11.12.2025

O Diário de Manduca - R. Santana

 

O Diário de Manduca
O Diário de Manduca
R. Santana

Segunda-feira 1. Depois de muitos anos de separado e divorciado, mulher, filhos e netos esqueceram de mim. Moro numa kitnet de 30 m² na Rua das Alamedas, nº. 66, Aptº. 606. Bairro X e cidade Y. Sozinho, aposentado e sem dinheiro no bolso, passo o dia perambulando, papeando com velhos amigos e amigos velhos, nas ruas e nos bancos dos jardins públicos.
Chamam-me de Manduca, eu gostaria que me chamassem de Armando, mas o vulgo é comum às pessoas de somenos importância, já que não sou o Dr. Armando Félix de Sá, ou o Sr. Armando Félix de Sá, acostumei-me com “Manduca”, “o velho” e para as crianças, “vô Manduca”.
Ultimamente, passo os dias mais na minha moradia do que na rua, falta-me movimento e sobram-me pernas. As minhas pernas já não atendem mais aos comandos do meu cérebro com tanta eficácia, por isto, fico em casa lendo, escrevendo, rememorando o passado e refletindo sobre o futuro que não mais me pertence.
Não sou um velho preguiçoso, porém, o mal da velhice afora às doenças da decadência da matéria, é o seu isolamento, é o seu alijamento pouco e pouco da comunidade e das decisões sociais.
Os jovens não têm tempo e nem disponibilidade para ouvir a sabedoria dos velhos e o seu conhecimento, então, resolvi ficar em meu canto, chorando os meus prantos, com os meus bichos.
São três animais de relações estranhas no dia-a-dia, porém consegui que eles convivessem comigo durante algum tempo, muito tempo, civilizadamente, se civilizado é o termo certo para falar da gata Fanny, do rato Camus e da baratinha Mina. Não pense o leitor que são esses os seus nomes verdadeiros, bicho não tem registro em cartório, o homem é que tem registro em cartório, CPF e RG, o homem é cadastrado e numerado do nascimento à morte, é muito complicado ser homem.
Fanny já convivia comigo há uns quatro anos. Uma gatinha linda de pelo branco rajado de preto. Na carinha, a natureza tinha desenhado uma estrelinha, um pentágono de pontas irregulares no tamanho, parecia mais uma flor do que uma estrela. Eu, seu dono, tinha pela imagem a percepção duma estrela, os vizinhos negavam que fosse uma flor ou uma estrela:
-Isso não é flor nem estrela, é uma mancha preta com algumas pontas!
-Felipe, eu tenho a percepção duma estrela. Os olhos vêem o desejo do homem, eu enxergo ali uma estrela e ninguém irá dissuadir-me do contrário...
Camus tinha chegado depois. Um ratinho que não era grande nem pequeno, diria que era mais pequeno do que grande, diria que era menor do que médio. Não era um rato nojento, era um rato limpo, cor de mel, com umas barbatanas bonitas. Apareceu na minha sala sem ser chamado e desaparecia logo depois. No início pensei dá-lhe com o cabo da vassoura, mas uma briga entre ele e Fanny conteve-me.
Camus era ousado, valente, naquele dia, que Fanny deixou um resto de comida em seu prato, Camus que estava com o estômago da necessidade, apareceu e papou a sobra.
Fanny quis papá-lo, mas ele se armou, fungou, rosnou, gritou e convenceu Fanny deixá-lo em paz, desse dia em diante não se tornaram amigos, porém, se toleravam, se respeitavam.
Camus aparecia todos os dias para comer o que sobrava e ela gostava...
Acho que atraída pela comida de Fanny e Camus que, agora, sobrava para ambos, surgiu Mina, uma baratinha que subia no prato e beliscava o resto do repasto.
Não foi fácil sua aceitação, tive que interceder com Fanny:
-Fanny, já que aceitou Camus, seu inimigo natural, deixe Mina em paz!!! – ralhei.

Terça-feira 2. Os ânimos já estavam contidos. Eu comia primeiro, Fanny comia depois, surgiam do nada, Camus e Mina. Mina sempre era a última.
Reforcei o prato de Fanny deste dia em diante, pois a comida dava para os três animais.
Observei que pareciam sussurrar com chiados de asas, grunhidos, rosnados, que no início eram imperceptíveis, mas pouco e pouco, tornavam-se perceptíveis e audíveis e convenceram-me de uma discussão, de uma conversa, de uma conversa que eu não entendia dos meus estranhos e insólitos protegidos.
Impotente diante do absurdo, do anormal, deitei-me numa velha espreguiçadeira reservada às minhas sestas e comecei cochilar e receber ondas e sinais cerebrais que traduziam com perfeição o que os estranhos moradores do meu apartamento estavam falando e discutindo...
Quarta-feira 3. O rato Camus se arvorava dos seus conhecimentos, de sua malandragem, de sua ligeireza em conseguir alimento e gabava-se dos petiscos frescos que comia. Água e alimento bons eram imprescindíveis, não comia carniça, gostava de queijo suíço, panetone, requeijão, fubá de milho e outras iguarias. Fanny olhava-o de soslaio e desconfiada. Se não fosse o Manduca, já teria feito do camundongo uma boa refeição.
Não entendia porque o dono da casa ainda não tinha expulsado o malandro de tanta parolagem. Mina ficava na sua, de quando em vez batia as asas discordando do discurso gabola de Camus, porém, o golpe final foi dado por Fanny, quando disse ao Camus o que ele não queria ouvir:
-Sua parolagem não me convence. O seu conhecimento é usado na ladroagem do homem! – disse-lhe com dureza Fanny.
-Ah, ah, ah, ah... olhe quem fala? Uma gata de gatuno, de ladrão!... Sua raça não faz outra coisa, senão roubar na calada da noite ou nos caçar, você é uma exceção, tem esse velho bobo que enche o seu rabo de comida e você só faz se espichar e dormir na poltrona o tempo todo, está balofa de preguiça!... – argumentou Camus.
-Embora não queira, tenho de concordar com você em algumas coisas: estou preguiçosa, no bem-bom. Manduca não é bobo, ele me ama, tenho tudo que quero e mais que preciso, não tenho necessidade de caçar ratos asquerosos pra comer. – Fanny justificou e acrescentou:
-Há 4000 anos a.C., o homem já me usava para lhe dar cabo! Pois vocês empesteavam as cidades e os campos. Éramos considerados deuses e já vivíamos nos palácios...
-Ainda jacta-se do seu conhecimento predador e assassino? Qual foi sua contribuição pra natureza?... – Fanny não lhe deixou continuar:
-Nós, gatos, não somos predadores, não precisamos de sua raça para sobreviver. Gostamos do seu petisco e estamos contribuindo com o homem com a dizimação de sua espécie. Vocês espalham doenças e prejuízo na natureza!...
-Quem é que contribui para o desenvolvimento da ciência? Nós, os ratos, somos as principais cobaias dos laboratórios mundiais. Somos os mais argutos, os mais inteligentes dos animais e de comportamento confiável.
-Vocês são nojentos, asquerosos, por isso o homem utiliza-lhes mais, pois numa escala de 0 a 10 de seres necessários à natureza, sua raça não obteria 2. – Mina não se conteve:
-Vocês ficam aí discutindo para saber quem tem mais conhecimento e se esquecem de mim. Nós temos mais de 400 milhões de anos na face da terra. A nossa memória tem registro de todas as civilizações. Em muitos países somos seres especiais e sagrados. Aqui, eu que posso vangloriar-me, pois sou mais velha do que vocês, milhões de anos!...
Quinta-feira 4. Camus rendeu-se aos argumentos de Fanny e Mina em relação ao conhecimento. Porém, continuava se achando o mais inteligente. .
Não é fácil medir a inteligência, se para medir a inteligência do homem, ele usa de vários rótulos: abstrata, emocional, social, política e por aí afora, imagine o leitor, medir a inteligência dos animais tidos como irracionais.
Todavia, dadas às evidências, Fanny e Mina não teriam argumentos para negar que Camus dentre os amimais citadinos, era o mais arguto, o mais picareta, o mais astuto, o mais inteligente e o mais sabido, mas lhe fizeram restrições, não deram o braço a torcer:
-Não é mais sabido que nós, você é o mais picareta, o mais ladrão, é quem mais usa a Lei de Gerson. Se sabedoria for esperteza, dentre nós quatro (incluiu-me), você é o mais sabido – observou Fanny e Mina acrescentou:
-Sabedoria do mal!...
Sexta-feira 5. Os vagabundos comeram e se mandaram. Fanny tinha um namoro com o gato Félix, estava toda sirigaita, nem se espichou no sofá, desapareceu, foi se embelezar, tomar o seu banho. Fanny gostava de tomar banho, eu enchia-lhe de talco...
Camus alegou que ia ver sua amada Camila, uma safada ratinha, que não lhe deixava em paz nos finais de semana e enchia-lhe de cornos noutros dias.
Mina não deixou por menos, foi ao encontro do seu musculoso baratão!...
Sábado 6. Os notívagos estavam de ressaca, dormiram o dia todo, à noite, fizeram uma reforçada refeição e voltaram para suas camas.
Domingo 7. Todos estavam apostos para refeição. Depois que se empanturraram e comeram como se fosse a última refeição, Camus começou tagarelar e ufanar-se da lixa que tinha dado em Camila, duramente reprovado por Fanny e Mina:
-É próprio do mau caráter!
-Estou falando a verdade. Dei um trato na minha nega que tão cedo, ela não me esquecerá!... – brincou Camus.
-Não se conta o que se passa entre um casal, não é ético, entretanto, não se pode exigir isso de você! – disse-lhe Fanny.
-Você se acha a rainha da cocada preta, a gata mais honesta do mundo, deixe o velho bobo distrair-se que você dará o bagaço! – admoestou-lhe Camus.
-Eu como para viver. Você vive para comer e destruir o homem, eu dou-lhe carinho e amor!...
-Claro minha filha, você sempre teve casa, comida e chamego, nós, temos pau nas costas, experiências dolorosas em laboratórios e venenos exterminadores, se a natureza não nos fosse pródiga na fecundação, já teríamos desaparecidos, como outros animais! – Mina concordou:
-Eu sou obrigada concordar com o amigo rato, o homem só quer nos destruir e usa os métodos mais dolorosos!
-Mas, vocês só espalham doenças e destruição. Eu dou-lhe afeto e solidariedade.
-A natureza nos dotou de recursos de autodefesa, assim como o gato come o rato, o sapo engole os insetos, a cobra engole o sapo, a baleia come o homem e os animais menores, nós espalhamos leptospirose e hantavírus para que o homem nos deixe em paz!... - Mina assentiu às palavras de Camus e acrescentou:
-Cada um presta do seu jeito. A minha raça é solidária com o homem na morte: espalhamos vermes, protozoários, bactérias que consomem os seus restos em pouco tempo. Já pensou a tristeza de sua alma olhá-lo e vê-lo carniça sempre? É a nossa maneira solidária!... – Camus bateu palmas de entusiasmo:
-Concordo Mana, o homem é a carniça mais fedorenta, se o seu corpo não fosse invadido por esses milhões de bichinhos destruidores, os narizes da cidade não resistiriam ao fedor!... - Fanny subiu nos saltos:
-Ahn!... Vocês se acham os beneméritos da Humanidade?...
-Não, não somos beneméritos, mas somos menos nocivos do que o homem, ele nos destrói e destrói o seu semelhante, nós não destruímos os nossos semelhantes... – Mina comungou com Camus.
-Vocês propõem o quê? – desta vez foi Mina que respondeu:
-Quem sou eu, quem somos nós e quem são eles para mudar a ordem do Universo? Somos as criaturas de Deus, o Universo não precisa de mudança, suas leis são perfeitas, nós, é que ainda não aprendemos o princípio da coexistência pacífica, pois, o fim último, o fim do fim, a morte, é certa para mim, para Fanny, para Camus e para Manduca!...
Houve mais algumas conversas, mas decrépito pela idade, não escrevinhei tudo no papel, mas quero lhe assegurar leitor, que eles fizeram as pazes e Mina pulou nas costas de Camus e Camus nas costas de Fanny e partiram...
Foi a última vez que os vi.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA



