11.10.2025

Carta para João Batista de Paula - R. Santana


Carta para João Batista de Paula
R. Santana

     Estimado escritor, eu gosto de escrever carta para os amigos, porque a escrita fica e a palavra voa, ademais, eu inspiro-me em Machado de Assis, Rilke, Kafka, Mário Vargas Llosa e tantos outros escritores que usaram muito esse expediente da palavra escrita para amigos e mulheres amadas. Nem todo mundo tem o dom da fala, é necessário um raciocínio rápido e lógico para não se cometer gafe ou injustiça, todavia, a palavra escrita é medida, pesada e analisada antes de ir para o papel.
     Ultimamente, evito escrever carta para os amigos, principalmente, se a carta é mais uma apologia, um louvor público. Como bom geminiano coloco tudo pra fora, de espírito desarmado, com simplicidade, digo tudo que sinto, francamente, sem sutilezas, sem ardis, com fidelidade canina e generosidade, fico feliz com o sucesso alheio, não me move mesquinhez nem egoísmo, sou feliz se posso partilhar minha felicidade.
     Às vezes, sou decepcionado com a pequenez, o egoísmo e a falta de generosidade de certas pessoas. Não faz muito tempo, sofri uma advertência institucional e o principal signatário, eu havia lhe elogiado (pra surpresa e contragosto de muitos que não gostam dele) em carta aberta e sua obra literária, um mês antes. Não me arrependi dos comentários que fiz de sua obra, os problemas pessoais não podem interferir na produção da palavra, a prata da casa deve ser valorizada sempre, não sei se ele fará história como fizeram Jorge Amado e Adonias Filho, escritores do Sul da Bahia que ficaram nos anais da Academia Brasileira de Letras (ABL), que se dê tempo ao tempo...
     Caro João de Paula, eu ouvi atento suas queixas por não ter sido convidado para nenhuma das nossas academias de letras: não sei se irá lhe servir de consolo, porém, muita gente de estatura universal declinou essa honraria sem prejuízo para sua produção literária ou filosófica, de chofre, eu lembro-me dos escritores e filósofos existencialistas, Simone Beauvoir e Jean Paul Sartre que dispensaram a mãe de todas as academias: L´ Academie Française, instituição fundada sobe o reinado de Luis XIII, no ano de 1635 de Nosso Senhor Jesus Cristo.
     Meu caro João de Paula, quem leu “Farda, fardão, camisola de dormir”, do nosso gênio das letras, Jorge Amado, irá perceber que as articulações, os golpes baixos, as condutas desairosas, os mexericos, as picuinhas, o tráfico de influência, o status quo do postulante e a política precedem e é condição sine qua non à imortalidade. Não faz muito tempo o escritor baiano, lido em vários países, Antônio Torres, foi preterido pelo jornalista do Sistema Globo, Merval Pereira, homem de um só livro e várias reportagens, para Academia Brasileira de Letras – ABL. Portanto, meu caro João de Paula, não subestime o seu trabalho nem iniba seu veio criativo por não integrar nenhuma dessas instituições, pois se sua obra for original, criativa, consistente, tiver fôlego, ela sobreviverá às intempéries de injustiças e incompreensões.
     Li os seus livros: “Proibido Ler – a bela face do mal”, “A Bíblia do Inconveniente – impossível acontece” e “Viva Bem – Que Deus Lhe Ajude a Gozar”, que se caracterizam por mensagens de autoajuda e mensagens de humor. Seus livros lidos an passant, eles parecem expressar uma subliteratura, todavia, numa análise acurada, nota-se que são mensagens significativas, não mensagens à moda de Nostradamus que profetizou sinistro e apocalipse, mas são mensagens positivas e cotidianas de ajuda ao próximo.
     Por outro lado, seu lado humorístico, hilariante, me faz lembrar o humor espirituoso de Luis Fernando Veríssimo e as sátiras humoradas de José Simão, lá atrás, no Brasil colônia, lembra-me Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”. Não é fácil fazer alguém rir, para os críticos desavisados, texto de humor não é de grande valor literário, ledo engano quem assim pensa, porque são textos que requerem imaginação, sutileza e perspicácia na elaboração.
     Não se pode subestimar quem escreve mensagem deste teor: “... Faz parte da boa educação desejarmos ao próximo: um bom dia! O melhor de tudo é fazer algo para o bem da humanidade. Pensando e agindo assim: Hoje todas as pessoas que passarem no meu dia, devo fazer algo para vê-las felizes. Mas, devo ser o bom exemplo no começar o dia feliz...” Assim é o conteúdo dos livros de João de Paula, mesmo aquelas fábulas compiladas na internet, ele dá uma roupagem diferente e as histórias ficam mais bonitas e encerram uma lição de vida.
     Quando lhe conheci, tive a impressão que não enxerga o defeito do outro, mas busca uma qualidade no outro que fará dele seu amigo sempre. Hoje, meu caro João de Paula, é raro as pessoas pensarem assim, a maioria prefere enxergar o cisco no olho do seu próximo do que retirar a trave do seu olho. Portanto, faço a ilação que tem tido muitas decepções por ser uma pessoa simples, idealista, bom caráter, incapaz de promover o mal, cheio de ilusão, pois permaneça assim, a existência poderá lhe trazer alguns dissabores, mas a vida lhe será leve e feliz.
     Prezado uruburetamense, o ciúme, o preconceito, a inveja e a presunção não deveriam ser moedas correntes entre os artistas da palavra, afinal, o Sol ilumina todos os homens, alguns preferem ficar na sombra, portanto, classificar as produções artísticas e literárias de boa ou má qualidade, é negar a criatividade, a sistematização, o que é considerado pelos críticos de ruim, hoje, amanhã será coisa de gênio e a história da arte e literária não me deixam mentir: Baudelaire não foi reconhecido no seu tempo; Fernando Pessoa foi reconhecido um pouco antes de morrer; não faz muito tempo Jorge Amado era autor censurado e rejeitado nas escolas públicas e privadas pelo linguajar coloquial e pornográfico; Beethoven morreu no ostracismo junto com sua obra, os quadros de Paul Cézanne e Van Gogh não lhes sustentavam, atualmente, valem milhões de dólares pelos marchands e agenciadores.
     Quando tive a honra de lhe conhecer, sua esposa, a poetisa Expedita Maciel completou de maneira suis generis sua apresentação: “... Este é o único cearense que conheço que não trouxe em sua bagagem, toalhas, lençóis, redes e panelas pra vender, mas trouxe livros e cultura para os itabunenses”. Como não os conhecia, fiz uma cara de muxoxo, fiquei com o pé atrás, a distinta senhora subestimar seus conterrâneos comerciantes, mas, ela completou: “não que o comércio ambulante não seja importante, é que o meu marido é um poeta”.
     João de Paula é mais do que um poeta, é um escritor, é um sonhador, é um missionário da palavra, suas mensagens são pedagógicas e de autoajuda, quem lê-lo, por maior que seja o problema que estiver atravessando, encontrará em sua palavra a força necessária para solucioná-lo. Depois de dois dedos de prosa com João de Paula, descobre-se que seus ideais estão acima de suas limitações humanas. É um homem despojado, sem ambição material, seu sonho maior é ver seu vizinho feliz, sua rua feliz, o mundo feliz!...
     Por isso, meu caro João, dê-me licença poética para parafrasear Lilian Tonet, as pessoas não entram em nossa vida por acaso, sempre existe uma razão de ser, um propósito do destino, algo que o entendimento humano não conhece, mas não é por acaso que elas permanecem. Cordialmente, Rilvan Batista de Santana, Itabuna, 15 de Setembro, 2013.



