11.07.2025

Cora Coralina - 10 poemas

 

1. Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.


2. Coração é terra que ninguém vê

Quis ser um dia, jardineira

de um coração.

Sachei, mondei – nada colhi.

Nasceram espinhos

e nos espinhos me feri.

Quis ser um dia, jardineira

de um coração.

Cavei, plantei.

Na terra ingrata

nada criei.

Semeador da Parábola…

Lancei a boa semente

a gestos largos…

Aves do céu levaram.

Espinhos do chão cobriram.

O resto se perdeu

na terra dura

da ingratidão

Coração é terra que ninguém vê

– diz o ditado.

Plantei, reguei, nada deu, não.

Terra de lagedo, de pedregulho,

– teu coração. Bati na porta de um coração.

Bati. Bati. Nada escutei.

Casa vazia. Porta fechada,

foi que encontrei…

3. poesia de natal

Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!
Coloque no coração, laços de cetim rosa,
amarelo, azul, carmim,
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante

Em sua lista de presentes
em cada caixinha embrulhe
um pedacinho de amor,
carinho,
ternura,
reconciliação,
perdão!

Tem presente de montão
no estoque do nosso coração
e não custa um tostão!
A hora é agora!
Enfeite seu interior!
Sejas diferente!
Sejas reluzente!

4. Meu destino

Nas palmas de tuas mãos

leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,

interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes –

íamos sozinhos por estradas diferentes.

Indiferentes, cruzamos

Passavas com o fardo da vida…

Corri ao teu encontro.

Sorri. Falamos.

Esse dia foi marcado

com a pedra branca

da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos

juntos pela vida…

5. O prato azul-pombinho (*trecho do poema)

Minha bisavó – que Deus a tenha em glória-
sempre contava e recontava
em sentidas recordações
de outros tempos
a estória de saudade
daquele prato azul-pombinho.

Era uma estória minuciosa.
Comprida, detalhada.
Sentimental.
Puxada em suspiros saudosistas
e ais presentes.
E terminava invariavelmente,
depois do caso esmiuçado:
” – Nem gosto de lembrar disso…”
É que a estória se prendia
aos tempos idos em que vivia
minha bisavó
que fizera deles seu presente e seu futuro.

Voltando ao prato azul- pombinho
que conheci quando menina
e que deixou em mim
lembrança imperecível.
Era um prato sozinho,
último remanescente, sobrevivente,
sobra mesmo, de uma coleção,
de um aparelho antigo
de 92 peças.
Isto contava com emoção, minha bisavó,
que Deus haja.

Era um prato original,
muito grande, fora de tamanho,
um tanto oval.
Prato de centro, de antigas mesas senhoriais
de família numerosa.
De faustos casamentos e dias de batizado.

Pesado. Com duas asas por onde segurar.
Prato de bom-bocado e de mães-bentas.
De fios de ovos.
De receita dobrada
de grandes pudins,
recendendo a cravo,
nadando em calda.

Era, na verdade, um enlevo.
Tinha seus desenhos
em miniaturas delicada:
Todo azul-forte,
em fundo claro
num meio – relevo.
Galhadas de árvores e flores
estilizadas.
Um templo enfeitado de lanternas.
Figuras rotundas de entremez.
Uma ilha. Um quiosque rendilhado.
Um braço de mar.
Um pagode e um palácio chinês.
Uma ponte.
Um barco com sua coberta de seda.
Pombos sobrevoando.

Minha bisavó

traduzia com sentimento sem igual,
a lenda oriental
estampada no fundo daquele prato.
Eu era toda ouvidos.
Ouvia com os olhos, com o nariz, com a boca,
com todos os sentidos,
aquela estória da Princesinha Lui,
lá da China – muito longe de Goiás –
que tinha fugido do palácio, um dia,
com um plebeu do seu agrado
e se refugiado num quiosque muito lindo
com aquele a quem queria,
enquanto o velho mandarim – seu pai –
concertava, com outro mandarim de nobre casta,
detalhes complicados e cerimoniosos
de seu casamento com um príncipe todo-poderoso,
chamado Li.


6. Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite

minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.

Não lamente o que podia ter

e se perdeu por caminhos errados

e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade

seja como a chuva desejada

caindo mansa,

longa noite escura

numa terra sedenta

e num telhado velho.

7. O cântico da terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.

Do meu barro primeiro veio o homem.

De mim veio a mulher e veio o amor.

Veio a árvore, veio a fonte.

Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.

Sou a telha da coberta de teu lar.

A mina constante de teu poço.

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranquila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.

De mim vieste pela mão do Criador,

e a mim tu voltarás no fim da lida.

Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.

Tua filha, tua noiva e desposada.

A mulher e o ventre que fecundas.

Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.

Teu arado, tua foice, teu machado.

O berço pequenino de teu filho.

O algodão de tua veste

e o pão de tua casa.

E um dia bem distante

a mim tu voltarás.

E no canteiro materno de meu seio

tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.

Lavremos a gleba.