Saudosismo? Não!... R. Santana

 

Saudosismo? Não!...
R. Santana

     Os jovens dizem que saudosismo é “coisa de velho”, que “recordar o passado é sofrer duas vezes”, “museu é que vive de passado” etc., etc., portanto, é uma temeridade escrever sobre o passado, mas o presente é o futuro de ontem e o futuro é o presente do passado. O presente é o momento, o futuro é potencial, só o passado é real.
     O homem vive num eterno conflito entre preservar o passado e caminhar para o futuro. Os palácios, as mansões, as casas automatizadas, as casas eletrônicas e as casas gradeadas não trazem a segurança e o conforto tão desejáveis ao homem moderno. Hoje, não é mais exceção, homens de sucesso, artistas, largarem glamour, riqueza e poder e optar por uma vida mais natural e mais simples, porém, mais feliz...
     O tempo de vida do homem aumentou não em decorrência dos remédios artificiais, tradicionais, alopáticos, homeopáticos, mas pela consciência de novos hábitos de higiene, reeducação alimentar e reeducação física do homem moderno. A educação alimentar e os hábitos saudáveis de higiene desde cedo, ainda na barriga da mãe, são decisivos na prevenção, numa boa imunidade imunológica e na cura de doenças adquiridas, não genéticas. Hoje, a ciência médica, pouco e pouco, recorre às terapias alternativas naturais aos tratamentos tradicionais.
     Não existe nenhum remédio farmacológico no trato de qualquer doença que não apresente efeito colateral, por menos nocivo que seja, de vez em quando, quando o tratamento é demorado, além de não curar o indivíduo, contribui para o surgimento de novas doenças, por isto, é comum às pessoas mais velhas recorrerem aos chás caseiros para tratamento de suas doenças.
     Hoje, não se vive bem na cidade nem na área rural como antigamente, os crimes, os roubos e outras modalidades de violência grassam em todos os lugares. Tempos idos em que os vizinhos papeavam no passeio de suas casas nas noites de verão ou fazendeiros deixavam suas casas na cidade, nas férias escolares, para o gozo e o sossego de seus familiares na fazenda.
     Vai longe o tempo de um café na fazenda com cuscuz, milho cozido, leite, inhame, aipim, ovos estrelados, carne frita, café moído no pilão, melancia, manga, laranja; então, um farto almoço com buchada de carneiro e pirão; ou, uma gostosa feijoada com lingüiça, jabá, pés e costelas de porco, toucinho e verduras em abundância.
     Hoje, as comidas das fazendas não são mais naturais e são menos gostosas e insípidas do que as comidas das cidades de frangos e carnes inchadas de hormônios e verduras crescidas com herbicidas e fungicidas. Nos Shoppings, nas pizzarias, os sanduíches, as massas, os sorvetes, os chocolates e outras guloseimas modernas dão o tom falso da nutrição e contribuem para adolescentes com doenças de velhos.
     As amantes atuais nunca ouviram uma serenata. É exceção uma amante, hoje, ouvir do aconchego de sua alcova, no meio da noite, o seu amado embaixo da janela cantando músicas inebriadas de romantismo e amor. As serenatas, as declarações de amor, foram substituídas pelas danceterias e clubes noturnos, com músicas barulhentas, letras sem significado e inaudíveis, regadas de bebidas e drogas. Às vezes, amadas e amantes terminam a noite numa delegacia de polícia...
     As declarações poéticas, os saraus, os luaus, a dança de Fred Staire, o teatro e os concertos noturnos foram substituídos pelos programas e filmes supérfluos de televisão, pelas danças eróticas de bumbuns valorizados, pelos filmes pornográficos e pelas culturas supérfluas.
     O advento das especificações e da tecnologia ao invés de contribuir para formar profissionais preparados, qualificados, contribuiu para formar profissionais bitolados, despreparados que não enxergam um palmo diante do nariz, sujeitos a erros constantes e irreversíveis, principalmente, os profissionais que lidam com a vida e a morte, a construção civil e os direitos do homem. É sabido que seria impossível, nos dias atuais, o saber ser patrimônio dum sujeito, mas é nocivo para humanidade, esquartejar e inflacionar o conhecimento.
     O surgimento dessas especialidades profissionais e o avanço dessas tecnologias produziram uma falsa qualificação profissional. Hoje, os profissionais de formação intelectual só atuam em interdisciplinaridade, em interdependência, eles não possuem luz própria, não têm cultura geral, são comuns erros profissionais grosseiros, desastrosos, em decorrência dessa limitação do saber.
     Não é justo hoje, a apologia da caligrafia, da tabuada, do quadro-giz, porém, condena-se o uso mecânico, automático, sem elaboração mental, com dependência das máquinas eletrônicas, dos softwares, da internet, da informática. Faz-se necessário dizer que esses inventos contribuíram para democratizar o conhecimento, torná-lo mais acessível e erradicar o domínio intelectual, o mal é que o homem ainda não aprendeu usá-los.
     Se não é justo ressuscitar o tempo da tabuada, da caligrafia, da lousa e do giz, dos métodos não convencionais de aprendizagem, nem condenar a democratização do conhecimento com a informatização, a internet, os bancos de dados e a parafernália eletrônica, é justo e faz-se necessário alertar o homem para o uso indevido desses instrumentos modernos da aprendizagem e do conhecimento.
     Certamente, marchamos para um futuro de homens de cérebros, pensadores, detentores do conhecimento, com domínio intelectual, e, homens sem “cérebros”, não pensantes, automatizados, robotizados, apenas, repetidores de ações pré-elaboradas, sem esforço mental...
     Por isso, não se aceita o estigma de saudosista, de velho, de museu, de brechó quando alguém se lembra de velhos tempos em que o homem era um ser pensante, mais simples, mais natural, que se autodeterminava e não deixava para outrem a construção e o controle do seu conhecimento e de suas ações, portanto, é justo responder a alguém de pronto:
     - Saudosismo? Não!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
LIcença: Creative Commons
Imagem: Google

O suicida - R. Santana

 

