11.07.2025

A saga de um professor - R. Santana

 

A saga de um professor - R. Santana
A saga de um professor
R. Santana

Nos idos de 1970, o país era comandado pelo regime discricionário da Revolução de 1964. Os militares ocupavam todos os postos políticos e administrativos do governo brasileiro. Muitos políticos civis foram cassados e exilados. Os comunistas e os terroristas foram perseguidos, muitos não sobreviveram ao regime ditatorial e acabaram mortos nos porões dos órgãos repressivos do exército DOI-CODI. Os jovens de ideias sociais avançadas eram reprimidos e presos, os sindicatos engessados ou extintos, a imprensa e a cultura censuradas e reprimidas pelos órgãos repressivos do estado, a Constituição substituída pelos Atos discricionários. Foi neste período da história brasileira que eu comecei no magistério com a idade de 24 anos.
Eu trabalhava em um bar da família, não possuía aspirações revolucionárias, não queria mudar o mundo, a mim bastava mudar minha situação profissional, financeira e social e que o país e o mundo seguissem seu curso histórico em favor da humanidade, enfim, não alimentava o ardor revolucionário dos jovens daquela época, a minha preocupação imediata era a sobrevivência, pois descendia de família muito humilde, não podia me dar ao luxo de ter ideias revolucionárias, ademais os revolucionários que conheci, eles tinham família bem situada, movia-lhes, apenas, o desejo de poder e usavam métodos tão radicais inescrupulosos quanto os militares.
Não encontrei trabalho no magistério na minha cidade de Itabuna, o mercado me exigia uma qualificação maior de que de um estudante que cursava a faculdade de filosofia, porém, surgiu na cidade circunvizinha de Itajuípe uma oportunidade de trabalho, no turno noturno, no colégio Dr. Diógenes Vinhaes.
O diretor do colégio Diógenes Vinhaes era o juiz da cidade, Dr. Orlando Pereira. Sem conhecê-lo nem apadrinhado, apresentei-me ao meritíssimo e o meu desejo de ingressar no magistério. Doutor Orlando não era esnobe. Afeito conhecer gente por força do seu trabalho de juiz, contratou-me sem muita exigência burocrática, como professor de Biologia e Organização Social e Política Brasileira – OSPB. Biologia não me era matéria desconhecida, possuía a experiência de 3 anos no antigo curso “científico” e OSPB uma disciplina da organização política e administrativa do estado brasileiro.

Desde o começo no exercício de orientar o aluno a aprender que tomei como divisa: ter em conta o outro com suas qualidades e defeitos e fazer bem feito o meu trabalho, lá se foram 34 anos no exercício da profissão.
Trabalhei 2 anos em Itajuípe, anos que me deram embasamento profissional necessário para uma longa caminhada. Descobri que o aluno como sujeito da aprendizagem só se interessa por aquilo que lhe é significativo, se não, não existe aprendizagem, mas um processo decoreba sem assimilação que após a avaliação o sujeito tende a esquecer. Porém, se o objeto da aprendizagem tem significado para o aprendiz, ele assimilará facilmente e jamais irá esquecê-lo.
Deixei o Diógenes Vinhaes por motivo de horário (noturno) e dificuldade de transporte, também, porque surgiram novas oportunidades: fui contratado pelo Colégio Estadual de Itabuna – CEI e pelo Instituto Municipal de Educação Aziz Maron – IMEAM, duas escolas públicas, uma estadual e a outra municipal. Naquela época, as maiores escolas de Itabuna e que ofereciam melhores condições de trabalho. Porém, entendi que tudo começou na cidade de Itajuípe, no colégio Dr. Diógenes Vinhaes e expressei sentimento de gratidão do porteiro ao diretor desse estabelecimento de ensino, Dr. Orlando Pereira.
Naquela época, as escolas públicas tinham um corpo docente qualificado e vocacionado... Os baixos salários no magistério eram discutidos, ninguém era sacerdote da educação, mas o salário não era condição sine qua non para que os trabalhadores da educação não desempenhassem bem o seu ofício.
Não obstante a clientela fosse de classe média baixa, muitos de periferia, ainda havia o conceito de família, a autoridade do professor, o gosto pela escola e droga não se falava. O educando tinha compromisso, ele estudava com o desejo de aprender e a promessa dos pais de ascensão social e formação profissional. A matéria de ensino, objeto de aprendizagem, trazia um conhecimento básico necessário à formação moral e intelectual do educando. Os conteúdos não eram estéreis ou sem significado, a leitura e a escrita eram mais exigidas, havia o interesse maior pelo português e pela matemática sem prejuízo das demais.
O magistério para mim, representou mais do que uma profissão, representou um sacerdócio, que exerci com gosto e dedicação durante 34 anos, afora algumas passagens na administração, todo esse tempo em sala de aula com carga horária de 80 horas semanais, distribuída em 3 turnos.

A remuneração do professor sempre deixou a desejar, ainda hoje se sucedem os movimentos paredistas, alguns de embasamento político, a maioria com reivindicações justas de melhores salários e boas condições de trabalho. Participei de todos os movimentos paredistas não à frente de sindicatos ou associações, mas solidário à classe sofrida e não reconhecida por parte da sociedade e pelos governos.
Não obstante não ser omisso às reivindicações da classe, nunca envolvi o aluno nessa demanda de classe com o estado ou o município. Jamais justifiquei minha aula ruim ao meu baixo salário. Sempre fiz questão de separar o joio do trigo, eu não estava na sala de aula a pulso, tinha o livre arbítrio de exercer outra atividade, portanto, tinha que fazer a coisa bem feita e comprometida.
Não permitia que o aluno negligenciasse suas atividades escolares, mas sem ser arbitrário, mais pelo exemplo de dedicação e domínio do conhecimento. Somente em casos raros, eu deixava de dar aula, era no linguajar dos jovens atuais, um CDF. Nunca tive problema grave com nenhum aluno, o respeito era recíproco, ainda hoje, depois de mais de 10 anos de aposentadoria, recebo o carinho e a atenção deles quando involuntariamente nos encontramos.
Em 1988 cheguei à direção do Colégio Estadual de Itabuna – CEI. No início, como vice-diretor, depois, como diretor geral, aí conheci o lado do patrão. O funcionário público, estatutário ou celetista, não possui o mesmo compromisso do trabalhador da empresa privada, os vícios e os artifícios são diversos e contribuem para irresponsabilidade e falta de compromisso de muitos trabalhadores da educação. Não é novidade o mesmo profissional ter papéis diferentes quando ele trabalha na escola pública e na escola privada. Na escola privada ele ajuda o aluno a aprender e na escola pública, ele faz que ensina...
Porém, parodiando D. Pedro II, se voltasse no tempo, não queria outra profissão que não fosse professor, ensinar é promover mudança, o professor não só mexe na faculdade cognitiva do sujeito da aprendizagem, mas é responsável pela sua formação moral quando além de orientar no objeto do conhecimento, ele é um educador.

