11.11.2025

O sonho de José Maria - R. Santana

 

O Sonho de José Maria
O sonho de José Maria
R. Santana

Ele não arrotava valentia, era de paz sem ser medroso, porém, era conservador, beato assumido, radical de nascença, retrógrado por convicção, não cedia nem negociava seus pontos de vista, noivou, mas largou a mulher amada na noite de núpcias quando descobriu que tinha sido enganado, comido gato por lebre, carne de ontem por carne do dia, era assim “seu” José Maria Faisão, comerciante estabelecido.
Não era velho, também não era moço, dava “pro gasto”, como dizia sua vizinha solteirona, todavia, “seu” José Maria Faisão não dava confiança a nenhum rabo de saia, desde àquela noite que se sentiu traído pela única mulher que amou.
Queixava-se das coisas e não das pessoas, ou seja, se o médico não acertava na prescrição, culpava o tratamento e não o médico, ele evitava o confronto e maldizia as circunstâncias...
Naquela noite, depois de encher o bucho com fausto jantar, esticou-se no sofá e adormeceu, sonhou que estava no céu e mudou o seu jeito escorregadio para arrogante e crítico:
- Quero falar com Deus!
- Quem é o senhor? – perguntou-lhe o anjo porteiro.
- José Maria!
- Sua morada senhor?
- Venho lá de baixo ou lá de cima... venho... da Terra!
- Senhor, lá dessas bandas, é São Pedro o chefe!
- Pois, chame o seu chefe!
O anjo sumiu num átimo de tempo, José Maria pensou que o mensageiro de Deus tivesse se escondido atrás de alguma parede ou alguma porta, mas com a mesma rapidez que sumiu, ele reapareceu com o papa dos papas, o porteiro-mor do céu:
- Filho, quais as notícias boas que tu me trazes da boa terra!?
- Perdão Santo homem, mas lá é guerra, é violência, é tsunami, é doença, além da esculhambação dos maricas!

- O quê!?
- É o que disse!...
- Por que viestes?
- Vou pedir a Deus para destruir a Terra!
- No Juízo Final, os males serão consumidos no fogo eterno!
- São Pedro me perdoe, mas já se esperou demais!
- Filho, o tempo de Deus é diferente do tempo do homem...
- Ele virou às costas para o homem!
- Não fales essas heresias, filho, Deus é ágape, é amor!
- Se Deus não abandonou o homem como se explica tanta maldade, tanto desastre ambiental?
- São os desígnios do Criador! – Continuou:
- O Senhor escreve certo por linhas tortas... – sentenciou o santo.
- Até casamento de homem com homem e mulher com mulher... onde já se viu!?
-Filho, aqui, nós vivemos como irmãos, nem se casam e nem se dão em casamento!
- E esses despudorados ainda querem filhos... E os grilos nessas cabecinhas?... – arremedou a voz de criancinha conversando com o adulto:
- Quem é seu pai? – Maria! – E sua mãe? – José! – dobrou-se de tanto rir.
- Filho, ainda não é motivo para Jeová destruir a humanidade!
As guerras, os crimes torpes, a pedofilia, os incestos, a destruição da natureza, a prostituição glamourizada, a proliferação de igrejas mercenárias e a maldade humana cada vez mais maldosa... não... não... não são motivos mais fortes do que os do tempo de Noé!?
Silêncio.
- Jesus Cristo já desceu lá e foi crucificado, se Ele voltar, além de crucificado, será esquartejado e colocado numa mala, a humanidade é má, São Pedro!
Silêncio.
- Senhor, o homem de ontem, adorava o bezerro de ouro por ignorância e insegurança; o homem de hoje, tem consciência de Deus, mas clama por dinheiro, sexo e poder!
Silêncio.
- Juízes corruptos, padres e pastores xibungos e fornicadores, além deles ludibriarem a boa fé do povo sofrido!
- Filho, Jesus Cristo recomendou que não “julgueis para não serdes julgados”, somente Ele, recebeu autoridade para julgar o homem no Juízo Final!
- Por isso, quero ver Deus!
- Filho, o homem não vê Deus!...
Silêncio.
- São Pedro, quando será a consumação dos tempos?
- Filho, é um mistério da Santíssima Trindade! Não tenho o mistério da vida e da morte...
O som do despertador misturou-se às últimas palavras do porteiro-mor do céu. José Maria acordou-se assustado e confuso, mais assustado do que confuso, mesmo no sonho, perguntou-se de onde arranjara tanta coragem para provocar o santo homem, pois não gostava de apontar os defeitos das pessoas, condenava as coisas da vida, e desesperado clamou:
- Meu Deus, meu Deus, porque abandonastes o homem!? Meu Deus, meu Deus, porque abandonastes o homem!? Meu Deus, meu Deus, porque abandonastes o homem?...

Silêncio.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Conto.
 

ESCOLA PÚBLICA - R. Santana

 


ESCOLA PÚBLICA
ESCOLA PÚBLICA
R. Santana


Estamos, praticamente, no meio da III Unidade do ano letivo de 2006. As escolas particulares, geralmente, terminam suas atividades no final de novembro, enquanto as escolas públicas terminam de fato, sem embromação e o famoso “faz de conta que o professor ensina e o aluno aprende”, depois do Natal, acrescido a priori, de datas agendadas para reposição de aulas de algum movimento paredista (em nosso estado virou praxe, em parte pelo descaso das políticas de valorização salarial e condições de trabalho do profissional do ensino; em parte, pela falta de compromisso de alguns profissionais que já começam o ano letivo com atestados médicos ou outros estratagemas menos oficiais.
Essas aulas das paradas estratégicas que nos referimos, de alerta às autoridades educacionais e à comunidade no decorrer do ano letivo, geralmente, são alinhavadas e servem somente para cumprir o calendário da Secretaria da Educação do estado, em termos de aprendizagem, representam um zero à esquerda.
Alguém já disse que o professor em nosso país está no final da “linha de produção”, não pelo fato dele não produzir, mas pelo fato do estigma histórico, herdado dos jesuítas, que o magistério é um sacerdócio, que o normal é o sacrifício pessoal do trabalhador em educação e da sua família, para manter a imagem poética de um abnegado... Claro que no Século XXI, com uma sociedade capitalista, consumista, essa imagem de eterno injustiçado não poderá subsistir por muito tempo.
Por isso, esse confronto perene de gestores do governo e trabalhadores em educação só irá terminar quando a sociedade e os governantes priorizarem a educação em todos os níveis de ensino. Começando com a implantação de mecanismos de produtividade e estímulos, passando parte desse serviço para a iniciativa privada com instrumentos de fiscalização e cobrança, regidas por uma legislação moderna e desburocratizada que impedisse qualquer arapuca (atualmente, o número de escolas particulares e de cursos, crescem mais do que a capacidade do governo em fiscalizá-los, é comum, escolas superiores funcionarem sem autorização do curso, e quando o aluno o conclui, não pode tirar o registro), de se credenciar ao MEC. Hoje, o sistema educacional privado se caracteriza pela visão empresarial distorcida do lucro desonesto e sem compromisso institucional, para justificar, lembraria o caso divulgado pela mídia nacional de um analfabeto funcional (um pedreiro) ter feito vestibular em uma “conceituada” universidade do rio de Janeiro e ter sido aprovado.

