11.11.2025

Um chato estudante de português - R. Santana

 

Um chato estudante de português
R. Santana

     Tom Zé e Manduca são dois jovens vestibulandos dos tempos atuais. Os dois são do bem, porém, Tom Zé pegou a mania de corrigir os vícios de linguagem de Manduca e como o hábito é uma segunda natureza, estendeu essa mania a todos os seus conhecidos e não conhecidos que cruzassem o seu caminho e cometessem um pecado contra o nosso idioma.
     Manduca mais ladino, mais inteligente, porém, menos esforçado e mais desleixado intelectualmente, vez ou outra, Tom Zé puxava-lhe a orelha:
     -Manduca não é “...onde irei?” , mas “...aonde irei?” – continuou: - as duas palavras são advérbios de lugar, porém, essa combinação do a+onde, é feita quando o verbo indica movimento, notou a diferença?
     -Tom Zé, você é chato!... A linguagem oral é passível de lapso, o objetivo da linguagem é a comunicação, desde os primitivos, as regras da gramática vieram depois com os gramáticos ou não foi assim?
     -Entendi colega, mas deixe isso para os analfabetos que falam no seu dia-a-dia: “pro mode”, “pro quê?”, “nós vai”, “foi eu”, “nós famos”, eles têm razão, não alisaram os bancos da escola, nós, não! Não podemos assassinar a “Língua de Camões” e a “Última Flor do Lácio”...
     -Quem construiu a língua não foi Camões, Castilho, Gil Vicente, Bocage, Eça, Júlio Dinis e tantos outros escritores portugueses ou brasileiros. Quem construiu a língua foi o povo, os soldados romanos com o seu latim vulgar e suas corruptelas e os mercadores ibéricos. Concorda comigo, sabichão!?– ironizou Manduca.
     -Não sou sabichão! – bufou Tom Zé.
     -Parece!
     -Às vezes, lhe faço algumas observações por conta da nossa amizade, como iremos ser advogados criminalista, a nossa retórica terá que ser a retórica de Cícero!...
     -Não, Tom Zé. Você corrige a mulher da cantina, o porteiro, os colegas, os professores... – fez uma pausa e continuou:
     -O seu zelo pela língua tornou-se chatice, uma obsessão!
     -Manduca não se zangue comigo – mais calmo e menos afetado -, é que não compreendo como um professor, um colega, uma pessoa de diploma e anel, continue falando: “menas”, “siclano”, “poblema”, “própio”, “estadia”, “normaço”, “nós samos”, “fazem dez anos”, “é eu”, ao invés de: “menos”, “sicrano”, “problema”, “próprio”, “estada”, “mormaço”, “nós somos...”, “faz dez anos”, “sou eu”. Não compreendo confundir “discriminar” com “descriminar”, “iminência” com “eminência” e alguns profissionais ainda usarem: “previlégio”, “dioturnamente”, ferindo o nosso ouvido!...
     -Meu caro Ruy Barbosa dos tempos modernos, eu entendo a sua preocupação, não compreendo a sua obsessão! Os tempos são outros... Tu já estudaste a linguagem jovem dos e-mails?
     -Uma revolução às avessas do idioma! – sentenciou Tom Zé.
     -Uma revolução às avessas? Não senhor!
     -Isso que está aí, é uma linguagem clássica?
     -É uma linguagem da Internet, uma linguagem cifrada, é a velocidade... – respondeu-lhe reticente.
     -Onde já se viu “kkkkkk...”, “rsrsrsrsrsrs...”, “kd” “fwd”, “hahahahaha....” e outras frases cifradas, uma linguagem convencional?
     -Não se surpreenda se daqui alguns dias... – foi interrompido por Tom Zé:
     -Deixe de maluquice, homem! – deu-lhe às costas e foi embora.
Manduca está acostumado com o temperamento impulsivo do colega, quando lhe faltam argumentos, sobram-lhe grosserias.
     Tom Zé é mais estudioso, mas não tem a mesma desenvoltura de pensamento e o raciocínio rápido e conciso do seu colega de turma, não obstante Manduca não ser um roedor de livros, assimila os assuntos com facilidade, além de ter uma percepção prática do mundo e da vida. Para ele, a linguagem não pode ser engessada, censurada o tempo todo, todo o tempo, por conta de afetados intelectuais. O mais importante da linguagem é a comunicação, não importam os erros de concordância, os erros ortográficos, os erros de acentuação se a idéia e a proposição chegam ao interlocutor, se o sujeito encontra um receptor, a comunicação foi efetivada.
     Tom Zé não se tocou com o último papo que teve com Manduca, quando a oportunidade surgia, lá estava com a língua afiada e a boca aberta para corrigir o lapso ou a ignorância vernácula:
     -João não se diz: “dez real”, mas dez reais!
     -D. Maria, o verbo “ser” é no plural e o sujeito é “nós”! – a velha rodou a baiana:
     -Joven, eu não esfrerguei a bunda no banco da iscola, inhô intendeu?... – às vezes sua correção era doentia e descabida.
     O auditório estava cheio. Um orador tinha sido convidado pelos estudantes de um Seminário Direito para falar sobre “Economia e Legislação”. Tom Zé e Manduca sugavam cada palavra e cada exemplo do orador. Manduca recolhido num canto, escutava e fazia suas anotações; Tom Zé, além de escutar e anotar, dentre os estudantes, era quem mais aparteava o palestrante, às vezes para concordar, doutras vezes, para discordar.
     O Dr. André foi incompreendido quando disse que o Exército é uma empresa (esclareceu-se depois), mas sua fala passaria despercebida se o chato do Tom Zé não o tivesse aparteado antes mesmo que completasse sua proposição:
     -O Exército é uma instituição militar!
     -Eu sei! Porém, falei do ponto de vista organizacional. O Exército possui departamentos, tarefas, receitas, despesas, um corpo jurídico, comandantes e subcomandantes e um comandante supremo: o presidente da República! - fez uma pausa e continuou: - não é uma empresa com fins lucrativos, com ações no mercado, com preços de produto ou de prestação de serviço. Os senhores entenderam? – um raquítico jovem, levantou-se e como se falasse em nome da turma:
     -Professor, entendemos, sua comparação procede – solicitou vênia ao palestrante e voltando-se para Tom Zé:      - Qual é o maior vocábulo da língua portuguesa, doutor sabe tudo? – por essa ninguém esperava.
     -Cultura inútil!
     -Também acho. Como são inúteis os seus apartes, os seus comentários, o senhor irrita a nossa paciência, é lamentável sua conduta chata, falta-lhe educação, sobra-lhe arrogância, sobra-lhe afetação e sobra-lhe esnobismo! – todos o aplaudiram de pé.
     Tom Zé não respondeu ao jovem nem poderia, ficou isolado o restante do seminário, palestrantes sucederam ao Dr. André, por um acordo tácito, o jovem que lhe disse umas verdades, foi eleito representante dos alunos do curso de Direito, sem voto e sem aclamação.
     Sábio, é o homem que tem consciência que pouco sabe, mas se dispõe aprender; sabido, é o homem que não tem essa consciência.

"A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens: não há senão um verdadeiro luxo e esse é o das relações humanas." [Antoine de Saint-Exupéry]

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

VILMA - R. Santana

 

