11.05.2025

O monstro de Ferrarezzi - R. Santana

 

O monstro de Ferrarezzi - R. Santana

O monstro de Ferrarezzi
R. Santana

 
Naquele dia, no início da noite, na hora do “rush”, o “HB20-S” prateado deslizava na Avenida Zeus em Juruviara. No volante, a médica Raquel Ferrarezzi não tinha pressa, olhava de esguelha para os lados da pista, procurava alguém... Procurava Thalita Romanesca, adolescente que conhecera numa Rede Social, 06 (seis) meses antes. Embora Thalita tivesse, somente, 17 anos de idade, Deus lhe premiara com corpo perfeito e mente precoce. Estudante de Direito, morou algum tempo nos Estados Unidos por conta de programas de intercâmbio cultural.
Raquel não conhecia Thalita pessoalmente, mas pelo Facebook: alta, morena cor de canela, lábios grossos, boca provocante, olhos verdes, longilínea, digna da revista “Playboy”. Por outro lado, Thalita não a conhecia nem virtual nem pessoalmente, mas Matheus Takaha Shi, ali, naquele dia, naquela hora, acertou lhe encontrar.
Raquel não é de se jogar fora: jovem, loira, olhos azuis, esguia, cabelos compridos, querida dos colegas médicos, desenvolta socialmente, figurinha presente nas redes sociais e usa Whatsapp pra quase tudo. Profissional de escol, infectologista egressa de vários institutos e faculdades brasileiras e americanas, inteligente, estudiosa, com vários trabalhos científicos publicados.
Raquel, à medida que o tempo passava e Thalita não aparecia, começou exasperar-se: “Será que ela não vem?”, “A potranca enganou-me. Deixe estar, ela irá me pagar!”, porém, antes dela dá curso ao pensamento, avistou Thalita sozinha num ponto de ônibus, alegrou-se, ela estava lá, parou o carro e chamou:
- Thalita!
- Quem é você?
- Sou irmã de Matheus Takaha Shi! – convidou-lhe:
- Vamos? – completou:
- Ele está doido pra lhe conhecer, vai levar um susto, você é mais bonita... – ordenou:
- Entre no carro!... – Thalita quis dizer alguma coisa... Mas, a presença de espírito de Raquel foi maior:
- Entre!
***
Carol, a mãe de Thalita, estava assustada com o comportamento da filha, ela não saía do computador ou do “Smartphone”. Como é disciplinada, não compromete seus estudos regulares, sua paixão é o Direito Criminal, tem em mente a defesa do lado bom do crime, não seu lado mau, isto é, não importa o tipo de crime desde que embasado na justiça do Homem e de Deus, se alguém mata em legítima defesa, ela estará lá, no Tribunal do Júri, na defesa; mas se o crime é hediondo, perverso, premeditado, doloso, ela estará lá, no Tribunal do Júri, junto do promotor.
Mesmo à distância, com poucas informações, ela apaixonou-se por Matheus Takaha Shi, as chamadas de voz, as mensagens, as mensagens gravadas, enchiam o celular de Thalita:
“Meu amor, ontem deixei um recado em sua caixa postal e, não me retornou, te amo, te amo, te amo...”
“Amor da minha vida, estou contando os minutos e os segundos pra voltar, aqui, em Cambridge, os meus estudos estão cada vez mais monótonos. Parece que o tempo não passa... Gostou das fotos da Universit of Cambridge?”
“Sonhei que estávamos num motel, foi muito lindo... k k k ....”
“Adorooooo...”
Dia “D”:
- Minha vida, retornarei amanhã, escala Rio / São Paulo, lá pegarei um ônibus para Juruviara. À tardinha, nos encontraremos na Avenida Zeus...
- Querido, por que não vem logo em casa?
- Amor da minha vida, quero que somente o ceu e as estrelas sejam testemunhas do nosso encontro!...
- Tá, te amooo!...
***

Thalita se espreguiçou várias vezes, bocejou, esfregou os olhos com as costas das mãos. A cabeça doía-lhe, estranhou tudo, inclusive, uma bandeja com frutas, uma garrafa com café com leite, torradas e pedaços de bolo. Sentiu-se desnorteada, não sabia quanto tempo estava ali, lembrava-se que tinha tomado um vinho por insistência de Raquel enquanto seu namorado virtual viesse-lhe ao encontro, depois disto não lembrava mais de nada, exceto, os cuidados e aa gentilezas de sua futura cunhada.
O tempo que passou fora do país, aprendeu aguçar todos seus mecanismos de defesa quando as circunstâncias exigiam, reconheceu a situação estranha, mas se desesperar, perder o autocontrole, seria pior, doravante, teria mais cuidado com a comida e a bebida, pois o vinho deixou-lhe grogue, desnorteada, talvez fosse por não ter o hábito de beber nem refrigerante, sua mãe lhe ensinou, desde pequena, que o suco natural e a água são insubstituíveis para boa saúde.
Procurou seu celular na bolsa e não o encontrou, o dinheiro e os produtos de beleza não foram mexidos, fez seu ”breakfast” com cuidado, cortando as frutas, provando o suco e o café com leite, antes de ingeri-los, “procurando” algo sedativo, ou, alguma droga proibida. Depois da barriga cheia, pensou: “saco vazio não se põe em pé”, resolveu, de maneira meticulosa, percorrer o apartamento: móveis, estilo colonial, cozinha em MDF, quadros de pintores famosos, teto rebaixado, painéis decorativos de madeira, lustres de cristais, portas de mogno, louça refinada, copos de cristais e faqueiro de prata.
Thalita descobriu, logo, que estava num apartamento de cobertura: salas enormes, saída (fechada) para o elevador privativo, 4 quartos fechados no trinco e 1 quarto fechado à chave, um closet, escritório-biblioteca, dependência de empregada, varanda com mureta e vidro temperado, esverdeado, com vista pra cidade, sala de ginástica, sala de jogos, sala de música, churrasqueira, enfim, o chique no último, um luxo...
Porém, Thalita constatou que não havia nenhum mecanismo de comunicação no apartamento cobertura (Telefone Fixo, Desktop, TVs LED, Som, Notebook, Smartphone, etc.), aliás, havia, mas tudo bloqueado por senha ou, outro dispositivo de interrupção de Internet que ela ignorava. Sentiu sua liberdade comprometida - em Direito, Artigo 148 do Código Penal, lê-se: “cárcere privado”, isto é, alguém, arbitrariamente, priva o direito de liberdade de ir e vir do outro – mas, não se desesperou, esperaria Raquel, ela teria que lhe dar uma explicação pra tudo aquilo, inclusive, o paradeiro de Matheus Takaha Shi.

