11.07.2025

Itabuna sempre - R. Santana

 

Itabuna sempre
R. Santana

  

     Gente deveria ser igual cidade que o tempo não destroi, mas constroi. O homem quando nasce, nasce bonito, se velho morre, morre pelancudo, murcho, desdentado, envergado, calvo, pele enferrujada, dor aqui, dor acolá, o tempo não perdoa... A cidade nasce com ruas tortas e estreitas, caminhos, casebres de taipas, de adobes, de tijolinhos, esgoto a céu aberto, iluminação precária ou sem iluminação, abastecimento de água improvisado, etc., etc., porém, à medida que o tempo passa, torna-se arquitetada, bonita, atraente, confortável, iluminada, ruas largas, água na torneira, casas planejadas, prédios, arranha-céus, transportes de massa, escolas, postos de saúde, hospitais, segurança pública, justiça, assim ocorreu em Paris, em Londres, em Roma, em Jerusalém, em Washington e em Itabuna.
     Itabuna nasceu às margens do rio Cachoeira sob os olhares dos índios aimorés, tupis, tupiniquins e a força econômica dos tropeiros que faziam passagem para Vitória da Conquista na rancharia “Pouso das Tropas” na Burundanga, de José Firmino Alves. O sobrinho do cacauicultor Félix Severino do Amor Divino e filho de José Alves, Firmino Alves, foi o verdadeiro fundador de Itabuna, em 1906 ele doou as terras para sede administrativa do município, antes foi o Arraial de Tabocas, Vila, enfim, Itabuna, desmembrada de Ilhéus em 28 de Julho de 1910 e seu primeiro prefeito o engenheiro Olynto Batista Leone um dos apaniguados do coronel do cacau e político Firmino Alves.
     O historiador Adelindo Kfoury registra que Firmino Alves não foi somente um grande fazendeiro, um coronel do cacau, tanto quantos muitos de sua época, mas um homem de excepcional capacidade administrativa, ainda jovem, com a morte do seu pai, mudou-se de Burundanga para o Arraial de Tabocas e construiu na Rua da Areia (Miguel Calmon), uma moradia suntuosa para os padrões da época e um armazém de cacau.
     Firmino Alves além de empreendedor, foi um político de quatro costados, desde cedo, articulou junto às autoridades do estado a independência de Itabuna. Alguns anos antes do desmembramento de Ilhéus, Itabuna ainda Vila de 10.000 habitantes, estimulou a vinda de profissionais qualificados, em pouco tempo, engenheiros, médicos, professores, agrônomos, topógrafos, agrimensores, dentre outros profissionais, desembarcaram aqui com a promessa de um novo El Dorado.
     Hoje, Itabuna não lembra de longe o Arraial de Tabocas, não é uma metrópole, mas é uma cidade grande: comércio forte, indústria incipiente, agricultura doméstica, sistema de saúde significativo, escolas para todas as faixas de idade, faculdades privadas, universidade, centro administrativo, bom sistema de segurança pública, justiça que atende às demandas, transporte de massa satisfatório, infraestrutura em expansão, ruas e avenidas asfaltadas, arquitetura moderna, uma frota significativa de automóveis e dezenas de bairros em torno.
     Porém, a marca principal de Itabuna é o seu povo. Itabuna foi construída por gente simples e ordeira que migrou de outros estados do Nordeste, principalmente, o estado de Sergipe. O itabunense é alegre, bondoso, solidário, prestativo, acolhedor, trabalhador e inteligente. Não é à toa que o forasteiro não se sente forasteiro pouco depois que chega a este pedaço de terra do Sul da Bahia.
     A cultura itabunense tem atuação expressiva no cenário nacional. Os nossos poetas, os nossos escritores e os nossos artistas são reconhecidos aqui e lá fora. Não se pode negar a contribuição às letras e às artes de Itabuna, de Jorge Amado, Valdelice Pinheiro, Firmino Rocha, Hélio Pólvora, Cyro de Mattos, Telmo Padilha, Plínio de Almeida, Minelvino Francisco Silva, Walter Moreira, José Bastos, José Dantas de Andrade, Adelindo Kfoury, Jorge Araújo, Ruy Póvoas e tantos outros que a memória e o tempo impedem-me de nomeá-los, mas, eles não têm contribuição menor.
     No próximo 28 de Julho, Itabuna completará mais de cem anos de cidade, uma adolescente comparada às suas irmãs de milênios! Mais de cem anos de acolhimento aos seus filhos aqui gerados e aos seus filhos adotados. Mais de cem anos de luta, de intempéries, de espoliações, de estagnação, mas, também de desenvolvimento, de alegrias e vitórias.
     Itabuna mãe, madrasta, amiga, Itabuna sempre.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons (Recanto das Letras)

Membro da Academia de Letras de Itabuna

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O pequeno cajueiro - R. Santana

 

O pequeno cajueiro
 R. Santana


     Ele tinha um pouco menos de três metros de altura, aliás, sua altura não passa de palpite, apenas, sabíamos que dentre todos os cajueiros da chácara, o nosso era o menor, o mais aconchegante, o mais estimado, aquele que alimentava as nossas fantasias, os nossos sonhos, as minhas esperanças e as esperanças da minha prima Gilcélia, às vezes, passávamos a tarde ou a manhã embaixo do cajueiro brincando de “casinha”, de “médico”, de “carrinho de madeira”, de “boneca”, então, trepado nele gozando a paisagem, ou, trotando-o como um cavalo, o cajueiro parecia gostar de nossas brincadeiras, o cajueiro parecia gostar de dois pirralhas de 8 e 9 anos de idade.
     O nosso pequeno cajueiro nasceu na chácara do meu avô João Zabelinha, cresceu lá e ainda está lá no Coqueiro, na cidade sergipana de Lagarto. Hoje, ele está maior e mais robusto, mesmo com o tempo, não perdeu o viço e a boniteza: frondoso, tronco forte, rijo, galhos compridos, brotos que nascem ao redor, folhas esverdeadas, amareladas e avermelhadas.
     No inverno chorava sempre e as lágrimas escorriam em suas folhas. No outono, ele curtia a temperatura amena, mas amarelava de medo de perder essa temperatura suave; vinha o verão, ficava irrequieto, ardiloso, vivo, alegre e provocante, e quando a primavera chegava, abria-se para vida e reflorescia e brotava vida por todos os lados e sorria pra natureza.
     O sol sinalizava meio dia e Gilcélia, arteira, improvisava o nosso almoço embaixo do nosso pequeno cajueiro: os pratos de esmalte, as colheres, os garfos e o feijão eram trazidos de sua casa; a farinha, o arroz, a carne e a cabaça de água potável eram trazidas da casa do meu avô, a minha casa. Depois do almoço, refestelávamo-nos no seu tronco e com voz desafinada, nós cantávamos “Cajueiro” de Jackson do Pandeiro:

          Cajueiro
          Cajueiro, êê, cajueiro ê-á
          Cajueiro pequenino
          Todo enfeitado de flor
          Eu também sou pequenino
          Carregadinho de amor.

          Tradicional cajueiro
          Dos meus avós traz lembrança
          Testemunha evocativa
          Dos meus tempos de criança.

          O cajueiro não dá coco
          Coqueiro não dá limão
          O amor quando é de gosto
          Não produz ingratidão.