Cuidemos do ninho,

do gado e da tulha.

Fartura teremos

e donos de sítio

felizes seremos.

8. Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.

9. BECOS DE GOIÁS

Becos da minha terra…

Amo tua paisagem triste, ausente e suja.

Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa.

Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio.

E a réstia de sol que ao meio-dia desce fugidia,

e semeias polmes dourados no teu lixo pobre,

calçando de ouro a sandália velha, jogada no monturo.

Amo a prantina silenciosa do teu fio de água,

Descendo de quintais escusos sem pressa,

e se sumindo depressa na brecha de um velho cano.

Amo a avenca delicada que renasce

Na frincha de teus muros empenados,

e a plantinha desvalida de caule mole

que se defende, viceja e floresce

no agasalho de tua sombra úmida e calada…”

10. Cora Coralina, quem é você?

Sou mulher como outra qualquer.

Venho do século passado

e trago comigo todas as idades.

Nasci numa rebaixa de serra

Entre serras e morros.

“Longe de todos os lugares”.

Numa cidade de onde levaram

o ouro e deixaram as pedras.

Junto a estas decorreram

a minha infância e adolescência.

Aos meus anseios respondiam

as escarpas agrestes.

E eu fechada dentro

da imensa serrania

que se azulava na distância

longínqua.

Numa ânsia de vida eu abria

O vôo nas asas impossíveis

do sonho.

Venho do século passado.

Pertenço a uma geração

ponte, entre a libertação

dos escravos e o trabalhador livre.

Entre a monarquia caída e a república

que se instalava.

Todo o ranço do passado era presente.

A brutalidade, a incompreensão, a ignorância, o carrancismo.

Os castigos corporais.

Nas casas. Nas escolas.

Nos quartéis e nas roças.

A criança não tinha vez,

Os adultos eram sádicos

aplicavam castigos humilhantes.

Tive uma velha mestra que já

havia ensinado uma geração

antes da minha.

Os métodos de ensino eram

antiquados e aprendi as letras

em livros superados de que

ninguém mais fala.

Nunca os algarismos me

entraram no entendimento.

De certo pela pobreza que marcaria

Para sempre minha vida.

Precisei pouco dos números.

Sendo eu mais doméstica do

que intelectual,

não escrevo jamais de forma

consciente e racionada, e sim

impelida por um impulso incontrolável.

Sendo assim, tenho a

consciência de ser autêntica.

Nasci para escrever, mas, o meio,

o tempo, as criaturas e fatores

outros, contra-marcaram minha vida.

Sou mais doceira e cozinheira

Do que escritora, sendo a culinária

a mais nobre de todas as Artes:

objetiva, concreta, jamais abstrata

a que está ligada à vida e

à saúde humana.

Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.

Sempre houve na família, senão uma

hostilidade, pelo menos uma reserva determinada

a essa minha tendência inata.

Talvez, por tudo isso e muito mais,

sinta dentro de mim, no fundo dos meus

reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.

Sobrevivi, me recompondo aos

bocados, à dura compreensão dos

rígidos preconceitos do passado.

Preconceitos de classe.

Preconceitos de cor e de família.

Preconceitos econômicos.

Férreos preconceitos sociais.

A escola da vida me suplementou

as deficiências da escola primária

que outras o destino não me deu.

Foi assim que cheguei a este livro

Sem referências a mencionar.

Nenhum primeiro prêmio.

Nenhum segundo lugar.

Nem Menção Honrosa.

Nenhuma Láurea.

Apenas a autenticidade da minha

poesia arrancada aos pedaços

do fundo da minha sensibilidade,

e este anseio:

procuro superar todos os dias

Minha própria personalidade

renovada,

despedaçando dentro de mim

tudo que é velho e morto.

Luta, a palavra vibrante

que levanta os fracos

e determina os fortes.

Quem sentirá a Vida

destas páginas…

Gerações que hão de vir

de gerações que vão nascer.



A vida não é uma missão - R. Santana

 