Autor: Rilvan Batista de Santana
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Maria Clara - R. Santana

 


     Maria Clara

     R. Santana


     - Maria Clara!
     - Sim, mãezinha!
     - Onde está?
     - Estou brincando de boneca!
     - Perguntei-lhe onde?
     - No meu quarto!
     - Sozinha? Chame sua prima Karina!
     - Não estou sozinha!
     - Karina está aí?
     - Não!
     - Quem está aí? – Maria Clara não responde, sua mãe repete:
     - Quem está aí?
     - Mãezinha... mãezinha... estou brincando... – Helena impacienta-se:
     - Filha, quem está aí!?
     - Totó! – mentiu.
     - Totó está aqui, mentindo pra mãezinha!?
     - É que... é que... é que... você não gosta de Carol... – choramingando.
     - Oh filha, não chore!
     - Mãezinha, eu posso brincar com Carol?
     - Filhinha, Carol não existe...
     - Carol é minha amiga, mãezinha! – para não lhe contrariar:
     - Tudo bem, meu amor!
     Helena é vencida pela insistência da menina. Maria Clara tem 4 aninhos e seus pais estavam assustados com essa história de Carol, é que, ultimamente, a menina brincava boa parte do tempo com essa garota imaginária, que somente ela conhecia, muitas vezes, foi flagrada arrumando as bonecas e conversando com essa “garota”. Só queria brincar com Carol, exceto, na escola. Descrevia-a, a seu modo, como se ela fosse do seu tamanho, de sua cor e idade.
     Seus pais esgotaram todos os recursos médicos, ela passou por psicólogos e psiquiatras, nenhum diagnóstico de insanidade, nenhuma anormalidade, nenhum transtorno mental, concluíram que tudo não passava de fantasia, mente fértil, filha única, uma maneira dela sublimar e racionalizar a ausência de um irmãozinho, de uma irmãzinha, mas com o tempo esse universo imaginário seria substituído pela realidade.
     Os pais de Maria Clara não saíam da igreja cristã, jamais iriam atribuir nenhuma manifestação espiritual, portanto, Carol não passava de capricho da filha, uma maneira da menina lhes chamar a atenção.
     Noite de Natal, Helena e o esposo como bons cristãos, arrumaram a casa com gambiarras coloridas e árvore de Natal iluminada. A ceia de Natal foi feita com esmero. Naquela noite o padre paroquiano prometeu romper a tradição e liberar os fieis mais cedo. Justificava a violência das ruas e o perigo das famílias chegarem tarde a suas casas.
     Helena serviu a ceia mais cedo. As crianças e os adolescentes brincavam no jardim da casa, os homens discutiam os últimos acontecimentos políticos. As mulheres falavam de seus pimpolhos. Tudo era clima de festa, quando houve um blackout decorrente da sobrecarga de energia e uma língua de fogo irrompeu num dos pontos de telhado que tomou forma e começou se alastrar...
     Grande foi o tumulto. Muitos convidados tropeçavam sobre os móveis, ninguém ficou dentro de casa, os bombeiros foram acionados e chegaram de imediato, tudo parecia sob controle quando Helena deu por falta de Maria Clara e abriu o berreiro de socorro. O fogo estava praticamente debelado quando um dos bombeiros adentrou na casa ouvindo o clamor de Helena.
     Se não fosse a situação estranha que o bombeiro encontrou, o socorro de Maria Clara teria sido rotina: a pequerrucha brincava de boneca, o quarto iluminado por uma luz misteriosa, falava com alguém que lhe correspondia, no fundo uma árvore de Natal iluminava mais ainda o ambiente. O bombeiro ficou confuso, absorto, sem nada entender, seguiu seu instinto, colocou a menina no colo, instante depois a deixava nos braços da mãe:
     - Senhora há mais alguém na casa?
     - Não! Por quê?
     - Nada...



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna-ALITA

Imagem: Google

Valdelice Soares Pinheiro - R. Santana

 

Valdelice Soares Pinheiro R. Santana

Valdelice Soares Pinheiro
R. Santana
 
Nesta Segunda-feira (13), fui presenteado por Dr. José Neto, com “O Canto Contido”, que reúne os livros: “De dentro de mim” e “Pacto”, organizado e prefaciado pelo escritor e poeta Cyro de Mattos. “O Canto Contido” é um livro de poesias da poetisa maior da nossa região e sempre lembrada Valdelice Soares Pinheiro.
Eu a conheci no início dos anos 70 na Faculdade de Filosofia de Itabuna- FAFI. Uma mulher avançada no seu tempo, incapaz da promover o mal, uma doçura de pessoa, muito culta, porém sem afetação. Conhecia como ninguém a alma humana, por isto, era sempre compreensiva com as dificuldades do outro.
Fui seu aluno no curso de filosofia em Ontologia e Estética em anos diferentes. Embora o estudo do ser, sua natureza e atributos, não fosse uma matéria prática, mas, metafísica, Valdelice Pinheiro a ensinava com jeito todo especial para torná-la mais acessível e mais compreensiva. Porém, fez a diferença quando nos ensinou Estética e não poderia ser diferente como poeta, pois é o estudo das condições e dos efeitos da criação artística, o estudo racional do belo.
Produziu filosofia em suas poesias, seus versos são universais e atemporais. Mesmo quando faz versos particulares, em que o objeto é limitado e de foro íntimo, ela dá vestimenta metafórica e sentido próprio, veja, por exemplo, o poemeto: Itabuna (1):
“Meu primeiro gesto
foi semente.
E de meus dedos longos
de esperança e sonho
levantou-se a flor
na mata enorme,
toda prenhe
deste fruto
que hoje sou”.

