11.10.2025

Carta para Eglê Santos Machado (II) - R. Santana

 


Carta para Eglê Santos Machado (II)

Carta para Eglê Santos Machado (II)
R. Santana

Estimada poetisa:

Quando em vez, eu sinto necessidade de jogar conversa fora com alguém que conhece prosa e poesia ou faz prosa e poesia, segundo o nosso poeta Wagner Albertson, a senhora é a nossa “Rainha das Letras”, não que a nossa terra não seja pródiga em escritores e poetas, mas a única poetisa de nossa região que é: pesquisadora, trovadoresca, acadêmica e poetisa clássica, além de divulgar a nossa literatura tupiniquim para todo país através do seu site Itabuna Centenária (RSIC), coadjuvado pelo Saber-Literário, uma ação cultural que, certamente, terá o reconhecimento da comunidade pelo seu significado.
Não me considero poeta nem escritor nem mesmo “arremedo de escritor”, talvez, um viciado leitor de boa prosa e bom verso quando o ócio é maior que a faina, portanto, sinto-me livre para meter o bedelho, aqui, ali e acolá sem preocupação crítica, linguística e filológica, mas como um amador das artes e da literatura. Certo, apenas, que a poesia é a expressão maior do pensamento e a prosa é a expressão menor do pensamento, pois enquanto a primeira, é analítica e sintética; o segundo gênero, é discursivo e prolixo.
Poetisa amiga, no início deste ano, eu fui a Salvador em missão familiar, mas quando o tempo me foi conveniente, dei uma circulada nos seus principais shoppings. O shopping é um mundo encantado, é a sofisticação da feira-livre dos novos tempos, vende-se tudo, desde o alimento e vestuário até o apartamento com carro de último modelo na garagem. Porém, amiga, quando eu vou a um shopping, não sacio minha gulodice na praça da alimentação, mas sacio o meu interesse por livro. Ultimamente, gosto de ler as biografias dos grandes homens do passado e do presente, no passado não existe fonte maior do que Plutarco. Nessa breve estada na capital baiana, tive a curiosidade de bisbilhotar a nossa literatura tupiniquim, exceto Jorge Amado e Adonias Filho, não encontrei outros escritores da região do cacau, nenhum título dos nossos homens das letras.
Não pense minha amiga que sou do time “quanto pior, melhor”, não, ficaria feliz se tivesse encontrado em nossa capital, pelo menos, as nossas ideias em forma de verso e prosa nas vitrines das livrarias de Salvador, ou quiçá, nas vitrines das livrarias de todo o país, mas pareceu-me, en passant, que ainda não temos fôlego ou não temos marketing suficiente para exportar as nossas produções literárias, por isto, lamentei... Não sei como alguém, daqui, atreve-se gabar que tem livros traduzidos na Alemanha, na França, na Itália, na Espanha, e, suas obras não chegam nem na capital do seu estado.
Nossa obra literária não é menor, é que ainda não dispomos de estrutura de marketing ou apoio financeiro necessário para vê-la publicada, aqui, ali e alhures, se não houvesse a internet e a informática, essas obras jamais seriam conhecidas fora do nosso contexto social.
Nós somos ricos em talentos literários, afora Jorge Amado e Adonias Filho, nomes como Clodomir Xavier, Walker Luna, Helena Borborema, Manoel Fogueira, Dantinhas, Valdelice Pinheiro, Gil Nunesmaia, Firmino Rocha, Minelvino, Adelindo Kfoury, José Bastos e Telmo Padilha honram o planeta letras do cacau. Firmino Rocha, por exemplo, tem seu poema “Deram um fuzil ao menino”, inscrito no Portal da ONU.
Querida amiga, eu não me atrevi registrar os talentos vivos, não por lapso de memória, negligência ou despeito, mas pelo fato da quantidade de poetas e escritores de indiscutível qualidade literária. Os nossos romances, além de refletirem a saga do cacau, os seus personagens refletem as emoções e os valores morais universais. As nossas poesias e os nossos poemas são versos de paixão, de amor, de vaidade, de orgulho, de ódio, de traição, de fidelidade, de egoísmo, de coragem, de covardia, de ousadia, mas encerram, também, mensagens de autoestima, de consciência ecológica, de felicidade e de paz.
Enfim, grande poetisa, esta carta aberta tem o objetivo de alimentar nossa amizade poética, mas o objetivo maior será despertar o interesse de autoridades e entidades públicas responsáveis pela nossa cultura para criação de projetos e políticas públicas de incremento e apoio aos nossos artistas e aos nossos escritores e poetas do verso e da prosa. Os nossos construtores da palavra, os nossos construtores do pensamento contemporâneo, devem alçar voos mais alto e não ficarem circunscritos a uma cultura bairrista e regionalista.

Com apreço e amizade,
Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 09. 02.2014

Tribunal do crime - R. Santana

 