A vida não é uma missão - R. Santana
A vida não é uma missão
R. Santana

A crônica “A missão de cada um de nós” do Juiz de Direito e titular da Vara da Infância e da Juventude de Itabuna e acadêmico da ALITA Marcos Bandeira, é um texto impecável, sentimental, poético, pois narra a história de Rodrigo, um garoto de 8 anos que foi adotado por uma família de Curitiba, depois de algum tempo internado na instituição SOS Canto da Criança em Itabuna, além dele acreditar que cada indivíduo tem sua missão no mundo. O destino do homem é recorrente: “O homem traz uma missão ao nascer, um destino?” Ele responde com a música “Além do Espelho” de João Nogueira: “A vida é uma missão, a morte é uma ilusão, só sabe quem viveu, pois quando o espelho é bom, ninguém jamais morreu”, e, pondera quando se refere ao garoto Rodrigo: “... Ele me passou a mensagem deixando à mostra minha missão terrena...”
Certamente, a vida é um mistério sem fim, o homem sempre questionou inútil: sua origem, quem é, para onde vai, e, perde-se em ilações e discussões estéreis. Porém, uma coisa é certa: a vida não é uma missão! O homem não nasce bom ou mau, mas com as potencialidades do bem e do mal e ele desenvolve o bem ou o mal de acordo as circunstâncias de vida. Quem acredita que a vida é uma missão, acredita na fatalidade, não no livre arbítrio deixado por Deus desde Adão e Eva.
No ano 2010, publiquei nos principais sites do país, inclusive, “Domínio Público – MEC”, um ensaio religioso e filosófico “O homem nasce para ser feliz?”, cujo objetivo é ajudar desconstruir o estigma do determinismo, da fatalidade, da coisa programada, da felicidade permanente etc., ali, sugiro ao leitor que reflita sobre o mundo de possibilidades necessárias, contingenciais e reais.
O homem é suas circunstâncias: ele é influenciado pelo meio ambiente, mas não é determinado pelo meio ambiente, possui livre arbítrio e vontade, ou seja, ele é capaz de transformar o meio ambiente onde nasceu e viveu e definir seu próprio destino de acordo suas aptidões. Se a lógica fosse outra, todo filho de médico, por exemplo, seria médico e não policial, engenheiro, professor... Se o homem nascesse já com alguma incumbência, o livre arbítrio seria uma falácia, o homem não seria o protagonista do seu destino, Deus não seria Deus de justiça porque permitiria que uns nascessem bons e outros maus, uns nascessem com a missão de praticar o bem e outros com a missão de praticar o mal. Mas, o homem vem ao mundo como uma “tabula rasa”, pouco e pouco, constrói sua história.
Se o homem não traz uma missão ao nascer, qual é a explicação para genialidade, generosidade, sacrifício, desprendimento e solidariedade? Através das aptidões diferenciadas e determinação. Certa feita, alguém perguntou ao genial Thomas Edison, se os seus inventos eram inspirados e obteve a resposta que eram transpirados, resultados de noites mal dormidas no laboratório perseguindo uma ideia. Se Charles Darwin não tivesse passado quase cincos anos no “Beagle”, explorando terras e mares, estudando vegetais e animais, não teria escrito sua obra prima sobre evolução: “A Origem das Espécies”.
O homem não é um robô, não é um autômato, não vem ao mundo programado para desempenhar este ou aquele papel, mas ele nasce com inteligência, vontade, aptidões físicas e mentais, é necessário, apenas, que ele descubra sua habilidade natural e persiga o seu ideal. Se o indivíduo tem um ouvido musical e não desenvolve com determinação essa aptidão, o seu talento musical jamais será virtuoso e reconhecido.
Enfim, Deus deu vida ao homem, dotou-lhe de razão e vontade e deu-lhe livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal. O homem constrói sua história influenciando e sendo influenciado pelo meio ambiente. A lei do retorno é universal: quem planta abrolhos não colhe rosas. O bem sempre vence o mal e o mal por si, se destrói. O segredo do sucesso é não perder a circunstância favorável da vida. O mal não é castigo divino, mas uma possibilidade.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Roubaram a inocência do moleque - R. Santana

 

Roubaram a inocência do moleque R. Santana

     Qual o cristão que não gosta do Natal? Nenhum. Homem, mulher, menino, menina, todos gostam de festejar o nascimento de Jesus Cristo, sem medo de heresia, todos curtem mais o Natal do que sua Paixão e Ressurreição porque o Natal é o broto da vida enquanto a Paixão é o roxo da vida.
     O Natal perdeu a simplicidade doutros tempos, onde a família se reunia em lauto jantar festivo com prelúdios de oração e após a janta iam assistir à Missa do Galo, de lá voltavam para casa felizes, jovens e velhos, namorados de mãos dadas, crianças no colo dos pais e meninos e meninas saracoteando...
     Se pra nascer o moleque era trazido pela cegonha, para ter o brinquedo dos sonhos, a molecada implorava que Papai Noel descesse pela chaminé ou adentrasse pela janela de sua casa com o saco superlotado e deixasse o seu brinquedo embaixo da cama ou dentro do sapato ou dentro das meias, desperto o moleque com o canto do galo, o seu brinquedo encontrava. Nenhum pedagogo, nenhum psicólogo, talvez, algum poeta ou algum pintor soubesse colocar no papel ou na tela esse sentimento lúdico e indescritível que era o presente de Papai Noel!...
     Com o advento da Internet, da televisão, e, doutros meios de comunicação, o Natal perdeu sua simplicidade e sua tradição diminuiu o ritmo, até o Papai Noel deixou de ser lenda para ser velho barrigudo de barba branca fedorenta e maltratada, travestido a caráter, nas portas das lojas e dos shoppings atraindo os pais e as crianças.
     O velhinho rechonchudo inspirado no arcebispo Nicolau Taumaturgo de Mira na Turquia, nascido no Pólo Norte, que usava trenós carregados de brinquedos e arrastados por renas não existe mais na cabeça da molecada. Hoje, ele virou garoto propaganda das grandes empresas em todo mundo, aqui, em nossa terra tupiniquim, os Correios, as prefeituras e alguns empresários filantropos travestidos fazem sua vez, mas sem graça e sem sonhos, mais uma esmola do que brinquedo...
     O sonho, a surpresa, a ansiedade de um menino na noite de Natal, o mito e a tradição foram trocados pelo frio glamour dos supermercados, das lojas de brinquedos, pelo selo do INMETRO e pelo comércio clandestino do camelô.
     A informação massificada modificou a conduta do pimpolho e roubou-lhe a poesia e a inocência. Atualmente, não são os pais que decidem na alcova, aos cochichos, o sonho de felicidade do seu pequerrucho, mas a televisão que orienta o moleque escolher o seu brinquedo e o Papai Noel é a figura do papel de presente, para maioria dos miseráveis é o consolo do letrista Assis Valente:
          “...Eu pensei que todo mundo
          Fosse filho de Papai Noel
          Bem assim felicidade
          Eu pensei que fosse uma
          Brincadeira de papel