De vez em quando surgem paradigmas, métodos e idéias salvadoras para solucionar o problema da educação, consequentemente, da aprendizagem, do cognitivo: Escola Nova, Escola Grapiúna, Escola Paulo Freire, Escola Piagetiana, Escola de Vygotsky. Ultimamente, um senhor judeu, chamado Reuven Feuerstein, que criou uma teoria metodológica (Programa de Enriquecimento Instrumental-PEI), para recuperação da aprendizagem das vítimas II Guerra Mundial, invadiu o mercado brasileiro e empurrou goela adentro do governo baiano esses instrumentos de aprendizagem, com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos alunos da rede estadual (um programa de 10 anos de custo financeiro elevado e controle editorial triplicado), esse programa se salva não pelo fato de ter aumentado a capacidade cognitiva dos nossos alunos, mas por aumentar a carga horária e o salário de muitos profissionais do ensino, principalmente, os excedentes. Senão, seria mais um dinheiro jogado no ralo do desperdício público.
Entretanto, é necessário que citemos bons exemplos pedagógicos. Em nossas escolas públicas, funciona um instrumento que se não tivesse sido tão descaracterizado em seu objetivo inicial, seria um grande mecanismo de justiça pedagógica e administrativa, chamado: Conselho de Classe. Caro leitor (que ainda não fechou o seu e-mail), o Conselho de Classe é um colegiado constituído de professores, coordenadores, representante da direção e, quando a escola tem uma linha mais democrática, um representante de classe, cujo objetivo é a promoção do aluno (o Conselho não reprova), ou a sua manutenção na série por baixo rendimento de aprendizagem. Além da falta de aprendizagem, eram acrescidas análises de condutas inadequadas do aluno.
Esse Colegiado também funciona no final de cada Unidade letiva, para uma avaliação parcial da aprendizagem e a pontuação dos problemas daquela Unidade, sem caráter progressivo.
O Conselho de Classe surgiu com o advento da Lei nº. 5.692 /71, no bojo das preocupações das autoridades educacionais dessa época, em adequar o nosso sistema educacional (tradicional, acadêmico e inútil no dia-a-dia ), ao sistema educacional dos norte-americanos , que priorizavam um ensino técnico e profissionalizante , para atender às necessidades de um mercado florescente de novas tecnologias e indústrias mais automatizadas.
A preocupação inicial , quando o Conselho foi implantado , que ele fosse um instrumento de avaliação qualitativa, isto é, analisando o aluno em suas potencialidades e em sua conduta. Não o olhava mais pelo viés da aprendizagem decorada e sem significado... Além disso, o Conselho teria a função de corrigir as injustiças praticadas por alguns chefes de disciplina transvestidos de professor. Era comum o aluno ser reprovado por décimos de ponto, pela autoridade autoritária e inquestionável do professor. O Conselho de Classe chegou e fracionou essa autoridade, tornando o processo de avaliação da aprendizagem e do comportamento do aluno uma responsabilidade de todos os profissionais envolvidos no seu processo educacional.
A Lei nº.9.394/9l, no seu Art. 12, ratifica e embasa juridicamente a independência pedagógica e administrativa (não financeira, as escolas públicas não têm receitas próprias, recebem os recursos financeiros dos governos), das unidades escolares quando afirma: “prover os meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento ou, articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola“.
Como tudo na vida, o Conselho de Classe envelheceu, hoje, não possui as mesmas prerrogativas iniciais, foi desvirtuado, acrescido de novos elementos ao sabor dos coordenadores e do diretor de plantão e, principalmente, pelo comodismo e falta de compromisso da maioria docente. Seria necessário que o Conselho fosse reestruturado e conscientizado na comunidade discente e docente. Sem casuísmo e ingerência tendenciosa de coordenador, diretor (salvo, em casos estribados em suporte jurídico), e acima de tudo, seria necessário que o professor como agente de transformação se compenetrasse das suas responsabilidades e do seu papel de educador e usasse do seu bom senso (Descartes afirmava que todos jactam-se em tê-lo) nas mais imprevisíveis decisões de avaliação.
Enfim, queremos fechar esta matéria com a pretensão de levar ao conhecimento dos leitores que o problema da educação em nosso país é sério e como tal deve ser encarado. Não existe fórmula milagrosa. A sociedade e o governo têm de se compenetrar que para ter mudança, é necessário que os programas públicos educacionais sejam cumpridos, o profissional do ensino estimulado e exigido. Não se pode fazer do magistério um “bico” e entulhar as escolas de profissionais despreparados (dever-se-ia exigir do profissional em educação o que OAB exige do profissional do direito) e desmotivados. Os governos devem acabar com a preocupação estatística de demonstrar o que não existe, para o mundo e para os organismos financeiros internacionais, com o objetivo de abocanhar financiamentos para projetos sem operacionalidade prática e que só servem para entulhar de papéis as mesas de técnicos e burocratas e proceder como procederam os países asiáticos, que a educação dos seus povos é a principal função do estado e é a pasta governamental de mais investimentos. E, não continuar com uma educação de povos culturalmente e socialmente subdesenvolvidos.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Artigo

 

Tempos de loucura - R. Santana

 

                                                                    Tempos de loucura - R. Santana

                    O velho Manduca andava com dificuldade para ir ao balcão de guichês comprar sua passagem de ônibus de volta para casa quando foi cercado por três jovens policiais (dois homens e uma mulher), que incontinenti, identificaram-no, revistaram-no e algemaram o inofensivo velho. O pobre entregou-se sem esboçar dificuldade, atoleimado, sem entender os acontecimentos, mas algo lhe dizia que estava acontecendo...
               Na delegacia, mais aturdido ficou, pois a quantidade de homens, mulheres e adolescentes que tentaram linchá-lo (salvo pela bravura e intrepidez dos policiais), era incalculável, o “seu” Manduca cada vez entendia menos, menos ainda quando a turba enfurecida gritava:
                    - Assassino!
                    - Assassino de criança!
                    - Pedófilo!
                    -Monstro!...
             Os diligentes repórteres de rádio, jornal e televisão, escravos do “furo” e sem compromisso com a verdade, aglutinavam-se sobre o velho Manduca para puxar sua primeira declaração:
                    - Foi o senhor que matou Carlinhos?
                    - Por que fez isso com o menino!?
                    - Além do estupro, o assassinato?
                    - Um homem de sua idade!...
              Quando o velho entrou na delegacia, naquela tarde, culpado pelo clamor das ruas, pelas provas circunstanciais e robustas da polícia e, pelo desejo incontido de alguns medalhões do governo, dali em diante, ele estava na casa do sem jeito...
                Medidas cautelares para enfiar “seu” Manduca atrás das grades foram tomadas de pronto: Polícia e Ministério Público agilizaram todos os trâmites da denúncia e num fechar de olhos, a prisão temporária e a prisão preventiva foram decretadas pela Justiça.
              A opinião pública e os parentes da vítima não se cansaram enquanto o velho Manduca não foi indiciado, pronunciado culpado e réu de júri pelo crime hediondo, sórdido, repulsivo, que fez vítima fatal o garoto Carlinhos.

                                                                                     ***

              O velho Manduca vivia sozinho desde que sua mulher morreu. Os seus filhos ganharam o mundo sua mulher ainda viva. Na rua onde morava era amigo de todos e quando ele foi preso acusado de pedofilia e crime de morte, os seus vizinhos recusaram-se acreditar, porém, alguns pais ficaram apreensivos, pois seus filhos foram várias vezes confiados aos cuidados do vovô Manduca...
                 Afora o corpo de Carlinhos ter sido encontrado no quintal do “seu” Manduca, outro fato relevante que fez o velho passar da condição de suspeito para acusado é que a vítima vivia diuturna em sua casa.
                 Ele tratava as outras crianças com carinho e afeição, mas Carlinhos era o seu xodó, o seu bem-querer, neto e filho do coração ao mesmo tempo. Levava e ia buscar o moleque na escola, levava-o ao shopping, ao parque, ao piquenique, ao dentista, ao médico, enfim, Carlinhos só voltava para casa à noite pra dormir por insistência do “seu” Manduca, às vezes, por insistência dos seus pais quando lhes tocavam uma pontinha de ciúme ao vê-lo dia a dia mais apegado ao velho.
             O povo enfurecido é irracional, ele excede todos os limites da racionalidade e do bom senso: denigre, destrói, pilha, barbariza e mata se motivado por uma causa aparente justa. Assim ocorreu com o caso Carlinhos que após o levantamento cadavérico e outros procedimentos, uma turba enfurecida, violou, pilhou e destruiu a casa do velho Manduca.

                                                                                     ***
            Embora o velho Manduca ainda chorasse a morte de Carlinhos, já se sentia à vontade com os seus colegas de presídio. No início, enfrentou olhares de desconfiança e raivosos, mas o tempo e o seu modo de ser, deixaram os outros detentos arrefecidos, certos de que o velho tinha sido vítima de uma tramóia criminosa, urdida por alguém de mente diabólica.
             Filhos, filhas, genros e noras a pretexto de residirem e trabalharem noutras cidades, poucas vezes visitaram-no, deixando o velho à própria sorte... Os seus vizinhos além de não serem solidários, alguns engrossaram o séquito dos seus inimigos que destruíram e pilharam sua casa.
               Porém, um mês depois do crime, lhe é anunciado uma visita inesperada, alguém que o velho Manduca ajudou e ignorava o seu paradeiro:
                    - Lembra-se de mim? – O velho consertou os óculos:
                    - Mas... mas... você não é o João da comadre Dina!?
                    -Ah, velho danado!... - os dois se abraçaram num chororô...

                                                                                     ***
Um ano depois.

          O “assassino de Carlinhos” tinha caído no esquecimento do povo se de quando em vez a mídia não o cutucasse... O “vovô assassino de criança” ainda levantava o IBOPE, quando três marginais de alta periculosidade foram presos. Um deles começou debochar com o velho desde os primeiros dias:
                    - E aí vovô, gosta de um rabinho novo hein?... – às vezes, “encoxava” o velho no tumulto do almoço que palidamente reagia:
                    - O senhor me respeite!... – O bandido desabava de rir:
                    - Ah, ah, ah!!! – mas, certo dia:
                   - Não tem vergonha mexer com um homem dessa idade!? – O bandido gritou para todo refeitório:
                    - Mais uma “bichinha” gente!!!
                    - Vagabundo, sua casa caiu!!!
           Não foi mais do que um quarto de hora para que o refeitório do presídio de Tainá ficasse aos frangalhos, aos cacos, como se ali tivesse passado um grande redemoinho destruindo todos os objetos e utensílios do salão, além de alguns feridos e três mortos: o autor da confusão, o seu sectário e, o velho Manduca!...