Tribunal do crime 

R. Santana


     Ricardo Shoe não parava de andar sempre no mesmo trajeto, parece que havia traçado uma linha reta na sala, ia e voltava pelo mesmo caminho. O mais sabido e inteligente de todos, antes de seus pais serem vítimas de latrocínio, havia estudado Direito, largou tudo e vingou-se dos criminosos com requintes de perversidade, inclusive, um de menoridade, ele o castrou antes de assassiná-lo e colocou os testículos em sua boca porque esse menor havia seviciado sua mãe antes de ferir-lhe mortalmente. Ele não passou muito tempo detido, a polícia fez o inquérito, o promotor fez a denúncia, mas a justiça rejeitou o processo por falta de provas, na verdade, foi um jeitinho que as autoridades encontraram para concordarem legalmente com a vingança de Ricardo Shoe.
     Porém, ele não se satisfez, somente, com a vingança dos pais, tomou pra si a defesa dos indefensáveis sociais, portanto, quando a justiça falhava, ele fazia justiça por conta e risco, com ajuda de alguns cúmplices na calada da noite em um sítio de herança.
     Geralmente, seus companheiros eram pessoas marcadas por injustiça e desejo de vingança. A inteligência maquiavélica de Shoe fazia a diferença dos demais. Admirado por muitos, odiado por alguns, se equilibrava com certa desenvoltura entre a legalidade e o que não é legal, mas que é justo, assim, durante o dia desempenhava seu papel de administrador de empresa, à noite, um “zorro” dos novos tempos quando a situação exigia.
     Naquele dia, no julgamento de Zarolho, o cenário era o mesmo desde que começou fazer justiça por conta própria: sete jurados, quatro testemunhas, dois praças, dois advogados (defesa e acusação), um promotor de justiça e um juiz, todos encapuzados à Ku Klux Klan e confortados em cadeiras de assento e encosto macios, mesa de trabalho, e, a imagem da deusa Têmis com a balança suspensa na mão esquerda e a espada embainhada na mão direita. Todos estavam tão compenetrados do seu papel como se fossem verdadeiros agentes da justiça e operadores do Direito.
     Quando Ricardo Shoe assumiu a postura de magistrado e encaminhou-se pra mesa, todos ficaram em pé em respeito ao juiz, Zarolho esboçou pequena resistência, mas foi levantado abruptamente pelos soldados trogloditas, quando o juiz tomou assento, os demais o acompanharam e a sessão começou com o sorteio dos jurados que no “Tribunal do crime” são escolhidos a priori e não entre 40 representantes da sociedade, leu-se o relatório do processo, o juiz fez uma explanação com justificativa da criação e existência do “Tribunal do crime”:
     - Senhores, a nossa justiça institucional é morosa e corrupta. Há juízes probos, mas alguns são venais, outros, usam as falhas das leis apara agradar aos amigos, ou, aos poderosos. Só fica preso o sujeito que não tem recursos financeiros para constituir bons advogados. As instâncias são várias e os recursos são ilimitados em quanto houver jurisprudência... O crime é generalizado, não existe mais “modus operandi” de bandido, os criminosos são iguais em barbárie. O crime está organizado dentro dos presídios e fora... A droga é o mal do século e movimenta mais dinheiro do que alguns países pequenos. O traficante não tem limite de perversidade nem escrúpulos morais, no mundo do crime a lei é a eliminação sumária sem julgamento do infrator sob o manto do silêncio e do sigilo. Nós, aqui, somos justiceiros, isto é, nós amamos a justiça, somos instrumentos de Deus para que a justiça se cumpra neste tribunal. Não somos justiceiros no sentido pejorativo, não somos linchadores, temos o nosso código de honra e o consenso é o nosso norte... – fez uma pausa prolongada e continuou:
     - A Lei de Talião é a fonte de nossa inspiração: "Se uma pessoa arrombar uma casa alheia, ele deverá ser condenado à morte e ser enterrado na parte da frente do local do arrombamento", "se alguém acusa o outro, mas não pode prová-lo, o acusador será morto", “\Olho por olho, dente por dente”... Claro que é uma lei exagerada para o Século XXI, todavia, alguns princípios são aproveitáveis e devem ser seguidos. Se a impunidade em nosso país não fosse institucionalizada, o crime não acabaria, é próprio da natureza humana, mas seria de caráter suportável e justificável, não por motivo fútil e desalmado – fez mais uma pausa e completou:
     - Repetindo César: “Alea jacta est”, os dados estão lançados, os senhores do júri, os excelentíssimos advogados e o excelentíssimo promotor têm em mãos a responsabilidade de inocentar ou culpar o réu! – a sessão de fato começou.
     As testemunhas foram ouvidas, ninguém quis eufemizar o crime, nem as testemunhas da defesa que, apenas, ressalvaram a conduta trabalhadora do réu, que não tinha vícios de cachaça e fumo: Zarolho havia estuprado e matado por asfixia sua enteada de 9 anos de idade. Algumas testemunhas acrescentaram que desde os 6 anos de idade da menina que ele a abusava. Sua mulher, a mãe da criança, o pegou em flagrante, ele foi preso e fugiu da cadeia. A polícia relaxou na busca, a justiça esqueceu o caso, porque o indivíduo era primário e não oferecia risco, seis meses depois, ele voltou e se vingou da prisão na menina e a mãe só escapou por encontrar-se no seu emprego de doméstica. Muitas o definiram como o “monstro” da cidade “X”.
     O advogado de acusação e o promotor foram contundentes na acusação, o réu não merecia indulgência, perdão, um monstro que tinha praticado crime contra dignidade sexual - Lei nº. 12015/09 -, da criança Carol, com agravante previsto no artigo nº. 225 “Caput” CP, com as qualificadoras do artigo nº. 213 && 1º. e 2º. , CP... O “energúmeno” a abusava desde os 6 anos de idade sob tortura psicológica e ameaças físicas contra sua genitora.      A criança inocente deixava-se acariciar e bolinar em suas partes íntimas pelo indivíduo. Flagrado pela genitora da menina e preso, mostrou-se velhaco e perigoso, premeditou o crime, fugiu da cadeia, barbarizou a vítima como vingança e homiziou-se em casa dos seus parentes no interior de Pernambuco, foi preso graças a clamor público e ajuda dos meios de comunicação que divulgou sua foto para todos os rincões do país, etc. e etc.
     O advogado de defesa exerceu seu papel, foi mais ameno, explorou o lado emocional dos juízes do povo. Alegou que o seu constituinte não passava de um pobre diabo sem eira nem beira. Analfabeto, tinha como fonte de sobrevivência: catar latinhas de cerveja e refrigerantes, papelão e metais de pouco valor nos lixões. Desde cedo, enfrentou as durezas do dia a dia e a incompreensão da sociedade. Nascido na pobreza quase absoluta, sua primeira caneta foi uma enxada e quando calçou um sapato já tinha 15 anos de vida. Não se podia culpar um homem que não teve oportunidade de se educar, que não possuía consciência moral, se alguém era culpado, esse alguém era o estado brasileiro e a mãe da menina que havia amancebado com um tipo assim...
     Houve réplicas e tréplicas. A acusação e o promotor argumentaram que pobreza não fabrica assassino, que era obrigado concordar com Cesare Lombroso: existe assassino nato...
     Os jurados o consideraram culpado. Ricardo Shoe não quis ficar com maioria simples, todos 7 jurados votaram pela condenação do réu. Zarolho foi levado pra algum lugar e dois dias depois o corpo do estuprador foi encontrado no lixão da cidade.
     Conclusão:
     Não se faz apologia de crime, mas se as instituições do estado são corruptíveis, não se promove a justiça como bem comum, então, o crime organizado assume o seu lugar!...