Enviado por Rilvan Santana em 16/09/2013
Alterado em 08/10/2025

O homem nu - R. Santana R. Santana

 

                                                                      O homem nu
                                                                        R. Santana


     O velho mordomo Lucas já estava acostumado com a mudança de humor e esquisitices do seu patrão, o empresário Rodrigo Carradini Júnior, às vezes, mal se falavam por dias, mas ambos se respeitavam e se queriam bem, o velho mordomo o cuidou no dia a dia desde criança, enquanto o seu pai, o saudoso Rodrigo Carradini, tocava suas empresas. Não foi fácil educá-lo, Carradini Júnior tinha um temperamento autoritário e despótico. No fundo não era má pessoa, havia nele uns lampejos humanitários, mas sufocados pelo desejo escondido de ser mau.
     Quando o velho Carradini morreu, Rodrigo já havia concluído a faculdade de administração e trabalhava nos negócios do pai, portanto, não lhe foi difícil assumir com ajuda de Lucas o comando das empresas já que não tinha irmãos nem os pais. Agora, Rodrigo com 45 anos de idade e Lucas um pouco mais de 70 anos de vida, as coisas se acomodariam se Rodrigo não ousasse mexer no seu destino:
     - Mandou me chamar, patrão?
     - Sim! – Lucas fez-se ouvidos e ele continuou:
     - Faz algum tempo... eu ando com umas ideias na cabeça... quero sua opinião... multipliquei a minha herança por 100, mas sou infeliz, quero ser melhor de agora em diante e encontrar o prazer de viver... – Lucas lhe ameaçou interromper, mas ele continuou:
     - Quero me despir de todos os conceitos e princípios teóricos conhecidos, quero ficar com a mente e a alma nuas, um ser independente das contaminações sociais e religiosas ocidentais, um ser entre o limiar da santidade e do pecado! – Lucas não entendeu o que ouviu e lhe rogou explicação:
     - Não lhe estou compreendendo, aonde quer chegar?
     - Vou fazer uma longa viagem pelos países asiáticos, lá predominam filosofia de vida e fé religiosa diferentes dos judeus, dos muçulmanos e cristãos, quero conhecer de perto os budistas, os bramanistas, os confucionistas, os xintoístas, o modo de vida dos Dalai Lama do Tibete e o modo de vida dos monges budistas, enfim, eu quero descobrir se posso ser feliz entre o bem e o mal!
     - Mas patrão, o bem e o mal existem em todos os lugares, não será necessário ir às conchichinas para ser bom ou ser mau!
     - Eu sei Lucas, mas eu não quero o domínio relativo desse mal e desse bem, eu quero tramitar entre o bem e o mal absolutos, que não são contaminados pelos humores sociais, entendeu agora?
     - Entendi, mas isso é impossível, o que é bom pra uns, é ruim pra outros, vai ser sempre assim, tem gente que gosta do meu jeito outros não, tem gente que a religião é um bem, tem gente que acha a religião é um mal, tem gente que odiou as ideias de Hitler, para os aficionados, suas ideias foram verdades absolutas, tábuas de salvação... Todos os princípios morais, patrão, são relativos, a única verdade absoluta é Deus!
     - Lucas, com sua ajuda, eu multipliquei por muitas vezes o que o meu pai me deixou, mas a esteira do sucesso financeiro e pessoal está cheia de maldade, egoísmo, mesquinhez, sovinice, falta de escrúpulo, frieza e insensibilidade, senão, eu seria triturado e engolido pelos que me invejam e pelos interesseiros, até as mulheres que eu tive não me amaram, mas amaram o luxo e as riquezas que lhes proporcionei, não sei nem se os meus filhos me amam... Agora, quero mexer na minha natureza bem longe daqui, não quero mais ser mau, eu quero ser feliz, eu quero ser bom!...
     - Patrão, o bem e o mal são do tempo do mundo. Deus é o bem absoluto e o Diabo é o mal absoluto. Jesus Cristo praticou o bem absoluto com a ressurreição de Lázaro e o mal absoluto com a repreensão do Diabo, além disto, ele não nasceu do pecado nem viveu no pecado, ao contrário de Moisés e Maomé que nasceram do pecado e viveram no pecado. Portanto, qualquer que seja a doutrina religiosa, qualquer que seja o guia espiritual ou moral, existirá sempre essa dicotomia entre o bem e o mal, ninguém é completamente bom nem completamente mau!
     - Quero conhecer outras culturas... Quero conhecer gente despojada de bens materiais, gente de elevado grau de espiritualidade e moral, o homem europeu e o homem americano estão corrompidos, são escravos do dinheiro e do consumo, faz tempo que o homem perdeu sua natureza primitiva... Hoje, prevalece o interesse social e não a necessidade individual... – Lucas deu uma sonora gargalhada.
     - Falei alguma asnice, homem de Deus?
     - Não!
     - Então, qual o motivo do seu deboche!?
     - Rodrigo, desculpe-me, não me queira mal, mas lhe conheço desde o tempo dos cueiros. Acho que fomos pai e filho noutras encarnações, não obstante eu ser pardo e você branco. As propriedades da água e do azeite são as mesmas, aqui, ali e alhures... Nunca irá mudar sua natureza egoísta, ambiciosa e fria, envernizada com a educação e disciplina do saudoso Carradini, no máximo, poderá sublimar seu modo de ser, jamais irá mudar sua natureza. A água dum vaso de barro pode passar para um vaso de porcelana, contudo suas propriedades permanecem, mesmo que suas impurezas sejam filtradas, jamais deixará de ser água!
     - Reconheço sua importância na minha educação e criação, parodiando Aristóteles, Carradini minha deu a vida e você me ensinou a viver, porém, o homem não é só matéria, o homem é mais do que matéria, ele é mente e alma, tudo é possível no mundo das possibilidades, não existe determinismo, fatalidade é uma possibilidade...
     - Nós somos nossas circunstâncias, a sociedade interfere em nosso destino, porém, não acredito em mudança intrínseca, o homem é mau por natureza, tenho minha desconfiança do que disse Rousseau, se não fossem os mecanismos de prevenção do estado e a educação, o homem seria o pior animal, pois é o único racional, portanto, patrão, não é necessário ir a nenhum lugar pra se tornar melhor, não espere pelos outros, o que depende de si!
Cinco anos depois:
     Carradini Júnior não deu ouvido ao seu mordomo e amigo e passou 5 anos percorrendo mundo... Seguiu muitos mentores espirituais e morais, tomou o conselho de muitos gurus e mestres, iniciou-se em muitas e religiões e filosofias de vida, no Tibete, na Mongólia, Nepal, Vietnam, nos recônditos esquecidos da China e do Japão, culturas milenares ainda não corrompidas pelo homem moderno, mas...
     - Lucas você estava repleto de razão, lá como aqui existe muita maldade. O amor ao próximo, a bondade, a pureza de coração, o desprendimento e a disposição para fazer o bem sem troca, não se encontram numa mesma pessoa nem lá nem aqui. A natureza humana é naturalmente má, a educação e a sociedade são fundamentais na formação de um ser bom. O homem é bom por opção, é o uso pleno do seu livre arbítrio, tanto aqui como lá o homem precisa perder os seus instintos primitivos se quiser ter vida longa e ser feliz!
     - Então, Rodrigo Carradini, seja bom!
     - Eu sou bom! Eu sou bom! Eu sou bom!...