          Já faz tempo que eu pedi
          Mas o meu Papai Noel
          Não vem
          Com certeza já morreu
          Ou então felicidade
          È brinquedo que não tem.”


     Mas, para todos moleques do mundo que pensaram ser filhos de Papai Noel, que o brinquedo veio e a “felicidade é brinquedo que não tem”, a saída é gritar:
     -Roubaram a minha inocência!!!...

 



Gênero: Crônica
Autor: Rilvan Batista de Santana

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 12/11/2014
Alterado em 01/09/2023

Os sinos dobram no Natal - R. Santana

 


Os sinos dobram no Natal - R. Santana
 

     Maria Clara estava internada na unidade de terapia intensiva há 2 dias no Hospital Infantil itabunense Manoel Novaes. Inicialmente, os pais pensaram que fosse mais uma das gripes ou infecções de garganta que ela costumava ter: dor de cabeça, febre, vômitos, etc., mas à medida que os sintomas foram piorando seus pais levaram-na ás pressas para o hospital e se descobriu um quadro bacteriano de meningite. O susto foi grande, os pais ficaram apavorados com o diagnóstico. O contágio com alguém infectado, certamente, tinha sido na escola, pois Mariana e Carlos são pais extremados no cuidado com sua pequena de 8 anos de vida.
     Enquanto Carlos aguardava notícias médicas do estado de saúde da filha, nos corredores contíguos da UTI, Mariana recorria ao poder da Providência na capela do hospital. Ambos, marido e mulher (ela mais do que ele), são religiosos de muita fé. Sabiam que a meningite é uma doença grave, às vezes, deixa a vítima com sequelas irreversíveis ou leva o indivíduo à morte, portanto, nada demais pedir uma mãozinha a Deus, em particular, Nossa Senhora Aparecida, protetora do casal, mesmo com a confiança do médico:
     - Mãe não fique tão ansiosa, todas as providências foram tomadas no início dos sintomas, além disto, a medicina atual dispõe de medicamentos de última geração para combater esses “bichinhos” da meningite, agora é dar tempo ao tempo...
     A febre insistia deixar Maria Clara, não como antes que seu corpo ardia de quente, contudo a febre permanecia menos intensa. As visitas foram proibidas, além da equipe médica especializada, somente os pais podiam entrar na unidade de terapia intensiva, mesmo assim, com os rigores padrões: visita individual, vestimenta adequada, mãos higienizadas, máscara e pouco tempo de visita. No quinto dia da doença, ela ainda não estava completamente lúcida, apresentava certa confusão mental, o pessoal da saúde se desdobrava em cuidados.
     Mariana não arredava pé do hospital, só não dormia porque não era permitido. Ela almoçava em casa e lanchava na cantina do hospital. Faz-se necessário dizer que era mês de dezembro de 2012. Começou preparar a casa para os festejos natalinos, mas com a doença súbita da filha, deixou casa e outros afazeres para se dedicar à pequena. Se fosse uma doença menos grave, conciliaria casa e doença, mas com meningite não se descuida, que os festejos de Natal ficassem para outro ano, agora, só desejaria que Papai-Noel trouxesse no seu saco de brinquedos, um brinquedo chamado saúde para presentear Maria Clara.
     Parodiando o filósofo, diria que a vida tem razões que a própria razão desconhece, a partir do sexto dia de UTI, Maria Clara foi melhorando a olhos vistos, e, no oitavo dia, foi transferida para um apartamento de um leito, curada!      A doença foi definitivamente debelada, resultado de exames complementares, nada demais se sua cura fosse atribuída à ação de medicamentos específicos, mas a menina saiu da semiconsciência para consciência plena num estalo e uma conversa mística, visionária, que os menos crentes atribuíram ao delírio da doença:
     - Juro por Nossa Senhora Aparecida!
     - Não blasfeme filha... papai do céu... é pecado... – a mãe cheia de dedos. A menina desabou em choro:
     - Mãe... mãezinha... ela rezou na minha cabeça... mãezinha é verdade... – a mãe pondera:
     - Sonho, filha!
     -Não!!! – nervosa.
     - Não foi sua enfermeira?
     - A enfermeira dormia quando ela veio me ver. Ela é tão bonita e cheia de luz que iluminou tudo. Não estou mentindo, mãezinha!
     - Bem, ela disse o quê!?
     - Hoje é Natal filha. Hoje, os sinos dobram em esperança e misericórdia para todos os homens.
     Mariana não costumava refletir, agia por instinto quando algo lhe tocava o coração. A fé não se esmiúça, agarra-se, e, Maria Clara estava curada. Ajoelhou-se e orou, orou, orou...