 


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna-ALITA

Imagem: Google

Carta para Mariana Stolzer - R. Santana

 

Carta para Mariana Stolzer

Carta para Mariana Stolzer
O Significado da vida - R. Santana

Prezada Mariana:
 
Eu sei quanto é difícil morar e trabalhar na cidade maior do país e uma das maiores do mundo. Se o transporte é metrô, o excesso de gente atrapalha, se o transporte é ônibus, a ida para o trabalho e a volta pra casa, o tempo parece infinito, se é de carro próprio, o congestionamento e o medo de assalto nos semáforos não deixam por menos, enfim, morar e trabalhar na cidade de São Paulo é um enorme sacrifício de vida, por isto, lhe compreendo, quando você me pergunta: “... amigo, a vida vale a pena?” Citando o poeta Fernando Pessoa: “...Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena...”, ou seja, se o seu enfoque é seu doutorado e seu trabalho, todo sacrifício é justificável e sua vida tem razão de ser, conforme os versos do poeta.

Não sei se a vida em si vale a pena, pois ainda não sei lhe responder: “quem sou eu”, “de onde vim”, “para aonde vou”, só sei minha amiga, que existo, “cogito, ergo sum”, porém, desconheço a finalidade de minha existência. Se tivesse a fé de Santo Estevão, a minha vida teria significado, mas a minha fé é igual à de São Tomé e a minha dúvida é avassaladora: não sei se Jesus Cristo foi enviado por Deus, ou, um grande profeta, um ser intelectualmente superior, mas não uma divindade! Se fosse espírita, tê-lo-ia como um espírito de luz superior, embora a reencarnação prevalecesse à ressurreição. Não pense minha amiga Mariana que essa dúvida não me perturba, perturba muito, a ponto de deixar minha vida sem sentido e viver por viver.
Num trecho de sua carta diz: “... estimado amigo, não compreendo as coisas: eu sou jovem, saudável, bonita, rica, médica prestigiada, no entanto, não sou feliz...”, adiante, pergunta-me o que deve fazer para buscar a felicidade e um estado de espírito que diminua sua ansiedade e os seus conflitos existenciais. Não existe, minha cara Mariana, uma receita, um conselho milagroso, uma varinha de condão, ou, poder misterioso que satisfaça a alma humana porque a essência do ser é extrato da existência, o homem constrói sua natureza dia a dia, portanto, essas inquietudes existenciais são permanentes, porque o homem não aceita sua limitação e gostaria de ter natureza infinita.
Nós somos nossas circunstâncias. A felicidade, minha cara Mariana, é relativa e não absoluta. O homem não é feliz sempre, mas sempre quer ser feliz. O homem tem momentos de felicidade. Li faz algum tempo, um provérbio judeu, que “um dia de felicidade vale um ano”, por isto, crê-se que o homem perde parte significativa de sua existência na busca da felicidade. Porém, a felicidade não se procura, ela está dentro do homem quando o ser supera o ter, quando ele se desapossa do que não é necessário, sua ansiedade e seus conflitos existenciais diminuem e ele terá paz.
Por outro lado, minha querida discípula de Hipócrates, a felicidade passa, necessariamente, pelo exercício da partilha, da solidariedade, do ombro amigo, da palavra sincera, do olhar complacente, da lágrima enxugada, da doação, do amor ao próximo, pois quem semeia rosas não colhe abrolhos, mas colhe rosas. Se alguém planta maldade e iniquidade, não vai colher bondade, porque a lei do retorno está escrita no código da vida, é uma regra que não falha.
Mariana, eu não acredito em predestinação, destino, ou, coisa que valha! Não acredito que Deus tenha deixado o sofrimento humano como remissão do pecado de Adão e Eva. Qual o mal de uma criança para sofrer de câncer agressivo? Vítima de uma bala perdida? Seviciada pela brutalidade de um insano? A razão não responde. Se o pai humano não deseja nenhum mal para seu filho, imagine o Pai celestial! Só existe algo que explica: o mundo das possibilidades necessárias, contingenciais e reais. Só estes conceitos, minha amiga Stolzer, respondem aos fatos do cotidiano.
A vida, minha amiga, é uma dessas coisas que não se explica: vive-se... Não se deve perder o foco da vida, até para sobreviver, mas não se deve encher a cabeça de caraminholas, deve-se viver intensamente, cada dia é uma vitória! Se existe alguma receita para uma vida feliz é a prática do bem, que em si não é uma virtude de quem o pratica, mas um meio de sublimar os seus defeitos e completar aquilo que lhe falta.
Enfim, não sei se respondi bem sua carta, pois também não tenho resposta para o significado da minha existência. Ultimamente, “deixa a vida me levar” como canta Zeca Pagodinho, isto é, deixo a vida acontecer e sou mais feliz, minha amiga Mariana Stolzer.
Que Deus lhe abençoe, paz e bem!... Cordialmente, Narvil


Autor: Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 12 de março de 2014.

Chat mal-assombrado - R. Santana


Chat mal-assombrado - R. Santana

- Olá, Carol!
-Oi, Paulo! Você é muito jovem... Quantos aninhos?
- Adivinhe!
- Bem, essas espinhas... pele jovem... 18 aninhos! Acertei?
- Errou por 2 meses!
- Não sou pedófila, garoto!
- Sou homem feito, princesa!
- Não duvido, mas sou mais velha...
- Quanto, mais velha?
- Sou mais velha 2 anos!
- Carol, a diferença é nada!
- Já lhe encontrei em vários chats, você não trabalha?
- Eu lhe confesso: sou aficionado por redes sociais e salas de bate-papo. Colo que só chiclete! Não, não trabalho, estudo medicina, acha pouco?
- Ah, será médico?
- Claro, Carol!
- Desculpe-me, quis dizer: a especialidade?
- Em princípio, eu serei clínico, mas farei residência em oncologia!
- Hein!?
- Não entendeu? Residência em oncologia!
- Coincidência...
- Não entendi!...
- Deixe pra lá... bobagem... hum... hum... hum... vou desconectar!... – Carol saiu da sala abruptamente.