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

Eu não gosto de Félix - R. Santana

 

Eu não gosto de Félix R. Santana

Eu não gosto de Félix
R. Santana

Nada contra o ator Mateus Solano, aliás, ele desempenha o papel de homossexual com tanta desenvoltura e graça com os seus ditos religiosos que prende o espectador do começo ao fim mesmo que não seja aficionado por novela na TV, mas não gosto do que Félix personagem representa para juventude incauta brasileira. Todavia, não é o primeiro personagem gay televisivo que capta a simpatia duma parcela ingênua da sociedade que não percebeu ainda que os autores noveleiros têm por objetivo “destigmatizar” e “eufemizar” as relações homoafetivas, pois é de conhecimento de todos que alguns autores, atores, atrizes e diretores são homossexuais assumidos ou enrustidos. Eles comungam com o pensamento de Oscar Wilde que a vida imita a arte e não o contrário.
Não é necessário ser beato ou xiita para saber que a homossexualidade é reprovada por Deus: “Se um homem usar com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometeram uma torpeza abominável; serão punidos de morte e sua morte recairá sobre eles.” (Levítico 20,13). No islamismo a homoafetividade também é condenável, em alguns países muçulmanos, o homossexual é punido com a pena capital, outros países são mais tolerantes e a morte é substituída por castigos severos. O efeminado ainda é reprovado em outros textos bíblicos: “Acaso não sabeis que os injustos não terão parte no reino de Deus? Não vos iludais: nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas...” (I Coríntios 6, 9-10). É procedente e oportuno registrar, também, a ira de Deus com os habitantes de Sodoma e Gomorra.
Hoje, essas citações bíblicas são consideradas irrelevantes, coisas remotas, distantes, fantasia da história, fábulas, parábolas, princípios morais obsoletos, recursos disponíveis naquela época para educação dum povo primitivo e duma sociedade e estado desestruturados e inaptos, porém, não se pode negar que com todos os avanços da sociedade moderna, a homossexualidade ainda é uma perversão moral imposta e não aceita espontaneamente, se a homossexualidade fosse uma opção sexual natural, sem preconceito, não seria necessário de leis para proteção de homossexuais contra a fúria de heterossexuais intolerantes.
Desde 1990 que foi comprovado que a homossexualidade não é um “transtorno mental”, uma “inversão congênita”, uma anomalia da natureza a exemplo da partenogênese e do hermafroditismo, mas uma opção sexual do individuo, o homossexualismo não consta na relação internacional de doenças da Organização Mundial de Saúde – OMS, nem nos programas de políticas públicas de saúde dos municípios, estados e união. O homossexual é um sujeito saudável com prerrogativas e deveres como qualquer outro cidadão e deve ser respeitado e integrado à sociedade, portanto, não é justo que lhe dê uma legislação diferenciada em detrimento dos demais.
A homofobia também não é aceitável sob os aspectos humanos e jurídicos. Não se pode violentar ou discriminar o indivíduo pelo fato dele ser homossexual. A agressão física e a agressão moral não se justificam sob nenhum pretexto nem no homossexual nem no heterossexual, o agressor deve ser responsabilizado e apenado. Os direitos humanos são para humanos cidadãos não para bandidos e malfeitores. As ideologias radicais raciais, sexuais e os preconceitos não subsistem no mundo democrático de hoje. Todo homem deve ser respeitado e amado de maneira cristã independente de sua opção sexual, de sua raça, de sua idade, de sua condição física, de sua religiosidade e de sua posição social.
Entretanto, reprova-se não a homossexualidade em si, é uma conduta efeminada de alguns homens desde os princípios dos tempos... Quem leu a “Crônica escandalosa dos 12 césares” e os livros de Platão, onde Sócrates se manifesta contra os homens efeminados, irá perceber que é impossível insurgir-se contra essa chaga humana que há séculos subsiste, é como disse Jesus Cristo a Saulo: “... Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões” (Atos 9, 4-5), todavia, gozando do mesmo princípio democrático que eles, é ignomínia social, o “casamento” gay, a adoção de crianças e a figura jurídica de “União Estável”, os mesmos direitos da previdência pública de um casal convencional e a concepção de uma nova família.
Hoje, é chique ser gay! Certas profissões são estigmas dessa opção sexual que os profissionais de sucesso, geralmente, são homossexuais ou representam bem esse papel, a exemplo de cabeleireiros, estilistas, cozinheiros, dançarinos clássicos, atores, atrizes, cantores, cantores, etc., etc. Alguns se jactam que gostam de homens e mulheres, são os bissexuais, marido da mulher e mulher de todos os maridos. É comum, artistas em declínio tornar público sua opção sexual invertida com o objetivo de chamar a atenção de seus incautos seguidores e não sair da mídia televisiva, jornais e revistas específicas de gays, lésbicas e simpatizantes, os famigerados GLS.
A caricatura de Félix seria engraçada se não houvesse uma mensagem subjacente do autor com o objetivo de maximizar, “destigmatizar” e “eufemizar” as relações homoafetivas, torná-las mais naturais, mais aceitáveis e minimizar os preconceitos. Quando se iniciou na TV essa campanha, em particular nas telenovelas, dramatizar e falar explicitamente da relação homoafetiva, havia certo cuidado no enfoque e nas cenas do assunto para não traumatizar o espectador, mas à medida que o tempo passou, hoje, exagera-se no trejeito dos atores e nas cenas obscenas. Ultimamente, os autores estão empurrando goela adentro da nossa sociedade que o modelo de família tradicional está perto do fim, agora, já não é pai e mãe, mas pai e pai ou mamãe e mamãe.
A corrupção de costume, princípios éticos relegados, vicissitudes, libertinagem, desregramento e a falta de Deus têm contribuído para degradação moral e o esfacelamento de muitas famílias. A promiscuidade sexual além de ser um risco para saúde, as relações dissolutas atraem a droga e a bebida. A droga, hoje, é o câncer que pouco e pouco toma conto da sociedade e preocupa os governos de todos os níveis que se esforçam com políticas de saúde pública para atender a demanda.
Portanto, Félix não é bom exemplo para juventude por mais que seja caricato e engraçado. O autor de teledramaturgia não explora as relações homoafetivas, somente, para aumentar os índices de audiência no IBOPE da empresa televisiva que trabalha, é que a TV ainda é a maior vitrine que se pode ter para difusão instantânea dessas ideias e imagens e o meio de comunicação mais visto e mais popular. Caberá à sociedade filtrar o joio do trigo e não aceitar todo lixo eletrônico.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Apologia de Mateus Apologia de Mateus - R. Santana

 

