11.11.2025

O símbolo - R. Santana

 

O símbolo
O símbolo
R. Santana

Há algum tempo que pensamos escrever sobre o valor do símbolo, o seu significado, a diferença sutil entre símbolo, sinal e signo. Não obstante ser uma tarefa difícil, abstrata, evocativa, mágica e mística, o símbolo despertou-nos interesse em relação aos demais pelo seu uso religioso, em particular, a Igreja Católica.
O sinal e o signo têm o seu significado em si, na sua representação, mas necessariamente, são desprovidos de ideias abstratas e metafísicas. Os sinais de trânsitos, as faixas do Zodíaco e os signos linguísticos são exemplos emblemáticos. Um motorista responsável condicionou-se parar o seu carro no semáforo vermelho ou seguir a viagem normalmente quando o semáforo é verde quase de maneira involuntária. Todavia, essas ações encerram em si, não existem elucubrações por detrás.
O símbolo é diferente. O símbolo não encerra em si, qualquer que seja o símbolo, ele é embasado por um feixe de ideias, conjeturas e representações. Os símbolos religiosos são os mais ricos nesses aspectos. A mãe de Jesus Cristo, Nossa Senhora, é de uma riqueza simbólica singular, ela é evocada em diferentes situações e títulos.
Os símbolos históricos também são eivados de significados, Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, Herói Nacional, Patrono Cívico do Brasil, ilustra com clareza o nosso pensamento. Ele representou naquela época, as aspirações de independência política de um povo subjugado e explorado em suas riquezas naturais e socialmente sofrido, hoje, ele é o símbolo maior de liberdade e autodeterminação da nação brasileira.
Martinho Lutero não promoveu a Reforma, somente, por causa da simbologia que impregnava a Igreja Católica do seu tempo, mas pela corrupção e os privilégios que imperavam no seio da igreja, pela venda escandalosa das indulgências, pela autoridade infalível do Papa, pelo excesso de seus dignitários, pela abolição dos interditos, pelas riquezas fabulosas da Igreja Católica em detrimento dos desajustes sociais daquela época, afora, a natureza revolucionária e questionadora do monge alemão, calcada em seu imenso cabedal cultural e inteligência ímpar.
Hoje, as igrejas evangélicas, com algumas distorções, continuam fiéis ao monge alemão, porém, incorporaram em suas liturgias, símbolos menos significativos, menos representativos, a exemplo de óleos, algodões, palmas, água, fogo, etc.
O nosso objetivo não é tecer comentário desairoso ou fazer a defesa de qualquer princípio religioso, político ou científico, entretanto, faz-se necessário dizer que o símbolo sustenta o homem e o aproxima do transcendental. O homem por natureza é limitado, jamais ele chegaria a Deus sem o uso da simbologia, é o símbolo que materializa a sua fé.
Os homens primitivos usavam os fenômenos da natureza como manifestações de suas divindades. Não obstante o progresso científico e tecnológico atuais, o homem ainda continua se apegando às intercessões dos santos, à simbologia, para que Deus mande chuva, sol, evite as catástrofes naturais, os males que afligem o homem e não doutra forma, senão, com o uso do símbolo.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Gênero: Ensaio

Maria Clara - R. Santana

 


     Maria Clara

     R. Santana


     - Maria Clara!
     - Sim, mãezinha!
     - Onde está?
     - Estou brincando de boneca!
     - Perguntei-lhe onde?
     - No meu quarto!
     - Sozinha? Chame sua prima Karina!
     - Não estou sozinha!
     - Karina está aí?
     - Não!
     - Quem está aí? – Maria Clara não responde, sua mãe repete:
     - Quem está aí?
     - Mãezinha... mãezinha... estou brincando... – Helena impacienta-se:
     - Filha, quem está aí!?
     - Totó! – mentiu.
     - Totó está aqui, mentindo pra mãezinha!?
     - É que... é que... é que... você não gosta de Carol... – choramingando.
     - Oh filha, não chore!
     - Mãezinha, eu posso brincar com Carol?
     - Filhinha, Carol não existe...
     - Carol é minha amiga, mãezinha! – para não lhe contrariar:
     - Tudo bem, meu amor!
     Helena é vencida pela insistência da menina. Maria Clara tem 4 aninhos e seus pais estavam assustados com essa história de Carol, é que, ultimamente, a menina brincava boa parte do tempo com essa garota imaginária, que somente ela conhecia, muitas vezes, foi flagrada arrumando as bonecas e conversando com essa “garota”. Só queria brincar com Carol, exceto, na escola. Descrevia-a, a seu modo, como se ela fosse do seu tamanho, de sua cor e idade.
     Seus pais esgotaram todos os recursos médicos, ela passou por psicólogos e psiquiatras, nenhum diagnóstico de insanidade, nenhuma anormalidade, nenhum transtorno mental, concluíram que tudo não passava de fantasia, mente fértil, filha única, uma maneira dela sublimar e racionalizar a ausência de um irmãozinho, de uma irmãzinha, mas com o tempo esse universo imaginário seria substituído pela realidade.
     Os pais de Maria Clara não saíam da igreja cristã, jamais iriam atribuir nenhuma manifestação espiritual, portanto, Carol não passava de capricho da filha, uma maneira da menina lhes chamar a atenção.
     Noite de Natal, Helena e o esposo como bons cristãos, arrumaram a casa com gambiarras coloridas e árvore de Natal iluminada. A ceia de Natal foi feita com esmero. Naquela noite o padre paroquiano prometeu romper a tradição e liberar os fieis mais cedo. Justificava a violência das ruas e o perigo das famílias chegarem tarde a suas casas.
     Helena serviu a ceia mais cedo. As crianças e os adolescentes brincavam no jardim da casa, os homens discutiam os últimos acontecimentos políticos. As mulheres falavam de seus pimpolhos. Tudo era clima de festa, quando houve um blackout decorrente da sobrecarga de energia e uma língua de fogo irrompeu num dos pontos de telhado que tomou forma e começou se alastrar...
     Grande foi o tumulto. Muitos convidados tropeçavam sobre os móveis, ninguém ficou dentro de casa, os bombeiros foram acionados e chegaram de imediato, tudo parecia sob controle quando Helena deu por falta de Maria Clara e abriu o berreiro de socorro. O fogo estava praticamente debelado quando um dos bombeiros adentrou na casa ouvindo o clamor de Helena.
     Se não fosse a situação estranha que o bombeiro encontrou, o socorro de Maria Clara teria sido rotina: a pequerrucha brincava de boneca, o quarto iluminado por uma luz misteriosa, falava com alguém que lhe correspondia, no fundo uma árvore de Natal iluminava mais ainda o ambiente. O bombeiro ficou confuso, absorto, sem nada entender, seguiu seu instinto, colocou a menina no colo, instante depois a deixava nos braços da mãe:
     - Senhora há mais alguém na casa?
     - Não! Por quê?
     - Nada...



