11.11.2025

Marcos Bandeira - R. Santana

 

Marcos Bandeira 

R. Santana

       Naquela manhã (leitor amigo, não me lembro o dia) do mês de abril de 2011, minha esposa recebeu um telefonema que me passou depois: - Dr. Marcos Bandeira telefonou! - Quem? - O juiz! - Deseja o quê? – a mulher apreensiva: - Acho... você... anda escrevendo essas bobagens...

     No segundo telefonema, o objetivo foi parcialmente esclarecido: o projeto de uma academia de letras em curso e o Juiz de Direito itabunense gostaria de conversar comigo pessoalmente. Combinamos dia, local (Fórum Ruy Barbosa de Itabuna) e hora.

     Não conhecia pessoalmente dr. Marcos Bandeira, conhecia-o através da mídia falada e escrita e an passant sabia que tinha atuado na Comarca de Camacan como Juiz criminal.

     Na data combinada, tirei a roupa do fundo do baú, calcei o sapato mais novo, chamei minha filha Anne Glace para me assessorar e fomos encontrá-lo no seu local de trabalho. Aproveitei e levei 2 romances (O empresário e Maria Madalena) de minha autoria para lhe presentear. Eu pensei que ia encontrar um homem afetado pelo cargo com resquício de autoritarismo, mas, encontrei um nordestino raiz de Bom Jesus da Lapa (BA), dócil, educado que convencia pela força do argumento, não pela autoridade de Juiz de Direito, um democrata.

     Combinamos nos encontrar na FICC (Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC), situada na Praça Tiradentes s/n, próximo à catedral São José. Palavra dada, palavra cumprida, naquele dia, lá na FICC, eu encontrei: Marcos Bandeira, Antônio Laranjeira, Ary Quadros, Carlos Eduardo Passos, Cyro de Mattos, Dinalva Melo, Gustavo Fernando Veloso, Lurdes Bertol, Genny Xavier, Ruy Póvoas, Sione Porto, Sônia Maron, Marialda Jovita e Maria Luiza Nora.

     Em nossa primeira reunião (19 de abril de 2011), definimos o nome da academia, por aclamação dr. Marcos Bandeira foi eleito presidente junto com a diretoria (eu fui eleito 2º. Tesoureiro, com a desistência de Gustavo Fernando Veloso, 1º. Tesoureiro, eu assumir seu lugar), fechamos a manhã daquele dia com o “esqueleto” pronto da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.

     Em reuniões vindouras, sob a batuta de dr. Marcos Bandeira, em 7 meses, redigimos o Estatuto, o Regimento, criamos a revista “Guriatã”, desenhamos o fardão, os brasões “Litterae in Fraternitattis 2011” ou “Litteris Amplecti 2011” - O Hino da ALITA, veio depois, letra do escritor Cyro de Mattos – no dia 05 de novembro de 2011, no auditório da FTC, o escritor, cronista, Juiz de Direito e professor da UESC das disciplinas: Direito Processual Penal, Direito da Criança e do Adolescente, dava posse aos acadêmicos, em solenidade de gala. O acadêmico Ruy Póvoas discursou em homenagem ao patrono da Academia, Adonias Filho, e, Cyro de Mattos ostentando no peito suas medalhas lhe auferidas em tempos idos, discursou em nome dos acadêmicos empossados e Aramis Ribeiro falou representando, como seu presidente, a Academia de Letras da Bahia – ALB.

     Faz-se necessário dizer, por desencargo de consciência que, em todas as etapas de fundação da ALITA, o desempenho pela experiência de outras academias de Ruy Póvoas e Cyro Pereira de Mattos, foi significativo. Coube ao dr. Marcos Antônio Santos Bandeira, primeiro presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA, à assessoria jurídica.

     Não obstante a falta de recursos materiais e financeiros, a gestão colegiada de dr. Marcos Bandeira foi acima da média, em 2 anos de mandato, o que era um ideal imaginário (criar uma academia de letras), transformou-se em realidade como pessoa jurídica (CNPJ), além de ter pago a festa de solenidade de posse dos acadêmicos com recursos próprios, o registro do Estatuto e Regimento, uma conta bancária no Banco do Brasil para contribuição mensal dos novos acadêmicos e através da saudosa Sônia Maron, a cessão de 2 salas para sede provisória no Edifício Dilson Cordier, à Rua Ruffo Galvão. 155 – Centro / Itabuna (BA).

     Estimado leitor, talvez, não mais me suporte com essa ladainha de fundação da ALITA. Porém, peço-lhe que me tolere mais um pouco, é que nosso homenageado foi seu primeiro presidente, e, se ele é seu amigo, o admira, releve essa chatice e me acompanhe para que, eu e você, possamos adentrar naquilo que lhe foi sua razão de vida: O Direito como disciplina normativa que procura fazer justiça social: assegurando aos menos favorecidos e aos mais aquinhoados pelo destino, os mesmos direitos diante da Lei. Portanto, amigo leitor, passemos aos parágrafos que virão do nosso amigo Juiz de Direito e completemos com ajuda de Deus, sua trajetória profissional e humana.

     Dr. Marcos Bandeira foi um juiz garantista, que o réu é um ser humano e merece ser tratado com direito ao contraditório no Tribunal Judiciário, acusação, também, a defesa, que não seja prejudicado em sua honra, que não seja humilhado pela acusação e responda, somente, a prática do seu crime. Para Luigi Ferrajoli, pai do garantismo, se caracteriza: 1) como modelo normativo de Direito; 2) como teoria jurídica e 3) como uma filosofia política.

     Dr. Marcos Bandeira foi o juiz com recorde que nenhum outro juiz alcançou: presidiu mais de 250 sessões do Tribunal do Júri em Itabuna desde 1910, quem fala dessa proeza é o Juiz de Direito, dr. Ricardo Augusto Shimitt, quando prefaciou o livro "Tribunal do Júri":

     “Marcos Bandeira, juiz, professor doutrinador, para tratar com absoluta maestria sobre a reforma do “Tribunal do Júri”, com seu olhar crítico de mais de 250 júris presididos, o que faz com que sua obra receba o título de excelência, a ser aclamada por todos nós, operadores do direito”.

     O “Tribunal do Júri” foi criado pelos gregos, aperfeiçoado pelos romanos, implantado pelos britânicos e Estados Unidos. Foi instituído no Brasil pela Lei de 18 de julho de 1822 para julgar os crimes da imprensa.

     Quando li: “Apologia de Sócrates”, livro de prosa em verso, em que Sócrates é condenado beber cicuta por um Tribunal do Júri, que o acusava de “perverter a juventude”. Um tribunal corrompido por jurados de interesses inconfessáveis matou o filósofo que questionava o conhecimento com a célebre frase; “Sei que nada sei”.

     Antes da Lei nº. 11.689/2008 que se destinou a seção III do Capítulo II referente ao Júri, dr. Marcos Bandeira, instituiu no Tribunal do Júri em Itabuna, algumas mudanças a exemplo do réu não ficar ladeado por 2 policiais brutamontes, mas ao lado do seu advogado de defesa. Criou, também, o cadastro voluntário, ele justificou que algumas pessoas quando eram convocadas, chegavam ao tribunal com a cara feia e má vontade. Absolveu o sigilo da votação não do voto, que a sala secreta foi substituída por uma sala envidraçada que não comprometia o auditório vê a votação. Que o resultado absoluto de 7X0 foi substituído pelo resultado relativo 4x0, ou seja, por maioria simples.  - Que é de o prêmio INNOVARI?

     Ele gostava dos frequentadores assíduos do Tribunal do Júri, principalmente, da frequência de Zito Bolinha (in memoriam), que certa feita esclareceu a razão de sua assiduidade: ”Doutor, aqui se aprende lições de vida que não ensinam nos livros e nem na escola”.

     Mas, presidindo um Tribunal do Júri em Ferradas, que os indivíduos trepavam nas árvores para assistirem ao júri que se desenvolvia nesse bairro, teve um “Insight”, a partir dali, só faria júri nos bairros porque seria mais educativo e mais atrativo.

     Apesar do semblante “pesado”, dr. Marcos Bandeira é um brincalhão, certa feita que alguém falava de imortalidade, ele disse: “Cyro, pra ser imortal, só precisa morrer". Um aficionado pelo futebol, ele é “Fluminense” de quatro costados, no Rio de Janeiro, foi ver seu ídolo Rivelino. Alguém me disse que dr. Marcos Bandeira jogou no Colo Colo de Futebol e Regata de Ilhéus. Pelo tamanho e grossura, coloco minha mão no fogo, sem medo de queimá-la que foi um grande zagueiro.