Itabuna não surgiu da saga dos jagunços, camaradas e coroneis do cacau, mas da “semente”, “esperança”, a flor brotou na “mata enorme” e o fruto hoje é realidade. Ou seja, o que era potência tornou-se ato. Em Itabuna (2), ela conclui com versos mais concretos: “... Eu sou plantada neste chão / Eu sou raiz deste chão / Este chão sou eu”.
Sensível aos problemas sociais, ao período da Guerra Fria entre as potências mundiais Estados Unidos e União Soviética, entre os países da “Cortina de Ferro” e o Ocidente, e, o medo que perpassava na mente do homem comum, de uma Guerra Nuclear, onde não sobraria nada ou quase nada com a destruição do mundo pelas bombas nucleares e a profecia de George Orwell do “Grande Irmão”, do “Big Brother” que Valdelice Pinheiro sintetiza em Medo:
“Existe um olho enorme
sobre o mundo.
todas as bombas,
todos os heróis
estão em expectativa.
Porque existe um olho enorme
sobre o mundo,
espiando a hora
de chorar”.

Com exceção de Graciliano Ramos, que pintou com cores fortes o drama da seca no Nordeste, em “Vidas Secas”, o poema de Valdelice Pinheiro, “Seca”, é a maior expressão literária feita sobre o assunto:
“Peitos magros
pendidos para o chão
e mãos que se levantam
em garras para o céu.
Nuvens que se vão
e chuva que não vem.
Carcaças brancas
pintando o barro do caminho
e dos olhos do menino
pau de arara
duas gotas de luz
pingando a terra
- água da dor
que a morte esfria.

Porém, é no seu poema “Testamento” que se ler uma Valdelice despojada sem preocupação com a forma, livre, leve e solta... Quando ela diz: “...deixo os meus livros / para as almas que os quiserem / e ficam os meus discos / para o sonho dos meus amigos...”, não é a pensadora, a filósofa que se manifesta, é a Valdelice que acredita nos sonhos, na esperança, no ser humano, é a Valdelice que acredita no amor.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

A mulher tem arte - R. Santana

 



A mulher tem arte

R. Santana

 

     Eu não estava lá nem vi com os meus olhos que um dia a terra há de comer, mas o meu amigo Tanaguchi estava lá, ele e a mulher tinham ido comemorar as bodas de prata no “Motel Carinhoso”, o primeiro do gênero nas bandas de Itabuna, antes, os jovens e os menos jovens recorriam aos castelos das caftinas. Deve-se esclarecer, para o bem da verdade, que não existe diferença objetiva entre os bordeis do passado e os motéis de hoje, salvo, na sofisticação dos serviços e no luxo.
     Depois de muito “sapeca-iaiá”, boa bebida, boa comida, o casal Tanaguchi resolve esticar a comemoração de suas bodas de prata em uma boate, aliás, dançar é o hobby principal de Tanaguchi e esposa, fregueses assíduos da boate “House Music Bar”, fecharam a conta do motel. Na saída, em frente à guarita, encontraram uma mulher descontrolada que esculhambava o marido:
     - Vagabundo! Galinha! Filho de uma puta! – o marido apaziguava:
     - Calma, não é o que você está pensando... - lívido.
     - Ah! Não? Estou pensando o quê? Não me venha com churumelas, deixe de cinismo... não estou pensando... eu lhe vi com esta vagabunda - tentou agredir a moça - saindo do motel... você quer tampar os olhos com uma peneira, cachorro!? – irritada cada vez mais.
     - Amorzinho...
     - Não me chame de “amorzinho”!
     - Está bem! Eu deito o rei! Mas, não sou o mais culpado!
     - Ah, existe outro culpado?
     - Sim!
     - Desembuche!
     - Deixe pra lá... – de repente, bateu-lhe uma desconfiança:
     - Compadre Josué com você... Aqui!?
     -Ai de mim se não fosse o compadre Josué... Você está desconfiando deste homem de igreja, bem casado, hein?
     -Longe de mim duvidar do compadre. Só queria entender como vocês vieram parar neste lugar!

     -Simples: recebi um telefonema anônimo que ia lhe encontrar aqui, aí, chamei o compadre para me acompanhar. Queria que eu viesse sozinha para este antro de perdição?
     - Não amorzinho, você é uma mulher séria, jamais duvidei de sua fidelidade, eu que pisei na bola. Perdoa-me?
     - Quem perdoa é Deus!
     - Então, me desculpa?
     - Está desculpado, mas não torne outra! – depois que valorizou o pedido.
     Tanaguchi jurou de pés juntos que os entretantos e os finalmentes foram resolvidos. Pouco tempo depois, parecia que nada havia acontecido: a esposa se jogou nos braços do marido, o compadre se orgulhava do dever cumprido e a moça causa do imbróglio tomou chá de sumiço. Se um viandante desavisado passasse por ali, diria que em suas andanças nunca havia encontrado outro casal mais feliz.
     -Tanaguchi não tem nada de especial nesta história! – explodi:
     - A presença de espírito da mulher, mais dissimulada do que Capitu!
     - Não entendi!
   - Depois que o casal saiu com o compadre, o porteiro muito discretamente, cheio de dedos, contou-nos que ela e o “compadre” eram useiros e vezeiros ali. Naquela noite, ela tinha dado de testa com o marido na entrada do motel, aí, aprontou aquele barraco e saiu-se muito bem. Entendeu, agora, a saída espirituosa da mulher?
     - Que coisa, Tanaguchi! Meu Deus!
     - Meu amigo Narvil, a mulher tem arte...

 


Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Carta de Rilvan Santana em ocasião da posse da nova diretoria da ALITA

 


Carta de Rilvan Santana em ocasião da posse da nova diretoria da ALITA
Carta de Rilvan Santa em ocasião da posse da nova diretoria da ALITA

Senhores confrades e digníssimas confreiras:

No dia 20 de abril de 2011, registrei no “Saber-Literário” o nascimento da ALITA:
“ALITA foi parida, veio à luz, numa das salas da FICC, às 9:00h, no dia 19 do mês de abril do ano cristão de 2011, e, acalentada nos braços dos preclaros Cyro de Mattos, Dinalva Melo, Ruy Póvoas, Antônio Laranjeira Barbosa, Marcos Bandeira, Geny Xavier e outras mulheres e homens de expressão literária da terra do cacau.

Este “escrevinhador”, o segundo filho de dona Leonor, também, estava lá, não com a mesma competência obstétrica dos demais confrades, mas com o mesmo desejo de vê-la nascer com saúde para daqui alguns anos, ela perambule e troque ideias com suas irmãs gêmeas neste país de Drummond, Cora Coralina, Aluísio de Azevedo, Adonias Filho, Amado Jorge (perdoe-me o trocadilho), João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa e o mulato Lima Barreto, dentre outros, e, o nosso mais louvado escritor, jornalista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, poeta e crítico literário, o mulato, Joaquim Maria Machado de Assis de registro de nascimento e “Machado de Assis” para o povão”.

