11.10.2025

Franga Saradona - R. Santana

 

Franga Saradona R. Santana
Franga saradona
R. Santana
 
Não foi por acaso que encontrei o velho Tanaguchi, novamente, na Praça Olinto Leone, dizer que foi por acaso seria faltar com a verdade aos meus estimados leitores, não faria isso nem pra ganhar a sorte grande da Mega-Sena ou o prêmio Jabuti, é que “a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece”, portanto, mentir não é bom exemplo, conheço todos os hábitos do velho Tanaguchi e parodiando o dito a Maomé: “Se Tanaguchi não vai a Narvil, Narvil vai a Tanaguchi”, acrescento ainda, que o velho estava bem humorado e recebeu-me cheio de pilhéria:
- Lá vem o bisbilhoteiro do conhecimento!
- Você quis dizer curioso, né?
- Além de mexeriqueiro e intrometido...
- Se é assim, fui! – zangado.
- Estou brincando Narvil, gosto de sua bisbilhotice, incita a minha imaginação – continuou:
- Hoje, estou alegre, descontraído, ainda não percebeu?
- Percebeu o quê?
- Estou menos formal, não usei os pronomes e os verbos na 2ª. pessoa como dantes, eu estou brincalhão e você quer contrariar meu humor?
- Desculpe-me Tanaguchi, estou uma pilha!
- Para lhe relaxar, vou contar a fábula da “Franga saradona”, quer que lhe conte ou não?
- Claro, ó homem dos livros! Que o meu mau humor vá para as Cucuias!
- Então, sente-se e ouça:
- Em uma fazenda não muito longe daqui uma franga tinha desde cedo um comportamento diferente: ciscava bastante, brigava com as galinhas, ranzinza, criava caso com os pintos, com os frangos, com as frangas, com as galinhas e só esbarrava na autoridade do galo, não por medo, mas por admiração porque um dia seria, também, galo daquele terreiro.
Seus pais preocuparam-se desde cedo com o comportamento estranho da filha e levaram-na a vários especialistas da mente, todos foram unânimes no diagnóstico: megalomaníaca, superestima e concluíram que a franga não era frango, mas uma fêmea igual às outras, exceto, na personalidade exacerbada.
A franga não ficou contente com o diagnóstico, não tinha nada de cabeça, apenas pensava como um galo, isto não é doença, mas uma opção de vida, portanto, ia buscar na ciência médica, complementos físicos que lhe faltavam e contratou os serviços dos doutores Zé Galo e Zizi Pavão – aí, eu o interrompi:
- Meu caro Tanaguchi, os médicos não diagnosticaram que seu problema era de super autoestima, pra que mais médicos?
- Médico de físico é outro, continue ouvindo:
- Doutor Zé Galo fez as cirurgias plásticas: aumento das cristas e o implante de esporões pontiagudos para defesa e ataque e conformou o pescoço; a Drª. Zizi Pavão cuidou da beleza: hormônios para tornarem as penas mais brilhantes no pescoço, asas e costas, encompridar as penas do rabo e para o crescimento, enfim, eles deixaram a franga um “galo”.
Fez-se no galinheiro uma grande festa para apresentação do novo “galo”... Todos os galinheiros circunvizinhos foram convidados, no auge da festa o mestre de cerimônia anunciou o canto dos machos velhos e o canto do novo “macho”, os machos velhos estridularam seus cantos com um som agudo e penetrante:
- cocoricó, cocori, cocori, cocoricó, cocori, cocori!!! – os machos velhos fizeram seus cantos serem ouvidos por toda fauna arredor, mas quando o “macho” novo cantou...
- có, có, có, có!... – o som foi grave e abafado, uma vergonha, protestou o galinheiro, não era canto de macho, a franga não era macho, um engodo, uma falsidade, propaganda enganosa!!!
O novo “galo” quedou-se e chocou, chocou, chocou...
- Eis aí a lição meu caro Narvil: mexe-se na aparência da criatura, mas a natureza é obra de Deus.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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11.09.2025

Alf, o demônio - R. Santana

 

Alf, o demônio - R. Santana
 

     A velha Astrid não sabia explicar a origem de Alf, o gato surgiu, foi ficando e ficou. Astrid não gostava de gato, seu animal preferido era o cachorro, ultimamente, criava dois cachorros: Tupã era o guardião do sítio, e uma cachorra de raça Basset, que Astrid chamou-lhe de “Jéssica” desde novinha. Jéssica e Tupã conviviam em perfeita harmonia.
     A velha Astrid morava numa pequena fazenda de boa aguada, na região Sudoeste da Bahia, onde criava galinhas, patos, perus, porcos, pavões, pequeno rebanho bovino, alguns pássaros de estimação, além de cultivar milho, batata doce, aipim, mandioca, abóbora e frutas. Ela, o marido, e seus dois sobrinhos (não teve filhos) davam conta do trabalho da fazenda. O lazer da família de Astrid era assistir à missa aos domingos em povoado não muito distante e ouvir um rádio de pilha de várias faixas nas noites de verão no alpendre da casa grande.
     No início, Alf e os cachorros se estranharam, a velha Astrid interveio, mas ficaram alguns resquícios de má convivência, então, Alf escolheu o celeiro da fazenda como seu habitat permanente, de quando em vez, visitava a casa grande de maneira sorrateira, geralmente, pelo telhado, de lá só saía quando Jéssica e Tupã cismavam com sua presença e não paravam de latir. Astrid ensimesmava-se com o comportamento dos animais, porém, não podia negar que o surgimento de Alf, a fazendeira não podia mais se queixar de prejuízo: o celeiro ficou livre de ratos calunga e ratazanas, seguro para se guardar os mantimentos.
     Alf tinha uma aparência não muito comum: olhos castanhos marcantes, o pelo do focinho, cabeça, pescoço, era negro piche e o resto cinza escuro rajado, corpo comprido e magro. Era admirável sua rapidez quando enfrentava Tupã e Jéssica, esbofeteava e unhava os cachorros com extrema facilidade, se incomodava mais com os latidos, do que com a ferocidade dos cães.
Três meses depois do aparecimento de Alf:
     - Tia Astrid, Jéssica está morta!
     - Morta? Morta como!?
     - Não sei. Eu sei que ela foi mordida na goela!
     - Mordida de cobra?
     - Acho que não!
     - O que faz pensar assim?
     - A mordida de cobra seria nas ventas, nos olhos, ou, noutra parte do corpo, menos na jugular de onde o sangue foi chupado!
     - Que história é essa, rapaz?
     - Tia, o bicho que matou Jéssica fez dois orifícios bem definidos e sugou todo sangue...