     Doutor Marcos Bandeira, não vestiu o pijama da aposentadoria, é advogado, é professor concursado da UESC e doutorando em Direito pela Faculdade de Lomas de Zamorra da Universidade Nacional de Buenos Aires.

     Hoje, seu bem maior, a razão de sua vida, é sua família, Rosana, a esposa, os filhos: Marcos Bandeira Júnior, Michelle, Danielle e Francielle. 

     É lugar comum dizer que a família é a célula mater da sociedade, é necessário que se diga sempre, porque a família é o sentimento de amor maior do homem. 

 

 

 

 

 

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Common

Membro da Academia de Letras de Itabuna – ALITA

Imagem: Googl​​​e

 

Att.: Informações, a posteriori, Marcos  Bandeira foi meia esquerda, camisa 10, do Colo Colo de Futebol e Regata de Ilhéus e da Seleção.

 


A Literatura e a Internet = R. Santana

 

A Literatura e a Internet
A Literatura e a Internet
R. Santana

A escola ensina literatura, mas não faz literatura. O poeta e o romancista podem prescindir de algumas técnicas de redação e verso sem prejuízo da poesia e da prosa. Literatura se aprende na escola, mas fazê-la é um dom de poucos. Jamais se forjará nos bancos escolares, poetas e romancistas da grandeza de Homero, Shakespeare, Camões, Machado de Assis, Dostoievsky, Hemingway, Goethe, Fernando Pessoa, Julio Verne, e tantos outros que as páginas literárias registram e de conhecimento do leitor bem informado.
Porém, potenciais poetas e escritores foram apagados pela ação do tempo e dificuldade de acesso ao reduzidíssimo meio de comunicação em tempos remotos. Hoje, existe facilidade de divulgação para o autor, independente da boa ou má qualidade de sua obra.
Com o advento da tecnologia Internet nos anos 70, durante a Guerra Fria e popularizada nos anos 90, nas escolas, nas universidades, nas pesquisas, nas empresas, nas residências e nas redes sociais, o processo divulgação de uma obra literária deixou de ser uma atividade hercúlea.
Um livro de poesias ou um romance, por exemplo, não faz muito tempo, levaria anos pra ser impresso, editado, divulgado, distribuído nos pontos de venda e lido. Atualmente, com os programas computadorizados de Word e PDF, o texto é digitado, processado, armazenado e enviado para milhões de pessoas em tempo recorde.
Por outro lado, a enorme quantidade de informação e a escassez de tempo de nossos leitores contribuem para que obras-primas sejam jogadas no lixo eletrônico enquanto textos fúteis, apelativos, oportunistas, mas de interesses imediatos, tomem lugar na literatura e no gosto das pessoas.
Ninguém pode negar os benefícios e a democratização dos meios de comunicação em todos os segmentos da atividade humana, entretanto, ninguém pode negar a saturação da atividade literária de autores e obras. Hoje, existe na literatura brasileira e estrangeira, uma enxurrada de autores de verso e prosa, geralmente, qualificados nas técnicas da língua, mas sem vocação e criatividade. Poetas e escritores tupiniquins, canastrões da arte com fumos de intelectuais brilhantes, que devem ser considerados mais pelo esforço e vontade de escrever do que pelo uso correto da palavra e a capacidade de transformá-la em prosa e verso.
Claro que a tecnologia da Internet não dispensa o talento, a boa ideia, a imaginação, a ficção, a criatividade, além da capacidade do escritor colocar tudo no papel e transformar a palavra em literatura. O acesso às bibliotecas virtuais, aos dicionários digitais, á gramática digital e aos sites de conteúdos específicos, contribui e facilita a vida e o desempenho do escritor, mas o acesso às novas tecnologias, somente, não dá vida ao texto se o escritor não tem vocação e talento, se ele não possui percepção diferenciada do mundo e sensibilidade aflorada.
Tecnicamente se define Internet: “...qualquer conjunto de redes de computadores ligadas entre si por roteadores e gateways, de âmbito mundial, descentralizada e de acesso público, cujos principais serviços oferecidos são o correio eletrônico (e-mail), o chat e a Web etc.”, portanto, é condição sine qua non para explicar as novas tecnologias da escrita que se mencione o computador. A Internet não teria razão de ser se não houvesse o computador nas mais diferentes formas - a recíproca é verdadeira.
O computador é uma máquina diferente da antiga máquina de escrever, “recebe informação, armazena, envia dados, faz sobre estes, sequências previamente programadas de operações de aritmética (cálculos), de lógica (comparações), com o objetivo de resolver problemas”, portanto, lamenta-se que alguns escritores resistam usar essa tecnologia, o caso mais notório é do imortal da ABL, Gilberto Freyre, que se recusava aprender a nova tecnologia da informática e escreveu sua extensa obra social e antropológica a bico-de-pena.
Faz-se necessário dizer, agora, que não houve deste autor, nenhuma pretensão de censurar, julgar, criticar, classificar esta ou aquela obra, apenas, chamar a atenção para proliferação desordenada duma cultura fútil e sem significado, em cadeia, que inunda os meios intelectuais e confunde a cabeça de crianças, jovens e adultos malformados, a Internet peca, somente, por não possuir mecanismos para separar o joio do trigo e coloca tudo no mesmo saco da literatura.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 16 de novembro de 2012.
 

A FICC FICA...- R. Santana

 

A FICC FICA...
A FICC FICA...
R. Santana


Não sou um pensador profissional, um filósofo de nomeada, mas um cidadão comum que não fede nem cheira nas coisas da política. Concordo com Aristóteles que “o homem é um animal político”, o estagirista tem lá suas razões, quer queira quer não, a política nas suas mais variadas formas e acepções, mexe com o homem político ou aquele que não se diz político. Se algum deputado federal, por exemplo, como medida de contenção de despesa, encaminha um projeto para extinção do nosso santo 13º. Salário, e, sancionado, afetará o bolso de todos sem exceção.
Por isso, resolvi meter o bedelho na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC, não que eu seja poeta, escritor, trovador, compositor, cantor, pintor, ou, coisa que valha, mas um lagartense radicado nesta cidade há muitos anos, um nordestino cabra da peste, que gosta e ama esta terra.
Discordo daqueles que dizem que a FICC tem problema gerencial. É sabido o empenho, a dedicação, a desenvoltura, o sacrifício pessoal, de todos os gestores que passaram por ali para que a entidade deslanchasse e atendesse aos interesses dos artistas de Itabuna e quiçá do Sul da Bahia, porém, eles sempre esbarraram na falta de recursos financeiros, acima de tudo, na falta de vontade política de prefeitos que não valorizam a educação nem a cultura, porque a educação liberta do domínio intelectual e a cultura é a expressão maior da alma humana.
O que não tem faltado ao longo desses anos nessa entidade de promoção artística, são projetos, seminários, oficinas, apoio logístico aos novos autores e outras ações de cunho cultural. Porém, lá falta tudo, inclusive, um espaço condizente às manifestações culturais atuais. O descaso e a falta de respeito são tão agressivos com os artistas da palavra e da expressão, que a entidade foi instalada num prédio velho do Século XIX, uma antiga “cadeia”, do tempo de Tabocas, sem as mínimas condições estruturais e funcionamento.
A FICC não pode ser estigmatizada como “cabide de emprego”, sua importância para sociedade itabunense e baiana, vai além de um repositório de afilhados políticos refugados de outros órgãos do município, dos conchavos de bastidores, do toma lá da cá dos políticos descomprometidos, mas deve ser prestigiada como uma entidade de cabeças pensantes, o nous do município, o princípio ordenador, um celeiro de ideias e projetos comunitários.
Nesse tempo de mudança administrativa em que um novo alcaide irá assumir o governo do município, é de somenos importância sua cor partidária, seu credo, sua orientação sexual, sua raça, mas se ele tem a sensibilidade de Mecenas, a ética de Aristóteles e o racionalismo de Descartes, portanto, no meu modo tabaréu de ver, não é “E A FICC COMO FICA?”, mas dizer-lhe, meu caro leitor, que a FICC FICA...

Autor: Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 19 de novembro de 2012.