                                                                                     ***

                    - Não! Não! Não, meu pai!!!
                    - Filho desnaturado, você não dá ao velho!?
                    - Não! Vovô Manduca não faz isso comigo!
                    - Se ele não faz, eu faço!
                    - Você é um monstro! – O menino gritava e chorava:
                    - Vou dizer a minha mãe! Vou dizer a minha mãe! Vou dizer a minha mãe!...
                    - Não vai! Eu vou te matar!...

            O seu pai, tresloucado, esbofeteou-lhe e esganou-lhe até o último suspiro.

                                                                                     ***

Parodiando Rousseau:
Deus criou o homem e de sobeja deu-lhe bons sentimentos, inteireza moral, busca espiritual, amor e paz. A sociedade corrompe o homem, cultiva a hipocrisia, e, semeia a maldade...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 19.03.2011

Nova carta para - Atir R. Santana

 

Nova carta para Atir
Nova carta para Atir
R. Santana

Querida Atir:

Ah Atir, tu não aprendeste ainda a diferença entre o amor e a paixão, os dois sentimentos que dominam as ações humanas. Não adiantou os inúmeros exemplos que te dei na carta anterior de figurinhas conhecidas na história humana. Ah Atir, tu és uma mulher inteligente, mas tu não perdeste ainda a aura sonhadora, mesmo longe os anos de tua adolescência.
Acho que tu não acreditaste em mim, nos meus conceitos, tu fizeste bem, eu não possuo nenhuma autoridade no amor e na paixão, porém, tenho a leitura e a experiência vivida nos outros. E a História está eivada desses exemplos, além de pescar nas águas e na autoridade do Aurélio a diferença desses dois sentimentos, vos tendes agora: “amor, sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa; paixão, sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão”.
Sartre, o filósofo da existência e Simone Beauvoir, sua companheira de tantos anos viveram esse amor descrito por Aurélio: cada um zelando pelo bem-estar do outro, mas cada uma na sua... Entretanto, querida Atir, não poderia dizer o mesmo da paixão de Anita Garibaldi pelo revolucionário Giusepe Garibaldi, cruzando mares e fronteiras, combatendo com paixão e entrega homens e conflitos, para ficar junto do seu homem e do seu herói.
Li a tua carta que fala de uma “paixão virtual” transformando o impossível em “factível” e “vende” uma imagem ideal. Ora Atir, por mais que eu admire a tua inteligência, a mulher, tua sensualidade, tua sedução, permita-me lamentar a tua ingenuidade e a tua imaturidade na paixão e no amor.
O que tu chamas de “paixão virtual”, “sensualidade nas palavras”, eu diria: “comunicação virtual”, “fantasia”, “devaneio”, “sonho” e “imaginação”.
O amor é um sentimento abstrato enquanto categoria gramatical, mas este sentimento não prescinde do físico, do palpável, diz a sabedoria popular: “quem ama o feio bonito lhe parece”, ninguém ama o que não conhece. Não estou me referindo somente ao físico, concordo contigo e com o pensador que disse: “as palavras são corpos tocáveis, sereias visíveis, sensibilidades incorporadas”, as palavras bem articuladas têm o poder de formar imagens, construir sentimentos, ideais e sistemas, mas tudo é concreto ao nível do pensamento.
A paixão não tem limite, não obedece às filigranas morais, não tem preconceito e não tem nada que impeça os apaixonados viverem e morrer por suas paixões.
Atir querida, tu fujas desses pensamentos e dessas práticas virtuais. Não contentas e não induzas os incautos às paixões virtuais, pois com o advento da Internet, essas paixões não passam de perversões sexuais, de sadismos virtuais, de doenças mentais, com os egos e as imagens deformadas, às vezes, trazendo angústias, desesperos e frustrações com a imposição da realidade.
A dor física é passageira, mas as dores da alma de sentimentos frustrados, de sonhos desfeitos e de esperanças exauridas são perenes, eternos. Por isto Atir, não uses as tuas palavras, o teu conhecimento, para espalhardes falsas ilusões, pois debaixo de palavras ingênuas, subjacentes, tu estás espalhando sentimentos de perversão e maldade.
Há crime maior do que manipular mentes? Não! No Direito tem lá a figura do “autor intelectual”, que é tão ou mais perigoso do que aquele que pratica a ação. O autor intelectual é o dono da idéia, é aquele que planeja, corrompe pessoa e alguém executa. Não obstante possuir uma desenvoltura intelectual excepcional, em circunstâncias adversas, é um mau caráter medroso, pusilânime.
Enfim, continuo te admirando pela inteligência, pela desenvoltura das palavras, pela arte de escrever, mas condeno a tua apologia virtual, tua retórica e tua imaginação fúteis, comuns aos espíritos menos elevados e não a ti.

12.05.2008
Do homem pensante,

Narvil

Seu José - R. Santana

 

Seu José
 R. Santana



     Era “seu José” pra lá e “Seu José” pra cá. Não se sabia na verdade quem era ele. Se tinha filhos, se era viúvo, divorciado, casado, se tinha parentes, de onde vinha e para aonde ia, se pensava deixar a cidade de Itabuna naquele ano de 1968 ou fixar residência. Fixar residência seria o caminho mais provável, pois ele estava na terra fazia uns três anos, no Suez Hotel, o melhor da cidade. No hotel também pouco se sabia. Conhecia-o como um hóspede simpático, que pagava em dia sua hospedagem e sempre de bem com a vida. Era tratado pelos empregados como um pai. Ajudava um, socorria outro e nunca cobrava o benefício concedido, às vezes, dispensava os pequenos valores emprestados quando estava convicto de uma boa causa. Seu José não era um estróina, um abestalhado, um perdulário qualquer, um louco que queima dinheiro à toa, sua ética de compromisso era rígida, se o incauto devedor usasse de má fé, ele bronqueava: -Filho, dado é dado e emprestado é emprestado, dê-me o meu dinheiro! No hotel as más línguas andaram falando coisas desairosas dele, levantaram suspeitas do seu lado sexual, porque ele tinha o costume de doar roupas e sapatos para jovens rapazes no Natal, mas essas aleivosias, essas futricas morreram no nascedouro, Seu José também doava às moças, vestuários e sapatos femininos. Essas suspeitas e esses cochichos só foram definitivamente elucidados muito tempo depois. Em Seu José tudo era nebuloso, não se conhecia nada ou quase nada de sua vida pessoal assim como não se sabia sua idade. Algumas pessoas achavam que há muito tempo, ele tinha descambado os sessenta anos; outros lhe davam um pouco mais de cinqüenta e os mais sensatos lhe davam cinqüenta e nove anos ou sessenta anos cravados. Era um homem alto, de forte compleição, branco e avermelhado. Suspeitava-se que tinha vindo de Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina ou nenhum dos dois estados. Ele não se abria e fechava a cara ou olvidava a iniciativa de qualquer bisbilhoteiro e se o curioso insistia, ele brincava: -Filho, vai ver se eu estou lá na esquina!... Mas afora a preservação de sua vida particular, um direito que lhe assistia, Seu José era prestativo, simpático, amigueiro e respeitador.