Paulo não entendeu a maneira repentina que Carol deixou a sala de bate-papo do site de relacionamento: “Flor de Cactos”. Já tinham conversado mais de uma vez, sempre ela fugia sem explicação e inesperadamente. Então, Paulo se voltava para o Facebook, o Linkedin, o Twitter, o MySpace..., postando, curtindo, comentando, numa tentativa de reencontrar Carol, em vão... Porém, um dia, quando ele já havia acessado pela enésima vez o site “Flor de Cactos”, reencontrou-lhe de repente:

- Olá, princesa! Sumiu!?
- Andei vagando pelo espaço sideral!
- E não me convidou...
- É preciso morrer primeiro!
- Que conversa lúgubre, Carol!
- Você tem medo da morte?
- Claro!
- A morte é uma passagem...
- Tão cedo não quero passar para o lado de lá, princesa!
- Nem por mim!?
- Hoje, o seu papo está esquisito!...
- Desculpe-me amigo, é que... – desconectou.

Dois dias depois: Paulo desiludido de lhe procurar, já não lhe movia a esperança de reencontrá-la nem a curiosidade de desvendar o mistério daquela mulher de rosto perfeito e corpo sensual, a reencontra, aliás, ela o reencontra:

- Olá amigo, sentiu minha falta!?
- Você é um mistério, aparece e desaparece sem deixar rastro!!! – um pouco irritado.
- Querido, não se irrite, estou sempre perto...
- Parece um fantasma!!! – ainda irritado.
- Sim. Um fantasma virtual!...
- Gosto de abraçar, beijar, mordiscar...
- Não lhe prometo muito... Quer me ver mesmo assim!?
- Sim! – o ambiente num instante virou pelo avesso:

O monitor LED começou chuviscar, a mesa tremulava, o WEBCAM foi lançado do outro lado da parede, a estante pulava com os livros, o CPU deu um pipoco, a lâmpada da sala de luz incandescente passou pra lusco-fusco, a poltrona de Paulo começou rodopiar, o ar condicionado disparou no máximo, a pilha de CD e DVD se espalhou pelo chão, as portas da casa abriam e fechavam com força, Paulo se encolheu de frio, quando Carol, com seu corpanzil, de sapato alto, voz gutural, surgiu de supetão no fundo da sala:
- Querido amigo, estou aqui! – Paulo desmaiou...

 

 


Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro Efetivo da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: GOOGLE

A cobra e a minhoca - R. Santana

 

A cobra e a minhoca - R. Santana
 

     O velho Tanaguchi não é a rainha persa Xerazade, mas sua criatividade não tem limite, toda vez que o encontro, ele tem uma história pronta para me contar, e, se o papo se prolonga noite adentro ou ao longo do dia, seu repertório parece que não tem fim, o homenzinho é um repositório de saber, aliás, ele dispensa o “saber” e substitui por “sabedoria”... Justifica que quase não teve escola e o pouco que sabe, ele aprendeu com a leitura do mundo.
     Naquela manhã, o encontrei numa praça de jardim bisbilhotando as páginas de um livro, então, provoquei-o:
     - Eis aí o homem dos livros!
     - Meu caro Narvil, eu te confesso que é através do livro que viajo pelo mundo passado, presente e futuro. Meus pais foram mal alfabetizados pelos meus avós, naquele tempo, um braço a mais na lavoura era vital, portanto, quando o menino sabia ler e escrever e as quatro operações aritméticas, ao invés de uma nova caneta e um novo livro, era lhe dado uma enxada, uma estrovenga, um facão... Mas, que tu fazes aqui, não trabalhas mais!?
     - Oh, Esopo dos tempos modernos! Não lembras que como tu, eu sou um vadio institucional?
     - Não vos dizeis bobagens, eu e tu já produzimos muito para este país de homens de má fé, é legal e justo que no ocaso da vida, quando não somos mais força de trabalho, morramos... – eu o interrompi:
     - Meu velho, tu deixes de churumelas e me conte uma boa história!
    - Não sei se é boa, mas gosto muito da história da cobra e da minhoca que ocorreu no tempo em que os animais falavam e a cobra não tinha a visão perfeita de hoje!
     - Desembuches, ó homem!

                                                                      ***
A cobra e a minhoca
- Bom dia, dona Cobra! – a cobra olhou o impertinente por cima dos óculos...
- Quem és tu?
- A Minhoca!
- Como atreves verme sujo, perturbar o meu ócio!
- Eu não sou sujo, estou sujo, a terra é meu suor!
- Além de verme desprezível, és insolente!
- Na natureza dona Cobra, cada espécime tem o seu lugar, somos responsáveis pelo seu equilíbrio, todos nós somos necessários!
- Eu sou o símbolo da medicina, da enfermagem, eu represento o bem e o mal, a esperteza, tu és, apenas, isca de peixe! – cheia de empáfia.
- É o ciclo da natureza: eu me alimento de húmus, deixo o vento e a água passarem pelos meus túneis, assim, levo vida à terra e aos vegetais, sou dada ao peixe, o homem se alimenta de peixe, morre e volta pra terra!
- Tu queres posar do bem, mas tu estragas barragens e diques com o teu fuça-fuça e prejudica o homem. O meu cuspe dá vida e serve para minha autodefesa, afora me alimentar de espécimes nocivos à natureza. Tu nunca vais ser mais útil!
- O meu fuça-fuça estraga o concreto, mas não mata o homem, além disto, dou-lhe saúde e beleza, jamais lhe feri de morte nem nunca o atraiçoei...
- Verme nojento, tu não conheces a história da vida, não sou traiçoeira, ajo em autodefesa, quem traiu o homem no Éden não foi a serpente, o Diabo a usou para que Eva e Adão cometessem o primeiro pecado!
- Há 500 milhões de anos conheço essa história de desobediência a Deus, porém, vós não deixastes de ferir o calcanhar do homem e tua cabeça esmagada, além da maldição de vos rastejardes sempre!
- Ser desprezível, nunca houve maldição... O Diabo usou a serpente para o seu propósito espiritual, cada ser tem sua natureza e forma, tu, por exemplo, és asquerosa e segmentada, nunca vais ser cobra, tua sina é furar a terra, portanto, ides antes que me aborreça! – não demorou, surgiram alguns caçadores na mata, a cobra preparou o bote, mas foi advertida pela minhoca:
     - Se ferirdes um, serás cortada em pedaços pelos demais, não sejais imprudente, dona cobra!
     - Faço o quê!? – apavorada...
     - Penetres comigo naquele túnel!...