***

Um mês depois do sumiço de Thalita, seus pais estavam desesperançados de encontrá-la viva. Juruviara tinha sido esquadrinhada em metros quadrados, ninguém a viu ninguém sabia onde Thalita se meteu. Para infelicidade da vítima e desespero dos seus pais, colegas e amigos, as câmaras do seu percurso pouco registraram, ou nada de importante registraram, a maioria registrava a imagem do instante do acontecimento, não havia arquivo de imagem. Cartazes de desaparecida foram espalhados por todos os lugares, alguns, estipulando prêmio de resgate. O pessoal da delegacia e da “Vara da Infância e Juventude”, não parava de procurá-la, todos sensibilizados com o drama da família.
Alguns dias depois do desaparecimento de Thalita, seus pais continuaram receber mensagens, supostamente da filha, eram mensagens tranquilizando-os, que ia tudo bem, que Matheus Takaha Shi lhe fizera uma surpresa: uma viagem no interior do Nordeste, eles iriam visitar lugares paradisíacos, longe da violência e do estresse das grandes cidades, que eles não se preocupassem, logo, voltariam; que iam gostar do seu namorado, que além de inteligente, bom caráter, é lindo, muito mais bonito que nas redes sociais, etc., etc.
Carol e Joaquim, pais de Thalita, desconfiaram das mensagens, sua filha, mesmo no ardor da juventude, não era tão fútil e irresponsável para se render aos encantos de um desconhecido e viajar sem os seus consentimentos. Tudo era estranho, tudo bem montado, mas com diversos rastros criminosos, portanto, não havia outra saída, senão, entregar esse material na delegacia que já vinha apurando o caso, dias depois, eles foram convocados pelo delegado que depois dos cumprimentos de praxe, lhes deixou ciente das informações que tinha:
- Pais, estamos nas mãos de uma mente patológica, uma mente acima do normal e voltada para o crime. Depois que o caso de Thalita tornou-se expressivo pela mídia, alguns desaparecimentos negligenciados, com os mesmos “modus operandi” vieram à tona, e, os parentes das vítimas, agora, reclamam novas investigações – fez uma pausa, continuou:
- Esse tal Matheus Takaha Shi desapareceu ou, não existe mais... – os pais de Thalita interviram assustados:
- Como assim, delegado? Ele circula aí nas Redes Sociais e a nossa menina tem em seu celular suas imagens e dezenas de mensagens!?
- Foi por isso que lhes disse no início da nossa fala: “uma mente patológica, uma mente acima do normal e voltada para o crime”... – os pais de Thalita, novamente, interviram:
- Delegado, o senhor está nos assustando!
- Não se pode perder a esperança de encontrá-la viva, portanto, não nos desesperemos! Tenho muita confiança na minha equipe e nos investigadores da delegacia de Dr. Júlio Santouro!
- O delegado de crimes virtuais?
- Sim!
Os pais de Thalita saíram dali, mais confusos do que antes, mas confiantes que a polícia desvendaria o caso.

***

Naquela noite, Thalita estava desesperada, toda sua fortaleza emocional foi por água abaixo, seus nervos estavam em frangalhos depois que assistiu pela TV, a entrevista do delegado respondendo aos repórteres sobre seu caso:
- Doutor, onde está Matheus Takaha Shi?
- Não sei!
- Como assim!?
- Se soubesse... metade do problema estaria solucionado. Sabemos que ele veio de Santa Catarina, filho mais novo de pequenos agricultores, para Juruviara, trabalhar de modelo. Aqui, morou num pensionato por alguns meses e deixou o pensionato 02 (dois) dias antes do caso Thalita!
- O pensionato não tem nenhuma pista do seu paradeiro?
- Não!
- Na Estação Rodoviária e Aeroporto não há registro de imagem ou compra de passagem?
- Não!
***

Raquel insistia em vão que Thalita aceitasse uma relação homossexual, enquanto Matheus estivesse em viagem de negócio, prometia-lhe mundos e fundos, mais mundos do que fundos... Sustentava que seu irmão não tardaria chegar e quando ele chegasse, ela voltaria pra casa e ambos manteriam a história da viagem para o interior do Nordeste em carro próprio. Justificariam pra polícia e seus pais que estiveram em lugares paradisíacos, mas de difícil comunicação, aliás, não queriam se comunicar, não queriam que ninguém os atrapalhasse. Se as autoridades lhes pedissem comprovantes de hotéis, alegariam que se hospedaram em espeluncas ou ficaram em barracas móveis, etc., etc.
***
No dia que o delegado deu uma coletiva, Raquel chegou ao AP mais cedo do que de costume. Thalita “cuspia fogo e arrotava brasa”, mal Raquel se desfez dos apetrechos (bolsa, celular, óculos, relógio...), sua hóspede a contragosto, crivou-lhe de exclamações:
- Você mente! Matheus não é seu irmão! Matheus é filho de pais pobres do interior de Santa Catarina! Matheus veio trabalhar como modelo em Juruviara! Matheus sumiu ou, não mais existe! Você é doida! A polícia vai chegar até você! – e a interroga sem esperar a resposta, descontrolada...
- Quem é você? Onde Matheus está? Seu nome é mesmo Raquel? Teve envolvimento afetivo com Matheus? Espera enganar a polícia por mais tempo?...