Apologia de Mateus R. Santana
Apologia de Mateus
R. Santana

Hoje, acordei tomado de dor no coração e na alma, não de dor física, mas de dor moral com autoestima no chão. Quero deixar de beber e não consigo... O delirium tremens toma conta de minhas mãos, é assim todas as vezes que deixo de beber, mesmo que seja por um dia, o remédio é tomar uma ou duas talagadas, aí me sinto outro homem. Eu decidi que doravante não irei mais beber, cheguei ao fundo do poço, daqui sairei sem vida, mas quero deixar de viver, sóbrio, consciente, não quero responsabilizar ninguém pelo ato tresloucado que penso tomar, nem usar o pretexto da bebida para justificar o meu fim.
Fui casado com Telma 35 anos, há 5 anos deixei-lhe sozinha com o apartamento, casa de praia, carro e mais da metade da minha aposentadoria. Não lhe culpo de minha desgraça, não é fácil conviver com alguém que faz do vício sua razão de viver, além do bafo permanente de bebida e crises de agressão por motivo fútil ou nenhum motivo. Telma é uma santa mulher, foi compreensiva e resignada todo esse tempo, ela não me deixou, eu que a deixei pra não vê-la mais sofrer, sem fanfarrice, deixei-a por amor aos cuidados dos filhos e desapareci... Hoje, moro numa velha quitinete alugada que há anos clama por reforma.
Não me queixo de Telma, mas me queixo dos filhos. A filha mais nova deixou o armário e mora com “sapatão” em Dom Avelar, periferia de Salvador. Não sei que fazem pra sobreviver, acho que montaram um prostíbulo do gênero homem com homem e mulher com mulher. O meu filho mais velho é um cabrão... Não sei se seus filhos são meus netos naturais ou meus netos emprestados. Embora meu filho seja trabalhador, responsável, profissional de sucesso, é um marido banana, um frouxo, mulher e filhos fazem-no peteca!...
Porém, nos raros momentos de sobriedade, quando o pensamento me empurra para autocrítica, culpo a mim as falhas de caráter dos meus filhos, pois lhes dei escolas de primeira, aprendizado de piano, práticas de esporte, tudo lhes dei, menos exemplo de pai. Desde que deixei sua mãe, também lhes deixei... Se as circunstâncias da vida levam-me encontrá-los, fujo deles como o Diabo foge da cruz. Não quero mais vê-los, desejo-lhes que sejam felizes e compreendam que quis ser um bom pai, mas fui derrotado pelo vício e não quero meu retrato de alcoólatra pendurado em suas mentes depois que me for para sempre, alguns resquícios de dignidade e orgulho ainda restam em mim.
Casamos muito jovens, Telma é 2 anos mais nova, portanto, tenho 60 anos de idade, ela tem 58 anos de vida. Ela é uma mulher honesta, sempre viveu para o lar e filhos, não bebe e não fuma, é vaidosa, nos áureos tempos, renovava o guarda roupa o tempo todo, não tem vício, seu hobby é acompanhar a vida dos artistas e não desgrudar da principal novela da noite. Somos diferentes nos gostos: não gosto de novela, televisão só canal de esporte, em particular, o futebol. Acostumei-me com a rua, quando trabalhava, voltava pra casa no horário de dormir e finais de semana programava saída com os colegas de trabalho, eles não me faltavam em boates e barzinhos.
Fui adúltero todo esse tempo de casado com Telma, não por querer, mas empurrado pelas circunstâncias: minha mulher se negava me acompanhar nos compromissos sociais e no divertimento, então, buscava na rua o que não encontrava em casa. Eu sei que não lhe fui fiel, todavia, não existe nada pior do que um sujeito frívolo e sociável, casado com uma pessoa misantropa, antissocial. Às vezes, a infidelidade nascia na mesa dum barzinho, duma festa, sem nada programado a priori, sem relação afetiva, sem amor, mas puro desejo animal de cruzar a fêmea, o sexo pelo sexo.
Festeiro contumaz, biriteiro social, Fred Astaire do interior, sempre fiz sucesso com as mulheres, curtia o momento... Depois da boate não mais encontrava a minha consorte por uma noite, jamais deixei que uma doudivana atrapalhasse o meu casamento com provocações e insinuações. Telma sempre foi preservada desse desgosto. Ela sabia que depois do trabalho, eu ia pintar e bordar nas casas noturnas e bares, bebendo e me divertindo, mas que tudo ficava para trás quando eu atravessava a soleira da porta de volta pra casa.
Mais do que amar minha ex-mulher, eu me preocupava com sua dependência, ela não tem profissão, nunca trabalhou fora, não sabe fazer uma feira, não tem iniciativa numa situação limite, eu que tinha de providenciar as coisas mais simples, por isto, não lhe deixei antes por pena e o fiz depois de filhos adultos e arrumados.
Nunca pensei que o meu fim fosse o ostracismo depois de trabalhar mais de 35 anos num grande banco privado e ter constituído uma família em princípio estruturada. Eu jamais me iludi quanto à aposentadoria do ponto de vista de salário, depois de 5 anos, o salário já havia achatado mais de 5 %, mas enganei-me em relação às amizades dos ex-colegas, recorri a muitos em vão... Gente que ajudei e continuava na ativa, deu-me as costas!...
Por isso, resolvi suicidar-me. Sei que ninguém tem esse direito de dispor desse dom que Deus lhe deu, mas a vida para mim não tem mais sentido. Hoje, com 60 anos de idade, longe da mulher e filhos, sem amigos, longe de parentes, doente, escravo da bebida, não vejo outra saída para me libertar. Já havia pensado no suicídio outras vezes, todavia, alimentava sempre um fio de esperança que a vida me desse outro rumo. Esforcei-me, procurei ajuda de profissionais da área, participei de algumas sessões do AA em Salvador, mas terminei por desistir, a dependência da bebida era maior do que a minha fraca vontade.
Nunca fui muito de igreja (não tinha tempo), não sei se existe vida depois da morte na reencarnação ou na ressurreição ou na metempsicose de Platão... Acho que a fé é uma semente que não cresce no coração dos incrédulos, nunca liguei pra essas concepções religiosas nem para esses preceitos filosóficos, para mim, acho que temos somente uma vida e temos que aproveitá-la ao máximo enquanto vale a pena e o fiz, agora, a minha vida é sofrimento e dor.
Hoje, acordei mais cedo do que de costume, aliás, não preguei os olhos pensando no meu desfecho... Já havia preparado uma dose cavalar de estricnina e a coloquei na geladeira para tomar no dia seguinte, tempo para fundamentar minha decisão nesta apologia, mas às 11:00 horas, Judite, uma simpática senhora que o tempo não apagou sua beleza, moradora do andar de cima, bateu insistente em minha porta, pensei fazer ouvidos moucos, levei segundos infinitos antes de abrir a porta, depois cedi, ela nunca havia me ocupado, pensei: “será a minha última boa ação”, fui ao seu encontro:
- Algum problema dona Judite?
- Não, é que o senhor é o único madrugador do prédio, vim ver se algo lhe tinha ocorrido... – estendeu-me a Bíblia já aberta e fiquei perplexo quando li:
"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". (Mateus 11:28-30).
Coincidência ou ação da Providência?...

Autor: Rilvan Batista de Santana

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A lagartixa de João Victor - R. Santana



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                A lagartixa de João Victor

                          R. Santana


     O meu Pituquinha, agora, é homem, “vovô, eu sou homem!”, então, “vovô, eu sou macho!” rio pra me acabar, o fedelho tem 2 anos e um mês de idade, mas já tem ranço de “machão”, cismou com uma lagartixa que a partir das 18:00 horas, sai de sua “casa” e fica passeando na parede da nossa antessala, quando nos aproximamos, ela volta de onde veio. Não é como a lagartixa de Kafka em “Metamorfose”, que das frestas do seu quarto acompanhava o movimento de sua casa e dos seus familiares. É uma lagartixinha que mede uns 7 ou 8 centímetros da ponta do rabo às ventas e que parece conhecer João Victor, pois fica toda serelepe quando ouve sua voz infantil, ele grita: “bichinho vem cá!!!”, aí, a lagartixinha vira a cabecinha pra um lado e pra outro, os seus olhinhos esféricos olha-o de cima pra baixo e com o rabinho abanando vai situar-se noutro lugar, mas não lhe perde de vista.
     Não poucas vezes, nesse horário, estou sentado na poltrona diante da TV, alquebrado do dia a dia, quando meu Pituquinha puxa-me à força para ver a lagartixinha e na casa do sem jeito obedeço: “levanta, vovô!”, lá vou eu até a antessala e de mão espalmada bato na parede e repito as ordens de Vitinho: “vem cá bichinho!”, “vem cá bichinho!”, “vem cá bichinho, João Victor quer lhe falar!”, mas a lagartixinha não vem, fica só de olho... Doidice? Não, inocência!
     Vitinho andou cedo, mas a fala demorou um pouco mais, quando tinha 10 meses, sua linguagem não passava de: “nhan”, “papá”, “mamã”, “vô” e “Vavá”, depois da brinquedoteca, são flagrantes o seu desenvolvimento físico, afetivo e intelectual. Hoje, ele está mais desinibido, fala que só um papagaio e expressa com clareza sua vontade:
     - Vamo pu pu vovô? – um convite ao pula-pula, então, quando ele quer sair de casa:
     - Pissear, vovô! Pissear vovô! Pissear vovô!... – quando sua avó não se encontra, ele pergunta pelo nome:
     - Cadê Vanda, vovô? Vanda saiu! Vanda saiu! Vanda saiu!... – ou, quando o pai ou a mãe não se encontra:
     - Cadê papá John!? Cadê papá John!? Cadê papa John!?... – ou,
     - Cadê Anne!? Cadê Anne!? Cadê Anne!? – Se a situação é de medo ou de risco...
     -Vavá, o véio pega! Vavá, o véio pega! Vavá Vanda, cadê o véio? O véio sumiu!...
     - Vovô, fogo! O fogo queima! Vovô, o fogo queima!!!
     Vitinho repete o tempo todo, as músicas da escolinha, com arte e afinação de gente grande:

     - Macha Sodado/ Cabeça de papé/ Se não machá direito/ Vai preso por quarté/ O quarté pegou fogo/ A poliça deu siná/ Acorda acorda acorda/ A bandera nacioná...