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna-ALITA

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Marcas na alma - R. Santana

 

Marcas na alma R. Santana

Marcas na alma
R. Santana

     Não sou bom em datas, mas acho que foi no ano de 1978, nós saímos daqui para Ubaitaba com objetivo de ajudarmos implantar sua associação de professores, Itabuna já tinha sua Associação de Professores de Itabuna – API, uma estrutura sócio-política significativa um pouco menos do que Associação dos Professores Licenciados da Bahia - APLB. Além de mim, mais quatro professores: Ceres Marylise, Miralva Moitinho, Isaías Pinheiro e “Tavinho”. Fomos a Ubaitaba espremidos num Volkswagen, naquela época, o Volkswagen era o luxo do luxo.
     Miralva e Isaías eram mais afeitos à política de classe, ativistas, os demais lhes davam apoio moral e logístico – Ceres, filha de lá, conhecia professores, diretores de escola, secretário de educação e prefeito, além dos parentes-, “Tavinho”, o motorista. Coube-me pagar a despesa de combustível do carango ida e volta. A missão foi gratificada pelo acolhimento de trabalhadores da educação de Ubaitaba e Aurelino Leal. Soubemos depois, que a semente política de classe jogada às margens do rio de Contas, cresceu e tomou forma, os movimentos paredistas tornaram-se organizados e oportunos, cresceu a consciência cidadã.
     Não conhecia Ceres nem Miralva, logo nos tornamos amigos, diferente de Pinheiro e “Tavinho” que já nos conhecíamos fazia tempo. O diminutivo “Tavinho” não passava de um epiteto zombeteiro, pois o nosso saudoso Otávio Carmo Júnior tinha uns 2 m de altura, suas pernas empurravam o banco do motorista para trás e o encosto não ficava vertical ao assento, mas numa inclinação bem acima de um ângulo de 90º. “Tavinho” por ter biotipo longilíneo aparentava ser bem mais alto do que era. Ele era inteligente, sensível, generoso e solidário.
     O tempo e os diferentes interesses se incumbiram de dispersar o grupo, os nossos encontros ficaram amiúdes, esporádicos, de caju em caju, porém, este mundo é pequeno, no ano de 2011, na fundação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, eu reencontro a minha amiga Ceres, não mais moça e impetuosa, mas uma senhora doce, tranquila, sossegada, mesmo com as marcas na alma dos atalhos e descaminhos da vida, inspirada no canto dos deuses poetas.
     Comparar pessoas não é tarefa fácil, nós somos semelhantes, mas não somos iguais, as produções literárias e as obras de arte refletem a personalidade e o pensamento do autor, por isto, nenhum autor é igual ao outro, pode receber influência de alguma escola, de um indivíduo, todavia, cada produção traz a assinatura digital de seu autor.
      Como bairrista gostaria de comparar a poetisa Ceres à poetisa Cora Coralina, porém, a goianiense, doceira de profissão, cantou a vida, a terra, os becos de Goiás, suas pedras, as mulheres da vida, portanto, não há semelhança na arte duma ou de outra. Então, com quem comparar? Com Rachel de Queiroz? A escritora de “O Quinze”, uma epopeia da seca nordestina é antes de tudo, uma romancista, uma cronista, seus poemas são derivações dos seus livros, portanto, não existe comparação.
     Então, com quem comparar Ceres? Cecília Meireles ou Clarice Lispector? Não se pode negar a importância de ambas na literatura brasileira, porém, não existe afinidade entre elas e Ceres. Cecilia quase inocente canta o amor de forma lírica: “livre, leve e solta”, enquanto Clarice é paixão, é uma erupção que brota, é realismo. A nossa poetisa do cacau canta os mistérios da vida, a pequenez do homem e a importância de cada dia:
     “Sagrado
     Olhando
     o largo horizonte
     nossas horas matutinas
     vejo o quanto são pequenos
     todos os seres da Terra
     ante a grande evidência
     e a grande harmonia
     no nascer de um novo dia”. (Ceres Marylise)
     Ceres não é a principiante que se desmancha no canto das emoções fúteis, meladas, paixões comuns, amores impossíveis, nem se fecha na análise de um mundo absurdo, irreal, mas se deixa levar pela harmonia do belo, da natureza. O seu livro “Atalhos e Descaminhos” é mais uma reflexão filosófica da alma, da vida, do mundo:      “Transitória”, “Entre o irreal e o absurdo”, “Marcas na alma”, “Sobre a felicidade”, etc. etc.
     Embora tenha consciência que a vida, às vezes se apresenta absurda (Albert Camus e Søren Kierkegaard), é necessário que se dê sentido pra vida, assim como negar Deus é afirmá-lo. Se Deus morreu, é preciso criá-Lo mais humano e que o amor seja universal.
     “Que minha vida não seja
     um canteiro de renúncias
     nem areia movediça
     onde os sonhos se
     afundam”. (Ceres Marylise)
***
     “O mundo inteiro
     é um grito de aflição
     será que Deus morreu,
     abandonou sua criação?”...

