado em todos os detalhes. – Conjeturei:

-Pedrinho, seus pais têm dinheiro, eles podem pagar uma escola particular. Se nós formos flagrados, iremos ter sérios problemas. Talvez tenhamos que deixar de estudar por um tempo. Além disso, qual é seu objetivo? Não estamos enxergando...
-Garanto-lhes que tudo está sob controle. Vocês não irão ser flagrados, exceto se o porteiro nos trair, todavia, acho improvável, ele seria o mais prejudicado. O meu objetivo é desmoralizar Leite. Ele foi o único que não reconheceu o nosso trabalho. Afora administrar a escola com mão-de-ferro, truculência, como numa academia militar. Todos estão desgostosos com sua administração. Os colegas estão esperando uma oportunidade para declarar: “fora Leite!!!”, se vocês não quiserem participar, não iremos fazer o repúdio, não estar aqui quem falou, tchau! – Antônio José bronqueou:

-José responde por si. Você é meu colega e meu irmão. Dê o diabo, estaremos juntos para o que der e vier. Se for expulso que se dane Leite e sua escola! – fiquei envergonhado e procurei consertar de imediato:

-Peço-lhes desculpas. Não falei por medo. Também, não gosto de Leite e de seus métodos ditatoriais. Porém, tenho medo do que possa acontecer com um prédio daquele às escuras e a balbúrdia que os alunos irão fazer.

- Ninguém sabe do nosso projeto de black-out, exceto o porteiro. Na escuridão, ele irá abrir os portões e deixar que a turba passe. Ficou acordado com o pessoal das outras salas que se houvesse uma oportunidade de protesto, seria dirigida ao Leite, que não haverá quebra-quebra, será uma manifestação pacífica – esclareceu Pedrinho.

Tudo ocorreu como Pedrinho tinha Planejado. O auditório estava repleto. Na mesa principal o assessor do governo, os vice-diretores, Leite e os professores convidados. Quando o serviço de som anunciou que sua excelência o doutor fulano de tal ia falar, a rede elétrica da escola começou pipocar com um curto-circuito generalizado que dentro de poucos segundos, tudo estava às escuras. Os silvos, os assovios, os gritos de “fora Leite”, de “ditador tupiniquim”, de “negro burro”, “capitão do mato”, “feitor do governo”., “bote esse negro na senzala”, “negro truculento” ... foram ouvidos por mais de 10 minutos. A balbúrdia foi generalizada. As professoras e alunas foram as primeiras a debandar. O assessor do governo foi levado às pressas para o carro e salvo das vaias.
O boicote não poderia ter sido melhor. Não houve agressão física. Com exceção de meia dúzia de lâmpadas e alguns metros de fio, o prejuízo material foi de somenos importância em relação à repercussão que a manifestação teve nos meios de comunicação e na comunidade. Leite foi exonerado alguns dias depois e nomeado um professor bem quisto por todos segmentos do CEI. Não houve retaliação e tudo foi creditado ao regime de opressão imprimido por Leite na condução da escola. Para os psicólogos de plantão, que estudam as reações das massas, foi uma maneira que os alunos encontraram para extravasar as frustrações e os sentimentos de ódio contidos.
A escola ficou leve e solta sem ser transformada num território sem lei e sem ordem. Tudo ocorria dentro dos limites do regimento, todavia, as brincadeiras e as artes próprias do espírito jovem, não eram mais consideradas como faltas de suspensão e expulsão.
Ao apagar das luzes do nosso último ano letivo, a sala contígua fez uma brincadeira com a professora de Geografia. Ela ouvia parcialmente, às vezes, tínhamos que conversar acima do normal quando lhe íamos falar. Porém, era craque na leitura labial, se o incauto aluno fosse lhe dizer qualquer gracejo, teria que lhe dizer de modo que ela não tivesse a percepção dos seus lábios, senão, estaria fadado ir para sala de Orientação Pedagógica, que era mais uma sala de reprimendas e ameaças do que um serviço de orientação, principalmente, na direção do Leite.
Professora Helena ainda não tinha marcado sua prova final de geografia. A turma não estava nem aí!... Todos estavam passados por média. Sua deficiência auditiva dificultava-lhe conter o recurso da pesca dos alunos, por outro lado, ela não era ranzinza e enjoada, alguns entreveros, entre ela e os alunos, decorreram por excesso de abuso do alunado.
Quando a professora Helena chegou na sala, a encontrou vazia. Os alunos tinham lhe deixado uma charada na lousa: “Tu és pecadora, porém, tu lembras uma ilha no oceano Atlântico a sudoeste da África e a morte do imperador, 2 e 3”, e acrescentava que o retorno da turma estaria condicionado à resposta do enigma.
Ela pacientemente, desenhou um burro feio e orelhudo, com o recado:

“Diga aos seus colegas orelhudos que a ilha de Santa Helena foi o degredo de Napoleão e o tema da nossa prova amanhã. Helena”.

Pedrinho completa a contenda entre os alunos e a professora:

-José, você que tem mania de escrever, coloque em seu caderno: “um bom professor transforma um animal frágil e delicado em um ser humano; um mau professor transforma um ser humano em um animal sórdido e destrutivo”.

Autor: Rilvan Batista de Santana

















O Juiz - R. Santana

 