     Cenário de festa contemplado lá de cima pelo nosso pequeno cajueiro, talvez a gozar de nossas invencionices, de nossas estripulias, do nosso amor, das nossas vozes desafinadas, de nossa ingenuidade, de nossa inocência... Eu batia o pé que nosso amigo entendia-me, Gilcélia me chamava de maluco, então, na casa do sem jeito, eu a desafiava:
     - Eu vou lhe pedir o maior caju... – ela interrompeu-me:
     - O quê? Tu estás maluco, onde já se viu o cajueiro lhe dá caju? – não me fiz de rogado:
     - Meu pequeno cajueiro! Meu pequeno cajueiro! Meu pequeno cajueiro manda um caju pra mim! – não se sabe se coincidência, o caju despencava no chão.
     Ó Deus! Ó Deus! Quê razão Tu fizeste de mim um homem? Porque Tu não me deixaste menino? O tempo não recua e os momentos de felicidade também, já que não sou mais menino, Vós não apagues de minha alma esses momentos de criança e permita que minha alma goze essas recordações sempre! Que elas sejam eternas enquanto um sopro de vida me restar!...



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Guriatã, o intérprete (II) - R. Santana



Guriatã, o intérprete (II)

R. Santana 
 

     Os poetas cantaram muito em seus versos o sabiá, o bem-te-vi, o zabelê, o curió, o beija-flor, o colibri, asa-branca, pombo-correio, pássaro-preto, rouxinol, mas eles foram um pouco injusto com o único intérprete da mata, para uns, guriatã, gurinhatã, guriatã-de-coqueiro; para outros, tico-tico-do-campo, gaturamo e baíra-amarela e para o douto: “Euphonia violacea”, Ammodramus humeraralis”, “Tangara cayana”, a mim que não sou doutor nem regionalista: “Guriatã, o intérprete”, pois o pequenino pássaro, o cantor da orla e da mata, imita com perfeição todos os outros.
     Em 1610, o padre português Jacome Monteiro, escreve ao rei de Portugal: “É o pássaro mais músico de quanto há nesta Província, porque arremeda a todos os mais, e por isso o chamaram de “guiranheenguetá”, que quer dizer pássaro que fala todas as línguas de todos os mais pássaros”. São mui prezados. Estes são os que de ordinário se conservam cá em gaiolas”.
     Moleques, nós embrenhávamos nas matas do cacau com gaiola de talas de bambu ou gaiolas de cortiça e taquara, pendurada no dedo ou na palma de uma das mãos e alçapão na outra. Quando não tínhamos dinheiro para comprar alçapão, lambuzávamos um galho com visgo de jaca com iscas de banana, milho ou milho-alpiste, escondíamos à distância, não levava muito tempo, o passarinho esperneava-se grudado no visgo pedindo socorro!...
     Naquela época, os moleques se dividiam em grupo de ideias de gente grande e o grupo de amadores. O grupo mais profissional, o de gente grande, só criava curió, canário, pássaro preto, sabiá; o outro, o amador, que valorizava o prazer, o divertimento, a brincadeira e não o dinheiro, pegava o pintassilgo, a rolinha, o bem-te-vi, o sanhaço e o guriatã... caiu na rede era peixe, minto, caiu no alçapão era passarinho...
     Não me incomodava com a sujeira (cocô) que o guriatã fazia na gaiola, a minha mãe Judite é que não ficava prosa, porém, o seu canto quebrantava-lhe o ânimo. Se por descuido a gaiola aberta e o guriatã batesse asas, ela rendia homenagem ao pássaro, cantarolando a composição “Guriatã de Coqueiro” de Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho, cantor e compositor paraibano da dupla Jararaca e Ratinho de tempos idos:
     “... Eu não sei por que motivo
     Guriatã foi-se embora
     Foi-se embora e me deixou
     Também a minha viola
     Companheira inseparável
     Que minha mágoa consola”

Porém, se a minha intrusa peraltice invadisse esse momento, corrigia-a para distante ouvir a minha musa, a minha tia, a mulher que me criou voltar a cantarolar:
     “...Vou fazer uma promessa
     Ao meu santo protetor
     Pra fazer ele voltar
     Esse pássaro cantador
     Pra alegria do meu rancho
     Que nunca mais se alegrou”,

     Hoje, os tempos se foram, os cabelos loiros encaneceram, mas no espírito o moleque permanece, também, os cuidados daquela avezinha de muitos cantos, de penas de azul escuro brilhante em cima e penas amarelas ao longo do corpo e na fronte da cabecinha, uma coroinha de penugens cor de ouro que Deus colocou, longe no tempo, ouço viva a voz de minha mãe Judite:
     “Guriatã de coqueiro
     Bateu asas e foi-se embora...”


Autor: Rilvan Batista de Santana
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O silêncio - R. Santana



O silêncio - R. Santana

 

     Bronca é arma de trouxa. Tudo que o desafeto quer de alguém é o seu descontrole emocional, isto lhe dará subsídios para novas investidas, novas difamações, novas tergiversações dos fatos, culminando, às vezes, com agressões físicas e/ou morais. Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, sustentava que “uma mentira repetida ganha foro de verdade”, pois desconstruir uma falsidade que o povo tomou como verdade, é humanamente impossível, talvez, o tempo seja o senhor da razão e a verdade prevaleça.
     O silêncio incomoda, não é à toa que a presidente Dilma Rousseff disse diante dos últimos movimentos populares antigovernistas: “preferimos o barulho das vozes na democracia ao silêncio oprimido das falas escondidas...”. Aqui, o silêncio incomoda porque deixa os detentores do poder em polvorosa sem saber qual o próximo passo de quem em silêncio está detrás dos acontecimentos. Conhece-se o grito da turba, todavia, desconhece-se a vontade dos que estão em silêncio.
     O mau caráter por mais que diga: “olhe minha cara de preocupado...”, “não estou nem aí...”, “estou me lixando...”, intimamente, ele reprime o sentimento de ódio, de raiva, de decepção, de frustração, ante a força do silêncio, porque o substrato de sua maldade é o descontrole emocional do seu desafeto, de seu inimigo, de seu adversário de “pavio curto”, se lhe é negado esse material, ele não terá condições de urdir novas aleivosias, falsas acusações, mentiras e deslealdades.
     Sábio é o homem que exercita a arte de ouvir mais do que a arte de falar. A sabedoria popular diz: “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”, isto é, quem fala pelos cotovelos não pensa... Poucos na História da Humanidade dominaram tão bem a arte de falar da mesma forma que o romano Cícero e o grego Demóstenes ou dominaram a arte de ouvir como Sócrates e Aristóteles.
     O vulgo diz: “Deus deu-nos dois ouvidos e uma boca, se Ele quisesse que falássemos mais e ouvíssemos menos, seria o contrário”. O homem comum tem razão, é que a arte de ouvir é mais difícil do que a arte de falar, saber ouvir mais do que falar, exige paciência, disciplina e sabedoria, quem ouve muito e fala pouco, é justo em seu juízo.
     O juiz, agente do poder judiciário, talvez seja o profissional mais treinado para ouvir mais do que falar. Sua função é administrar conflitos e conciliar os interesses das partes em demanda, promover a dignidade humana e a paz social, portanto, ele tem como condição sine qua non, a imparcialidade, ou seja, agir mais e não manifestar sua opinião, salvo, à luz do processo: o silêncio é o seu refúgio.
     Dentre os cônjuges, a mulher usa mais a língua e a emoção para resolver seus problemas e não o muque. O homem usa o muque, porém, é mais introspectivo, mais reflexivo, geralmente, o homem se esconde no silêncio para suportar a tagarelice feminina e quando ele usa com competência o silêncio como resposta, sua relação conjugal é mais duradoura e o amor é eterno enquanto dure.
     Faz-se necessário dizer que silencio não é, somente, ausência de voz, ausência de ruído, ausência de som, mas várias atitudes sistemáticas. O silencio é um comportamento que se impõe pelo argumento da fala contida. O silêncio também não se caracteriza por atitude isolada, aleatória, não pensada, automatizada, mas por um conjunto de atos refletidos. Se alguém grita a ermo, sem significado, o outro pode tampar os ouvidos, contudo, não lhe dará a resposta do silêncio.
     A arte do silêncio, também, pode ser nociva e destruidora. Quantas vidas já foram ceifadas por governos discricionários, justiceiros, bandidos e pessoas más, perpetradas na calada da noite, ao longo da História? Um-sem número de mortes!... Conta-se que Joseph Stálin era um homem taciturno, ouvia mais que falava, notabilizou-se pelo sangue que derramou dos adversários e pela dureza do seu governo na Segunda Guerra Mundial e após na Guerra Fria com os Estados Unidos e os países não alinhados com Moscou.
     Todavia, para as dissensões cotidianas, para as futricas de maricas, para as contendas do dia a dia, para as atitudes rasteiras, para as atitudes medíocres, o silêncio é a melhor resposta.