     “Precisamos cria-lo
     novamente
     sem clonagem
     e mais humano
     numa noite
     de amor universal.” (Ceres Marylise)

     O estilo enxuto da poetisa Ceres Marylise se assemelha ao estilo de sua conterrânea Valdelice Pinheiro na forma e no conteúdo. Não fizeram grandes produções, toda obra de Valdelice Pinheiro, por exemplo, recentemente coletada e organizada pelo poeta Cyro de Mattos, é de 84 páginas em “O Canto Contido” e a obra de Ceres Marylise, um pouco mais em “Atalhos e Descaminhos” aos 67 anos de idade (Cora Coralina publicou seu primeiro livro: “Poemas Becos de Goiás e Estórias Mais”, aos 76 anos de vida, contudo, teve a sorte de viver quase 100 anos e produzir muito mais e ser reconhecida por Drummond...). Porém, qualidade não é quantidade, ambas as poetisas escreveram pouco, mas seus poemas são significativos, além delas dominarem a técnica da construção do verso, de acordo a métrica, ritmo e tempo, elas também não usaram os versos livres, comum hoje, com essa enxurrada de pseudopoetas.
     Peço licença ao leitor e convido-o à análise de dois pequenos poemas onde as poetisas celebram a vida e a morte, é grande a semelhança de estilo, que não é demérito para autora de “Atalhos e Descaminhos”, vez que Valdelice Pinheiro é considerada pela crítica especializada, a maior poetisa itabunense:
     “Poema para Kátia
     Sorri,
     menina azul,
     sorri,
     que o teu sorriso
     é sol
     no sol de toda primavera.” ( Valdelice Pinheiro)

     “Juno Carlo
     No silêncio sem pressa
     das horas noturnas
     enxergo o teu vulto
     na imaginação.
     E te abraço assim
     no teu rumo isolado
     lavando a amargura
     apesar da ilusão.

     Hoje, com os cabelos encanecidos, já no começo do fim, as marcas do tempo no corpo e na alma, eu choro o tempo que se foi, tempo de juventude, de esperança, tempo que não se pensava na morte, tempo que não volta mais mesmo que nascesse de novo. Os problemas foram diversos, porém o desejo de vencê-los era maior, aliás, não pensávamos em problemas, mas na realização da vida, no prazer de viver. Qual o prazer de viver num corpo decrépito? Nenhum! Quem o acha, acha-o por narcisismo, sadismo, masoquismo...
     “Tavinho” já se foi, muitos colegas daqueles tempos também já se foram, outros, estão no meio do caminho... Aquele Volkswagen já se foi e levou consigo muitas ideias geradas em sua barriga. Mas o homem não se dobra para o destino, nem a morte o dobra, pois o seu pensamento é imortal, o poeta é imortal:
     “ Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
     Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhuma.
     Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
     E as plantas são plantas só, e não pensadores.
     Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto” (Alberto Caieiro / Fernando Pessoa)

Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna-ALITA

Foto: Site da ALITA

Manduca - R. Santana

 

Manduca - R. Santana

 

     Manduca é matuto por convicção, faz questão de ser matuto, nasceu na roça, viveu na roça, criou os filhos na cidade e permaneceu na fazenda até dias atrás quando teve que vendê-la pra morar na cidade pelo peso da idade. Manduca é uma pessoa simples, porém, o que lhe diferencia das pessoas de sua idade, é sua resistência às coisas novas, principalmente, o celular e o telefone. Como Ariano Suassuna e Getúlio Vargas, ele tem aversão a esses aparelhos de comunicação à distância, som e imagem em tempo real.

     Quem mais zoa Manduca é seu neto primogênito. Ele provoca seu avô, pois conhece sua reação:

     - Vô, o senhor já ouviu falar em site de relacionamento?

     - Não!

     - O senhor bate–papo descompromissado com uma pessoa pela Internet até conhecê-la pessoalmente e chegar ao namoro ou ficar na amizade!

     - Meu neto, não é melhor conhecer a pessoa de carne e osso do que pela Internet?

     - Vô, se mora em outro estado ou outra cidade?

     - Nesse caso é melhor nem conhecê-la. Com tanta mulher aqui, irei procurar uma mulher em outro lugar!?

     - Vô, hoje, o senhor vê a imagem e ouve a pessoa a centena de quilômetros de distância pelo celular ou pelo tablet!

     - Meu neto, eu não sei e não quero usar esses equipamentos. Gosto do olho no olho, de ouvir a respiração, de tocar na pele e conhecer a alma da pessoa por dentro, namorar de longe é coisa da modernidade. Eu e sua avó namoramos muito tempo, adivinhava seus gostos e sua vontade pelo olhar.

     - Vô, isso foi naquele tempo que se amarrava cachorro com linguiça, papagaio era meu louro e dois cruzados meu dinheiro!      Hoje, o tempo é outro, tempo novo, tempo de novas tecnologias, não de atraso – o velho olhou para as grades da casa e respondeu como se o neto não estivesse ali:

     - Tempo é tempo, o tempo não muda, as pessoas, as situações e as coisas que mudam. Eu nasci na roça, meus pais não eram ricos, mas tínhamos a natureza como riqueza, fartura na mesa, tínhamos liberdade como bem maior: tomávamos banho no rio, subíamos na árvore mais alta para pegar a última fruta, à noite, brincávamos de picula no terreiro, jogávamos bola no campo de várzea, os nossos pais sentavam-se na porta para prosear sem medo, hoje, vivemos atrás das grades, não proseamos na calçada com o vizinho, perdemos nossa liberdade e nossa paz      – voltou olhar para o neto e concluiu: - meu neto, pra quê tanta tecnologia? Se nós perdemos a vida todos os dias e ficamos presos em nossas casas protegidos pelas grades?

     - Vô, cada coisa no seu tempo, as pessoas têm que se adaptar ao tempo, não o tempo às pessoas. Conheço idosos que se adaptaram às novas tecnologias sem resistência, eles fazem pagamentos pelo celular, transferem valores, compram nos mercados produtos alimentícios de pronta entrega, “delivery”, “UBER”, etc. Não seria necessário o senhor ir ao banco sacar dinheiro pra fazer o básico, tudo pode ser feito com o celular que cabe na palma da mão.