II 

     O Bar de Pedro tinha três sinucas, duas mesas de dominó e uma mesa de baralho. As sinucas eram mesas antigas, mas funcionais e bonitas, com seis caçapas e oito bolas de cores variadas, sendo que cada bola tem um valor em pontos. A bola vermelha vale um ponto, a bola verde vale cinco pontos até à bola preta que vale sete pontos. As bolas são eliminadas pela ordem da menor à bola maior. Se o jogador encaçapava a bola sete ou qualquer outra bola antes de eliminar todas as bolas menores, ela voltava à mesa da sinuca quantas vezes fossem necessárias até completar a operação do mata – mata e o jogador vitorioso é aquele que acumula o maior número de pontos. Os moleques pilheriavam com o jogador adversário sertanejo que em sua terra de verde só tinha “o pano da sinuca e as penas do papagaio”. A mesa de sinuca ou de bilhar é forrada por um pano verde específico. Embora o ambiente fosse de jogatina, o Bar de Pedro nunca tinha registrado uma briga fratricida, de quando em vez, havia alguns entreveros, esperneio de perdedores que eram contidos pelos mais sensatos e a coisa acabava ali. No fundo do bar rolava diuturnamente um jogo de baralho, um jogo de azar, com freqüentadores viciados e acostumados apostar quantias significativas. Embora existisse certa ética, às vezes, ocorriam algumas falcatruas. Elementos desonestos, num passe de mágica, enxertavam à mesa, baralhos com as cartas marcadas. Porém, era no jogo de sinuca que reunia uma roda maior de perus, de torcedores, de simpatizantes. O peru só não podia falar nada que prejudicasse o adversário, mas podia torcer e apostar no taco do jogador que acreditasse. Certa feita chegou um indivíduo não se sabe de onde, todo desajeitado, dando uma de tabaréu, de João sem braço, fazendo-se de pixote, perdendo pequenas apostas, espirrando na bola toda vez que ia jogar, provocando alguns risos nos esfomeados assistentes. Seu José foi o único que ficou de espreita, na sua, desconfiado, achando que o indivíduo estava blefando e blefando muito bem, pois estava passando para maioria tratar-se de um pixote, de um bronco, de um abestalhado. Ele observou que à medida que as apostas iam subindo, o desajeitado forasteiro foi evoluindo no jogo e embolsando as apostas, deixando muita gente sem entender o que estava acontecendo. Seu José chamou Zé Magrinho, um dos empregados do bar, um rapaz franzino de uns 20 anos de idade com aparência de 17 e advertiu-lhe: -Filho, esse sujeito está escondendo o jogo, vai limpar todo mundo não a mim, vou carregar dinheiro em seu taco! - O senhor tem razão. Ele já limpou João de Anita que é um dos melhores tacos daqui e agora, ele está levando em banho-maria o Juvenal, perde uma e ganha três. – esclareceu-lhe Zé Magrinho. O sujeito freqüentou somente três dias o Bar de Pedro, deixou muitos jogadores viciados sem o dinheiro da feira, principalmente, os mais afoitos e os melhores tacos. Soube-se depois que o desajeitado chamava-se Carne Frita, um exímio e famoso jogador de sinuca que quando caiu a máscara e não encontrou mais adversário, começou demonstrar sua competência e sua habilidade. Dava ao temerário adversário cinco ou mais pontos de vantagem e o direito de iniciar o jogo primeiro. O pobre coitado só pegava no taco uma vez, Carne Frita lhe deixava de queixo caído, encaçapava da bola um à bola sete, em jogadas de efeitos mirabolantes. Um espetáculo!... Hoje, lamenta-se que naquela época não havia filmadora portátil de registro de imagem em movimento ou celulares com as câmaras mais sofisticadas para terem registrado essas imagens.

III 

     O apressado come cru e o crime do jovem Fadul Kalid, turco de nascimento, em um bairro da classe média alta da capital paulista, parecia ter sido cozido em fogo lento porque lhe deram vários tiros de pistola automática além de arrancarem-lhe o pinto e os ovos e levara cinco anos para acontecer de acordo os antecedentes criminais da vítima. O crime teria sido mais um se a vítima não fosse filho de uma família de um rico comerciante turco casado com uma brasileira e as suspeitas não recaíssem em um coronel do Exército, com uma enorme folha de serviço prestado em postos de fronteira na Amazônia. O móvel do crime, o motivo da vingança se confirmada, teria sido um crime de estupro e morte da filha de coronel José Maria Figueiredo, perpetrado pelo então adolescente Fadul. Faz-se jus registrar que o rapaz ficou dos 15 aos 18 anos de idade preso numa instituição pública de menores infratores. Contava-se ainda que o jovem Fadul saiu da instituição prisional mais atirado e mais danado, um dom Juan sem escrúpulos que assediava tanto moças solteiras como mulheres casadas com a mesma desenvoltura e cinismo. Enquanto isso, o inferno desabara na cabeça do coronel José Maria, seis meses depois do crime de sua filha, sua esposa morre num acidente de carro e os seus outros três filhos, dois homens e uma mulher, tiveram de deixá-lo. Os homens também eram jovens oficiais do Exército e foram transferidos para 8ª. e 12ª. Regiões Militares, a filha mulher foi morar e trabalhar na Alemanha com uma tia materna. Sozinho, colocado na reserva, o coronel José Maria, confiou os seus bens a um administrador e mudou-se para o Nordeste em 1965.

IV 

     O Suez Hotel ficava numa das transversais da Avenida Cinqüentenário em Itabuna. Hoje, já não se tem notícia de sua existência, é provável que o prédio seja outro, porém naquela época, era o principal hotel da cidade, nele se hospedavam o governador e o seu séqüito quando pernoitavam na cidade. No final de 1968, num dia qualquer do mês de dezembro, às 18:30 horas, chegou ao hotel um jovem com cara de mau e corpo de atleta, buscando hospedagem por três dias. Não trazia muita bagagem: uma valise modelo 007 e uma pequena mala. Feito os procedimentos normais, suíte escolhida, recebeu a chave da suíte 206 e um funcionário cuidou de pegar sua mala e levá-lo até à porta. Era rotina àquelas horas, Seu José descer de sua suíte que ficava no 1º. pavimento para prosear com o pessoal da portaria. Naquele dia, enquanto proseava com um dos funcionários, um sexto sentido o despertou para iminência de algum perigo com a chegada daquele desconhecido. Querendo sem querer, quando a conveniência surgiu, Seu José pediu ao funcionário, a ficha do estranho que ele acabara de preencher: -Filho, final de ano, a freqüência do nosso hotel melhora... – começou. -É Seu José, que Deus nos ajude que este Natal seja gordo com a chegada desses novos hóspedes. As roupas que o senhor me deu, estão guardadas, irei usá-las em Ano – o funcionário estava feliz. -Ah filho, enquanto viver, eu farei isso. Foi uma promessa que fiz quando era adolescente. O meu pai tinha muitos filhos e ficamos muitos natais sem roupa nova! – justificou sua solidariedade. -O senhor é o nosso Papai-Noel! – brincou. -Filho, uma coisa mexeu em mim... -Foi o quê? -Acho que conheço esse hóspede, não me lembro de onde, posso ler sua ficha? – o rapaz apressou em entregar-lhe. Seu José com cuidado, leu a ficha, lá estava: “Fadul Kalid, filho de... RG nº... nascido em... residente à rua... Higienópolis, São Paulo-SP”. Naturalmente, devolveu a ficha ao rapaz: -Conhece-o? – perguntou-lhe o funcionário. -Não! – fez que ia sair e voltou: -Filho, hoje eu vou descansar essa carcaça mais cedo. Seria possível você arranjar-me três travesseiros? - solicitou. -Seu José, o seu pedido é uma ordem!...



     Àquela hora da noite, o Suez Hotel estava mergulhado no sono, todos dormiam, o pessoal da portaria cochilava... Fadul desceu a escada na ponta dos pés com um “Taurus” 38 acoplado de um silenciador com destino à suíte 108. Uma luz lusco-fosca iluminava o 1º pavimento contribuindo para qualquer ação malfazeja. Fadul abriu com calma a porta da suíte 108, fechando-a atrás de si, pisando em ovos, adentrou no quarto, disparando quase todo o revólver na cama, com um recado: -Coronel José Maria, Fadul lhe espera no inferno! – num relance percebeu que caíra numa armadilha, tinha disparado quase todos os tiros num corpo de travesseiros e a esmo disparou o último tiro em direção à voz que lhe respondia: -Filho, o inferno é o seu lugar e daquela peste que se chamava Fadul Kalid!... Com maestria, Seu José, ou melhor, o coronel José Maria Figueiredo, empunhando uma arma saiu de detrás duma parede, atirando no pistoleiro da família Kalid, no peito e na cabeça.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Gênero: Conto



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O medo de ter medo - R. Santana