O Juiz
O Juiz
R. Santana



Não existe data. Para quem gosta de data e tem obsessão por numerologia, diria que foi há umas quatro décadas atrás no Século XX, que chegou ao mundo o filho bastardo de Moisés Chacon e de sua amante Maria Mirtes dos Santos, conhecida na roda de amigos da madrugada pelo codinome de Ruiva.
Chacon embora tivesse uma mulher jovem e bonita, exercia culturalmente seu machismo. Com o tempo sua esposa já absorvia resignada aos comentários desairosos das aventuras amorosas do marido.
Ruiva era uma baita morena jambo, alta, corpo curvilíneo, cabelos ruivos lisos, bumbum empinado e seios fartos. Quando arrumada (uma regra e não uma exceção), deixava a moçada e os velhos alvoroçados quando passava, além dos dichotes menos polidos, ouvia propostas e gracejos: “morena gostosa”, “dou-lhe casa e comida, roupa lavada e carro na garagem”, “isso é que é mulher não é aquela bruxa que tenho”. Graciosa e faceira, ela ia levando a vida na troça...
O menino, loiro e parrudo, era admirado como um animalzinho em extinção pelos curiosos da casa da família Chacon. Deveria ter entre dois anos e meio a três anos de idade. Todos queriam apalpá-lo, colocá-lo no colo, beijá-lo. Somente a Senhora Chacon tentava num esforço desmedido conter o choro, é que o seu marido tinha trazido pra sua casa o seu filho bastardo para morar.
A Senhora Chacon era uma mulher educada, de uma dignidade inata que tinha passado boa parte de sua vida ensinando e trabalhando no comércio de sua cidade natal de Cristinópolis. Era uma mulher de hábitos interioranos. Tinha uma beleza ingênua e despretensiosa, sua única e principal atividade era o cuidado do marido, dos filhos e da casa. Vivia reclusa e sem vida social por opção. Adotou do marido o nome Chacon. Hoje, assinava Maria Chacon Silva. Não esperava do marido tanta falta de escrúpulo e grossura, levando para sua casa um filho da amante pra criá-lo.
Tinha discutido com o marido, ameaçou ir embora, deixando com ele os demais filhos do casal, que não era possível tamanha afronta moral e justificou:
- Acho que chegamos ao fim. Estou sendo motivo de dichotes e comentários maledicentes dos nossos vizinhos. Você não me respeita e não respeita os nossos filhos! - Ele não choramingou, não lhe pediu desculpa, não lhe pediu que ficasse ou que fosse, não era do seu feitio. Apenas, deixou-lhe claro as medidas que tomaria com sua saída, era homem de luta e da labuta, teria que levantar às escuras, o dia despontando, para ganhar o sustento dela e dos filhos, homem não era nenhum maricas para ficar cuidando de casa e de filhos, desabafou:
- Mulher, os mais velhos costumam dizer que formiga quando quer se perder cria asas. Não vou lhe pedir para ficar ou ir embora. Não vou lhe manter a pulso aqui. Tive que trazer o menino, ele é meu filho (retrato do pai), disto não tenho dúvida. Ademais que culpa tem o menino? Ele foi tirado à força da mãe. Garanto-lhe que neste momento, ela está lá se derramando em prantos!...
Não sei se houve tréplica, sei que os ânimos foram contidos e um mês depois o mais novo membro da família Chacon estava integrado e cercado de afetos e cuidados até da Senhora Chacon, a princípio, por desencargo de consciência, depois para suprir instintos maternais adormecidos já que o seu filho mais novo estava adolescente.
Chaconzinho, no início da mudança, estranhou demasiadamente os novos irmãos e agregados, com exceção do pai, ali tudo era diferente. Atitudes instintivas fizeram-no repelir, inicialmente, cada abraço ou cada beijo, parecia um bichinho do mato acuado e sem saída. Irritado, chorava a maior parte do tempo. Porém na casa do sem jeito, pouco e pouco, foi adaptando-se naquela casa. A ausência maternal, naturalmente foi substituída pela Senhora Chacon. As brincadeiras dos irmãos e os afagos de todos completaram o resto.
Desde cedo, Chaconzinho apresentava uma aptidão natural para os estudos, aprendeu os rudimentos da leitura e da escrita dentro de casa antes da idade escolar. Na escola o seu desempenho era superior aos demais meninos de sua idade. Para equacionar o problema, tiveram que transferi-lo para classes mais adiantadas, mesmo assim, era maior o seu rendimento de aprendizagem, tinha uma mente brilhante...