     - Meu neto querido, eu sei de tudo isso que falou, porém, eu gosto de gente. Quando eu vou ao banco, converso com os funcionários, converso com gente nova e gente da minha idade, ando pelas ruas, visito as lojas (na maioria das vezes não compro nada), somente, pelo prazer de andar. Já pensou se ficasse dentro de casa enclausurado? Morreria de tédio – completou:

     - Quando eu adoeci, cada um de vocês, tinha um pretexto pra não tomar conta de mim, quem me deu assistência foi o açougueiro, o dono do mercadinho, o dono da padaria, os meus vizinhos, os meus amigos... O celular pode lhe dar conhecido virtual, não amizade.

     - Vô, não seja injusto, quando o senhor adoeceu, eu não estava aqui, mas seu filho e sua nora e meus irmãos vieram lhe dar assistência.

    - Eles visitaram-me, no entanto, naquele momento, eu precisava de muito mais. Entendo que todos têm seus afazeres, eles não podiam ficar paparicando um velho doente, além do mais, a empregada cuida de mim, da minha comida e minha roupa, porém, o cuidado de filho, de neto e nora, o cuidado é diferente, cuidado com amor.

     - Vô, eu peço-lhe desculpa por galhofar do senhor, pensei que não aderiu às novas tecnologias por ignorância e birra, mas saio daqui, consciente que não usa esses apetrechos modernos por convicção e sabedoria.

     Os dois se abraçaram e prometeram se entender dali em diante.

 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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Malvado tempo - R. Santana


Naquela tarde de feriado, fiz uma visita a F. que se encontra internada num respeitável abrigo de minha cidade. Fi-la por insistência de meu cônjuge que também gostaria de ver M., sua prima. Não sou hipócrita nem demagogo para não dizer o que penso: não gosto de hospital, de cemitério, nem de casa de assistência social, não me sinto bem nesses lugares, às vezes, organizados, limpos, bem administrados, mas não deixam de ser lúgubres e funestos.
Nós passamos pelo corredor de entrada, fomos informados pela cuidadora de idosos: “os quartos de F. e M. ficam na última ala”; depois, passamos por um pátio interno que serve para atividades recreativas e banho de sol dos pacientes, enfim, chegamos ao apartamento de F. que não estava lá, encontramos M. que carinhosamente nos levou até F., reconhecemos a gafe de termos passado pelo pátio, cumprimentado F. e, não a reconhecemos.
Chocou-me, em particular, o aspecto de seu estado físico: chocha, mirrada, sem aura nem graça, curvada, peitos caídos, usando andadeira para se locomover, não parecia nem de longe a F. altiva, compenetrada, independente, inteligente, prosa boa, leitora contumaz e profissional comprometida da educação. Eu senti vergonha dos entreveros administrativos que tivemos na escola que trabalhamos em tempos dourados que se foram. Diretor dessa escola, personalidade perfeccionista, bati de frente com F. por questionar e não cumprir as minhas diretrizes administrativas.
Não sabemos nem interessamos saber a doença de F., porém, deve ser Alzheimer ou Parkinson. Falamos de Drummond, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Paulo Coelho, Jorge Amado, disse-nos que dos autores tupiniquins, lia com gosto Valdelice Pinheiro, Helena Borborema, as irmãs Benício, das crônicas históricas e humoradas de Dantinhas, Telmo Padilha e Firmino Rocha, ensaiou recitar: “Deram Fuzil ao Menino”. Sugerimos outros poetas e escritores da terra, mas, ela os negou com muxoxo de boca. Minha esposa voltou conversar com M., então, aproveitei o momento e aprofundei a conversa literária com F.
F. oscilava entre lucidez, devaneio e insanidade. Perguntou-me se sabia os requisitos para se candidatar a deputado estadual, respondi-lhe que não, ela insistiu que me inteirasse desses requisitos, pois seria candidata a deputada estadual na eleição vindoura. Noutro momento, perguntou-me o nome da doença de incontinência urinária, respondi-lhe que é enurese, ela completou: “mijo na cama quando elas não me dão fraldas”. Isto, levou-me pensar com os meus botões: “serei você amanhã”.
Eu saí de lá arrasado, minha resistência de frequentar esses lugares soturnos, tomou forma e consciência, prometi a mim e aos meus familiares que doravante, serei levado para esses lugares, a pulso, involuntariamente, não por vontade própria, não compreendo como filhos e filhas jogam seus pais e parentes nessas instituições e os esquecem lá pra sempre, por mais cuidadosas, altruístas, e sérias que elas sejam para comunidade. Essas casas de acolhimento de idosos, a maioria não é ruim em si, porém, jamais elas substituirão o afeto, a amizade e o amor dos filhos, de netos, de parentes e aderentes.
Ali, é um repositório de almas, não de gente. Ali, reconhece-se que os males são maus. Ali, reconhece-se que o tempo é malvado. O tempo traz o homem ao mundo, o faz crescer, o faz audacioso, alimenta seus sonhos na mocidade, realiza seus projetos na maturidade, destrói-o na velhice, depois, entrega-o nos braços da morte. Os mais velhos têm razão quando coisas que parecem impossíveis, dizem: “dê tempo ao tempo”. O tempo é o cutelo de Deus, o instrumento que Ele usa para cortar a trajetória do ser que criou, para fazer vê-lo sua insignificância e sua finitude. O tempo constrói, faz acontecer e, destrói. O tempo é mau, dissimulado de bom. O tempo é um deus! A lógica das coisas não o ignora.
Deus proteja F. e a mim não desampare, porque o significado da vida é questionável. Viver é bom, morrer é melhor. A fé é que alimenta a esperança do homem, mas o faz entorpecido lógico, assim como o ópio extraído das papoulas entorpece e embrutece os viciados de narcóticos. Triste do homem que não tem religião, não tem fé, pois seu suplício é maior no caminho da morte.
A decadência física é mais nociva do que a decadência moral, esta não tira o sono de alguns, enquanto a decadência física traz dor e sofrimento. A dor e a alienação tiram a dignidade do homem, o respeito a si mesmo. Todas as arrogâncias, todos os egoísmos, todas vaidades e todos os significados humanos caem por terra diante dum mal permanente. Nós estamos preparados pra vida, não para o sofrimento. Não existe autoestima duradoura quando o mal não tem remédio pra sua cura.
Sublimar a velhice ou racionalizá-la, não faz do homem velho, homem novo, mas diminui o pesadelo de que ele está no fim da vida. Ninguém gostaria de caminhar consciente pra morte, somente, os suicidas e os loucos, a chama da vida alimenta a alma, este é o papel de todas as religiões do planeta: assegurar ao homem que, aqui, é uma passagem e do lado de lá, a eternidade da vida.

Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Major Dórea - R. Santana

 

Major Dórea
R. Santana


     O ano deve ter sido 1964 ou 1965, não me recordo a data precisa, naquela época, eu não passava de um rapazote sem ideologia política, a minha única ideologia era a ideologia da sobrevivência. Lembro-me que foi após o Golpe de Estado de 1964, que encerrou o governo popular de João Belchior Goulart, popularmente, “Jango” e, estabeleceu-se o regime militar no país que ocorreu essa história burlesca e hilária que contarei a seguir.
     O “Bar de Pedro” era o point principal do Bairro São Caetano. Ali, os moradores tinham o seu lugar de prazer e diversão dia e noite, pois além de bar de jogos de sinucas, de dominós e de baralhos, havia um arremedo de lanchonete com sorveteria. A freguesia era enorme, gente simples, cordata, conhecida, não obstante recinto de jogos e bebidas, a polícia e a justiça não tiveram trabalho durante anos que o “Bar de Pedro” foi o principal point do São Caetano.
     Dentre esses fregueses, “José Pedreiro” (só se conhecia o prenome e o apodo, o nome e o sobrenome nunca se soube). José Pedreiro gabava-se ter sido soldado da FEB (Força Expedicionária Brasileira), e lutou nos campos da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, além de ter participado da vitória de Monte Castelo.
     Não se levava a sério José Pedreiro, todos achavam que suas histórias não passavam de apego doentio pelo exército brasileiro, contos da carochinha, um aficionado, principalmente, a influência recente do Golpe Militar de 64, e suas histórias da FEB na Itália serem contadas quando ele já tinha tomado alguns goles de água que passarinho não bebe.
     Uma molecada divertida frequentava o “Bar de Pedro” com assiduidade e fidelidade, notadamente, estudantes do CEI (Colégio Estadual de Itabuna), às vezes, pra jogar sinuca, outras vezes, pra lanchar, chupar picolé, tomar sorvete, contar suas últimas conquistas amorosas, gozar do colega que não tinha ido bem à prova da escola, jogar conversa fora, tudo era motivo de gozação e brincadeira.
     Foi essa molecada que criou um imbróglio institucional que, por pouco, não é chamado o SNI ou DOI – CODI pra apurar uma denúncia de José Pedreiro, mas a denúncia foi parar em major Dórea, brioso oficial do exército que trabalhava em Ilhéus e morava em Itabuna, é que a molecada havia rasgado uma bandeira (não oficial) do Brasil, colada na vitrine do balcão de doces e massas do “Bar de Pedro”. A molecada, com a conivência do proprietário do bar, provocou José Pedreiro e rasgou a bandeira de papel para lhe irritar, pois estávamos na semana da pátria e o ato era, conforme seu entendimento, um desrespeito à pátria ao governo e coisa de comunista.
     Dois dias depois, quando ninguém se lembrava mais da brincadeira, para uma "Aero Willys" reluzente na porta do bar com um homem fardado verde oliva e José Pedreiro, todos perceberam a embrulhada: ele tinha ameaçado e cumprido a promessa de denúncia, e o pior: os restos da bandeira brasileira ainda se achavam colados na vitrine. Todos ficaram assustados...
     Os dois homens desceram do automóvel e, eles caminharam em direção ao bar, José Pedreiro um pouco atrás, de paletó e gravata, noutra situação, a molecada o teria ridicularizado de tanto rir, mas naquele momento ninguém riu. O major que o conhecia de “eu ouvi dizer e fama ”, ia à frente, de estatura normal, um pouco obeso, não tinha a aura de um Napoleão quando derrotou os Austríacos e assinou o “Tratado de Campo Formio” nem o porte do general cartaginês Aníbal nem do intelectual Júlio César que transformou a República Romana em Império Romano, se não fosse o peso da farda, não passaria, naquele momento, de uma figura de somenos importância e caricata.
     Os moleques deram “pernas pra que te quero?...”, o dono do bar, Pedro Batista de Santana, vulgo “Pedro do Bar”, sergipano intrépido, arretado, afeito às situações mais difíceis da vida, desde que migrou de Sergipe e comeu o pão que o “Diabo amassou” em Maria Jape de Ilhéus, apresentou-se ao major Dórea como proprietário do estabelecimento. Depois que o major bufou e ameaçou todos os presentes com prisão e processo, que aquilo era prática comunista, Pedro com segurança e raciocínio perfeitos, argumentou que ali ninguém tinha ideologia política, que os moleques muito menos, que todos estavam satisfeitos com o governo, que tudo não tinha passado de uma brincadeira pra irritar José Pedreiro que bebia mais que trabalhava, que o denunciante tinha um “parafuso a menos na cabeça”, etc., etc.
     Felizmente, o major Dórea reconheceu o ridículo que o “dedo duro” fê-lo passar e “rabo entre as pernas” entrou no carro e voltou para sua tropa e seu quartel, porém, para que sua autoridade não fosse maculada, burlesca, enxovalhada, que sua ida ali tomasse ares de ofício e inteligência, exigiu:
     - Seu Pedro, cole outra bandeira do mesmo padrão na vitrine e distribua uma grosa entre os estudantes no dia 7 de Setembro! – quando ele ia longe, um moleque do sinuca brincou:
     - Pedro, isso é o quê? Grosa se come?
     - Sei lá, peste!...