     Sua coreografia de marcha encanta a todos. Mas, quando a cantiga é meu lanchinho, sua arte de dizer é mais apurada, acho que ele canta com o estômago:

     - Meu lanchinho, meu lanchinho / Vou comer, vou comer / Pra ficar fortinho / pra ficar fortinho/ E crescer! E crescer!!!


     A lagartixinha de meu Pituquinha está cada vez mais saída. Ela não se contenta passear só na parede principal, ela percorre as quatro paredes da antessala com movimento e perspicácia, às vezes, quase lambe o dedinho de Vitinho que se espicha nos degraus da grade para tocá-la, mas a danadinha quando percebe que sua presença está próxima, abana o rabinho e foge pela frincha do forro, aí, João Victor me puxa pelo braço e determina que eu bata na parede com a mão espalmada e torne chamar a ingrata da lagartixa pelo nome de “bichinho”:
     - Desce bichinho! Desce bichinho! Desce bichinho! Desce que João Victor quer lhe falar! – a safadinha lhe faz pouco caso e sobe ainda mais, lá de cima parece lhe desafiar:
     - Venha me pegar menino bonito! Venha me pegar menino bonito! Venha me pegar menino bonito!... – Vitinho parece que lhe entende:
     - Pega bichinho vovô! Pega bichinho vovô! Pega bichinho vovô!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

 

Foto: arquivo  

Atenção: Hoje, João Victor está com 13 anos, adolescente alto e forte. Perdeu a inocência de 2 anos de idade, estuda pra ser doutor!


Carta para Judite Carta para Judite = R. Santana

 

Carta para Judite
Carta para Judite
R. Santana
Querida amiga:


Recebi sua carta cheia de elogios às minhas produções literárias, além de fazer alguns questionamentos sobre literatura que espero respondê-los à medida que coloco as minhas ideias no papel. Não lhe responderei sobre os seus elogios, não são verdadeiros, não sou escritor, sou um escrevinhador de futilidades, sei que seus elogios não passam de eufemismos, estímulos de um coração generoso para que eu continue nessa atividade solitária da escrita. Porém, quero lhe agradecer pelas perguntas literárias que me fez em sua carta, pois terei a oportunidade de expressar o que penso sobre a poesia e a prosa no mundo atual em que o pensamento não é mais atributo do homem, mas da máquina informatizada.
Querida amiga, eu sei que você já tem respostas para suas perguntas, conheço sua erudição literária, talvez ignore a literatura de nossa terra do cacau, notadamente, a prosa e a poesia dos escritores vivos, mas quem gosta de Jorge Amado ou Adonias Filho, pouco irá aprender com os que vieram depois. Jorge Amado narrou a saga do cacau assim como Homero narrou a epopeia dos gregos em sua Ilíada e Odisseia.
O caxixe, a derrubada das matas para expansão do cacau, os coroneis, os jagunços, a religiosidade das matronas, os amancebamentos, o incesto, o cabaré, o voto de cabresto, a política feita com clavinote, o baixo meretrício, o navio, a preocupação com a construção do cais para exportação do cacau e a incipiente ferrovia Ilhéus-Itabuna são ingredientes que permeiam a obra de Jorge Amado e é a história da civilização cacaueira.
Hoje, minha amiga, os tempos são outros, a sociedade tem outras necessidades e aspirações, a cultura está mais efervescente, multiplicaram-se os artistas, os poetas e os escritores vomitam o saber velho e escrevem coisas sem significado, todo mundo faz poesia livre e todo mundo é escritor e publica livro (produção independente), a literatura regional está falida.
Judite, não existe aqui como lá obra distinta, marcante, aqui ainda não surgiu uma Clarice Lispector, uma Rachel de Queiróz e nem a sensibilidade de uma Cora Coralina, o gênio de um Fernando Pessoa, um Drummond, um Pablo Neruda... Aqui, amiga, existe gente com mais talento de marqueteiro do que de poeta e escritor, gente que se preocupa mais em divulgar e aparecer na mídia, em vernissage, noite de autógrafos, festejados com diplomas, comendas, títulos honoríficos e lançamentos badalados do que produzir obras que dignifiquem a literatura e a arte, gente que usa e abusa do princípio de Joseph Goebbels, que, “uma mentira repetida ganha foro de verdade” e acomoda-se em sua produção fútil, sem significado social e histórico e não persegue uma forma nova de fazer arte e literatura, a exemplo de Baudelaire, Balzac, Paul Cézanne, Picasso...
Por isso, Judite, eu tenho rejeitado o epíteto de escritor (não é demagogia), assim não terei compromisso com a história, não quero ser mais um na enxurrada do esquecimento nem mais um na consciência crítica dos meus algozes, eles não perderão tempo em análise de bobagem. Não desejo que alguém me chame no futuro de “narcisista”, “manipulador”, “maquiavelista”, “arremedo de escritor”, “sorrateiro” e “plagiador”, se declaro por escrito o limite de minha ignorância. Se os meus inimigos forem justos e éticos, reconhecerão que tudo que produzir decorre de minha história de vida, da minha leitura do mundo, das minhas reflexões literárias, de fatos pessoais, e, não de experiências alheias, porque o meu estilo é único, é minha impressão digital.
Judite, eu sou escrevinhador há muito tempo, porém, a falta de recurso financeiro nunca me permitiu publicação independente. Hoje, com o advento da internet, a divulgação de minhas ideias, dos meus textos, não é mais empecilho, desde que o conteúdo produzido seja de domínio público e fiz isso sem outra preocupação, senão, captar leitores, e, em 8 anos publiquei um farto material literário licenciado pela Creative Commons nos principais sites do país e Portal Domínio Público-MEC, além de algumas inserções em editoras do Rio e de São Paulo, isso gerou algumas antipatias e a resistência velada, às vezes declarada, dos intelectuais, dos superegos, de não me aceitarem como um produtor de textos de ficção ou histórias de experiências vividas.
Não faz muito tempo, num programa de televisão, o apresentador perguntou a sua entrevistada se a literatura atual é um modelo esgotado, a escritora pega de surpresa, falou, falou e não disse nada, talvez, levada pelo nervosismo, todavia, far-se-á necessário uma nova forma de expressar a linguagem estética num mundo informatizado, onde a informações de textos e imagens são rápidas. Hoje, os e-books, os textos digitalizados, o designer, o correio eletrônico e as redes sociais dominam o mercado, o livro impresso pouco e pouco perde espaço na preferência do homem moderno que exige um texto conciso, significativo, e mais rápido.
Os conservadores têm que se render a esse novo mundo em que a velocidade da informação é condição sine qua non para que o homem mantenha o seu conhecimento atualizado. Porém, isso não significa que a literatura é um modelo esgotado, ela alimenta o espírito do homem e cria padrão de comportamento, conforme Oscar Wilde, a vida imita a arte e não o contrário, portanto, o conteúdo não está em discussão, mas a forma.
A literatura sempre se renovou ao longo de sua história desde o trovadorismo até as tendências contemporâneas atuais, passando pelas principais escolas literárias: - romantismo, realismo, naturalismo, parnasianismo, simbolismo e modernismo. Hoje, a nossa literatura tupiniquim, mais uma vez, clama por uma “Semana de Arte Moderna” para enfrentar os novos tempos.
Judite, a literatura é quem move a ciência, disse-lhe isto antes em minha carta, agora, você me pergunta: “De que maneira?”. Eu sei que foi para me provocar, você conhece a história da arte e da literatura tão bem quanto um doutor do assunto, mas não sou de pedir arrego, irei rememorar sua cabecinha, citando, somente, dois exemplos: Júlio Verne que no Século XIX foi o profeta da ciência espacial com os seus romances: Da Terra à Lua, Cinco semanas em um balão, Vinte mil léguas submarinas, etc., etc., e, mais recente; Ian Fleming com os seus romances do período de guerra fria: Dr. No, Goldfinger, The man the golden gun e Moscou contra 007. Os romances de Fleming assim como os de Júlio Verne desencadearam novas descobertas científicas.
Enfim, minha nobre e cara Judite, não sei se respondi todos os seus questionamentos, se não os respondi, eu tentarei fazê-lo noutro momento, se tem uma coisa que sou e lhe confesso sem falsa modéstia é a determinação, persigo aquilo que quero fazer ou conhecer sem preguiça. Não faz muito tempo, uma carinhosa amiga me deu o epíteto de “homem pensante”, quando jovem, os meus amigos me deram o apelido de “homem dos livros”. O primeiro epíteto, eu não pensei para descartar; o segundo, eu não pensei para aceitar, pois gosto dos livros, não sei se eles gostam de mim... Que Deus lhe abençoe, paz e bem!...