VILMA 
R. Santana

    Não tínhamos mais de 12 ou 13 anos de idade, foi um amor elétrico, os olhos trocaram farpas de luminosidade quando nos conhecemos. Ela, magra sem ser magérrima, morena, cabelos levemente anelados e compridos, altura média, seios pequenos, mãos sublimes, bumbum empinado, um filé-mignon... Não trocamos uma palavra, os nossos olhos se comunicaram e fizeram promessas e juras de amor!...
    O Sr. Augusto Aquino, pai de Wilma, um homem sisudo de poucas palavras, tinha feito uma permuta de casas com João Pedro, um arremedo de meu pai adotivo, em bairros diferentes, na cidade de Itabuna.
    Augusto Aquino deveria ter uns ter 45 ou 50 anos de idade, por detrás, o alcunhamos de “o velho”. Lembro-me que não o simpatizei, principalmente, quando descobrimos que sua sabedoria comercial excedia às suas condutas de correção e não foi diferente com o meu tio: - empurrou-lhe uma casa velha em troca duma casa nova e negaceou a volta. Porém, confesso ao leitor que fiquei admirado de sua perspicácia, do seu feeling: “Os olhos são a janela do coração”. Aquino percebeu que entre mim e sua filha tinha “rolado uma química”, “uma coisa de pele”, como dizem os enamorados d’ hoje.
    O meu tio não tomou posse da casa, preferiu vendê-la, Aquino se apossou da sua casa e para o meu deleite nos tornamos vizinhos, ou seja, Vilma ficava ao alcance dos meus olhos, separada somente, pela rixa dos dois chefes de família: - eu não podia ir lá, ela não podia vir cá...
    Tímido, mas espirituoso, alimentava a chama do nosso amor com versos, bilhetinhos de juras eternas e cartinhas de sonhos e projetos, promessas de gente grande, avalizada por meninos.
    Hoje, passado tantos anos, lembro-me que Vilma com sua letrinha arredonda, escrevia ingênuas poesias na forma, mas verdadeiras melodias da palavra, alimento do coração e deleite da alma. Claro que havia erros de português, de métrica, porém, quê importância eles teriam? Nenhuma! Importava o sentimento que revestia cada palavra e cada rima. Para mim, os seus versos excediam aos versos de Drummond, Manuel Bandeira, à prosa de Shekspeare e Machado, ao romantismo de José de Alencar, Álvares de Azevedo, Byron, à melodia de Tom Jobim, Beethowen e Villa Lobos. Cada palavra, cada frase e cada oração que Vilma colocava no papel, eram mais bonitos do que todos os textos escritos pelos imortais da todas as Academias de Letras.
    Por outro lado, não possuía a mesma desenvoltura da minha amada, escrevia, reescrevia, cortava palavras, adicionava-as, pedia socorro ao dicionário, parodiava, copiava pensamentos e versos para agradar-lhe, só não cometia o crime do plágio, faltava-me talento e sobrava honestidade, o nome do autor e o uso das aspas eram condições sine qua non para que eu tivesse o sono dos justos.
    Usava e abusava da “Revista do Rádio”, copiava os versos das composições mais atuais, interpretadas pelos cantores em voga, dentre esses cantores, Nelson Gonçalves era o meu preferido, suas canções eram as mais populares, ainda guardo de memória os versos de “A deusa da minha rua”, uma composição de: Newton Teixeira e Jorge Faraj, na voz do cantor Nelson Gonçalves, ouvida, naquela época, do Oiapoque ao Chuí pelas ondas da Rádio Nacional ou Marink Veiga:

                    “A deusa da minha rua
                    Tem os olhos onde a lua
                    Costuma se embriagar
                    Nos seus olhos eu suponho
                    Que o sol, num dourado sonho
                    Vai claridade buscar”

                    “...A ruazinha modesta
                    É uma paisagem de festa
                    É uma cascata de luz...”

                    “...Tal qual o chão de minha vida
                    A minh’alma comovida
                    O meu pobre coração”

                    “...Ela é tão rica e eu tão pobre
                    Eu sou plebeu
                    ela é nobre
                    Não vale a pena sonhar.”

        Embaixo de cada verso, de cada estrofe, eu tecia um pequeno comentário, clareando a intenção a exemplo de: “A lua se embriaga em seus olhos”, “O sol rouba a claridade dos seus olhos”, “Vou roubar o cavalo de São Jorge pra na lua passearmos”, “rainha do meu pobre coração”, “você é o meu chão” e por aí afora, a minha imaginação e o meu romantismo não tinham fronteiras...
    Os nossos encontros de esporádicos tornaram-se amiúdes quando descobrimos uma maneira de engambelar os pais torrões com o pretexto de estudar em equipe na casa dum ou doutro colega que de todo não era mentira, estudávamos um pouco e brincávamos o restante do tempo de “Amarelinha” ou “Jogo da velha”.
    Usava os mais variados artifícios para perder o jogo quando o parceiro era Vilma e ganhava para os demais meninos. As queixas eram iminentes, a molecada bufava, bronqeava, que eu a estava protegendo, que não fechava a linha do “xis” ou pulava na “casa” errada de propósito, por isto, começamos alternar os pares e ambos voltávamos jogar quando tínhamos vencido todos adversários.
    Namorávamos sem os avanços dos atuais adolescentes. Ficávamos, mas não “enfincávamos”, não enrolávamos língua na língua, no máximo um “selinho”, mão na mão, um pálido abraço na cintura, um cafuné...
    Naquela época não conhecia Machado de Assis nem o seu conto “Uns braços”, em que narra o conflito de Inácio e D. Severina de Borges. Não sofri o desejo reprimido de Inácio que de soslaio, comia com os olhos, os braços da mulher do irascível Borges, tocava e me deleitava com os braços de Vilma. Braços torneados, amorenados, pele aveludada, mãos almofadadas e dedos longilíneos, inspirariam o mais obtuso dos pintores, acho que eles despertaram muitas paixões vida afora...
    Dois anos depois, eu era fisicamente, um homem-menino, menos que um adulto e mais que um adolescente. Ela, agora, era uma mulher! Mais encorpada, mais alta, seios definidos, bumbum mais dsenvolvido, performances quadris, pernas mais grossas, mais adulta do que adolescente, mais animal do que razão, uma verdadeira tentação, um convite à luxúria e ao prazer, então, o romantismo, o namoro ingênuo, a pureza e o amor cederam ao fogo do sexo, das entranhas que pedem macho, das paixões normais, da realidade e aí... Eu a perdi!...

Gênero: Conto
Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Zé Fininho - R. Santana

 

Zé Fininho
Zé Fininho
R. Santana


1

Tudo nele era incoerente. O apodo “fininho” para expressar magrinho não condizia com o seu corpanzil. Chamavam-no de Zé, mas o seu prenome era Lourival. Era negociante por vocação, pedreiro de suas obras e político nas horas vagas. Não era letrado, mas tinha o dom da palavra e uma lógica que dava inveja, porém, a marca principal de Zé Fininho era o seu otimismo.
Zé Fininho não falava de doença, de miséria, de tristeza, de falta de dinheiro, todavia, se esbaldava e fazia rir os amigos com o seu papo de riqueza, de fartura, de grandeza, mesmo que lhe faltasse níquel no bolso. Não era estróina, também, não era mão-fechada, se alguém batesse em sua porta por necessidade, não saía sem a solução parcial ou total do problema.
Conta-se que certa feita, na saída de um consultório médico, amparado por um amigo de tão alquebrado que estava de uma infecção intestinal, encontrou um conhecido indiscreto que lhe observou:
-Zé Fininho você está mau!...
-Eu, Sinfrônio? Acho que quem está mau aqui é você! – o pobre do homem ficou sem graça...
Zé Fininho não gostava de baixo-astral.


2


Quando eu o conheci, ele era um homem maduro, porém, longe da meia idade, teria tido muito gás pra queimar se uma síncope repentina e fatal não o tivesse levado pra o buraco aos 53 anos de vida.
Um guloso das boas e péssimas iguarias – comida boa é fome -, não dispensava nenhum prato feito D. Marta, sua mulher, fosse um estrogonofe ou uma buchada, uma feijoada, um sarapatel, qualquer hora do dia ou da noite. D. Marta costumava dizer: “este homem tem estômago de avestruz”, pois ele comia até sapo cururu cozido e apimentado se botasse à mesa.
Não menos que a gulodice era a sua disposição para o trabalho. Não deixava o trabalho para depois – guarda-se o que comer não o que fazer - , não se queixava nunca que estava cansado de trabalhar e quando a mulher o admoestava para que ele descansasse, dizia:
-Terei a morte como descanso.
Não falava mal do açougueiro, do bodegueiro, do feirante, do negro, do pastor, do bispo ou do papa, mas tinha uma leve ojeriza e cisma ao índio, achava-o preguiçoso e traiçoeiro.


3


Tinha a política no sangue, quando empunhava uma bandeira, empunhava-a com desprendimento e paixão. Não gostava de discutir pessoas, mas idéias e práticas administrativas. E, forçado por algum adversário político, apontar os erros de A ou de B, ele deixava-o falando sozinho, sua divisa era:
-Religião, política e mulher não se discutem, se abraça...
Não fazia política para auferir vantagens pessoais, fazia política pela simpatia do candidato e pela sua vida pregressa.
Tinha um raciocínio lógico e contundente, numa peleja política, apontava as necessidades da cidade e as impossibilidades administrativas do candidato adversário.