***

Augusta Rusciolelli estava frente a frente com o delegado do caso Thalita, desenvolta, não titubeava em nenhuma pergunta, por mais rodeio e perguntas capciosas que o delegado fizesse. Havia sido convidada como testemunha, mas sentiu que a autoridade policial queria lhe incriminar:
- A senhora conhece Matheus Takaha Shi?
- Conheço. Ele fez marketing de saúde para minha clínica!
- Só?
- Sim!
- O certo não seria contratar uma empresa publicitária para esse tipo de campanha e não o modelo?
- Sim!
- Então?...
- A minha clínica contratou a empresa K&M, mas de vez em quando, ele ia lá, por determinação da empresa publicitária, fazer algumas imagens, principalmente, aproveitar a faixada da clínica e alguns ambientes internos e aparelhagens modernas. Por orientação da K&M, tirou fotos com as funcionárias e os colegas médicos e, participou de entrevistas com pacientes da clínica!
- Teve envolvimento afetivo com Matheus?
- Não costumo comentar minha vida pessoal...
- Doutora, a função da polícia é juntar todos os pontos para esclarecer os desaparecimentos e, possivelmente, crimes!
- Estou, aqui, pra ajudar a polícia e a justiça!
- Sei disto... Obrigado.
***

Naquela tarde, o crepúsculo insistia deixar o dia e entrar na noite, Thalita encostada na porta do quarto sempre mantido à chave, chorava com enjoos e vômitos secos, descontrolada, pois tinha descoberto algo dantesco, mórbido, funesto, horripilante, repugnante, decorrente de uma mente doentia: o quarto suspeito (sempre fechado à chave), não passava de um jazigo com vários cadáveres embalsamados, plastificados, alinhados na cerâmica, alguns descarnados pela ação do tempo, outros, mais recentes e reconhecíveis.
Thalita percorreu o apartamento em busca de uma saída, de um socorro, mas em vão, pareciam fechaduras eletrônicas, resistentes a qualquer tipo de arrombamento, de danificação. Ela Pensou provocar um pequeno incêndio para chamar a atenção dos transeuntes que passavam pela rua, contudo, o bom senso dizia-lhe que pela altura e pelo acesso restrito, quando os bombeiros adentrassem o apartamento, ela estaria asfixiada e morta.
Usou uma cadeira e jogou algumas mensagens em pedaços de papel, à medida que o papel ia “voando”, a corrente de ar o levava para longe e, adeus socorro! Porém, teve uma ideia...
***
À noite, Raquel chegou do trabalho com a casaca pelo avesso, mas ao invés de encontrar uma Thalita taciturna, chorosa pelos cantos, encontrou-a alegre e disposta. Thalita não falou lhe falou do quarto lúgubre. Limpou bem a cara, maquiou-se, penteou-se, vestiu o melhor vestido (o mesmo manequim), que encontrou no closet, calçou o sapato à Luís XV, pra ficar mais alta do que a parceira. Não foi à toa, a surpresa de Raquel:
- Meu Deus! Meu Deus! O ceu se abriu e enviou-me um anjo! – Thalita aproveitou a oportunidade:
- Conclui que não és má... teu irmão é que... – foi interrompida:
- Deixe-o pra lá... um garotão... – não completou, Raquel foi agarrada pela cintura e beijada:
- Perdoa-me!
- Deixe estar menina, aquilo é um desmiolado! Benzinho, quando ele voltar?
- Quando ele voltar? Mando-o pra as cucuricas!
- Benzinho, cucurica é comida?
- Sei lá!
- Kkkk...
- Vamos deitar “Raq”?
- Hum! Pra quê pressa benzinho?
- Estou louca pra chupar sua xoxota... – arrependeu-se...
- Não fique assim... benzinho... eu, também... – as duas saíram abraçadas para o quarto.

***

Day After:

O “Edifício Ferrarezzi” amanheceu lotado de policiais civis, militares, repórteres dos principais canais de TV e rádios AMs, FMs e rádios On-line. Todos apreensivos, “pisando em ovos”, “prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, porque, as declarações de Thalita à delegacia de crimes de sequestros e desaparecimentos, foram macabras, lúgubres, tétricas, mórbidas, fúnebres e difíceis de acreditar. O delegado atribuiu certo “delírio” e certa “fantasia” da moça. Crimes difíceis de imaginar, difíceis de acreditar, porém, sua obrigação será constatar in loco e prender em flagrante a médica dos delitos narrados por Thalita, por isto, antes das 8:00 horas, ele estava lá, no saguão do edifício Ferrarezzi:
- Doutor, espere a ascensorista!
- Ela demora?
- Não!
- Conhece Drª. Raquel?
- Sim!
- O senhor a viu, hoje?
- Faz algum tempo que não a vejo!
- Como!?
- Soube que ela foi fazer um curso de doutorado na Argentina!
- Ela deixou alguém no apartamento?
- Não...
- Por que foi reticente?
- Não tenho certeza!
- Como não tem certeza?
- Doutor, isto é um interrogatório?
- Não! Desculpe-me é hábito de policial... – interrompeu pela entrada da ascensorista.
No apartamento, os repórteres procuram lugares estratégicos. Os investigadores começam escarafunchá-lo, de repente, um deles, engulhando, com ânsia, vômitos secos, grita:
- Doutor, venha aqui!!!
Os repórteres começaram se posicionar, todos acorrem ao quarto lúgubre, o quadro é de horror: 06 (seis) corpos alinhados, embalsamados e plastificados, um deles, é do modelo Matheus Takaha Shi, ainda “fresco”. Num canto do quarto de horror, encontra-se um fogão e um liquidificador industriais. O médico da equipe explica que a presença daqueles utensílios, possivelmente, serviram: “... pra liquefazer as vísceras, retirar o sangue e a assassina aplicar injeção de água, formaldeído e, outros elementos químicos...”
No outro quarto, o delgado interroga a mulher encontrada debruçada sobre a cama com os punhos amarrados atrás das costas:
- Nome?
- Rute Ferrarezzi!
- Cadê Raquel?
- Está na Argentina!
- Qual seu grau de parentesco com Raquel?
- Somos irmãs gêmeas!
- Quem praticou esses crimes?
- Eu!
- E, Raquel?
- Raquel é inocente!
- Porque usou o nome de sua irmã?
- Ela tinha álibi se fosse investigada, enquanto, eu continuaria na “sombra”... E, a polícia confusa!
- Ela mora aqui?
- Não. Ela mora no AP 508!
- Quem lhe ajudou nessa barbárie?
- Matheus Takaha Shi!
- Ele está morto!
- Eu o matei, sabia demais... Ele atraía as meninas pra mim, era um homossexual enrustido – o delegado pede ao investigador que a desamarre e dá-lhe voz de prisão.