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Presente de Natal - R. Santana

 

Presente de Natal - R. Santana

Presente de Natal
R. Santana
 
A única coisa que me interessava no Natal, naquela época, era ganhar meu presente. Não entendia bulhufas do nascimento de Jesus Cristo, aliás, não compreendia como Jesus de Nazaré, Filho de Deus, havia nascido num estábulo, deitado numa manjedoura, junto com as vacas e outros animais, ao invés de ter nascido num palácio suntuoso. Hoje, compreendo o mistério.
Quando ia à igreja, achava bonito o presépio iluminado e a imagem daquele pequerrucho, nu, em cima da alfafa, ou, nos braços de sua mãe, a Virgem Santíssima – era um deleite... Por outro lado, a cerimônia religiosa era tão austera e disciplinada que não ficava muito tempo na nave da igreja, preferia brincar de picula na praça da matriz junto à turma de minha idade, quando a sorte me bafejava e minha mãe Judite afrouxava o controle.
Também não gostava da “Missa do Galo”, de 24 a 25 de Dezembro, além de tarde, o latinório do padre não me empolgava. As missas eram em latim, somente algumas passagens do discurso evangélico, eram entendidas pelos fieis, o restante, os fieis balançavam a cabeça como catende. E, quando ele findava com “Benedicat vos omnipotens Deus, Pater, et Filius, et Spiritus Sanctus. Amém”, o rosto alegre se estampava em todo mundo, multiplicavam-se os abraços, pois o nascimento de Jesus aconteceu: Natal!...
A volta para casa era uma festa. Os nossos pais não mais exigiam cuidado com a roupa, arregaçávamos o bocal da calça, tirávamos os sapatos novos que começavam fazer calo e vínhamos brincando na estrada de chão. Os pais também vinham descontraídos, alegres por mais um Natal. A pressa ficava por conta da lauta ceia de cada família.
Eu tinha menos de 7 anos de idade quando ganhei o meu primeiro presente de Papai Noel, lembro-me que mãe Judite passou aquele ano contando-me histórias do bom velhinho rechonchudo: ele morava num lugar de muita neve com Mamãe Noel e fim de ano, ele colocava nas costas um saco cheio de presentes, montava no seu trenó puxado por muitas renas e percorria o mundo distribuindo presentes aos meninos bem comportados na noite de Natal.
Não havia televisão, portanto, não havia divulgação exagerada de imagem do bom velhinho, afora algumas pessoas que se travestiam de Papai Noel, com saco nas costas, casaco vermelho, gola e punhos brancos, calça vermelha e bainha branca e botas pretas (não havia trenó nem renas, Papai Noel percorria as ruas, geralmente, em cima dos carros), a divulgação da imagem do bom velhinho era feita nas “folhinhas” e nas revistas da época.
Às vezes, ficava imaginando como Papai Noel entraria em minha casa para deixar meu presente se não havia chaminé, então, paciente minha mãe Judite dizia que não me preocupasse, pois ele possuía poderes mágicos e entraria pela porta mesmo fechada, porém, que não me esquecesse de colocar o sapatinho (talismã) embaixo da cama. A chaminé só existia em terras frias, lá, as casas eram aquecidas pelo fogo de lenha para que seus moradores não morressem de frio. E, Papai Noel sempre deixava meu presente na noite de Natal mesmo com a porta fechada.
Hoje, os cabelos encanecidos, Papai Noel não me traz presente, a infância acabou e o sonho findou, a fantasia virou realidade...


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

A casa de espíritos “Xis” - R. Santana

 


A casa de espíritos “Xis”