Walker Luna - R. Santana (*)

 

Walker Luna - R. Santana (*)

     Nunca é demais repetir a frase de William Shakespeare: “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa fã filosofia...”, para justificar o caminho que me levou ingressar na Academia de Letras de Itabuna – ALITA, com o título acadêmico de membro fundador efetivo, sob a égide patronal de Walker Luna. Far-se-á necessário dizer, a priori, antes mesmo de traçar o caminho que percorri até ALITA e discorrer sobre Walker Luna, que nunca persegui tamanha honraria e não tenho mérito para merecê-la, mas o título me foi concedido por um conjunto de circunstâncias alheias à minha vontade e a generosidade intelectual e grandeza moral de homens da terra do cacau.
     Embora apaixonado pela leitura e escrita desde jovem, não sou escritor no sentido lato do termo, um profissional da palavra, um mestre da criatividade da prosa e do verso, um artista da expressão e da forma, mas um escrevinhador de poucos recursos linguísticos e literários, sem talento criativo, sem conhecimento científico ou técnico, mais um aprendiz e um autodidata, que pouco sabe usar a estética da palavra e o conhecimento da ciência.
     Aprendi gostar de literatura desde cedo nas feiras-livre com os cantores de cordel. Qual o garoto de passado distante que nunca parou numa praça para ouvir um trovador cantar sua história de trancoso?... Eram contos da carochinha, histórias de príncipes desalmados e princesas socorridas por um herói surgido do nada; reis tiranos e rainhas submissas; bruxas malvadas e homens virando lobisomens, cangaceiros e volantes, padres e mula-sem-cabeça, etc.
     Porém, foi na juventude, no colégio, que tomei conhecimento das diversas escolas literárias e seus principais escritores. Como todo estudante, li an passant a literatura portuguesa com Camões, Eça de Queirós, Gil Vicente, Castilho e Fernando Pessoa e os seus heterônimos, Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos e na literatura brasileira li Gregório de Matos, Cláudio Manuel da Costa, padre Antônio Vieira, Gonçalves de Magalhães, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e o meu conterrâneo Tobias Barreto, porém, não tomei muito gosto pelos escritores e poetas românticos e do arcadismo, com exceção de Castro Alves e José de Alencar, Gregório de Matos e padre Vieira, mas me amarrei com os escritores e poetas do realismo e a literatura moderna e a literatura contemporânea, que tecerei alguns comentários, a posteriori, de obras e autores.
     Conheci a obra de Machado de Assis pelo fim e não pelo começo, isto é, pelo realismo e não pelo romantismo, ao invés de ler Helena, Ressurreição, Crisálidas e Falenas, comecei por Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, intrigou-me e deixou-me chocado o recurso mórbido de um morto contar sua própria história, desde o introdutório presságio, diferente, por isto, peço-lhe licença meu querido leitor, para transcrevê-lo, sem acrescentar nem tirar:
Capítulo I - Óbito do Autor
     Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco. Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia -peneirava- uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: -«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.» Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, -a filha, um lírio-do-vale, - e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção. -Morto! morto! dizia consigo. É a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, -a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma. Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.
     Achei uma ideia ousada, um método diferente, naquela época, nunca havia lido nada igual, somente muito tempo mais tarde, li “A morte e a morte de Quincas Berro D´Água” de Jorge Amado, um romance mais ou menos parecido na morbidez, mas se em Machado de Assis, o morto conta sua vida e sua morte; no livro de Jorge Amado, toda pantomima é feita pelos amigos de Quincas Berro D´Água, que morre duas vezes, uma no fundo do mar.
     Outro livro que me impressionou e me arriscaria tecer alguns comentários, é Dom Casmurro, a começar pela escolha do título, onde o autor se confunde com o personagem, pois se Bento Fernandes Santiago tornou-se um misantropo, Joaquim Maria Machado de Assis não deixava por menos: - mãe doméstica, neto de escravo alforriado, pai operário, mulato, epilético, gago, criado pela madrasta no morro do Livramento vendendo cocada nas escolas, aprendeu francês, inglês e latim por sua conta e risco, depois de adulto, tornou-se arredio, quase antissocial.
     A trama de Dom Casmurro é uma trama comum com ingredientes de amor, amizade, traição e vingança - Bentinho deixa Capitu morrer esquecida num país da Europa e cria condições para que seu filho bastardo Ezequiel morresse lá fora, numa expedição científica no Egito -, porém, os traços psicológicos dos personagens são tão fortes, o enredo tão bem articulado, a linguagem fácil, não rebuscada, quase cotidiana, que é difícil não considerar o “Bruxo de Cosme Velho” de Drummond, o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
     Frases significativas definem a personalidade dos principais personagens de Dom Casmurro: “olhos de cigana, oblíqua e dissimulada”, “olhos de ressaca”, “tio Cosme tinha escritório na antiga Rua das Violas, perto do júri... trabalhava no crime”, “José Dias, agregado da família, amava os superlativos, as cortesias que fizesse, vinham antes do cálculo do que da índole”, “prima Justina vivia conosco por favor de minha mãe”, “ a mãe de Capitu, era alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros”, “Escobar, era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos... como tudo” e “Filho de Capitu e Bentinho. Tem o primeiro nome de Escobar. Imitava as pessoas. Vai para Europa com a mãe, estudou antropologia e mais tarde volta ao Brasil para rever o pai. Morre num país da África de febre tifoide.”
     Li, afora os autores portugueses, alguns escritores estrangeiros: Kafka, Hemingway, Sidney Sheldon, Morris West, Harold Robbins, Fiódor Dostoiévski, Allan Poe, Saint-Exupéry e outros, que a memória no momento me trai, todavia, nenhum desses autores, é maior do que Machado de Assis, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Drummond, Manuel Bandeira, Jorge Amado etc., etc.
     Faz-se necessário esclarecer que a inserção de escolas literárias e autores, nos parágrafos anteriores, antes de definir a minha trajetória até ALITA e a escolha do meu patrono, Walker Luna, não foi para esnobar conhecimento, mas teve o objetivo de demonstrar a minha fragilidade no saber literário, embora seja um leitor contumaz, leio por prazer, não por obrigação de adquirir conhecimento, não sou um experto do assunto do ponto de vista formal e um letrado de relevância.
     Uma semana ou duas semanas antes da fundação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, em 19 de abril de 2011, a minha esposa recebeu um telefonema do ilustre juiz da Vara da Infância e Juventude da Comarca de Itabuna, Marcos Bandeira, que desejava falar comigo. Diz a sabedoria popular: “Quem não deve não teme”, porém, recado de autoridade da justiça ou da polícia, que não é de sua intimidade, mesmo que não deva, fica um bichinho cutucando sua mente.
     Não o conhecia pessoalmente, não sabia se era gordo ou magro, baixo ou alto, preto ou branco, se era cordato ou arrogante, apenas, o conhecia de nome por ouvir dizer e de algumas notícias de jornal, notadamente, da Vara da Infância e Juventude itabunense, porém, dois ou três dias depois do recado de minha esposa, soube o verdadeiro motivo do ilustre magistrado: a fundação de uma academia de letras.
     Encontramos-nos em seu gabinete de trabalho pouco tempo depois. Fui acompanhado de minha filha, como se tratava de cultura, da fundação duma academia de letras, presenteei-lhe com dois livros de minha autoria e marcamos nos encontrar com os futuros membros na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania – FICC. Tive uma boa impressão do magistrado em nosso primeiro encontro. Notei que não se tratava dum pedante, dum presunçoso da função, mas um humanista de grande saber jurídico e antenado com o mundo.
     Aprendi com o saudoso professor Jorge Visca, no curso de psicopedagogia, que uma das dificuldades de aprendizagem é o medo do novo. Jamais faltei em 32 anos no exercício do magistério, um dia de aula, era o primeiro que chegava e o último que deixava a escola, porém, em 19 de abril de 2011, eu fui o último a chegar à FICC. Acho que estava com medo do novo, com medo das novas circunstâncias, da ideia de contribuir para fundação de uma academia de letras, principalmente, com medo de tornar-me membro de uma confraria de intelectuais de escol e fazer feio.
     Com exceção do professor e babalorixá Ruy Póvoas e da professora Dinalva Melo, conhecidos de priscas eras, do tempo da FAFI e do juiz Marcos Bandeira que o tinha conhecido recente, não conhecia mais ninguém no dia de fundação da ALITA. A diretoria da academia foi rapidamente definida e como presidente da academia, Dr. Marcos Bandeira e na vice-presidência, a juíza aposentada Dra. Sônia Maron. Os patronos e cadeiras vieram a seguir, por ordem alfabética, fui designado para cadeira nº. 09, e, escolhi para patrono: Joaquim Maria Machado de Assis.
Mas, na reunião subsequente, ainda no processo de arrumação dos membros efetivos e suplentes, um diálogo subjacente entre o presidente da ALITA Marcos Bandeira e o diretor de biblioteca, o escritor Cyro de Mattos, me chamou a atenção:
     - Ele aceitou?
     -Sim, mas com uma condição...
     -Qual a condição!?
     -Machado de Assis como patrono!
     -Mas... Machado... já foi escolhido... – o presidente embaraçado...
     A conversa foi destrinchada logo depois, é que o jornalista e escritor Hélio Pólvora só aceitaria ser membro efetivo da novata academia de letras itabunense se o seu patrono fosse Machado de Assis. Não deixei que a conversa se estendesse, incontinenti, abri mão do patrono que eu escolhi, não quis ser empecilho, quedei-me diante do prestígio intelectual do escritor Hélio Pólvora, que além de itabunense, é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), da Academia de Letras da Bahia (ALB), e da Academia de Letras de Ilhéus (ALI), e, publicado em vários países estrangeiros, aí, fiquei na casa do sem jeito, o jeito foi ficar com Walker Luna.
     Nunca havia lido uma linha sobre Walker Luna, não conhecia sua obra, não sabia se ele era autor de prosa ou poesia, ou, ambos, eu não sabia se ele havia nascido na Bahia, no Pará, ou, na Cochinchina, mas não manifestei a minha ignorância aos demais confrades, resignei-me com o ensinamento de Paulo Freire: “Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa”. Voltei para casa e consultei o “Google”, o pai dos burros e não o “Aurélio”, mas não encontrei nada ou quase nada de Walker Luna, agora, meu patrono.
     Recorri aos amigos, Antônio Lopes e Eglê, eles enviaram por e-mail algum material, porém, incipiente para o resumo biográfico do patrono, um mês depois, recebi um e-mail do filho de Walker Luna, através do presidente Marcos Bandeira, parabenizando-me pela homenagem que tinha prestado ao seu pai, com a promessa de disponibilizar o material necessário para se elaborar uma descrição mais completa e colocá-la no quadro de patrono, infelizmente, foi tudo.
     Walker Luna escreveu pouco, a exemplo de Castro Alves, Álvares de Azevedo, Firmino Rocha, Valdelice Pinheiro e Helena Borborema. Os seus livros: Esses seres de mim (1969), Companheiro (1979), Estação dos pés (1983) e Um ângulo entre montanhas (1985), são no dizer de Telmo Padilha: “... de elaboradíssima tessitura, são personalíssimos e possuem uma ductilidade rara entre os seus companheiros”.
     Homem arredio, antissocial, sofrido, se preocupava mais com a qualidade de sua poesia do que quantidade de editoração, ele mereceu de Assis Brasil e de seu conterrâneo Cyro de Mattos, sinceros elogios, para Cyro de Mattos, a poesia de Walker Luna “possui homogeneidade temática e formal, seus poemas interligam-se por um fio narrativo, um complementando o outro, atingindo níveis vertiginosos, compartilhando perplexidade, angústias, emoção que vibra o ontem e o hoje em sua dicção solitárias, ao mesmo tempo em que mistifica imagens.”
     Nascido em Itabuna, em 6 de agosto de 1925, começou o curso primário com Dona Etelvina de Andrade e o terminou no Colégio Belfor Saraiva, aos 14 anos, mudou-se para Salvador e concluiu o curso secundário na colégio do professor Hugo Baltazar. Conta-se que não fez curso superior e aos 19 anos radicou-se no Rio de Janeiro, onde começou publicar suas poesias.
     Não obstante a escassez de referências bibliográficas do poeta itabunense, sua falta de raízes da região do cacau, faz-se necessário transcrever (abaixo), na íntegra, o seu poema “A cidade Perdida”, extraída do livro: “Um ângulo entre montanhas, ano 1985”, quando o poeta retorna para sua terra natal.