Hoje, estamos aqui para posse de mais uma diretoria sob a batuta da competente confreira Sônia Carvalho de Almeida Maron, coadjuvada pelo brilhante professor Ruy do Carmo Póvoas, intelectuais de escol da nossa terra do cacau, que dispensam loas e comentários airosos, pois fazem parte dos homens e mulheres que dignificam a história deste pedaço da Bahia e do Brasil.
Porém, urge a necessidade desta nova diretoria implementar algumas ações para que a nossa academia cumpra o papel que lhe foi destinado: salvaguardar a memória cultural do passado e promover novos valores morais e intelectuais no presente, para isto, a condição sine qua non, é que tenha autonomia financeira, que seja reconhecida de utilidade pública e tenha sede própria, sem estes suportes primários, a ALITA irá capengar sempre e jamais andará com desenvoltura.
Não é urgente, mas não é menos importante, completar a quantidade de membros da ALITA de acordo o modelo Francês (40 membros efetivos, afora os correspondentes), não por indicação, oferecido, de bandeja, porque “Laranja madura na beira da estrada Tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé”, mas através de edital veiculado pela mídia, em que os postulantes passem pelo crivo desta diretoria e se escolha aquele que preenche todos os requisitos.
Saber agregar faz a diferença do administrador, se o gestor de qualquer entidade ou empresa não souber administrar os conflitos dos seus membros, suas divergências e os egos inflados, sua administração estará sujeita ao fracasso, portanto, a chave do sucesso de uma administração é saber juntar os diferentes e diminuir as dissensões.
Com as bênçãos de Deus, desejo que esta diretoria faça um bom trabalho, cada diretor desempenhe com eficácia sua função para qual foi eleito, é sabido que alguns cargos existem, só no papel, mas para o homem arrojado, empreendedor, a ideia é que conta.

Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 15 de maio de 2015.

O crime do pastor Silas Petrov - R. Santana

 O crime do pastor Silas Petrov - R. Santana

O crime do pastor Silas Petrov
R. Santana

 
   Ali está o cadáver no caixão sobre a bancada de mármore. Cadáver que ontem foi uma linda jovem de 21 anos de vida. A família Petrov já não tinha mais lágrimas para chorar a morte de sua filha Raissa, se o casal não fosse religioso, a dor seria maior,  pois é lancinante a perda de um filho, ainda mais quando o filho é único e boa índole. Larissa era o mimo da família Petrov, bonita por fora e por dentro, estudiosa, líder de nascença, amiga de todos e admirada por todos. Ultimamente, estagiava num escritório de advocacia, estudava pra ser advogada, sonhava um dia ser juíza.
     Silas Petrov a encontrou estirada na cama, com marcas de esganadura, esgoelada, e nua abaixo da cintura. Não havia sinal de arrombamento na casa, a porta da frente estava fechada no trinco. Afora a desordem no quarto da vítima, a televisão ligada e alguns livros espalhados no tapete da sala, tudo estava em ordem. O assassino não simulou roubo nem deixou vestígio aparente de sua identidade. A polícia técnica periciou e vasculhou a residência e o corpo da moça levado para o IML para exames mais apurados.
    Raissa tinha muitos admiradores. Namorado nenhum! Ela brincava que não queria problema afetivo em sua vida, que as relações conjugais quase sempre são conflituosas: o amor é arrebatado na juventude, acomodado na maturidade e esquecido na velhice. Ela prezava a amizade dos amigos, das amigas, dos parentes e o amor infinito dos pais.
    Não era de curtição, festas somente as de sua igreja, seu gosto musical era gospel. Seu hobby principal era a leitura. Quando ela tinha um bom livro, trancava-se no quarto e não saía de lá enquanto não o lesse da primeira à última página, por isto, a turma da faculdade apelidaram-na carinhosamente: “Lepisma Saccharina” que é a traça de livros.
    Foi de grande comoção o crime de Raissa, de revolta, e, difícil de solucionar, porque não havia suspeito imediato, todos de sua intimidade eram suspeitos. Ela não possuía inimigos declarados, foi grande o número de amigos, conhecidos e não conhecidos no velório e no seu sepultamento, todos consternados, todos com grande pesar.
    Silas e Natasha, os pais da vítima, estavam absorvidos em seus pensamentos ao lado do caixão, de quando em vez, passavam a mão no rosto e nos cabelos da filha e resmungavam palavras ininteligíveis, mas para o dotado de agudeza de espírito, lia nos lábios que eles clamavam por justiça e queriam entender o motivo de tanta maldade, de tanta brutalidade, de tanta desumanidade.
20 dias depois:
- Eu não matei sua filha!!! – gritava o jovem Marcelo com as mãos e os pés amarrados no meio da noite em lugar deserto.
- A polícia diz que sim!
- É mentira! – recebeu um safanão na cara, mas continuou:
- Fui liberado pelo juiz por insuficiência de provas ou não?
- O seu advogado foi convincente. A polícia está no caminho... – começou enumerar as provas:
- As marcas de suas digitais estavam em vários lugares lá em casa, seu RG dentro de um dos livros de Raissa, o registro pelas câmaras da rua de sua entrada e saída de minha residência. Mais provas do que essas?
- Não nego que estive em sua casa naquele dia. Nós éramos colegas de faculdade, do curso de direito, fui lá para Raissa me orientar numa prova de Direito Penal, portanto, as minhas digitais estavam espalhadas por alguns lugares da casa, só não soube explicar para polícia o paradeiro do meu documento de identidade, quanto às câmaras, elas registraram a minha entrada em sua casa às 20 horas e minha saída antes das 22 horas, Raissa foi assassinada na madrugada daquele dia... – foi interrompido por Dimitri, irmão mais novo de Silas:
- Atire logo neste falastrão, Silas!
- Calma Dimitri, eu quero vê-lo bufar de medo, implorar pra não morrer, confessar por que matou minha filha, antes de seu último respiro!
- Não vou lhe implorar... Sou inocente!
- Não vai confessar nem pedir perdão!?
- Não! – levou uma bofetada de Dimitri.
- Assassinos! – selou sua morte.
Naquela noite:
- Como entrou aqui?
- Pela porta, claro!
- Nesta hora!?
- Vim pra te proteger!
- Deus é meu protetor!
- Mas, Ele não está aqui!
- Não blasfeme!
- Você não gosta de mim, não é?
- Não!
- Por quê?
- Você sabe a razão!
- Que tal unirmos os nossos corações?
- Saia daqui, filho do incesto!
- Se eu não saí?
- Chamo a polícia!
- Tu tens coragem?...
- Claro!
- Tu me dás um beijo antes da polícia chegar?...
- Verme! – Raissa pegou o celular, mas foi agarrada...
30 dias depois:
    A polícia civil e a polícia militar prenderam Silas e Dimitri numa operação conjunta, em suas residências, às 8 horas, em uma sexta feira 13, do mês de Janeiro de 2012, à Rua “X”, Brotas, cidade de Salvador. Não esboçaram resistência, o aparato policial foi uma satisfação para comunidade que rico, também, é punido.
    Diz a sabedoria popular que não existe crime perfeito, mas investigação ruim. A polícia descobriu o criminoso de Raissa pelo DNA de uma bituca de cigarro, algumas imagens distorcidas de uma câmara vizinha, mas o desfecho foi o depoimento de um casal do prédio em frente à casa do pastor que conhecia Dimitri desde rapaz. Na casa do sem jeito, ele destrinchou toda história e justificou que a matou sem querer, algo tomou conta do seu corpo e o deixou insensato, fora de si.
    Silas não tomou como surpresa sua prisão. Fazia algum tempo que a polícia rondava discretamente sua casa. A morte de Marcelo deixou a sociedade soteropolitana revoltada! O rapaz era muito querido, o povo baiano clamava justiça, só a prisão do assassino ou dos assassinos, arrefecia os ânimos exaltados.
    Surpresa e revolta foi quando Silas soube do verdadeiro assassino de sua filha. Chorou como criança na delegacia. Jamais perdoaria seu irmão nem se perdoaria, pois sujou as mãos de sangue inocente.
    Nada justificaria sua barbárie, mas a morte brutal da filha deixou Silas Petrov cheio de ódio e desejo de vingança. Dimitri usou esse ódio para destruí-lo mais uma vez, primeiro a morte da filha, depois foi decisivo na morte de Marcelo. Silas não se deu conta que justiça feita ao arrepio da lei, pelas próprias mãos, deixa o justiceiro refém da ilegalidade, ele não é menos criminoso do que aquele que cometeu crueldade e perversidade intoleráveis.
    A justiça é a saída para todos os males da conduta humana, sem a prática da justiça, o homem é primitivo.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
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Carta para Amanda - R. Santana