     Quatro meses depois do aparecimento de Alf, Tupã foi encontrado atrás do celeiro com as mesmas marcas dentárias de Jéssica e os olhos esbugalhados fora da caixa craniana, um quadro horrível. Todos da fazenda ficaram apavorados, inclusive, os vizinhos da fazendeira. Quando todos buscavam respostas, José de Astrid, seu marido, teve um insight inexplicável:
     - Querida, será que não foi Alf?
     - Alf, José!?
     - Pressentimento, querida...
     - Embora eu não goste de gato, Alf é dócil, José!
     - Não! Alf enfrentava Jéssica e Tupã com bofetadas e arranhões e se não ralhássemos, ele teria matado os cães...
     - O pobrezinho se sentia acuado, não é assim até com a gente? – olhe as patas dele pra ver se existem marcas de sangue, insistiu José.
     O pessoal saiu atrás de Alf, mas não o encontrou, o gato desapareceu, Astrid inconformada, justificou:
     - Ele ficou atemorizado com a quantidade de gente, voltará à noite, certamente... – Alf não voltou.

     Alf sumiu. A família de Astrid e os vizinhos vasculharam as roças num raio de um quilômetro quadrado e não encontraram o gato. O mistério continuou... Depois dos cachorros, as galinhas e os porcos foram atacados, em duas semanas, três porcos e várias galinhas e frangos foram sacrificados com o mesmo modus operandi na matança. A família de Astrid e os vizinhos apavorados criaram grupos de vigília para que dia sim e dia não, realizarem ronda na área da fazenda, onde se concentrava a maioria da criação, em vão, o bicho driblava os vigilantes!...
     Naquele dia, sexta-feira 13, às 24 horas, o vento forte soprava fora da casa grande, o galo no terreiro cantava antes do dia amanhecer, se ouvia longe o canto agoureiro da coruja, a noite escura indicava Lua nova, a chuva caía lentamente na bica da casa grande, as dobradiças da porteira do curral rangiam como se chorassem, o touro berrava, o galinheiro alvoroçado, os porcos danados na pocilga, a temperatura despencou, mesmo assim, neste inferno de Dante Alighieri, Astrid e José de Astrid deixaram o leito e com candeeiro suspenso na mão direita, foram ver o que se passava quando encontram Alf em cima da mesa, a velha Astrid e José de Astrid correm para pegá-lo, mas uma voz cavernosa, soturna, ecoa no ambiente:
     - Saiam daqui velhos carolas! Baba-hóstias! Baratas-de-sacristia! Saiam de minha fazenda!!! – os velhos não se intimidaram, cruz e terço levantados enfrentaram o demônio Alf:
     - Vade retro Satana! Afasta-te desta casa Satanás! O teu lugar é o mundo das trevas! Nunca mais volte a esta casa do Senhor – o bicho quadruplicou em tamanho, se debatia, vomitava chispas de fogo, o rabo e a cabeça rodopiavam no corpo, os olhos faiscavam, das ventas saiam um vento quente, mas os velhos continuavam fortes e firmes na fé com a oração do terço:
     - Creio em um só Deus/Pai todo-poderoso.... Pai Nosso... Ave Maria... Pai Nosso... Ave Maria...

 



Autor Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

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Itabuna, a princesinha do Sul da Bahia - R. Santana

 

                                              Itabuna, a princesinha do Sul da Bahia

                                                                     R. Santana


     Fui trazido para Itabuna por minha tia Judite, depois “mãe” Judite, no meado do Século (XX) passado, em tenra idade, ainda vestindo fralda. Claro que não guardo na mente imagens e fatos daquela época, mas lembro-me de muita coisa quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade.
     Minha tia e o marido moravam no bairro São Caetano, aliás, “Fuminho” naquela época, é que dois amigos do alheio roubaram umas bolas de fumo na cidade e esconderam o produto do roubo no outro lado do rio no pequeno povoado que se formava que viria ser o São Caetano. O subdelegado de calça curta prendeu os marginais, mas o apelido “Fuminho” permaneceu por muito tempo até se firmar como bairro São Caetano.
     O nome “São Caetano”, diz o povo que foi uma homenagem ao pioneiro das terras que se chamava José Batista Caetano, ou, uma trepadeira, uma herbácea que dá melão e chamada de São Caetano. O terreno produzia São Caetano em profusão mais que erva daninha. Não conheci José Batista Caetano, o fundador do bairro, conheci os seus filhos, Peó e Zezinho, dois negros cordatos, de coração grande, porém, sem instrução, depois de prolongado litígio, eles perderam essas terras para Dr. Durval Guedes de Pinho, filho de um famoso coronel caxixeiro das terras produtoras de cacau.
     Itabuna, daquele tempo distante, não passava de uma cidadezinha rodeada de fazendas de cacau por todos os lados. Suas ruas principais eram as ruas: J.J. Seabra e 7 de Setembro. Contavam-se os bairros nos dedos das mãos. O centro da cidade limitava-se à Praça Adami, Ruffo Galvão, Paulino Vieira, Adolfo Leite, Rui Barbosa e Duque de Caxias, Rua do Zinco e Avenida Garcia, não existia a Avenida Cinquentenário nos moldes de hoje.
     A feira-livre era o centro comercial da cidade, vendia-se de tudo, a feira-livre só perdia como atrativo com a chegada do trem, pois quem não queria ver a chegada e a partida do trem apitando e bufando vapor? Ninguém.
     A principal festa cívica da cidade não era o seu dia, mas o dia 7 de Setembro. As escolas saiam do campo da desportiva e marchavam pelas principais avenidas da cidade sob os olhares das autoridades, o controle e disciplina dos professores e a galhardia e a elegância da meninada.
     Havia uma disputa não declarada qual a escola de melhor banda, de melhor coreografia, de melhores halteres, melhor balística, ou, de melhor ginástica rítmica. A “Escola Sagrado Coração de Jesus”, no Banco Raso, da professora Nair Assis Menezes (90 anos de idade e lúcida), sempre se destacava entre as primeiras em quase todas as atividades escolares.
     Os principais veículos de comunicação eram: o “Intransigente”, o “Diário de Itabuna”, a “Rádio Clube”, a “Rádio de Difusora” e por fim a “Rádio Jornal”, não havia televisão, nem computador nem Internet. Porém, a comunidade era tão bem informada quanto hoje. As emissoras de rádio transmitiam de júri a futebol, além de programas de calouro e jornal falado com o tempo, além das emissoras de AM, surgiram as emissoras de FM.
     O rio Cachoeira era orgulho da comunidade, muitas famílias se sustentavam com os peixes tirados de suas águas limpas. O rio também era usado por banhistas e canoeiros. O rio Cachoeira atual é um grande vaso sanitário, onde os peixes morrem por falta de oxigênio e pela poluição e os governos municipais não tomam providências. Hoje, a comunidade não tem mais orgulho de tê-lo e os poetas choram a cachoeira nos seus versos que não desce mais, a cachoeira corrente não corre, borbulha...
     Se os ponteiros do relógio do tempo girassem para trás e Itabuna voltasse ser a cidadezinha quase bucólica em que o cidadão batia papo no passeio de sua casa nas noites de verão e os namorados de mãos entrelaçadas passeavam pelas ruas nas noites de Lua cheia e as casas não tivessem grades e o rio Cachoeira tivesse vida com o progresso atual, não seria uma maravilha!? O progresso chegou bem-vindo, não se pode queixar do progresso, porém, queixa-se dos males que acompanham o progresso, queixa-se da qualidade de vida que se perdeu.
     Não sou itabunense de nascimento nem de título, mas amo Itabuna, nesta cidade, eu quero me deitar para sempre.