          A CIDADE PERDIDA
          Walker Luna

          Minha cidade estendeu-se
          Alargou suas redondezas
          Multiplicada em distância
          Insatisfeita
          Subiu
          Buscando mais horizontes
          e perdeu-se dentro dela.
          Volto hoje a procurá-la.
          Transfiguraram-se os jardins
          E os encantos do seu rio
          Tomaram novas feições.
          Até o céu era outro,
          ou eram outros os meus olhos?
          Sob a ação de tanto tempo
          Anoiteceu em si mesma
          E confundiu seus vestígios
          Entre as formas
          De mais gritos.
          Agora
          É só pensamento
          - minha cidade de outrora.

     Além de correção de técnica e forma, o poeta expressa sensibilidade nostálgica, não reconhece mais a cidade pura de outrora, que nasceu e viveu parte de sua adolescência. Agora, atingida pelos fumos de desenvolvimento e progresso: “Insatisfeita subiu”. As imagens do passado não são mais as mesmas... O rio, o céu e os jardins perderam os seus encantos ou foi ele que perdeu o encanto do olhar. Hoje, a cidade só pensa em crescer e tudo ocorreu sob a ação inflexível do tempo, então, o poeta descobre que a Itabuna de outrora não mais existe: ”É só pensamento, minha cidade de outrora”.
     Hoje, estou convencido que Walker Luna alçou vôos tão alto na poesia quanto Machado de Assis na prosa, por isto, eu o aceitei como meu patrono!...
 


(*) Rilvan Batista de Santana -  lecionou Matemática no curso médio no Colégio Estadual de Itabuna – CEI e Instituto Municipal de Educação Aziz Maron – IMEAM, como professor. Foi vice-diretor e diretor do Colégio Estadual de Itabuna – CEI e Assistente de Direção do IMEAM, foi professor do Colégio Diógenes Vinhaes em Itajuípe, coordenador de área de matemática por vários anos. Publicou seus primeiros artigos e crônicas no semanário SB Informações e Negócios – Itabuna e no jornal Diário de Itabuna. Foi vereador e 1º Secretário do Legislativo itabunense, secretário (secção Itabuna) do Movimento Democrático Brasileiro-MDB, hoje, PMDB. Agraciado com o “Título de Cidadão Itabunense”, em 28 de Julho de 2019, pela Câmera de Vereadores de Itabuna. “Título de Mérito Educacional”, em 16 de outubro de 2019, pela Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC. Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA. Na Academia de Letras de Itabuna ocupa a cadeira 09 cujo patrono é Walker Luna. Desde cedo é leitor contumaz de poetas e romancistas brasileiros e estrangeiros, é um autodidata da literatura de ficção.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 25/11/2012
Alterado em 23/07/2025

A mercantilização da fé - R. Santana

 