R. Santana

     Depois de aposentado, viúvo, filhos criados, ateu, sou ainda rijo para não me acomodar, comprei uma fazenda de cacau para os lados de Pau Brasil no Sul da Bahia. Não o fiz com intuito de investimento, gerar mais riqueza, mas com o desejo de sair do sedentarismo da cidade grande e gozar melhor qualidade de vida no campo. Eu imaginei que uma fazenda fosse o melhor lugar para descarregar o estresse de 35 anos de lides jurídicas como advogado criminalista, o que não foi verdade.
     A fazenda “Mata Atlântica” fica no sopé de uma serra, embaixo, um extensivo vale que facilitou cabrocar a terra para o plantio do cacau e cortada por ribeirões. A água para abastecimento da sede foi encanada de um minador que fica num outeiro, o antigo proprietário ainda fez uma grande represa para aproveitar esse manancial perene. A “Mata Atlântica” é uma fazenda grande, 20% de mata, um lugar paradisíaco para se viver.
     Quando comprei a fazenda, estranhei que havia uma casa não bem cuidada que poderia ter sido a casa grande de antes, mas não quis detalhes, bastava ater-me à produção de cacau, seu potencial, se não havia vassoura-de-bruxa e quantos empregados permanentes, além disto, eu a adquiri por uma pechincha, aquilo que não tivesse do meu gosto, seria corrigido depois, após três meses, comentei com o administrador, o negro Damião:
     - Providencie reformar àquela casa, dentro de três meses, a casa grande será lá! – ele negaceou:
     - Mas... doutor... é uma casa... mal... – desembuche Damião!
     - Doutor José Armando, o povo diz que é mal-assombrada!
     - Eu sou ateu, não creio nessas baboseiras... Damião, já viu uma alma?
     - Nunca, doutor!
     - Então, providencie a reforma da casa! – e acrescentei:
     - Ah, inclua no projeto uma garagem.
     Quatro meses depois, e, não três meses, a casa ficou pronta. Não mexeram na estrutura. O telhado francês acompanhou a garagem contígua. O piso porcelanado, chuveiros quentes, janelas e portas de sucupira maciça, grades de ferro para janelas e portas, duas suítes, ventiladores de teto, instalação elétrica embutida, forro de PVC, reservatório de água enorme, boxes de "blindex" e toda avarandada, sem afetação, poder-se-ia dizer que a casa abandonada transformou-se em mansão.
     Fiquei deslumbrado e orgulhoso com o meu feito, assim que pude, eu tomei posse da casa. Nos primeiros dias, não notei nada de estranho, então, conversei com os meus botões: “travessura de rato é alma penada para essa gente”. Mesmo ateu, reconheço que a fé conforta psicologicamente o coração do homem e o deixa mais humano, mais solidário, e, mais forte na adversidade, enquanto a falta de fé deixa-o infeliz, o coração empedernido, a mente atormentada e psicologicamente inseguro. Portanto, não estava preparado quando começaram aparecer coisas estranhas que as chamei de fenômenos naturais, mas ao longo do tempo, comecei me assustar, sem explicação lógica, passei acreditar em possibilidades espirituais...
     Certo dia, em hora e lugar não combinados, cutuquei Damião:
     - Você acredita em fantasma?
     - Alma do outro mundo?
     - Claro!
     - Patrão, a vida não acaba aqui, o corpo desaparece...
     - Sim, a morte é o fim!
    - Desculpe-me doutor, o espírito permanece. Não os vemos porque se encontram em um lugar diferente do nosso, mas eles nos veem e até conhece os nossos pensamentos, João escreveu: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus.” (I São João – 4:1). Há espíritos bons e maus, os evoluídos estão distantes de nossa dimensão, os não evoluídos estão próximos de nós e fazem coisas estranhas...
     - Isto é fé, não é razão, Damião!
    - Perdoe meu patrão, fé sem razão é inócua, veja o que disse Allan Kardec: “Fé inabalável é aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade”. Tiago corrobora: “Assim como corpo sem espírito é morto, assim também, a fé sem obras é morta” Tg Cap. 2:16. Considere aí que toda obra é fundamentada na razão!
     - Seu conhecimento de espiritismo é grande, hein Damião!?
   - A “Bíblia” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo” são os meus livros de cabeceira. Sou um autodidata, tive pouca escolaridade, esforço-me para entender a religião à luz do espiritismo – e acrescentou:
     - Se eu tivesse o conhecimento do doutor...
     Eu saí dali frustrado, pensei que obteria respostas para as minhas preocupações, alguém na fazenda havia me falado que Damião frequentava o “Centro Espírita Chico Xavier ” e era kardecista de carteirinha, porém, eu saí, apenas, com um pouco mais de doutrina. Não culpei Damião, não lhe disse as coisas estranhas que estavam acontecendo na casa que reformei, o meu orgulho de ateu foi mais forte.
     Naquele dia, também, aconteceu o que relutava aceitar: quando voltei para casa um pouco antes das 19 horas, ao abrir à porta e adentrei casa dentro, ouvi vozes que vinham da cozinha. Não me afrouxei, acendi as lâmpadas, fui até à cozinha, encontrei a mesa posta com resto de café nas xícaras e pedaços de pão, o susto não foi menor do que a carreira, gritei pelos meus seguranças:
     - Pedro! João! Pedro! João!... – os homens socorreram-me incontinenti:
     - Diga patrão! Houve o quê!? Estamos aqui! – mais seguro de mim, procurei lhes acalmar:
     - Calma, calma, calma, rapazes!
     - O senhor nos chamou aos gritos!