 


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA 

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Att.: Em 28 de Julho de 2019,  fui honrado pela Câmara de Vereadores de Itabuna, com título de "Cidadão Itabunense".

Alf, o demônio (II) - R. Santana

 

Alf, o demônio (II) - R. Santana
 

     O Sol a pino queimava o rosto da velha Astrid e dos seus sobrinhos que naquela manhã estavam cuidando do gado algumas varas distantes da casa grande. O Sol não queimava mais porque todos usavam chapéu de abas largas e camisa de manga comprida, mas o suor escorria pelos corpos, principalmente de Astrid que usava uma saia cobrindo as botas.
     José de Astrid e o vizinho tinham ido ao povoado comprar mantimentos. Todo final de mês, repetia-se a rotina: José de Astrid selava o seu cavalo preferido, colocava a cangalha e os panacuns no jegue e arribava pra feira-livre do povoado Panelinha e voltava de lá quase noite, naquele dia não foi diferente.
     Não se falava mais na casa de Astrid de Alf. Quando os sobrinhos e o marido tocavam no assunto, ela benzia-se três vezes, depois daquele dia que o gato encarnou o demônio. Ela trouxe o padre de sua paróquia que espargiu água benta em todas as pegadas de Alf da soleira da porta da casa grande aos lugares onde ocorreram os sinistros, o gato sumiu.
     Naquela manhã, quase meio dia, um redemoinho muito forte começou na frente da casa grande numa grande espiral e foi se reproduzindo em série por vários lugares próximos da casa grande. O redemoinho enrolava e arrastava tudo que encontrava pela frente, as portas e as janelas da casa grande batiam com força, as árvores tremiam como se estivessem de sezão, as folhas das árvores caíam aos montes, a roupa do varal foi sugada em redemoinho e espalhou-se por distância, o tufão arrancou, também, algumas telhas do curral, num instante o céu se fechou de nuvens e a chuva começou cair em braçadas, alagando tudo, um pandemônio, um inferno...
     O gado fugiu em debandada, Astrid e os sobrinhos correram pra laje da casa grande, lugar mais seguro, enquanto a chuva caía aos borbotões e o tempo escurecia ainda mais rajado de relâmpagos e trovões. A velha Astrid buscou na escrivaninha a Bíblia e o terço e começou orar:
     - Deus tem misericórdia dos seus filhos, perdoa os nossos pecados, não permita que essa tempestade nos faça nenhum mal, não permita que essa tempestade desabe a casa dos nossos irmãos necessitados e que as nossas cabeças sejam alvos desses raios sem rumo, tenha piedade da gente, ó Senhor!!! – com o terço sobre a Bíblia:
     - Creio em um só Deus/Pai todo-poderoso.... Pai Nosso... Ave Maria... Pai Nosso... Ave Maria... Santa Maria... Pai Nosso... Ave Maria... Santa Maria, mãe de Deus... – de repente, surgem os sobrinhos assombrados, a velha se espanta:
     - Viram fantasma, rapazes!? – os sobrinhos falaram, ao mesmo tempo, nervosos e arquejantes:
     - Tia, há um gato enorme na cozinha em cima do armário!!! – a velha eufemiza:
     - Ô rapazes, deve ser gato da vizinhança!
     - Não tia, é um gato preto com os olhos vermelhos, parece com o arrenegado, é um bicho estranho!!! – Astrid estremece, lembrou-se de Alf, então, pegou no quarto mais alguns apetrechos sagrados: uma grande vela, um vaso de água benta, uma cruz de madeira e convidou os rapazes:
     - Vamos, se for algum Anjo Rebelde, ele vai deixar esta casa em nome de Deus!
     Os rapazes acompanharam a tia, pé ante pé, a luz trêmula da vela adiante, todos escudados pela velha Astrid, os rapazes com medo, a velha firme, quando ficaram frente a frente, um pouco mais de 3 metros, a coisa começou grunhir e ameaçar:
     - Saiam daqui seus carolas! Baba-hóstias! Baratas-de-sacristia! Saiam de minha fazenda!!! – eles não se intimidaram, cruz e terço levantados enfrentaram o demônio, Astrid quase gritava:
     - Vade retro Espírito das Trevas! Afasta-te desta casa Belzebu! O teu lugar é o mundo dos arrenegados! Sangue de Cristo tem poder! – Astrid espargia água benta na coisa, os sobrinhos afrontavam-no com a luz de vela e com a cruz. A água benta quando tocava no Tinhoso riscava fogo, mas ele resistia, vomitando porcaria e ameaçando, quando Astrid embasada na fé começou surrar o arrenegado com o terço e orava:
     - Pai Nosso... Ave Maria... Santa Maria... Pai Nosso... Ave Maria... Santa Maria, mãe de Deus...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