A mercantilização da fé
A mercantilização da fé
R. Santana

O brasileiro tem uma fé ingênua, simplória, beata, atávica, desde os tempos de Pedro Álvares Cabral. Um dos primeiros atos da expedição de Cabral foi marcar o território com a cruz, símbolo do cristianismo, e, celebrar missas para índios e portugueses, antes mesmo da certeza se a terra descoberta era uma ilha ou um continente. A posse da terra se concretizou com os bandeirantes e o apoio dos jesuítas, dos missionários católicos, dos beneditinos, dos carmelitas e dos capuchinhos. Portanto, além da crença nativa do índio, o Brasil nasceu católico, apostólico romano. O Brasil não nasceu também protestante, porque Martinho Lutero nasceu quase ao mesmo tempo em que foi descoberto o nosso país continental.
Ninguém comunga totalmente com Karl Marx que “a religião é o ópio do povo”. A religião não entorpece o povo, não o deixa alienado para coisas do mundo, porém, quando se trata das coisas celestiais, o brasileiro se deixa levar sem discussão, sem questionamento, sem racionalidade... A maioria não “vê” a corrupção religiosa, a degradação moral, o charlatanismo, a ladroagem, os falsos profetas, os milagres forjados e o uso da cura psicossomática como intervenção divina, mas se comporta como um carneirinho a caminho do matadouro ou dá uma de João sem braço: - eu faço a minha parte, ele que preste conta a Deus...
A fé é de natureza humana. O homem primitivo tinha sua crença no sobrenatural, mas sem proselitismo, nascia com a necessidade de acreditar em algo que tivesse feito o mundo e tivesse o controle dos fenômenos da natureza. Ele não plantava nem colhia se a lua e o sol não sinalizassem bons tempos. O homem civilizado sistematizou a fé e fez proselitismo de sua crença.
Do ponto de vista histórico religioso, o brasileiro era mais feliz quando o país era de predominância católica e os padres tinham, somente, como opositores, as seitas dos ingênuos afrodescendentes, que cultuavam os seus orixás e cantavam seus axés nos terreiros e candomblés. Faz-se necessário dizer, que naquela época, os padres, os capuchinhos, as freiras, os religiosos de modo geral, com raríssimas exceções, eram exemplos de vida moral e religiosa e deixaram para posteridade um profícuo trabalho social na educação e na saúde.
A preocupação maior da igreja católica, naquela época, era a pregação dos Evangelhos. Os padres e os missionários cumpriam com fidelidade canina os ensinamentos de Jesus Cristo aos doze discípulos: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado... E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém” (Marcos 16:15-20). E, Jesus Cristo ainda acrescentou: “Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento” (Mateus 10: 9-10).
Em situação adversa, fez recomendação diferente no Evangelho de Lucas: “E perguntou-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhes, pois: Mas agora, quem tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e quem não tiver espada, venda o seu manto e compre-a” (Capítulo 22: 35-36). Mas, Jesus Cristo não recomendou que seus discípulos e apóstolos acumulassem riquezas e poder.
Lutero foi excomungado porque foi contra a venda de indulgências, provocou um cisma na igreja católica que deu origem à Reforma Protestante, durante séculos, os protestantes foram sinônimos de retidão moral, intelectual, e fiéis seguidores de Jesus Cristo e guardiães da palavra bíblica.
Hoje, esses ensinamentos de Jesus Cristo para que os seus seguidores não acumulassem riquezas e poder perderam-se no tempo, não se sabe mais quem é alho ou quem é bugalho, tudo é farinha do mesmo saco, as mazelas, o enriquecimento pessoal ou da instituição, é um escândalo, digno da investigação da Polícia Federal e da Receita Federal, se não fosse a Constituição Federal de 1988, no seu Artigo 5, Parágrafo VI que diz:
“...é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.
Porém, a exploração financeira de incautos fiéis em forma de doação é feita à luz do dia com promessas de curas de doenças incuráveis, alcoolismo, libertação das drogas, desmanches de bruxarias, conversão de homossexuais em heterossexuais, etc., etc. Os líderes religiosos mais lapidados, aqueles de fé religiosa, moral e intelectual mais apuradas, prometem a remissão dos pecados, a vida eterna e a ressurreição da alma com a vinda de Jesus Cristo.
Com o surgimento de pentecostais e de carismáticos, a igreja católica se tornou mais dinâmica, mais jovem, houve um novo rumo, surgiram novas ideias, mas deu origem a uma torre de babel exegética da palavra de Deus. Em voga, no momento, são as igrejas do divino Pai Eterno.
Os instrumentos atuais de evangelização, a exemplo dos canais de televisão, emissoras de rádio AM e FM, editoras, gravadoras, jornais, revistas, livros, música gospel, são necessários, o mundo cresceu e a população também, porém, esses instrumentos, adquiridos com o dinheiro dos incautos fiéis, são usados mais para fins comerciais, formação de holdings, enriquecimento pessoal e família, que na evangelização e promoção social.
Outro disparate de certas igrejas atuais, que não contribui para expansão da fé, a juízo de qualquer pessoa de bom senso, mas que serve para encher o poço de vaidade dos seus idealizadores: é a construção dos megassantuários, que o menor deles, deixaria o Templo de Salomão no chinelo, que levou 46 anos para ser construído e arregimentou milhares de trabalhadores e artesãos. É um crime com o dinheiro do povo, são minúsculas cidades ultramodernas, um retrocesso na fé, quando o homem ao invés de se preocupar com o Deus de espírito, ele adorava bezerros de ouro!...
Parece que estamos entorpecidos de papoulas e alienados, contribuímos com o nosso dinheirinho para que os charlatães e os falsos profetas se proliferem, surrupiando e enganando o nosso povo sofrido. Adulterando, modificando e falsificando a palavra de Deus de maneira cínica e herética.
Autor: Rilvan Batista de Santana
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 10/12/2012

A Falsidade - R. Santana R. Santana

 

                                                                                     A Falsidade
                                                                                              R. Santana

     Não faz muito tempo li um pensamento de Martinho Lutero que diz: “Existem três cães perigosos: a ingratidão, a soberba e a inveja. Quando mordem deixam uma ferida profunda.” Não morro de amores pelo sacerdote responsável pela Reforma Protestante, todavia, a minha admiração pelo seu pensamento é perene: são três facetas da personalidade que o homem escamoteia, esconde, sublima, mas de quando em vez, ele não consegue deter um desses pensamentos maus e esse cão sangra a nossa carne e dilacera o nosso coração.
     Porém, o sacerdote alemão deixou de incluir no seu pensamento, a mãe que gerou a ingratidão, a soberba e a inveja: a falsidade, que travestida da mentira, da calúnia, do fingimento e da hipocrisia, não só pode deixar ferida profunda com sua mordida, mas pode destruir sonhos e vidas.
     Esses vis sentimentos o homem não consegue escondê-los por muito tempo, pois eles têm um pé na ira e são temperamentais, despudorados, imorais e obtusos, enquanto a falsidade se alimenta do ódio e solapa com ardis, dissimulação e manhas o mais experiente e inteligente dos homens.
     A ingratidão, a soberba e a inveja são sementes que vicejam mais no terreno da ignorância, onde a terra é estéril em conhecimento. O homem ignorante, mesquinho, vulgar, se apropria com mais facilidade desses males do pensamento luterano. Porém, a falsidade viceja em terreno de conhecimento, inteligente, polido, educado e civilizado. Jamais um troglodita irá cometer um crime de falsidade ideológica, mas ele poderá ser acometido, facilmente, de sentimentos de ingratidão, soberba e inveja.
     Às vezes, eu fico aqui no meu canto, matutando comigo mesmo (uma amiga me deu o epíteto de “homem pensante”, pura bondade sua), quanta gente falsa existe nesse mundo de meu Deus!? Enésima. Essa gente é escorregadia, cordata a maioria das vezes, mas não tem o menor remorso de não lhe avisar que uma cobra venenosa vai lhe picar lá adiante se você não sair do seu caminho. São pessoas ardilosas e inteligentes que espalham a mentira, a calúnia e a hipocrisia com tanta competência que a vítima por mais que se esforce, não consegue que a verdade prevaleça...
     O falso é simpático, envolvente, não toma partido de frente, sempre em cima do muro, mas por detrás lhe apunhala sem o menor resquício de consciência. O falso, também, é ingrato, soberbo e invejoso, mas age com tanta doçura, com tanta polidez que é difícil a pessoa de boa fé descobrir o lobo embaixo da pele de cordeiro.
     O falso é desprovido de lealdade, de fidelidade, de amor, é egocêntrico de natureza, só pensa em si, pouco lhe incomoda trair sicrano ou fulano, desde que seja compensado por beltrano, os seus objetivos estão acima de qualquer consideração firme e sadia.
     O falso é hipócrita, é afetado, gosta de aparecer, chamar a atenção, quer ser valorizado nos seus feitos, se não consegue por mérito, espalha calúnia e mentira com a mesma desenvoltura que toma um copo de água, o seu slogan preferido é o princípio nazista que uma mentira bem repetida toma foro de verdade.
     Porém, o falso e a falsidade não se sustentam nem impressionam por muito tempo, é igual à fábula da máscara de La Fontaine, impressiona à primeira vista, é esteticamente bonita, mas um dia se descobre que a cabeça da máscara é oca e a verdade virá á tona.
     O falso é um inimigo não declarado, mas não se sente seu inimigo, é que moralmente, os fins justificam os meios e se alguém está no seu caminho, a desídia e os meios escusos são sua arma.
     O falso tem quase a mesma lógica de um proeminente político que já se foi que dizia: “os meus amigos não têm defeitos, mas os meus inimigos se não têm defeitos, eu os coloco”, portanto, o falso não mede aleivosia para denegrir quem lhe atrapalhe e não mede esforço para bajular quem lhe é de seu interesse.
     Quando se é vítima da falsidade, não adianta espernear, esbravejar – daqui que se prove que sapo não tem cabelo... -, ninguém lhe dará ouvido e se lhe der, é para atenuar o falso e confirmar a falsidade, porque panela que muito se mexe, mingau vira angu. Então, faz-se o quê? Nada. O tempo é o senhor da razão, que se dê tempo ao tempo. Se viver por muito tempo irá provar que aquele indivíduo não passa de um escroque e que muita gente se enganou e deixou-se enganar!...



Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença:Creative commons
Imagem: Google

Mãe Anastácia = R. Santana

 

Mãe Anastácia
Mãe Anastácia
R. Santana


Assim que Christina deixa o Shopping Iguatemi de Salvador e pára no primeiro semáforo, o seu carro é tomado por moleques que vendem água mineral, biscoito caseiro, doces, frutas ou limpa o para-brisa com água e sabão numa operação recorde e eficiente. Christina não quis nada, dispensou todos os moleques com doçura e educação, porém, um deles insistiu e jogou dentro do carro, em seu colo, um panfleto que convidava visitar os serviços espirituais de uma mãe de santo pra o lado de Matatu de Brotas, a Yalorixá Anastácia Ogum Xoroquê.
Christina, católica de nascimento, pouco se deixava guiar pela fé, não conhecia pelo nome, meia dúzia de santos de sua igreja, jamais se sensibilizou ou quis conhecer seitas de oguns, oxuns e orixás, terreiros, muito menos visitar a Yalorixá ou algum Babalorixá, para bem da verdade, ela não sabia nem o que esses títulos significavam, cresceu ouvindo falar de candomblé, pai de santo, mãe de santo, cigana, cartomante, vidente, sensitivo, bruxo, mas nada disso lhe tocava o coração, todavia, aquele panfleto lhe mexeu com o coração e a razão, mais com o coração do que com a razão, eis aí o que dizia o panfleto:

“Yalorixá Anastácia Ogum Xoroquê tem mais de 25 anos de santo e sua casa é aberta a todos que buscam... Atende com JOGOS DE BÚZIOS E CARTAS com hora e dia marcados, conforme sua ligação. Lembre-se: os orixás vão lhe mostrar o caminho certo a ser percorrido.”