 

                                                                           ***

 

MORAL DA HISTÓRIA
Todos os seres vivos são iguais na diversidade. A necessidade diminui a diferença, o orgulho, o preconceito, excita a prudência e o bom senso.

 

 


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
 

Educação e aprendizagem - R. Santana



Educação e aprendizagem

R. Santana


     Não é fácil falar de educação nos dias atuais, para quem não é um especialista da área, apenas, conhece “an passant” os teóricos tradicionais: Vigotsky, Piaget, Anísio Teixeira, Paulo Freire e os mais em voga no momento: o sociólogo Suíço Phillippe Parrenoud, o abade Júlio Houssay, Içami Tiba e Fernando Hernández - todos têm em comum a preocupação com o sujeito da aprendizagem e os agentes de mudança -, porém, não é tão difícil falar de educação e aprendizagem quando se tem a prática de três décadas de ensino.
     É sabido que aprendizagem é, somente, um dos aspectos da educação. Já ouvimos enésimas vezes alguém dizer: “fulano não estudou, mas é uma pessoa educada”, ou, “doutor fulano é um cavalo”... Educar é a formação moral e intelectual do sujeito, pois além do cognitivo, afetivo e motor, é necessário que o sujeito da aprendizagem desenvolva sua consciência moral, política e social, enfim, sua consciência cidadã, porque o homem não é uma máquina de funções mecânicas, repetitivas ou programadas, mas um ser físico-psíquico complexo.
     O binômio família-escola não possui mais o papel decisivo de antes na educação e aprendizagem de crianças, adolescentes, jovens adultos, da sociedade contemporânea, pelos mais diversos motivos, dentre tantos, não seria demais citar: presença crescente da mulher-mãe no mercado de trabalho, conflitos familiares e instabilidade do casamento, profissionais do ensino desmotivados e descompromissados, currículos inadequados e políticas educacionais desastrosas.
     O episódio comovente que ocorreu em Nova Iorque no ano de 1857 foi decisivo para independência profissional e financeira da mulher, de lá pra cá, a mulher deixou de ser Amélia e definiu pra sempre sua posição no mercado de trabalho e na vida familiar. Não existe mais a marca: “atrás de um grande homem existe uma grande mulher”, hoje, a mulher não fica atrás do homem, mas caminha ao lado do homem, é parceira nas decisões, não dependente, muitas vezes, assume sozinha a casa e os filhos com a separação do cônjuge. Porém, essa ascensão profissional e social da mulher tem tido reflexos negativos na aprendizagem e educação dos filhos, por necessidade profissional e social, ele transfere seus deveres básicos pra escola e babás nem sempre qualificadas.
     Conforme Piaget, só se aprende quando o objeto da aprendizagem tem significado para o sujeito, não é correto o professor responsabilizar unicamente o aluno pela não aprendizagem: “o aluno de hoje não quer nada”, quantas vezes já ouvimos isto de professores não vocacionados? Inúmeras vezes. O aprendiz, nos dias atuais, que o conhecimento está ao alcance de todos, jamais irá se interessar por conteúdos inadequados, sem sentido, dados apenas por exigência curricular e cumprimento de carga horária escolar. Os planejamentos anuais de cursos e os planejamentos semanais de aulas são conteúdos repetidos ano após ano, aqui e ali, têm fatos novos, portanto, não surpreende a ninguém que o aluno crie resistência para aprender aquilo que não lhe desperta interesse – a recíproca é verdadeira.
     É do conhecimento da sociedade que a política salarial do trabalhador da educação é desastrosa, no entanto, num país em desenvolvimento, que não existe assalariado satisfeito, não procede a péssima qualidade de ensino na escola pública justificada pelo baixo salário do professor e/ou melhores condições de trabalho. Quando alguém se inscreve em um concurso público, a priori, ele conhece o valor do salário, por isto, é cinismo não cumprir sua obrigação profissional por ser mal remunerado, quem gosta do que faz não se limita, somente, fazer bem, mas fazer o melhor.
     Não se pode falar em aprendizagem institucional sem análise dos diferentes tipos de avaliação e os critérios de promoção do aluno. Não vai longe o tempo que o aluno da escola pública para ser promovido de uma série pra outra, teria que aprender, no mínimo, 50 % do conteúdo e a escola privada 70 %, todavia, no final do ano letivo, far-se-ia um somatório de todas as notas e prevalecia a média aritmética de 50% para aprovação tanto na escola pública quanto na escola privada.
     Hoje, não se avalia o aluno considerando aspectos puramente quantitativos, agora, o sujeito da aprendizagem é avaliado como um todo: avalia-se suas potencialidades cognitivas, psicológicas e aptidões. Atualmente, entende-se que não é de bom alvitre reprovar, já se fala em “aprovação automática”, “aprovação contínua” e “progressão continuada” que são artifícios usados para promoção do aluno mesmo que ele apresente falhas de aprendizagem.
     Enfim, não existe uma fórmula mágica para solucionar todos os males da educação de imediato. Acredita-se que no futuro, todos os segmentos sociais terão que se envolver por exigência do mercado de trabalho que cada dia se torna mais sofisticado, afora a necessidade de nosso país não ficar a reboque dos demais em conhecimento e tecnologia.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

Carta para Maria Rosa R. Santana

 

Carta para Maria Rosa
R. Santana


Querida amiga, Maria Rosa, carpe diem:
 