A confissão de André - R. Santana

 

A confissão de André - R. Santana
A  confissão de André
R. Santana

O escritor José Saramago foi feliz quando escreveu: “Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem”. Amamos os filhos mais do que a nós mesmos, porém, como disse o escritor, o filho é um ser emprestado, quando menos se espera o filho é chamado por Deus ou o mundo o arrebata, sufocando corações, destruindo sonhos, deixando pais sozinhos e infelizes.
Faz muito tempo que os meus filhos se foram, de quando em vez, filhos e netos me telefonam, quase sempre, para sugarem o meu minguado bolso de aposentado. Nunca me telefonaram preocupados com a minha saúde ou a minha solidão. Depois que a minha mulher foi para eternidade, socorro-me da fidelidade e da amizade dos amigos e de Hanna. Quem é Hanna? Hanna é uma fêmea linda, de olhos cor de mel, boca carnuda, pequena, amorenada, carinhosa, nela, eu deposito as minhas queixas e as minhas alegrias. Quem é Hanna? Hanna é a minha cadela de raça Bassê!... Nós temos uma relação onomatopéica, ela entende a minha fala e eu entendo o seu latido, às vezes, “conversarmos” horas seguidas sobre os mais diversos assuntos.
Não pense o desavisado leitor que estou ficando pinel, amalucado... Não, não estou ficando doido, pois não é à toa, que o cachorro é considerado o melhor amigo do homem e existe uma relação tão forte entre ambos que é melhor um cachorro amigo do que um amigo cachorro, porque o cachorro amigo morre pelo dono, o amigo cachorro o apunhala pelas costas na primeira oportunidade.
Foi fácil descobrir o que Hanna pensa, ela é inteligente e excelente interlocutora, a minha fala não é um monólogo, é um diálogo, ou melhor, é uma relação binária: quando ela concorda, calada, fixa o olhinho pra mim e faz assentimento com a cabeça; quando a minha fala lhe contraria, ela dá um latido para reprovação parcial e dois latidos para reprovação total.
Não me queixo da velhice. A velhice é a soma de todas as experiências, é a idade da razão, do discernimento, também, é a idade da emoção, da tolerância, do afeto, da amizade duradoura e amor perene, contudo, a velhice é a idade do ocaso, da consciência do fim, do crepúsculo e a idade da decrepitude física. Ledo engano daquele que recorre aos artifícios médicos-cirúrgicos e às panacéias medicamentosas para não envelhecer.
As mulheres, mais sensíveis ao belo, são as vítimas desses construtores de estética artificial que perambulam por aí, são comuns erros nocivos desses cirurgiões plásticos, às vezes, deixando as mulheres com marcas profundas no corpo e na alma. Quanta socialite de rosto puxado e repuxado, nós conhecemos? Não dar pra contar... Se um dia, a ciência usar a célula-tronco para renovação dos órgãos humanos, certamente, elas retardarão o envelhecimento, todavia, jamais vencerão a morte. Se o espírito é eterno, a matéria é corruptível e finita.
Seria ideal que o homem não envelhecesse ou nascesse velho e morresse novo (natureza às avessas), porque a velhice é feia, é dolorida, é anti-social e indigna. A velhice e a morte são sinais da pequenez humana. A sublimação da velhice é fugir da realidade, os artifícios estéticos só servem para racionalizar a impotência humana.
O silêncio da solidão me incomoda... Não posso me queixar dos meus vizinhos, não obstante cada um cuidar de si, eu sou contemplado diuturnamente por gestos de amizade, mas a realidade impõe que cada um cuide de sua casa, de sua família, não posso exigir mais consideração e préstimos de outrem do que da família que eu construí e a vida tirou de mim.
Alguns vizinhos são indiferentes, não cheiro nem fedo, de quando em vez, eles me cumprimentam: “Bom dia, mestre André!”, “Boa tarde, mestre André!”, “Boa noite, mestre André!”... Desejar mais é impossível, são pessoas que têm um rei na barriga, não conhecem o valor da amizade e da solidariedade, vivem estressadas de trabalho, o saco delas nunca enche, nasceram soberbas e morrem soberbas, elas professam Deus socialmente, o dinheiro e a riqueza são os seus objetivos, algumas vendem a alma ao Diabo se for preciso pra enriquecer, são pobres de espírito que se encaixam como uma luva na parábola de Jesus Cristo do homem rico que construiu muitos celeiros para sua produção (Lucas 12:16-21), são pessoas dignas de pena!...
O pensamento humano ainda não teve resposta para os questionamentos: “Quem sou eu?”, “De onde vim?” e “Para onde vou?”. Conhecemos a explosão da vida, mas não conhecemos os seus mistérios. Quem não se queda no desabrochar de uma flor? Existe imagem mais bonita do que o nascimento de um ser humano ou outro animal? Não existe. A vida é movimento, a vida é inspiração de Deus, a vida é a explosão do belo, o homem não compreende por que razão o Criador deixou a velhice, a dor, o sofrimento e a morte para destruí-lo. Se as promessas de Jesus Cristo não forem verdadeiras, é melhor ser pedra do que ser homem.
Uma das rusgas com a minha falecida mulher, era sobre o abate de suas “galinhas-caipiras” que ela insistia comprar na feira-livre nos finais de semana. Na segunda-feira, eu saía de casa ainda cedo para não ser testemunha de sua maldade: ela colocava água no fogo pra ferver, amolava a faca na pedra, prendia a galinha nos pés e cortava o seu pescoço, dentro de dois quartos de hora, os pedaços de galinha tratada enchiam a panela.
Isso me lembrava o meu pai na fazenda abatendo os porcos e o choro sofrido daqueles pobres animais diante da morte, cenário lúgubre que jamais esqueci. Por isto, o homem é considerado pela sua maldade o pior dos animais. Não concordo com Rousseau que diz que o homem nasce naturalmente bom, o homem é naturalmente mau e a sociedade faz o resto. O bicho não tem consciência da morte, mas do instinto de sobrevivência e preservação, o bicho mata para não morrer ou para sobreviver. O homem é o único animal que tem consciência da morte.
Não tenho mais pernas para andar aqui e acolá, sou sedentário por conveniência e não por gosto, mas não reclamo, o sedentarismo contribuiu para eu adquiri novos hábitos, hoje, leio menos, escrevo mais e reflito bastante, a reflexão é um estado mental que faz bem a saúde. Aprender pensar não é fácil, é necessário disciplina e método, porém, pensar não é apanágio só das grandes mentes, dos filósofos, o homem é um ser pensante, aprender pensar é uma necessidade.
Eu descobri ao longo dos anos que a finalidade da vida é ser feliz. Mas, a felicidade não significa ter muito dinheiro, muitos bens, viajar pelo mundo, curtir a noite na boemia, conquistar todas as mulheres, possuir grandes dotes intelectuais, morar em mansão, usar roupas de grife, possuir carros sofisticados, ter poder político, ser destaque social, enfim, usar e abusar dos prazeres que a vida oferece... Não! Não! Os momentos de felicidade encontram-se na capacidade de compreensão do homem diante da vida e sua capacidade de encontrar a paz.
Aqui no silêncio da solidão, penso diuturnamente, se Deus deixou o mal, o sofrimento, a doença, os sinistros da natureza, as hecatombes mundiais ou tudo decorre do mundo das possibilidades? O que é o mundo das possibilidades? Eu penso que é mais ou menos assim: o mal e o bem existem, naturalmente, na mesma proporção, portanto, as possibilidades de um ou outro ocorrer é a mesma, às vezes, independe da vontade do homem, do seu livre arbítrio, faz-se necessário esclarecer que não estou, aqui, fazendo apologia determinista, destino... Não! Eu quero dizer que vivemos num mundo de possibilidades naturais, humanas...
Não é prudente, nem fácil materializar as coisas da mente, as ideias nem sempre são práticas, mas por desencargo de consciência e se a sorte me favorece e se o leitor for até o final desta minha confissão, ele não fique com tantas dúvidas em sua leitura quanto eu a tenho dificuldade de lhe explicar, eis alguns exemplos:
- Todos os seres vivos têm células cancerígenas, portanto, todos os seres vivos têm, potencialmente, a possibilidade de desenvolver um câncer.
- As placas tectônicas da Terra fazem necessárias acomodações, portanto, os terremotos, os maremotos, os tsunamis e outros fenômenos naturais sempre terão a possibilidade de gerar grandes sinistros que independem da agressão do homem à natureza.
- Num ambiente de violência, sempre irá existir a possibilidade de alguém morrer de uma bala perdida.
- Numa rodovia, sempre haverá a possibilidade de alguém morrer de acidente de carro, a imprudência ajuda a racionalização.
- Qualquer pessoa nasce com a possibilidade de dirigir um país se suas ações políticas têm essa finalidade.
Com base nesse pensamento, o mal e o bem sempre seriam justificáveis, sem recorrer às teorias deterministas quaisquer que fossem sua natureza e não aceitar jamais a ideia de que Deus pune o homem com o mal se Ele lhe deu o livre arbítrio e o conhecimento da ciência.