Christina não conhecia Flávio nem Roseli, ambos tinham sido colegas de faculdade de Ricardo. Quando o seu marido convidou os seus ex-colegas de faculdade para trabalharem em sua empresa de venda de carros novos e usados, ela foi contra sem muitos argumentos convincentes, mais ciúme de Ricardo do que razões profissionais:
- Não se mistura negócio com amizade!
- Querida, estou contratando dois profissionais de qualidade administrativa comprovada, cursos no exterior, ele irá gerir o departamento comercial e Roseli o RH, não é só amizade! – Christina não se conteve:
- Eu sou idiota Ricardo? Vocês já foram pra cama! – Ricardo não tossiu nem mugiu, deu-lhe as costas e saiu.
Enquanto subia a rua procurando a casa da Yalorixá Anastácia no endereço indicado no panfleto, Christina ia rememorando os argumentos do seu marido para trazê-los do Rio de Janeiro para Salvador, ela tentou demovê-lo da ideia, argumentou custos, que o mercado baiano estava cheio de bons administradores, não teve jeito, ele bateu pé e os dois estavam lá na empresa de Ricardo há mais de um ano. Agora, ele não se cansava de celebrar a vinda de Flávio e Roseli para capital baiana, ao passo que cada dia, ela se tornava mais infeliz com a indiferença e o desprezo do marido, por isto, resolveu, mesmo sem a fé dos seguidores, consultar a famosa mãe Anastácia para encontrar resposta que lhe tirasse daquela tormenta e cisma.
Certamente, a casa de terreiro da Yalorixá não era naquele luxuoso sobrado colonial, exceto a sala em que ela foi atendida, não havia vela a bruxulear os santos, não havia ostentação, tudo era discreto sem ser vulgar, porém, os móveis e o prédio denunciavam a prosperidade da mãe de santo. A antessala onde os consulentes aguardavam a Yalorixá parecia o consultório dum médico de nomeada.
- Filha, antes das cartas, oremos ao Pai Ogum para que as causas de suas dificuldades sejam reveladas e pisadas com os cascos do seu cavalo e eliminadas com a força de sua espada... – começou a Yalorixá:

- Ó Pai Ogum, a vida desta jovem senhora está confusa e conturbada, peço-lhe que lhe indique o caminho a seguir e lhe dê coragem e força para que ela esmague todo o mal que a persegue. Com sua proteção, ela terá segurança e o apoio de guias e orixás, que a paz de Oxalá seja perene em sua vida... Assim seja e assim será! - feita a oração, a mãe de Santo começou a leitura das cartas, Christina nervosa e tensa não se aguentava na cadeira... A primeira carta foi Valete de Espadas:
- Filha, o naipe de espadas indica violência e desgraça. Homem sedutor, mas traiçoeiro e mau caráter lhe persegue... – Fez um “Anh!” e a Dama de Espadas caiu na mesa:
- Filha, ele e ela estão em conluio para lhe destruir!... Mulher bonita, mas perigosa e traiçoeira... – a mãe de santo foi interrompida por Christina:
- Meu Deus! Meu Deus! Ricardo deveria estar aqui, mãe Anastácia! – e desabou em pranto.
A sessão de cartas foi interrompida, Christina emocionalmente desabou, mãe Anastácia e suas filhas de santo colocaram-na num quarto para descansar. Coincidência ou não, o Valete e a Dama de Espadas, significavam de maneira clara, os seus desafetos Flávio e Roseli. A mãe Anastácia não os conhecia, portanto, não era coincidência, as energias de Exu e Ogum, tinham sido canalizadas de maneira certa, decerto, essas entidades fariam justiça através da Yalorixá e foi sua promessa assim que Christina saiu do transe:
- Filha, a mãe Anastácia lhe promete com ajuda dos meus guias espirituais, debelar o mal de sua vida, a concórdia e a paz voltarão reinar no seu lar. O seu marido irá reconhecer o seu erro e lhe pedir perdão, mas para isto acontecer, a filha terá que ter muita fé e obedecer aos conselhos desta Yalorixá Xoroquê, a começar pela sua iniciação, deseja ser iniciada!?
Sim! - promessa feita, promessa cumprida, dias depois o bem vence o mal.
Pareceu que tudo foi arranjado, pois Ricardo chegou num momento em que Roseli estapeava o marido numa crise histérica, xingando-lhe para quem a quisesse ouvir:
- Seu veado, seu xibungo, seu pedófilo, me traindo com esse fedelho – o rapazinho não se aguentava nas pernas de medo, trêmulo, não conseguia recompor sua roupa -, nós tínhamos um plano para nos dar bem com Ricardo e você não consegue deixar a bicha enrustida por mais tempo!?
- O quê!? – todos tomaram susto com o aparecimento inesperado do patrão. O plano foi esclarecido: Roseli bonita e atraente assediaria o seu ex-colega, agora, patrão, e, quando ele estivesse completamente apaixonado, o divórcio de Christina e a extorsão do marido traído, deixariam Ricardo em maus lençóis, inclusive, financeiro.
Ninguém sabe se as coisas feitas da Yalorixá foram providenciais, certo é que o mal por si se destrói sem a intervenção dos orixás.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 09.01.2013

O que é filosofia? - R. Santana

 

O que é filosofia?
O que é filosofia?
R. Santana


Não sei. O saudoso professor Flávio Simões dizia que filosofia: “... é procurar um gato preto num quarto escuro e o gato preto não se encontra lá”. Claro que não passava de bazófia do professor, de brincadeira, uma maneira espirituosa de Flávio Simões definir o que não se define. Um dos primeiros impactos do iniciante de filosofia é não encontrar resposta pronta na busca do conhecimento. As ideias positivas não têm lugar na filosofia. Sócrates, com sua maiêutica, foi o pensador que deu rumo e método às discussões filosóficas.
O significado etimológico da palavra é de origem grega: “Philo” e “Sophia”, que é “amor à sabedoria”. O objeto primeiro da filosofia é o estudo do ser, causa primeira, princípio e fim em si mesmo, mas o estudo da natureza (os pré-socráticos), da Ética, da Lógica, da Sociologia, da Gnosiologia, da História, da Antropologia, “faz parte”, como diria o big brother Bambam, encimada pelas experiências do pensamento, do raciocínio lógico, da análise e da síntese.
Caro leitor, no início dos anos 70, quando comecei estudar filosofia, ocorreu um episódio que jamais esquecerei: egresso do curso “científico”, aluno esforçado, mas sem brilho, acostumado com matérias menos abstratas e mais objetivas, eu obtive aprendizagem insuficiente na primeira avaliação de Gnosiologia da professora Helena dos Anjos (este nome de gnosiologia é difícil de pronunciar, parece estrambótico, mas não é nada mais, nem nada menos, do que a teoria sistematizada do conhecimento), fui às lágrimas, pois havia estudado dias a fio o conhecimento na visão de pensadores gênios como Aristóteles, Locke, Hume, Kant, etc., etc.
Porém, fazer filosofia não é bicho de sete cabeças, é refletir a realidade do dia a dia sem a preocupação dos seus mistérios. Que importa saber quem veio primeiro se o ovo ou a galinha, se essência ou existência, se descendemos de Adão e Eva ou somos primos do macaco de Darwin e se o fim do homem é a morte, são discussões estéreis!...
O filósofo não é um ser alienado da realidade que vive em perene contemplação, mas um homem que se distingue por aprofundar seu pensamento na sociedade e nas coisas do mundo. Os estereótipos construídos ao longo do tempo de filósofo andando nas nuvens ou de comportamentos excêntricos não se sustentam nos dias atuais. Hoje, fazer filosofia é buscar solução existencial, é compromisso moral e intelectual com o outro, sem necessariamente, renunciar às questões metafísicas.
Por isso, é difícil definir filosofia face sua abrangência intelectual, o seu objeto de estudo é a reflexão do conhecimento e o conhecimento por si não é estanque é de natureza infinita, didaticamente, ela foi definida por “amor à sabedoria”, pois é o amor ao saber que faz o homem filósofo. Certas discussões filosóficas como a existência de Deus, de espírito, de alma, o que é vida e seu significado, se a morte é o fim em si mesmo ou a se a morte é, apenas, outro estado de matéria, são discussões inúteis se não forem respaldadas pela fé e pela ciência.
Parodiando Aristóteles, o homem é um animal político e um filósofo, o homem consciente faz digressão da existência e do mundo todo tempo. Se ele não faz política partidária, faz política na família, na escola, no trabalho, no lazer, então, é envolvido por políticas públicas, do mesmo modo, o homem é um ser que pensa, sofre, se angustia, gosta, ama e persegue a felicidade.
Portanto, não é necessário saber o que significa filosofia, é necessário viver filosofia, distinguir o bem e o mal, desejar para o outro o que deseja para si, não corromper e não se deixar corromper, ser solidário com o sofrimento do próximo, sublimar o defeito do amigo e mais tolerante com o inimigo, agradecer a Deus pelo dom da vida, ter tentado mais e aprender com o que não deu certo, não fazer do conhecimento uma obsessão, não desperdiçar a vida com elucubrações fúteis, viver como se cada dia fosse o último na prática das boas coisas.
Filosofar é que mantém o homem vivo. O homem é o único animal que medita, que raciocina e que é capaz de matutar pensamentos e ações. Sócrates discutia filosofia com jovens, sofistas, soldados e gente do povo de maneira simples e descomplicada. Platão enquanto passeava pelos jardins de sua academia, refletia com os seus discípulos os temas que açambarcavam o conhecimento daquela época.
Enfim, filosofar é a arte de suavizar os problemas existenciais do homem sem negligência dos valores morais e estéticos, melhor do que definir filosofia é conduzir a vida na busca da verdade e do amor. O homem nasceu pra ser feliz na simplicidade, porém, se a vaidade, o egoísmo, o orgulho e a inveja prevalecem nele, decerto, ele contraria os desígnios de Deus e será infeliz sempre.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 15 de janeiro de 2013
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 16/01/2013