O medo de ter medo
R. Santana

     O medo é um sentimento comum em todos os animais. Pode ser um sentimento real ou imaginário. Se alguém chega no parapeito de um edifício de dez andares e olha para baixo, claro que ele vai ficar com medo de despencar lá de cima, é um medo racional. Mas se alguém tem medo de dormir sozinho em sua casa, é um medo imaginário e injustificável. Nos animais irracionais o medo é instintivo. O medo existe na iminência do seu predador: o instinto de sobrevivência se sobrepuja.
     Quem não sente um arrepio com os filmes do mestre do suspense, o cineasta Alfred Hitchcock? Nos filmes de Jack, o estripador, as cenas em que Jack persegue suas vítimas, em ruas escuras e ermas, com um fundo musical estridente, deixa qualquer um com o coração acelerado e o corpo trêmulo de medo por mais macho...
     Conta-se que num lugarejo do sertão baiano, havia um indivíduo conhecido pela alcunha de Zé Nick que vivia assombrando os seus conterrâneos com os seus atos de bravura, destemor e valentia. Era o primeiro a apresentar-se em uma situação de perigo. Qualquer situação estranha na pequena comunidade, lá estava o temerário jactando-se de bravatas e impropérios. Mas diz o ditado que todo rei tem o seu dia de plebeu, esse valentão teve o seu dia fatal de covarde.
     Nessa comunidade havia um casarão mal-assombrado, pertencente aos herdeiros dum famigerado coronel, conhecido pelo dinheiro, autoritarismo e um rosário de maldades. Nesse casarão ninguém dormia, pouco e pouco, foi se transformando em depósito de traças velhas. Ninguém se atrevia ir lá, sozinho à noite, pegar uma ferramenta ou outro objeto por maior que fosse a necessidade. Eram inúmeros os causos de assombração. Uns contavam que ao passar ali tinham visto o coronel sentado no alpendre em seus trajes característicos: outros, mais imaginativos contavam que o coronel estava acompanhado da sinhazinha e suas duas mucamas, proseando e rindo.
     Numa roda de amigos, na pracinha, tão comum nessas cidadezinhas do interior, esse audacioso indivíduo foi provocado para passar uma noite naquela casa mal-assombrada. Um dos homens, falou em nome dos demais:
     - Zé Nick, aposto uma novilha minha em um bezerro seu, que você não dorme uma noite naquela casa mal assombrada do coronel!
     - É um desafio?... Você sabe que não levo desaforo pra casa. Ainda vai nascer o homem para me chamar de covarde!... Se você não fosse meu amigo iria quebrar seus dentes!
     -Calma Zé!... Não fiz por mal, sei que você não é homem de medo, é que alma penada ninguém quer meia. Sei que você é capaz de pegar touro de unha, mas gente doutro mundo, eu corro às léguas. Você topa a aposta?
     - Topo sim! Diga o dia que irei dormir lá. Eu mesmo irei escolher o bezerro de sua manada!      – Negócio fechado, hora e o dia escolhidos, Zé Nick se despediu dos amigos e foi embora. Todos acharam uma empreitada fácil, Zé Nick iria tirar de letra. Todos reconheciam sua bravura, sua intrepidez, sua imprudência e ousadia. Ninguém teve coragem de tomar partido contra Zé Nick, com exceção do desafiante.
     Sexta-feira 13, às 18:00, dia chuvoso, céu relampejando, trovoada ouvida à distância, compareceu Zé Nick no local combinado. O desafiante já se encontrava lá pajeado por amigos. Alguém do grupo sugeriu que se deixasse para outro dia pelas circunstâncias do mau tempo, mas, a ideia não prosperou. Zé Nick e os demais concordaram que as intempéries do tempo formavam um cenário lúgubre perfeito, valorizando mais e mais o desafio.
     Zé Nick foi para o interior da casa. Improvisou sua cama numa grande sala. Vistoriou os cômodos que estavam entulhados de moveis velhos, ferramentas da fazenda, caçuás, selas antigas, cangalhas, espingardas enferrujadas e trabucos. Velharias indescritíveis pelo tempo e pela quantidade, além disso, teias de aranha por toda parte formando cortinas de designes incomparáveis...
     Meia noite!... Um tufão entra não se sabe por onde e apaga o candeeiro. Algumas portas internas (as externas estavam fechadas por acordo comum dos contratantes), começam bater de modo sincronizado nas duelas. Zé Nick empunha seu revólver inutilmente. Percorre salas e corredores, em vão!... Nada encontra, porém, as pantomimas continuam a perturbar a autossuficiência do valentão. Ele começa se arrepender do trato e pensa: “brigar com quem?” Sua mulher o tinha advertido:
     - homem, essas almas penadas estão aqui por desígnio do Senhor. Elas estão em processo de expiação, ore por elas, não as provoquem!
     - Não me perturbe mulher, isso é superstição, eu nunca vi nenhuma alma. Se lá encontrar alguma, ela terá de me dar explicações do que faz aqui... garanto-lhe: ela não voltará mais ao convívio dos vivos...
     À medida que o tempo passava e os movimentos estranhos tomavam corpo, os sons e os ruídos aumentavam na cabeça de Zé Nick. Já não obedecia aos princípios da razão, tudo estava confuso... O suor já lhe gotejava os dedos. Sentia que alguém o agarrava... gaguejou socorro: - socor... cor...ro!!! Não ouviu nem viu mais nada...
     Pela manhã a curiosidade do pequeno lugar era total. Todos acreditavam que Zé Nick tinha tido a noite de um príncipe consorte (que além de ter a rainha nos braços, não se aborrece com as coisas do seu reino) e estava feliz em seu aposento emprestado por uma noite. Porém, para espanto geral, encontraram-no morto, com o revólver preso na mão de dedos crispados... O desafortunado valentão estava preso numa das pilastras enganchado num prego curvado agarrado ao paletó. A cabeça pendia-lhe ao pescoço com os olhos esbugalhados e a boca aberta. Algumas testemunhas desse obscuro desfecho, diriam depois que o cenário tinha tudo de mórbido, hilariante, trágico, dramático...
     Passado o susto e o luto de parentes e aderentes, todos concluíram que o intrépido Zé Nick, não tinha visto uma viva alma, mas, peripécias de ratos, baratas e outros animais daquele estranho zoológico do tempo e da fértil imaginação e superstição atávica daquela gente simples.
     Zé Nick quis provar que não tinha medo e morreu tendo medo de ter medo.
     Alguém já disse, bem se não disse, eu estou dizendo agora: o homem que não é supersticioso não tem alma!...

Att.: 
     Um aluno saiu de uma prova difícil e ao passar pelo cemitério da cidade, encontrou na lápide de uma sepultura o seguinte epitáfio: “Jaz aqui um homem que nunca teve medo”. O aluno espirituoso completou: “porque nunca fez uma prova”.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Imagem: Google

(*) Os herdeiros políticos – uma nova classe. R. Santana

 

(*)  Os herdeiros políticos – uma nova classe.
R. Santana

     Augusto Comte sistematizou os estudos sociológicos, dando origem a uma nova disciplina, a Sociologia. Os filósofos gregos, palidamente, esboçaram-na. Platão e Aristóteles dividiam as classes sociais a grosso modo em: classe política, classe dos cidadãos livres e os escravos. Na Idade Média, as classes sociais eram divididas em: a realeza, o clero, os militares, a burguesia e a plebe. No século XX, com a divisão de dois mundos, capitalista e comunista, as classes sociais passaram a ter nomenclatura mais didática: classe alta, classe média e classe inferior. É comum nos livros de Sociologia, o desenho duma pirâmide em que na base está a classe pobre, no meio da pirâmide a classe média e no topo, a classe rica. Esta foi a divisão padrão das nações capitalistas e democráticas. As nações do bloco comunista que pregavam a igualdade social (teoricamente), só existia o governo representando o estado e os proletários, representando o povo, além duma pesada hierarquia burocrática partidária.
     Max Weber definiu a classe social como um conjunto de pessoas com as mesmas condições e igual situação. Há quem diferencie a classe social da estratificação social, esta seria, “a estática da hierarquia” e a primeira, representando “a dinâmica do conflito”.
     Deixando de lado os critérios nada científicos dessa divisão de classe social e os conceitos científicos de Comte e Durkheim, diríamos que, hoje, temos, somente, a ”classe política”, a “classe do poder econômico” e a “classe dos eleitores e não-eleitores”. É evidente, que, o leitor desta matéria, não irá considerar essas digressões teóricas e essas ideias estapafúrdias. Estamos apenas, tecendo esses comentários iniciais para levantar o tema central deste texto: os herdeiros da política, uma nova classe que aos poucos, vem ocupando considerável espaço.
     Na semana anterior, solicitamos aos leitores da Internet, que é necessário que o nosso voto seja consciente. Hoje, queremos chamar a atenção para o espúrio processo político familiar que vem sendo explorado por alguns políticos de fazer seus parentes mais próximos seus herdeiros políticos. Faz-nos lembrar do período das Capitanias Hereditárias. Os donatários passavam para os filhos e outros descendentes, todas as terras doadas pelo rei D. João III, inclusive, os poderes jurídicos e administrativos que exerciam em nome dele.
    É comum, filhos, netos, sobrinhos, primos, esposas, empunharem a bandeira do parente político, principalmente, daqueles que estão no exercício do poder. É claro que como cidadão, qualificado eleitoralmente para o exercício do cargo público que postula, não existe impedimento legal, entretanto, deveria ser proibido, notadamente, para aqueles em que os parentes estão no exercício de um cargo executivo - prefeito, governador ou presidente.
   Além da imoralidade, do uso da máquina pública na campanha (não existe legislação que não se dê um jeitinho...), muitos herdeiros políticos são despreparados intelectualmente, alguns tem uma vida pregressa abominável. Outros, nunca prestaram serviço à comunidade e não se identificam com o povo para conhecer os seus anseios. Desejam tão somente, continuar gozando das benesses, da sinecura que o poder lhes dar. Existem candidatos desabridos que usam o nome e o sobrenome da família e se preocupam até em sair bem na foto com o seu protetor...
     No nosso estado e em particular, em nossa região, se proliferam esses exemplos. Pessoas por pura presunção se lançam candidatos e o mais lamentável, são eleitos pela ignorância política de alguns e a necessidade da maioria. Mesmo com os limites da legislação política, o tráfico de influência, os favores públicos, as promessas de emprego e o uso da máquina pública são fartamente distribuídos e manipulados.
     Não se pode também, tomar o nosso artigo como regra geral, verdade última, há pessoas com vocação e competência políticas, independentemente, do seu vínculo ascendente. É preciso, portanto, que saibamos distinguir as verdadeiras vocações e competências, daqueles que só querem se locupletar do dinheiro público e das falcatruas articuladas em gabinetes.
     Há um dito popular que “se conselho fosse bom não se dava, vendia”, pode ser um daqueles adágios que se usa em muitas situações, mas sabido é aquele que aprende com experiência do outro. Por isto, é necessário que repitamos e saibamos dar o devido valor ao voto. Esses caras-de-pau só deixarão de subestimar a inteligência dos eleitores quando forem reprovados e alijados pelo voto nas urnas.
     O voto é a expressão máxima da vontade do povo. Se mandarmos esses oportunistas às favas, lhes demonstrar que adquirimos ao longo do tempo, senso crítico, discernindo o joio do trigo, eles deixarão de explorar a simplicidade do povo humilde e a boa fé dos incautos.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Imagem: Google