Hoje, não lamento mais o abandono dos meus filhos e a morte da minha mulher diante das circunstâncias, eu aprendi ler o mundo, nós somos as nossas circunstâncias, podemos mudá-las ou usá-las de melhor forma. Se as minhas confissões não servirem para suavizar a solidão e a dor de alguém, colocá-las pra fora, suavizaram a minha alma e o meu coração.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Itabuna, 17 de julho de 2011.

Ser ou não ser - R. Santana

 

Ser ou não ser - R. Santana
Ser ou não ser
R. Santana
Há três semanas estudo a Bíblia de maneira didática com Testemunhas de Jeová. Fui pego de surpresa por um grupo que passou aqui em casa pregando a palavra de Jeová. Deixei-lhes claro que sou católico de nascimento e de convicção, mas respeito todas as doutrinas religiosas e todas as seitas de umbanda ao candomblé. Não discuto religião, aprendi desde cedo que “religião, política e mulher, não se discute, se abraça”. Porém, ponho em dúvida alguns dogmas embasados em raciocínio lógico, talvez, por falta de conhecimento exegético mais profundo ou ignorância religiosa.
Eu sou da opinião que a vida não teria significado se o homem não fosse movido pela esperança de um mundo espiritual eterno. Todos os preceitos religiosos propõem ao homem em nome de Deus ou de Jesus Cristo, a remissão dos pecados, o aperfeiçoamento moral e espiritual, propõem acabar com a dor, o sofrimento, a velhice e a morte, através da ressurreição para os cristãos ou de sucessivas reencarnações para os espíritas, os caminhos são diferentes, mas o fim é o mesmo.
Grosso modo, a doutrina religiosa das Testemunhas de Jeová não promete o Céu, mas uma nova Terra sem dor, sem violência e sem sofrimento, depois que “Deus eliminar as pessoas más da Terra”. Os governos terrenos serão substituídos por um governo celestial e o homem bom será feliz para sempre. Jesus Cristo sentado à direita de Deus e reinará para sempre na Terra (Hebreus 10:12:13). Utópico não é meu amigo, minha amiga, não é? Fazer o quê?...
Nesses poucos dias de estudante bíblico com as Testemunhas de Jeová, ainda não os vi orar, nem falarem da santidade dos santos. Fundamentam-se em especial no Velho Testamento, o Novo Testamento serve para referendar o Velho Testamento.
Não doam nem recebem sangue e elas são dispensadas do serviço militar obrigatório, por isto, a doutrina das Testemunhas de Jeová, é diferente das demais doutrinas religiosas ocidentais.
Porém, é necessário que se diga que seus membros adquiriram, ao longo do tempo, irrepreensível conduta moral e inabalável fé em suas convicções religiosas. Não se registra na mídia falada ou escrita nenhum caso de desvio de conduta de seus anciãos (pastores), portanto, não se conhece em nossa sociedade melhor filosofia de vida para agradar a Deus.
Não obstante o homem moderno ser mais racional e menos emocional diante das adversidades da vida, cresce cada vez mais sua fé, não é à toa que as denominações religiosas se multiplicam e, na esteira desse crescimento, os exploradores da fé enriquecem manipulando mentes incautas e carentes de espiritualidade. Além disto, cresce cada vez mais a preocupação de alguns líderes religiosos com a construção de templos suntuosos como se o templo rico fosse condição sine qua non para aumentar a religiosidade de seus fiéis.
Hoje, não existe espaço para deístas, agnósticos ou ateus, ninguém consegue viver sem Deus e aquele que teima se afastar de Deus, é grande sua crise existencial. Alguns recalcitrantes da fé se refugiam na loucura ou suicidam-se porque a vida não lhes oferece sentido. A religião não é o ópio do povo como disse Karl Marx. A religião não entorpece o povo nem o deixa alienado, a religião satisfaz as necessidades do espírito, o homem que não tem religião é infeliz.
Os menos crentes acreditam que Deus deu as costas ao homem face à violência, à injustiça, à barbárie, à dor, ao sofrimento, às guerras, à velhice e à morte, contudo, são aspectos da vida humana desde que o mundo é mundo. O homem tem livre arbítrio em sua conduta para fazer o que lhe der na telha, os mais racionais podem alegar que os desastres naturais e os incidentes que destroem vidas inocentes não são do desejo do homem, raciocínio justificável...
No meu ensaio filosófico - religioso: “O homem nasce para ser feliz”, apresento a tese: “O mundo das possibilidades”, numa tentativa teórica de explicar a “ausência” de Deus no mundo sem argumentos deístas. Nós somos nossas circunstâncias, não existe destino pré-determinado, existe, sim, um mundo de possibilidades necessárias, contingenciais e reais.
Enfim, o homem jamais se desvencilhará de sua condição dialética de ser ou não ser - "To be, or not to be, that is the question” shakespeariano -, e assume sua condição espiritual, ou, vive e morre na condição animal.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Casamento gay - R. Santana