 

Carta para Amanda R. Santana
Carta para Amanda
R. Santana

Querida amiga:

Recebi sua cartinha carinhosa e cheia de elogios que a humildade e a prudência me impedem de divulgá-la na integra, porém, sem os afáveis e não merecidos adjetivos, não vejo motivo de não lhe responder, pelo menos, parte de sua cartinha. Não cuide que não lhe goste, que não lhe tenha um afeto maior que a minha querida cidade de Itabuna, que não lhe queira bem, é que o seu amor por mim, impede-lhe de enxergar os meus obstinados defeitos, aí, os seus elogios me deixam sem jeito.
Se eu estou bem de saúde? Claro que estou bem, prova disto, estou lhe respondendo quase tudo que me perguntou, mas lhe sou sincero ao afirmar que o homem deveria viver no máximo 35 anos e se gozasse de saúde. É pouco tempo? Não, minha amiga, veja os homens que marcaram a História e viveram menos do que 35 anos de vida: Alexandre, o Grande, Jesus Cristo, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Mozart, Noel Rosa... Trinta cinco anos, o homem está no ápice de sua atividade física e mental.
Vejo como hipocrisia alguém falar da velhice como a “melhor idade” se a velhice é a idade da dor aqui e acolá, a idade mal de Alzheimer, da diabetes, da hipertensão, do mal de Parkinson e doutras patologias geriátricas, além do velho ser por toda vida refém de remédios. Vida boa, minha amiga, é aquela que se vive em abundância!...
Querida Amanda, certa feita um médico me disse que o remédio é uma necessidade, é importante morrer com dignidade... Para mim, digna é a morte de um jovem pilotando um Fórmula 1 (razão de sua vida), do que um velho que morre entubado de remédios numa UTI para não sentir dor. O remédio para o idoso, minha amiga, é como se alguém consertasse um carro velho, conserta-se o câmbio, degringola a embreagem, solda-se o radiador, o sistema de temperatura não resiste.
Porém, minha amiga, quando tu me perguntas (olhe como estou esnobe, o verbo na 2ª. pessoa...), se ainda sou católico, tomo como uma provocação: “Quo vadis domine?”, não poderei responder como Jesus Cristo, que respondeu ao apóstolo que fugia para não ser queimado por Nero, imperador romano: “Já que abandonaste o meu povo, vou a Roma para ser crucificado, outra vez”, sou católico.
O bom cristão nunca fica pulando de galho em galho. Hoje, que as garagens deixaram de guardar os carros para servirem de sala para um novo pastor, bem faz quem é fiel à igreja fundada por Jesus Cristo. Conheço-te, sei que vais me recriminar, tu vais alegar que é melhor abrir uma “igreja” todo dia, do que uma cadeia, porém, não sei qual é o mal maior: aquele que explora a fé dos incautos, ou, aquele que se deixa arrastar na vereda do pecado? Tu és inteligente, tens a retórica e a lógica no sangue, tu deves discernir com precisão o que é melhor para o homem.
Querida Amanda, a igreja de Roma, ao longo desses XX Séculos, cometeu vários acertos e muitos equívocos, mas não é à toa que é a única igreja que está em pé depois de 2000 anos. O cisma provocado por Lutero e Calvino, não lhe foi tão prejudicial quanto essa enxurrada, hoje, de denominações religiosas, onde picaretas, charlatães, falsos apóstolos e falsos pastores oferecem curas milagrosas, aproveitando-se do desespero de pessoas simples e ingênuas e amealhando riquezas espúrias.
Acho que a igreja católica está em crise de vocação. Os nossos sacerdotes, com algumas exceções, não possuem preparo intelectual nem vocação religiosa para exercerem bem os seus ministérios, são pálidas figuras que não têm autoridade nem liderança para arrebanhar mais ovelhas, deveriam possuir, pelo menos, a ousadia protestante para aliciar novos seguidores. Suas homilias não cativam nem atraem...
Os ritos católicos pecam pelo tempo, embasados em releituras bíblicas desde São Paulo e São Pedro, se não fossem alguns sacramentos como a eucaristia, o batismo, a unção dos enfermos e o matrimônio, afora, a música e a mídia, a debandada dos fiéis para essas igrejas de porta de garagem, dos falsos curadores, seria maior.
Minha amiga, tu és a rainha da tentação, quisestes saber, também, se eu gosto do novo padre, tu sabes que não tenho papas na língua, que peco pela franqueza, ademais, a igreja não tem mais tribunais de inquisição, temos um estado democrático de direito, nem a ABIN tem subsidos para molestar o cidadão direito. Ademais, os bispos atuais, têm outra mentalidade e não poderiam ser diferentes, os meios rápidos e modernos de comunicação, escancaram para o mundo os deslizes, as truculências e o autoritarismo das autoridades em tempo recorde, por isto, responder-te-ei a seguir, as entrelinhas da tua capciosa curiosidade.
Não gosto nem desgosto do nosso padre, para mim, ele não fede nem cheira, ele não me diminui nem me acrescenta, é uma pessoa inteligente, mas desprovido de carisma, sem grande vôo, acho que não irá passar de pároco, seu discurso evangélico é igual resma de papel pardo, grande e amarelo! Esta semana, ele estava uma arara, se enrolou numa fábula, quis mandar um recado para alguém que o critica, disse que ignora os seus desafetos - não aprendeu a lição de Jesus Cristo, que mandou perdoar setenta vezes sete, ainda mais, na Semana Santa...
Espero nunca ser um infausto para ti, pois a nossa benquerença não é virtual, a nossa amizade não foi construída em falsa dialética, tu nunca serás decepcionada por mim, soubestes sempre aceitar as minhas qualidades e tolerar os meus defeitos.