***

A mídia queria saber como Thalita tinha fugido:

- Quando percebi que ia morrer, simulei desejar-lhe e fomos pra cama com um litro de whisky. Fizemos algumas carícias, mas fingir precisar de bebida pra continuar (que não tinha costume...), ela me acompanhou e quando ficou bêbada, amarrei-a, peguei as chaves das portas, desci no elevador privado e chamei a polícia!
- Soube que não se chama Raquel?
- Sim!
- E, agora?
- Quero curtir mais os meus pais, a minha família, localizar os parentes das vítimas, requerer indenização, pois elas são médicas e muito ricas, são as donas do edifício Ferrarezzi... – e, se despediu:
- Tchau!!!
 

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/03/2017
Alterado em 21/03/2017

O Guriatã e o Pintassilgo - R. Santana

 

O Guriatã e o Pintassilgo - R. Santana


     Não faz muito tempo, mas um tiquinho de tempo, que o Guriatã arvorou-se, estufou o peito de vaidade – eu sou o maior intérprete da natureza, portanto, não é justo ficar de fora da Confraria dos Músicos da Floresta (CMF) -, e, espalhou pra quem quisesse ouvir-lhe que seria candidato à confraria assim que um dos seus membros morresse. Tudo ia muito bem se o Pintassilgo não lhe fizesse oposição: “... Gaturamo não é Curió!”, não estava sozinho, a maioria dos pássaros lhe fazia coro.
     Porém, o Guriatã tinha seus seguidores: um artista que versava em mais de 50 cantos, não era justo ficar de fora da “Confraria dos Músicos da Floresta – CMF”. Dentre seus seguidores, a Calopsita e o Corvo eram as mais fiéis: a primeira por interesses iguais e a segunda por puxa-saquismo, por isto, os conflitos eram constantes e trocavam farpas:
     - Eu o acompanharei ao próximo congresso da CMF... – a Calopsita a interrompe:
     - Não! Quem lhe autorizou, parente de Anum?
     - A minha amizade!
     - Ah ah ah...
     - Ridícula!!!
     - Eu!?
     - Existe outra serelepe aqui?
     - Não, encarnação do mal!
     - Vem, branquela xexelenta!

     - E você? Com esse grasnir de “gato engasgado”, cavernoso, grasnido de alma de padre... Negra como agente funerário!
     - Eu tenho orgulho da minha raça, amarela enxofrada! Tu não passas de periquito que não deu certo, canto de corneta Uirapuru!...
     O Guriatã continuou arrostar cantos e mais cantos, mais amigo dos pássaros que sabiam cantar e indiferente com aqueles que não cantavam.
     A reunião foi marcada para escolha do novo membro da Confraria dos Músicos da Floresta - CMF. Naquele dia, os 13 músicos e cantantes mais importantes da floresta estavam lá: o Uirapuru, o Rouxinol, o Curió, o Sabiá, o Pássaro Preto, o Bicudo, Trinca de ferro ou “João velho”, o Azulão, o Bigodinho Mineiro, o Canário Belga, o Pintassilgo, o Cardeal e o Coleirinha.
     O Sabiá, o canto mais melodioso da floresta presidia os trabalhos, assessorado pelo Curió e secretariados pelo Pássaro Preto.
     João Velho apresentou o Guriatã aos confrades, ressaltou suas qualidades de intérprete mais dotado da natureza. O Pintassilgo acusou o Guriatã de cantante medíocre, um imitador comum, plagiador, que não produzia canto próprio, diferente do Curió que imitava, mas produzia suas melodias, enfim, o Guriatã não passava de um embusteiro.
     Os trabalhos ocorreram como de praxe. A eleição, avaliada pelos expertos, o Guriatã venceria se somente se o Pássaro Preto não gritasse:
     - Cantantes, cantantes, a urna de votos foi inutilizada, ela está cheia de cocô!!!
     Todos olharam pra cima e o Beija-flor, a única ave que sobrevoa e pára no meio do nada...

Moral da História: Não se deve subestimar o outro. Deve-se respeitar os diferentes, pois Deus premiou todos os seres com aptidões e talentos. Nenhum ser Lhe é insignificante!...

(*) Fábula




Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academias de Letras de Itabuna -ALITA

Imagem: Google

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 27/03/2017
Alterado em 01/02/2024

Brechó - R. Santana

 

Brechó - R. Santana

 

 