4

A fanfarronice de Zé Fininho e o seu bom-astral se não contribuíram para o seu sucesso financeiro, porém, foram fundamentais para que ele amealhasse um bom patrimônio e deixasse-o para os seus entes queridos.
Zé de tanto falar em gado, em fazenda, em cacau, em terras, alguns anos antes de morrer, adquiriu, terras, cacau e gado.


5


Numa segunda-feira, do mês de abril do ano 2000, morre aos 55 anos de vida, em sua cama e em seu quarto, às 14 horas daquele dia, Lourival Santiago, conhecido pelos amigos e não amigos por Zé Fininho.
Foi uma morte inesperada. Zé não era chegado às doenças. Embora já tivesse ultrapassado à meia idade, era forte como um touro e manso como um carneiro. Não houve tempo de levá-lo ao hospital, quando o socorro chegou, Zé já estava no além-mundo, sem retorno.
Os fofoqueiros da vida alheia espalharam que Zé Fininho tinha comido um cozido de carne de boi, verduras e pirão e logo depois tinha ido apagar o fogo libidinoso de D. Marta, para fazer jus à verdade, era uma mulheraça, um pancadão, despertava o desejo do mais tímido franciscano.
Os não-fofoqueiros alegavam que não tinha havido sexo, mas que Zé Fininho teria sido imprudente em tirar uma sesta com a comida ainda fumegando no estômago e tinha tido uma congestão mortal.
O doutor-legista assinou o papel de um infarto fulminante, sem chance de socorro.
No entanto, o doutor-povo jurava por Hipócrates que a causa morte tinha sido mesmo D. Marta, Zé Fininho não era homem de sesta!...
Hoje, é de somenos importância saber quem estava certo: o médico, os fofoqueiros ou os não fofoqueiros, o povo, mas o importante agora, é aprender as lições de vida que Zé Fininho deixou.
Uma coisa é certa: ele morreu feliz e era uma boa pessoa, pois somente os bons são chamados cedo lá pra cima.
Sua herança se resume nas lições de otimismo, de alegria, de bom caráter e filosofia de vida que passou para os seus parentes, amigos e não-amigos.
Na sua lápide, os amigos eternizaram sua memória com a inscrição:

“Jaz aqui um homem que tinha como divisa o otimismo e transformava o infortúnio em fortuna”.


Autoria: Rilvan Santana
Licença: Creative Commons



Rosas com espinhos - R. Santana

 


                                                  Rosas com espinhos
                                                          R. Santana
                                                                 I
     Eu morava no apartamento 509 e ele no apartamento 302 do Edifício Pindorama, na Alameda das Acácias na capital baiana. Não tínhamos nada em comum, eu, um jovem estudante de medicina; ele, um velhinho de 87 primaveras, aposentado, que nos idos de 1940 trabalhou na antiga rede ferroviária Central da Bahia, escoando as riquezas do Recôncavo e transportando gente para Salvador, agora, 30 anos depois, passava parte do seu tempo, conversando e observando as crianças brincarem no playground do edifício, às expensas dos filhos doutores.
     Gabava-se ter formado os cinco filhos (três homens e duas mulheres), não se lamentava não ter construído patrimônio, pouco tinha estudado, ou nada estudado, aprendera nas leituras da vida. Nunca brigou, mas muito namorou e demais farreou e quando resolveu juntar os seus cacos com os da mãe dos seus filhos já era um solteirão experiente e curtido.
     Embora tivesse pouco frequentado a escola, era um ávido leitor, em particular, a Bíblia, conhecia todos os seus livros, não obstante não frequentar nenhuma igreja. Católico de nascimento, afora o seu casamento e dos filhos, contava nos dedos das mãos, os dias que tinha ido lá.
     Conheci João Rodrigues Damasceno, “vovô João” pelos meninos, em 1987, no playground do Pindorama. Inicialmente, não houve empatia, trocamos poucas palavras, cismava e tinha ciúme do jeito alegre e descontraído do “vovô João”, principalmente, os meus sobrinhos. Aninha o idolatrava, quando lhe disse que ele não era seu “vô”, ela embraveceu:
     -Tio ele é o meu “vô”, de Paulinho, de Andréa... – enumerou os nomes de todos os amiguinhos do “vovô João”. Ainda insisti:
     -Ele é um velho estranho, não é seu “vô”!... – foi a gota d`água. Aninha rompeu num choro convulsivo que me custou contê-lo.
     Não mais contrariei os meus sobrinhos, menos ainda Aninha e quando me queixei com ciúmes, daquela amizade, aos seus pais, a tinta borrou o papel:
   -Mano, aquele velhinho é do bem, não coloque caraminholas nas cabecinhas das crianças! – sentenciou Gilda. O cunhado foi mais duro:
     -Ele dá às crianças o carinho que lhe falta!...
                                                            II
     Para Descartes todo homem jacta-se possuir bom senso, desde o ignorante ao sábio, desde o medroso ao mais arrojado valentão, desde o fraco ao mais forte, desde o jovem ao velho, todos enfim, possuem esse ponto de equilíbrio emocional quando a ocasião se faz necessária, comigo não foi diferente, tive bom senso, deixei a ciumeira injustificável e aproximei-me do “vovô João”.
     Não foi uma aproximação repentina, um “bom dia” hoje, um “boa tarde” amanhã, um “até logo” depois e assim nos tornamos amigos, ou melhor, nos aproximamos, não, minto, pouco e pouco, eu que me aproximei.
                                                            III
     Naquela época, eu não acreditava em espíritos, vidas passadas, carma, transmigração, reencarnação, ressurreição etc., etc. Cria na ciência, cria que a matéria condensada em energia tinha sido eclodida para a formação desses mundos há bilhões de anos (um arremedo da teoria do Big-Bang), na Teoria da Evolução de Darwin e cria principalmente, na evolução da ciência para o desenvolvimento e solução dos problemas da humanidade.
     É da natureza do jovem a transgressão às ideias prontas, gostar do proibido, aderir ao novo e pensar que é eterno, detentor do saber, raros, raríssimos se despojam dos seus ideais de mundo pela fé, mesmo que os seus lábios confessem crença, as suas atitudes são infiéis.
                                                                 IV
     Deus faz a oportunidade e o homem tira proveito. A oportunidade surgiu naquela tarde, quando encontrei o ancião, sozinho, no playground do prédio, enfiado de cabeça, na leitura da Bíblia:
     -Boa tarde, senhor! – ele olhou-me por debaixo dos óculos:
     -Boa tarde, meu filho! – estiquei o encontro:
     -O senhor é evangélico?
     -Se eu sou “crente”?...
     -Sim!
     -Não, sou católico! – continuou:
     -O senhor é “crente”?
     -Não, eu sou agnóstico!!!- respondi-lhe com empáfia.
     -É uma nova religião?
     -Não, senhor, é uma filosofia de vida!
     -Não entendi...
    -Creio naquilo que é racional e provável!... – acrescentei:
     -Esse negócio de alma, espiritismo, ressurreição...
     -O senhor acredita em Deus?
    -Acredito numa Energia Absoluta, causa e efeito, concomitante, não à semelhança do homem! – continuei:
   -Não entendo um Deus que deixou de igual modo, dor e sofrimento para justos e injustos, para bons e maus, para pecadores e inocentes... – o velho não me interrompeu:
   -Que deixou o homem a mercê do mal e a maldade tem prosperado mais do que o bem! – o velho quase não falou, ou melhor, não lhe dei tempo pra falar, inundei sua ignorância de conhecimento, senti-me naquele instante, o mensageiro da ciência, o arauto do conhecimento.
                                                                 V
     Voluntário e consciente fiquei dois dias sem visitar o playground, degustando cada palavrinha que tinha dito ao velho João, gozando da derrota que lhe tinha imposto, ocasião que lhe demonstrei mais conhecimento, impus-lhe o meu pensamento, deixei-o sem voz e vez, decerto, tinha me vingado dele ser o preferido daquela criançada, principalmente, os meus sobrinhos.
     Porém, dois dias foram mais que suficientes para que a minha vitória caísse como um castelo de cartas, em série, uma após outra e passados alguns anos, hoje, com os cabelos alinhavados pelo tempo, dou-me conta de quanto fui arrogante, pretensioso e injusto cismar com um pobre homem que não desejava outra coisa, senão, viver os últimos tempos que lhe restavam de vida, gozando do afeto de todos, sinto vergonha recordar a lição que me deu:
     -Boa tarde!
    -Ah, ah, ah..., boa tarde doutor!... – não gostei da ironia:
    -Não sou doutor!
     -Falta-lhe somente o canudo, mas tu és um jovem de ciência!
     -Não, senhor, eu sou apenas um estudioso...
     -A ciência é mais uma lição de Deus!
     -Não, a ciência é fruto da experiência humana!
     -Meu filho, é a história do ovo e da galinha...
     -Não entendi!
    -O conhecimento absoluto é um segredo de Deus e suas manifestações também!
     -O senhor está misterioso!!!
     -Meu filho não se irrite, a idade tem dessas coisas...
     -Continuo sem entender, senhor João!
     -A sabedoria e a compreensão chegam com a idade... – continuou:
    - O conhecimento do homem é comparado à luz de um candeeiro à luz infinita de Deus! – permaneci calado.
     -Tu conheces esta flor? – não me tinha dado conta da flor...
     -Uma rosa!
  -A rosa é a rainha das flores... – o velho continuava reticente e misterioso, prosseguiu:
     -Tu sabias que a rosa é o símbolo das deusas do amor, Afrodite e Ísis?
    -Não cultivo mitos. Os mitos encerram fantasias e devaneios. Gosto de fatos, do provável, do concreto, não importa o caminho lógico... Poesia, mito, fábula... – ele interrompeu-me:
     -Filho, eu não pensei que tu foste tão ignorante! – não me contive:
    -Eu ignorante? O senhor está delirando?!
   -Não se avexe filho, sei quem tu és e o que fazes, mas Pasteur, o gênio francês da ciência, deixou escrito: “Um pouco de ciências nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Tu precisas de mais ciências! – fui indelicado:
    -Ma... mas... ve... veja... quem fala? Um velho maquinista decrépito!
    -Filho, eu não vou perder as estribeiras, a idade traz decrepitude física, mas a idade me deu muitas alegrias e mais sabedoria. Tive pouca escola, mas fui e ainda sou um ávido leitor dos homens e do mundo! – arrependi-me:
     -Desculpe-me senhor! – fez ouvidos moucos:
   -A rosa é o símbolo da vida. Suas pétalas trazem perfume, doçura, bem-estar, tranquilidade, beleza, amor e paz; as suas folhas trazem o verde da esperança, a esperança do homem, a esperança de dias melhores; os seus galhos de espinhos ferem e simbolizam a dor e o sofrimento que a vida nos reserva. Porém, só dedicamos uma rosa àquela pessoa que amamos, ao nosso bem-querer, que gostamos... – tomou fôlego e continuou:
     -Filho, a humanidade foi redimida pelo amor de Jesus Cristo. O mundo se mexe no eixo do amor e quando falta esse ingrediente nas relações do homem e dos povos, culminam os crimes, as atrocidades e as guerras... – estava inspirado:
     -O amor é o recheio da paz. Tu já pensaste numa ciência sem amor? Se tu pensaste, tenho pena de ti, pois tu não passarias de mais um mercantilista, de um mercenário, de uma prostituta do conhecimento e se tu me permites mais um tempinho, quero encerrar a minha fala com a leitura do Apóstolo Paulo em Coríntios I, Cap.13 V. 1,2:
     