Sovinice - R. Santana

 

Sovinice
Sovinice
R. Santana


I

Na relação de consumo, existem as pessoas de bom senso, as perdulárias e as sovinas. As primeiras compram somente o necessário, sem ansiedade, equilibrando despesa e receita, são as mais felizes, as perdulária são estróinas, gastam o seu e o dos outros. Gastam por antecipação, o salário de um mês, elas gastam em um dia. São pessoas irresponsáveis, compulsivas, comprometem sua sobrevivência e de seus dependentes. Lá dentro da sua cabecinha deve haver genes codificados com um comando esbanjador. Essas pessoas aparentemente normais, são emocionalmente desajustadas e infelizes. Por último, as pessoas sovinas, as mais infelizes. Sacrificam literalmente suas vidas e daquelas pessoas que gravitam em torno delas.
Deja pertencia ao universo dos mesquinhos e dos somíticos. Era um pão-duro, um avarento. Seus conterrâneos achincalhavam-no, dizendo que Deja só abria a mão para receber a hóstia porque era de graça. Economizava tudo, menos palavra. Era falante, conversador, conselheiro e extrovertido. Sua política era da boa vizinhança, não cismava com ninguém. Se alguém queixava-se de um amigo comum, ele não dava razão nem tirava. Tinha no sangue a arte de agradar, de acender uma vela para Deus e outra para o diabo.
Eu era menino quando o conheci. Ele deveria ter na época uns quarenta anos. Porém, seu rosto vincado e queimado pelo sol, dava-lhe marcas de expressão de um homem mais velho. Gostava de usar botas meio cano, chapéu de abas largas, calças cáqui e camisa de mangas compridas de brim cáqui. Era um homem branco, alto, bem apessoado mas rústico devido a labuta do trabalho grosseiro.
Para a maioria pobre da cidade sergipana de Lagarto, Deja era considerado um homem rico. Possuía fazendas de gado, malhadas de fumo, olaria, casas residenciais e salões alugados na cidade. Distante uma légua de Lagarto, num lugarejo chamado Coqueiro, ele possuía um sítio que era misto de residência e quartel general dos seus negócios. Lá ele recebia vendedores e compradores de gado, vendia tijolos e vendia toneladas de fumo para exportação. Pagava aos seus empregados da cidade, aos trabalhadores das malhadas, aos peões do gado e os vaqueiros. Poder-se-ia dizer que lá, em sua residência-escritório, era também, o lugar das suas transações financeiras. Quando alguém lhe tomava um dinheiro emprestado, era ali que ele atendia. Por questão de segurança, simulava pegar o dinheiro no banco e o entregava um ou dois dias depois. Se uma pessoa já lhe devia e queria mais dinheiro emprestado, ele dizia:
- Meu filho (chamava todos de filho, mesmo se fosse mais velho), um velho não suporta um novo nas costas!. – Então, quando alguém o surrupiava com coisa à toa:
- Quem rouba um tostão, rouba um milhão! – Se uma pessoa queixava-se que trabalhava muito e nada adquiria, ele o consolava:
- Meu filho, a quem Deus prometeu vintém não dar dez réis. Quem nasceu para ser tatu, morre cavando! – Certa feita flagrou um dos seus empregados jogando fora umas esporas velhas:
- Meu filho, não jogue nada fora, tudo tem sua serventia. Se no momento algo não presta, guarde-o por seis meses. – Seu Deja e se daqui a seis meses não tiver utilidade? – Guarde-o por mais seis meses, irá ter serventia uma dia!... – Era uma sovinice racional.

II

A mulher e os filhos comiam o pão que o diabo amassou. Os filhos
estudavam em escola pública. Além de percorrerem uma distância de seis quilômetros todos os dias, a pé ou escanchados em um animal, nunca eram vistos com dinheiro fazendo festanças. Se levassem algum dinheiro, por certo, tinha sido dinheiro por serviço prestado ao pai. Se não tinham dinheiro para merenda, sua mãe enchia as mochilas de frutas do próprio pomar.
Guiomar Rodrigues, mulher de Deja, tratada por D. Guidinha, tinha sido escolhida desde infância pelos pais de ambos para desposá-la. Era uma tradição da terra, os pais escolhiam a esposa para os seus filhos em tenra idade. Além disso, Deja era primo carnal de sua mulher pelo lado de sua mãe.
D. Guidinha era uma morena afoita, temperada pelo clima íngreme do nordeste. Embora tenha tido estudo regular, concluindo o curso de magistério em Aracajú, adaptou-se fácil à lides da lavoura e da pecuária. Ordenhava como poucos as vacas de sua fazenda. Não era estróina mas não tinha se acostumado com a mesquinhez do marido, por isto, as brigas eram constantes e quando o assunto era filho, o conflito do casal excedia ao normal em palavras e impropérios.
- Seu Deja, as nossa filhas estão mocinhas, não.podem vestir-se como umas peregrinas!
-Elas têm que trabalhar. Nunca achei nada de mão-beijada. Quando chegava da escola, meu pai mandava ir almoçar e procurar o caminho da malhada num sol de 38 graus, se não fosse o chapelão que eu usava, morria estorricado!
-Seu unha–de-fome (quase gritando), não estou lhe pedindo nada!... Lembre-se que sou sua sócia pelo casamento. Afora isto, meu pai me deu como dote 300 cabeças de gado e dois alqueires de terra, patrimônio maior do que você tinha naquela época. Me dê o dinheiro, senão, vou vender o gado e se é homem vá lá empatar, seu miserável !... – A mulher virava uma fera, Deja tremia de raiva, mas na casa do sem jeito cônscio da fera mãe que tinha, acabava cedendo...