 

Casamento gay - R. Santana
Casamento gay
R. Santana
 
Quando encontro o velho Tanaguchi, eu não arredo o pé até que me conte uma história de sua autoria ou que leu em algum lugar. Não é fácil saber onde termina sua história e começa a história de outro autor, seu estilo de contador de história é único, é escravo da verdade, mas esbanja criatividade, Ele é fiel na essência e pródigo nos detalhes. Acho-o criativo e espirituoso, por isto, não me custa nada passar suas histórias adiante através da internet, já que Tanaguchi se confessa sem jeito e inepto nesse mundo de comunicação eletrônica instantânea.
A última história que me contou foi o diálogo dos jovens Marcos e Thiago, sobre “casamento gay”. Marcos de ideias conservadoras e Thiago liberal por natureza e educação. Para Tanaguchi coube o papel de ouvinte mais do que partícipe.
Marcos chama à atenção de Tanaguchi sobre a manchete do jornal:
- Mestre, o STF reconhece a União Civil dos homossexuais, pouca vergonha! – Tanaguchi legalista:
- Decisão do STF não se discute, cumpre-se! – Thiago completa:
- Dura Lex, sed Lex, não é meu amigo Tanaguchi?
- É um axioma... – Marcos interveio:
- Eu sei que não se discute sentença do STF, pode ser legal, mas é imoral. Hoje, os mecanismos sociais de pressão são decisivos em algumas sentenças, não é Thiago?
- Não concordo. Os juízes não agem sob pressão externa, mas à luz do Direito... O poder legislativo e o judiciário regulamentam o que já existe de fato. Não é assim mestre Tanaguchi?
- Meus rapazes, já lhes disse que não discuto decisões das coortes de justiça, sou legalista por natureza. Concordo com Marcos quando diz que os juízes e os legisladores, hoje, são influenciados pelos ditames da sociedade, aí, eles ficam na casa do sem jeito. Não sou moralista, as pessoas possuem livre arbítrio e fazem de sua vida o que lhe dá na telha, ou melhor, nos miolos, porém, para mim só existe um tipo de família: o homem e a mulher. As uniões homoafetivas são espúrias e antinaturais. Só existe uma maneira de procriar que é o acasalamento do macho com a fêmea. Por isto, é discutível o casamento gay, a união civil, entre pessoas do mesmo sexo, não é coisa de Deus! Peço-lhes que permitam retirar-me dessa discussão com a palavra de São Mateus: “... Por isso deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne. Assim já não são mais dois, mas um só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem” (Mateus: 19:5-6).
Tanaguchi se afastou do diálogo, mas permaneceu presente. Legalista, não discutia decisões da justiça, mas daí aceitar a relação homossexual e o casamento gay como normais, seria jogar seu princípio religioso e seu modo de vida na lata do lixo. Entendia que homossexualismo não é doença, mas uma opção de vida, portanto, é uma decisão de foro íntimo de cada indivíduo. Deixaria dali em diante que os rapazes chegassem a um consenso, Marcos ainda lhe pediu pra continuar na discussão:
- Meu velho Tanaguchi, sua intercessão em qualquer conversa enriquece o diálogo. Sua experiência de vida e o seu saber são imprescindíveis para conclusão de uma proposição. Não é à toa que todos querem lhe ouvir. Thiago é um dos seus maiores admiradores (quis ser agradável), não lhe dispensará. Não é Thiago?
- Sim. Porém, Tanaguchi (com todo respeito) é como os demais, na frente da mídia, diz que é a favor da criminalização homofóbica, da diversidade de gêneros, da parada gay, dos transexuais, do beijo gay, da família gay, contudo, renegaria para sempre um filho homossexual!
- Não é verdade meu caro Thiago, diria à mídia o que lhe disse: respeito o STF, respeito sua opinião, respeito os homoafetivos, porém, não violo minhas convicções por causa de modismos sociais! – Marcos interveio:
- Concordo ipisis litteris com Tanaguchi. Não podemos ser taxados de preconceituoso, reacionário, homofóbico, intolerante, mas beber água no mesmo copo dessa gente é demais! A relação homoafetiva é histórica, os gregos e os romanos abusaram-na. Todavia, a sociedade absorve-la em forma de família, marido/mulher jamais será normal, sem falar no nó que irá dar na cabeça dos “filhos” dessa relação: “quem é seu pai (ou mãe), garoto?” Haverá nas escolas, na sociedade, o “bullying família”, se não houver violência física, o massacre psicológico será um fato, não é Thiago?
- Em algumas sociedades o modelo de família era matriarcal ou não?
- Sim, mas nas responsabilidades, não quanto ao gênero – fez-lhe uma pergunta pessoal:
- Você é enrustido ou simpatizante?
- Não sou gay! Analiso os fatos à luz da realidade e a realidade diz que o casamento gay veio pra ficar, não é modismo do Século XXI!
- Ah ah ah ah ah… - Tanaguchi dá o desfecho:
- Marcos, nós estamos malhando em ferro frio... Tchau!