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

 

Os pequerruchos - R. Santana

 


Os pequerruchos

R. Santana

 

     O mais velho tem 5 anos de idade, o do meio 4 anos de idade e, o mais novo um pouco mais de 3 anos de vida, não são irmãos, mas como se fossem irmãos, eles são amiguinhos, quando um deles falta, enorme é o vazio aqui em casa. Todos me chamam de vô, pois imitam o meu neto João Victor, além de me acharem velho: - cara e idade de vô.
     João Victor, Juan e Davi estudam à tarde, toda zoada é feita pela manhã e em dias feriados e finais de semana, levo-os para passear de bicicleta na Beira Rio ou brincarem no “Zig-Zag Play” no Shopping Jequitibá. A molecada se diverte numa boa, vez por outra, eles se desentendem por motivos banais, mas nunca chegam às vias de fato.
     Três almas gêmeas e feitios diferentes: João Victor é líder nato, todos o seguem naturalmente, sem autoritarismo, mas pelo caráter decidido; Juan é delicado, natureza boa, quando crescer, certamente, será um “gentleman” com as moças, não demostra nenhum grau de agressividade, quando contrariado não reage, chora; não sei se é por ser o mais velho; Davi é turrão, teimoso, perspicaz e inteligente, todavia, quando não se junta aos demais, as brincadeiras não têm graça, João Victor e Juan aguardam sua presença.
     Quando João Victor começou falar, mesmo antes, eu adquiri dezenas de DVDs: Galinha Pintadinha, Patati Patatá, Tubarão Martelo, Peppa Pig, Dora y sus amigos, Vão à África, Cocoricó, Moranguinho, A Mulekada, Bob Esponja, Super Mouse... Quando o nível de compreensão da molecada exigiu histórias e musicais infantis mais complexos, acrescentei à coleção de CDs e DVDs: Sítio do Pica Pau Amarelo, Superman, Chaves (Chapolin Colorado), XUXA, Scooby-Doo, Ben 10, Pegadinhas do sbt, Homem Aranha, 3 Porquinhos e um Bebê, Atchim & Espirro, Topetão, etc., etc.
     João Victor é quem decide a programação do dia e quando uma história está enjoada, ele me pede pra mudar:
     -Vozinho, não gosto da Escolinha do professor Raimundo... – então:
     -Vozinho, JacarElvis é enjoado! – aí, Juan e Davi interferem:
     -Victinho, bota Chaves e Chapolin Colorado! – manda quem pode e obedece quem tem juízo, substituo de imediato o DVD de JacarElvis por Chaves.
     Chaves é uma comédia para gente grande interpretada por adultos travestidos de criança que caiu no gosto da molecada do mundo todo faz tempo. Chaves (Roberto Gómez Bolaños) o principal personagem interage com Quico, Chiquinha, Seu Madruga, Dona Florinda, Dona Clotildes, Seu Barriga, professor Girafales e Nhonho, moradores de uma vila onde as experiências cotidianas são contadas.
     Como toda comédia, o objetivo é rir nos episódios de Chaves, não existe preocupação de passar mensagem, as histórias são fatos corriqueiros vividos por moradores destrambelhados da vila do Seu Barriga. É difícil conter os risos com o idiota Quico, Dona Clotilde (a Bruxa do 71), Chiquinha, o namoro do professor Girafales com Dona Florinda, Chaves com seu bordão “ninguém tem paciência comigo”, ou, “... foi sem querer, querendo”, mas quem rouba à cena, são os tapas que Dona Florinda dá em Seu Madruga por motivos banais, principalmente, quando seu amado e aloprado filho Quico é vítima do morador da casa 72 e abre o berreiro...
     Porém, o interesse dos pequerruchos por Chaves diminui à medida que as histórias se repetem, então, eles pedem Chapolin Colorado que é um herói à moda das histórias de Batman, Superman e Homem Aranha, mas ao contrário destes, Chapolin Colorado é baixinho, compleição física diminuta, vestido com casaco vermelho escarlate, e capuz da mesma cor, encimado por um par de antenas e calção amarelo, ele está mais para ET, do que para Super-Homem, aparece quando a mocinha em apuros clama: “... e agora, quem poderá me salvar?”, aí, Chapolin usa sua habilidade de enganar para desmanchar o malfeitor: “... não contavam com a minha astúcia”.
     Davi, o mais velho dos três, já não curte mais histórias adocicadas, puxa Victinho pelo braço e pede-lhe que me peça os DVDs de “Superman” ou “Os três Porquinhos e um Bebê”, pois Davi sabe que lhe faço o gosto:
     -Vozinho, Davi e Juan querem Superman e os Porquinhos! – argumento:
     -João Victor, essas histórias são difíceis... – Juan e Davi são os mediadores:
     -Vô, Victinho sabe, não é Juan? – Victinho aproveita o gancho:
     -Eu sei vozinho! – na casa do sem jeito, coloco os DVDs de “Superman” e “Os Três Porquinhos e um Bebê”.
     Embora o super-homem e os porquinhos sejam desenhos animados, versão moderna, eles são enredos para crianças mais velhas e adolescentes, não para os meus pequerruchos que ainda não têm entendimento para assisti-los, por isto, lhes faço a leitura à medida que a história vai se desenrolando.
     O Superman foi criado pelos escritores Joe Shuster e Jerry Siegel nos anos 30. Superman foi por muito interpretado pelo ator Clark Kent, coadjuvado pela atriz Lois Lane. Ambos são repórteres do ”Planeta Diário”. Lois Lane não sabe que o seu colega de trabalho é Superman, portanto, seu herói. Além da paixão oculta que alimenta pelo super-herói, ela o persegue o tempo todo para matéria exclusiva de seu jornal. Por outro lado, Superman lhe salva a vida em várias situações, mais por amor do que por heroísmo. Superman persegue a verdade e a justiça...
     A história dos “TRÊS PORQUINHOS E UM BEBÊ” é a versão moderna dos “TRÊS PORQUINHOS”, fábula do Século XVIII, divulgada na Inglaterra pelo folclorista Joseph Jacobs. A meninada se diverte com o fanfarrão Lobo Mau: “... eu vou soprar e vou bufar e a sua casa vou derrubar!” Então, o Lobo Mau derruba a casa de palha, a casa de madeira, mas não consegue derrubar a casa de tijolos. Através de um “Ponto Eletrônico”, ele recebe orientação por controle remoto da “Central Eletrônica de Comunicação” do Lobo Chefe para abortar a missão, além de não lhe atender, sobe na chaminé da casa dos porquinhos e morre assado.
     A matilha reunida resolve mudar o “modus operandi” que vinha se repetindo sem sucesso para matar os porquinhos Richard, Sandy e Mason, e, deixa na porta dos porquinhos um “pacote” que é um recém-nascido lobinho, com o propósito desse lobinho, depois de grande, ajudasse a matilha na captura e morte dos porquinhos.
O plano inicial da família lobo foi um sucesso: Richard, Sandy e Mason recolheram o “pacote”, deram-lhe o nome de Lucky e criaram o lobinho como se fosse um porquinho com muito amor.
     Lucky cresceu como um “estranho no ninho” na escola e na comunidade. Todos achavam-no peludo, uma aberração da natureza, nada parecido com os pais Richard, Sandy e Mason. Lucky cresceu mimado, adolescente difícil, soube quando jovem que era filho adotivo, teve álbum de família, então, procurou por sua família lobo.
     O Lobo Chefão fez um pacto com Lucky para que colocasse a chave de sua casa embaixo do capacho que seria dado uma festa aos seus pais adotivos na “Noite de Lua Cheia”, todavia, o objetivo era matar os porquinhos: o “Juízo Final”.
     Na hora agá, no momento que os três porquinhos estavam pendurados, um pouco acima duma caldeira de óleo fervendo, surge Lucky com uma moto e os arrebata e os salva. O Lobo Chefão aciona uma “engenhoca” para derrubar a casa de tijolos, mas Lucky coloca-se na frente da casa, em risco de morte. A ordem do Lobo Cientista era acionar os grandes ventiladores de sua engenhoca e destruir tudo, quando surge o Lobo Chefão, pai biológico de Lucky e ordena o abortamento da missão, que não é atendido, mas consegue a pulso parar a “engenhoca”.
     No final, a paz é celebrada entre as duas famílias, porquinhos e lobos ficaram amigos e felizes para sempre.
     -Vô, vamos brincar de bicicleta?
     -Vitinho, a história não terminou!
     -Vô, a história está enjoada... – aí, obedeço ao meu príncipe:
     -Vamos!