III

João de Juvêncio e Amália Santana, era um casal que tinha tido uma convivência feliz por alguns anos depois do casamento. Ele, primo de primeiro grau de Deja; ela, tinha sido a segunda mãe de D. Guidinha, tanto pelo batismo, como era comum a mãe de Guidinha deixá-la dias a fio com D. Amália. Não tendo filhos, João e Amália tinham loucura pela afilhada.Depois que ela casou-se, pela distância e rotina do casal, as relações do dia-a-dia de Guidinha e seus padrinhos foram esfriando-se, permanecendo o amor e a consideração.
João era um homem trabalhador. Tinha construído um patrimônio razoável. Como não tinha filhos nem irmãos, depois dos 50 anos, ele e a mulher, começaram dilapidar seu patrimônio por força do vício da cachaça e por ele ficar entregue ao cuidados de pessoas inescrupulosas e desonestas. Se Deja e a mulher não intercedessem, ficariam às esmolas, Guidinha despertou o marido.
- Deja padrinho precisa de socorro. Já vendeu o gado quase todo, não trabalha mais.A fazenda está entregue ao léu da sorte. Ele e madrinha passam o dia bebendo. Bodegueiro manda-lhes de 2 ou 3 litros de cachaça por dia. Estão esbanjando os seus recursos, além disso estão sendo usurpados e vilipendiados em seu patrimônio. Se não tomarmos providências, irão se acabar na miséria. – Deja que não deva prego sem estopa, foi-lhe fácil tomar as rédeas do negócio do primo e padrinho de sua mulher.
Deja e Guidinha, devagar foram colocando ordem na casa e na vida do casal alcoólatra. Para Amália e João, Guidinha era uma filha e a recíproca era verdadeira. Ela tinha um grande apreço pelos padrinhos, principalmente, por não ter mais os pais biológicos. Não de mala e cuia, mas com marido e filhos, ela mudou-se para casa deles.
Algum tempo depois, Guidinha tinha transformado a casa dos padrinhos em um lugar higiênico e aprazível de morar. Entendendo que era impossível suspender de vez a bebida dos padrinhos, passou racionar com carinho e disciplina a bebedeira de João e Amália. Deixou de comprar na bodega que os estavam espoliando e passou encomendar barris de 50 litros de cachaça por mês. E forçá-los na alimentação. Por outro lado, Deja soergueu a fazenda do primo e as coisas começaram tomar o ritmo de antes.
João e Amália no aconchego da afilhada e dos filhos dela, netos adquiridos, começaram tomar gosto na vida e diminuíram de maneira considerável o vício. Sua afilhada tinha reduzido em mais da metade o uso de bebida, meses depois.
Poucos anos depois, vítimas de seqüelas da bebida e da idade, morrem quase ao mesmo tempo, João Juvêncio e Amália, deixando para Guiomar Rodrigues, sua herdeira universal, todos os bens.


IV


D. Guidinha morreu 10 anos depois que os padrinhos se foram, contraiu um carcinoma no seio. No início da década de 80 do século passado, o tratamento dessa doença era incipiente ou quase nenhum, em conseqüência da doença, ela morre na flor da maturidade, em estado deplorável, na capital paulista, ladeada de filhos e netos. Seu marido recusou-se acompanhá-la à cidade de São Paulo, alegando falta de aptidão par transitar num grande centro urbano – as más línguas diziam que Deja estava preocupado com o tamanho da conta...


D. Guidinha morta a casa cai. Ela era o ponto de equilíbrio da família, ela que aparava todas as arestas e conflitos entre pai e filhos, deixou um enorme vazio. Deja à medida que envelhecia, tornava-se ranzinza e mais avarento. Com a morte da esposa, torna-se taciturno e intratável, um dos motivos é que teria de dividir por força de lei, a fortuna com os filhos. Filhos independentes, começam afastar-se cada vez mais dele.

As pessoas mais velhas e mesmo as mais novas, juravam de pés juntos que Deja era possuidor de muitos milhões de dinheiro. Nos últimos anos de vida, era um asceta desprovido de ascetismo. Comia pouco e vestia as roupas surradas pelo uso e pelo tempo. Enquanto isso, o seu saco da usura não tinha fundo, seus negócios não paravam de crescer, cada dia mais rico e mais ridículo.


V


Início de 1985, morre em seus aposentos, de infarto aos 67 anos de idade Benjamin Deja Santos Rodrigues, fora da família, na companhia de uma velha governante, duas ajudantes de cozinha e dois agregados que faziam quando necessário o papel de segurança.
Passado velório e sepultamento, filhos e netos começam vasculhar os ativos e passivos do pai e avô. Não encontraram dívida, Deja tinha aprendido desde cedo que a compra à vista lhe proporcionava maior capacidade de negócio e pechincha e como conseqüência, aferia grandes lucros.
A surpresa estaria por vir. Consultado os bancos, não havia saldo devedor, todavia, o crédito era ínfimo em relação ao volume de negócios de Deja. Os filhos e os netos não entendiam como seu pai e avô, movimentava um grande latifúndio e um comércio de aluguéis na capital e no interior, uma olaria, comércio de fumo, compra e venda de gado etc, etc... com aquele pingo de dinheiro.

O filho mais velho de Deja, que tinha-lhe herdado o nome e a mesquinhez só que de forma mais burilada, começou suspeitar que seu pai tinha usado algum artifício para esconder o dinheiro ou o tinha emprestado a juros que era uma de suas práticas. Mas dentre os papéis encontrados, a quantidade de notas promissórias e os valores não eram significativos Por isto, procurou sua madrinha, a única pessoa depois de sua mãe que seu pai confiava cegamente e com a morte dela, essa relação se tornou mais recorrente. Tudo que Deja fazia ou ia fazer, madrinha Josefa (como todos chamavam-na), sua governanta e amiga há 40 anos, era a primeira a tomar conhecimento e opinar.

- Madrinha, meu pai deixou algum dinheiro? – Sim, meu filho, mas ele me fez uma recomendação... – Qual foi? – perguntou Dejinha – Que se fizesse uma reunião com todos para entregar o dinheiro!... – Madrinha, já deveria ter nos falado! - Meu filho, deixe seu pai esfriar na cova, que pressa é essa? – Não é pressa, é que temos de tocar os negócios e é necessário dinheiro. – Então, todos aqui amanhã – convocou a negra.

O quarto era enorme. Um misto de quarto e escritório. Em frente à porta ficava um guarda-roupa de jacarandá de 6 portas, do lado esquerdo, uma prateleira de livros e objetos pessoais, do lado direito, outro guarda-roupa menor e completava o espaço, um escrivaninha de 5 gavetas, nela, Deja usava sua máquina “Remington”antiga de datilografar, em um dos cantos, um porta-chapéu repleto deles, noutro lado, a porta da suíte. A cama ficava no meio do quarto, em cima de um tapete persa retangular azul. Todas essas peças, tinham sido estrategicamente colocadas com a finalidade de deixar o ambiente aconchegante e transitável. Nele se enxergava a mão feminina de D. Guidinha.

A cama merece um parágrafo especial. Feita e trabalhada no jacarandá. Armada, um homem era incapaz de deslocá-la de um lugar pra outro face o seu peso. Os pés grossos e torneados, recebiam as duas cabeceiras e as peças laterais. Não era muito alta, porém, uma pessoa de baixa estatura, sentado, não arrastaria os pés no chão. Na cabeceira mais alta, ficavam duas gavetas espaçosas que serviam para colocar um livro e um abajur em cima das tampas. Além disso, na cabeceira mais alta, ela estampava um lindo desenho talhado em que um moço oferecia uma flor a uma linda jovem. A cama era uma obra de arte...
Os herdeiros estavam apreensivos dentro do quarto. Madrinha Josefa pede aos mais moços que tirem da cama um pesado colchão ortopédico e puxa uma trava disfarçada, de madeira, liberando o lastro da cama em forma de tampa, pondo à vista milhões de cruzeiros em maços de dez mil cada.

Nossa, quanto dinheiro!!! – gritaram todos.

Hoje, na cidade de Lagarto interior de Sergipe no mausoléu da família Deja, ler-se uma lápide:

“Jaz aqui um homem que tinha como divisa o dinheiro e sobre ele pereceu”

Deja

1918/1985

Autor: Rilvan Batista de Santana












O povo tem o governo que merece? - R. Santana

 