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna- ALITA

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Mãe, onde está o seu filho, agora?... - R. Santana

 

Mãe, onde está o seu filho, agora?...
Mãe, onde está o seu filho, agora?...
R. Santana

Alguém que de chofre pergunte pelo paradeiro dum filho à sua mãe, nos dias atuais, decerto, terá uma resposta insegura, vacilante, vaga, pois, cada dia, a mãe sabe menos aonde anda e com quem anda o seu filho... Ele pode estar na escola, na biblioteca, numa “Lan House”, jogando bola, comprando pipoca, chupando sorvete ou num lugar ermo, embaixo duma marquise, numa casa abandonada, num apartamento de luxo, fumando maconha ou pitando crack ou se alcoolizando, ou cheirando cocaína ou usando “ecstasy” e LSD, então, por algum dinheirinho a serviço do narcotráfico.
A droga é uma peste, ela mina a sociedade e destrói a família. Jean Jack Rousseau foi feliz quando mais ou menos disse: “... o homem nasce naturalmente bom e a sociedade o corrompe, torna-o mau”. O jovem de hoje é cada vez mais pervertido, é cada vez mais corrompido, é cada vez mais vítima de animais humanos desprezíveis, de bestas-feras, de facínoras desprovidos de alma e coração que os Direitos Humanos exigem que os tratemos como humanos...
Felizes são os pais que vêem o seu filho nascer, crescer e amadurecer!... Hoje, os filhos não mais sepultam os seus pais, mas os pais choram os seus filhos cada vez mais. A malha protetora da sociedade da vida humana é falível e impotente. O estado que Tomaz Hobbers pensou para que o homem não fosse vítima de sua natureza: “home homini lupus”, “homem lobo do homem”, é uma teoria de estado que não deu certo, o homem, hoje, barbariza, mata, rouba, sequestra, estupra, calunia e denigre o outro sem conflito de consciência, cinicamente e, a sociedade e o estado...
A Lei 8069 de 13 de julho de 1990, ou seja, o Estatuto da Criança e o Adolescente – ECA, os juizados da infância e juventude, os ministérios públicos, os conselhos tutelares da infância e juventude, as pastorais e outros órgãos afins, não contêm a demanda, são ineficientes, cada vez menos, eles não cumprem o seu papel, é comum nas grandes cidades, as bocas-de-fumo, as prostituições infantis e os absurdos de abusos sexuais no seio da família, nas barbas das autoridades e da sociedade.
Antes da Internet, antes da mídia comprometida com o IBOP e com o sensacionalismo, quando o brasileiro era tupiniquim, caipira, jeca, quando a escola e a família eram mais estruturadas, quando o homem não estava conectado ao mundo, quando a palavra “narcotraficante” não constava no dicionário, quando “droga” não era uma droga, quando “aviãozinho” era uma miniatura, quando a religião era coisa de beato, quando “bandido” era personagem de filme americano, quando se prezava as relações afetivas, quando “craque” era um exímio jogador de futebol, quando os instintos primitivos do homem eram usados na sua autodefesa, as bestas-feras, os psicopatas e os criminosos eram personagens de cinema e cochichos de vizinhos, a vida tinha sentido.
No livro de coletânea: “Encontro Pontual - Antologia Scortecci de Poesias, Contas e Crônicas, 21ª. Bienal Internacional do Livro de São Paulo – 2010”; há um conto de minha autoria, intitulado: “Nóia não, meu filho!”, o confronto de um policial e uma mãe, quando ela chorava a morte do seu filho assaltante, crivado de balas, e o policial lhe rogou que não chorasse a morte dum nóia.
Portanto, não existe mãe de ladrão, de malfazejo, de criminoso, mas filho da mãe, filho do coração, filho da alma, por isto, é justo reconhecer que a mãe, moça, madura ou velha encarquilhada pelo tempo, não é responsável, porém, ela é vítima e a mais sofrida pelos desvios de comportamento dos seus filhos por influência desses corruptores e desses criminosos dos novos tempos e a ausência de políticas públicas efetivas.
Não se faz apologia do atraso e não se faz apologia às ideias retrógradas. A evolução, o desenvolvimento, as conquistas tecnológicas e científicas são bem-vindas, são necessárias, mas quando o homem é o “lobo do homem”, é um animal perverso, os bandidos assumem as funções do estado, o homem é desprovido de valores morais, não tem apego à família, é desprovido de amor e de Deus, é o começo do fim, faz-se necessário renegar a evolução dos tempos e o desenvolvimento, seria melhor que a mãe respondesse à pergunta:
- Mãe, onde está seu filho, agora?...

Gênero: Crônica
Autor: Rilvan Batista de Santana

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 10/07/2012
Alterado em 03/08/2012

Mãe é um ser social - R. Santana

 

Mãe é um ser social - R. Santana

 

No último dia das mães, quando a família comemorava a efeméride, eu refletia com os meus botões: "Quão o comércio explora os incautos, as pessoas de boa fé e os filhos de coração afetivo?" Todo dia é dia das mães, a boa conduta do filho deve ser o ano inteiro. Mãe é o único amor verdadeiro, ela é capaz de sacrificar sua vida pela do filho. Drummond foi feliz quando escreveu: “Por que Deus permite que as mães vão-se embora? / Fosse eu Rei do Mundo / baixava uma lei / Mãe não morre nunca / Mãe, na sua graça, é eternidade”. Portanto, a mãe deve ser celebrada o ano inteiro, não, um dia no ano.