 


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna

 

Poeta amargurado - R. Santana

 


Poeta amargurado - R. Santana
 

     Encontrei Tanaguchi na Praça Olinto Leone no aniversário de Itabuna. Se algum curioso me perguntasse quem é Tanaguchi, lhe responderia que sei pouca coisa dele, não sei onde nasceu, não sei onde mora, não sei para aonde vai nem quando vem, sei, apenas, que ele é filósofo e sábio e pra mim, basta! Encontrei-o por acaso nessa praça absorto na leitura de Platão e de lá pra cá, quando os acasos nos prendem, tomo-o por meu guru e meu mestre.
     Se além de curioso, esse alguém for ardiloso, imputar-me a pecha de heterônimo, que Tanaguchi existe e não existe, assim como Álvaro Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro de Fernando Pessoa, que Tanaguchi é um velho desocupado da Praça Olinto Leone, que o travesti de filósofo e sábio, eu marcarei hora e local para que esse alguém conheça in loco esse homem simples e cheio de conhecimento.
     Naquele dia da cidade itabunense, sem nada pra fazer em casa, lá na praça o encontrei:
     - Bom dia, meu nobre representante da escolástica do Século XXI! – provoquei.
     - Não me provoque meu caro Narvil, este honroso título pertence aos aristotélicos São Tomás de Aquino e Santo Anselmo. Apenas, sou um leitor contumaz da filosofia grega, de Cristo, e, o tomismo... Mas, homem de Deus, que faz aqui neste lindo Sol de 105 anos de Itabuna?
     - Tirar umas caraminholas da cabeça...
     - Hum!
     - Foi o quê? Não acredita que estou cheio de pensamento desgrenhado?
     - Não!
     - Posso saber a razão?
     - Sua racionalidade!
     - Eu sou mais coração... Você é razão!
     - Bem, quais são suas caraminholas?
     - O homem faz verso por necessidade interior ou pra ser reconhecido?
     - O poeta faz arte, quem não é poeta faz verso!
     - Oxente!... Poesia não é feita de verso?
     - Sim, mas nem sempre é arte!
     - Explique!
     - A arte é um canto da alma, os versos vêm de dentro, só o poeta tem esse canto, quem não é poeta expressa versos sem arte, livres, sem preocupação estética, mais erudição do que inspiração... – fez uma pausa e completou:
     - Hoje, todo mundo faz poesia!
     - Meu caro Tanaguchi, se você condena versos livres, então você condena, por exemplo, vates como Drummond e Mário de Andrade?
     - Narvil ó Narvil, não se atira pérolas aos porcos, não se pode comparar o poeta do metafórico “No Meio do Caminho” e o líder do Modernismo brasileiro com essa enxurrada de pseudopoetas que fazem versos brancos e livres, ou seja, versos sem regras ou metade das regras, sem mensagem nem conteúdo estético!
     - O mesmo acontece com a prosa?
     - Não tanto quanto a poesia. O romance, pra começar, exige início, meio e fim. Além duma narrativa longa, vários personagens, cada personagem com identidade própria, enredo articulado, mistérios, suspenses, frases reticentes e habilidade do autor para conduzir o leitor da primeira à última página. Enquanto se faz um soneto com 14 versos e o poema, um pouco mais, a prosa é desenvolvida em dezenas de páginas, todavia, prosa e verso não dispensam talento. Não é verdade Narvil?
     - Sim! Mas, poesia e prosa são gêneros diferentes, mas não significa que um é mais fácil do que o outro, ambos são difíceis de elaborar, ás vezes, o mesmo autor tem mais aptidão pra prosa do que pra poesia, ou, vice-versa!
     - Concordo!
     - Mas, acredita que a proliferação de maus poetas é pela facilidade de produzir versos não convencionais, né?
     - Sim!
     - Justifique!
     - Ó Zeus, proteja-me da fúria deste questionador! Produzir textos com qualidade, não é fácil nem para o escritor nem para o poeta, contudo, é muito mais fácil fazer um livro dessas poesias que andam por aí, do que produzir um romance mesmo ruim, haja vista que aqui, um famoso poeta, depois de publicar muitos livros de poesia, publicou, agora, seu primeiro romance já na idade de descansar e produzir literatura... - deu-lhe uma tosse seca, depois que refez a respiração, continuou:
     - Acrescente-se que seu livro não teve nenhuma repercussão na comunidade e não foi abençoado pela crítica. Portanto, meu caro Narvil, eu não estou fazendo crítica graciosa, mas embasada em fatos, a proliferação desses pseudopoetas é um fato inquestionável!
     - Mestre Tanaguchi, romances e contos ruins, também inundam as livrarias e os sites?
     - Sim, mas o destino da subliteratura é o lixo ou os sebos. A lei de Darwin também vale para literatura, o leitor ajudado pela crítica é quem faz a seleção, porém, a literatura boa permanecerá sempre. Faz-se necessário esclarecer que não existe detrimento entre a prosa e o verso, ambos se completam. Alguns livros de prosa são verdadeiros poemas: qual a diferença entre um poema e o Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon e os diálogos socráticos de Platão? Nenhuma! Ou, a diferença entra a prosa e a obra poética, a epopeia portuguesa Os Lusíadas do poeta Luís Vaz de Camões? – Não deixei que Tanaguchi respondesse, pois de certa forma sabia sua resposta:
     - Não existe diferença, mestre Tanaguchi!...