     - Medo... encontrei a mesa... – Pedro me interrompeu:
     - Patrão, o pessoal fala que esta casa é mal-assombrada! – João completou:
    - Não quero botar pilha, mas uma noite dessas, saiu um homão aí pelos fundos, perguntei o que ele estava fazendo não me respondeu e desapareceu, acho que era uma alma penada. Não lhe contei Pedro!?
    - Preferimos não lhe assustar! – voltando-se pra mim.
    Estimado leitor, Pedro e João apareceram na fazenda, assim que a comprei, me pedindo emprego, disse-lhes que se entendessem com o administrador, não havia onde colocá-los, mas pelo porte físico avantajado deles, Damião sugeriu-me que os contratassem como seguranças da fazenda, porque na região, naquela época, havia muito roubo de cacau ainda nos cochos.
     Os rapazes faziam ronda nas barcaças, no armazém de cacau, e na casa grande (sede), das 20:00 horas às 6:00 horas. Armados com revólveres e espingardas 12. Não eram mais chamados para nenhum serviço fora desse horário.
   Pouco e pouco, eles foram adquirindo minha confiança, várias vezes, durante o trabalho, eu lhes chamava para que tomassem café comigo.
     Algum tempo depois do café misterioso, Pedro e João comunicaram ao administrador que iriam deixar o emprego. Damião me fez ciente. Insisti que eles ficassem por mais algum tempo até o contrato de outros seguranças, mas eles foram irredutíveis e foram embora, na casa do sem jeito, sugeri ao administrador que testasse dois camaradas da lida do cacau como seguranças e deu certo.
   Não me lembro do dia, lembro-me que foi num final de semana, a hora foi mais ou menos perto da meia noite que cheguei a casa. Passei pelos seguranças e lhes desejei boa noite. Assim que meti a chave na porta, fui agarrado por dois braços fortes e empurrado para dentro de casa. Não percebi quem era, a luz lusco-fusco e o telhado avarandado escurecia o ambiente, não dava para ver alguém que se escondesse atrás da parede à direita, só reconheci Pedro e João quando já estávamos dentro de casa e a porta fechada. “Lucy” e “Malink” estavam estirados no sofá.
    O meu susto foi maior que o medo. Pensei que eles estivessem em apuros na cidade e tivessem usado esse estratagema para não chamar a atenção dos moradores da fazenda. Mas o pensamento logo foi desfeito, quando começaram me chamar de “velho sovina” , “miserável”, “advogado de merda”, etc. Acostumado com o psicológico de bandido, eu esbocei reação, mas logo fui contido por um safanão. João não usou meias palavras:
     - Queremos joias e dinheiro! – não me intimidei:
    - Acham que sou idiota para guardar joias e dinheiro neste fim de mundo, rapazes!? – Pedro deu-me um soco na barriga que contorci todo corpo, refiz-me e continuei:
    - Não trago dinheiro para este fim de mundo! – repeti.
    - Quando começar lhe cortar... – João desembainhou a peixeira.
   - Cadê o dinheiro!? - João marchou em minha direção, mas de repente, num pulo certeiro, “Malink” unhou sua mão com ferimento profundo que a faca lhe caiu da mão. Pedro pegou a espingarda 12, e, atirou no gato duas ou três vezes em vão, a arma pisou e o pavor começou tomar conta de todos nós quando numa voz cavernosa, gutural, profunda, um som quase inaudível, difícil de traduzir, saia da garganta de “Lucy” e “Malink”:
    - Nesta casa não será mais derramado o sangue de um justo!... – Esta foi a única frase completa que captei dos estranhos animais. Todavia, compreendi an passant que os antigos donos da fazenda tinham sido assassinados pelos pais de Pedro e João. Agora, eles queriam repetir o crime, mas não iriam conseguir porque eles estavam ali de guardiões.
    A sala esfriou como se ar condicionado estivesse ligado no máximo. “Lucy” e “Malink” ficaram enormes, maiores que um homem de 1,80 m, eles mostravam seus dentes raivosos para Pedro e João. Suas cabeças giravam sobre os ombros numa grande velocidade. Os Olhos transmitiam uma luz em feixe e localizada, como se a luz fosse trespassar os corpos dos malfeitores. Porém, o mais surpreso estava por vir: eles se transformaram num casal bonito elegante. Ele, um homem de meia idade, cabelos grisalhos, simpático, de terno escuro e sapatos pretos de verniz; ela, uma linda mulher, balzaquiana, morena, cabelos compridos, pele viçosa, vestida de maneira elegante.
    Pedro e João não se aguentavam nas pernas. Parados, de olhos arregalados, já desprovidos das armas, não corriam porque lhes faltavam forças nas pernas e nos pés. As mentes confusas ainda não tinham entendido que os seus pais tinham matado aqueles dois seres, agora, eles estavam ali para que mais uma morte não fosse perpetrada naquela casa e agradeciam a mim, tê-la restaurado.
   - Eu sou Dr. Roberto Mascarenhas de Andrade! – apresentou-se.
   - Eu sou Margareth Garret de Andrade – acrescentou:
   - Nós agradecemos ao Dr. José Armando ter restaurado nossa casa!
    Depois das apresentações, eles desapareceram... “Lucy’ e “Malink” continuavam deitados no sofá em posição original. Agora, dono da situação, eu gritei pelos meus empregados e prendemos os meliantes e os entregamos no dia seguinte às autoridades do lugar.
         Hoje, não sou mais ateu, procurei uma igreja e estudo os Evangelhos. Não vendi a fazenda nem me desfiz dos gatos, pois eles são instrumentos de espíritos que não atingiram à perfeição, mas são espíritos do bem.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