Do teu amigo, que te preza e estima,

Rilvan Batista de Santana


Carta para Sheila - R. Santana

 

Carta para Sheila- R. Santana
Carta para Sheila
R. Santana
Estimada amiga Sheila:

Recebi sua amável carta, afora os seus elogios (suspeitos por causa de nossa amizade) às minhas produções literárias, sua carta transmite sabedoria e bom senso, embora bom senso não seja atributo de todos os homens, todos os homens gabam-se possuir, conforme o filósofo francês René Descartes, por outro lado, enquanto se aprende o saber nos livros, a sabedoria consolida-se com os erros e os acertos da vida, com o tempo.
Querida amiga, diz a sabedoria popular que “cada pessoa, em seu canto, chora o seu pranto”. Não tenho sido feliz nas minhas amizades. Sou um homem probo, solidário, sensível, discreto, por isto, não consigo caminhar em terreno movediço, viciado, onde o egoísmo, a ingratidão, a infidelidade, a falsidade e os desvios de conduta chafurdam a nossa sociedade. Não sou puritano, mas não transgrido os meus princípios morais e intelectuais para obtenção de reconhecimento público passageiro.
Dentre muitos defeitos que tenho, o maior é acreditar no ser humano sem questionar, no ser humano despido de defeitos e repleto de qualidades, não pergunto se o sujeito é do bem ou do mal, ou, apenas quer usufruir da minha amizade. Se tivesse o brilho intelectual do ex-presidente Fernando Henrique, eu pediria aos meus conterrâneos que rasgassem as cartas abertas elogiosas que escrevi para certas pessoas que descobri depois que não valem os excrementos de um gato capado.
Querida amiga, eu já fui chamado de desonesto, achacador, chantagista, por gente que tinha como amiga. Sempre usei o caminho difícil da honestidade e da moralidade, jamais gozei de nada que não fosse suado e adquirido com dificuldade. Nunca recebi as coisas de mão beijada, sempre trabalhei para consegui-las.
Em algum trecho de sua carta, eu li: “... a literatura do Sul da Bahia é de qualidade sem Adonias e Jorge?” Sim! A nossa região do cacau é um celeiro de bons ficcionistas, escritores e poetas, todavia, alguns charlatões brotam como plantas daninhas na comunidade literária. Hoje, todo mundo se arvora em fazer poesia e escrever texto repetitivo de autoajuda e se autodenomina de escritor ou poeta. O verso livre contribuiu para que futilidade seja poesia e texto de autoajuda arte.
Sheila gostaria que me informasse as novidades da terra de Tobias Barreto, Gilberto Amado, Hermes Fontes, João Freire, Lourival Fontes, Ilma Fontes, dentre outros? Sei que aqui como lá, os picaretas, os pseudo-escritores, os pseudopoetas e os charlatões enchem as páginas de jornais, revistas, redes sociais, com falsas notícias literárias pessoais. Essa gente, querida Sheila, não possui autocrítica ou pensa que as pessoas não sabem discernir alhos de bugalhos, subliteratura de literatura.

Sem falsa modéstia, não me considero escritor, eu escrevo por hobby, ciente que a maioria do que produzo o destino será o lixo eletrônico ou a cesta de papel. Não possuo a força da criatividade nem o conhecimento dos nossos renomados escritores. Talvez, algum dia serei lembrado pela comunidade não como escritor, mas como um amante das artes.
Não tenho a obsessão de Euclides da Cunha que tinha medo não ser lembrado pela posteridade. Sua preocupação não era justificável, pois havia produzido a maior saga da história brasileira em “Os Sertões”. Não produzi nada de relevante até agora, nem produzirei por falta de talento e tempo, portanto, o meu esquecimento será consequência e não causa.
Enfim, querida amiga, o relógio de parede marca 3:30h, o dia está vindo, tenho necessidade de aproveitar o resto da noite e dormir mais um pouco, oportunamente, discutiremos o que faltou nesta missiva e o papo ficará em dia.

Do teu amigo, que te preza e estima,
Rilvan Batista de Santana

O triste fim do homem - R. Santana

 