     Recebi sua cartinha num momento de angústia e fragilidade (levaram meu neto João Victor para Salvador), por isto não lhe respondi logo, como a amizade, a consideração e a praxe epistolar exigem, agora, que me deu na telha lê-la e analisar cada tópico de sua querida missiva, pois não é somente uma carta de amizade dos tempos de escola, mas muito mais: - um documento de cobrança e de saber.
     Sua carta iniciou me colocando dentro da escola da professora Nair Assis Menezes (acredito que ela está à beira dos 90 anos de vida, lúcida e forte), de corpo e alma, há mais de 50 anos passados, quando os nossos sonhos de pré-adolescentes norteavam as nossas vidas e não tinham limites... Quantas vezes pensei ser Napoleão Bonaparte e libertar o Brasil das mazelas de ontem que não eram diferentes das mazelas de hoje? Inúmeras.
     O episódio mais significativo que guardei na Escola Sagrado Coração de Jesus - ESCJ, foi o dia de sabatina - a tabuada e a gramática Olga Pereira eram condições sine qua non para que cursássemos o “Admissão ao Ginásio”. Naqueles dias de sábado, dona Nair reunia em grupo de 10 ou 12 alunos, sentados em semicírculo nas cadeiras sem braço e nos perguntava a tabuada de mais, de menos, de vezes e de divisão, aquele que não respondia na ponta da língua o cálculo, ela passava a pergunta para o colega subsequente, se ele acertasse, daria 1 “bolo” de palmatória ao negligente do estudo das operações aritméticas, se ambos erravam, ela praticava com vontade esse mister.
     Maria, lembra-se que tomei 6 “bolos” por sua causa? Não!? Pois vou lhe refrescar a memória: - eu não era aluno brilhante, porém, possuía certa aptidão para números, tabuada eu tirava de letra... Num daqueles dias, você foi sabatinada e errou a resposta, então, fui o próximo arguido, mas lhe dei um “bolo” fraquinho – estávamos de namoro - dona Nair enfurecida, deu-me 6 “bolos” ardentes e a recomendação: “vou lhe ensinar como é que bate”.
     Bons tempos aqueles minha amiga Maria Rosa, afora as admoestações do pároco nas missas de Domingo, não tínhamos preocupação maior, não sabíamos do preço do feijão, do arroz, do café, da farinha, do toucinho, da carne, do frango, do remédio, do tomate, do coentro, da cebola... a única coisa que os nossos pais nos exigiam era que estudássemos para “ser gente”, que para muitos dos nossos contemporâneos, era o mesmo que pedir ao Diabo que se curvasse diante da cruz!...
     Ralha comigo por que razão eu não lhe escrevo sempre nem produzo literatura como antes, procede. Não é fácil escrever sem motivação nem encontrar novo caminho, tudo que penso escrever alguém já o fez com desenvoltura e competência. Não me sinto à vontade no papel de reprodutor (não plagiador) de ideias conhecidas, não concordo com o filósofo que disse que tudo já foi dito, mas que é necessário dizer de novo para que se ouça, é mais ou menos o princípio de comunicação de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler: “a mentira repetida ganha foro de verdade”.
     Acho que sempre há um caminho novo a percorrer, difícil é encontrar o atalho como encontrou Pablo Picasso, Paul Cézanne, Charles Baudelaire, Gregório de Mattos, Cláudio Manoel da Costa, Byron, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Drummond, Olavo Bilac, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoas (os heterônimos), e outros não menos iluminados.
     Querida amiga, os modelos de literatura e de artes plásticas se esgotam com o tempo, é necessário sempre um novo paradigma. Acredito que a literatura do futuro e as artes plásticas serão concisas, pouco conteúdo e mais significado na palavra ou na imagem, veja as mensagens das Redes Sociais e os e-mails, os jovens são econômicos nas palavras, às vezes, uma frase define um contexto.
     Querida Maria Rosa, eu prometo-lhe por todos os santos, conhecidos e não conhecidos, doravante, congestionar de notícias sua caixa postal e seu e-mail com notícias minhas e das pessoas que quero bem, perdoe as minhas falhas, não são falhas de caráter, é que Deus não me tem permitido, ultimamente, nenhuma inspiração na criação duma nova obra.
     Ah! Conheço sua inteligência e perspicácia e irá dizer: “... meu caro Narvil, uma Nova Escola não sai da cabeça de um indivíduo, mas é uma confluência de fatores emocionais e sociais de cada período, portanto, deixe de pretensão pequeno homem!”, lhe responderia na bucha:
     - Linda mulher de ontem e de hoje, não é a arte que imita a vida, mas a vida que imita a arte, se alguém faz uma arte nova do gosto de todos, não se engane linda mulher, todos irão imitar essa arte sem reflexão se é boa ou ruim. Do seu amigo, Narvil

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 06/05/2014
Alterado em 29/09/2025

João Victor e o mundo encantado - R. Santana

 

João Victor e o mundo encantado R. Santana
João Victor e o mundo encantado
R. Santana