Baixa do Sapo era o nome do lugar, da cidade X, estado da Bahia. Baixa do Sapo era uma mistura de bairro, periferia e distrito. Não passava de um aglomerado de casas miseráveis. Algumas casas de taipas, outras casas de tijolos e alvenaria em quantidade menor, essas casas eram o requinte do lugar.
Esse nome era o apodo e a zombaria que os moradores encontraram para designar o lugar, pois havia nessa área invadida de uma fazenda desapropriada pelo município da cidade X, tinham muitos terrenos brejosos e como orquestra natural de fundo: o coaxar dos sapos noite adentro.
Sua topografia plana contribuía para as construções populares, arquitetura de concepção prática. Sua gente procurou construir os casebres dentro de um alinhamento empírico, “a olho nu”, sem auxílio de aparelhos topográficos, dando origem a uma praça no meio e quatro ruas perpendiculares em forma de cruz. Era um exagero dos moradores chamarem caminho de rua, todavia, não era exagero dizer que eles tinham formatado o início de um novo bairro.
Rua das Andorinhas era o nome que se dava à rua das prostitutas. Uma rua animada, que a partir das 20 horas, começava discretamente um movimento de entre e sai de homens e mulheres. Era exceção a casa que à noite, no seu interior, não rolava um clima de boate com um som às alturas de músicas bregas. Às vezes, os praças destacados ali, tinham que interceder para disciplinar os excessos.
D. Ruiva era a caftina mais popular dali. Sua casa era a mais freqüentada, pois ela tinha cuidado e experiência na contratação de ninfetas. Zelava “suas meninas” com zelo de mãe e exigência de dona de bordel. Não admitia que elas bebessem em excesso ou fizessem algum escândalo que extrapolasse os limites das quatro paredes. Tinham que discutir o preço de sua atividade com o seu cliente antes de ir para cama. Mulher enrabichada, de xodó. não contava tempo em sua casa. Sua máxima era: - Somos profissionais do sexo e não do amor! – E, esta fórmula funcionava...
A caftina tinha aparecido naquelas pirambeiras com dinheiro, pois logo montou casa e comércio. Ela nunca dizia sua idade, sempre que questionada: - Tenho a idade que aparento – respondia - Os amigos lhe davam 40 anos de idade, os desafetos lhe atribuíam 50 anos. Mas tirando a média daqueles que gostavam dela mais àquelas pessoas que não a tinham na conta do bem-querer, ela não passava dos 45 anos. Era uma mulher que ainda trazia muitos traços da juventude. Não obstante ter adquirido uma gordurinha da idade, seu corpo ainda teimava em perder suas curvas e os seus seios que acalentaram seis filhos, tinham uma plástica de fazer inveja a muitas meninas moças.
D. Ruiva tinha vários pretendentes, uns bem mais novos do que ela e outros da mesma idade ou um pouco mais velhos. Diplomata da escola da vida nunca se comprometia ou lhes alimentava alguma esperança, ia deslizando pelas veredas das oportunidades sem rastros de mágoas ou querelas. Ela aprendeu ao longo do tempo agradar gregos e troianos. No frigir dos ovos, ela tinha o afeto e o carinho de todos sem o compromisso de amá-los.
Não negava os seus serviços de prostituta. Se aparecia um cliente maduro que a preferia às meninas, ela procurava atendê-lo com o mais refinado profissionalismo. Ultimamente, os seus serviços pessoais eram raros, pouco e pouco, ia firmando sua marca de dona de prostíbulo e não de velha meretriz. Ia delegando as funções administrativas para as mais aptas, as mais confiáveis, recolhendo-se aos seus aposentos mais cedo. A vida tinha-lhe deixado marcas e dissabores que começavam deixá-la mais fria, calculista e consciente. Quando a comunidade promovia festas ou em feriados oficiais, que a clientela aumentava a freqüência, é que a presença de D. Ruiva era obrigatória.
Dia de domingo, mês de novembro do ano de 1996, tinha tudo para ser um primeiro dia da semana inesquecível. As meninas estavam acompanhadas. Elas bebiam, conversavam, brincavam, rodopiavam e dançavam no salão ao som de músicas populares, bregas, sozinhas, juntas ou com seus parceiros. O movimento na casa era intenso e dois moleques travestidos de garçom se revezavam de mesa em mesa. A caftina tinha todo motivo para está ali conversando com um e outro, fazendo as honras da casa.
Passava da meia noite, a maioria da clientela já tinha ido embora, outros tinham se recolhido com suas meninas e poucos continuavam na sala bebericando e jogando conversa fora, quando de repente, ouviram gritos estridentes de socorro no fundo da casa. Eram gritos lancinantes misturados com prantos. Como se obedecessem uma ordem de comando, todos partiram como num estouro duma boiada para socorro da vítima.
No penúltimo quarto do bordel, contíguo ao quarto da proprietária, eles encontraram Kátia, uma novata prostituta, apanhando covardemente de um cliente embriagado, por ela ter negado-o praticar sodomia. Antes mesmo que alguém pudesse acudir à prostituta, impedindo-a das bofetadas daquele malfeitor, ele, com reflexo de gato, a enlaça pelo pescoço e saca uma peixeira desafiando os demais:
- Vocês querem o quê?... Seus filhos da... em briga de marido e mulher... vão tomar no ... seus sacanas!...
- Deixe a mulher seu covarde – gritou alguém – venha me esbofetear!...
- Não perde por esperar seu defensor de puta. Acho que você está ofendido assim por causa de sua mãe. Primeiro quero dar uma lição nesta cachorra para aprender respeitar homem! – Não se sabe como, mas a jovem prostituta, aproveita-se da discussão, da troca de impropérios entre agressor e defensor, em fração de segundo, desenlaçou-se do seu agressor correndo nua porta fora. O agressor livre de sua presa, partiu como um desvairado para cima daquele que o tinha provocado. Com a agilidade de um animal felino o defensor se esquivou de um fatal golpe de faca que vinha em sua direção e, instintivamente, procurou abrigar-se atrás de uma parede que ao invés de lhe proteger da sanha do agressor, deixou-o acuado e sem movimento.
Na iminência do defensor sofrer um ferimento mortal, alguém o salvou;
- Deixe o rapaz, negro safado! – antes mesmo que o agressor se virasse para identificar de onde e de quem partira o insulto, recebeu na nuca uma forte cadeirada caindo por cima da faca.
Todos olharam-na abismados e admirados, principalmente, o rapaz que estava acuado e indefeso (D. Ruiva tinha-lhe salvo a vida), quando alguém falou alto:
- Ele está morto, D. Ruiva!... – Foi uma correria em cima do moribundo, todos queriam olhá-lo ao mesmo tempo. Viram que o elemento tinha caído em cima da faca trespassando-o. A caftina ainda em pé chorava e tremia de maneira compulsiva. Foi amparada e tirada dali imediatamente. O tumulto chamou à atenção da vizinhança e a polícia foi avisada.
No dia seguinte ao trágico acontecimento, os fatos começaram ser esclarecidos: a vítima fatal era um açougueiro recém-chegado ao lugarejo, por nome de Firmino Rocha, vulgo nego Firmo. Tinha um passado de desordens e arruaças. Por outro lado, os amigos e a família justificavam que sóbrio, sem bebida, nego Firmo era um exemplar chefe de família (pai de três filhos menores), um amigo solidário e leal, além disso era o protegido do Dr. Bento Fontoura de Amaral, maior pecuarista daquela região.
Não obstante, D. Ruiva gozar da amizade da maioria dos homens e também de moças e mulheres de Baixa do Sapo, ela foi presa em flagrante, conduzida à cidade X, num camburão da polícia militar e entregue ao delegado de plantão. Sua casa foi fechada por duas semanas, reaberta logo depois e entregue a uma preposta de confiança.


Dois anos depois. O salão do fórum Ruy Barbosa da cidade X estava repleto. As meretrizes conhecidas e não conhecidas de D. Ruiva estavam presentes. Jus se faz dizer que não foram ao júri somente as meretrizes de Baixa do Sapo, mas, todos os homens e mulheres que tinham pela caftina uma certa admiração e apreço. Além dessas pessoas de Baixa do Sapo, empresários, advogados, médicos, fazendeiros, comerciantes, comerciários e outros profissionais também fizeram questão de marcar suas presenças e prestar solidariedade àquela que tinha lhes proporcionado tantos prazeres extraconjugais.
A família do nego Firmo estava presente. Na primeira fila de cadeiras do tribunal, viam-se uma jovem mulher enlutada (vestiu a mesma roupa do sepultamento do marido), os filhos e os avós paternos.
O burburinho, os cochichos e o movimento de pessoas foram interrompidos quando um agente da justiça anunciou pelo serviço de som a entrada do meritíssimo juiz de direito da 3ª. Vara Criminal da Comarca da cidade X:
- Atenção senhores e senhoras!!! Pedimos-lhes que façam silêncio. Cada um tome o seu lugar para o início dos trabalhos deste júri, presidido por S. Exa. e M. Dr. Carlos Chacon. – Todos ficaram apostos em seus lugares simultaneamente. A ré ficou em êxtase com os olhos arregalados, alienada... Procurou no fundo do baú das reminiscências o nome Chacon... Sua mente começou latejar e perguntar: “ quem é Chacon?... Chacon?... Chacon?...” Não obteve resposta.

Carlos Moisés Chacon, 34 anos, loiro, alto, recém transferido para aquela circunscrição judiciária. Casado e pai de três filhos. Formou-se bacharel em direito ainda imberbe, foi o primeiro do curso e o orador dos formandos. Advogou pouco tempo, ingressando com nota de louvor na magistratura baiana. Comentava-se à boca pequena que pelo seu saber jurídico, retidão de caráter e inteligência chegaria cedo a desembargador. Tinha passado por outras duas comarcas menores antes da cidade X. Além disso, o jovem juiz Chacon tinha três obras jurídicas no mercado editorial com grande tiragem. Ultimamente, era presença obrigatória em seminários e conferências universitárias. Orador ímpar.
Seus colegas de magistratura achavam-no afetado e esnobe. Ninguém privava de sua intimidade. Não obstante ser educado no seu relacionamento profissional. Suas atitudes eram frias e calculadas. Jamais o Dr. Chacon manifestara algum gesto de descontração com qualquer dos seus subalternos ou mesmo com algum colega de magistratura. Os advogados tinham que agendar as entrevistas. A pauta era de assuntos profissionais. Poder-se-ia afirmar que socialmente o juiz Chacon era um misantropo, um solitário social.
Com a família observava-se que tinha certas extravagâncias: ia à praia, ao clube, às festas públicas, porém, discretamente sua família ficava à distância das demais. Os filhos menores e a mulher tinham a mesma conduta do Dr. Chacon. Parecia que o destino tinha moldado aquelas criaturas numa só alma.
O Sr. Juiz, circunspeto, vestido numa toga impecável adentra o salão do júri, com atitude altiva, toma assento em sua cadeira e começa a sessão com a escolha dos jurados. Depois dos entreveros dos advogados, na aceitação e recusa de alguns nomes para compor o Conselho de Sentença, ele faz um agradecimento à sociedade ali representada por seus diversos membros e uma exortação ao símbolo do direito e da justiça:

- Senhores, Senhoras (fez-se naquele momento, um silêncio fúnebre com a fala do magistrado), Exmº. Dr. Marcos Scknner, muito digno representante do Ministério Público da Bahia, Ilustríssimos colegas do direito, representantes da vítima e da ré. Senhores e Senhoras do Conselho de Sentença. Nesta oportunidade queremos agradecer em nome do Tribunal de Justiça do nosso estado, o comparecimento da sociedade, aqui representada por essa plêiade de homens e mulheres da nossa cidade. Agradecemos em especial, a presença dos nossos egrégios representantes do direito e da justiça baiana.
Oxalá que tenhamos sucesso na aplicação da lei e da justiça. Que nos pautemos pelos princípios da deusa Thémis, guardiã do juramento do homem e da Lei.
Rudolf Von Lhering, com propriedade sintetiza o símbolo da justiça (apontou para uma imagem sobre a mesa), representada por uma mulher com os olhos vendados, uma balança suspensa numa das mãos e uma espada na outra: “A Justiça tem numa das mãos a balança em que pesa o direito, e na outra a espada de que se serve para a defender. A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é a impotência do direito”. Os artistas alemães acrescentaram ao símbolo da justiça uma faixa aos olhos para indicar imparcialidade. Ricos e pobres são iguais perante a Lei. Os romanos personificaram a justiça em sua deusa Justitia. Cega (extremo da imparcialidade), trazendo nas mãos uma balança com o fiel no meio, indicando equilíbrio e bom senso no julgamento.
Queremos fazer um apelo à consciência moral dos senhores jurados. Os senhores são os representantes da sociedade e os verdadeiros juízes. Não podem se comportar com leviandade. Temos que responder com justiça e imparcialidade cada questão formulada, analisando-a de maneira criteriosa. Na hora de responder, lembre-se que do seu ato impensado pode arruinar a vida do seu semelhante ou contribuir para impunidade.
Que iniciemos os nossos trabalhos com as bênçãos de Deus. Muito obrigado!...

D. Ruiva estava extasiada, enlevada... Bebia e degustava cada palavra do jovem magistrado como se fosse um vinho raro. Ao diabo o resultado da sentença! Tinha cumprido a prisão com dignidade. Na casa de detenção era tratada com respeito desde o faxineiro ao diretor do presídio. As presidiárias adoravam-na, algumas eram amizades antigas. Não queria matar ninguém, principalmente, um homem que não conhecia. Foi um lastimável acidente... Seus advogados tinham impetrado um hábeas corpus e convencido os juízes do Tribunal de Justiça do estado de sua inocência e dela aguardar o julgamento em liberdade. Ela acreditava que seria absolvida.
Não sabia os motivos daqueles sentimentos de empatia que estava sentindo pelo magistrado. Os seus advogados, pintaram-no como um homem justo, mas frio e inflexível. Ela tinha tido impressão contrária...

Fez-se a leitura dos autos. O inquérito da polícia era uma peça inteligível e bem acabada. A polícia tinha feito todos os procedimentos legais: da prisão em flagrante da caftina ao levantamento e autópsia do cadáver. Além de submeter Kátia, o móvel do crime, ao exame de corpo de delito. Ouviu todas as testemunhas, vasculhou todas circunstâncias graves e atenuantes, dentro dos prazos legais, remetido o inquérito à justiça e a acusada pronunciada.
Findo a leitura dos autos, S. Exa. Dr. Chacon inquiriu brevemente a ré sobre as circunstâncias do crime, fazendo em seguida uma exposição sucinta para os senhores jurados. E, determinando que se promovesse a entrada das testemunhas de acusação para inquirições e oitivas:

- Meu nome é Carla Amaral, brasileira, 26 anos, estado civil solteira. Trabalho de garçonete em um bar no distrito de Baixa do Sapo. – Assim começou a primeira testemunha de acusação desinibida e articulada.
Dr. Scknner, homem sociável, inteligentíssimo, conhecido no alto e no baixo mundo das meretrizes. Ele não escondia esse gosto mundano, tinha por máxima: “a mulher é tão especial que Deus lhe deu o dom da maternidade, sem ela a humanidade não existia”. Apreciador moderado de um bom vinho e uma boa cerveja e frequentador assíduo do futebol de várzea dos finais de semana, começou a fase de interpelação das testemunhas:
- A Srta. Carla Amaral era íntima da vítima? – Não, doutor! – Não o conhecia? – Conhecer, eu o conhecia. Ele era cliente do bar que trabalho, só não tinha intimidade!... – E, D. Ruiva?... Já freqüentou a casa dela? – D. Ruiva, a conheço de longe. Sou moça de família... nunca fui lá!... – Meritíssimo não tenho mais perguntas. – O colega de acusação do promotor, o jovem advogado Sílvio Freire, também dispensou a testemunha, por achar que a testemunha pouco acrescentava para acusação. O velho Armando Souto, advogado da ré, raposa jurídica inconteste, orador eloqüente e contumaz ganhador de causas impossíveis, foi quem prosseguiu com a testemunha:
- A senhorita disse que não tinha intimidade com a vítima. Conhece de longe a ré, moça de família, nunca freqüentou o bordel da minha cliente, o quê veio fazer aqui? – Protesto Meritíssimo!... O nobre colega da defesa está intimidando a testemunha. – Protesto negado. Responda senhorita! – Não tinha intimidade com a vítima, mas, sou amiga de sua esposa, desde que eles chegaram a Baixa do Sapo. Sei que seu Firmo era um ótimo pai de família e não merecia morrer daquela forma... – E, desse modo evasivo, sem subsídio, a inquirição ocorreu com as testemunhas de acusação. Não tinham presenciado o crime. Não estiveram no local, tinham sido arroladas por serem vizinhas da família, ter conhecido a vítima. Exortaram suas qualidades de esposo, de pai, de amigo. Afora algumas ações excessivas que praticava por força do álcool, nego Firmo tinha sido vítima da escória meretrícia que se envolveu. Embora as testemunhas não tivessem participado dos fatos circunstanciais de crime, seus testemunhos transformaram o nego Firmo em um santo sem auréola.
Todos estavam ansiosos em relação às testemunhas de defesa. A expectativa era geral. As testemunhas de acusação tinham deixado D. Ruiva em maus lençóis. O crime estava assumindo características fúteis e intencionais. A vítima queria apenas, gozar do prazer do sexo, coisa de macho... Não teve meios de defesa, foi brutamente atingido pelas costas por uma cadeirada. E, pelo raciocínio dessas testemunhas, teria sido fácil dominá-lo, não era um malfazejo. Além disso, estava embriagado. A primeira testemunha de defesa tinha sido a causa do crime:
- Sou Kátia Souza, 23 anos... trabalho na casa de mãe Ruiva – todas chamavam-na de mãe - , há três anos!... – A senhora já conhecia a vítima antes daquele dia?... – Perguntou o promotor. – Não, doutor! Ele me chamou pra beber, depois fomos para o quarto... – Aí... os senhores brigaram? – Ele queria... fazer... a força!... – Seria necessário o uso da força, a senhora não é profissional do sexo?... – Ele queria me comer por detrás doutor! O nego era um jegue!... – Houve um burburinho, a platéia caiu na gargalhada. Foi necessária a intercessão do Dr. Juiz para conter a balbúrdia, pedindo à testemunha que evitasse comentários desairosos e desnecessários. – Excelência não tenho mais perguntas. – O advogado de acusação perguntou à testemunha se ela tinha presenciado o crime: - A Senhora estava na hora do crime? – Não, doutor! Tinha apanhado muito. Assim que surgiu uma oportunidade, escondi-me no quarto de uma colega. Eu fugi nua com o corpo doído das porradas. Em menos de dez minutos houve um alvoroço das pessoas alguém gritando que tinham matado o nego. – A Senhora foi ver o corpo? – Não! Estava apavorada... – Estou satisfeito Excelência. – Dr. Armando Souto, perguntou-lhe: - Que diz de sua patroa? – Protesto Meritíssimo! A defesa estar querendo uma resposta tendenciosa. Tergiversando e fugindo dos fatos que deram origem ao crime – Protesto negado! A conduta da acusada poderá fornecer elementos para compreensão do crime. – Continue Dr. Armando! – Sra. Kátia, é necessário repetir a pergunta sobre sua patroa? – Não! Nós não consideramos D. Ruiva como patroa. Ela é tratada por todas como mãe Ruiva. Ela cuida da nossa saúde, da nossa alimentação, das nossas amizades, não quer que bebamos ou fumemos. Se insistimos beber ou fumar, ela não deixa que abusemos do excesso. Não nos explora e ainda insiste que guardemos em banco nossas economias. Sofre com a gente os momentos ruins. – Era tudo que a defesa queria ouvir. A depoente tinha conseguido chamar à atenção dos jurados para o caráter e grandeza moral da ré.
A segunda testemunha seguiu a mesma linha anterior. O jovem Ronaldo Santana contou as circunstâncias do crime. Ao ouvir os gritos de socorro, encontrou a vítima com uma peixeira ameaçando e batendo na prostituta e tinha provocado o nego Firmo, tentando distrair-lhe para que a mulher fugisse, objetivo atingido, mas, que tinha ficado contraparede e o agressor, tornando-se alvo fácil da sanha criminosa da vítima. Graças a Deus e a presença de espírito da D. Ruiva, tinha sido salvo.
Os advogados e promotoria ficaram satisfeitos com os depoimentos e as informações trazidas pelas testemunhas. Começaram os libelos, fazendo uso da palavra inicial, o ilustre representante do Ministério Público o Dr. Marcos Scknner:

- Dr. Sílvio Freire, jovem promissor do direito e da lei. Egrégio Dr. Armando Souto, colega de tantos e memoráveis embates. Homem de cultura humanística considerável a serviço da lei e da justiça. Meritíssimo Dr. Carlos Chacon, representante exponencial da magistratura baiana, gênio precoce do saber jurídico. Minhas senhoras, meus senhores:

- A missão da promotoria, às vezes, é espinhosa. Tem por princípio intrínseco defender o estado e a sociedade, acusando e levando à punição os contraventores da Lei. Se Montesquieu fosse vivo, com certeza teria acrescentado à sua obra, o Espírito das Leis, um quarto poder, autônomo e soberano: o Ministério Público. Entretanto, Senhores do Conselho de Sentença, os fatos, as circunstâncias e a história de um delito andam na contramão das teses jurídicas. A lei em si é fria, cabe ao agente dela, dar-lhe movimento e humanizá-la. O arauto do racionalismo filosófico, René Descartes, ensinava que o homem deve empregar o bom senso em suas ações. Pelo bom senso de nossas ações construiremos a sabedoria e a justiça. Que Deus me ilumine neste momento para propugnar perante os senhores jurados não a lei fria e impessoal, mas o bom senso dela a serviço do homem.
Embora esse delito tenha sido causado em um antro de concupiscências, de vícios e pecados, como rotula a nossa hipócrita sociedade. Os fatos e as circunstâncias descritas nos autos apontam para um crime de morte por causas supervinientes. Explico-lhes senhores jurados: a cadeira desfechada na vítima pela ré (apontou para D. Ruiva), poderia ter causado a morte do nego Firmo. Sua morte, entretanto, ocorreu de acordo laudo médico da autópsia (leu o laudo), pela transfixação de um objeto pontiagudo e cortante no coração da vítima. Noutras palavras, não houve a intenção de matar da acusada. Não houve dolo. Não houve um ato consciente, premeditado, urdido, planejado e qualificado. A ré foi impelida a cometer esse crime por forte emoção moral em defesa de terceiro e acrescentaria: em legítima defesa!...
A platéia e o tribunal estavam pasmos. Dr. Scknner estava fazendo uma genial peça de defesa, alguém ainda cochichou: “eu não lhe disse que ele é o rei das putas!...” Foram duas horas de um persuasivo discurso. Invocou o Artigo 121, do Código Penal que caracteriza o homicídio simples e o parágrafo que estabelece o homicídio culposo sem intenção de matar, sem o acréscimo da pena. Além disso, reiterou por várias vezes, os instintos maternais da ré que se preocupava com bem estar de suas meninas mesmo elas não sendo suas filhas.
Doutor Sílvio Freire, neófito das lides jurídicas pouco acrescentou - depois de ouvir o apelo do mestre. Fez um discurso na mesma linha do promotor, deixando a critério da consciência dos verdadeiros juízes: os jurados.
O golpe fatal ficou por conta do advogado de defesa, Dr. Armando Souto. Depois das saudações de praxe, ele deu início à sua tese:

- Nós, homens civilizados, não abolimos do nosso psique os preconceitos atávicos. Não quero aqui fazer uma apologia exaltando a exploração do corpo e do sexo. Todavia, gostaria de fazer uma ode para louvar os valores estéticos da mulher e os prazeres da carne.
Muitos homens respeitáveis da nossa sociedade, às escondidas, na calada da noite, esgueiram-se pelas ruas e pelos becos para receberem os favores dessas profissionais do prazer: as prostituas. Acho que elas não são somente as profissionais do sexo. Para mim elas são profissionais do prazer porque além de sexo, elas servem como repositórios de queixas e desajustes conjugais, de fracassos profissionais e pessoais. Elas ainda servem para dar vazão às taras sexuais de homens psicologicamente desajustados. Quantos conseguem curar o corpo e a alma num prostíbulo? Muitos! É pena que os textos oficiais estatísticos não façam esses registros. Ao invés de condená-las, todos nós, governo e sociedade, procuremos ajudá-las e incentivá-las com políticas públicas específicas para que elas se tornem perfeitas cidadãs. A discriminação faz delas alvos fáceis de exploração inescrupulosa.
Cristo o homem que dividiu a história não fez nenhuma discriminação. Não levantou o dedo para apontar e condenar. Porém, fez uma desafio aos hipócritas daquela época quando encontraram uma mulher em adultério, desafiando os anciãos e a lei judaica: “ ... quem não tiver pecado atire a primeira pedra!...” Por isto, estou aqui, hoje, para defender uma digna representante de Maria Madalena...
Fez um esculacho na história de vida do nego Firmo. Respeitava os sentimentos dos filhos e da viúva. Lamentava também a morte prematura da vítima, era um ser humano... Como profissional do direito não podia esconder a verdade mesmo que tivesse de magoar os parentes da vítima.
O negro Firmo era um excrescência da sociedade, um arruaceiro, um desajustado e potencial criminoso, tinha uma folha policial (exibiu os BOs para os jurados), considerável de arruaças e agressões físicas às mulheres por onde passou. Finalizou: - Era um escroque, um pulha que não fará menor falta à sociedade.

Não houve tréplicas. O Exmº. Dr. Chacon autorizou um preposto distribuir as folhas de quesitos aos jurados. Fez uma elucidação de cada quesito e perguntou aos jurados se
eles tinham alguma dúvida. Eles responderam que as dúvidas foram sanadas com a análise feita pelo meritíssimo de cada quesito.
Antes deles deixaram a sala para procederem a votação, o Juiz perguntou à acusada:
-A ré deseja se pronunciar antes do veredicto?
-Excelência perdoe esse coração aflito, mas... gostaria... de saber o nome... de sua mãe?... – Foi um burburinho inesperado na platéia, o advogado de defesa procurou logo remediar a despropositada pergunta, preocupado em sua Excelência considerar uma pergunta acintosa. Entretanto, o Sr. Juiz procurou tranqüilizar o vexame e, olhando para ré respondeu: - Entendo que é uma informação desnecessária nesse processo e para ré!...
Na mitologia grega a deusa Thémis não teve filho homem. Teve três filhas mulheres: Eumônia que personifica a disciplina; Dikê que personifica a justiça e Eiriné, a paz. A deusa romana Justitia não também não teve filhos ou filhas.
Por isso, concluo para conhecimento da ré que o juiz agente do direito e da justiça não tem pais, porém, o cidadão Carlos Moisés Chacon, 34 anos, nascido na cidade Y, é o filho mais novo de Moisés Chacon e Maria Chacon Silva. Esp... – Antes do juiz terminar, ouviram a voz rouca e abafada de Maria Mirtes dos Santos:
- Não!... Ela não é... sua... mãe... sua mãe... sou...sou eu!... – D. Ruiva quedou-se, minutos depois ainda no tribunal, o médico avisava: - infarto fulminante!...
- Arquive-se o processo!... – Sentenciou Dr. Carlos Chacon.


Autor: Rilvan Batista de Santana

Academia de Letras de Itabuna - ALITA
 

O segredo - R. Santana

 

O segredo
R. Santana

     As peraltices de Karina e suas traquinagens davam-lhe graça e beleza ao invés de torná-la mal-educada e birrenta. Naquela tarde teimou contar um segredo à Amanda, sua mamãe, mas exigia-lhe que ninguém lhe ouvisse, nem mesmo os totós, o canário e o gato, ela queria cochichar ao ouvido da mãezinha um segredo.
     - Mãeinha... mãeinha... é um segredinho... bem pequenininho!...
    A jovem mãe, grudada ao computador, ciosa em fechar um relatório de trabalho e acostumada com as peraltices de Karina, às vezes, com brincadeiras exageradas pelo fogo da idade, não estava prosa:
     - Filha, eu estou ocupada, conte ao papai!...
     - Já falei... – Amanda protela:
     - Conte ao totó!
     Silêncio.
     -Mãeinha... mãeinha...
     - Quê é Karina?!
     - Já contei a Billy!...
     - Ele disse o quê? – Amanda adiava...
     - Hein?...
     - Billy falou o quê?
     - Latiu e me deu um beijo!
     Silêncio.
     -Mãeinha... mãeinha... é um segredo pequenininho!...
     - Conte, agora, a Hanna!
     Silêncio.
     -Mãeinha... mãeinha...
     - Fale filha!
     - Totó gosta de Karina!...
     - Eu também gosto de Karina!
     Silêncio.
     - Mãeinha... mãeinha... é um segredo pequititinho!...
     -Deixe a mamãe trabalhar!
     Silêncio.
     - Mãeinha...
     -Hein?!
     - Lolita disse que você não gosta de Karina!...
     - É mentira! Essa gata...
     -Por que mãeinha não deixa falar meu segredinho?... – já com bico de choro...
     - Conte ao canário!
     Silêncio.
     - Mãeinha, o canário cantou que Karina é linda!...
     Silêncio.
     - Mãeinha...
     - Karina me deixe em paz!!!
     Foi a gota d’ água... Ela correu para o quarto, agarrou-se à boneca e abriu o berreiro:
     - Mãeinha não gosta de Karina!... Mãeinha não gosta de Karina!... Mãeinha não gosta de Karina!...
     Amanda desabou... Correu atrás dela, ninou-lhe junto ao peito, e, quis saber o segredo:
     - Qual o seu segredo, filhinha? Qual o seu segredo, filhinha? Qual o seu segredo, filhinha?...
     Karina puxou a cabeça da mamãe à altura de sua boquinha e cochichou:
     - Karina ama mãeinha de coração!...