O triste fim do homem - R. Santana
 

          Hoje, estimado leitor, estou completando mais uma era conforme a sabedoria octogenária de tio Pedro: “pobre não faz ano, faz era”. Ele tem razão, o pobre faz era (tempo), o rico faz aniversário que no linguajar popular significa: comemoração, festa suntuosa, presentes caríssimos, viagem, bacanal, etc. O pobre quando é querido, recebe os cumprimentos dos parentes achegados, da esposa, dos filhos e alguns telefonemas de amigos distantes que sempre encerram desejando saúde e muitos anos de vida. O pobre ousado coloca uma churrasqueira no quintal, algumas cervejas na geladeira e faz festa com gente de sua iguala.
          Mas leitor amigo, deixemos essas coisas pra lá porque não iremos mudar o mundo, pois “quem nasceu pra vintém nunca será tostão”, portanto, nos prendamos, somente, ao título desta crônica.
          O homem nasce, cresce, se moço não morre, velho não escapa, é a lei da vida, nada que se pense ou se fale muda esta realidade. Há séculos o homem repete: “Quem sou eu?”, “De onde vim?”, “Para onde vou?” e não encontra respostas necessárias que satisfaçam sua curiosidade. No V Século a. C, Sócrates usava com frequência a máxima de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Passamos pela vida e não nos conhecemos plenamente nem ao outro.
          O significado da vida sempre será discutível, tanto para o agnóstico, tanto para o ateu ou mesmo para o religioso, este não nega nem duvida de Deus, mas no recôndito do seu ser hesita entre a fé e o desconhecido. Não existe certeza de realidade além - túmulo, o desconhecido é nebuloso, o desconhecido dá medo, o desconhecido é estranho e sombrio assim como a morte. A morte em si não aterroriza, mas a hipótese provável de que não existe vida eterna, vida além-túmulo, que tudo será pó, é que dar medo.
          O suicida tem consciência que a vida não tem significado quando perde a fé nas promessas do mundo e o gosto de viver. Faz-se necessário esclarecer que o suicida é movido, também, por problemas de desestruturação da personalidade, falta de discernimento, perda da autoestima, depressão profunda, patologias da mente, todavia, muita gente tida como normal, vive por viver, sem objetivo material ou profissional, e não pratica o suicídio por falta de coragem ou formação religiosa arraigada.
          Quando jovem, o homem vê a morte e a velhice como realidades distantes, a morte não lhe ronda e a velhice é um futuro longínquo, sua elevada autoestima não dá lugar ao mau agouro, ao sentimento negativo, o jovem se sente o dono do mundo ou filho do dono. Se ele persegue um objetivo, mesmo que no caminho da vida encontre muitas pedras, ele o realiza.
          O homem não deseja outra coisa, senão a felicidade, grande é seu desapontamento quando descobre que a felicidade é relativa, não existe felicidade plena, mas momentos felizes, assim como a paz e o amor. Não se tem sossego o tempo todo e harmonia social sempre, nem se encontra disponível todo tempo o sentimento do amor, da benquerença, do desprendimento, da filantropia.
          Se o amor fosse cultivado por todos os homens como recomendação divina: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39), não haveria conflito social e a paz seria universal e a felicidade seria para sempre, mas “Lupus est homo homini non homo – Plauto”, popularizado depois por Thomas Hobbes: “Homo homini lupos”, que na linguagem do dia a dia, significa: “O homem é o lobo do homem”. O homem é mau, o homem é egoísta, se faz alguma coisa pelo seu próximo, faz movido pela promessa de recompensa divina ou gozo pessoal.
          A velhice é a idade de dor e sofrimento. Os eufemismos: “melhor idade”, “idade da experiência”, “terceira idade”, “coroa”, “idade da razão”, apenas, suavizam a derrota do homem perante a vida e a morte. A velhice é o cutelo que Deus usa para cortar as aspirações mais legítimas do homem e lembrar-lhe de sua finitude, de sua limitação física, de sua limitação moral e intelectual, que ele é matéria corruptível e à matéria retornará um dia.
          Por isso, a necessidade da religião – o ópio do povo de Karl Marx - para alimentar sua fé na ressurreição, na reencarnação, na promessa de um paraíso terrestre, esperança de vida eterna, pois se fosse alimentado desde cedo seu triste fim, que ele vai nadar, nadar, e, morrer na praia, que o valor da vida é subjetivo, que a vida é uma realidade tangível, o homem já teria virado pelo avesso este mundo setenta vezes sete.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Factoides políticos - R. Santana

 

Factoides políticos - R. Santana

 