Porém, mãe é um ser social. O amor da mãe pelo filho ou o amor do filho pela mãe não tem causa genética, mas ambiental e social. Alguém poderá falar mal de mim, que estou amalucado, que estou dizendo asneiras, mas, os fatos cotidianos não me contradizem: pegue um recém-nascido de uma família e o coloque noutra família com as formas e as características físicas semelhantes, ele irá crescer, além da aparência, com a carga afetiva, a conduta e o caráter da família que o recebeu.

O amor do filho adotivo pelos pais é semelhante ao amor do filho biológico, às vezes, a carga afetiva e o cuidado são maiores. Não é exceção o filho adotivo socorrer o pai ou à mãe na velhice mais que o filho biológico. Claro que não são amores diferentes, são amores iguais do filho adotivo e o filho da mesma carne, apenas, fundamenta-se que pai e mãe são aqueles que criam.

Não sei se existe uma pesquisa do comportamento da mãe adotiva e da mãe biológica, a priori, conclui-se que não existe diferença. O amor da mãe pelo filho não gerado é igual ao filho concebido. E, se a mãe nunca teve filho biológico, ela será capaz de colocar o seu pescoço no patíbulo para salvar o pescoço do seu filho adotivo. Também, o amor pelos pais que não tiveram filhos biológicos pelo filho adotado, não morre jamais.

Os exemplos se multiplicam de filhos não concebidos que são mais afetivos e responsáveis que os filhos biológicos. Também, as mães adotivas cuidam com o mesmo zelo os filhos ilegítimos tanto quanto os filhos legítimos em alguma doença ou algum sinistro físico ou material.

O sentimento que une o filho à mãe e vice-versa é construído ao longo do tempo, por isto, é que os teóricos do comportamento humano afirmam que mãe é um ser social e o vínculo afetivo é perene, O instinto maternal se manifesta tanto em relação ao filho biológico quanto ao filho adotivo.

Se um casal alemão, por exemplo, adota um recém-nascido de qualquer parte do mundo, certamente, depois de crescido, essa criança irá crescer com carga afetiva, conduta e caráter da família que o adotou, além da aculturação alemã. Se um dia, ele descobrir que não é filho biológico, talvez, por curiosidade, ele queira conhecer a família biológica, não por necessidade afetiva ou material, mas, para conhecer sua origem de sangue.

O filho bastardo não é diferente do filho de pai e mãe, pouco e pouco, ele absorve os costumes da nova família, dos meios-irmãos, da madrasta ou do padrasto. O vínculo familiar se completa dentro de pouco tempo. Com o tempo a empatia entre os irmãos se completa: mexeu com o bastardo, mexeu com todos...

Usa-se o eufemismo “filho do coração” para suavizar uma relação que a sociedade é subjacente preconceituosa Algumas pessoas acham que o filho que não é biológico não possui a mesma afinidade e prerrogativa. Porém, se for feito um estudo cuidadoso, o processo de conceber um filho é igual ao de ter um filho não gerado: o desejo de tê-lo é movido pelo amor.

Não se pode negar o instinto maternal, ele é congênito até nos animais irracionais, todavia, o vínculo afetivo é construído no dia a dia, nas dificuldades, nas angústias, no sofrimento, nas experiências positivas e negativas. Segundo John Locke, o bebê quando nasce sua mente é “tabula rasa”, como uma folha de papel em branco, a vida se incube de gravar no indivíduo: as experiências, o desejo, o entendimento, a inteligência e a personalidade, estas características formam o sujeito social.

Enfim, a mulher nasce com a função de reproduzir, de ter filho e filha, de aguçado instinto maternal, ela é capaz de sacrificar sua vida pelo filho, porém, o conceito amplo que a sociedade lhe dá, não é inato, ou seja, não existe diferença de mãe adotiva e mãe biológica, a carga afetiva é a mesma, os filhos quaisquer que sejam, amam as duas mães igualmente.

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

 

Mãe Anastácia - R. Santana

 


Mãe Anastácia
Mãe Anastácia
R. Santana

Assim que Christina deixa o Shopping Iguatemi de Salvador e pára no primeiro semáforo, o seu carro é tomado por moleques que vendem água mineral, biscoito caseiro, doces, frutas ou limpa o para-brisa com água e sabão numa operação recorde e eficiente. Christina não quis nada, dispensou todos os moleques com doçura e educação, porém, um deles insistiu e jogou dentro do carro, em seu colo, um panfleto que convidava visitar os serviços espirituais de uma mãe de santo pra o lado de Matatu de Brotas, a Yalorixá Anastácia Ogum Xoroquê.
Christina, católica de nascimento, pouco se deixava guiar pela fé, não conhecia pelo nome, meia dúzia de santos de sua igreja, jamais se sensibilizou ou quis conhecer seitas de oguns, oxuns e orixás, terreiros, muito menos visitar a Yalorixá ou algum Babalorixá, para bem da verdade, ela não sabia nem o que esses títulos significavam, cresceu ouvindo falar de candomblé, pai de santo, mãe de santo, cigana, cartomante, vidente, sensitivo, bruxo, mas nada disso lhe tocava o coração, todavia, aquele panfleto lhe mexeu com o coração e a razão, mais com o coração do que com a razão, eis aí o que dizia o panfleto:

“Yalorixá Anastácia Ogum Xoroquê tem mais de 25 anos de santo e sua casa é aberta a todos que buscam... Atende com JOGOS DE BÚZIOS E CARTAS com hora e dia marcados, conforme sua ligação. Lembre-se: os orixás vão lhe mostrar o caminho certo a ser percorrido.”