Autor: Rilvan Batista de Santana
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A vida não é uma missão - R. Santana

 


A vida não é uma missão R. Santana
A vida não é uma missão
R. Santana
 
A crônica “A missão de cada um de nós” do Juiz de Direito e titular da Vara da Infância e da Juventude de Itabuna e acadêmico da ALITA Marcos Bandeira, é um texto impecável, sentimental, poético, pois narra a história de Rodrigo, um garoto de 8 anos que foi adotado por uma família de Curitiba, depois de algum tempo internado na instituição SOS Canto da Criança em Itabuna, além dele acreditar que cada indivíduo tem sua missão no mundo. O destino do homem é recorrente: “O homem traz uma missão ao nascer, um destino?” Ele responde com a música “Além do Espelho” de João Nogueira: “A vida é uma missão, a morte é uma ilusão, só sabe quem viveu, pois quando o espelho é bom, ninguém jamais morreu”, e, pondera quando se refere ao garoto Rodrigo: “... Ele me passou a mensagem deixando à mostra minha missão terrena...”
Certamente, a vida é um mistério sem fim, o homem sempre questionou inútil: sua origem, quem é, para onde vai, e, perde-se em ilações e discussões estéreis. Porém, uma coisa é certa: a vida não é uma missão! O homem não nasce bom ou mau, mas com as potencialidades do bem e do mal e ele desenvolve o bem ou o mal de acordo as circunstâncias de vida. Quem acredita que a vida é uma missão, acredita na fatalidade, não no livre arbítrio deixado por Deus desde Adão e Eva.
No ano 2010, publiquei nos principais sites do país, inclusive, “Domínio Público – MEC”, um ensaio religioso e filosófico “O homem nasce para ser feliz?”, cujo objetivo é ajudar desconstruir o estigma do determinismo, da fatalidade, da coisa programada, da felicidade permanente etc., ali, sugiro ao leitor que reflita sobre o mundo de possibilidades necessárias, contingenciais e reais.
O homem é suas circunstâncias: ele é influenciado pelo meio ambiente, mas não é determinado pelo meio ambiente, possui livre arbítrio e vontade, ou seja, ele é capaz de transformar o meio ambiente onde nasceu e viveu e definir seu próprio destino de acordo suas aptidões. Se a lógica fosse outra, todo filho de médico, por exemplo, seria médico e não policial, engenheiro, professor... Se o homem nascesse já com alguma incumbência, o livre arbítrio seria uma falácia, o homem não seria o protagonista do seu destino, Deus não seria Deus de justiça porque permitiria que uns nascessem bons e outros maus, uns nascessem com a missão de praticar o bem e outros com a missão de praticar o mal. Mas, o homem vem ao mundo como uma “tabula rasa”, pouco e pouco, constrói sua história.
Se o homem não traz uma missão ao nascer, qual é a explicação para genialidade, generosidade, sacrifício, desprendimento e solidariedade? Através das aptidões diferenciadas e determinação. Certa feita, alguém perguntou ao genial Thomas Edison, se os seus inventos eram inspirados e obteve a resposta que eram transpirados, resultados de noites mal dormidas no laboratório perseguindo uma ideia. Se Charles Darwin não tivesse passado quase cincos anos no “Beagle”, explorando terras e mares, estudando vegetais e animais, não teria escrito sua obra prima sobre evolução: “A Origem das Espécies”.
O homem não é um robô, não é um autômato, não vem ao mundo programado para desempenhar este ou aquele papel, mas ele nasce com inteligência, vontade, aptidões físicas e mentais, é necessário, apenas, que ele descubra sua habilidade natural e persiga o seu ideal. Se o indivíduo tem um ouvido musical e não desenvolve com determinação essa aptidão, o seu talento musical jamais será virtuoso e reconhecido.
Enfim, Deus deu vida ao homem, dotou-lhe de razão e vontade e deu-lhe livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal. O homem constrói sua história influenciando e sendo influenciado pelo meio ambiente. A lei do retorno é universal: quem planta abrolhos não colhe rosas. O bem sempre vence o mal e o mal por si, se destrói. O segredo do sucesso é não perder a circunstância favorável da vida. O mal não é castigo divino, mas uma possibilidade.


Autor: Rilvan Batista de Santana
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11.08.2025

Academia de Letras - R. Santana

 