          Hoje, pensei fazer uma catarse, uma purificação das coisas ruins que me estão incomodando. Inicialmente, pensei consultar meu babalorixá: “agô, babá...kalofé!?” e a voz do babalorixá em meu ouvido: “Kalofé olorum, abiã!”. Porém, lembrei-me que estava devedor de oferendas e o pensamento não foi longe. Pensei procurar um padre exorcista, mas a ideia morreu no nascedouro, na minha paróquia não existe padre exorcista como Karras e Merrin no filme: “The Exorcist”. Um psicólogo freudiano, também, não seria a solução: ele só sabe ouvir e fatura em cima do incauto paciente que “vomita” suas frustrações e seus complexos sexuais, e se autoexorcisa... Pensei numa sessão de quiromancia, mas as ciganas de hoje, não são como as ciganas de antigamente. Pensei consultar um pastor, mas o seguidor de Lutero, hoje, está mais preocupado em ganhar dinheiro do que tirar os males de alguém. Pensei consultar as bruxas... mas, as bruxas atuais, deixaram a vassoura e andam de automóvel. Pensei consultar a minha mãe Iyalorixá e pedi-lhe que jogasse os búzios e consultasse os meus orixás, mas lembrei-me que estava em débito com as orações...
          Porém, a solução veio por acaso ou montada numa bicicleta, explico: quando fui tirar o carro da garagem, de ré, quase atropelei um ciclista, ele olhou pra mim, e gritou:
          - Brechó!!! - tive um insight: “eu vou construir um brechó (autocatarse) de sentimentos bons, sentimentos ruins e, condutas boas e ruins, atitudes espirituosas, imorais e antiéticas”.
          Não será uma loja só de trastes desgastados pelo tempo, será uma loja de produtos que nunca ficam velhos e velhos pelo uso. Na faixada ler-se-á em letras góticas douradas: “BRECHÓ”. O produto não será exposto em tabuleiros feitos por qualquer marceneiro, mas em gôndolas planejadas. Nas primeiras gôndolas, ficarão os produtos sem valor ou quase nenhum valor; nas gôndolas intermediárias, ficarão os produtos de valores expressivos; nas últimas gôndolas, ficarão os produtos nobres que a moeda de venda é o tempo.
          Quero deixar um recado para os desavisados: não sou feito da argamassa desses males nem do barro dessas condutas ou atitudes, mas o homem, ao contrário de Rousseau, não nasce bom, ele é naturalmente mau, a educação é que o transforma num ser sociável. Porém, em algum momento da vida o homem é mau, se o homem não tivesse consciência de sua pequenez, que é sujeito à morte, que nem a fé soluciona a certeza da vida eterna, seria o pior dos animais.
A oração é imprescindível no processo da vida. Quando alguém ora, faz uma catarse de suas condutas más e sentimentos maus, vejamos:
          “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”
          “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”
          “E Santa Maria, Mãe de Deus / Rogai por nós pecadores / Agora e na hora da nossa morte. Amém!”


Caro leitor, deixando os considerandos de lado, vamos para os finalmentes nas gôndolas:

          (I) Gôndola: Ambicioso, antiético, capcioso, egoísta, embusteiro, impostor, imoral, maquiavélico; mau caráter, mesquinho, nerd, plagiador; traidor, tarado, safado, velhaco;

          (II) Gôndola: Caftina, covarde, desleal, desonestidade, descarado, estuprador, falsidade, fake, falsificador, ira, invejoso, ladrão, ódio;

          (III) Gôndola: Bruxo, discricionário, imprestável, maldade, mau, raiva, ruim;

          (IV) Gôndola: Mal, ocioso, mentira, preguiçoso, misantropo, traição, vaidade, autoritário, fanqueiro intelectual, hackers, hipocrisia, inimigo, enganador, marqueteiro, destempero;

          (V) Gôndola: Amigo, bondade, bom, bom caráter, bem, corajoso, ético, filantropia, generosidade, honestidade, humildade, ingenuidade, amizade e AMOR!...

          Leitor amigo, eu fiz uma classificação empírica do que é ruim e bom em nossa vida, escolha uma gôndola de acordo seu mal ou seu bem, faça catarse das coisas ruins e agradeça ao Senhor as coisas boas.
          Ah, antes de fechar este texto, leitor amigo, permita-me saudar a minha mãe Iansã, esposa de Ogum e amante de Xangô:

          - Epahey Oyá!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons


Morreu Maria Preá - R. Santana

 

                                         Morreu Maria Preá - R. Santana

       Diz o adágio popular: “quem conta um conto aumenta um ponto”. O conto que iremos contar já foi cantado em verso pelo poeta Itanildo Medeiros, mas resolvemos por conta e risco transformá-lo em prosa e aumentar esse conto em vários pontos.
      Em tempos idos, lá onde Judas perdeu as botas, três autoridades mandavam na cidade: o prefeito, o juiz e o padre, quando não havia o agente da lei, o prefeito cuidava das obras da cidade e o padre cuidava do lado espiritual e moral do homem, portanto, tudo que o padre dizia ou publicava no pórtico da igreja virava lei, ou seja, “pater dixit et dix”. Sua autoridade era providencial, todos beijavam sua mão, inclusive, o prefeito e a mulher do prefeito, sua autoridade só seria embaçada se um dia o bispo ou o papa pisasse naquele confim de mundo, coisa impossível e impensável.
         Lá no sertão nordestino, nasceu, cresceu e morava Maria Preá. Beata, não perdia uma missa, uma procissão, uma novena, envolvida de corpo e alma nos trabalhos da igreja, sua abnegação era tanta, que tinha a cópia da chave da sacristia e, zelava pelos valores do dízimo. Tudo passava por Maria Preá, antes do padre. Alguém poderá presumir que fosse uma velha coroca, voz rouca, penugem no lábio superior, enrugada, pelancuda e cabelo encanecido, ledo engano, era a mulher mais bonita daquelas paragens: jovem, alta (mas, não varapau), morena cor de canela, olhos verdes, cabelos lisos encaracolados, lábios grossos e bem desenhados, corpo escultural, digna de capa da revista “Playboy”. Os homens ricos e os nãos ricos da cidade babavam-se por Maria Preá, mas havia um padre no meio do caminho parecido com o padre Fábio de Melo, e, ela entregou-lhe o corpo e a alma, mais o corpo do que a alma.
        Tudo ia bem no reino de Matusalém se o sacristão não flagrasse o casal na cama num vaivém maluco, ora um embaixo, ora o outro em cima, e gritasse: “Padre!!!”, “Maria Preá!!!”, aí, foi um vexame...
     Daquele dia em diante, o insignificante homem que arrumava e guardava as coisas na sacrista e ajudava o sacerdote na missa, na eucaristia, transformou a vida do padre num inferno: extorquia-lhe no dízimo, limitou as atividades da xodó do padre na igreja, antes um figura apagada, passou mostrar influência na paróquia, perpetrava os mais diferentes ardis para ter o padre sob controle com ameaça de denúncia e escândalo. Alguns achavam que o padre tinha reconhecido o apego do sacristão ao trabalho religioso estafante, outros, os adeptos de São Tomé, cismavam: “embaixo desse angu tem caroço”, e, eles estavam certos, o malandro do sacristão escondia as cartas de trinca no punho da camisa e as lançaria na mesa se o padre se rebelasse à sua chantagem.
     Porém, quando Deus tarda vem no meio do caminho: do padre tanto suplicar-Lhe, de tanto colocar os joelhos no chão de milho, pedindo-Lhe socorro, a desforra veio dois meses depois: o padre foi convidado para realizar um novenário numa cidade distante de sua paróquia, não muito longe, teve que voltar porque esqueceu um documento e, quando empurrou a porta da sacristia, lá estava o sacristão debruço, nu de cintura pra baixo, embaixo de um negão que lhe empurrava uma gueba enorme no traseiro que de tanto gozo, ele não percebeu sua chegada:
          - O que é isso, sacristão!? – acrescentou:
          - Tu fazes da casa do meu Pai, Sodoma e Gomorra? – depois, lembrou:
       - Fica o visto pelo não visto, portanto, de agora em diante... – fez uma pausa e gritou:
          - Morreu Maria Preá! Morreu Maria Preá! Morreu Maria Preá!
          Daí em diante, tudo como dantes na cidade de Abrantes!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/04/2017
Alterado em 17/07/2025