O suicida
R. Santana

     O sargento Caio Júnior se lembrava dos rodeios que fez Dr. Sílvio Schütz para lhe dar o diagnóstico de mal de Parkinson depois de uma bateria de exames que ele se submeteu desde testes musculares, testes de reflexos, passando por tomografia computadorizada, eletroencefalograma até a retirada de um líquido na medula espinhal, uma parafernália de exames...
     Mas Caio entendeu o seu embaraço, é que se não fosse sua rapidez e sua destreza, Dr. Sílvio Schütz teria esticado as botas num acidente de automóvel há 3 anos quando voltava embriagado de uma festa. Lembrava que o Corpo de Bombeiro foi acionado naquela madrugada para lhe prestar socorro e dos 4 passageiros, somente o médico escapou: Caio puxou-lhe do carro com presteza e habilidade, livrando-o daquelas ferragens e da possibilidade do carro rolar na ribanceira e explodir ao encontro de uma pedreira.
     O neurologista empertigado atrás do computador procurava palavras e jeito para dizer a Caio Júnior que o tremor de sua mão era o início do mal de Parkinson:
     - Sargento... eu não sei como lhe dizer... não é comum... pode ser um rebate falso... mas...- Caio Júnior o interrompe:
     - Doutor, fale de uma vez!
     - Calma. Vou lhe encaminhar para um colega mais inteirado dessa doença de Parkinson!
     - Doença de Parkinson, doutor!?
     - Não sei ainda, pode ser um engano, uma troca de pessoa... – ele não se contém:
     - Doutor, soube que essa doença dá em velho, ainda vou completar 40 anos?!
     - Concordo sargento, o mal de Parkinson não é muito comum em pessoas com menos de 60 anos, por isto, estou lhe encaminhando para um especialista, certo que não passou de um lamentável equívoco!... – Caio Júnior se interessa:
     - Doutor me dê o resumo dessa doença e se existe cura?
     - O Parkinson é a degeneração paulatina dos neurônios, afetando os neurotransmissores, é demência, é atrofia pouco e pouco dos membros superiores e inferiores, não se sabe ainda se o mal de Parkinson é provocado por fatores genéticos ou ambientais, não existe cura, mas a medicina dispõe de muitos recursos atualmente, não se desespere, você vai ficar bom!...
     Caio Júnior saiu do consultório atordoado, certamente, o médico estava usando o artifício de ouvir uma “segunda opinião” para lhe poupar constrangimento e desespero antecipados. Não ia fazer novos exames nem procurar outro médico, ele confiava em Sílvio Schütz, além de bateria de exames que fez, os sintomas da doença eram os mesmos que estava sentindo. O médico lhe devia e a Deus sua vida, se naquela madrugada tivesse sido negligente por minutos, ele não estaria ali usando de eufemismo para diagnosticar o incurável Parkinson.
     Dois meses depois.
     Caio Júnior repetiu os exames, o neurologista indicado por Dr. Sílvio Schütz foi mais profissional e menos afetivo, disse-lhe ser raro o mal de Parkinson em sua idade, porém, essa doença já havia se manifestado em pessoas mais jovens, não acreditava em fatores ambientais, no estresse do seu trabalho, mas em complicações genéticas. Embora não houvesse cura, havia tratamento, algumas pessoas levavam anos pra morrer e uma vida quase normal e concluiu:
     - Caio, o homem é mortal são ou doente, porém, a morte não se satisfaz sem um pretexto, enquanto ela não chega, vamos à luta!...
     Ele saiu do consultório médico bufando de raiva, atravessou mais de um quarteirão resmungando: “... pimenta no olho do outro é refresco... O filho da puta pensa que tenho medo de morrer, mas fica doído ficar em cima da cama a mercê de A ou de B”. Quantas vezes arriscou sua vida para salvar gente que não conhecia? Inúmeras. Não passou um dia sequer na corporação sem prestar socorro, em quase duas décadas de trabalho, havia sido honrado com várias medalhas por mérito e bravura. Agora, estava ali engessado por uma doença degenerativa sem nada pode fazer, esperando a morte chegar...
     O sargento concluiu que pouca coisa restava fazer, dali em diante ia adentrar no inferno em sofrimento e dor, não sabia se duraria pouco ou muito tempo, os sintomas da doença começavam incomodar, o tremor da mão já tomava o braço e se não fossem os remédios, o seu lado esquerdo estaria enrijecido, mas seria uma questão de tempo, o processo seria irreversível, mais dias menos dias, ele estaria numa cadeira de rodas, a mulher ou os filhos mais velhos, levando-o dali pra aqui ou daqui pra acolá, mas não ia esperar essa morte indigna, ia dar cabo de sua própria vida, ia se suicidar!...
     Pensou, no início, amarrar uma corda de nylon na cumeeira de sua garagem, colocá-la no pescoço, com o auxílio da escada, em seguida estrebuchar-se enforcado, uma operação simples, ao alcance de qualquer suicida, mas lembrou-se que seria um quadro lúgubre, um impacto soturno na mente dos seus filhos e esposa, não, não, não iria se enforcar... Pensou simular um acidente no carro do Corpo de Bombeiros, todavia, corria o risco de acidente fatal com terceiro ou colega, ideia que matou no nascedouro.
     Se a morte de arma branca não fosse tão dolorida e sinistra iria usá-la, mas pensava que socorrido a tempo e não perfurasse em lugar mortal poderia escapar, aí, teria vergonha de encarar mulher, filho e amigos...
     Concluiu que o mais certo seria usar estricnina, pois em segundos de espasmos musculares, convulsões e asfixias respiratórias o sujeito está preparado para ir à cidade de pés juntos. Além disto, se a morte fosse bem planejada poderia ser confundida com um infarto fulminante. Não iria cometer o mesmo erro de Bentinho em Dom Casmurro, tomaria a estricnina quando não tivesse ninguém em casa, à noite, e em cápsula biodegradável de 50 miligramas, os médicos-legistas demorariam um tempo para descobrirem, mesmo assim, se a família autorizasse a necropsia, o sinistro teria que ter cara de morte natural e ficou para o dia...
Três meses depois.
     O dia D chegou, naquela noite, ele ficaria sozinho, não, ficariam Caio Júnior e Greta Garbo (a gata) a sós, sua mulher e os seus filhos iriam pra festa de aniversário de seu cunhado. Não iria ao aniversário, ideou os mais diversos e convincentes pretextos, ligou para o cunhado e lamentou não poder comparecer, mas desejou-lhe toda sorte do mundo.
     Pela manhã, abriu a Bíblia e ficou espantado no que leu: “... E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro." [Mateus 12:31-32].
     O suicídio é uma afronta ao Espírito Santo, é destruir abruptamente a morada do espírito que Deus deu ao homem, até Judas Iscariotes seria perdoado se não tivesse cometido ato tão desprezível!...
Ficou intrigado com a passagem do Evangelho, mas não mudou de ideia. Cedo ainda, procurou o caminho da farmácia para comprar remédios de cápsulas e mascarar o suicídio, quando no meio do caminho esbarrou num moleque, um meninote, que lhe reconheceu:
     - Sargento Caio Júnior!?
     - Sim!
     - Não se lembra de mim?...
     - Você é..., você é... – deixou que o garoto completasse:
     - João Victor! – Caio não lembrou...
     - O senhor é o meu herói!... – acrescentou:
     - Na parede do meu quarto, tenho suas fotos e os recortes de jornais do dia que me salvou. Lembra, agora?      – Caio lembrou:
     - Você cresceu muito, rapaz!
     - Hoje, faz quatro anos... Quê coincidência, hein? Há quatro anos fui salvo pelo senhor do fogo que destruía a minha casa. O senhor é o meu herói!... – Caio Júnior não valorizou:
     - Meu amiguinho, eu fiz o dever de ofício... – foi interrompido:
   -Não, não, o senhor arriscou sua vida para me salvar!... Como gratidão, acendo uma vela para Nossa Senhora todos os dias e lhe coloco nas minhas orações... - A vida tem dessas coisas... Shakespeare teve razão quando disse: “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”. Feliz coincidência de Caio Júnior ter encontrado João Victor no caminho da morte, ele quedou-se quando o garoto lhe disse: “O senhor é o meu herói” e “lhe coloco nas minhas orações”. Ficou absorto por alguns segundos pensando na ironia do destino: “Será que Nossa Senhora tinha intercedido naquele encontro?...”, “Fazia tanto tempo que a despeito da descrença de muita gente tinha entrado numa cortina de fogo e salvo João Victor no interior do apartamento, protegido por um edredom encharcado de água, enquanto os colegas rompiam o fogo, em sua retaguarda, com enormes jatos d’ água”.
O moleque o chama à realidade:
     - O senhor vai à farmácia?
     - Você salvou o herói...
     - O quê!?
     - Os heróis não morrem!
     - Não entendi!
     - Ninguém entende Deus...
     O homem é suas circunstâncias, a circunstância quis que ele fosse esbarrado em João Victor naquele dia, o “Mundo das possibilidades” lhe foi oportuno ou o destino, então, a intercessão da Providência.
     Para Caio Júnior: “Os heróis não morrem...”
 


Autor: Rilvan Batista de Santana 
Licença: Creative Commons
Membro da ALITA
Imagem: Google

Solidariedade - R. Santana

 

Solidariedade
Solidariedade
R. Santana

Faz-se necessário esclarecer antes de tecer qualquer comentário sobre a transferência do frei José Raimundo, pároco da Santa Rita de Cássia, no próximo mês, que não privo de sua intimidade, que não faço parte de nenhum grupo religioso, que não faço parte de nenhuma comissão pastoral, de nenhum ministério, que não trabalho nessa igreja e não tenho parentes nem aderentes que lá trabalhem, portanto, sou livre para externar a minha opinião sobre sua transferência para Porto Seguro.
Eu sou apenas, um simples católico (não sou beato), como tantos outros, que aos Domingos e noutros dias religiosos, eu vou à missa agradecer a Deus por ter me concedido mais alguns dias de vida, que aumente a minha fé para que ela não seja sucumbida pelas adversidades e circunstâncias do dia a dia.
Toda mudança é sofrida, por isto, quero levar-lhe a minha solidariedade, dizer-lhe que entre os seus paroquianos, muitos vêem sua mudança não como um cumprimento regimental de sua Ordem ou uma necessidade premente, mas como um ato ardiloso e político dos seus desafetos e daqueles que têm ojeriza e despeito do seu trabalho e do seu compromisso com a verdade.
A mudança numa instituição é salutar, a mudança traz novas idéias, a mudança oxigena as cabeças, desde que essa mudança seja motivada e esteja embasada em princípios democráticos, que todos os membros dessa instituição sejam ouvidos, não por injunções urdidas nos bastidores ao gosto e sabor do grupo dominante, não quero dar, aqui, uma de Lutero, porque me faltam autoridade e suporte intelectual, mas urge a necessidade da nossa Igreja Católica fazer reavaliação em alguns dos seus conceitos obsoletos e normas tradicionais antes que perca mais espaço para igrejas congêneres na fé.
O católico, hoje, é consciente de sua fé, não possui o perfil ignorante e ingênuo do tempo de Canudos de Antônio Conselheiro, menos ainda, do período das indulgências, das inquisições ou da “Divina Comédia” de Alighieri. O tempo dos beatos e beatas, pouco e pouco, está desaparecendo... O católico atual exige uma igreja dinâmica, interativa, compartilhada, renovada, engajada, uma igreja que se preocupe com o espiritual, mas sem perder de vista as dificuldades temporais do homem, não uma igreja intocável, fechada, apolítica, distante e indiferente.
Os adversários do frei José Raimundo acusam-no de intratável, de misturar sua paróquia às lides políticas, de usar o púlpito de sua igreja para promover a eleição dos seus candidatos, ignorando o sentimento de alguns religiosos avessos à política e aos políticos.
Entende-se que é justo respeitar a posição pessoal desses fiéis, principalmente, aqueles de cabelos encanecidos, premiados pela longevidade e mentes não renovadas... Por outro lado, não é justo que um líder religioso seja omisso e distante dos problemas de sua comunidade, talvez, lhe faltou vocação diplomática para conciliar as idéias do passado com as necessidades atuais, aí, sobrevieram-lhe o desgaste, a antipatia e a conspiração rasteira...
No Século V, a.C., Aristóteles sustentava que “o homem é um animal político”, portanto, faz-se imprescindível ao exercício da cidadania, as políticas públicas para que não falte ao homem: saúde, moradia, educação, segurança, transporte, saneamento básico e tantas outras ações políticas necessárias à existência humana.
No cotidiano frei José Raimundo é uma pessoa sociável, cordata, de fino trato. Nunca o vi esboçar qualquer gesto grosseiro na relação diária com os fiéis de sua paróquia. Todavia, muitos não aceitam um “não”, essas pessoas acham que o sacerdote é desprovido de vontade, sempre tem que dizer “sim”, mesmo com o argumento contundente de impossibilidade ou de inconveniência.
Não se pode negar o trabalho, a ética, a organização e o esforço missionário e evangelizador desse homem à frente da paróquia Santa Rita de Cássia. É prazeroso visitar as dependências de sua igreja: estacionamento sinalizado, jardim, salas de reunião, sala de informática, secretaria informatizada, tudo limpo, tudo pintado, tudo iluminado (ele recebeu a igreja quase às escuras), o cumprimento celetista dos funcionários em dia, organização contábil, boletins informativos do dízimo, cumprimento dos festejos religiosos e a criação de jornal e site paroquianos, afora a campanha de reciclagem do lixo e os mutirões de saúde e prestação de serviço que atendem todos os anos milhares de pessoas e outras ações sociais.
Se alguém alegar que as atividades administrativas são de somenos importância em relação às atividades espirituais, responder-se-ia com as ações espirituais: a “missa dos homens”, os missionários de Jonas, a formação religiosa dos jovens etc., etc.
Não se deve confundir firmeza de atitude com mal-educado, grosseiro, destemperado, colérico, pois Jesus Cristo, também, teve atitudes firmes, necessárias, a exemplo de expulsar os vendedores que fizeram do templo de Deus, antro de comércio e perdição: “Então Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas...” (Mateus 21-12), ou, quando enfrentou os olhares de censura de escribas e fariseus ao encontro de Zaqueu: “E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa...” (Lucas, Cap 19, 1-6).
A pretensão precípua deste texto, é dizer ao frei José Raimundo que a maioria dos seus paroquianos lastima sua remoção, mesmo os seus opositores reconhecem seu trabalho, seu dinamismo, seu desejo de justiça, sua preocupação com os pobres e sua luta pela democratização e efetivação das políticas comuntárias.
Enfim, desejo-lhe força, determinação e discernimento para que desempenhe em Porto Seguro o mesmo trabalho e oxalá que naquela comunidade, ele seja mais querido, encontre o mesmo aconhego de Sergipe e seja mais feliz no exercício de suas funções sacerdotais, que ele dê tempo ao tempo para as incompreensões e as injustiças.
“O segredo da saúde da mente e do corpo está em não lamentar o passado, em não se afligir com o futuro e em não antecipar preocupações; mas está no viver sabiamente e seriamente o presente momento.”

Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 16. 11.2010

O velho e o rio - R. Santana

 

                                                                           O velho e o rio
                                                                              R. Santana
                                                                                     I

     Era um velho de compleição forte e alto. Moreno trigueiro, que os seus sessenta e tantos anos de vida, mais na fazenda do que na cidade, tinham-no deixado moreno escuro. Tinha por hábito ficar o dia todo dentro d´água quando estava na fazenda. Quando moleque, seus pais faziam-no vestir a pulso, a contragosto, uma camisa comprida que lhe cobria o calção e parte das coxas para lhe proteger do sol. Rapaz, morto os pais, sem irmãos, sem tutor, de nariz empinado, sem conta a prestar a parente ou aderente, fazendeiro por acidente, passava o tempo todo pescando e usava como vestimenta um folgado calção. Quando o sol estava muito forte, saia da água e se estirava embaixo da primeira árvore frondosa que encontrava à margem do rio e dormia o sono dos justos, assim envelheceu...
                                                                                II
     Preservara a propriedade da fazenda Bom Sossego, mista de cacau e gado, no município de Itapé, cidade baiana, às margens do rio Salgado-Colônia e algumas casas de aluguel na cidade de Itabuna e uma casa na praia dos milionários na cidade de Ilhéus. Há mais de 30 anos tinha herdado essa pequena fortuna. Não tinha se tornado mais rico mas não tinha se tornado menos rico. Tinha tido o mérito de conservar e zelar pelos bens que os seus pais lhe deixara, até um Jeep Willys, automóvel usado pela maioria dos fazendeiros, apropriado para romper veredas e estradas de chão, xodó do seu pai, estava em condições de uso, trancado numa garagem. Quando o velho morreu, Lucas Camões de Sá pulverizou o carro de óleo e graxa, cobriu-o com uma grande lona e guardou-o na garagem da fazenda.
                                                                           III
     “Professor Lucas”(todos chamavam-no assim), não era professor. Tinha feito o curso ginasial em Itabuna, no ginásio Divina Comédia, escola famosa pela organização, cobrança pedagógica de sua direção e competência dos seus mestres e concluído o curso “científico” em Salvador. Não quis ser doutor. Os pais ainda vivos, rogou-lhes por uma viagem aos países europeus, em especial, França e Alemanha, onde morou e trabalhou mais de 5 anos só retornando ao seu país, quando o seu pai estava à beira da morte e necessitava de sua presença para cuidar dos negócios e da sua velha mãe.
     Voltou mais simples do que quando tinha saído e afora os fumos intelectuais adquiridos lá fora, era o mesmo Lucas que muita gente vira crescer, montando a cavalo e tangendo as poucas cabeças de gado para o curral que o velho criava para o leite da fazenda. Porém, voltou mais maduro e introspectivo. Ouvia mais do que falava, ultimamente, depois que a mãe morreu, tinha fincado os pés na terra, de lá saía se urgia uma necessidade intransferível que não pudesse ser delegada a um empregado, quando sua presença era reclamada.
                                                                                IV
.      Meus pais eram seus vizinhos de fazenda. As nossas terras não representavam um terço das dele. Quando o conheci ele já era um senhor sexagenário de cabelos grisalhos, mas exprimia uma vitalidade e uma jovialidade de um homem mais novo. Eu era um adolescente. Pela proximidade das nossas terras e pelo fato do professor Lucas ser uma referência intelectual naquela região de gente simples, fui me chegando e não muito tempo depois era seu amigo e cúmplice de suas estripulias no manejo do gado, na pescaria e nos banhos de rio. Mesmo mais novo meio século, não tinha a força e o fôlego para acompanhá-lo nas lides diárias da fazenda.
     De todas as atividades e ações empreendidas pelo professor Lucas, me deleitava de prazer com as pescarias e os banhos no rio Salgado. Lá na beira do rio, tínhamos tempo para discutir os mais variados assuntos, sem afetação e sem esnobismo. Embora fosse um homem lido e viajado, explicava-me as coisas com clareza e simplicidade. Não me lembro de nenhum momento que tenha perdido as estribeiras ou quisesse mostrar-se superior intelectualmente ou culturalmente aos demais.
                                                                           V

     Janeiro de 1981, domingo de madrugada, céu sem chuva e muita neblina, era sinal de sol escaldante ao longo do dia. Embora já tivéssemos acertado a viagem no dia anterior, o professor Lucas risca com seu jipe lá em casa mais cedo do que o combinado, chamando-me para pescaria. Não estava sozinho, dois camaradas estavam sentados nos bancos detrás. Meus pais ainda esboçaram uma certa resistência deixar-me ir ao passeio, alegando que eu não sabia nadar, foi necessário que o professor Lucas intercedesse em nome da velha amizade familiar:
     -Não se preocupem, eu também não sou bom nadador. Ficaremos em lugares de águas rasas. João e Armando (apontou-os), são pescadores profissionais, qualquer incidente, eles estarão apostos. – foi o bastante para que os meus pais me liberassem e eu me aboletasse no banco da frente do jipe ao lado do professor.
     Embora levássemos uma meia hora da minha casa até próximo do lugar onde íamos acampar em decorrência do péssimo estado de conservação da estrada e tivéssemos de deixar o carro e fôssemos a pé uns 500 m até à beira do rio Salgado, o esforço tinha valido à pena. O lugar era paradisíaco. A mata se estendia, praticamente, até a margem do rio, com árvores centenárias e copas enormes de sombreamento perene.
     Colocamos os nossos apetrechos em cima de uma comprida pedra à beira d´ água, que consistia uma verdadeira plataforma feita pela natureza, enquanto os camaradas se distanciavam para o meio do rio com uma canoa. Eu e o professor Lucas sentamos na pedra e lançamos os nossos anzóis.
                                                                      VI

     Professor Lucas tinha levado uma caixa de isopor com gelo e umas seis cervejas que ao meio dia, o sol a pino, começou bebericar com os demais companheiros de passeio. Para mim, ele tinha levado uns dois ou três refrigerantes que foram consumidos depois dos banhos de rio e almoço.
     Quando terminamos de comer a farofa, nos sentamos embaixo de uma jaqueira, que parecia ser ponto preferido doutras pessoas ociosas que por ali passavam, pois ao pé do seu tronco, o capim apresentava-se rasteiro e limpo num raio de 4 ou 5 metros, para jogar conversa fora.
     Os camaradas bebiam mais do que falavam, talvez inibidos pela fama intelectual do senhor Lucas, tido e havido como homem de letras e do imberbe estudante ginasial que naquela época e naquele lugar era um fato raro. Porém, quando a conversa começou esquentar e a bebida tinha feito sua função natural, pouco e pouco, eles começaram se soltar, perguntando e emitindo os seus pontos de vista. Isto nos deixou mais confortável, não queríamos ser tomados como pernósticos ou metidos à besta em nossas digressões intelectuais.
     Por isso, tomei a iniciativa em nome do meu professor, não queria assumir na minha idade, preocupações comuns às pessoas adultas e ser rotulado de precoce:

     -Professor, na minha escola, a professora de Ensino Religioso, acha o casamento uma união indissolúvel; outro professor, uma instituição falida, qual é sua opinião? – ele parou como se estivesse pensando...
     -Gugu, eu não posso opinar sobre o casamento, nem devo, sou um solteiro por opção há sessenta e três anos e alguns meses, ah, ah, ah!... – deu uma risada debochada que me deixou desconsertado e arrependido por tê-lo provocado.
     -Desculpe-me professor. Pensei que tivesse uma opinião formada sobre o assunto! – falei um pouco enfezado.
     -Calma rapaz, eu respondi-lhe que não tenho uma opinião particular, porém, não me custa nada, junto com você e os demais amigos aqui, fazermos uma análise do casamento com todas suas nuances. – contemporizou o professor.
     -Professor, Maria é a minha terceira mulher. Comigo não tem isso, não deu certo, arrumo a minha mala e dou um tchau!... – foi o testemunho de vida de João, o mais novo deles.
     -Gugu, o casamento não é uma instituição falida. O casamento é uma necessidade social e emocional. O homem não nasceu para viver sozinho. A mulher além de procriar, ser a matriz genética, a mãe, é o lado esquerdo do homem, o lado da emoção, é uma simbiose perfeita, o homem e a mulher se completam. Por isto, nunca será uma instituição falida, não significa, entretanto, que seja indissolúvel, novos modelos de casamento, de convivência, de relacionamento, surgirão em decorrência das transformações sociais e econômicas. – Não estava satisfeito com a resposta do professor Lucas. Não tinha ficado claro, o final de sua fala, principalmente, os “novos modelos de casamento”, por isto, tornei provocá-lo:
     -Professor não entendi de sua fala: “os novos modelos de casamento”, significa mudança no modelo de família? – perguntei.
     -O casamento como uma união civil, religiosa, e a família patriarcal, na essência são perenes, todavia, quanto à forma, haverá transformações. A ascensão econômica e profissional da mulher, a educação e o aperfeiçoamento das leis, contribuirão para casamentos menos atrelados, com domicílios diferentes, de menos dependência econômica, mais vínculos afetivos duradouros, filhos menos dependentes e mais conscientes do papel do pai e da mãe. – concluiu o professor Lucas.
     -Professor, com papéis tão independentes, os casais não se tornariam mais promíscuos, de princípios morais mais vulneráveis? – questionei.
     -Meu rapazola, o sexo é uma necessidade animal. A paixão, o sentimento de posse, o egoísmo e o sexo não são decisivos para fidelidade conjugal, os deveres e as obrigações. Só o amor, sentimento da alma, produz consciência moral. O casamento por amor é uma rocha que as intempéries do tempo, não destrói. – finalizou.
     Os camaradas que nos acompanhavam, deixaram o local sorrateiramente. Embora não desejássemos, o nosso papo estava descambando para chatice com conjecturas intelectuais. Por isto, propus ao professor que voltássemos para beira do rio, que ele continuasse pescando enquanto eu voltaria para dentro d´água:
     -Professor, os seus amigos ficaram entediados com a nosso papo e nos deixaram quase às escondidas, é melhor que voltemos ao rio e á pescaria!... – disse-lhe.
     -Gugu, a pessoa aprende quando a coisa tem significado. Vimos o que pensa João em relação ao casamento. Sua experiência de vida lhe ensinou que casamento é amigação, é amásio, é amancebo. Ele é muito pobre, não teve educação e suas necessidades têm exigências mínimas, satisfeitas suas necessidades imediatas, primárias, tudo vai bem, o resto é de somenos importância, é luxo, é invenção social, não existe em sua lógica de vida simples que tem como aspiração maior: viver. Essa realidade é comum para Armando e João. – contra-argumentei:
     -A educação é a saída professor!
     -Concordo, meu jovem Gugu!...