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

O joio e o trigo - R. Santana

 


O joio e o trigo R. Santana

O joio e o trigo
R. Santana

Não podemos ser alheios à política, pois de acordo Aristóteles de Estagira, o “homem é um animal político”, não só partidária, mas política educacional, política de saúde, política de segurança, política de trabalho, política de convivência social, etc., etc. Política no mais amplo sentido do termo, grosso modo, tudo que o homem faz.
Hoje, quero falar de política partidária já que no próximo ano haverá eleição para prefeitos e vereadores em todo país. Aqui, na terra do cacau (mesmo com a vassoura de bruxa), os políticos começam se movimentar em busca de apoio e conchavos e a maioria usa o princípio que tudo é válido para se atingir o poder: “... em política não há amigos incondicionais nem inimigos irreconciliáveis”, por isto, os eleitores não entendem quando se juntam pessoas com projetos pessoais e administrativos inconciliáveis e caranguejeira e cavalo do cão.
Itabuna é a cidade da mesmice, políticos que se revezam há anos no poder em detrimento do seu desenvolvimento. A maior receita do Sul da Bahia: é uma cidade rica pobre... Os administradores públicos quando não se locupletam com os seus recursos, pecam pela incompetência, pela má gestão.
É uma cidade feia, suja, esburacada, maltratada, parques e jardins abandonados, rio fétido, sem opções de lazer, sem vida noturna, com indústrias incipientes, sem política empregatícia e comércio em crise. Quem chega aqui, trazido pela fama de áureos tempos do cacau, se decepciona a partir da entrada da cidade. Não possui um CEAGESP, as feiras-livres funcionam em condições precárias de higiene e saneamento, um repositório de ratos de esgoto e doenças infecto contagiosas.
Itabuna não possui teatro, salas de cinema, vila olímpica e estádio modernos (possui uns pardieiros com estes nomes), hospitais de ponta, centro de convenções e o órgão responsável pela sua cultura, pela sua arte, não passa de um cabide de emprego. Não existe uma política de turismo, o itabunense não tem nada para mostrar além da pobre Casa de Jorge Amado e sua estátua que já foi alvo dos vândalos.
Portanto, urge a necessidade de Itabuna escolher na próxima eleição, prefeito e vereadores que não sejam useiros e vezeiros na política itabunense, gente sem ranço velho, sem compromissos inconfessáveis, com ideias novas e sem histórico de malversação do dinheiro do povo. Dentre os pré-candidatos que estão aí para prefeito, o único que tem o perfil do novo, é o médico e empresário, Dr. Antônio Mangabeira Franca, Dr. Mangabeira.
Mangabeira não é político profissional, é um administrador moderno, pai exemplar, esposo dedicado, empresário generoso, solidário, e médico humanitário. Dr. Mangabeira não pretende tornar-se político profissional, mas prestar ao itabunense mais saúde, mais educação, mais moradia, mais transporte, mais infraestrutura e mais bem estar social com políticas públicas inteligentes voltadas para o povo.
Portanto, no próximo ano, o itabunense terá oportunidade de mudar os modelos políticos esgotados que vêm se repetindo ao longo dos anos e prejudicial para o nosso município, repeti-los será um retrocesso.
Seria leviandade afirmar que essas raposas políticas são más? Sim! Não são pessoas ruins, ruins são seus métodos administrativos obsoletos, ultrapassados. Alguns nunca administraram nem carro de pipoca, outros, usam experiências privadas para administrar a coisa pública, outros ainda, acham que se foi bom legislador, será bom executor, confundem alhos com bugalhos.
Hoje, além da prática e de bons assessores, o administrador moderno, necessita de formação profissional específica. O administrador público tem que possuir noção de legislação, finanças, economia, orçamento, receita e despesa, senão, será sucumbido pela incompetência e pela burocracia funcionais. Muitas contas públicas são rejeitadas pelos TCMs por incompetências de más assessorias, por falhas técnicas, e não por desvios de dinheiro público e superfaturamento das obras.
Dr. Mangabeira, afora idoneidade comprovada, médico hematologista e oncologista, zagueiro de futebol de várzea nos finais de semana e empresário, é bacharel em Direito, bacharel em administração, e, acadêmico do curso de engenharia civil, ou seja, preparou-se para ser prefeito ou executivo privado de alto escalão.
Todavia, ele é o maior adversário de si mesmo, porque não é demagogo, não é populista, jamais irá corromper consciências políticas, jamais irá ceder à extorsão de alguns líderes comunitários, jamais usará meios escusos para atingir os fins, jamais fará propostas não politicamente corretas, jamais aceitará propostas que o bem comunitário seja vilipendiado, jamais usará segmentos inescrupulosos da mídia falada e escrita para promoção pessoal, jamais praticará nepotismo, e, jamais usará a mentira no lugar da verdade.
O joio nasce junto com o trigo, mas a espiga do joio é tóxica e faz mal à saúde enquanto a espiga do trigo é rica em amido e faz o pão nosso de cada dia, portanto, caberá ao sofrido eleitor itabunense separar o joio do trigo, se prefere continuar na mesmice, no atraso, entorpecido pela demagogia, pela corrupção e falsas promessas, ou prefere ideias novas e desenvolver sua cidade.
A opinião é minha, a decisão é sua!

Rilvan Batista de Santana
Itabuna, 09 de Outubro de 2015.