Christina não conhecia Flávio nem Roseli, ambos tinham sido colegas de faculdade de Ricardo. Quando o seu marido convidou os seus ex-colegas de faculdade para trabalharem em sua empresa de venda de carros novos e usados, ela foi contra sem muitos argumentos convincentes, mais ciúme de Ricardo do que razões profissionais:
- Não se mistura negócio com amizade!
- Querida, estou contratando dois profissionais de qualidade administrativa comprovada, cursos no exterior, ele irá gerir o departamento comercial e Roseli o RH, não é só amizade! – Christina não se conteve:
- Eu sou idiota Ricardo? Vocês já foram pra cama! – Ricardo não tossiu nem mugiu, deu-lhe as costas e saiu.
Enquanto subia a rua procurando a casa da Yalorixá Anastácia no endereço indicado no panfleto, Christina ia rememorando os argumentos do seu marido para trazê-los do Rio de Janeiro para Salvador, ela tentou demovê-lo da ideia, argumentou custos, que o mercado baiano estava cheio de bons administradores, não teve jeito, ele bateu pé e os dois estavam lá na empresa de Ricardo há mais de um ano. Agora, ele não se cansava de celebrar a vinda de Flávio e Roseli para capital baiana, ao passo que cada dia, ela se tornava mais infeliz com a indiferença e o desprezo do marido, por isto, resolveu, mesmo sem a fé dos seguidores, consultar a famosa mãe Anastácia para encontrar resposta que lhe tirasse daquela tormenta e cisma.
Certamente, a casa de terreiro da Yalorixá não era naquele luxuoso sobrado colonial, exceto a sala em que ela foi atendida, não havia vela a bruxulear os santos, não havia ostentação, tudo era discreto sem ser vulgar, porém, os móveis e o prédio denunciavam a prosperidade da mãe de santo. A antessala onde os consulentes aguardavam a Yalorixá parecia o consultório dum médico de nomeada.
- Filha, antes das cartas, oremos ao Pai Ogum para que as causas de suas dificuldades sejam reveladas e pisadas com os cascos do seu cavalo e eliminadas com a força de sua espada... – começou a Yalorixá:

- Ó Pai Ogum, a vida desta jovem senhora está confusa e conturbada, peço-lhe que lhe indique o caminho a seguir e lhe dê coragem e força para que ela esmague todo o mal que a persegue. Com sua proteção, ela terá segurança e o apoio de guias e orixás, que a paz de Oxalá seja perene em sua vida... Assim seja e assim será! - feita a oração, a mãe de Santo começou a leitura das cartas, Christina nervosa e tensa não se aguentava na cadeira... A primeira carta foi Valete de Espadas:
- Filha, o naipe de espadas indica violência e desgraça. Homem sedutor, mas traiçoeiro e mau caráter lhe persegue... – Fez um “Anh!” e a Dama de Espadas caiu na mesa:
- Filha, ele e ela estão em conluio para lhe destruir!... Mulher bonita, mas perigosa e traiçoeira... – a mãe de santo foi interrompida por Christina:
- Meu Deus! Meu Deus! Ricardo deveria estar aqui, mãe Anastácia! – e desabou em pranto.
A sessão de cartas foi interrompida, Christina emocionalmente desabou, mãe Anastácia e suas filhas de santo colocaram-na num quarto para descansar. Coincidência ou não, o Valete e a Dama de Espadas, significavam de maneira clara, os seus desafetos Flávio e Roseli. A mãe Anastácia não os conhecia, portanto, não era coincidência, as energias de Exu e Ogum, tinham sido canalizadas de maneira certa, decerto, essas entidades fariam justiça através da Yalorixá e foi sua promessa assim que Christina saiu do transe:
- Filha, a mãe Anastácia lhe promete com ajuda dos meus guias espirituais, debelar o mal de sua vida, a concórdia e a paz voltarão reinar no seu lar. O seu marido irá reconhecer o seu erro e lhe pedir perdão, mas para isto acontecer, a filha terá que ter muita fé e obedecer aos conselhos desta Yalorixá Xoroquê, a começar pela sua iniciação, deseja ser iniciada!?
Sim! - promessa feita, promessa cumprida, dias depois o bem vence o mal.
Pareceu que tudo foi arranjado, pois Ricardo chegou num momento em que Roseli estapeava o marido numa crise histérica, xingando-lhe para quem a quisesse ouvir:
- Seu veado, seu xibungo, seu pedófilo, me traindo com esse fedelho – o rapazinho não se aguentava nas pernas de medo, trêmulo, não conseguia recompor sua roupa -, nós tínhamos um plano para nos dar bem com Ricardo e você não consegue deixar a bicha enrustida por mais tempo!?
- O quê!? – todos tomaram susto com o aparecimento inesperado do patrão. O plano foi esclarecido: Roseli bonita e atraente assediaria o seu ex-colega, agora, patrão, e, quando ele estivesse completamente apaixonado, o divórcio de Christina e a extorsão do marido traído, deixariam Ricardo em maus lençóis, inclusive, financeiro.
Ninguém sabe se as coisas feitas da Yalorixá foram providenciais, certo é que o mal por si se destrói sem a intervenção dos orixás.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 09.01.2013

Madrasta, mãe - R. Santana

 

Madrasta, mãe - R. Santana

Madrasta, madrasta boa, madrasta má, amável madrasta!
Mãe de filhos de ti não gerado, por ti acolhido e amado,
Filho sergipano, alagoano, pernambucano, mineiro, filho...
Filho branco, preto, amarelo, filhos de raça, raça humana!...

Filhos bons, filhos maus, filhos gratos, filhos ingratos, filhos!
Filhos de orixás, de Iyárobá, de Yoruba, filhos do candomblé,
Filhos ateus, filhos espíritas, filhos católicos, filhos evangélicos,
Filhos baianos, filhos adotados, aceitos, filhos queridos, amados!...

Bem-aventurado quem de ti nasceu, cresceu, viveu e voltou a ti.
Félix a desvirginizou, Firmino Alves e Henrique esposaram-na...
Buna de Maria, que nas tuas águas lavou e, ita, pedra preciosa!...

Madrasta, madrasta doce, madrasta efêmera, mãe, mãe eterna!
Pedaço de terra querida, princesa, princesinha do Sul da Bahia,
Na pia, nem tabocas, nem itaúna, mas para sempre, Itabuna!...


Gênero: soneto (verso livre)
Membro da Academia de Letras de Itabuna
Imagem: Google (Itabuna)
Autor: Rilvan Batista de Santana

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