Rilvan Batista de Santana
Obra licenciada no CREATIVE COMMONS
Itabuna, 27 de novembro de 2013.

 

Merry Christmas - R. Santana


Merry Christmas
R. Santana

          Caro leitor, talvez, tu me aches abusado, afetado, onde já se viu um sujeito bacurau, nascido lá longe no interior de Sergipe com esse negócio de inglês para dizer: “Merry Christmas!” ao invés de “Feliz Natal!” e tu tens toda razão meu amigo, minha amiga, porém, não é pedantismo, é que quero contar a história do meu Natal de maneira grandiosa, por isto, escolhi “Merry Christmas”, mais sofisticado e mais bonito.
          O Papai Noel daquela época tinha significado verdadeiro, diferente dos meninos de hoje, os garotos e as garotas criam na existência do velhinho barrigudo, barba e sobrancelhas brancas, roupa vermelha, gorro e polainas, carregando um grande saco de presentes, depositando o presente embaixo da cama dentro ou fora do sapato. Não eram presentes sofisticados: brinquedos de plásticos, bonecas de pano, carrinhos de madeira, estojo de gude, espada de plástico e máscara do Zorro, às vezes, o Papai Noel exagerava e deixava de presente velocípede e bicicleta.
          Mãe Judite gostava de passar o Natal junto com os seus pais e irmãos em Lagarto, uma das principais cidades sergipanas. Ela arrumava a mala com suas coisas e as minhas, pegávamos o pau-de-arara (carro que transportava gente), e, íamos pra Lagarto, lá ficávamos todo mês de dezembro e início de Ano Novo, só retornávamos pra Itabuna quando o seu marido não mais se aguentava de saudade.
          A nossa estada era a casa dos meus avós, afora os dias de festa de lá não saíamos pra lugar nenhum, não havia necessidade, havia de tudo que um menino gosta: uma malhada de fumo no fundo, duas ou três cabeças de gado e um pomar rico em árvores frutíferas, nelas, nós fazíamos as nossas estripulias: balançar na gangorra, subir no galho mais alto de uma mangueira e chupar a manga no pé ou montar na galha de cajueiro, imitando o tropel de um cavalo.
          A casa era simples, mas aconchegante. Os móveis eram naquele tempo: mesa grande, tamanho família, cadeiras com estofos de vime, uma espreguiçadeira para o meu avô João Zabelinha tirar suas sestas, camas com cabeceiras desenhadas e torneadas, colchões de lã, cristaleira e baús. Não havia radiovitrola, nem água encanada, nem chuveiro, nem energia elétrica, nem rede de esgoto, o banho era no tacho de cobre, a casa alumiada por candeeiro, aladim, e, o serviço sanitário despejado numa fossa. O luxo da casa era um rádio enorme, de muitas faixas, alimentado por bateria de automóvel ou pilhas descartáveis, em torno dele, se reunia a família pra ouvir música ou a “Voz do Brasil” pelo um pool de emissoras do Rio de Janeiro e São Paulo, liderados pela Rádio Nacional, Mayrink Veiga e a Globo, era o luxo do luxo...
          A casa não era rica, mas não podíamos nos queixar da ceia de Natal: peru, frango a molho pardo, carne de carneiro ou de bode, patê de fígado, purê de batata, feijão, fava, farofa de andu, arroz grelhado ou cozido, saladas, nozes, azeitonas, tudo regado com bom vinho para os adultos e a molecada se empanturrava em doces de caju, manga, jabuticaba, quem não gostava de doce, se empanturrava no caldeirão de ponche natural – não havia geladeira.
     Cedo saíamos do Coqueiro, a pé, a cavalo, em carro de boi, mulheres e meninos montados na garupa dos animais, os homens a cavalo, não demorávamos chegar ao centro da cidade de Lagarto, a tempo de passear na Praça da Matriz, ouvir as músicas de Natal, tocadas pela filarmônica da cidade no coreto oitavado no meio da praça e aprontar algumas piculas e assistir a missa.
          A missa do Galo é diferente das outras pelo luxo e pela quantidade de fieis. As senhoras e os senhores usam sua melhor roupa, os meninos sua roupa nova, geralmente, é celebrada meia noite do dia 24 de Dezembro para o dia 25 de Dezembro, segundo a tradição cristã, porém, o padre alemão da Igreja Matriz, daquela época, celebrava muito mais cedo, pois sabia que muita gente vinha de longe. O Coqueiro, em particular, dista do centro de Lagarto mais de 3 km, hoje, é um bairro bem povoado, urbanizado, naquele tempo era um arremedo de bairro, mais roça do que bairro, sítio de um lado e do outro da estrada arenosa que se encontrava com o calçamento na entrada da cidade.
          Os meninos pouco se lixavam pra homilia do padre alemão de latim embolado, nós queríamos de verdade era passear na cidade grande... Na Matriz, nos interessávamos pelo presépio: o menino Jesus deitado na manjedoura, os três Reis Magos adorando o Menino – Deus, José e Maria...
     Quando o padre ultimava os ritos finais: “Benedicat vos omnipotens Deus” e “Pater et Filius et Spiritus Sanctus, Amen!”, era hora de fazermos o trajeto de volta, a ceia de Natal clamava nossa presença!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Fonte: Google

Adultério de sangue - R. Santana

 