Eu estive 15 dias no mês de maio com João Victor em Salvador. O pituquinha me surpreende cada dia que passa. Agora, com 2 anos e 8 meses de idade, ele fala as coisas explicadas, não fala mais “nhan”, “papá”, “mamã”, “vô” e “vavá”, mas “não”, “papai”, “mamãe”, “vovô” e “vovó”. Ainda não deixou de usar fraldas, não chegou ainda o seu tempo, mas um dia ele se libertará desse incômodo vestuário de fazer xixi e coco.
Hoje, meu pituquinha está mais sabido, assim que acorda, toma banho, bebe o seu “gagau” , vai para o playground do edifício brincar de velotrol ou de moto movida à bateria elétrica, senão, aperta o play do seu DVD e vai ouvir e ver patati patatá, galinha pintadinha, borboletinha, dona aranha, ou, o sapo não lava o pé, quando enjoa, ele pede-me, aliás, ordena que eu ligue o notebook:
- Vovô, Lepo Lepo!.. – aí ele dança igual às meninas de Psirico, se eu não reconhecesse que sou vovô babão, diria que dança melhor do que as meninas de Márcio Victor.
Porém, o xodó de João Victor, atualmente, são as histórias do mundo encantado, principalmente, as fábulas infantis adaptadas pelos Irmãos Grimm, dentre elas, “Chapeuzinho Vermelho”, não a história de “Chapeuzinho Vermelho” contada pelos bardos na Idade Média, sem autoria definida, onde o lobo mau comia todo mundo, mas a história atual preocupada com os animais em que o lobo mau é poupado pelo caçador, inclusive, ele dá-lhe remédio para curar sua dor de barriga causada pelo bolo que “Chapeuzinho Vermelha” levava na cesta para vovozinha.
Li, sem exagero de contador de histórias, o livro infantil de ”Chapeuzinho Vermelho” dezenas de vezes, quando menos esperava, meu pituquinha, ordenava: “leia mais, vovô!”, eu começava: “Em um vilarejo perto da floresta morava uma menina com sua mãe, seu nome era Chapeuzinho Vermelho”, recomeçava na outra página: “Certo dia sua mãe falou, Chapeuzinho vai levar esta cesta de bolo e este remédio, sua vovozinha está doente e fraca, mas cuidado, não fale com estranhos.”
A história continua, “Chapeuzinho Vermelho” vai serelepe pela floresta, de repente, encontra o lobo que lhe pergunta aonde ia, ela o despista e vai colher flores, então, o lobo mau corre à casa da vovó, tenta lhe agarrar, a vovozinha foge e se esconde no guarda-roupa, enquanto isso, o lobo mau se empanturra com o bolo da vovozinha e tem uma tremenda dor de barriga. “Chapeuzinho vermelho” pede socorro ao caçador que ao invés de socorrer-lhe, socorre primeiro o lobo que está com forte dor de barriga, o lobo fica curado e devolvido para floresta, enfim, todos ficaram salvos e felizes.
Se a leitura ocorre no início da noite, quando as pálpebras de João Victor teimam não fechar, eu imploro ao deus Morfeu para que ele permaneça mais algum tempo acordado, então, provoco-o com versos populares que a minha querida tia Celsa gosta de declamar:
- Vitinho, fale rápido e ganhe um pirulito!!! – aí ele desperta.
- Falar, vovô!?
- Sim, preste atenção! – a custo, ele fica todo ouvido:
- Quem a paca cara compra, paca cara pagará! – Vitinho tenta:
- Que cara... cara...paca...paga... – compreende o seu erro e cai na gargalhada...
- Ah ah ah ah ah... – Vitinho fica contagiado com minha risada e quer repetir, mas lhe jogo outro verso:
- Uma velha atrás da moita, estirou uma perna e encolheu a outra. Uma velha atrás da moita, estirou uma perna e encolheu a outra. Uma velha atrás da moita, estirou uma perna e encolheu a outra... – repeti várias vezes para que pituquinha entendesse, mas não gostou:
- Vozinho, é feio, a outra... – entendi:
- Quem a paca cara compra, paca cara pagará. Quem a paca cara compra, paca cara pagará. Quem a paca cara compra, paca cara pagará... – João Vitor tenta:
- Paca cara... cara pagará...paca... paca... – Vitinho se atrapalha mais uma vez como era esperado... Ele olhou para mim, eu olhei pra ele e caímos na risada:
- Vovô maluco, vovô maluco, vovô maluco... – fugiu para cama e alguns minutos depois, estava nos braços de Morfeu de sono solto.
Certamente, a felicidade não está nas grandes realizações humanas, mas nos gestos e inocência dos pequeninos.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Itabuna, 27 de maio de 2014.

A cobra e o teiú - R. Santana

 

A cobra e o teiú - R. Santana
A cobra e o teiú
R. Santana

     Naquela manhã que não vai muito longe, encontrei o velho Tanaguchi na Praça Olinto Leone em Itabuna. Não foi um encontro acidental, sabia, a priori, que o descendente de pais da “Terra do Sol Nascente” estava ali, fazendo o que mais gostava: ler e refletir. Fiz-me surpreso:
     - Quê faz aqui homem dos livros!? – o velho olhou-me com cara de poucos amigos, mas relaxou:- Estou lendo    “Histórias da Bahia” de Jolivaldo Freitas. É um livro de crônicas humoradas da cidade soteropolitana – fez uma pausa e continuou:
     - Narvil, o poeta teve razão quando afirmou: “... o Céu é do Condor, a Praça é do povo!” A praça é uma coisa mágica Narvil, aqui, sentam-se ricos, pobres, pretos, brancos, amarelos, bons e maus, todos unidos pela magia da praça. Todos são velhos conhecidos e desconhecidos ao mesmo tempo. Cada um tem sua história... Se alguém puxa conversa com seu parceiro de banco da praça, dentro de poucos minutos, suas vidas tornam-se comuns – de repente, perguntou-me:
     - E você? – eu não entendi, ele percebeu:
     - Tu fazes aqui, o quê?
     - Ah! Vou ao Banco do Brasil, pagar minhas faturas!
     -Não tenho preocupações com essas coisas, moro com meu filho, dou-lhe o dinheiro da aposentadoria, ele que se vire!
     -É por isso, velho nissei, que você ler o tempo todo, não tem preocupação cotidiana! – brinquei.
    -Engana-se Narvil, trabalhei na lavoura como um louco no interior de São Paulo, mas nunca me desgrudei de um bom livro, lia-o no horário das sestas, o genial Monteiro Lobato disse que: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”, portanto, meu amigo, o ócio não me fez leitor nem pensador, mas me fez mais leitor e mais pensador – fez uma pausa e falou:
     -Dizes aí lagartense? Tu não estás aqui por acaso! – o velho é perspicaz, fiz-me de desentendido...
     -Filho de oriental, não é o que vos dizeis!
     -Estou brincando, Narvil! – aproveitei seu espírito desarmado e o cutuquei:
    -Tanaguchi, tu estás me devendo a história: ”A cobra e o teiú”, que tu começastes naquele dia e não terminastes!
     -Diz a sabedoria popular: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Por isto, escuso-me quando posso, de não recontar história que li em algum lugar...
     -Pelo menos, desta vez, homem dos livros!
     -Não sei se me lembro dos detalhes, mas vamos lá!...