                                                                           VII

     João e Armando estavam com dois samburás cheios de pequenos camarões. O lastro da canoa também tinha boa quantidade de traíras, tilápias, pacus, carpas e lambaris. João ainda tinha fisgado uns dois ou três quilos de acari em um poço profundo de águas turvas e de muitas locas de pedra. O professor não tinha pescado nada, soube depois que ele devolvia ao rio toda vez que pescava um peixe. Armando ainda troçou:
     -Professor Lucas é rico, compra o peixe e diz aos amigos que pescou!... – Era uma brincadeira de Armando, professor Lucas usava como apetrechos, somente, vara e anzol, quando pegava um peixe, devolvia ao rio. A pesca pra ele era uma terapia e um passatempo. Além da pesca não representar uma fonte de sobrevivência para si, era a favor da vida, da simples até a mais complexa, propositadamente, abstinha-se de ceifar a vida de qualquer ser.
     -Professor, qual a diferença que há entre não matar o peixe e devolvê-lo ferido? – perguntei.
   -Acho que a vida é um dádiva do Criador. O homem é o único animal que tem consciência da morte, os demais animais possuem apenas o instinto de sobrevivência.
     -Mas não é judiação devolver o peixe com ferimento do anzol ao rio se o senhor é a favor da vida? – voltei à pergunta.
     -Devolvo-o ferido não morto. Se a causa do ferimento ficar registrada em sua memória, ele não será fisgado doutras vezes por um outro anzol!... - brincou.
     -Não existe sentido!...
    -Gugu, a vida não tem muito sentido. Pescando ou fazendo outra coisa, estou dando tempo ao tempo. O tempo é o senhor da razão, pois tudo soluciona, porém, ele é implacável. Nasci nessas terras, percorri grande parte do mundo, hoje, idoso, sinto-me jovem de coração mas os anos e o corpo dizem que estou velho. O tempo é como este rio, suas águas descem em sentido ao mar e não mais retornam, um filósofo grego teve razão em dizer que “não banhamos duas vezes no mesmo rio”. As perguntas seculares: “quem sou eu?”; “de onde vim?” e “para onde vou?”, jamais serão respondidas. Quando me pergunto: “quem sou eu?”, obtenho respostas psíquicas, físicas; as metafísicas, para essência do eu, do ser, não tenho respostas. A mesma coisa ocorre quando formulo as outras duas perguntas. Conheço a história do meu nascimento, todavia, não sei de onde vim nem para onde... – por favor professor (eu o interrompi), as religiões têm suas versões!...
     -Se cada religião tem uma versão, só uma versão é verdadeira ou nenhuma. Lembre-se que as religiões estão embasadas na palavra, na fé. Muitos dogmas antigos e preceitos não têm nenhum significado nos dias atuais. Por exemplo, ou você acredita na história da maçã, da criação ou na reencarnação. Seria uma heresia pra qualquer prosélito dessas teorias religiosas, admitir a evolução na origem dos seres vivos. A religião é necessária para estabelecer o equilíbrio existencial e esperança de vida eter... – Professor (tornei interromper-lhe), desculpe-me, do jeito que fala, a vida do ser humano e de outro animal qualquer têm o mesmo significado. Acho sua fala uma digressão intelectual, um recurso de oratória, então, quê fazer da vida? – perguntei-lhe.
     -Viver. Não usei de recurso retórico. Não quis lhe impressionar nem tergiversar o meu pensamento, quis lhe dizer que penso dessa maneira. Posso estar errado, mas é assim que penso. Quando os meus pais morreram, muitos pensaram que eu ia dilapidar o patrimônio de herança porque estava algum tempo perambulando e trabalhando no estrangeiro.      Não o fiz, por respeito a mim e aos meus pais. Não dilapidei, também, não acrescentei mais patrimônio, preservei o patrimônio que herdei para na velhice não ser um peso para sociedade e para o governo. Hoje, tenho a velhice garantida, não será necessário estender a mão à caridade pública. Não dilapidei mas vivi bem todo esse tempo, fazendo do trabalho um meio de vida não de morte.

                                                                                VIII

     A minha amizade com o professor Lucas durou até sua morte, 3 anos atrás, velhinho. Morreu lúcido, com as mesmas convicções que me passou às margens do rio Salgado.
     Fui visitá-lo várias vezes e mais amiúde prestes dele morrer. Fui surpreendido na antevéspera da sua morte. Ele com a voz um pouco cansada, pegou em meu braço e perguntou-me
     -Gugu, lembra-se das nossas conversas lá no Salgado?
     -Professor foram tantas... qual em especial? – lembrava-me, queria testá-lo.
     -Sobre o sentido da vida!...
     -Ah, lembro-me de cada palavra. Noutras palavras, que a vida é para ser vivida, que não perscrutássemos seus mistérios. Não foi? – ele ficou olhando-me com ar paternal...
     -Você é o filho que não tive. Nunca quis tê-los. Os filhos geralmente, são cópias apagadas dos pais. Há um dito que o filho só puxa ao pai quando é cego, aí, ele puxa o pai pelo braço!... – brincou.
     -Considero-lhe como um pai. Se não fosse esnobação, roubaria a frase de Alexandre sobre Aristóteles e o seu pai: “...se um me deu a vida; o outro, me deu a arte de viver”. Aprendi e continuo aprendendo com o senhor!... – os olhos dele começaram marejar – Quê é isso? Vamos mudar de assunto, o clima aqui está de despedida, de velório!... – brinquei.
     -Olhe Gugu, estou chegando ao fim (quis protestar, mas ele não deixou), por isto, estou deixando os meus negócios organizados. Como não tive filhos, você foi contemplado com aquilo que mais gosto: a fazenda. Os outros imóveis e dinheiro irão para instituições públicas sem fins lucrativos. Gerencie a fazenda (para ele, nós somos gerentes e não donos de nada), até os finais dos seus dias. Aquilo é uma pontinha do paraíso. Se tiver de vender a fazenda, venda-a para quem gosta de terra, não a venda para especulador de caráter suspeito. – pegou-me de surpresa, estupefato, perguntei-lhe:
     -E agora, amigo?...
     -Viva!...:

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Academia de letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google


Traição dupla - R. Santana

 

Traição dupla
R. Santana

I O prédio fica na rua do Comércio em Salvador. É um edifício de 20 andares. No subsolo fica a garagem. Servido por quatro elevadores: um privativo, do presidente e vice-presidente; outro dos gerentes e diretores; um de serviço e o último, dos demais funcionários, clientes e visitantes. É um suntuoso e moderno edifício, com fachada em pastilha verde sumo e numa das paredes frontais a sigla em cerâmica cor de ouro e alto relevo o nome do holding AMM (Antunes Mascarenhas de Morais Ltda.), Edifício Izabel Antunes, nome da primeira mulher do Dr. Alfredo Mascarenhas Antunes. No Edifício Izabel D´Ávila Antunes concentram-se todos os escritórios do holding: a diretoria, a vice-presidência executiva, as assessorias, o departamento de engenharia, o departamento de marketing, o departamento de contabilidade, departamento financeiro, departamento de segurança e por último, o departamento de recursos humanos. O holding de 16 empresas, ocupa seis andares do edifício Izabel Antunes, o restante do prédio, é locado para médicos, dentistas, advogados, lojas, escritórios de prestação de serviço e firmas de representação. Alfredo Mascarenhas Antunes não gosta de empresas de varejo, ele gosta de lidar com fazendas de cacau, pecuária, empresas de construção civil, corretoras de imóveis, metalúrgicas, ultimamente, tinha investido em empresas de rádio, de televisão, de jornal e empresa de publicidade, como sócio majoritário, com o objetivo de divulgar suas outras atividades empresariais.

II Dr. Moacir D´ Ávila Antunes é o irmão mais velho dos seis filhos que Dr. Alfredo tivera com sua primeira mulher, Izabel D´ Ávila Antunes. Estava com 42 anos de vida. Sua diferença de idade para os outros era pequena, seus pais tiveram o cuidado de ter os filhos cedo para desobrigar-se dessa atividade familiar depois de velhos. Dr. Alfredo costumava dizer à mulher: “depois de velho, quero ter dor de cabeça somente com os netos. Cuidar de filho adolescente depois de certa idade, é sacrificar a si e ao filho, pois o velho não terá pique para acompanhá-lo em sua educação e em suas atividade juvenis.”. Dr. Moacir é o mais boçal dos seis irmãos. Grosso, temperamental, intempestivo e arrogante. Quando algum empregado cometia qualquer deslize funcional, um dano, é demitido e tinha que ressarcir o prejuízo. Não admitia falha.

III Quando D. Izabel morreu, o casal Antunes não tinha quase nada. Dr. Alfredo trabalhava em uma empresa de engenharia. Eles moravam numa modesta casa alugada. Um carro com 3 anos de uso era o patrimônio da família, por isto, não foi necessário que se fizesse nenhuma ação de inventário. O filho mais novo do casal estava com 4 anos de idade e o mais velho com 9 anos. Dr. Alfredo foi o pai e a mãe na condução moral e intelectual dos filhos. Aos 33 anos, viúvo, com os filhos na escola, demitido, Dr. Alfredo começa uma pequena empresa de assessoria e serviço de engenharia civil, no início dos anos de 1960. Os primeiros anos empresariais foram difíceis, todavia, vencidos pela determinação e força de trabalho de Dr. Alfredo. Embora tivesse uma visão e um faro comerciais, adquiriu dentro de pouco tempo credibilidade e uma vasta clientela, embasado em princípios éticos profissionais e empresariais Hoje, aos 66 anos de vida e mais de 30 de experiência empresarial, tinha planejado transferir para os filhos, na hora oportuna, a direção das empresas e gozar no litoral ou numa região bucólica desse país continental,os seus últimos dias de vida.

IV Não gostava e não era afeito à ociosidade. Filho de uma professora e de um modesto funcionário público federal, tinha desde cedo, aprendido valorizar e economizar tudo que lhe caía às mãos, sem ser sovina ou miserável, mesmo assim, na faculdade de engenharia, tinha ganho o apodo de “tio patinhas”, de certo modo injusto, Alfredo Antunes não fazia conta de migalhas, de economia de palito de fósforo. Entretanto, ele se esforçava em ganhar mais do que gastar. Depois de formado, era o esteio da casa, sempre preocupado que os pais gozassem na velhice uma vida confortável até o último suspiro. Embora tivesse mais irmãos e irmãs, era o xodó dos velhos pelo carinho que lhes devotava. Na falta dos pais, tomou as rédeas da família, ajudou todos se formarem e ao invés de ciúmes de irmãos, adquiriu o respeito e o amor deles. Hoje, com exceção de uma irmã médica, todos trabalham em suas empresas, com salários dignos, proporcionais ao cargo e à competência. Alfredo Antunes aprendeu, jovem ainda, que as coisas dadas não têm o mesmo valor daquilo que é conquistado com trabalho e sacrifício.