Adultério de sangue

       R. Santana
 

     O negro Lubião, filósofo do povo, dizia que: “quem conta um conto, aumenta um ponto”, não deixa de ser verdade, mas o conto mesmo com pontos a mais ou pontos a menos, é diferente de história da carochinha que é produto da imaginação popular e não história de verdade, portanto, caro leitor, permita-me que lhe conte essa história vulgar de “Adultério de sangue” que ocorreu na cidade de Simão Dias, interior do estado de Sergipe.
     Hoje, ainda é comum mulheres e homens morrerem por prática de infidelidade conjugal, porém, bem menos do que no meado do Século XX, naquela época, infidelidade era tipificada por lei de crime contra honra e passível de processo e crime de morte, além de grande intolerância social. A traição feminina não era tolerada de nenhuma forma e a traição masculina a sociedade fazia vista grossa, salvo, quando o atraiçoado resolvia lavar sua honra com sangue.
     Para evitar contaminação do autor nessa história de "Adultério de sangue”, é que lhe convido leitor, deixarmos de lado os “entretantos” e partirmos para os “finalmentes”, que os protagonistas falem o que ocorreu naquele dia bonito de Sol naquele pedaço de chão nordestino:
     -Pelo amor de Deus, compadre Dedé, não me mate nem a Júlia! – protegendo a amante com o corpo da mira da arma do marido.
     -Não me chame de compadre, Dedé!
   -Somos compadres de batismo, somos primos, temos o mesmo cognome, temos negócios juntos... – o marido traído o interrompe:
    -Chega! – a esposa interveio:
    -Dedé, ultimamente, você não liga pra mim, os nossos filhos que ainda nos mantêm juntos!
    -Mulher, tu és venenosa e dissimulada, ainda ontem, tu me fizestes juras de mulher apaixonada, embaixo dos lençóis! – o amante empurra a amante pra o lado e a encara:
     -É verdade, Júlia? Se for, tu és maquiavélica e dissimulada!
    -Eu não sou maquiavélica nem dissimulada! Tu não és santo, tu que me conquistaste com promessa de casa em Aracaju e dinheiro, tu que urdistes toda trama, jamais quis trair meu marido!
   -Tu és cínica, não mexi uma palha para te conquistar, tu arquitetaste várias situações comprometedoras, principalmente, quando compadre Dedé viajava, quantas vezes eu fui chamado por ti? Tu fingias de doente... O marido, agora, aturdido e cheio de dúvida (in dubio pro reo) não queria mais fazer justiça por conta própria, pois já não sabia qual era o mais reles, todavia, continuava empunhando a arma pra ambos, talvez tudo acabasse diferente se o amante não usasse de um velho truque para surpreendê-lo:
    -Tenente Raimundo! - instintivamente, Dedé se virou assustado com a presença inoportuna da autoridade policial máxima do município que acumulava as funções de chefe do destacamento (6 soldados, um cabo e um sargento), e, delegado da cidade, mas não havia nenhum policial, um velho truque para distrair o adversário, o bastante para que Dedé amante lhe pulasse em cima e tentasse tomar o seu revólver, mas no esfrega-esfrega, Dedé disparou um tiro à queima roupa que lhe trespassou o coração e o amante despencou agonizante no chão. Júlia aproveitou o entrevero e tentou fugir, não foi muito longe, foi agarrada e esfaqueada por aquele que deixou de ser seu marido, o marido traído.
     A repercussão do duplo homicídio chegou à capital do estado, ganhou manchetes nos jornais. O governador designou um delegado doutor para acompanhar o processo. Dedé se apresentou às autoridades depois do flagrante. Não se falou noutra coisa em Simão Dias por muito tempo. A maioria absoluta da população lamentou a morte dos amantes, mais de Dedé amante, mas achava que Dedé enganado fez o que tinha de fazer, ele estava na casa do sem jeito, honra manchada se lava com sangue...
   O júri foi concorrido, chegou jornalista de tudo quanto foi lugar. Não havia televisão nem emissora de rádio, mas o serviço de alto falante da cidade passou dias anunciando o libelo jurídico. As famílias das vítimas contrataram dois advogados da capital e Dedé contratou um rábula da terra de reconhecido saber jurídico.
     Foram três dias de embate forense. O promotor foi mais pálido em seus argumentos do que uma camisa desbotada pelo tempo. Os advogados de acusação fizeram jus ser escolhidos pelas famílias das vítimas, porém, o velho rábula arrasou, usou de todos os recursos disponíveis para provar a inocência do seu cliente, o mais decisivo foi um empregado do comércio de ambos que testemunhou as vilanias das vítimas. Disse que fazia tempo que Dedé era enganado, debochado e todos os seus empregados tinham conhecimento do adultério de sua mulher com o seu primo e não entendia por que o patrão levou tanto tempo pra descobrir a infidelidade do primo e de seu cônjuge.
    Os jurados decidiram pela inocência de Dedé que ganhou a liberdade por 7 X 0. Os seus amigos e familiares festejaram sua saída do presídio e a cidade de Simão Dias continuou com sentimento de macho e não de cabrão. Dedé amante foi pranteado por muito tempo ao contrário de sua amante Júlia. Ela era lembrada pela prevaricação e responsável pela tragédia e foi sepultada para sempre na consciência das pessoas.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

O Império do Diabo - R. Santana

 


O Império do Diabo - R. Santana

 

     O velho Tanaguchi me contou não faz muito tempo que existe lá no seu país a “Terra do Sol Nascente”, uma lenda que no início do Século passado, o Diabo insatisfeito com as coisas do Inferno, subiu aos ceus para um encontro com o Criador. Tanaguchi me adiantou que não foi um encontro fácil, desde que Lúcifer foi expulso do Paraíso com os seus anjos maus e fundou o seu reino do inferno, Deus não o recebia, mas tanto foi sua insistência, seu apelo, que o Criador encheu-se de misericórdia e o recebeu.
     Naquele dia que o Diabo passou por aqui, o Sol se escondeu, chuvas torrenciais caiam em alguns lugares, trovoadas aqui, ali e acolá, os raios e coriscos rasgavam o firmamento e alguns ciclones e tornados rasgavam os mares quando o Diabo chegou ao Ceu...
     O diabo foi recebido com reserva pelos santos, anjos, arcanjos e querubins. Todos estavam apreensivos e curiosos, ninguém sabia o que tencionava o velho Satanás, mas todos tinham certeza que era algo de seu interesse, pois pra ele se deslocar de tão longe e depois de tantos séculos de expulsão do Ceu pra falar com Deus, teria que ser um encontro importante talvez o último, se ele não manifestasse nenhum arrependimento, nenhuma subimissão, nenhum reconhecimento e nenhuma gratidão pelo Criador do cosmo e do homem e tudo que existe e existirá.
     Não quis ser recebido pelo Filho, desculpou-se com os anjos do primeiro escalão que conheceu o Pai primeiro que o Filho e que era também uma criatura espiritual do Criador, embora estivesse afastado do Ceu, no começo dos tempos foi Lúcifer, ou seja, um anjo de luz.
     Enquanto os anjos, arcanjos, querubins e santos oravam, uma luz forte tomou conta do Ceu, dentro dessa luz, um feixe de luz em forma de cone chamava a atenção, todos sabiam que era a presença de Deus, por isto, todos se curvaram, inclusive, o Diabo. Uma voz tonitruante quebrou o silêncio:
     - Lúcifer, Lúcifer, depois de milhões de anos, tu voltas ao Ceu para pedir mais do que já te foi dado por desobediência!? Tu aliciaste milhões de anjos, ameaçou o meu plano de criação, corrompestes milhões de seres humanos... Tu espalhas a mentira, o ódio, a vilania, a discórdia, a maldade, a falsidade, a ambição, a luxúria e os vícios entre almas de corações empedernidos e frágeis de fé, agora, que mais tu desejas? Usei o meu Filho para um novo pacto, uma Nova Aliança, para redimir o homem do pecado e tenha vida eterna. Hoje, o salário do pecado é a morte com promessa de ressurreição... Que mais queres ó espírito das Trevas?
     - Senhor, Senhor, não é fácil viver sob o signo da maldade. Viver o mal é mais custoso do que viver o bem. Quando Vós me expulsastes daqui, tornei-me um querubim caído, o diabo, o satanás, eu perdi a luz... Vós destes ao homem o livre arbítrio, a mim coube ser sempre o agente do mal, o espírito das Trevas. Eu sublevei tua autoridade, provoquei uma rebelião, iludi enésimas legiões de anjos, hoje, todos ainda me servem, mas não estou satisfeito com o meu império do mal. Cada dia, o Inferno se enche de almas más, seres de maldade infinita, para mim, chega!!!
     - Lúcifer, Lúcifer, eu não te dei natureza má, te dei luz e poder, tu que fostes pra maldade. O homem também caiu no Paraíso por tua causa, mas se levantou, hoje, muitos são os espíritos que me agradam... Abrão, Isaque, Levi, Jacó, Moisés, Noé, Paulo, João, Pedro, Mateus, Marcos, José e Maria honram a minha obra, eles e meu Filho salvaram o plano de criação do universo, portanto, dizes que viestes fazer no Ceu após milhões de anos!?
     - Senhor, Senhor, Vós conheces a natureza íntima de todos os seres, Vós não ignoras o motivo que me fez viajar centenas de anos-luz, porém, se é praxe do Ceu, eu manifesto diante de Vós e de todos os espíritos de luz, que é duro ser Espírito das Trevas, por isto, peço Vossa Misericórdia, quero voltar ser Lúcifer, um espírito de luz, e, fundar a minha igreja para o homem. Se o pedido é demais, peço-Te, então, que me conceda ser bom e dê-me 100 anos de experiência na Terra para fundar o meu ministério, se até lá o meu projeto não se tornar exequível, nada mais pedirei ao Santo Pai Eterno!
     - Lúcifer, Lúcifer, tu escolhestes o caminho, não te condenei à escuridão, fostes com os outros para escuridão! Ser bom é um exercício de vontade, uma prática do dia a dia. Será difícil para ti que sempre viveu na mentira, na falsidade, te tornar bom e virtuoso, o homem não irá te acreditar!
     - Senhor, Senhor, é melhor a dura realidade do que a falsa mentira. Paulo matou e encerrou muitos cristãos nas prisões... Moisés para libertar seu povo cometeu crime, o rei David traiu Urias com sua mulher e o enviou depois para batalha da morte... Salomão teve suas fraquezas e o homem os perdoou, por que não a mim? Agirei somente na promoção do bem, gente ruim, o Inferno está cheio!
     - Lúcifer, Lúcifer, esses homens se arrependeram de suas más ações e sofreram as consequências do pecado, todos foram contemplados pela misericórdia divina. Tu, entretanto, foste o único ser que criei que sublevou com os teus anjos a minha autoridade! Milhões de anos te foram dados de existência e tu não manifestaste arrependimento! O homem tem sofrido com os teus espíritos malignos, o mal, por tua causa, impregna a humanidade, agora, queres poder e não perdão!?
     - Senhor, Senhor, eu sei que vossa misericórdia é infinita, porém, a minha consciência espiritual me nega clemência, o perdão por si não alivia o fardo dos meus crimes. Sublevei o Pai Eterno, não mereço misericórdia, diferente de Paulo, Moisés, Davi e Salomão. Agora, peço luz ao Céu, cansei de viver nas trevas, escondido, não existe provação maior, quero redimir os meus crimes e não conversão!
     - Lúcifer, Lúcifer vais e pratique o bem, a justiça e o amor. Tu não fundes tua igreja sob a égide da mentira. Deixas de lado os néscios, os ignorantes da palavra e os fracos de mente. Tu terás muitos talentos, menos o dom da vida e o da ressurreição!...
     Pela primeira vez, o Diabo deixou o Ceu bem intencionado, aqui no mundo, ele e os seus diabinhos arregaçaram as mangas e começaram trabalhar, grande a seara e poucos obreiros... Não quis ganhar homens maus, começou arrebanhar bons espíritos, pessoas insatisfeitas com suas crenças, mas de boa índole: famílias estruturadas, pastores, padres, monges, rabinos, médiuns, bispos, etc., etc.
     Quando instalou sua Igreja não exigiu sacrifício de seus seguidores, mas proselitismo e lealdade. Sua doutrina se resume na apologia da prosperidade e não da pobreza. Exegese? Exegese pra quê?... Exegese serve para interpretar doutrinas complicadas e mistérios, sua doutrina resume-se encontrar a felicidade, é o homem feliz e de bem com a vida. Pecado original, nem pensar! Ninguém tem obrigação por nascer, mas por viver...
     Tanaguchi me garantiu que o Império do Diabo não para de crescer: uma igreja alegre, muita música, templos suntuosos e difusão na mídia de sua doutrina. As curas não são mais casos isolados e íntimos, os milagres ocorrem a olhos vistos... A palavra é o grande negócio, e, Tanaguchi completa:
     - Meu amigo, nunca existiu na história do homem tanta riqueza, tanta dissolução, e tanta fé!...