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”;
     “E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria”.

     Não houve réplica nem tréplica. Não houve tempo, o véu da noite começava nos cobrir, não obstante a forte luz dos refletores do playground. O vô João pouco e pouco, levanta-se a custo, no entanto, houve tempo para lhe dizer:
     -Muito obrigado!...
Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google
 





O Excêntrico - R. Santana

 

O Excêntrico
O Excêntrico
R. Santana

I
Ele tinha um pouco mais de 70 anos, não aparentava. Tinha herdado do pai a compleição e a cor do europeu germânico e da mãe, o temperamento caboclo da Região Norte. Calado e desconfiado, tinha construído ao longo desses setenta anos, uma fortuna em ações de empresas estatais e privadas brasileiras, títulos da dívida pública, títulos de prazo fixo, depósito em poupança, além de uma quantidade significativa de imóveis urbanos, José Amadeu Wolfong, conhecido por Amadeu, só não investia em propriedades rurais, tinha ojeriza à vida campestre, era um indivíduo de hábitos burguês. Depois de velho tinha se refugiado em pequenas cidades, levando uma vida simples e anônima. Soturno e arredio, seu Amadeu não despertava nenhuma atenção de homem rico. Se apresentava como um funcionário público de carreira aposentado.
II
Em maio de 1986, comprou no centro da cidade litorânea de Canavieiras, que fica às margens do rio Pardo, em frente para o mar no Sul da Bahia, uma modesta casa onde morava sem parente ou aderente, deixando os afazeres domésticos a cargo duma robusta negra de meia idade. Viúvo e sem filhos e perdido o vínculo dos seus parentes pela distância e pelo tempo, tinha feito dele um velho solitário, carente de afeto e cuidados, essa negra o estimava como um pai. Cuidando de suas roupas, dos seus chás, de sua comida e quando necessário, levava-o ao médico em raras vezes, face ele ter horror a remédios convencionais, médicos e hospitais, além dele ter uma saúde invejável para sua idade. Tinha aprendido com a mãe valorizar os remédios caseiros. Possuía receitas para todos os males. Guardava como relíquia um velho livro herdado de sua mãe, “As Plantas Curam”, que era um repositório de diagnósticos, profilaxias, terapias, indicações, uma verdadeira panacéia.
III
Não confiava em ninguém. Aprendera com o pai uma lição oriental que um judeu colocava seu filho sobre à mesa e pedia-lhe que pulasse, amparando-o antes de atingir o chão. A criança já repetia isso mecanicamente, numa atitude condicionada, até um dia que caiu estatelado. Seu pai lhe tinha negado propositadamente os braços e como lição: “filho, não confie em ninguém! Nem mesmo em seu pai...”, por isto, seus negócios eram dirigidos à distância por telefone fora do horário de expediente, quando a negra retornava para sua casa à noite. Um de seus apegos por ela, era que ela não sabia ler e escrever e tinha uma mentalidade curta, incapaz de articular e interpretar raciocínios complexos.
Quando mudava de uma cidade para outra (não demorava mais de dois ou três anos), uma de suas providências imediatas, era adquirir uma linha telefônica e uma caixa postal. O telefone era trancado à chave em seu quarto, empregada não era autorizada passar ou receber chamada telefônica e se por descuido o fizesse, não o faria de novo, era sumariamente despedida. Seu contador e administrador dos seus negócios, recebia orientação para não passar nenhuma informação aos seus empregados domésticos, além de um aviso de retorno.
IV
Otávio Macedo administrava os seus negócios há uns 20 anos. Poder-se-ia dizer que era seu amigo incondicional se não fosse as restrições que o velho Amadeu colocava nas relações comerciais e contratuais. Delegava para o seu contador procurações específicas, para comprar ou renegociar locações. Nunca delegava procurações para vender ou permutar um dos seus imóveis, quando urgia uma necessidade, ele comparecia pessoalmente, estivesse onde estivesse. Otávio teria que informá-lo através de planilhas padronizadas, as receitas mensais e os recibos de depósitos. No final do ano fiscal, fazia questão que a Receita Federal, fosse informada de cada centavo que tinha entrado em sua empresa imobiliária e, não menos cuidadoso com sua declaração de renda de pessoa física e os tributos municipais. Amadeu era um homem desconfiado mas extremamente direito. Não teria consistência nenhuma acusação maledicente de má fé que ele tivesse praticado às pessoas ou instituições. Tinha como filosofia: “ninguém engana o governo, porém, engana o irmão, diminuindo as ações solidárias do estado pela sonegação dos tributos. Se os governos não cumprem suas obrigações constitucionais, não quero ser cúmplice e partícipe desse pecado.”.
V
Estava em Canavieiras há dois anos. Chegou para descansar uns dias, gozar a beleza das praia da Costa, da Atalaia, tomar “banho” de lama na Ilha das Garças ou ver o pôr-do-sol da ponte Lloyd do rio Pardo, degustar a moqueca de caranguejo, o catado de siri, o caldo de lambreta e deliciar as vistas com os corpos esculturais das baianas do litoral e ficou. Embora velho, preservava ainda marcas simpáticas da juventude. Viúvo há anos, nunca entrava de cabeça em relacionamentos amorosos. Gostava de namorar... Era um pé na frente e dois atrás nos seus flertes. Quando seu relacionamento criava limo ou a parceira era viscosa, ele de fininho se mandava.
Depois de dois meses em Canavieiras, na pousada “Recanto da Paz”, acompanhado da negra Filomena de Jesus, a negra “Filó”, sua fiel escudeira desde a finada mulher e responsável pelos pratos apetitosos do patrão. Fiel como uma cachorra pé-dura, adivinhava os desejos mais recônditos do seu benfeitor. Findo esse tempo, ele comprou uma casa para si e outra para negra, pois fazia questão que ela tivesse também sua privacidade depois do expediente de trabalho.
Amadeu ficou conhecido meses depois pela maioria dos nativos da terra. Os seus vizinhos já conheciam os seus costumes do dia-a-dia. Pela manhã não saia de casa. Lia os principais jornais, assistia os noticiários da tevê, fazia seu breakfast. Antes do meio dia, tomava banho, almoçava e saia a circundar pela cidade e parava no jardim principal de árvores enormes e sombreiros. Procurava sentar-se no banco do jardim mais isolado, de preferência que não tivesse ninguém por perto, se aparecia algum desconhecido procurando prosear, era monossilábico no diálogo, cansando e aborrecendo seu interlocutor que percebendo sua má vontade de conversar, se afastava tão sorrateiramente como quando chegou. Às horas marianas, o velho Amadeu voltava para casa, trocava uns dois dedos de prosa com o vizinho e depois do jornal da tevê ia dormir.