Premonição - R. Santana

Sílvia Sepúlveda Caldas (*)
(*)  25. 08.1919 / (+) 10. 03.2026

 
        A chuva torrencial escorria na janela envidraçada da residência da família Caldas. O relâmpago de quando em vez iluminava o quarto e os pipocos dos trovões estremeciam o ambiente.
    Sílvia e o seu sogro Luiz estavam aflitos, não sabiam como socorrer Oscar, àquela hora da noite, ele arfava cada vez mais ofegante em busca de ar. A filha do casal, de 4 anos de idade, era a única alheia àquela situação dramática, dormia profundo embalada pelos anjos.
    O medo de Oscar era morrer no escuro, ainda cedo, tinha levado pra casa um pacote de velas de espermacete e uma caixa de fósforos, porém, no momento de um grande trovão, o “Aladim” que iluminava o quarto entrou em blackout e, o fósforo e as velas sumiram na bruma da noite, Oscar sussurrava no ouvido da esposa, rogava-lhe ar e luz.
    Não há escuridão que a chama de uma vela não ilumine... Sílvia encontrou em suas bugigangas uma vela e um fósforo e, a luz foi restabelecida de maneira precária e atendeu parcialmente ao rogo de Oscar, seu semblante iluminou-se, tudo seria remediado se a chuva desse uma trégua e as janelas pudessem, também, ser abertas e o ar aliviasse o moribundo.
    Às 23 horas e 50 minutos daquele dia, o céu parou de chorar, as lágrimas, agora, escorriam fininhas, o trovão e o relâmpago fizeram as pazes, aí, o velho Luiz abriu de repente as vidraças e uma rajada de ar envolveu o quarto. Oscar sugava o ar com vontade, porém, a força do vento além de apagar a vela consumiu todo o fósforo nas mãos trêmulas de Sílvia, novamente, o blackout tomou conta da casa.
    A pequena Tereza, perto da meia noite, choramingou quando o movimento no quarto elevou o ruído dos objetos, Sílvia como não mais tinha fósforo, esqueceu-se do marido por minutos e voltou-se para filha, aconchegando-a, para que ela não acordasse de uma vez e o socorro ao marido ficasse comprometido, mas a Providência intercedeu e a criança parou de choramingar e voltou a dormir como antes.
    O quadro cardiorrespiratório de Oscar teve uma pequena melhora, com a corrente de ar que entrava e saía do quarto. O ritmo descompassado de sua respiração parecia, agora, normal o que não agradou ao experiente Luiz que viveu até aquela data, com o adágio popular na cabeça: “... todo doente pra morrer sente um alívio...”, não queria pensar na morte de Oscar, pois seria sua própria morte: filho e pai eram um só, o que um pensava o outro adivinhava, os dois eram unha e carne, jamais tiveram rusgas, a felicidade do filho completava a felicidade do pai e a felicidade do pai era sentida pelo filho.
    Minutos eternos de normalidade para Oscar...


***

      Estimado leitor, no ano de 1943, mês de agosto, dia 2, Oscar Caldas de terno de casimira azul, chapéu panamá branco, camisa branca de mangas compridas com abotoadoras de ouro, gravata, cinto de fivelas de ouro, sapatos pretos engraxados, orientava 5 carroceiros que atravessaram a ponte Góis Calmon, até avenida “Macuco”, onde ficava sua casa comercial, no bairro Nossa Senhora da Conceição, antiga Abissínia, na cidade itabunense. Os carroceiros descarregaram as carroças e ajudaram o negro Tuiúca arrumar as mercadorias no armazém, compradas do outro lado da cidade.
    Quem não o conhecia diria que o moço iria pra um evento ou reunião de negócios pelos trajes impecáveis, quem o conhecia no dia a dia, diria, apenas, que naquele dia, ele tinha exagerado, dado um toque a mais, porém, o terno e o chapéu panamá eram rotina em sua vida, às vezes, mais relaxado, ele dispensava a gravata. Sua elegância era admirada por conhecidos e não conhecidos, tanto que o negro Tuiúca o apelidara: “Il Príncipe”.
    Esse traje almofadinha o tinha livrado de morrer 2 meses antes: um sujeito quase decepa o seu pescoço pra lhe roubar. A gola alta de sua camisa amorteceu o golpe. Mesmo com os cuidados do médico Dr. Moisés Hage que lhe atendeu de pronto, ele perdeu muito sangue.
    Oscar, meses depois, consultou o médico Dr. Victor Maron sobre sua saúde, pois ele vinha sentido um desconforto no peito e ouviu do médico a recomendação:
    - Oscar, trabalhe menos. O nosso coração é uma bomba natural, se recebe uma sobrecarga, tende a pifar... – o médico assustou-se com a infausta resposta:
    - Doutor, não passo deste mês!
    - Não se agoure, meu caro, você ainda é moço!...
    Naquele dia, no finalzinho da tarde, depois do armazém arrumado, as mercadorias nos devidos lugares, prateleiras cheias e o que sobrou armazenado no depósito, Oscar chama a esposa para os fundos do armazém e inicia uma conversa estranha:
    - Sílvia, eu não estou bem... Chame meu pai! – a esposa suaviza:
    - Querido, não é nada... – Oscar deixa-a assustada:
    - Sílvia, não me deixe morrer no escuro!
    - Poupe-me desta conversa!...
 