Imagem: Google

Zé “Urubu” - R. Santana

 

Zé “Urubu”
Zé “Urubu”
R. Santana
 
Zé não usava preto nem gostava de comida pútrida, porém, passava mais tempo aqui e acolá sem compromisso de moradia fixa ou de trabalho, um simpático vagabundo, um alegre vadio, por isto, recebeu o apelido de “urubu” que com o passar do tempo tornou-se o nome de Zé.
Não era má pessoa, era prestativo, diligente, ninguém passava apuros quando ele estava perto, desembolsava o último tostão coado para socorrer um amigo sem se preocupar se seria indenizado depois.
Pedreiro de quatro costados: ele construía uma casa da alvenaria à comeeira e se fosse pago conveniente, entregava o imóvel ao proprietário pintado e na chave. Naquela época, era um dos mais requisitados profissionais da construção civil, todavia, jogava tudo pro alto quando o trabalho o entediava e corria pra mesa de snooker.
O snooker era o seu fraco. Não era um profissional do taco como Carne Frita, mas dentre os jogadores que frequentavam o “Bar de Pedro”, Zé Urubu não era um dos piores, seu jogo dava pro gasto, seus principais adversários eram Lopeu e Dico Soldado. Lopeu tinha uma alma boa, incapaz de judiar uma formiga, mas viciado no jogo de snooker, todo dinheirinho que ganhava como cambista de jogo do bicho era disputado na mesa de pano verde, enquanto isto, Dico Soldado tinha a fama de matador.
O “Bar de Pedro” era o único ponto de diversão do Bairro São Caetano na cidade baiana de Itabuna, naquela época, uma mistura de lanchonete e jogos de azar: baralho, dominó, snooker e bilhar. Funcionava, diuturnamente, do primeiro ao último dia da semana. Não havia briga entre os jogadores, quando os ânimos se acirravam com os mais exaltados, aparecia de imediato, a turma do deixa-deixa e a briga acabava antes de começar.
Zé Urubu não possuía temperamento agressivo, nem era covarde, preferia resolver qualquer pendência pelo diálogo, às vezes, com prejuízo no bolso. Dizia sempre: “prejuízo pouco é lucro” ou “não tenho inimigo no jogo, mas competidor”, assim não cultivava desafeto.


A Baixa do Sapo ficava distante uns 500 metros do Bar de Pedro, era um aglomerado de barracos e poucas casas de bloco e tijolos maciços. O nome Baixa do Sapo foi dado porque o lugar tinha muitos brejos de tabuas, à noite, era uma verdadeira orquestra com o coaxar dos sapos. Nas festas juninas, aquela gente simples fazia fogueira na porta dos barracos, quadrilhas, balões, muito forró, comidas e bebidas típicas – milho assado, canjica, amendoim, pamonha, licor, arroz doce, mungunzá, farofa de banana, frango e carne no espeto -, cada barraco era uma festa...
Naquele ano de São João não foi diferente, exceto que no meio da noite, o barraco de Mané das Onças pegou fogo. Mané das Onças, a mulher e os meninos mais velhos encontravam-se espalhados na vizinhança e o caçula bebê ficou no barraco. Quando as labaredas começaram tomar corpo, a multidão se aglomerou em frente ao barraco, latas d´água e baldes surgiram às centenas, mas o fogo não se rendia, Mané das Onças e a mulher gritavam pedindo socorro para salvar o filho, o desejo de socorrer era coletivo e o medo também, ninguém se atrevia entrar no barraco, quando do nada surge José Urubu:
- Seu Mané, calma! – em tempo recorde, ele vestiu uma capa colonial, fez de sua camisa de mangas cumpridas uma máscara e adentrou no barraco.
Os segundos tornaram-se infinitos, as labaredas subiam ainda mais, ninguém apostava que José Urubu saísse são e salvasse o bebê daquele inferno. A expectativa era enorme, o silêncio era sepulcral, algumas tábuas começavam se soltar do barraco fumegante, quando de repente, José Urubu surge do lado de fora com o pequerrucho enrolado na capa. Só teve tempo de entregar o bebê no colo dos pais e desvencilhar-se da capa e da máscara, quando o barraco foi ao chão e virou uma única fogueira, mas bebê e herói popular estavam salvos. Os gritos entoaram na Baixa do Sapo:
- Viva José Urubu! Salve o nosso herói! Deus te abençoe!...


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

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