V -Querido, seu pai pode descobrir o nosso romance. O quê faremos? -É impossível! Tomo todas providências. Agendo um dia antes os nosso encontros, cuidando dos detalhes. Ademais, o velho só tem olhos para o trabalho. Por isto, você o chifrou... – concluiu cinicamente Moacir. -Não... não achincalhe seu pai. Ele é um homem bom, você que me seduziu!... -Eu?... - Madalena Azevedo Sá (cláusula contratual o impedia de usar o nome do marido), estava abobalhada com o cinismo do amante. Ele que a tinha seduzido. Quantas vezes, na mesa, no almoço ou na janta, ele ficava-lhe futucando com a ponta do pé, inclusive com sua mulher ao lado. Uma vez, quase eram flagrados pelo velho Alfredo. Se não fosse a frieza de Moacir, sua capacidade de dissimular, sua presença de espírito, o namoro deles teria acabado no começo. -Moacir, sua falta de escrúpulo é capaz de qualquer coisa. Acho que devemos parar por aqui... -Você está doida nega? Lembre-se do nosso acordo. Estou providenciando para que daqui a seis meses fujamos para bem longe daqui. Já providenciei os passaportes e já possuo uma fortuna lá fora – eles tinham combinado fugir para o exterior e lá fixar residência. -É muito tempo.Tenho medo do seu pai ... Sua mulher anda desconfiada, poderá nos descobrir. -Oh nega, você está delirando? A minha mulher é uma tonta, enquanto ela tiver cartão de crédito para gastar nas butiques e shoppings, ela não enxergará um palmo diante do nariz!... – Madalena esgotou todos os argumentos. Patrícia era uma dondoca, fútil, só pensava em moda e empavonar-se. Naquela cabecinha só tinha titica de galinha, Moacir tinha razão, não iria mais estragar seus momentos de volúpia sexual pensando em Patrícia e Alfredo, que se danem!...

VI -Dr. Alfredo, o Sr. Chaves estar esperando há algum tempo. Quê lhe direi? -Faça-o entrar - foi a resposta do Dr. Alfredo. Parecia que Dr. Alfredo o estava esperando. Fato incomum ser recebido pelo patrão sem antes passar por um ror de perguntas. -Chaves às suas ordens doutor!... – Dr. Alfredo mediu-o de cima abaixo. Era um homem jovem, alto, descontraído, de porte atlético e parecia estar de bem com a vida. Fora indicado por colega e amigo desde os tempos de faculdade de engenharia. Pela aparência jovem e descontraída daquele profissional, começou perguntar a si, se aquele jovem seria capaz de desempenhar àquela missão que exigia, coragem, perspicácia, sutileza e sigilo profissional. -Pensei que fosse mais velho!... -Doutor, a idade nem sempre é sinônimo de conhecimento e experiência. Na minha profissão, a confiança, a discrição, a coragem, a inteligência e os princípios éticos são os estofos necessários para um profissional da investigação – parece que o tinha convencido. -Desculpe-me Sr. Chaves! Na minha idade e na minha posição, aprendi que para sobreviver tenho que cismar e desconfiar. O Senhor foi indicado por um colega de longas eras, espero que faça jus à nossa antiqüíssima amizade. -Espero também não decepcionar Dr. Pedro Mafra. Se trabalhar para o senhor, é o segundo trabalho que faço por indicação dele. Acho que estou qualificado para missão de arapongagem, porém, cabe-lhe a palavra final. -Sr. Chaves, não estou certo da minha decisão. Na minha idade, os escrúpulos são mais exigentes. Fico preocupado em fazer injustiças e ao mesmo tempo fazer o papel de um velho enciumado. Por outro lado, não quero ser um velho cabrão, usado por uma mulher que não é digna do meu amor e da minha confiança, não quero ser alvo de galhofas de quem quer que seja Casei-me na juventude com uma mulher que me deu 6 filhos. Eu a amava como nunca amei ninguém. Quando ela morreu, o céu desabou sobre mim. Deus é que me deu força de trabalho e equilíbrio para criá-los, senão teria derrocado. Depois dos filhos grandes, casei-me contratualmente com uma moça uns vinte e poucos anos mais nova. Não tem lhe faltado nada... Mas, sinto que ela está me traindo e tenha certeza: para mim todo dispêndio financeiro que tiver com o seu trabalho, estando enganado, representa um lucro, um desencargo de consciência e procurarei compensar-lhe da minha vileza. Não poupe dinheiro e esforços. Doravante, um preposto meu entrará em contato com o senhor para lhe suprir de dinheiro para as despesas. O senhor não lhe fará nenhuma confidência nem lhe confiará nenhum recado. Em caso excepcional (deu-lhe um número), entre em contato comigo, não deixe recado em caixa postal. O senhor terá todo tempo do mundo, se eu estiver certo, quero no final um relatório anexado às provas. Passe bem! – estirou-lhe a mão. -Passe bem, Senhor! – fez uma mesura e foi embora sem mais palavra.

VII Embora Dr. Alfredo não fosse ciumento e o trabalho lhe absorvesse, pouco tempo restava-lhe para essas observações de corações apaixonados e desocupados, começou estranhar certas atitudes no comportamento da mulher. Ela estava mais reflexiva, inquieta e deu pra sair quase todos os dias à tarde com os mais variados e fúteis pretextos. Um dia ia para o médico, noutro ao salão de beleza, depois visitar uma amiga... Dr. Alfredo achava que a mulher tinha se cansado da vida ociosa que levava. Suas saídas eram uma maneira de preencher o tempo preguiçoso. No início do casamento, pensou em lhe dar um emprego numa das suas empresas ou trabalhar com ele no holding, pois ela foi tirada de lá para sua casa, mas pensou que enfrentaria o ciúme e a incompreensão dos filhos, não obstante sua formação superior em administração de empresa com cursos de pós-graduação em várias áreas e dela ter tido um desempenho profissional excepcional enquanto sua funcionária.

VIII -Meu pai, Marcos insiste em não querer vender 15 % das empresas de comunicação para um grupo do Sul do país que já lida nessa área – o velho pigarreou, pensou no que ia dizer e respondeu: -Moacir, há dois meses você deu em cima de Maria Izabel que cuida da construtora Antunes para vender 40% da empresa para um grupo estrangeiro, agora, você perturba Marcos... Quais são os seus verdadeiros interesses? – perguntou Dr. Alfredo com um certo descontrole na voz. -Meu pai, quero apenas expandir os negócios com novas parcerias e injetar dinheiro nas empresas mais deficitárias!... -Não existe nenhuma empresa deficitária. Além disso, eu sou o dono delas, teria que ser consultado em primeiro lugar se desejasse fatiá-las. Vocês são funcionários executivos e não têm procuração para vendê-las. Quando eu fechar os olhos, faça o que lhe der na telha de sua parte, quanto aos seus irmãos, sei que as empresas permanecerão com a família que é e será o meu desejo: passá-las de filhos para netos! – Moacir saiu da sala espumando e bufando de raiva!...

IX -Meu pai estava fulo da vida com a proposta que fiz aos meus irmãos para vender parte de duas empresas! – desabafou Moacir, enquanto enlaçava Madalena e lhe tascava um beijo na face. -Você está subestimando seu pai e seus irmãos e qualquer hora vai ser flagrado com a mão na cumbuca e aí meu querido, adeus nossos projetos... -Não se preocupe, está tudo sob controle. Os nossos passaportes estão rubricados pra viagem, falta somente confirmar dia e o retorno. Quando voltarmos a tempestade já passou, irei abrir uma empresa com o dinheiro que tenho. A Patrícia e os meninos eu me entendo com uma boa mesada – “o cinismo dele é irritante” - pensou Madalena.

X -Diga Sr. Chaves! – ordenou Dr. Alfredo – Depois de 90 dias de trabalho diuturno, mais dia do que noite. O jovem detetive tinha entrado em contato com o Dr. Alfredo Mascarenhas Antunes, naquela manhã, meiado de dezembro de 2002, para entregar-lhe todo o material investigativo. Todo esse tempo tinha falado com um velho funcionário de confiança de Dr. Alfredo para lhe pedir dinheiro para atender às necessidades pessoais e as despesas de operação. Nunca recebia valores em cheque, era dinheiro vivo!... O preposto indicado por Dr. Alfredo, parecia uma pessoa discretíssima. Não perguntava, não dizia, o máximo era: “quanto o Senhor precisa?...”, “o patrão mandou x dinheiro”. -Terminei o trabalho. Gostaria de entregá-lo pessoalmente... -Entregue-o ao Sr. Francisco, ele é de minha estrita confiança. -Eu sei, mas preciso passar uns “slides” e explicar-lhe cada detalhe. Perdoe-me, não sei se o Sr. Francisco seria capaz de passá-los, acho-o muito econômico nas palavras e na inteligência. Sei que é mais fiel do que um cão! Porém... – interrompeu-o Dr. Alfredo: -Estou indo, hoje, para Bruxelas. Voltarei daqui a quinze dias... só queria que me adiantasse umas coisas: as minhas suspeitas têm fundamento e com quem?... -Tem todo fundamento do mundo doutor! E, lamento informar-lhe, com uma pessoa ligada ao senhor... porém... perdão... não faço relatório por celular!... -Eu que lhe peço desculpa, é que o vexame me deixa imprudente. Todavia, peço-lhe que me arranje extra-oficial, três ou quatro policiais civis e um oficial de cartório, quero lhes dar um flagra... pagar-lhes-ei a peso de ouro, só não quero violência. Depois de ver o material, armaremos o alçapão! Continue trabalhando, pode surgir novos fatos, quanto mais, melhor. Bom dia! – despediu-se Dr. Alfredo.

XI Foi fácil para o detetive Chaves arrumar pessoas corajosas e fiéis. Ele tinha muitos contatos na polícia e na justiça. Não sabia qual o esquema que seu patrão engendraria. Tinha certeza que não seria nada que se relacionasse com violência física, ainda bem, pois um dos cúmplices da traição era o seu próprio filho. Como seria sua reação quando soubesse da safadeza e da ladroeira de Moacir? Não tinha resposta. Chaves intensificou o trabalho com a viagem de Dr. Alfredo. Ele estava com razão, na sua ausência, os amantes tornaram-se mais relaxados. Andavam abraçados em lugares públicos, beijavam-se sem cerimônias nas despedidas e entravam em motéis à luz das tardes. Confirmava-se o velho ditado que: “quando o gato sai de casa, os ratos passeiam”.

XII Dr. Alfredo passou uns 30 dias correndo a Bélgica e vários países da Europa, farejando bons negócios. Mantinha a mesma rotina: telefonava para os filhos e a mulher todos os dias. Tinha levado consigo, dois diretores ladinos, de estrita confiança, de suas empresas e sua secretária particular, que era experta em inglês, francês e alemão. Com este estafe, não foi difícil fechar vários contratos comerciais. À noite, no hotel, ficava a matutar: “quem estaria lhe traindo com Madalena?” - por mais que pensasse não encontrava resposta. Suas relações de amizade e a da mulher eram todas conhecidas. Achava que o detetive estava cometendo um engano ou mais de um. Se alguém o estava traindo com Madalena, com certeza não privava de sua amizade e do seu meio. Aventava a hipótese de que o detetive estivesse seguindo a mulher errada, o que causar-lhe-ia um prejuízo imensurável, depois de gasto tanto dinheiro...

XIII -Doutor Alfredo, boa tarde! -Senhor Chaves, como anda o trabalho? Acredito que progrediu muito nesses dias?... -Mais do que no ano passado!... - brincou Chaves. -O senhor tem razão, passei a virada de ano no exterior pela primeiro vez e agora é que estou me dando conta que estamos na metade do mês de janeiro de 2003... -O senhor quer ver o material? Acredito que já temos mais do que o necessário! – justificou Chaves. -Amanhã às 15:00. Diga-me onde o motorista lhe pega? -Não será necessário. Ficarei na porta da empresa, assim que o senhor sair, eu lhe acompanho. -Então, amanhã às 15:00!...