VI

Embora os filósofos e sociólogos não acreditem em predestinação, em destino, sobrando para os espíritas a missão de explicar os carmas das vidas passadas e a reencarnação como um processo de aperfeiçoamento espiritual permanente, é como se explica o encontro e a empatia imediata entre o velho Amadeu e o moleque de doze anos, Fábio Sheldon Oliveira, tratado carinhosamente pelos demais por “Fabinho”.
Fabinho não aparentava que tinha doze anos. Loiro, tipo longilíneo, simpático, falante e de maneiras educadas, embora não descendesse de uma família rica e tradicional da cidade, herdara do pai, um professor inglês, que desembarcara em Canavieiras na década de setenta, fazendo turismo ecológico, conhecer a faixa litorânea e adentrar no que restou da mata Atlântica. Depois de dois anos perambulando, conheceu e casou-se com uma linda baiana do lugar e teve três filhos, Fabinho era o mais velho. Versado em vários idiomas estrangeiros, fixou-se no lugar como professor particular, completando seus rendimentos com um contrato na rede estadual e outro na rede municipal para ensinar inglês. Era um homem versátil, com formação universitária em seu país e bastante viajado.
Fabinho vinha da escola, descendo a rua Otávio Mangabeira e numa das transversais tropeça involuntariamente no velho Amadeu, derrubando todos os livros que trazia nas mãos. O velho vexa-se em prestar socorro, abaixando-se de imediato para recolher os livros e remediar a afobação e o constrangimento estampados nos gestos nervosos do jovem estudante.
- Desculpe-me, não tive a menor intenção desse incidente, fui olhar para um carro que vinha atrás de mim e deparei-me abruptamente com o senhor.
- Não se desculpe meu filho, percebi tudo, você não teve culpa, se alguém aqui tem que se desculpar sou eu, derrubei todos os seus livros... – Amadeu devolveu os livros do jovem estudante e apressou apresentar-se:
- José Amadeu Wolfong, todos me tratam por Amadeu, velho Amadeu às suas ordens, tudo em ordem com os seus livros? Não os sujou? – Recuperado do susto e pela espontaneidade do senhor Amadeu, Fabinho soltou-se e extrovertido que era, jovialmente apresentou-se:
- Fábio Sheldon Oliveira, Fabinho para os amigos e inimigos, ao seu dispor. Os livros não estão sujos nem amarrotados, embora tenha chovido esse dias, dei sorte que eles caíram no enxuto. – Feitas as apresentações, o velho Amadeu procurou saber para onde ia o impúbere jovem:
- Vou para casa, à rua São Francisco, nº. ... , venho da escola. – O velho Amadeu, arredio e desconfiado, abriu-se naturalmente para o garoto como se o conhecesse de longo tempo e propôs-lhe que fossem juntos, sendo que ele, primeiro, lhe deixaria em casa e retornaria para o centro da cidade onde ficava sua residência. Proposta aceita, saíram os dois papeando como velhos conhecidos e amigos.

VII

Os laços de amizade entre o menino e o velho tomaram feições afetivas que pouco e pouco suas casas tornaram-se lugares comuns. O velho Amadeu passou ser o vô de Fabinho e membro honorário da família. Fabinho passava, agora, mais tempo na casa do vô do que em sua própria casa, para desespero e ciúmes da negra Filó, contido a tempo pelo velho Amadeu:
- Filó deixe de rabugice com o menino. Depois dele esta casa ficou mais alegre. Isto é bom para mim que estou velho e você que já está descambando a ladeira do cinqüenta. Além disso, Fabinho é educado e estudioso, ao invés de brincar, comum em sua idade, passa o tempo todo debruçado nessa mesa e nos livros. Eu, às vezes, insisto para que saiamos ver a cidade. – A negra Filó obtusa que era, demorou entender às novas circunstâncias, mas levada pelo instinto de sobrevivência funcional e pelo o afeto que tinha ao patrão, adequou-se rápida às novas condições.

VIII
O senhor Amadeu remoçou. Seu comportamento calado, soturno e solitário, foi substituído por um comportamento mais efusivo e comunicativo. Com Fabinho e sua família, sentia-se como um peixe dentro d ´água: no seu verdadeiro habitat.
Todavia, sua condição econômica de homem rico era mantida e camuflada. Não havia desperdício dentro de casa e menos ainda ostentação. Continuava econômico na manutenção da casa, entre o fausto e o indispensável. Noutras palavras tinha tudo dentro das necessidades do dia-a-dia. Aos domingos e feriados quando não ia à casa dos pais de Fabinho, era costume recebê-los em casa para almoço e janta. Tinha virado rotina o regresso deles para casa, depois das novelas ou do noticiário televisivo. Mais comum era a estada de Fabinho na casa do vô, que ultimamente, tinha-lhe designado quarto permanente.

IX
No final do ano de 1989, desaba sobre a família de Fabinho uma tragédia. Canavieiras e Belmonte são separadas pelo rio Pardo. O trajeto entre as duas cidades é feito por barcos e balsas. É uma viagem breve, mas arriscada, principalmente pelas precárias condições de manutenção dessas embarcações. Por maior que seja a fiscalização da Marinha e das delegacias portuárias, um ou outro caso lhe escapa ao controle, além das naturais falhas e negligências humanas.
Numa festa religiosa católica de Nossa Senhora do Carmo, cidade de Belmonte, os pais e os irmãos de Fabinho foram à cidade vizinha participar dos festejos religiosos católicos. Fabinho ficou com o avô Amadeu por encontrar-se em estado febril, particularmente, tinha um medo premonitório dessa viagem, era obrigado pela autoridade dos pais fazê-la todos os anos a contragosto, nesse ano de 1989, a doença e os medos atávicos e o respaldo do vô, contribuíram para que ele ficasse.
No retorno, o rio ficou infestado de embarcações, a maioria com excesso de passageiros, na bruma da noite, o tempo fechado de relâmpagos e trovoadas, muita chuva, duas embarcações se chocam, arremessando ao rio umas duas centenas de passageiros.
Grande foram os esforços dos salva-vidas. Botes com gente treinada, deslizavam na água, procurando sobreviventes. O tumulto, o pavor e o desespero foram decisivos para morte de uns vinte náufragos. Dentre os não sobreviventes, o registro maior era de crianças e mulheres, no meio desses corpos, os da senhora Madalena Sheldon Oliveira e seus dois filhos mais novos, o marido, mister George Sheldon Jr., foi encontrado agarrado ao casco da embarcação, gritando pelos filhos e pela mulher.