                                                                                ***

A cobra e o teiú

     -Por aqui dona cobra? – saúda-a o teiú.
     -A fome é a mãe de todas as necessidades...
     -Espero que não me dê um bote!
     -Não, não será necessário, não muito longe daqui tem uma lagoa com sapos apetitosos – completou:
     -Além disto, amigo teiú, os nossos embates são violentos!
     -Não seja modesta dona cobra sua picada tem derrubado muitos homens, seu enrosco tem amassado os ossos de muitos animais!
     - Folclore...
     - Folclore?
     - Folclore, meu amigo teiú, o que mata é o susto, não a picada!
     - Eu quero prova, dona cobra!
     - Vou lhe dar...
     - Que é de a prova!?
     - Amigo teiú, só é possível se me ajudar!
     - Como, ó espécime do bem e do mal?
     - É fácil...
     - Fale, senão, irei voltar para minha toca! – a cobra cochichou no ouvido do teiú, ele de pronto concordou e lá se foram para beira da estrada.
     Certo viandante passava despreocupado pelo caminho quando sofreu uma fisgada no calcanhar, olhou de lado, viu um enorme lagarto, o caminheiro fez um rapapé e o lagarto se escondeu dentro do mato. Tempo depois, surgiu na mesma estrada outro viajante que sofreu, também, uma pontada no calcanhar, quando se vira, um enorme jaracuçu, o susto foi enorme e foi-se ao chão!...
     A cobra comentou:
     - Eis aí a prova meu amigo lagarto, você mordeu e apareci, o viajante morreu e o contrário o viandante fez pouco caso.

                                                                           ***
MORAL

     - Faça sua fama e deite-se na cama – arrematou Tanaguchi.

 

 


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

Carta para Júlia (III) - R. Santana

 

Carta para Júlia (III) R. Santana
Carta para Júlia (III)
R. Santana

Querida Júlia:
 
Júlia ó Júlia em que bruma em que nevoeiro tu te escondes? Já te mandei enésimos recados, em vão... Perdestes no meio das tribulações a delicadeza e o bom coração? Duro para ti recalcitrar contra a verdade e a imaginação criativa! A arte literária não tem limite e jamais será cerceada, somente a deusa Thanatos possui o apanágio da destruição.
Cercear-me é fácil, com alguns rapapés fico murcho, mas cercear os turbilhões criativos que brotam dentro de mim, é impossível, possuo o demônio do bem e do mal que tanto reclamava Sócrates que como o grego, eu puxo-o para as coisas do bem sempre,
Não acredito que obras fúteis deem imortalidade a ninguém, a imortalidade é um desejo primitivo do homem, mas o estado de imortal só será possível através de obras criativas originais e substanciadas, a repetição do que já existe não estigmatiza nenhuma obra. Aliás, a imortalidade terrena é um sofisma, talvez, a alma boa, santa, seja imortalizada, conforme crenças religiosas. Não confundir memória temporal com memória atemporal, infinito só Deus, nem o espaço e o tempo são infinitos, estão sujeitos a cortes sempre.
Estimada Júlia, a vida tem significado quando se é feliz. Ser feliz só quando a vida é compartilhada, quando se vive para o outro, quando se ama e é amado, ninguém vive numa ilha como Robson Crusoé, só na ficção de Daniel Defoe, a realidade da vida, querida Júlia, é uma ladeira íngreme, muita gente desiste antes de chagar ao topo.
Faz algum tempo que refletir a felicidade num ensaio: “O homem nasce para ser feliz?...”, já naquela época, demonstrei com fatos que o homem tem, apenas, momentos de felicidade, que somos as nossas circunstâncias, a relatividade do bem e do mal, que destino é uma coisa improvável e o que regula a nossa vida não é o determinismo, mas “o mundo das possibilidades”, que se caracterizam em: tangenciais, necessárias, e, reais, o resto, é especulação existencial estéril.

Querida Júlia, certamente, não se nasce com o destino traçado, a nossa vida não é predeterminada, todavia, as pessoas possuem dons diferentes. Claro que o foco e a determinação superam muitas deficiências pessoais... Demóstenes, um dos maiores oradores e político da Grécia antiga, é um exemplo, gago, usou os mais diversos artifícios primitivos para vencer a gagueira e tornou-se o maior orador grego daquela época. Se Einstein continuasse empregado no escritório de patentes em Berna, não teria sido um dos maiores físicos de todos os tempos, ou seja, cada pessoa tem um dom, difícil é encontrar o “veio”, a aptidão certa, às vezes, o indivíduo passa pela vida e não descobre sua verdadeira vocação. O seu dom, Júlia, não é liderar, delegar, atribuir, talvez, o seu dom é fazer, colocar a mão na massa...
Querida amiga, eu não lamento o passado “águas passadas não movem moinho”, nem penso no futuro, vivo o presente a cada dia, portanto, não choro em cima do leite derramado, aliás, as minhas perdas foram de somenos importância: falsos amores, falsos amigos, amizades interessadas, falsas oportunidades e inimigos gratuitos. Porém, no ocaso da vida, lamento o meu papel sem significado neste mundo, não deixarei nenhuma contribuição para humanidade, Deus não me premiou com seus talentos, apenas, permitiu-me que eu fosse mais uma criatura no mundo.
Ultimamente, tenho refletido sobre moral, ética, legalidade, descobri que nem sempre o que é legal é justo. Nos serviços essenciais, seus trabalhadores não podem fazer movimento paredista in totum, mas os trabalhadores fazem-no e incorrem em ilegalidade e punições, todavia, o pleito não deixa de ser justo, justíssimo. Por outro lado, nem sempre as atitudes antiéticas não são amorais, às vezes, respondem às certas atitudes indecentes e imorais.
Júlia, finalmente, eu quero lhe dizer que o mal jamais vencerá o bem, esses dias, distante daqueles que me discriminam, daqueles que não me compreendem, distante dos egos inflados, distante daqueles  Cordialmente, Narvil


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Common

Destaques

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.   Por favor, invista dois minutos do seu tempo e leia isto:    1.  Suponha que às 19h25 voc...

Última semana