     A política é uma atividade tão velha quanto à prostituição, todavia, faz-se justiça dizer que o político é um mal necessário. Aristóteles disse lá atrás (Século V a. C.), que “o homem é um animal político”, política é inerente ao homem, faz parte de sua natureza, o homem não é uma ilha e precisa se relacionar com o outro para sobreviver, além disto, política é a arte de bem governar os povos, toda atividade humana é permeada de política – política partidária, política educacional, política industrial, política de segregacionismo, política esportiva etc.
     Hoje, a atividade política partidária é estigmatizada, colocada em suspeição, confundida com desonestidade, com politicalha, porém, não deve ser generalizada, existe político comprometido com a coisa pública, honesto, desprendido de má fé, abnegado, que pensa no interesse comum e no bem do país. Não é temerário afirmar: se a situação política é ruim em todas as esferas de poder, pior seria se não houvesse a atividade política.
     Este texto não se presta denegrir ou achincalhar os políticos, mas prestar-lhes uma homenagem, trazendo à tona, algumas tiradas espirituosas e alguns factoides políticos. É evidente que se esta matéria fosse aprofundada, numa pesquisa séria, não seriam duas ou três laudas, mas vários tomos pela riqueza dos fatos e personalidade extravagante de muitos políticos.
     Ao adversário contundente, Getúlio Vargas dava-lhe uma embaixada num país distante. Sua assessoria era mestra em criar situações perigosas contra o caudilho e imputá-las aos adversários. Getúlio Vargas possuía habilidade política de adiar os interesses escusos dos amigos de conveniência e livrar-se dos adversários sem prejuízo de sua imagem de “pai dos pobres”.
     Um dos assessores de Getúlio Vargas o encontrou no banheiro fazendo a maior zoada com uma bacia e outros objetos de alumínio, preocupado, perguntou-lhe se podia ajudar, ele respondeu: “... estou tentando livrar-me de minha consciência, pois ela me aflige.” E, morreu idolatrado pelos pobres, pranteado pelos menos pobres, compreendido pelos ricos e lamentado pelos adversários e teve essa consciência quando escreveu em sua carta-testamento: “Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.
     Porém, o rei dos factoides foi César Maia no tempo que foi prefeito do Rio de Janeiro. Ele não saía da mídia com declarações controversas, polêmicas, situações comuns, tornavam-se factoides na imprensa escrita e televisada.
     Todavia, não se pode negar sua capacidade administrativa, foi prefeito por 12 anos no Rio de Janeiro, deputado federal e vereador, portanto, nem só de factoide vive o político, ele ainda é uma grande liderança política no estado fluminense, haja vista que influenciou na eleição de alguns amigos e do filho Rodrigo Maia.
     Outro político que usou de factoide à beça para se eleger prefeito e governador de São Paulo, é o deputado federal Paulo Maluf. É um dos políticos mais acusado de corrupção e desvios de dinheiro público, seu nome deu origem ao neologismo “malufar” que trocando em miúdo significa se apropriar da coisa pública ou praticar negociata. Contudo, justiça lhe faça: Maluf ainda não foi condenado por dolo no STF do dinheiro do povo, a maioria desses processos é de natureza política.
     O mineiro Pedro Aleixo tinha fama de espirituoso e quando foi vice-presidente da República, com a morte de repente do presidente Artur da Costa e Silva, constitucionalmente, ele teria de assumir a presidência do país, mas a Segunda Junta Militar o impediu de tomar posse e quando questionado por um telefonema de um famoso jornalista, fez-se de desentendido no primeiro momento e gracejou depois:
          - Doutor Pedro Aleixo, quando vai assumir a presidência?
          - Assu... mir... assu... mir... não estou... entende... fale!
          - O senhor assume a presidência com a morte do general?
          - Eu assumi!? Eu vou sumir!... – desligou o telefone.
     Dentre os mais espirituosos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lula para o povão, é o mais desprendido, o mais popular, quando presidente da República, na praia de Inema, Base Naval de Aratu, Salvador, deixou- se fotografar com uma caixa de isopor na cabeça, os moleques arteiro brincaram que o ex-presidente estava cheio de “manguaça”.
     Contudo não foi o primeiro factoide de Lula, certa feita foi flagrado fazendo pipi no jardim do palácio. Porém, o factoide que lhe rendeu mais notoriedade de pouco afeito aos livros, foi quando Lula, de óculos, terno e gravata, lia, circunspecto, um livro de cabeça pra baixo. Aí é demais!...
     O saudoso Antônio Carlos Magalhães foi o mais carismático dentre todos os governadores da Bahia até hoje. Não se sabe se movido pela fé ou proveito político, apoiou o sincretismo religioso baiano como ninguém, assíduo frequentador dos terreiros de candomblé e o primeiro a lavar as escadas da igreja de Nosso Senhor do Bonfim nos dias de festa em Salvador.
     ACM não perdia uma festa de Iemanjá, depois de jogar o balaio de flores, velas e perfumes para rainha do mar, saía abraçado com as baianas, seguido pelo povão, sob os olhares eletrônicos dos paparazzi tupiniquins e repórteres de todo o país. Ele não perdia a oportunidade de abraçar uma velha alquebrada pelo tempo, ou, beijar uma criança no colo da mãe, os gestos eram voluntários, mas intenção era planejada.
     Heitor Dias, advogado de quatro costados, político de mancheia, foi vereador e prefeito de Salvador e senador dos baianos nos idos de 1970, ficou célebre por suas tiradas demagógicas, dentre muitas, esta merece registro:
          - Rapaz como vai seu pai? Dê-lhe o meu abraço! – o rapaz ficou meio sem jeito, mas...
          - Senador, faz 20 anos que o meu pai morreu!
          - Morreu pra você, filho ingrato, para mim, ele continua vivo em meu coração!
     Aqui, no torrão itabunense e sul baiano, o saudoso José de Almeida Alcântara, prefeito nos anos 60, era mestre em produzir factoides, os demais políticos são de pouca cultura, alguns semianalfabetos, outros, de pouca imaginação.
     José de Almeida Alcântara foi prefeito de Itabuna por 02 (duas) vezes e deputado estadual da Bahia. Ele possuía um carisma inato, amado pelo pobre e admirado pelo rico. A meninada o chamava de seu “arranca”... Gostava de distribuir caramelos aos pacotes à molecada. Quando chegava numa casa por mais pobre que fosse, adentrava na sala e ia tomar café na cozinha só para prestigiar o dono da casa e tornar-se igual. Seus comícios eram feitos em cima de carroceria de caminhão, não havia showmícios. O transporte do povo era feito em caminhões, carroças, e ônibus fretado pelos seus seguidores fanáticos.
     Naquela época, a corrupção eleitoral era praxe, o poder econômico prevalecia na eleição, mais voto tinha quem mais recurso financeiro tivesse, Alcântara não usava deste expediente eleitoreiro para se eleger, não tinha necessidade, seu eleitor tomava o dinheiro do rico e votava nele que não possuía lá esses recursos.
     Seus desprendimentos viraram folclores, conta-se que certa feita, um rapaz pediu-lhe um sapato pra casar, sem condição de atendê-lo de imediato e pela necessidade do outro, ficou descalço e deu o sapato ao noivo. Doutra feita, usou o dinheiro da coletoria (antes de prefeito foi coletor estadual) para socorrer com alimentos e cobertores os desabrigados duma grande enchente em Itapé
     Alcântara morreu nos braços do povo, vítima de um AVC, no meio do seu segundo mandato de prefeito. Foi o maior acontecimento fúnebre da cidade e do Sul da Bahia, naquela época, milhares de pessoas velaram-no e outro tanto acompanhou o seu sepultamento. Mesmo depois de morto, foi notícia muito tempo um incidente que ocorreu: na salva de tiros que se faz para as autoridades, um gaiato no meio do povo, gritou “o homem ressuscitou”, foi gente espirrando por todos os lados, muitos foram socorridos no hospital pela gravidade.
     Outro político tupiniquim que será lembrado pela posteridade será o ex-prefeito Fernando Gomes, tanto pelo seu tino administrativo quanto pela sua ignorância do português. Foi prefeito de Itabuna 4 vezes e deputado federal 2 vezes, com votação expressiva.
     Quando começou na política, mencionava como trunfo administrativo e mudança de vida, ter sido vaqueiro e se tornado um grande pecuarista e cacauicultor. No início não queria ser político, depois tomou gosto quando foi prefeito pela primeira vez indicado por José Oduque Teixeira.
     Fernando Gomes virou folclore pelo uso incorreto do idioma, logo, deram-lhe o apodo de “Fernando Cuma”, os entendidos em marketing, afirmam que é um artifício para não sair da boca do povo, ou seja, “fale mal, mas fale de mim”.
     O seu cabeleireiro, rapaz debochado, fez uma aposta com seu colega de trabalho que em cinco palavras, ele erraria quatro, não deu outra, na oportunidade que surgiu quando ele foi fazer o cabelo e a barba, na fase da barba, o cabelereiro provocou:
          - O de sempre prefeito?
          - Cuma?
          - O senhor não gosta de creme de barbear, não é?
          - Sim. Moie, arcool e tarcol! – aposta ganha.
     Porém, justiça lhe faça, foi um dos melhores prefeitos, tanto quanto Lula, fez muita coisa pela educação e esporte de Itabuna.

 



Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

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