X

Dois meses depois, mister Sheldon, após um período traumático, retoma suas atividades docentes. Não era mais o mesmo homem jovial e alegre. A perda da mulher e dos filhos o deixou com o coração amargurado. No trabalho, limitava-se ao cumprimento das suas obrigações profissionais sem o entusiasmo doutrora. Antes suas aulas eram recheadas de histórias e episódios do mundo. Grande parte dos seus 42 anos de vida, tinha sido cruzando terras e mares. Quando chegou à Canavieiras, não pensava passar mais de um ou dois meses. Sua estada ali estaria condicionada à ajuda financeira dos seus pais das terras bretãs, que em ocasiões difíceis, ele recorria. Filho de uma família de classe média alta, largou tudo para aventurar-se pelo mundo afora, sob o protesto dos pais e dos irmãos mais novos. Sua mãe rompeu com a fleuma do seu caráter inglês e quase tem um faniquito de tanto implorá-lo a ficar. Ele a consolava, garantindo-lhe que seria o tempo suficiente para completar sua educação, tinha como máxima: “a escola lhe abre os olhos e o mundo o faz enxergar”, e dava o exemplo do seu conterrâneo Charles Darwin que cruzou mares, rios e florestas para fundamentar sua Teoria da Evolução, sua família cedeu e foi-se...


XI

Quando a conheceu tinha menos de trinta anos de idade. Entrara na “Young Shoes”, para comprar um sapato social. Lá estava ela: morena, bonita, estatura mediana, corpo escultural, cor tostada de praia, Madalena. Foi pura emoção. Empatia, perturbação nervosa, perturbação estética, perturbação espiritual... e todas as emoções juntas em um infinitésimo tempo que o relógio não marca.
- George Sheldon! – Apresentou -se.
- Your name?
- My name is Madalena!

Daí em diante funcionou a linguagem do amor. Só o rio os separou depois. Foi tudo rápido. Se apresentaram, se conheceram, namoraram e casaram-se três meses depois. Mais uma vez, George pediu socorro aos pais e exigiu que eles pegassem um avião e rasgassem os céus ingleses e brasileiros com destino à Canavieiras e para surpresa dos nubentes, o velho Sheldon e Lady Anne chegaram a tempo para selar essa união.
No começo não foi fácil, mais difícil teria sido se seus pais não tivessem comprado uma casa pequena mais aconchegante para George antes de retornar para terra da rainha Elizabeth. Madalena continuou trabalhando na loja de calçados. Ele foi contratado para o serviço de manutenção das bombas de captação de água da cidade, pois era um exímio eletro-técnico e mecânico de motores hidráulicos, pelo governo municipal de Canavieiras. Embora a função fosse qualificada, o ordenado estava aquém dos salários dos grandes municípios.
Veio o primeiro filho. Mister. Sheldon ampliou os recursos de sua bolsa com contratos na área de educação como professor de inglês. Antes de viajar para terras brasileiras, tinha estudado espanhol e latim que lhes facilitou o domínio do português em pouco tempo, às vezes, tropeçava no uso da posição dos adjetivos e substantivos e na dicção proparoxítona de sua língua.
Jovens, estabilizados economicamente, com recém-nascido, eram felizes.

XII

Pai e filho mudaram-se para casa do vô Amadeu. Fabinho já o tinha feito de fato. Seu pai,
devagarzinho foi se deixando ficar. Hoje, um convite para o almoço, amanhã, a janta, aquém para
dormir e foi ficando e ficou. Justiça se faça, Sheldon era um homem de pruridos morais, não era um oferecido, um inescrupuloso, porém, tinha uma dívida de gratidão com o velho Amadeu. Ele tinha lhe dado o ombro para chorar no seu infortúnio. Além disso, Fabinho tinha se apegado tanto ao avô adotivo que um arranhão nessa relação seria um enorme prejuízo emocional. Era uma simbiose de pensamento e afeto entre essas duas pessoas, de sangue e faixa-etária diferentes tão perfeita, que jamais alguém iria duvidar que não tivessem tido uma relação de parentesco em vidas passadas.
Antes que a negra Filó chegasse para o cuidado das atividades domésticas, o vô Amadeu levantava–se, às vezes, antes do sol nascer, para preparar o breakfast do neto e arrumar os seus livros conforme as aulas do dia. Quando Fabinho acordava sua refeição matinal já estava à mesa. Não menos recíprocos eram os cuidados com o avô. Acompanhava-o em todos os lugares, quando um era encontrado o outros estava por perto. Ele quase que não saía ou conversava com o pai. Justificava que seu avô merecia mais dedicação face à decrepitude de sua idade.


XIII

George Sheldon foi chamado às pressas pela família, sua mãe estava bastante enferma e clamava por sua presença. A viagem foi imediata, por razões burocráticas – passaporte e autorização judicial – Fabinho não pode ir com o pai à Grã-Bretanha, além disso, não havia nenhum desejo explícito de vê-la, a conhecia de fotografia e falavam-se por telefone – o pai lhe tinha ensinado a língua inglesa – esporadicamente. O avô paterno já tinha vindo ao Brasil duas ou três vezes, depois dele ter nascido, mesmo assim, sua relação afetiva com o seu avô era tênue e superficial. Seus avós maternos já tinham falecidos. Sua mãe era filha única e antes dela morrer, soube da existência alguns parentes distantes por parte dos seus avós maternos, que socialmente e afetivamente, não tinham significado para si.
Seis meses depois, Mr. Sheldon escreveu para o filho e para vô Amadeu que com a morte de sua mãe, por ser o filho mais velho e por seu pai está numa idade decrépita, fora incumbido de cuidar dos negócios e interesses da família. Por isto, pedia ao filho que junto com seu amigo, providenciasse sua ida imediata para Inglaterra, junto com o pedido, todos os recursos financeiros e burocráticos necessários.
A separação foi dolorosa. Fabinho não queria deixar o vô Amadeu e o Brasil. Até a negra Filó quis resistir à idéia da separação, já tinha se afeiçoado ao jovem Fabinho. Porém, o vô que era um homem de bom senso, definiu:
- Meu filho, você tem que ir. Você ainda não atingiu a maioridade. Além disso, não é bom desobedecer aos pais.
- Mas vô, eu não quero sair perto de você e do meu país, não gosto da fleuma inglesa. Eles são desprovidos de alegria.
- Concordo com você. Todavia, ele é seu pai e reclama sua presença. Falta pouco tempo para sua maioridade, aproveite para melhorar o seu inglês e se não gostar de forma nenhuma e seu pai concordar, mandar-lhe-ei buscar.
- Vô, o senhor não tem o dinheiro pra isso. Uma passagem de avião de volta é cara e não sei se meu pai e meu avô querem ou podem comprar. Parece-me que um dos meus tios deu-lhes um prejuízo e eles não estão nadando em dinheiro...
- Não se preocupe quanto a isso, tenho uns amigos que posso recorrer. Ademais, uma passagem de avião de lá pra cá ou daqui pra lá, não é tão cara que um velho viúvo sem filhos e quase sem despesa não possa comprar. Tenho alguma parca economia. E, se tudo falhar ainda tem a minha amiga Filó (risos) que só faz ganhar, que posso recorrer. A burra dela está cheia (risos), qualquer dia vou assaltá-la!... – A negra que pouco falava ou ria, se desmanchou de solicitude:

- Num se preocupe meu senhorzinho, dinheiro não vai faltar – Pela primeira vez, Fabinho a abraçou e tentou colocá-la no colo, que pelo seu corpanzil e pelos gestos arredios da negra, não teve forças para completar o carinho.


XIV

Menos de um ano depois, Fabinho estava de volta para o Brasil com o pai. Não se adaptando ao clima, ao povo e às comidas de lá. Além disso, não tinha uma semana que não ligasse para o vô Amadeu cobrando seu regresso. O velho preocupado com o pai dele e para não ser o responsável do seu retorno imediato, ia protelando tomar decisão, alegando falta de recursos para lhe trazer de volta.
Porém, não teve outro jeito, senão pai e filho voltarem. Fabinho não falava noutra coisa, aporrinhava o pai pedindo para voltar e com a morte do velho Sheldon seu avô, seu pai vendeu tudo que lhe cabia como herança aos irmãos, pegou o filho pelo braço e aterrissaram em Ilhéus, recebidos festivamente pelo Sr. José Amadeu Wolfong e Filomena de Jesus.