Suor, cacau e sangue - R. Santana

 

            Suor, cacau e sangue.
R. Santana

    O suor gotejava do rosto de Tote, o pé de jaqueira projetava boa sombra, mas o sol a pino queimava o dia. Tote não montou emboscada ali por acaso, Manduquinha teria que passar por aquela vereda pra chegar à sede principal da fazenda Camacã. Além dos galhos de jaqueira servirem de um bom mirante, por detrás da árvore, havia um outeiro que dava pra mata fechada e lhe protegeria das balas do tiroteio. Não era medroso, mas todo cuidado era pouco no trato com Manduquinha, pois o filho mais velho de Dr. Armando Alvarez e Alvarez, rosnava valentia e não se desgrudava de parabelum, de capangas, e, o mais temido era Manuel das Onças.
    Não armou tocaia só, levou também o negro Firmino que lhe era fiel como um cão e lhe ajudava tocar a burara Santa Fé e contratou alguns homens. O negro Firmino não era moço, mas de meia idade, os cabelos pouco e pouco encaneciam... Tote lhe gozava com o dito popular de que “negro quando pinta tem três vezes trinta”. Ele não bebia nem fumava, ainda forte como um touro, de pouca conversa, aliás, de nenhuma conversa com desconhecido, os mais velhos diziam que o negro já havia mandado mais de 30 pra São Pedro. Gostou de Tote desde que o patrão chegou fugido de Sergipe e comprou as terras da futura burara Santa Fé. Ambos eram unha e carne, se Tote fosse negro, os estranhos os tomariam por pai e filho.
    Filho de família sergipana abastada, Tote fugiu de Simão Dias por vingar o assassinato de seu pai por um vizinho de malhada e homiziou-se nas terras do cacau do Sul da Bahia. O seu pai sentiu-se no prejuízo com o gado do vizinho que aproveitou um buraco na cerca de sua propriedade, comeu o milharal e pisoteou a roça de fumo. O pai de Tote exigiu indenização do vizinho, que não lhe pagou o prejuízo e lhe tirou a vida. Tote arrumou a vida dos irmãos e da mãe, pegou sua herança e quando ninguém lembrava mais do crime, vingou a morte de seu pai – acabara de completar 25 anos de idade.
    Quando Tote comprou as 40 hectares de mata, às margens do rio Pardo, no ano de 1941, não muito longe de Vargito, distrito de Canavieiras, não encontrou um pé de cacau, mas pequi, Jacarandá, peroba, jequitibá, pau-brasil, cedro, ipê e outras espécies menos valiosas. Ele derrubou mata, cabrocou a terra, “coivarou” (não gostava de queimadas, a coivara apodrecia com o tempo), fez chácara, plantou aipim, mandioca, bananeira, feijão, milho e 25 tarefas de cacau, além disto, construiu casa de taipa e antes mesmo do primeiro fruto de cacau, improvisou barcaça de madeira e zinco.
    Nos dois primeiros anos, Tote e o negro Firmino, comeram o pão que o diabo amassou, pouca coisa eles compravam em Vargito (farinha, toucinho, azeite de dendê, sal, querosene, fósforo, sabão massa e pó de café), a roça e o rio Pardo lhes davam quase tudo. Não havia uma semana que o negro Firmino não salgasse um tatu, uma capivara, um preá, ou, enchesse os samburás de peixe.
      O doutor Armando era experto em caxixe dizia o povo e fez uma fortuna colossal, colhia mais de 30.000 arrobas/ano de cacau, afora as fazendas de gado. O velho não era dado a jagunço, tudo começou com Manduquinha que após perambular na noite e nas faculdades de Rio de Janeiro e São Paulo, voltou pra casa sem diploma e cheio de más intenções.
    Foi no retorno de Manduquinha que começaram os problemas de Tote (a Santa Fé ficou ilhada com o avanço das terras da fazenda Camacã), principalmente, por ter recusado proposta do herdeiro do doutor advogado para integrar o seu séquito:
    - Tote, quer trabalhar comigo?
    - Manduquinha, a Santa Fé não deixa...
    - Por falar em Santa Fé, meu pai dobra o valor que lhe fez!
    - Por favor, diga ao seu pai que nem pelo triplo!
    - Então, trabalhe pra mim que irei tirar essa ideia do velho!
    - Fazer o quê?
    - Na minha segurança!
  - Em sua segurança, Manduquinha? Quem irá tocar num fio de cabelo do filho de Dr. Armando Alvarez e     Alvarez? Só se for doido! – deu uma risada gostosa que deixou Manduquinha desconcertado.
    - Não brinque rapaz!
    - Estou falando sério, quem ousará lhe fazer o mal!?
    - Não é bem assim rapaz, a fazenda Camacã, hoje, é um mundo de grande, tivemos que mexer com muitos posseiros, tem gente que vende seu pedacinho de terra numa boa, mas outros resistem ao nosso projeto de expansão, aí tivemos que endurecer...
    - Mas Manduquinha, ninguém é obrigado vender o que é seu! – provocou.
   - Tote, meu pai tem o título de mais 2000 hectares, desde o Vargito e muito além do Rio Pardo, posseiro não é dono de terra, não tem escritura, é um invasor de terras alheias!!! – irritado.
    - Desculpe-me, eu não entendo de posseiros... – Manduquinha continuou:
   - O posseiro é um aproveitador, invade nossa terra, planta aipim, mandioca, bananeira, faz uma horta no fundo da choupana, depois quer cobrar o dinheiro de uma fazenda!
    - Manduquinha, já lhe pedi desculpa. Eu não entendo de posse nem de posseiro, é coisa de tabelião e de doutor advogado!...
    - Tudo bem Tote, deixemos esse negócio pra lá, porém, o convite está de pé, vai ou não trabalhar pra mim?
    - Eu não tenho jeito nem coragem pra essas coisas...
   - Deixe de ser modesto, rapaz! Eu soube que tu és um ás no gatilho, derruba uma araponga no voo e valente como um cão de raça!
    - O povo exagera...
    Tote não aceitou de forma alguma trabalhar para os Alvarez. Manduquinha desiludido de contar com a arma do rapaz, contratou a peso de ouro o pistoleiro Manuel das Onças. Manuel das Onças, além de valente, atirava com perfeição, papa-cria e malvado, suas histórias eram de arrepiar cabelo de defunto... Contava-se que certa feita, um dos seus asseclas comeu uma de suas filhas, ele matou o cabra-de-peia aos pedacinhos, começou pelos ovos.
    Manduquinha não podia peitar Tote como os posseiros, seu pedaço de terra havia sido comprado antes dos avanços da fazenda Camacã, escriturada e registrada no cartório de imóveis de Canavieiras, documento nos conformes, a saída legal seria a compra superfaturada da Santa Fé se ele resolvesse vendê-la, mas Tote estava tomando gosto na produção de cacau que começava vender nos armazéns de Itabuna ou nos armazéns da família Kaufman em Ilhéus.
   Porém, com recusa de Tote à proposta de Manduquinha de fazê-lo chefe dos jagunços, passou ser retaliado: primeiro, com dificuldade no escoamento de seu cacau, Manduquinha proibiu os animais da burara Santa Fé, passarem por suas terras até Vargito; depois, sua burara foi assaltada, queimaram a barcaça, não queimaram suas roças de cacau porque era crime repudiado por todos e foi salvo do atentado, graças, ele e Firmino estarem pescando no rio Panelão.
    Por isso, Tote resolveu acertar contas com o filho de Armando Alvarez e Alvarez. Não deu queixa à polícia de Canavieiras, medida inútil, além de não ter provas contra seu desafeto, sua palavra pouco significava diante do prestígio político e riqueza de Manduquinha. Na casa do sem jeito, pensou lhe tocaiar, antes de nova investida... Traçou todos os planos. Estudou os pontos fracos e fortes do seu inimigo, repassou-os, concluiu que não seria fácil, pois o número de capangas que escoltava Manduquinha era grande, sem falar em Manuel das Onças que valia pelos demais em astúcia e maldade, então, o negro Firmino lhe foi providencial:
    - Pur qui o sinhô num cuntrata os pusseros qui ile expussou? – foi a faísca que faltava na cabeça de Tote, mas ponderou:
    - Será que podemos confiar nessa gente, Firmino?
    - Dexe cumigo! – assim foi feito.
        O suor gotejava do rosto de Tote mais do que os outros, o calor abafado era terrível. Ele e os demais minaram o chão de armadilhas num raio de 50 metros. Tote ficou encarregado de Manuel das Onças, seria o tiro primeiro, se falhasse, Firmino completaria o serviço, não era pra matar Manduquinha, havia um homem especialista em laço, a ideia era laçá-lo e lhe puxar de cima do cavalo para um lugar seguro, vivo valia uma fortuna, morto seria pasto de urubus antes que a família chegasse.
    A surpresa vale por um batalhão. O olheiro escanchado no mais alto galho do velho Jequitibá assoviou como um curió (era o sinal, eles foram vistos), todos ficaram apostos com o dedo no gatilho de suas carabinas e Tote se encarregou do primeiro tiro. Às 15:40 horas, Manduquinha e seus capangas caíram na toca do leão.
    O bando foi surpreendido, os jagunços e Manduquinha galopavam relaxados, assoviando e cantando, Manuel das Onças foi o primeiro, o balaço trespassou-lhe o coração, um tiro impecável... Manduquinha foi laçado e puxado do cavalo, antes que o tiroteio tomasse gosto. O bando instintivamente tentou recuar de maneira logística, mas todos estavam cercados pelo fogo das carabinas, além disto, foram surpreendidos com várias armadilhas: buracos cobertos de galhos, tábuas de prego, cordas esticadas no caminho... Foi uma carnificina, do lado dos jagunços não sobrou ninguém pra contar história, um posseiro foi atingido e morto.
    Manduquinha foi feito prisioneiro, escreveu para que seu pai lhe socorresse, indenizou como devia meia dúzia de posseiros, comprou a burara de Tote pelo triplo do valor e jamais esqueceu a lição enquanto vida teve.
    Tote, Firmino e os posseiros desapareceram das terras do Sul da Bahia.