Autor: Rilvan Batista de Santana
LIcença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna- ALITA
Imagem: Google

Democracia R. Santana


Democracia
R. Santana
 

        "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". (Rui Barbosa)
     Um grande amigo escreveu parabenizando-me pelos modestos artigos que tenho escrito toda semana e transmitido aos amigos virtuais. Seus elogios fizeram-me lembrar do saudoso professor Mateus que brincava dizendo: ”para mim os amigos não têm defeitos, mas para os inimigos se não tiverem eu os coloco”. Entretanto, esse amigo não fez somente elogios, lembrou-me que alguns artigos eram publicáveis porque estávamos numa democracia. Lembrança e argumento inquestionáveis...
     Herdamos dos gregos as práticas democráticas. Aristóteles fundiu os termos democracia e república. Para ele, a democracia poderia ser direta e representativa, A direta é a forma mais exercitada pelos países contemporâneos. Aristóteles achava-a nociva: “... como defender os direitos das minorias contra a tirania das maiorias?” E, em seu livro Política recomenda a república que é uma democracia mais representativa. Na república escolhemos as pessoas para nos representar. Sempre em sintonia com os nossos desejos e aspirações - em quanto sociedade. Na democracia direta, escolhemos pessoas para executar e governar, às vezes, na contramão de boa parcela da sociedade.
     Ele tinha razão. Hoje, países como Cuba e China juram de pés juntos que são democráticos... Cuba com ditadura de meio século e China com seu regime comunista desde Mao Tse-Tug, é a ditadura de um partido.
     A democracia representativa é o modelo que mais condiz com o mundo atual. Face aos escândalos de corrupção e de malversação do dinheiro público por elementos do governo do PT, se fosse numa democracia representativa à francesa ou alemã teria havido uma renovação imediata do governo. Com a saída do primeiro ministro e o restante do gabinete Ficaria isento de qualquer responsabilidade o presidente, o chefe de estado. O parlamentarismo é sem dúvida, a principal forma de governo do mundo atual. As monarquias constitucionais tendem a perdurar por estarem embasadas em tradições milenares e pelo fato do povo ser representado por um governo parlamentar. É comum o dito popular: “reina, mas não governa”. O chefe de estado tem função mais diplomática, representativa, do que se imiscuir no dia-a-dia da rotina administrativa.
     As nossas repúblicas americanas se inspiraram nos EUA. A autoridade de governo e de estado está centrada no presidente da república. Ele é o responsável pelas mazelas ou bem estar do seu governo. Notadamente, é o presidente que nomeia seu staff. Cabe-lhe o juízo e escolha dos seus auxiliares. Por isto, ele não pode se eximir de responsabilidade do que se passa no governo.
     A ferramenta que se usa para externar a vontade do povo é o voto. O voto foi usado pela primeira vez pelos gregos. A História registra que Sólon, governante grego, foi o primeiro a instituir o voto obrigatório. Hoje, na maioria dos países democráticos, o voto é o principal instrumento de cidadania política e o exerce por um dever de consciência e não por uma força da lei eleitoral.
     No Brasil a democracia (governo do povo), nunca teve uma linha uniforme. A História registra oscilações ao longo do tempo, desde o seu descobrimento. O Brasil já foi dividido em capitanias hereditárias, colônia, vice-reino, monarquia, república, ditadura getulista, ditadura militar... até o período atual. A verdade exige que se diga que o país vive um momento democrático excepcional. As instituições públicas funcionando, os direitos individuais preservados, a imprensa transparente e os poderes da república desempenham seu papel com autonomia e independência.
     Aqui, o exercício de plena cidadania andou capenga durante várias décadas. Excluiu-se o direito de voto dos negros, dos analfabetos e das mulheres. Além do uso do “voto de cabresto” que os coronéis impunham às pessoas de sua influência. Porém, foi no governo getulista que a mulher brasileira começou votar. O Decreto nº. 21.076 de 24.02.1932, no se Artigo nº. 2, que todos brasileiros maiores de 21 anos independente do sexo, tinham direito a voto e na Assembleia Nacional Constituinte de 1933, tem sua primeira deputada mulher, a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz. Terminava em Carlota uma luta da educadora baiana Leolinda de Figueiredo Daltro, com passagem por Goiás, passa morar no Rio de Janeiro e em 1910 funda a Junta Feminina, engajando-se na campanha presidencial de Hermes da Fonseca contra o civilista Ruy Barbosa.
     Eis aí meu amigo a resposta acima. A democracia não é apanágio de um governo e sim da sociedade. Por natureza todo homem é tirano. Quando assume o poder gostaria que sua vontade estivesse acima das demais. Acho que Rousseau não teve razão em afirmar: “o homem nasce bom e a sociedade o perverte”. É sabido que o homem nasce com todos os instintos animais e a sociedade o educa e lapida.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons 
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
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A VOZ QUE NÃO QUER CALAR - R. Santana

 