Academia de Letras - R. Santana
Academia de Letras
R. Santana

Ao adquirir os jardins de AKADEMUS, na Grécia antiga, para fundar sua escola filosófica, Platão queria, somente, um lugar para discussão do conhecimento socrático e seu método maiêutico revolucionário, diferente do saber repetitivo de Isócrates e outros mestres do conhecimento (magister dixt et dixt) daquela época, jamais imaginou que sua escola fosse se tornar sinônimo de templos do conhecimento em todo mundo. Hoje, as academias se multiplicam (academia de literatura, academia de ciência, academia de música, academia de arte etc., etc.), em quantidade nem sempre em qualidade.
Para fazer frente às demandas de poetas, escritores, juristas e artistas, surgiram as academias mistas que contemplam todos os ramos do saber, porém, as academias de letras têm o seu lugar e seguem, hoje ainda, o modelo da Academia Francesa de Letras (40 membros efetivos e 20 membros correspondentes), a nossa Academia Brasileira de Letras (ABL) é o nosso modelo maior.
A academia é a entidade que preserva para sempre o melhor pensamento intelectual de cada época, por isto, diz-se que os seus membros são “imortais”, ou seja, sua obra não morre. Mas, com a proliferação dessas entidades (a cidadezinha mais remota do país tem sua academia), a produção intelectual dá lugar à importância social, econômica e política dos seus membros na comunidade, aí, não se tem um pensamento intelectual refinado, mas uma academia de notáveis sociais.
No seu livro “Farda, Fardão, camisola de dormir” Jorge Amado narra com propriedade a vaga que surgiu na ABL com a morte do acadêmico Antônio Bruno e a disputa entre o coronel Agnaldo Sampaio e o general Waldomiro Moreira para preenchê-la. Porém, o coronel e o general não têm o perfil do poeta boêmio e humanitário Antônio Bruno... O livro é uma alegoria satírica ao poder autoritário do Estado Novo. O poder discricionário de Getúlio Vargas tem influência até entre os literatos, então, Jorge Amado narra as futricas da academia metaforicamente e critica o regime getulista.
Não obstante as academias representarem o “noús” de uma comunidade, de um estado, ou de um país, elas não são vanguardistas, não exercem papel pioneiro nos movimentos artísticos, culturais e sociais. As ideias novas não nascem nas academias, mas fora delas, seu papel histórico é a preservação da memória dos seus literatos e suas produções, por isto, diminui cada vez mais o interesse de poetas e escritores de escol, concorrerem a uma cadeira na principal academia do Brasil. Mário Quintana atribuía este fato à ingerência política: “Só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades, é pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada, só dá ministros”. Hoje, se Mário Quintana estivesse vivo acrescentaria: “... e ex-presidentes do país”.
No interior os problemas das academias se somam, elas possuem autonomia financeira e administrativa, no entanto, não possuem receitas além das contribuições dos seus membros, geralmente, insuficientes para as despesas, quando são reconhecidas de utilidade pública, elas conseguem verbas de instituições municipais, estaduais e federais, todavia, é uma caminhada para isso acontecer, será necessário que as academias apresentem projetos factíveis e de interesse público para suas comunidades.
No ato de fundação de uma academia, os empecilhos não são menores, além da elaboração do seu estatuto e do seu regimento, o preenchimento das cadeiras, é um processo seletivo demorado para que subliteratos não tomem conta da entidade e comprometam sua representatividade. No interior, o indivíduo produz alguns poemas menores, prosa de má qualidade, subliteratura enfim, e, autodenomina-se escritor ou poeta e como tal quer ser reconhecido pela entidade acadêmica do lugar.
Afora os fuxicos, as intrigas sorrateiras, a difícil convivência com egos inflados, a paciência para suportar egoístas e autossuficientes neuróticos, sabedoria para eufemizar a ascendência acadêmica desleal de alguns, as academias são lugares de conhecimento eterno e repositórios do saber. Se lideradas por pessoas de bom senso, capazes, humanas, de grandeza de espírito, as academias são indispensáveis na promoção do saber e na preservação para sempre da cultura de um povo.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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11.07.2025

O poeta - R. Santana

 

               O poeta  - R. Santana


          - Olá Narvil, tudo bem?
          - Tudo bem, Marcos!
          - Eu soube que além de escritor, você é poeta?
          - Eu não sou escritor Marcos, menos ainda poeta!
          - Deixe de modéstia, homem!
        - Não é modéstia, é a realidade, para ser escritor ou poeta tem que ser reconhecido pela crítica especializada e pelo povo!
          - Mas, já li muita coisa de sua autoria!
          - Marcos, eu escrevo algumas bobagens...
          - Narvil, sua prosa é boa e seu verso é livre!
          - Fazer poesia não é fácil... Hoje, virou moda fazer verso, mas não significa ser poeta!
          - Como assim!?
          - A técnica de fazer poesia aprende-se nas escolas, mas ter alma de poeta...
          - Seja mais claro!
          - Vou lhe dar como exemplo, dois gênios da literatura brasileira: Machado de Assis e Castro Alves. Um tem excesso de imaginação criativa, o outro, sobra sensibilidade. Machado de Assis é escritor, Castro Alves, poeta – vejamos Livros e flores de Machado de Assis: “Teus olhos são meus livros. / Que livro há aí melhor, / Em que melhor se leia / A página do amor?” / “Flores me são teus lábios. / Onde há mais bela flor, / Em que melhor se beba / O bálsamo do amor?” - Agora, vejamos o poema O livro e a América de Castro Alves: “Oh! Bendito o que semeia / Livros à mão cheia / E manda o povo pensar! / O livro caindo n´alma / É germe – que faz a palma, / É chuva – que faz o mar!” – e continuou Narvil:
- O objeto temático dos poemas é “livro”. Não obstante o gênio literário de Machado de Assis, seus poemas são versos comuns, sem alma, sem paixão, sem inspiração, salvo apenas, pela erudição do autor, pela grandeza de sua prosa, no entanto, em Castro Alves, O livro e a América, há um apelo épico, uma exortação à cultura e ao saber, o livro é instrumento de mudança, pois ensina o povo pensar! – concluiu Narvil.
          - Hum!
          - O quê!? Alguma dúvida?...
          - Não... Não... Sim... Sim... Sabe Narvil, para mim, Machado de Assis é o maior escritor brasileiro e um dos maiores do mundo, por isto, não penso num Machado de Assis de grandeza menor. Acho que você não foi feliz no exemplo!...
          - Talvez, não me tenha feito entender: Machado, seguramente, é o maior romancista do Brasil e quiçá da língua portuguesa, porém, não tinha alma de poeta, mas de romancista, cronista, articulista, contista, dramaturgo, etc., etc. Quis lhe dizer que uns têm mais sensibilidade do que outros. Euclides da Cunha escreveu a maior epopeia brasileira: “Os Sertões”, todavia, não se pode dizer a mesma coisa de sua poesia. Hoje, temos uma centena de poetas, aqui e no mundo, todavia, nada que se compare a Cecília Meireles, Cora Coralina, Drummond, Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Paul Valéry, Ferreira Gullar, dentre outros. Entendeu a diferença entre o escritor e o poeta, Marcos?
          - Entendi. Parece que a diferença está no tamanho da emoção. O poeta é aquele que expressa melhor seu sentimento, não é Narvil?
          - Claro. Por isto, é considerável o estereotipo de comportamento dos poetas, sua conduta é diferente. Quem não conhece as extravagâncias de vida de Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Raul Seixas, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Edgar Allan Poe, Hemingway e outros que, agora, não me vêm à memória, meu caro Marcos!
                - Obrigado Narvil. Valeu!
          - Quero esclarecer, que não se pode desprezar nenhuma produção da mente humana, independente do grau de sensibilidade do autor, a boa palavra é sempre bem vinda – concluiu Narvil.

 


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

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Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.   Por favor, invista dois minutos do seu tempo e leia isto:    1.  Suponha que às 19h25 voc...

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