Autor: Rilvan Batista de Santana
Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna-ALITA 
Licença: Creative Commons 
Itabuna, 22.01.2013


Post Scriptum: Os saudosos mestres da língua portuguesa, Garrido e Alicides Paulino achavam um dos melhores CONTOS da luta das terras do cacau.







 

 

O dia que eu me senti importante - R. Santana

 

O dia que eu me senti importante
O dia que eu me senti importante
R. Santana

Sempre gostei de ser o último da assembleia ou o último da mesa. Acho que nunca perdi o complexo de inferioridade, aprendi com o mundo. As pessoas, afora os bajuladores, nunca elogiam, sempre elas querem puxar o tapete. O primeiro romance que publiquei, fiz a introdução elogiando um conhecido professor de português desta terra, mas ao invés de me agradecer, de me parabenizar pela criatividade e coragem de exposição, ele teceu críticas sobre as sutilezas da língua, mais uma questão de estilo. Resguardando as devidas proporções históricas e saber, a mesma coisa das “Réplicas” e “Tréplicas” de Rui Barbosa e Ernesto Carneiro Ribeiro.
Às vezes, prefiro sacrificar uma próclise, uma mesóclise ou uma ênclise, por exemplo, mais por ser agradável ao ouvido do que não sacrificar as normas da gramática. A língua é dinâmica, quem faz o idioma é o povo, o que é errado hoje pelos filólogos, é incorporado amanhã pela força da repetência popular. É evidente que as convenções têm que ser seguidas, mas sem prejuízo da comunicação e da criatividade.
Caro leitor, eu não quero lhe ser enfadonho, o preâmbulo foi para justificar o título e o episódio que lhe irei contar e que me deu força e ânimo para continuar escrevendo, mesmo que alguém não goste do que escrevo, escrever para mim é um prazer, é um gozo, é uma maneira de exorcizar o “demônio de ideias” que me persegue. E, sou feliz viver no tempo da Internet, pois não existe barreira de comunicação e divulgação, se daqui alguns anos o que escrevi não for alimentado, não for literatura, o destino será o lixo eletrônico.
O episódio ocorreu no início dos anos 70. Escrevi, naquela época, algumas crônicas para o”SB Informações e Negócios”, semanário de Nelito Carvalho e redator o poeta e jornalista Plínio Aguiar. O “SB Informações e Negócios” era o jornal de maior prestígio de Itabuna, naquele tempo, um luxo editorial, combativo e independente, em seu quadro funcional integrava os melhores jornalistas e articulistas, os leitores e os intelectuais afirmavam sem pejo que “o domingo sem o SB em Itabuna não é domingo”, com razão, o jornal de Nelito Carvalho foi um diferencial no jornalismo itabunense.
Dentre essas crônicas que escrevi para o “SB Informações e Negócios”, duas ficaram registradas na minha memória: “Buracolândia” e “Colônia Nosso Lar: Obra de fachada”. A primeira, por tecer uma crítica humorada e de fina ironia pela buraqueira da cidade; a segunda, por mexer na obra social de Fernando Dantas, nesta quase fui linchado.
A “Colônia Nosso Lar”, hoje, é o “Lar Fabiano de Cristo”. Fernando Dantas adquiriu uma área significativa e fundou uma casa de utilidade pública que abrigava e alimentava menores carentes e que não tinham pais. Lá, havia escola, horticultura, quadra de esporte e um zoológico, tudo bonitinho, tudo arrumadinho, mas havia muita conversa desairosa na comunidade sobre a finalidade das verbas públicas e comportamentos suspeitos de funcionários com os menores. Com base nesses fatos, fiz a minha crônica: deu um pega pra capar, uma dor de cabeça dos diabos, ameaça de processo e outras coisas, mas Nelito e outros amigos influentes aguentaram as pontas e ficou o dito pelo não dito.
Ney Ferreira, coronel da reserva da polícia militar, professor de Direito da UFBA, genro de Antônio Balbino e deputado federal, leu uma dessas crônicas e quando o saudoso deputado estadual Daniel Gomes informou-lhe que me conhecia, Ney Ferreira pediu-lhe que me convidasse, fui encontrá-lo no apartamento presidencial do “Lord Hotel”:
- Mas é um menino!...
- Ney, já passa dos dezoito anos de idade! – informou-lhe Daniel Gomes, brincando.
- Franzino e baixinho, Daniel, não lhe daria mais do que 17... – virou-se pra mim:
- Rapaz, eu gostei de sua crônica, você escreve como gente grande, parabéns!
Até hoje, desconfio que foi conversa de político, o deputado federal Ney Ferreira quis conquistar o meu voto e os votos dos meus eleitores, ele era candidato à reeleição e o cronista tupiniquim, candidato a vereador.
Porém, deixei seu apartamento cheio de sonhos de escritor: Nei Ferreira, advogado de quatro costados, genro de governador, presidente do Vitória de Salvador, oficial da polícia baiana, um dos próceres do MDB nacional, político de vasta experiência e prestígio tinha elogiado a minha crônica, confesso-lhe leitor, saí da lá com 2 m de altura de vaidade e 120 kg de presunção: - porque foi o dia que alguém me fez sentir importante!...

Autor: Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 25.01.2013.
Rilvan Santana

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