O povo tem o governo que merece
O povo tem o governo que merece?
R. Santana


O povo tem os seus adágios que ao longo do tempo tornam-se preceitos e verdades incontestáveis. O título acima, que irá dar nome a este artigo, é um exemplo. Será que cada povo tem o governo que merece? É uma resposta subjetiva, cada pessoa enxerga de acordo com sua experiência de vida. Particularmente, achamos que cada governo é a sublimação da vontade do povo, ele representa os anseios e os ideais da maioria. Se o governo eleito, é corrupto, é porque a maioria que o elegeu é corrupta, ou acha que a corrupção é uma prática histórica aceitável e incorrigível. É comum se usar o slogan: “rouba. mas faz!”, que para alguns, é melhor roubar e fazer do que não roubar e nada fazer. Lembram-se da famigerada “Lei Gerson”? Parece que a nossa história de miscigenação contribuiu para formação duma índole culturalmente não muito ética.
O atual horário político traz a triste realidade da falta de compromisso do brasileiro com a atividade política quando numa enquête de quem votou em deputado estadual ou federal na última eleição, as pessoas não se lembram, então, quando respondem: “não me envolvo em política”, “não tenho nada com isso”, “o meu voto não faz diferença”, “um voto só não faz a mínima importância”, numa manifesta ojeriza.
Entendemos que a classe política é necessária. Não podemos prescindir do político (algumas pessoas ainda não se deram conta que é melhor um governo democrático, cheio de mazelas e defeitos, mas com sua liberdade individual preservada do que uma ditadura por mais incorruptível que seja), entretanto, temos que fazer da democracia um exercício de permanente cobrança. Se não indicamos pessoas com história de vida ilibada para nos representar nos legislativos e nos executivos, não teremos condições de exigir atitudes éticas dos políticos se não usamos critérios para elegê-los.
As pessoas não reconhecem que as políticas públicas e as ações de governo neste país estão cada vez mais ineficientes e os programas
assistenciais (esmolas públicas) sem conteúdo educacional, sem cobrança, têm contribuído apenas para formação de uma parcela de parias sociais, sem força produtiva, às expensas do estado e da sociedade.
Recebi na semana passada, do agrônomo José Celso de Santana, cópia de uma carta recebida pelo jornalista Alexandre Garcia, de um amigo americano, que começa provocando-o: “Quem é mais rico, o Brasil ou os EUA?”, claro que a resposta à primeira vista, os Estado Unidos da América ganham em disparada, todavia, quando ele começa tecer comentários do que representa viver aqui ou lá, damos conta de quantos somos espoliados pelo governo, consequentemente, pelo estado brasileiro. Vejamos: “25% da água doce da reserva do mundo é nossa, no entanto, pagamos pelo consumo, o dobro do americano; 95% da energia que consumimos, é gerada por hidroelétricas, entretanto, pagamos uma energia 60% mais cara. Embora sejamos autossuficientes em petróleo, álcool (as usinas de biodiesel já estão em pleno processo de produção e é nossa a tecnologia), pagamos o combustível mais caro do mundo. Enquanto nos EUA, na compra de um carro, o americano paga 6% de impostos do valor agregado, no Brasil, só de ICMS, nós pagamos 18%, com serviços públicos de péssima qualidade. Além do ICMS, aqui temos dezenas de impostos, alguns, com efeito cascata, a exemplo do CPMF e o governo ainda nos penaliza com um imposto de renda antecipado, retido na fonte. Pagamos imposto de renda acima de R$ 1.200, 00 (um mil e duzentos reais), o estadunidense só paga imposto de renda acima de US$ 3.000,00 (três mil dólares) por mês e, no final de exercício fiscal”. Assim, a carta vai discorrendo sobre o que os EUA exigem dos seus cidadãos e a contrapartida dos serviços públicos de qualidade, enquanto os nossos serviços públicos se nivelam aos dos países mais subdesenvolvidos do mundo.
Por isso, achamos que é o leitor desse artigo que irá dar a resposta se cada povo tem o governo que merece de acordo sua visão de mundo, sua consciência política e seus interesses particulares. .
Que exerçamos diuturnamente a nossa cidadania, cobrando dos nossos deputados, dos nossos vereadores, do nosso prefeito, do nosso governador e do presidente. E, que cobremos também dos prestadores de serviço e daquelas empresas que nos vendem gato por lebre, de péssima qualidade, às vezes, com defeitos de fabricação.
Enfim, é impossível, hoje, fazer o papel da avestruz, do alienado, do indiferente, do egoísta, daqueles que pensam que é possível ter Deus pra si e o diabo para os outros! Entretanto, se a maioria dá IBOPE aos corruptos, aos sanguessugas e aos valeriodutos, então, vamos respeitar o povo, pois “cada povo tem o governo que merece...”


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Artigo

VASSOURA DE BRUXA - R. Santana

 

VASSOURA DE BRUXA
VASSOURA DE BRUXA
R. Santana

Não tenho um pé de cacau, entretanto, não deixei de ficar indignado com a manchete do jornal AGORA, edição de 22 a 24 julho do ano em curso, que diz: “Dia de Luto do Cacau”. Ali o jornal discorre sobre o encontro de lideranças políticas e produtores de cacau no viaduto Paulo Souto, entroncamento da BR – 101 com a BR – 415, onde se concentraram mais de 10.000 pessoas (segundo avaliação da polícia), cobrando do Ministério Público e da Polícia Federal, investigação e punição dos envolvidos, se constatado o crime de terrorismo biológico, denunciado pela revista Veja, em que o Sr. Luiz Timóteo, réu confesso, num descargo de consciência afirma que um grupo de funcionários de ideologia petista “xiita” da CEPLAC, dolosamente disseminaram o fungo da vassoura-de-bruxa em nossa região com a intenção de destruir a centenária lavoura do cacau, provocando assim um caos em nossa economia regional cacaueira, geradora de milhares de empregos e riquezas do Sul da Bahia, afora ser o cacau uma potencial e promissora lavoura na região amazônica.
Dentre todos os pronunciamentos feitos pelas autoridades presentes, o mais comedido e objetivo foi sem dúvida o do prefeito Fernando Gomes, que num gesto de grandeza, isentou de culpa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (naquela época distante do centro do poder), porém, cobrou da CEPLAC como órgão do governo federal, a apuração dos fatos e a punição de alguns dos seus servidores. Salientado ainda, que a CEPLAC é imprescindível para região como órgão fomentador de pesquisa, extensão e ensino. Não seria producente, também, para os produtores e o povo da região, uma campanha difamatória daquele órgão federal e uma política indiscriminada de caça às bruxas, que prejudicaria e estigmatizaria injustamente a maioria laboriosa dos funcionários ceplaqueanos, comprometidos com a informação e a implementação permanente de técnicas genéticas e de cultivo que melhorem a qualidade e a produtividade dessa lavoura.
Há pessoas que comparam esses grupos políticos tupiniquins de ideologia radical aos hezbollah, aos xiitas, aos terroristas de Osama bin Laden e tantas outras facções extremadas do Oriente Médio. Acho uma comparação historicamente exagerada e pretensiosa. Os nossos ideólogos “xiitas” não possuem embasamento teórico, não têm causa política e religiosa, não possuem caráter beligerante, alguns deles apenas possuem um pálido projeto de poder a exemplo daquele engendrado e formatado pela antiga cúpula palaciana do PT, com o concurso do valérioduto e deputados corruptos. Acho que eles não passam de oportunistas políticos que a história tem demonstrado que quando assumem o poder se locupletam de todas as benesses e vantagens que o poder lhes oferece. Suas brilhantes teorias de vida solidária, panacéia de todos os problemas do povo, não passam de um exercício intelectual para atingir os seus interesses escusos.
Deixando de lado essas conjecturas ideológicas e políticas, gostaria de perguntar se esses malfeitores do cacau não sentem crise de remorso? (um egrégio intelectual itabunense disse que “ideologia não tem lugar para remorso”, concordo, mas o sujeito como agente da ação, tem remorso, tem medo, tem discernimento, salvo, se ele for portador de alguma patologia mental), eles não têm consciência que foram os responsáveis pela miséria e o ostracismo de muitos pais da família? Deles terem forçado a migração dessa gente sofrida para as periferias das cidades numa vida de promiscuidade e miséria, alguns desses trabalhadores, hoje, fazem da rua o seu habitat permanente? Que a região cacaueira empobreceu como um todo? Deles terem semeado o ódio e o rancor? Deles terem tirado a esperança e o desejo de viver de muitos dos nossos irmãos nordestinos? Todas essas perguntas ficarão sem respostas porque a maldade é sorrateira, não tem face, como uma erva daninha se alastra com tal velocidade que nem sua constante incineração e o uso dos mais nocivos herbicidas conseguem eliminá-los para sempre.
Se este fato novo for verídico, o Ministério da Fazenda, da Agricultura, do Planejamento e os bancos oficiais terão que reavaliar os financiamentos e os refinanciamentos do cacau. Muitos desses produtores tornaram-se confessos inadimplentes, sem condições de honrar seus compromissos, alguns por incapacidade gerencial, outros, por conta do caos de informações técnicas depois que grassou pela lavoura do cacau a vassoura-de-bruxa. Fazendas que produziam milhares de arroubas de cacau, foram convertidas em pastagens, em hotel-fazenda, pesque-pague ou lavouras de menor expressão comercial.
Enfim, quero lhe convidar, não para fazermos uma campanha de caça às bruxas, acusar pessoas sem provas, mas, para formarmos uma corrente (passando este e-mail para outras pessoas), cobrando da Polícia Federal, do Ministério Público, da CEPLAC, uma resposta do que realmente ocorreu. Se esses fatos têm origem eleitoreira, circunstanciais, oportunistas, devem sofrer o mesmo repúdio da sociedade pela sua abjeção, todavia, se realmente fomos vítimas dessas cabeças doentias, que a sociedade responda e expurgue esses criminosos do seu seio, colocando-os nas mãos da justiça, que é o lugar próprio para aqueles que produzem crime contra o povo. Parodiando o grande Euclides da Cunha, diria: não existe na sociedade contemporânea um Maudsley para punir os crimes e as loucuras da humanidade...


Autor: Rilvan Batista de Santana

*Este artigo foi escrito faz algum tempo. Serve como fonte de pesquisa, pois muita gente afirma que a vassoura de bruxa foi trazida pelo pessoal interessado em provocar uma crise econômica no Sul da Bahia, com uma doença endêmica na lavoura do cacau.

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