Autor: Rilvan Batista de Santana

Membro efetivo e fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Licença: Creative Commons

Carta para Júlia (II) - R. Santana

 

Carta para Júlia (II)
Carta para Júlia (II)
R. Santana


Querida Júlia:

Nunca mais lhe dei notícias minhas, aliás, a recíproca é verdadeira. Mas, deixemos de lado essas picuinhas e cobranças, irei me ater às notícias literárias e sua desenvoltura à frente dessa casa de saber acumulado.
Não mais ouvir falar de sua casa. Quais são os projetos para 2014? Em 2013, salvo algumas ações internas de somenos importância, não soube de nenhum feito relevante de sua administração. Querida Júlia, a sociedade atual não é mais utópica nem se contenta com tertúlias estéreis, reuniões que não decidem e inócuas, palavrório sem significado...
Hoje, não é mais aquele tempo de saraus e serenatas, quando a poesia de versos românticos e os livros tomavam conta dos espíritos refinados e ciosos de conhecimento, ler naquela época, era um passatempo lúdico e uma necessidade intelectual, diferente dos tempos atuais de notícia sucinta, rápida, dinâmica e informatizada, portanto, a administração moderna de uma casa de arte e cultura tem que se adequar à realidade de que a informação de ontem é velha e não mais estimula o leitor.
Querida amiga, nem sempre o eleito para administrar uma entidade é aceito por todos os seus pares e pela comunidade que ele está inserido, não faz muito tempo (resguardando as proporções históricas), o cardeal Joseph Ratzinger, Bento XVI, foi escolhido para liderar sua igreja, mas desde cedo, enfrentou uma enorme oposição dentro e fora da comunidade católica, porém, mudou o curso da história e renunciou no momento certo, quando entendeu quão difícil é a conversão de forças reacionárias e mudar vícios e vicissitudes arraigados. Longe de mim, eu lhe sugeri que renuncie, porém, é necessário generosidade e sabedoria para liderar cabeças inteligentes.
Júlia, a grandeza da alma no ocaso da vida é o que conta, os conceitos cartesianos e racionais devem dar lugar ao bom senso e ao entendimento do outro, não estigmatizá-lo e marginalizá-lo. Entendo que a nossa idade e a nossa saúde não mais permitem alimentar a indiferença, o ressentimento e o ódio. É sabido que ninguém é melhor do que ninguém... A vaidade, o orgulho, a presunção, a soberba e a arrogância afastam o homem do caminho do bem e de Deus.


Nunca alimentei a ingênua fé de imortalidade literária, eu não produzi ainda prosa ou poesia nesse patamar, aliás, eu não me considero um artista da palavra! Quando entrei na sua casa, não me moveu nenhuma vaidade intelectual ou imortalidade, mas moveu-me o desejo de contribuir para divulgação de nossas produções tupiniquins e levar essas produções ao conhecimento de jovens e adultos através da escrita e da leitura. Modestamente, eu consegui esse objetivo sem o seu respaldo e dos meus pares, mas por intermédio do “Saber-Literário”, “Itabuna Centenária”, portal “Domínio Público–MEC”, e, outros instrumentos de comunicação moderna.
Querida amiga, cercear, advertir, censurar, limitar palavras e ações, não ajudam agregar, mas são elementos que geram antipatia e desconforto administrativos, gerando, inclusive, renúncia e afastamento dos membros de sua casa. Liderança e carisma são dons inatos, porém, eles podem ser adquiridos pela predisposição e exercício. Qual o significado para comunidade de sua casa se ela não deslancha? Discussões, propostas e projetos que não saem do papel, o destino é a lata de lixo!...
A entidade deve estar acima das vaidades pessoais. A entidade não deve atender interesses individuais de fulano ou sicrano em detrimento dos demais. A entidade deve ser una e trabalhar com o objetivo de atender o pleito de todos os seus membros à medida de suas possibilidades financeiras e operacionais. Se uma entidade literária ou científica desvia do seu papel cultural e social para dar atenção a antiprojetos e projetos individuais, o esfacelamento e a divisão serão as consequências dessa entidade.
Enfim, querida Júlia, dirigir uma entidade de tantas mentes articuladas, algumas ardilosas e envolventes, é preciso que tenha o “jogo de cintura”, o desprendimento e a inteligência de um grande atacante de futebol que se sentindo impossibilitado de driblar os volantes e os zagueiros adversários, renuncia a autoria do gol e lança a bola para um lateral ou um meia com mais condições de finalização, às vezes, ele tem mais aplausos e reconhecimento de que se tivesse feito o gol.

Cordialmente,
Narvil

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Destaques

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.   Por favor, invista dois minutos do seu tempo e leia isto:    1.  Suponha que às 19h25 voc...

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