Brincadeiras de criança - R. Santana

 


Brincadeiras de criança R. Santana

Brincadeiras de criança
R. Santana

Duas garotas de 8 ou 9 anos de idade, não sei por certo as idades, lembro-me das feições e do tipo físico: uma morena cor de jambo, cabelos castanhos até os ombros, olhos cor de mel, mãos finas, pernas longilíneas e rosto bonito; a outra, cútis branca, cabelos de espigas de milho, olhos verdes, mãos delicadas, pernas também longilíneas e rosto belo. O nome de família delas eu não me lembro, sei que a loira tinha o apelido de Pixixica e a outra o prenome Nilce. A loira era apimentada, não levava desaforo pra casa, quanto mais zangada mais bonita e, a morena cor de jambo, doce, calma, classuda.
Morávamos na mesma rua – não se podia chamar aquilo de rua, era mais um caminho que o capim morria de pisado - em casas de adobe, cobertas de telha, caiadas por dentro e por fora, um luxo, já que a maioria era de taipa e palha de dendezeiro ou açaí. Os quintais confundiam-se com as matas que ficavam nos fundos das casas, não valia a pena delimitá-los com cercas de arame, com o tempo, urgia a necessidade de lavar roupa nos córregos ou nos ribeirões, então, buscar água para beber de algum minadouro nas grotas da mata, aí o arame era rompido ou fazia-se algum passadiço.
Não tínhamos brinquedo de loja. Os brinquedos eram improvisados pelos meninos e pelas meninas. Os meninos gostavam de badoque, empinar papagaio, carrinhos de madeira, brincar de gude, cavalo-de-vara, pião, mas nos divertíamos mais nadando nos ribeirões das matas próximas ao vilarejo “Fuminho”. As meninas improvisavam bonecas de pano, bambolê, jogo da velha e adoravam maquiar-se de princesa com os apetrechos de beleza das mães.
Porém, as brincadeiras ganhavam vida quando meninos e meninas se juntavam no jogo de esconde-esconde, caça ao tesouro, o mestre mandou, dança das cadeiras e amarelinha. Não havia maldade, tudo era inocência até no beijo roubado. Éramos ricos na pobreza.
Os meninos maiores, os mais taludos, beirando os 13 e os 14 anos de idade, com a permissão dos pais, embrenhavam-se nos cacauais, nas matas, à procura de assanhaço, bem-te-vi, curió, guriatã, cardeal, rolinha, canário, sabiá, araponga-do-nordeste, pássaro preto, azulão, e, outras espécies da fauna do Sul da Bahia. Além dos passarinhos, a meninada caçava tatu-canastra, saruê, cágado, teiú, preá, etc. Os passarinhos eram pra criar e as caças comidas cozidas ou assadas. Quando a tarde findava, eles voltavam das roças com os bornais nas costas abastecidos de jaca, banana, abacate, fruta-pão, graviola, jambo, e numa das mãos, uma vara de bambu com gaiolas e caças penduradas. A molecada não usava arma de fogo, no máximo, faca, facão, badoque, alçapão e visgueiras.
Criar passarinho no “Fuminho” era uma brincadeira para molecada e uma atividade séria para gente grande, gente que vivia de adestrar passarinho e fazer gaiola. Não havia uma casa que não tivesse 3 ou 4 gaiolas com passarinhos cantando e encantando e o mais disputado era o curió, depois o canário o pássaro preto e o sabiá. No casebre podia faltar o pão, a farinha ou o feijão, mas não faltava o alpiste, quando a situação apertava, os passarinheiros recorriam à natureza, assim, suas criaturinhas não passavam fome nem sede.
Pele cor de leite, olhos verdes, cabelos loiros escorridos, mãos finas, esbelto, dentição perfeita, eu era mimado pelas mulheres velhas e disputado pelas meninas da mesma idade do “Fuminho”, porém, o meu coração era ocupado por Pixixica e Nilce. Claro que era amor de criança, sem maldade, a libido se manifestava em sonhos...
Ali não havia pabulagem, todos eram iguais socioeconomicamente naquela pequena comunidade, todo mundo conhecia todo mundo, todos cultivavam relações de amizade, porém algumas afinidades, algum bem-querer, algumas preferências pessoais e algumas simpatias eram diferentes: - mãe Judite tinha mais amizade com as mães de Pixixica e Nilce.
Hoje, desconheço o paradeiro das minhas amigas de infância, não sei se estão vivas ou mortas, não sei se estão solteiras, casadas ou viúvas, se estão sozinhas ou rodeadas de filhos e netos, se estão ricas ou pobres, se estão com saúde ou doente, mas elas estejam onde estiverem, sei que dói no peito e na alma de ambas, a saudade dos tempos de infância, dos tempos perdidos no tempo, as nossas brincadeiras de criança.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Terras do Japará - R. Santana

 