***

    Naquele dia, 02 de agosto de 1943, às 23 horas e 58 cinquenta e oito minutos, a chuva voltou abundante, o velho Luiz correu pra fechar as vidraças enquanto Sílvia afagava o marido. Os relâmpagos anunciaram novas trovoadas, mais estrondosas. O tempo fechou...
    Às 23 horas e 59 minutos, um relâmpago demorou alguns segundos e iluminou todo o quarto. Luiz e Sílvia juntos de Oscar foram testemunhas dos seus últimos estertores. Luiz não suportou tamanha perda, tombou sobre a cama e foi amparado por Sílvia - Luiz foi sepultado no mesmo dia do seu filho e Dr. Victor Maron o atestou vítima de AVC fulminante.
    O presságio de Oscar se confirmou. Um relâmpago foi providencial para que ele não morresse no escuro.
***

    Dias depois, a pequenina Tereza dizia vê-lo: 
    - Papai voltou mamãe!!!
    - Mamãe, venha ver papai!
    - Papai, mamãe está lhe chamando!...



Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letra de Itabuna - ALITA
Foto: Produção

Fonte: Sílvia Sepúlveda Caldas
Foto: Cristina Caldas

(*) Post Scriptum: Dona Sílvia, como era carinhosamente chamada, foi uma das fundadoras do Bairro Conceição de Itabuna. Embora seu marido tenha falecido jovem, ela continuou empreendendo no ramo comercial e imobiliário, morreu com 107 anos de idade, no dia 10 de março de 2026.



 

Digressões Literárias R. Santana

 


Digressões Literárias

R. Santana

     Hoje, acordei com o demônio socrático cutucando-me para escrever sobre os escritores e poetas baianos, em particular, os poetas e escritores regionais e itabunenses. Não com a mesma determinação de Garcia Márquez: "Quando não escrevo, eu morro. Quando escrevo, também", todavia, celebro a leitura e a escrita, diuturnamente, com gosto e prazer. Acordei com a vontade de produzir um texto “suis generis” sobre a nossa literatura tupiniquim, a priori, quero pedir licença poética e avisar aos nossos poetas e escritores, que não é um ensaio, com referências bibliográficas, estudos aprofundados, mas um texto embasado em minhas impressões e experiências pessoais.
     Também não cultivo o ritual de Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, que usava roupas de estilo com punhos de renda quando ia escrever sobre ciência da natureza. Como sou, apenas, um escrevinhador sem nenhuma pretensão literária ou científica, meu ritual é modesto: depois do desjejum, com qualquer vestimenta (quase sempre de bermuda), uma cachacinha com limão, um charuto fumegante no canto da boca, um dicionário de lado, começo escrevinhar e conjeturar sobre o mundo e coloco no papel minha produção criativa.
     Não sou amante de literatura erudita que valoriza mais o conhecimento ordenado, metódico, lógico, que a produção criativa, organizada, simbólica, significativa, lúdica, com recursos literários que antecipam e vislumbram. Se um babalorixá, por exemplo, vomita num espesso livro conhecimento acumulado de sua seita religiosa, ou, outro religioso de princípio diferente exagera em sua exegese, prefiro ignorá-los, pois o pensamento flexível, metafórico, sobrepuja o pensamento lógico cheio de amarras.
     Nem sempre quem faz poesia é poeta ou quem escreve texto é escritor, romancista, cronista, articulista, ensaísta, além do conhecimento intelectual, é imprescindível que o poeta ou escritor seja sensível aos elementos da realidade que, transmitidos à sua obra, são capazes de despertar emoções. Hoje, se cultiva o verso livre, não existe mais o compromisso com a métrica, com as formas fixas, com os gêneros épicos, líricos ou dramáticos, assim como as produções textuais não valorizam mais a sintaxe, a ortografia, enfim, a gramática e o estilo como antes, o importante, é transmitir o conteúdo sem censura, sucinto, comunicar-se, e que a interlocução entre pessoas flua com naturalidade...