XIV Num apartamento luxuoso, Dr. Alfredo acomoda-se no sofá em frente a um telão, enquanto o Sr. Chaves prepara os “Slides”, o aparelho DVD, o vídeo-cassete, os disquetes, os CDs, câmeras, máquinas fotográficas digitais... enfim, uma parafernália de tecnologia moderna com o produto de mais 90 dias de investigação. Quando tudo estava conectado e arrumado, Sr. Chaves com o controle-remoto nas mãos, antes de começar, faz-lhe umas considerações: -Desculpe-me doutor, acho que deveríamos assistir esse material com acompanhamento médico. Para mim é de somenos importância, não tenho nenhum envolvimento afetivo com os atores da trama. Para o Senhor será um duro golpe!... -Senhor Chaves, estou com 66 anos de idade. Já sofri muitos desencantos e decepções. Todo ano faço check-up completo. O meu coração é de adolescente. Se eu estiver enganado, você e Francisco me levam para o hospital. Além de vocês dois, têm quatro brutamontes que são os meus seguranças que possuem resistência de me levar no colo, correndo ate o hospital. se isso for necessário. – galhofou Dr. Alfredo. O telão foi ligado, a primeira cena foi Moacir beijando apaixonadamente Madalena. Daí em diante as imagens eram mais contundentes: entrando em motéis, namorando no carro, agarrados em cantos de muro, abraçados em via pública e por aí afora... Dr. Alfredo estava lívido embora não tivesse perdido a fleuma. As imagens, mesmo tiradas de longe, eram nítidas e não deixavam dúvidas da dupla traição. Quando o Dr. Alfredo se preparava para levantar, o detetive pediu-lhe que ficasse mais: -Doutor, um momento, o mais perigoso está por vir. São as conversas por telefone de sua esposa e do seu filho planejando atentar contra sua vida! As conversas eram obscenas. Relatos eróticos do que tinham feito e estavam com vontade de fazer. Achincalhamento do velho. Dinheiro que Moacir tinha transferido para alguns paraísos fiscais, e por último, planejavam livrar-se dele com uma boa dose de arsênico na bebida em hora e momento oportunos. Ele, calmamente levantou-se, deu um abraço no jovem detetive e parabenizou – lhe: -Bravo!!! Você me surpreendeu pela idade. Jovem, não pensei que fosse tão capaz profissionalmente. Aliás, o seu trabalho começa agora, amanhã cedo telefone para Francisco, ele lhe indicará um restaurante. Quero o pessoal que eu lhe pedi lá para um jantar e muita conversa. Ah!... Arranje um profissional em efeitos especiais. Quero gente de inteira e total confiança. Quero que todos tenham pinta de executivo para não despertar suspeita. Se eles não tiverem roupas adequadas, compre-as e mande a fatura para Francisco.

XV Às 20 horas, dia e local combinados, lá estavam os pseudo-executivos, comendo iguarias nunca vistas e bebidas importadas como gente grande. No início da conversa com Dr. Alfredo, todos estavam inibidos e sem jeito, mas à medida que o whisky e o vinho subiam lhes à cabeça, iam ficando mais soltos e mais espontâneos. -Senhores, estou sendo ameaçado de morte, roubado e traído. Não quero violência. Quero ressarcir o meu prejuízo com inteligência. Os senhores só usarão de violência em legítima defesa. Os nossos amigos policiais aqui são peritos em artes marciais, não terão necessidade de armas de fogo. O Senhor Chaves tem os planos por escrito. Ele irá marcar uma reunião em sua casa para discussão de cada detalhe. Não lhes faltará nenhum recurso material. Se alguém quiser dar a priori o seu preço para fazer esse trabalho, fique à vontade!... -Doutor, não temos uma idéia bem formada do que iremos fazer. Se não for necessário o uso da violência, queremos um salário mínimo por hora de trabalho – era o que Dr. Alfredo queria ouvir. -Já lhes falei que não sou acostumado resolver os meus problemas com violência. Nós vamos mexer com gente poderosa que na justiça seria um litígio sem fim com os recursos que existem. Iremos usar a inteligência encenando papéis violentos!... Os senhores vão participar como atores, cada um desempenhando o seu papel. O valor que os senhores pediram é justo, entretanto, será difícil para mim calcular quantas horas iremos gastar. Se tudo ocorrer como nós planejamos, será uma ação rápida, entretanto, há os imprevistos... Então vou lhes propor uma oferta: multiplique o salário mínimo por cem, é o valor que vou lhes pagar!... -Cem vezes o salário mínimo?... – perguntou um policial. -Cem vezes e mais um automóvel de presente pra cada um – confirmou o empresário. Todos ficaram embasbacados!...

XVI -Querida, vou passar uns dois dias na fazenda!... - telefonou Dr. Alfredo. -Amor, você agora deu pra viajar sozinho?... – cobrou Madalena. -Viagem de negócio. Irei fechar negócio com a fazenda do vizinho. -E, não posso ir com você?... -Não, é uma viagem de negócio, não quero lhe enfadar!... -Tchau! -Até depois de amanhã! – despediu-se Madalena. Doutor Alfredo comunicou que ia viajar aos filhos e à mulher. Francisco era o único que sabia da estratégia do patrão e o acompanhou até um hotel de luxo afastado da cidade e dava-lhe o apoio logístico necessário para que tudo transcorresse como tinha sido planejado. Madalena, com a viagem do marido, aceitou o convite de Moacir e foram passar a noite num luxuosíssimo motel.

XVII -Senhora entre no carro, sem alarde, precisamos conversar! – Madalena estremeceu. Era a primeira vez que enfrentava uma situação perigosa. Tinha dispensado os seguranças. Sempre os dispensava quando se encontrava com Moacir. -Não tenho dinheiro e nem jóias, o quê os Senhores querem comigo? -Senhora, não somos ladrões. Somos da polícia, queremos que a Senhora assista umas fitas e umas gravações. Se cooperar conosco, será imediatamente liberada. -Deixem-me telefonar para o meu marido! -Não se preocupe! Haverá tempo... Enquanto Madalena era levada, mais quatro homens, de arma em punho, fechavam a saída de Moacir no motel, entraram em seu carro sem despertar suspeita e começaram fazer um trajeto em direção contrária ao centro da cidade. Moacir era um homem forte, cheio de músculos, cultuava o corpo e era um assíduo freqüentador de academias. Tinha aversão aos exercícios individuais, gostava de participar em grupo, por isso, não tinha personal-trainer e academia particular. Diferente do pai, não tinha coragem para enfrentar nenhuma situação de risco de morte. Sua coragem era escudada em alguém. Quando estava acompanhado de seguranças, tinha um comportamento temerário e ousado. Mas naquele momento dava dó, o homem era pusilânime, medroso, covarde. - Por favor, não me matem!... – quase choramingando. -Não somos assassinos, somos policiais, talvez... tenhamos que lhe prender! -Eu?... Sou um empresário, quê crime cometi? -Sonegação de imposto, desvio de dinheiro para paraísos fiscais... –interrompeu abruptamente Moacir. -Os senhores não têm provas e que é de o mandado de prisão do juiz? -Leia senhor, o mandado de prisão (deu-lhe o mandado), porém, antes de lhe apresentar às autoridades, iremos passar em um lugar... -Quero telefonar para o meu advogado! -Por favor senhor, não abuse da nossa paciência!... – Moacir encostou-se quieto no canto do carro, parecendo um menino procurando o cola da mãe.

XVIII Madalena assistia estupefata as imagens do telão. Cenas dela com Moacir que não mais lhe vinham à cabeça e fatos mais recentes, inclusive, sua estada no motel no dia anterior. Ainda não tinha atinado qual o interesse daqueles homens em sua vida privada. Achava absurda a hipótese deles terem sido contratados pelo marido para flagrar-lhe. Achava-o desligado e não era de ciúmes. Só havia um jeito de descobrir: -Os senhores querem mostrar essas cenas ao meu marido em troca de recompensa ou extorquir-me? -Não somos bandidos! – responderam secamente. -Então, os senhores não me torturem! O quê querem de mim? -Que coopere conosco!... -Como?... – Madalena estava aparentando autocontrole. -Ajudando-nos incriminar o seu amante! -Não vou trair o homem que amo! - Madalena estava cada vez mais irritada. -Já traiu seu marido que dizia amá-lo! E, estava com seu amante perpetrando sua morte.– ela subiu nos tamancos! -Isso é uma injúria!... Os senhores não têm provas. Embora eu tenha me casado contratualmente, com cláusulas milionárias, jamais pensaria em matar o homem que me deu nome e condições, em troca de quê? -De ter o homem que ama e muito dinheiro! –responderam-lhe os homens. -Vou processá-los por injúria e difamação!... Foi a gota d`água. Os homens contratados por Dr. Alfredo colocaram os CDs no aparelho de som com horas de conversa telefônica, gravada por ordem judicial, dela com o amante, articulando explicitamente, matar o marido e quando a poeira baixasse irem morar juntos e desvencilhar-se de igual modo de Patrícia. As contas em paraísos fiscais, dinheiro roubado em conluio com o amante das empresas de Dr. Alfredo... Ela estava arrasada. O ímpeto inicial, o autocontrole e o nariz empinado caíram por terra diante da robustez das provas. Ela estava abobalhada. O marido era um artista da dissimulação, tinha descoberto seu romance com o filho dele e em nenhum momento deixou transparecer alguma ponta de ciúme. Agora, entendia suas viagens prescindindo de sua companhia. Tudo planejado para que, ela e Moacir se afogassem no prazer e na dissolução sem limite, enquanto eram espionados por seus homens filmando cada cena da traição. Não lhe culpava, teria feito o mesmo em seu lugar e condições. Maria Madalena tinha sido perdoada. Ela tinha tido a ventura de conhecer Cristo e ser purificada. Ela, Madalena, tinha tido a desventura de encontrar um Alfredo, maquiavélico, vingativo e que tinha atirado-lhe uma porção de pedras. Sabia que dali, sairia direto pra cadeia, exceto, cooperasse com os seus homens. Não sabia ainda que tipo de cooperação eles queriam. Deveria ser algo em troca, Alfredo era um excelente negociador. Era frio, desprovido de sentimentos de compaixão e pena na hora de comprar ou vender. O seu latão é ouro, o ouro do outro é latão!... Amava Moacir, mas reconhecia que esse amor tinha lhe trazido infelicidade. Desde o início do seu casamento que lhe fazia investidas para possuí-la. No início resistiu e chegou até ameaçá-lo em contar ao seu pai, mas ele sabia, quando queria, seduzir uma mulher, todavia, tinha dúvida quanto ao seu caráter.Será que tinha fibra para enfrentar o pai e o mundo para lhe preservar daquelas circunstâncias nefastas? Como poderia saber se ele não estava ali? Quando foi surpreendida pela voz de um dos prepostos de Alfredo: -Senhora, já tem uma posição?: -Tem alguma saída? -Se conseguir provar sua inocência. Senão apodrecerá na cadeia!... -Terei de fazer o quê? - tinha se rendido. Levaram-na para uma sala contígua a fim de prepará-la para entrada em cena de novos elementos da trama.