Terras do Japará

Terras do Japará
R. Santana
Faz alguns dias, eu adquirir o romance “Os ventos gemedores”, do escritor Cyro de Mattos, tive a ventura de recebê-lo autografado: “Ao Rilvan esses ventos que atormentam, desejando-lhe boa leitura – Cyro de Mattos”. Como não tenho por hábito participar dessas noites de autógrafos nem dessas feiras literárias que ocorrem por aí (pois nunca fui convidado), onde o escritor divulga e autografa seus livros, receber um livro pelos Correios e autografado, para quem é viciado em leitura, é um ato que deve ser registrado e compartilhado com os amigos e com os vizinhos.
Cyro de Mattos é o maior escritor vivo do Sul da Bahia, lamentavelmente, este reconhecimento não chegou até à capital do estado, haja vista não ter sido eleito no último dia 5 de novembro deste ano para Academia de Letras da Bahia – ALB, cadeira 28, eleita a profa. Suzana Alice Marcelino da Silva Cardoso. Porém pela quantidade de votos que obteve, saiu credenciado para um novo pleito numa eventual vaga por morte de algum acadêmico.
Pelo conjunto de sua obra literária (poesias, contos, crônicas, romance, ensaios, literatura infantil), ele dignifica qualquer academia como membro, pois existe uma diferença entre conhecer literatura e produzir literatura - quem sabe faz, quem não sabe ensina -, e sua produção literária é vasta e vai da ficção à realidade do dia a dia.
Porém, Cyro de Mattos peca pela autossuficiência e falta de generosidade com os poetas e os escritores conterrâneos, exceto os que já se foram como Valdelice Pinheiro, Telmo Padilha, Firmino Rocha, José Bastos, então, aqueles que não precisaram de sua nobreza de sentimentos como Jorge Amado, Adonias Filho e Hélio Pólvora. Li, não faz muito tempo, sua carta para poetisa Eglê Santos Machado, onde ele lamenta o descaso de seus conterrâneos com sua obra literária e queixa-se das aleivosias e falsas acusações que é vítima, da inveja de muitos e lastima não ser o guru, a referência literária maior da terra do cacau, etc., etc. – liderança se conquista por atos e palavras, não se impõe...
Mas, amado leitor, comecei este texto grato por ter recebido autografado “Os ventos gemedores”, lembra-se? Claro! Portanto, peço-lhe licença e ao egrégio autor para colocar no papel alguns comentários sobre essa obra tão divulgada pela mídia tupiniquim. Claro que é meu ponto de vista, a minha impressão, a minha verdade, certamente, não irá influenciar no sucesso literário ou fracasso literário dessa obra.
Uma história de ficção linear, nela não há sobressalto, já no quarto capítulo o leitor faz ilação do que irá ocorrer nos demais. O enredo foi explorado com maestria por Jorge Amado e Adonias Filho: a saga do desbravamento da terra do cacau e a imposição do Manda-Chuva pela carabina dos jagunços e a revolta dos explorados, dos posseiros, dos índios, os verdadeiros desbravadores e construtores das riquezas e da cultura do sul baiana. Não se pode comparar “Os ventos gemedores” às obras “Tocaia grande”, “São Jorge dos Ilhéus”, “Gabriela, cravo e canela”, “Terras do Sem Fim”, “Luanda Beira Bahia”, “Pulu”, dentre outros.
Destaca-se nessa obra de ficção do escritor Cyro de Mattos, os capítulos curtos que condizem com a vida apressada do leitor moderno, do leitor acostumado com a velocidade da internet, contudo “Os ventos gemedores” não possui os recursos e as sutilezas literárias das grandes obras de ficção, além do autor explorar um assunto já esgotado com vestimenta velha. O autor ao invés de explorar os sentimentos que atormentam a alma humana, os ventos gemedores que atormentam o homem, aqui, ali e acolá, ele preocupou-se em desenvolver a luta por terra e a barbárie dos insurretos e dá um desfecho inusitado na história com uma indigesta, suis generis: “Relação não Oficial dos Mortos”.
Prezado leitor, abaixo o resumo de “Os ventos gemedores”, espero ser fiel ao texto, à verdade, minha função não é criticar, é mais um exercício intelectual, uma maneira de expressar a minha opinião, sem fumos acadêmicos, comentário de leitor:
O cenário é o território do Japará. Vulcano Brás “homem de pulso forte e voz impositiva”, um vulcão em brasas, ele é o senhor e dono absoluto das terras e dos homens desse território. Nada ocorre em suas terras de cacau, madeira, gado, que lhe contrarie. É o delegado, o promotor, o juiz, até o papa, pois o padre necessita de sua permissão para fazer sua missa. O sol nasce em suas terras na serra do Virote e se põe na serra do Viradouro... Um mundo de terra atravessado pelos rios Joá e Japu. Vulcano Brás egresso do interior do sertão, de terras inóspitas, improdutivas, não achou de mão beijada as terras do Japará, enfrentou impaludismo, outras doenças da mata, onças, picos-de-jaca, macacos, cascavéis, jiboias, índios, posseiros, empurrou todo pra seu canto com ajuda dos jagunços e construiu um latifúndio produtivo. Casou-se com Edivina, moça de alma pura, natureza boa, pacata... O casal foi morar na fazenda Boa Vista, sede do império, tiveram 2 filhos: Olívio e Olindo. Olívio puxou ao pai, autoritário, cheio de gosto, desalmado; Olindo, natureza da mãe, gostava de música, amante da liberdade, poeta, filósofo. No sopé da Boa Vista, ficavam os armazéns de cacau de Vulcano Brás, com seu consentimento, surgiu a Vila do Pati, aglomerado de casebres toscos e miseráveis. O armazém de cereais, tecidos, insumos agrícolas, armas e munições de Aparício Pança-Farta, era o que tinha de melhor naquele mundo de homens escravizados. Na Vila do Pati havia também, uma feirinha-livre, onde os roceiros e os jagunços trocavam e vendiam suas bugigangas. O sapeca iaiá corria solto na Vila do Pati, meninas de 13 anos de idade, brincavam com seus filhos e não com bonecas. Afora os sonhos premonitórios de Vulcano Brás, tudo ia bem no reino de Abrantes, se caraminholas de justiça, de liberdade, de terra comunitária e de não exploração do trabalho, não começassem povoar as cabeças do vaqueiro Genaro, do negro Guinó, Maria Pendanga, do índio Camamu, e da vingança de Nininha e Almira, enfim, de dezenas de insurretos, dos revoltados, que nas reuniões à calada da noite, eles pregavam: “a terra pertence a todos”, “onde um só manda, os demais não andam, vivem presos numa carga”, “vamos guerrear para ganhar o chão”... Aparício Pança-Forte comungava com algumas ideias, com os fins e não com a guerra: “a liberdade ganha com sangue não tem valia”. O ódio e a revolta transbordaram com os maus tratos praticados em Nininha por Vulcano Brás e o assédio do destrambelhado Olívio por Almira, na recusa, a estuprou e fez sua marca com ferro e fogo em sua coxa: “agora não precisa fugir de mim, nunca mais me esquece, para onde for, leva o meu ferro”. Para alegria dos insurretos, Vulcano Brás morre de febre reumática. A carnificina ocorreu no cortejo do corpo de Vulcano Brás para o cemitério rumo ao Vale das Garças. Os tiros certeiros de Genaro mataram, logo, Olívio e Olindo. Aparício Pança-Forte fez um epitáfio para Olindo: “O preço pela liberdade neste tipo de combate não poupa nem o inocente. Morre gente que não faz mal a uma mosca”. O filho de Genaro que fez música com uma flauta de osso de gavião é quem dar o alarme da vitória dos insurretos, eles entram cantando na Vila do Pati. O vaqueiro Genaro puxa o desfile: o peito coberto por uma armadura de couro empunha uma bandeira vermelha com a inscrição: TERRA DE TODOS. O índio Camamu de cocar segue garboso e Guinó vestido de pele de onça, de peito erguido, parece o negro Zumbi dos Palmares. Homens, mulheres, meninos, meninas, jovens, velhos, juntam-se nas portas dos casebres jogando flores e saudando os novos heróis, os libertadores do povo sofrido e humilhado. Maria Pendanga, a única mulher revolucionária, ficou enterrada no Vale das Garças. Coube a Almira, colocar uma coroa de flores da mata na cabeça de Genaro, o principal herói, o libertador, o novo senhor das terras do Japará.
“Os ventos gemedores” não é um best-seller e nunca será, é um livro bem escrito, mas o assunto não mais desperta paixões incontidas como antes, nele não há curiosidade, foi feito com o uso da imaginação, tudo é ficção, e a saga dos pioneiros do cacau, os caxixes, a posse da terra a pulso, tudo é conhecido e já debatido.
Todo escritor procura o veio da mina, o livro que o imortalizará, o livro que fará a diferença, não a mesmice, às vezes, o escritor morre e não faz o livro dos seus sonhos, o livro que fará sair do mundo e entrar na História da Literatura.
Caro leitor, alguns escritores encontram esse veio da mina, esse livro do canto do cisne, antes de morrer, o reconhecimento ainda em vida; outros, depois que morrem. Separei para análise do amigo leitor e encerrar esta crônica, que decerto tornou-se enfadonha, e encerrar meus comentários, esclarecendo que um livro não é best-seller em determinado momento, porém, o reconhecimento do talento do autor e o significado da obra poderão vir depois.
Amado leitor, vejamos a seguir, alguns sucessos em vida de escritores famosos e sucessos póstumos: Shakespeare com Romeu e Julieta, Hamlet e Otelo; Dante Alighieri, A Divina Comédia; Antoine Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe; Maurice Druon, O Menino do Dedo Verde; Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro; Eça de Queirós, Primo Basílio; Euclides da Cunha, Os Sertões; Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov; Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o mar; Franz Kafka, O Processo e A Metamorfose.
Enfim, qualquer avaliação subjetiva é relativa, só o tempo dirá qual o livro que irá para as prateleiras das bibliotecas ou vai para os sebos.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Marcas na alma R. Santana

 