A VOZ QUE NÃO QUER CALAR
A VOZ QUE NÃO QUER CALAR
R. Santana

Às vezes, fico pensando que sou um dos mais ignóbeis brasileiros, principalmente, quando leio e ouço depoimentos de pessoas inteligentes, letradas, defendendo com unhas e dentes os abomináveis partidos políticos, os maus políticos, os maus gestores públicos, os “caixa dois”, os valeriodutos, a compra de deputados, de dólares na cueca, de sanguessugas. Eles justificam que essas práxis políticas sempre ocorreram e são aceitas naturalmente.
Fico estarrecido ainda, quando o presidente Luis Inácio Lula da Silva, depositário das esperanças do povo desde 2002, reconhece publicamente que essas práticas políticas desonestas são herdadas e o seu governo tem o mérito de levá-las ao conhecimento popular, que o Ministério da Justiça e a Polícia Federal nunca trabalharam tanto para denunciar e incriminar os seus infratores, que “não viu”, “não sabe”, “não autorizou”, “só acredita depois da conclusão dos inquéritos”...
Particularmente, acho um grande sofisma. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça têm cumprido o seu papel, sua obrigação, como órgãos de inteligência e atuação do governo, porém, os louros dessas performances devem ser creditados à nova safra de destemidos jovens procuradores do Ministério Público, da imprensa investigativa e independente deste país. Sem a enxurrada de denúncias, de flagrantes da mídia televisiva, esses órgãos do estado e do governo não teriam trabalhado tanto.
Parece-me (pelos altos índices de aprovação do candidato Lula à reeleição) que o povo discrimina o candidato à Presidência do presidente. Este, responsável pela indicação de assessores e ex-assessores que estão indiciados por crimes de corrupção e malversação do dinheiro público, é vítima de companheiros que traíram sua confiança. O candidato à Presidência é fanfarrão, cheio de si, ”light”, vaidoso, com pensamento e práticas burguesas, vai de vento-em-popa nas pesquisas, alçando alturas estratosféricas na intenção de votos, com uma eleição praticamente definida no primeiro turno.
Com um programa de governo pífio (vai fazer muito mais...), com promessas não cumpridas, o candidato Luis Inácio Lula da Silva apresenta somente dois cartões postais de sua administração de quatro anos: o ProUni e a Bolsa Família. Programas assemelhados e ampliados dos seus antecessores.
Em saneamento básico, rodovias, segurança pública, assentamentos agrícolas, moradia, educação e saúde o governo atual deixa a desejar, só se doravante esses programas serão executados.
Na Amazônia (pulmão do mundo), continua a derrubada irracional das florestas. O comércio clandestino e predatório de plantas medicinais e animais em extinção ocorre numa desenfreada agressão à natureza. Fazendeiros de outros estados estão transformando as florestas em fazendas de pecuária, não obstante os esforços e a ingerência da ministra Marina Silva e o trabalho diuturno do IBAMA. É uma situação que vem se arrastando ao longo de décadas, todavia, não se pode formar uma mentalidade civilizada, não predatória com base nos erros do passado, é preciso que os mecanismos de governo sejam acionados e haja implementação de campanhas educativas ambientais e a punição judicial e policial dos infratores. Porém, a solução definitiva só será possível se o governo tiver políticas de investimentos e programas bem definido de proteção à natureza. Investimentos maciços a exemplo do Sistema de Vigilância da Amazônia - SIVAM.
Por isso, não entendo porque a maioria dos eleitores brasileiros tende avalizar novamente um governo que representa, neste momento, tudo que combateu num passado recente, da ganância dos banqueiros ao desestímulo do mercado produtivo com uma política fiscal escorchante e juros elevados.
Alguém pode contra-argumentar que este artigo é tendencioso, que tudo que foi dito sempre ocorreu, que a corrupção é tão velha quanto a humanidade, que as promessas políticas são tão falsas quanto uma nota de três reais, que o Brasil foi construído por degredados expulsos de Portugal e aventureiros que dizimaram os nossos índios, levaram o nosso ouro e a nossa madeira e o governo português continuou enforcando os nossos compatriotas que se sublevavam às espoliações lusitanas. Tem razão os que pensam assim, todavia, vivemos numa democracia e o voto é o instrumento decisivo no aperfeiçoamento das instituições públicas. Quando votamos, além do exercício de cidadania que exercemos, estamos delegando poder público e endossando um ideário. Se somos traídos na nossa boa fé, é ser obtuso na repetição do erro. É o velho ditado: “errar é humano permanecer no erro é burrice”.
Diante da incompreensão das massas, do comodismo de alguns, do oportunismo deles, esta voz e a de milhões de brasileiros não querem calar.
Postscriptum: estava fechando esta matéria, quando surgiu mais um novo escândalo no governo e no seu PT. Envolvendo um churrasqueiro das festas do Presidente. Um diretor do Banco do Brasil, um segurança e um dos coordenadores da campanha à reeleição.

Alea jacta est!!!


Autor: Rilvan Batista de Santana

Nota: este artigo tem, apenas, valor histórico. Hoje, com o julgamento do mensalão pelo STF, talvez, tenha alguma valia pra pesquisa.






Uma nova linguagem - R. Santana

 

Uma nova linguagem
R. Santana

Os meios de comunicação são cada vez mais sofisticados, com o advento da informática e da Internet, é possível registrar fatos em tempo real com imagem e voz em qualquer ponto da Terra em fração de tempo. Não existe mais segredo neste mundo de meu Deus!... Hoje, os ditadores são desmascarados à luz do dia, poucos se sustentam quando a sublevação do povo é pra valer, exemplo recente é Kadafi, claro que os líbios tiveram o apoio da OTAN, mas foram as imagens de um povo sofrido e as denúncias por email que chegaram primeiro em todos os recantos da terra que minaram o regime de 42 anos e contribuíram para derrocada do ditador. Quem no mundo não tomou conhecimento das imagens bélicas e revolucionárias do Egito, da Tunísia, de Bahrain e do Iêmen? Todos os cidadãos do mundo foram testemunhas em tempo real das atrocidades que essas ditaduras praticaram, inutilmente, para se manter no poder. Porém, caro leitor, o nosso objetivo não é tecer loas ao avanço da tecnologia da comunicação de tais feitos, não temos “know how” para analisar esses avanços tecnológicos modernos herdados dos pioneiros de comunicação à distância como Samuel Morse e do nosso padre cientista – o Brasil ainda não lhe fez justiça – o padre Landell de Moura, mas fazer uma reflexão da linguagem de email. A maioria dos gramáticos e lingüistas tradicionais resiste à nova linguagem que se caracteriza pela rapidez e sem convenção. No e-mail valoriza-se a comunicação, independente da forma e da técnica gramatical, se a mensagem for inteligível, isto é, comunicar, é de somenos importância, as conhecidas regras gramaticais vigentes e as técnicas de redação, não que não se preze a língua clássica e tradicional, é que o internauta valoriza mais a linguagem simbólica, cotidiana. Diferente da carta, às vezes, com duas ou três laudas e quando prolixas muito mais, o e-mail é sucinto, geralmente, de uma a três linhas a comunicação se encerra, porque a quantidade, a velocidade e os meios de comunicação são diversos e democráticos (o acesso é livre), portanto, não é necessário alguém tecer comentário longo em assunto cujo significado é imediato. Eis, abaixo, alguns e-mails à guisa de esclarecimento: “Tio, tou morrendo de saudade. Bjos. Amanda” “Obrigado, amiga: O que foste buscar! Hehehehe. Cuac para ti! Jorge” “Mary, me liga, vc tá cada vez mais gostosa!!! kkk...” “AFFF MARIA! O QUE É ISSO?... E assim foi povoada a Bahia...**..será verdade..????..rssrsr (e sem Viagra, hein?!). Ceres” “Na Ficha Cadastral enviada no e-mail anterior, faltavam 2 itens. Fiz a correção e estou reenviando a Ficha. Desculpem. Sabem aqueles 70?... Ruy” “... Que a Paz do Deus Menino esteja no coração de todos. Que a Harmonia, o Amor, a Prosperidade, a Bondade, a Saúde sejam uma constante na vida de cada um no ano que se aproxima. Grande abraço a todos! Lurdes” Faz-se necessário esclarecer antes de fechar este artigo que o e-mail não é o único meio de comunicação de textos concisos, as redes sociais e a telefonia (torpedos), também, usam uma linguagem escrita rápida e descomprometida, além da voz e da imagem, os japoneses, por exemplo, usam mais as mensagens de textos na telefonia do que a voz, portanto, essa nova forma de texto simplificado veio pra ficar. Certamente, os cultores do idioma mais tradicionais, acostumados às convenções e ao formalismo da língua, resistirão à nova codificação do idioma e ao uso menos formal da grafia, porém, terão que reconhecer que o e-mail como dispositivo eletrônico dos tempos atuais, deu origem a uma nova linguagem.

Autor: Rilvan Batista de Santana 29.12.2011

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