XIX Moacir tremia de medo. Desde que fora forçado passar para o fundo do carro e entregar a direção a um desconhecido quase não tinha conversado. Estava espremido por dois brutamontes que por pouco não lhe deixavam respirar. Já tinham rodado mais de mais de uma hora, em ruas e avenidas. Algumas ruas ele conhecia, mas naquele momento, estavam num ponto muito longe do centro da cidade que não lhe dava a menor noção do lugar. Os quatro desconhecidos também eram econômicos nas falas. O carona da frente ia orientando o motorista que embora demonstrasse experiência doutras viagens, ainda tinha dúvidas do itinerário.

XX Entrara num prédio pela garagem, sempre ladeado pelos brutamontes. Um deles portava uma arma por baixo do paletó que de vez em quando lhe cutucava as costelas. O tempo e as conversas tinham lhe dado certa serenidade. Tinha consciência que não poderia dar um passo em falso, cometer alguma imprudência, por isto, manteve-se o tempo todo discreto, sem chamar à atenção de transeuntes ou de moradores vizinhos. Já dentro do apartamento é que todos se juntaram, inclusive, com o retorno de Madalena ao grupo. Um deles (o detetive), que parecia coordenar os demais, começou falar: -Os senhores já se conhecem (referindo-se a Moacir e Madalena), não será necessário apresentações, estou certo?... – perguntou-lhes o detetive. -Ela é esposa do meu pai! – respondeu Moacir. -E sua amante... – cutucou o detetive. -É um assunto particular que não é da alçada dos senhores. Não é certo o nosso seqüestro, não considero isso uma prisão, aqui não é nenhum fórum ou delegacia. Se temos que prestar conta de alguma coisa, que prestemos às autoridades conforme os dispositivos jurídicos vigentes. – com a presença de Madalena, Moacir tinha se travestido de coragem e argumento. -Não somos seqüestradores. Os senhores serão entregues às autoridades. Porém, quem nos contratou, deseja evitar um escândalo público, desde que cheguemos definir um acordo a contento dos envolvidos. – esclareceu-lhe o detetive. -Estar cheirando à chantagem! Eu não cometi nenhum crime para ter medo da justiça. Talvez, Tenha cometido algum pecado que terei que prestar conta quando morrer... – Moacir estava senhor de si, já com uma pontinha de deboche!... -Recebemos orientação para que o Senhor devolva tudo que roubou das empresas do seu pai e se quiser assuma sua amante - o detetive apontou para Madalena. -Ela não é minha amante. Amo minha mulher. Jamais iria deixar minha mulher por qualquer leviana, prostituta... – foi interrompido por Madalena, chamando-o de canalha, escroque, leviana e prostituta era quem lhe botou no mundo... e, se não fosse a intervenção deles, segurando-a, ela o teria agredido...numa crise de choro, sentou-se no sofá e caiu em prantos. -O senhor nega que tenha um caso com esta senhora e não roubou o seu pai? – insistiu o detetive. -Não! Não vou roubar o que é meu e da minha família. -Dona Madalena nos forneceu os seus bancos em paraísos fiscais e o número de suas contas, faltam os códigos e senhas que estão em seu poder! -Ela está mentindo. É uma pára-quedista, casou-se com o velho com intuito de surripiar e roubar a família. Estou entendendo... foi ela que armou todo esse imbróglio?... – Moacir estava possesso. Madalena estava mantida à força no sofá pelos policiais. Jamais imaginou que Moacir fosse tão canalha. Tinha fornecido os números de suas contas com a promessa de que Dr. Alfredo queria, somente, vê-los longe do país, que fossem começar nova vida com o dinheiro roubado lá fora, esquecido e longe da família. -Sr. Moacir, vou lhe pedir que sente-se um momento e veja e ouça o material que investigamos durante três meses – Moacir acomodou–se numa cadeira ao lado de um preposto. O DVD foi ligado. No telão começou passar as imagens da espionagem do detetive Chaves. Moacir era o mais descontraído. Madalena, de quanto em vez, por intuição feminina, olhava para os lados procurando alguém. Parecia que seu sexto sentido avisava-lhe que estava sendo seguida. Ele era despreocupação total. As imagens da noite anterior, apresentavam um Moacir galanteador e romântico. Terminada as imagens, o pessoal passou as conversas dele com sua amante. A proposta dele pra matar o pai, o ajuntamento depois e como se livrar de sua mulher... Não havia margem pra contra-argumentação, principalmente, quando lhe mostraram que toda investigação e grampo telefônico tinham sido feito legalmente – uma façanha do oficial de justiça contratado. -E aí Sr.Mo...- o detetive não completou a pergunta. Num gesto felino, Moacir saca da arma e desfere dois tiros à queima-roupa em Madalena. Quando contido, a desgraça era irremediável... -Ela está morta!... - falou um dos homens. Moacir estava lívido. Começou chorar e maldizer o momento de tê-la conhecido. Estava completamente aturdido. Além dos outros crimes, tinha cometido um crime de morte. A priori, não tinha esperança de ter o respaldo da família e dos amigos. Estava perdido... Quando fazia essas conjecturas, surge do nada seu pai: -Prendam esse ladrão criminoso! – ordenou rispidamente Dr. Alfredo. -Meu pai me perdoe!... Foi ela que armou todo esse esquema para me incriminar... – suplicou Moacir. -Nós fomos suas vítimas. Além de roubar à família, às empresas, estava planejando matar a mim e sua mulher. -Eu devolvo tudo que roubei mas não me deixe ser preso!... - era o que Dr. Alfredo queria ouvir. Seu plano parecia estar chegando ao fim. Teria que ter cuidado e valorizar os termos, se vacilasse, poderia colocar tudo a perder, seu filho era perspicaz mesmo com toda pressão psicológica: -Pensei que o senhor devolveria o dinheiro sem necessidade de cometer um assassinato. Agora, a situação torna-se quase insustentável... – O corpo de Madalena já tinha sido levado para uma sala contígua e coberto com um lençol. Enquanto o pai e o filho conversavam, Chaves entrou na sala para pedir orientação ao patrão:. -Doutor, o quê faremos com o corpo? -Entregue-o à polícia! -Não!... Não posso ser preso. Preciso de sua ajuda papai... ajude-me! – suplicou Moacir. -Não me chame de pai! Quase que seria eu que estaria estirado em algum lugar. O senhor e sua amante estavam planejando matar-me... porém... há uma condição de lhe ajudar?... -Farei tudo que o senhor quiser... – Moacir estava apavorado. -Desejo somente aquilo que o senhor roubou de mim e de seus irmãos. Quanto o senhor tem nos paraísos fiscais? -Dez milhões de dólares!... -Assine essas procurações! –apontou para um calhamaço de documentos. -O senhor quer ressarcir esse dinheiro? -Não, não quero problema com a Polícia Federal e a Receita. O senhor vai vender sua parte nas empresas. -Mas, vale bem mais! -Então, se explique com a Polícia Federal, a Receita e a justiça criminal!... - Dr. Alfredo ameaçou sair. -Tudo bem, com o dinheiro que tenho começarei nova vida lá fora. Porém, preciso chegar aos Estados Unidos!... -Meu avião vai lhe levar até à Argentina. Da Argentina o Senhor tome o seu destino. O mais rápido possível. Tenho que comunicar o crime à polícia, senão, será mais um crime por ocultação de cadáver...

XXI Dois dias depois Dr. Alfredo comunicou à polícia o desaparecimento de sua querida esposa. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia, colocou o melhor de sua inteligência investigativa à disposição desse caso. Além disso, várias buscas foram feitas pela polícia militar e civil com base em denúncias anônimas e algumas pessoas suspeitas foram presas. Um mês depois, a polícia civil, recebeu um pacote contendo CDs de imagem e de voz, com a discussão dos amantes, a imagem do crime e a arma que vitimou Madalena Azevedo Sá. As imagens bem editadas, não apareciam os outros atores da trama, somente, Moacir D`Ávila Antunes com a arma na mão e Madalena com a cara de susto como que pedindo socorro, noutra imagem, ela caída ensangüentada.


XXII No município de Dourados na zona do planalto do estado do Mato Grosso do Sul, na bacia do Rio Paraná, perto da fronteira do Paraguai, não muito distante da Serra do Maracaju, há uma fazenda agrícola e de gado, chamada Araraquara, que não chama à atenção de quem por lá passa. É uma sesmaria de terra, mas em processo de construção. A holding Antunes Mascarenhas de Morais Ltda., adquiriu essas terras por bagatela, com o objetivo de desenvolver projetos de agricultura e pecuária. Gado já se contava às centenas, enquanto agricultura está em fase embrionária, tratores e máquinas trabalham diuturnamente a terra para plantio de trigo, soja, feijão e milho. Aqui e acolá encontrava-se grupo de homens construindo casas para trabalhadores e sedes para os administradores. Dentre pouco tempo, a fazenda Araraquara será uma das mais modernas e produtivas daquela região e já começa ganhar fama, com exceção do pessoal que trabalha no escritório na cidade de Dourados, que os donos são estrangeiros. Nesse clima eufórico de trabalho, chega à fazenda, uma morena de cabelos castanhos, curtos e trajes de senhora, acompanhada por um homem aparentemente mais novo, com ordem da direção da holding A M M para hospedá-los por tempo indeterminado, o casal de irmãos, Chaves e Madalena ou melhor, o casal de irmãos, Roberto e Clara. Após 30 dias de vida bucólica Clara se apaixona por um engenheiro paraguaio que trabalhava na fazenda. Casa-se no religioso e no civil, com a nova identidade em Dourados e vai morar em Assunção com seu novo marido.

XXIII San Carlos de Bariloche um ano depois: um casal brasileiro percorre sem pressa os principais pontos turísticos daquela cidade e redondezas. Ela, uma morena quarentona com quase todas as curvas perfeitas que a natureza lhes dotou e uma plástica ainda de fazer inveja; ele, mais maduro, mas rijo, vendendo saúde, não aparentava a idade que tinha... Já tinham praticado esqui, “snoboard” nas montanhas de Tronador e Cerro Catedral e “raffting”, mas o que mais lhes impressionaram foram as belezas dos lagos Nahuel e Huapi. Eles pareciam ter anos de convivência pelo chamego e amizade. -Alfredo, eles não são filhos de Moacir. Ele é estéril!... – explicou-lhe Patrícia. -Então os meus netos são meus filhos?... -Querido, os três têm sua marca. Se não confia em mim, pode fazer um DNA!!! – Patrícia estava irritada. -Calma querida, é que você nunca me falou!... -Não era necessário. Neto é filho duas vezes. Além disso querido, quem faz filho na mulher dos outros, perde o filho e o feitio... Moacir teve a desventura de ser flagrado pela polícia federal da Grã Bretanha, com uma mala levando 500 mil dólares não declarados das ilhas Caymans e encontra-se, hoje, abandonado e esquecido numa penitenciária inglesa.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Rilvan Santana

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