XV

Pituba, rua Ceará, Edifício Amadeu Wolfong, nº.... , apartamento nº. 2501, Salvador, capital baiana, cinco anos depois, numa grande sala, espalhados por poltronas, sofás e cadeiras luxuosas, Fabinho, Mr. Sheldon e mulher (tinha contraído um novo casamento), a negra Filó, Otávio Macedo, seu filho mais velho e seu braço direito no escritório de contabilidade, dois jovens advogados que há mais de três anos vinham dando suporte jurídico ao Sr. Amadeu Wolfong e a Srta. Marilene Spinoza, secretária particular do Sr. Wolfong desde que ele deixara Canavieiras, todos ansiosos para que a carta-testamento que Sr. Amadeu Wolfong deixara fosse lida.
Com o retorno de Fabinho e o pai dele e a premente necessidade de estar mais perto dos seus negócios, Sr.Wolfong mudou-se definitivamente para Salvador e junto consigo, a negra Filó, Fabinho e o pai.
Fabinho estudioso não teve dificuldade de entrar em uma universidade pública e seu pai foi trabalhar em uma multinacional de distribuição de petróleo. O mistério Wolfong continuava, agora, todos sabiam que ele era um homem rico, mas não sabiam que era extremamente rico.
- Senhores (começou a Srta. Spinoza), antes de morrer, meu patrão confiou-me, esta carta para que fosse lida quando ele aqui não mais estivesse e em seguida se tomasse as providências necessárias para o cumprimento do seu último desejo. Por isto, peço-lhes atenção:

“Salvador, 10 dezembro de 1994.

Senhores:

Por desejo particular, deixo registrado no Cartório de Registro e Documentos da .......
Vara da Comarca desta capital, o Estatuto da Fundação Catarina Amadeu Santana. Este nome da fundação é uma homenagem àquela que me deu à luz e nos momentos mais adversos e trabalhou para que eu tivesse uma formação moral e intelectual embasadas em princípios solidários e cristãos.
Essa fundação será constituída por 90 % do meu patrimônio, num montante estimado em 800 milhões de reais.
A Fundação Catarina Amadeu Santana terá por função precípua, subsidiar financeiramente e materialmente o tratamento de pessoas com doenças crônicas e infecto-contagiosa, desprovidas de recursos.
Cinco por cento desse patrimônio será entregue ao meu neto adotivo, Sr. Fábio Sheldon Oliveira, com exceção de um apartamento na Pituba, à rua Minas Gerais, nº. ..., apartamento nº. 503, que será ocupado pela Sra. Filomena de Jesus, em regime de comodato que em morte, será transferido automaticamente para aludida fundação e mais um título de renda fixa que lhe dará condições de sobrevivência e estará vinculado às condições anteriores.
Enfim, designo o Sr. Otávio Macedo, meu amigo e administrador, como primeiro presidente da Fundação Catarina Amadeu Santana. Ele ficará com os 5% restantes do meu patrimônio e a incumbência de efetivar o meu desejo: que é levar um pouco de condição para os desprovidos de meios para enfrentar a dor e o sofrimento.” José Amadeu Wolfong


Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA


















*M ea C u l p a - R. Santana

 

*M ea C u l p a
*M ea  C u l p a
R. Santana

Estamos num período de campanha política e no próximo mês de outubro teremos o seu desfecho. É uma fase da vida pública que muitos cidadãos fazem questão de ignorar. O horário político, geralmente, é fechado pelo controle-remoto dos aparelhos de televisão ou o dial do rádio é desligado. Na mídia escrita, o descaso com a página política ainda é mais agressivo - o cidadão utiliza a página política para embrulho. A política para esses, é uma atividade que lhes provocam uma inexplicável ojeriza, eles fazem a política da omissão, a política da avestruz...
Pelo fato do espaço na mídia escrita e falada ter um custo elevado para maioria dos candidatos e para não deixar que o poder econômico prevalecesse sobre os menos aquinhoados, o horário político foi o instrumento democrático que a Justiça Eleitoral encontrou para dar igualdade de condições a todos os partidos políticos e candidatos, concomitante, levar informação para o eleitorado. Entretanto, a quantidade de partidos políticos e candidatos, cresceu tanto que na mídia falada, às vezes, só aparece a foto e o número de cada candidato sem direito deles externarem suas idéias políticas e administrativas. Há o caso emblemático do candidato a presidente da República Enéas que dispunha de 5 segundos do seu partido PRONA, para apenas falar: “o meu nome é Enéas!”, pela sua criatividade e pela sua figura pitoresca, obteve mais de 5 milhões de votos, deixando para trás o ilustre caudilho político Leonel Brizola. Político tradicional, conhecido naquela época em todo país pela sua audácia e pelo seu tino administrativo, além de ter sido o fundador do PDT.
Para Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, precursor de várias ciências, “o homem é um animal político”, isto é, o homem é um ser social incapaz de viver e produzir isoladamente. O homem de Robson Crosué, isolado de tudo e de todos é uma ficção literária. O homem só se completa (físico-psíquico), quando ele é capaz de influenciar e ser influenciado no seu meio social, interagindo no dia-a-dia, participando das decisões do seu grupo, desenvolvendo sua linguagem, seu pensamento, ou seja, se o homem não se integra sócio-politicamente, ele torna-se um animal, a exemplo das meninas-lobo, Amala e Kamala, que quando reintegradas aos cuidados sociais não sobreviveram muito tempo.
Nossa intenção nesse texto é fundamentar que precisamos participar das decisões políticas e sociais do nosso município, do nosso clube de futebol, do estado, do país ... Sem a nossa participação nessas decisões que, às vezes, atingem milhões de pessoas, não haverá perspectiva de melhora nem nessa geração nem naquelas que virão. As decisões políticas conscientes de um povo, não darão lugar aos desumanos sanguessugas, aos valeriodutos, aos dólares na cueca e às corrupções praticadas em estatais e no aparelho de estado. Precisamos de homens de bem e não de homens de bens.
A história registra que saindo do teatro, José Bonifácio, o Patriarca da Independência, foi roubado em todo o seu salário daquele mês, que se encontrava dentro da aba interna do chapéu. Seus amigos intercederam e pediram ao imperador D. Pedro I, para que seu ministro da Fazenda, Antônio Carlos de Andrade, irmão de José Bonifácio, lhe concedesse um adiantamento. A resposta do ministro foi rápida: “... que S. Majestade se dignasse mandar retirar o pedido para não incorrer num ato de sinecura e mau exemplo – acrescentando – que todos servidores do estado brasileiro só tinham direito a doze (não havia décimo terceiro), salários por ano e que o Sr. José Bonifácio tivesse mais cuidado com suas economias. E, completava: que ele e mais outro irmão iriam dividir os seus salários em socorro do seu irmão José Bonifácio, esse sacrifício seria melhor do que espoliar os recursos do erário público...”.
Devemos exigir dos atuais candidatos a cargos executivos, compromissos com educação, saúde, moradia, transporte, segurança, reforma previdenciária, reforma tributária, políticas públicas de proteção à natureza e dos nossos legisladores, leis que dêem um embasamento jurídico de prevenção e punição às mazelas sociais e corrigir as injustiças do estado. Que tenhamos um estado enxuto, não deficitário, uma distribuição de renda equilibrada e uma maior perspectiva de vida saudável da sua população.
Por isso, é necessário que não desliguemos o nosso aparelho de tv e o nosso radinho de pilha no horário-político, que não exerçamos o sagrado direito do voto somente para cumprir a Legislação Eleitoral, mas que o exerçamos com consciência, analisando a vida pregressa de todos os candidatos e sua competência. Nada de populismo, de engodo, de idéias radicais e mirabolantes, de discurso messiânico. Devemos ouvir dos candidatos propostas reais, condizentes com a prática do mundo globalizado (não existe espaço para arrogância política insustentável, veja o caso de Evo Morales. O presidente Chaves ainda arrota suas bravatas porque está em cima duma das maiores reservas petrolíferas do mundo), não adianta, no mundo atual, os gritos de guerra: “fora FMI!!!” ou “abaixo os yanques!!!”, então, “calote à divida externa!!!”. Tudo isto é de uma época mais romântica, estratégia de chegar ao poder, porém, na prática a linguagem diplomática e as ações políticas-administrativas de governo são diferentes pelo peso das circunstâncias e dos contratos. Em pouco tempo, qualquer nação sitiada econômica-politicamente não se sustenta, exemplo histórico recente é Cuba que seu povo tem amargado e sofrido décadas de miséria e de pobreza pelo autoritarismo de um grupo comunista leninista que detém o poder político há meio século.
Hoje, eu afirmo sem rodeios, sem pruridos intelectuais, sem receio de ser achincalhado que não me lembro dos candidatos que votei para o legislativo e executivo há quatro anos e o pior, quais os critérios que usei para que eles me representassem, isto é, dei-lhes uma procuração em branco, com todos os poderes, mesmo para os mais desonestos. Por isto, volto afirmar e confessar que tudo está acontecendo em Brasília é minha culpa e de outros milhões de desavisados eleitores. Portanto, ouçamos e vejamos o horário-político e exerçamos o maior legado democrático que os gregos nos deixaram: o voto. Não, o “voto nulo” ou o “voto em branco” só para cumprir exigências da Justiça Eleitoral, mas o voto consciente, o voto de mudança e transformações sociais. Que tomemos como exemplo o beija-flor, que tentava apagar sozinho, um incêndio em uma grande floresta e quando alguém achou o seu trabalho inútil, ele respondeu: “estou fazendo a minha parte”. Que cada um faça sua parte, para que nos próximos quatro anos não confessemos: “Mea Culpa!!!”.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Nota:

Este artigo foi escrito faz algum tempo, mas é válido para o período eleitoral



Prosopopéias e demagogices - R. Santana

 

Prosopopéias e demagogices
Prosopopéias e demagogices
R. Santana


Não é segredo pra ninguém os ditos, as anedotas, as demagogias, que os nossos políticos populistas, em extinção, escreveram nas páginas do folclore nacional, essas demagogices ainda enchem e enriquecem o imaginário do povo. Todos foram espirituosos, eloqüentes, inteligentes e raposas.
Alguns fazem da política a arte de ludibriar as pessoas de boa fé e os incautos, porém, outros a fizeram por vocação, sofreram com as necessidades e a dor do povo. A política para esses de aptidão vocacional era uma cachaça, uma missão, a maioria morreu pobre, deixando as viúvas com dificuldades de sobrevivência.
Quem não leu os apuros que José Bonifácio, o nosso Patriarca da Independência, passou ao solicitar do seu irmão, Antônio Carlos de Andrada, então, o guardião do cofre de D. Pedro I, o pagamento de mais um mês de salário por ter sido roubado à saída do teatro? O pedido foi indeferido. Antônio Carlos despachou que todos só tinham direito a doze salários – não havia décimo terceiro salário -, que o governo não iria privilegiar nenhum dos seus membros com recursos extras, principalmente, por descuido e negligência pessoais e deu o exemplo da ética solidária: se cotizou com os membros do Gabinete, a quantia roubada do irmão, sem auferir recursos públicos, e doou-lhe com a recomendação que não levasse mais para o teatro o seu salário dentro da aba do chapéu.
Benedito Valadares foi um dos exemplos de raposa política mais emblemático deste país com exceção do seu padrinho Getúlio Vargas. No Estado Novo, Getúlio o indicou para governar Minas Gerais em detrimento dos caciques da política daquela época. Valadares um deputado federal obscuro, puxou tanto o saco de Getúlio que conseguiu passar a perna em todo mundo e assumir o governo de Minas em momento de crise institucional e teve fôlego depois para indicar Ademar de Barros governador de São Paulo.
Darci Vargas conta em suas memórias que quando Valadares ia ao palácio do Catete, conversar com o seu pai, ela sabia mesmo ausente, pois ele deixava as folhas de papel da escrivaninha toda riscada. Confessa ainda que embora Valadares não tivesse brilho intelectual, sua influência getulista era significativa.
Suas tiradas políticas ficaram na História, quem não conhece “estou rouco de tanto ouvir”? Ou, quando Maurício Dias, jornalista da VEJA, telefonou para obter uma entrevista:
-Senador, muito prazer em ouvir o senhor!
-Eu também tenho muito prazer em ouvi-lo, meu filho. Mas não tenho nenhum prazer em lhe falar!... – conta-se que desligou o telefone.
Outra tirada do político advogado Benedito Valadares, é que pressionado para tomar posição numa contenda, ele responde:
-Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário...
Mas na relação dos folcloristas não poderia deixar de citar os políticos da minha terra, minha não, minto, adotada. Dentre esses políticos, José de Almeida Alcântara, seu “arranca” para os moleques, foi o maior político populista de Itabuna. Aonde ele ia, a meninada, os pobres, os idosos, os desempregados e os desocupados acompanhavam-no. O prefeito comprava um saco de quilo de caramelos e distribuía com a gurizada entre afagos e vivas e aos mais velhos, aos seus prováveis eleitores, distribuía dinheiro, tijolos, cimento, telhas e tábuas para ajudá-los na construção de seus casebres e barracos.
Coletor estadual, irmão de desembargador, Alcântara respondia processo por uso indevido do dinheiro da Coletoria que segundo ele e os seus sectários, esses recursos tinham sido usados na compra de mantimentos, remédios, colchões e roupas, para atender às necessidades dos flagelados de uma grande enchente dos rios Cachoeira e Salgado inundando o município de Itabuna, em particular, Itapé, que naquela época, integrava o município de Itabuna, acredita-se que no final dos anos 50, do século passado.
Sua campanha eleitoral era feita com a massiva participação dos humildes, do povo pobre. Ao invés de caminhões, ônibus e automóveis para transportar os seus eleitores para os comícios, usavam-se carroças, cavalos, jegues, iam a pé, de carona, mas todos estavam lá para aplaudirem e prestigiar o pai dos pobres, tudo era festa...
Não adiantava as elites se unirem para derrotá-lo, montanha de dinheiro se distribuía no dia da eleição, mas Alcântara ou quem ele indicasse não seria traído, o povo nunca lhe faltou.
Beijar crianças, colocá-las no colo, afagar velhinhas, adentrar casa humilde, tomar café com gente simples, bulir nas panelas, tomar uma cachacinha na esquina de uma birosca, tudo isso fazia parte da estratégia de campanha política do carismático Alcântara. Ele se misturava ao povo com naturalidade, simples, sincero, bonachão, irmão, amigo e pai. Jamais usou o poder para prejudicar o seu inimigo político. Não guardava mágoa, ressentimento, estendia a mão ao seu desafeto com a mesma facilidade que socorria um fiel partidário.
No governo Castelo Branco, elege-se pela segunda vez prefeito de Itabuna numa campanha memorável, apoiado pelo povo, ACM e recusado pela elite intelectual, os remanescentes do coronelismo e a classe empresarial. E, se não fosse à influência e o prestígio de ACM no governo do Golpe de 64, Alcântara não teria tomado posse, face os escusos recursos que a oposição usou.
A demagogice de Alcântara não tinha limite, certa feita, importunado por um rapaz que precisava de um sapato para enfrentar o seu primeiro emprego, Alcântara entregou-lhe o seu sapato e foi para prefeitura descalço.
Morreu no poder e até no seu sepultamento brincou com o povo, é que na hora de baixar o féretro à cova, depois de longos discursos de consenso da oposição e da situação, procedeu-se uma salva de tiros e um gaiato no meio do povo gritou: “... o homem ressuscitou!!!”, aí foi uma debandada, gente por todos os lados, à toa, sem rumo, uma explosão emocional incontrolável.
Alcântara morreu pobre.
Fernando Gomes, ex-prefeito de Itabuna, conhecido por Fernando “Cuma”, também entrou para as páginas do folclore itabunense não pelos seus feitos administrativos, mas por ser o rei da cacofonia, das palavras atropeladas e inimigo da gramática.
O apodo “Cuma” originou-se de uma aposta entre um correligionário e um adversário, este, desafiou o outro, que entre dez palavras pronunciadas Fernando erraria a metade e na primeira oportunidade ambos encontraram-no:
-Tudo bem, prefeito? – e o prócer político:
-Cuma?... – o “Cuma” ficou.
Doutra feita, o barbeiro pergunta-lhe:
-Como quer a barba, prefeito?
-“Tarco”, “arcool” e quer que “móie”!
O seu irmão, Daniel Gomes, deputado estadual da Bahia, que dista no tempo, na defesa ferrenha de justificar as verbas recebidas pelo prefeito Fernando Gomes e aplicadas nas obras de infraestrutura, deixou assentado nos anais da Assembleia Legislativa a célebre frase: “L`etat ce moi”, minto leitor, não foi o Luis XIV, foi o Daniel Gomes: “aterrou-las” , “encascaroulha-las” e “calçou-las”.
Poupe-me, leitor!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Artigo
Obra: registrada.

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