Marcas na alma R. Santana

Marcas na alma
R. Santana

     Não sou bom em datas, mas acho que foi no ano de 1978, nós saímos daqui para Ubaitaba com objetivo de ajudarmos implantar sua associação de professores, Itabuna já tinha sua Associação de Professores de Itabuna – API, uma estrutura sócio-política significativa um pouco menos do que Associação dos Professores Licenciados da Bahia - APLB. Além de mim, mais quatro professores: Ceres Marylise, Miralva Moitinho, Isaías Pinheiro e “Tavinho”. Fomos a Ubaitaba espremidos num Volkswagen, naquela época, o Volkswagen era o luxo do luxo.
     Miralva e Isaías eram mais afeitos à política de classe, ativistas, os demais lhes davam apoio moral e logístico – Ceres, filha de lá, conhecia professores, diretores de escola, secretário de educação e prefeito, além dos parentes-, “Tavinho”, o motorista. Coube-me pagar a despesa de combustível do carango ida e volta. A missão foi gratificada pelo acolhimento de trabalhadores da educação de Ubaitaba e Aurelino Leal. Soubemos depois, que a semente política de classe jogada às margens do rio de Contas, cresceu e tomou forma, os movimentos paredistas tornaram-se organizados e oportunos, cresceu a consciência cidadã.
     Não conhecia Ceres nem Miralva, logo nos tornamos amigos, diferente de Pinheiro e “Tavinho” que já nos conhecíamos fazia tempo. O diminutivo “Tavinho” não passava de um epiteto zombeteiro, pois o nosso saudoso Otávio Carmo Júnior tinha uns 2 m de altura, suas pernas empurravam o banco do motorista para trás e o encosto não ficava vertical ao assento, mas numa inclinação bem acima de um ângulo de 90º. “Tavinho” por ter biotipo longilíneo aparentava ser bem mais alto do que era. Ele era inteligente, sensível, generoso e solidário.
     O tempo e os diferentes interesses se incumbiram de dispersar o grupo, os nossos encontros ficaram amiúdes, esporádicos, de caju em caju, porém, este mundo é pequeno, no ano de 2011, na fundação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, eu reencontro a minha amiga Ceres, não mais moça e impetuosa, mas uma senhora doce, tranquila, sossegada, mesmo com as marcas na alma dos atalhos e descaminhos da vida, inspirada no canto dos deuses poetas.
     Comparar pessoas não é tarefa fácil, nós somos semelhantes, mas não somos iguais, as produções literárias e as obras de arte refletem a personalidade e o pensamento do autor, por isto, nenhum autor é igual ao outro, pode receber influência de alguma escola, de um indivíduo, todavia, cada produção traz a assinatura digital de seu autor.
      Como bairrista gostaria de comparar a poetisa Ceres à poetisa Cora Coralina, porém, a goianiense, doceira de profissão, cantou a vida, a terra, os becos de Goiás, suas pedras, as mulheres da vida, portanto, não há semelhança na arte duma ou de outra. Então, com quem comparar? Com Rachel de Queiroz? A escritora de “O Quinze”, uma epopeia da seca nordestina é antes de tudo, uma romancista, uma cronista, seus poemas são derivações dos seus livros, portanto, não existe comparação.
     Então, com quem comparar Ceres? Cecília Meireles ou Clarice Lispector? Não se pode negar a importância de ambas na literatura brasileira, porém, não existe afinidade entre elas e Ceres. Cecilia quase inocente canta o amor de forma lírica: “livre, leve e solta”, enquanto Clarice é paixão, é uma erupção que brota, é realismo. A nossa poetisa do cacau canta os mistérios da vida, a pequenez do homem e a importância de cada dia:
     “Sagrado
     Olhando
     o largo horizonte
     nossas horas matutinas
     vejo o quanto são pequenos
     todos os seres da Terra
     ante a grande evidência
     e a grande harmonia
     no nascer de um novo dia”. (Ceres Marylise)
     Ceres não é a principiante que se desmancha no canto das emoções fúteis, meladas, paixões comuns, amores impossíveis, nem se fecha na análise de um mundo absurdo, irreal, mas se deixa levar pela harmonia do belo, da natureza. O seu livro “Atalhos e Descaminhos” é mais uma reflexão filosófica da alma, da vida, do mundo:      “Transitória”, “Entre o irreal e o absurdo”, “Marcas na alma”, “Sobre a felicidade”, etc. etc.
     Embora tenha consciência que a vida, às vezes se apresenta absurda (Albert Camus e Søren Kierkegaard), é necessário que se dê sentido pra vida, assim como negar Deus é afirmá-lo. Se Deus morreu, é preciso criá-Lo mais humano e que o amor seja universal.
     “Que minha vida não seja
     um canteiro de renúncias
     nem areia movediça
     onde os sonhos se
     afundam”. (Ceres Marylise)
***
     “O mundo inteiro
     é um grito de aflição
     será que Deus morreu,
     abandonou sua criação?”...

     “Precisamos cria-lo
     novamente
     sem clonagem
     e mais humano
     numa noite
     de amor universal.” (Ceres Marylise)

     O estilo enxuto da poetisa Ceres Marylise se assemelha ao estilo de sua conterrânea Valdelice Pinheiro na forma e no conteúdo. Não fizeram grandes produções, toda obra de Valdelice Pinheiro, por exemplo, recentemente coletada e organizada pelo poeta Cyro de Mattos, é de 84 páginas em “O Canto Contido” e a obra de Ceres Marylise, um pouco mais em “Atalhos e Descaminhos” aos 67 anos de idade (Cora Coralina publicou seu primeiro livro: “Poemas Becos de Goiás e Estórias Mais”, aos 76 anos de vida, contudo, teve a sorte de viver quase 100 anos e produzir muito mais e ser reconhecida por Drummond...). Porém, qualidade não é quantidade, ambas as poetisas escreveram pouco, mas seus poemas são significativos, além delas dominarem a técnica da construção do verso, de acordo a métrica, ritmo e tempo, elas também não usaram os versos livres, comum hoje, com essa enxurrada de pseudopoetas.
     Peço licença ao leitor e convido-o à análise de dois pequenos poemas onde as poetisas celebram a vida e a morte, é grande a semelhança de estilo, que não é demérito para autora de “Atalhos e Descaminhos”, vez que Valdelice Pinheiro é considerada pela crítica especializada, a maior poetisa itabunense:
     “Poema para Kátia
     Sorri,
     menina azul,
     sorri,
     que o teu sorriso
     é sol
     no sol de toda primavera.” ( Valdelice Pinheiro)

     “Juno Carlo
     No silêncio sem pressa
     das horas noturnas
     enxergo o teu vulto
     na imaginação.
     E te abraço assim
     no teu rumo isolado
     lavando a amargura
     apesar da ilusão.

     Hoje, com os cabelos encanecidos, já no começo do fim, as marcas do tempo no corpo e na alma, eu choro o tempo que se foi, tempo de juventude, de esperança, tempo que não se pensava na morte, tempo que não volta mais mesmo que nascesse de novo. Os problemas foram diversos, porém o desejo de vencê-los era maior, aliás, não pensávamos em problemas, mas na realização da vida, no prazer de viver. Qual o prazer de viver num corpo decrépito? Nenhum! Quem o acha, acha-o por narcisismo, sadismo, masoquismo...
     “Tavinho” já se foi, muitos colegas daqueles tempos também já se foram, outros, estão no meio do caminho... Aquele Volkswagen já se foi e levou consigo muitas ideias geradas em sua barriga. Mas o homem não se dobra para o destino, nem a morte o dobra, pois o seu pensamento é imortal, o poeta é imortal:
     “ Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
     Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhuma.
     Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
     E as plantas são plantas só, e não pensadores.
     Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto” (Alberto Caieiro / Fernando Pessoa)

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna-ALITA

Foto: Site da ALITA

Rilvan Santana

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