     As  Redes Sociais contribuem para essa nova linguagem, o WhatsApp, por exemplo, envia mensagens instantâneas, vídeos, fotos, áudios, em tempo de segundos através da Internet, portanto, a escrita erudita é de somenos importância, se não desaparecer com o tempo, certamente, será modificada.
     Dentre todos os estados da federação, a Bahia é um celeiro de poetas, escritores, artistas, folclore e cultura afro-brasileira, notadamente, no interior dos candomblés. Desde o período Barroco com Gregório de Matos, “Boca do Inferno”, até os dias de hoje, o estado baiano revelou dezenas de homens de letras de primeira grandeza. Seria impossível nomear e analisar todos esses nomes, além de não ser necessário. Esta crônica pretende, apenas, analisar an passant, os poetas e escritores mais recentes: os pré-modernos, os modernos, os contemporâneos e os regionais, ou seja, aqueles de nossa intimidade intelectual.
     Não obstante Sósigines Costa ter nascido no interior, em Belmonte, no início do Século passado, deixou uma obra poética significativa. Sua ”Obra Poética” foi bem recebida pela crítica em 1959, mas foi no seu livro “Iararana” em 1979, que veio a consagração e trata do domínio da terra virgem e inóspita do cacau.
     Porém, escreveu poemas com elementos simbólicos e metafóricos como ninguém: “O Pavão Vermelho”, “A cabeleira da musa”, “Duas festas no mar”, leiamos alguns versos: ... Pavões lilases possuí outrora / Depois que amei este pavão vermelho / os meus outros pavões foram-se embora, então, na “Cabeleira da Musa”: No oceano de tua cabeleira entrevejo / um porto cheio de homens vigorosos / de todos os países... e navios de todas as formas. Baudelaire. No poema “Duas festas no mar”: ... Uma sereia encontrou / um livro de Freud no mar / Ficou sabendo de coisas / que o rei do mar nem sonhava...
     Sósigenes, certamente, passará para história literária não como um regionalista de parcos recursos, mas um autor de riqueza poética inigualável.
     O que diferencia Jorge Amado de Adonias Filho, é o despojamento linguístico do primeiro; o segundo é mais contido, mais seco, menos emoção, cultua mais a língua, tem mais apego pela gramática, menos popular, mais clássico, mas ambos são gênios universais.
     Lembro-me que em tempos idos, estudante do curso médio “Científico”, havia certo preconceito com Jorge Amado, aqui, em nossa terra do cacau. Os falsos intelectuais daquela época, rotulavam-no de pornográfico, literatura imprópria para menores de 18 anos de idade, pouco recomendado para pré-adolescentes e adolescentes, subliteratura, mas após produzido para TV, “Gabriela, Cravo e Canela”, pela Rede Tupi 1960 e Rede Globo em 1975, esse estigma desapareceu, hoje, Jorge Amado é lembrado endeusado aqui, ali e alhures.
     Li quase tudo de Jorge Amado, seu livro “Tocaia Grande”, quase o devorei, é um livro com conteúdo conhecido já explorado por outros autores: a disputa da terra pelas armas. Embora o assunto da conquista de terra já tenha sido batido e rebatido, a narrativa é inteligível, bem articulada, uma saga de lutas e incidentes.
     Recentemente, li “Um baiano romântico e sensual”, um livro escrito por João Jorge Amado, Paloma Jorge Amado e Zélia Gattai Amado. Os filhos e a mulher expõem a intimidade e a humanidade de Jorge Amado, desde seu encontro romântico com Zélia, suas ideias políticas, suas viagens pelo mundo, o apego aos filhos, aos netos e, aos seus amigos: Jadelson, Carybé, Pablo Neruda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, o poeta Emi Sião, Georges Moustaki, seu editor Alfredo Machado, Carlos Prestes, Anny Claude Basset, Edvaldo Pacote e Fernando Sabino.
     Esse livro fecha com o desespero de Jorge Amado quando descobriu sua deficiência visual irreversível e a consequente dificuldade de escrever, de produzir novos romances e a morte.
     Adonias Filho morreu aos 74 anos de vida, filho de Itajuípe, fazendeiro de fala mansa, jornalista, romancista, contista, crítico literário e remanescente do Modernismo. Hoje, seus romances são traduzidos para vários países e um dos ícones da nossa literatura baiana e quiçá nacional. Ele e Jorge Amado são expressões máximas de nossa literatura.
     Dentre suas várias publicações, destacam-se: Memórias de Lázaro, Luanda Beira Bahia e Corpo Vivo. O primeiro é um livro de memória literária de narrativas jocosas e ziguezagues na trama; o segundo livro, ele aborda as relações do Brasil e África através dos personagens-irmãos, Caúla e Iuta, ele, filho de Ilhéus, ela uma negra moradora de Luanda, não se conhecem e se apaixonam, nascidos dos dois lados do Atlântico, têm o mesmo pai, o marinheiro João Joanes, uma história dramática e surreal; o terceiro livro Corpo Vivo, narra as lutas e as violências nas terras do cacau. Cajango, seu principal personagem tem sua família assassinada, acolhido pelo padrinho Abílio e criado pelo índio, seu tio Inuri, cresce com sede de vingança, após formar um bando, vinga sua família e termina de mãos dadas com sua mulher Malva, depois que matou seu tio e o irmão dela, Leonel, numa serra inóspita e impenetrável da serra de Camacã.
     Euclides Neto, advogado, criador de cabras, político, ensaísta, cronista e escritor, também, integra o Planeta Letras. Um homem preocupado com os problemas sociais, com a distribuição de terra, quando prefeito de Ipiaú, implantou a “Fazenda do Povo”, dizia que a Reforma Agrária era o meio mais simples de gerar emprego. Foi Secretário de Reforma Agrária no governo de Waldir Pires, porém, foi como escritor que se notabilizou, inclusive, mereceu de José Saramago o comentário: “... se sei o que é escrever, Euclides Neto é bom escritor”. Suas produções têm com pano de fundo, as relações dos coronéis do cacau e os trabalhadores. Euclides Neto, pela qualidade e quantidade de sua obra literária, entra em qualquer lista que se faça dos escritores baianos.
     João Ubaldo Ribeiro, filho da Ilha de Itaparica, cresceu em Aracaju, foi professor da UFBa. Os seus livros mais conhecidos: “Sargento Getúlio”, “Política”, “Viva o povo brasileiro”, “O sorriso do Lagarto” e a “Casa dos Budas Ditosos”.
     Todavia, a bibliografia do autor é vasta: romances, contos, crônicas, ensaio, antologias, além de adaptações para TV e cinema. Foi traduzido para o alemão, dinamarquês, espanhol, francês, hebraico, italiano e sueco.
     Permita-me o leitor contar uma historinha que ocorreu comigo em Estância, interior de Sergipe, adquiri em Aracaju dois livros do escritor João Ubaldo Ribeiro: “O Sorriso do Lagarto” e “A Casa dos Budas Ditosos”. Li, logo, “O Sorriso do Lagarto”, leitura difícil entre o bem e o mal e, apressei-me para ler o outro livro pelo chamativo do título que me pareceu de base religiosa, que grosso modo, seria traduzido: “pela casa dos budas Felizes”, no entanto, a história é duma mulher devassa, libertina, que usa seu corpo para seduzir seus incautos clientes.
     O escritor João Ubaldo Ribeiro apresenta, desde o início, a história como a transcrição de uma gravação que recebeu de CDL, uma mulher de 68 anos de idade, que se apresenta como lasciva, dissoluta, compulsiva consciente de sexo sem culpa: “a vida é pautada pelo apetite sexual, e se resume a foder”, o livro é um texto de perversão, de sacanagem... Embora CDL justifique que escritores e filósofos já tivessem discorridos sobre sexo sem pruridos morais e censura, o sexo é natural, é o prazer maior da vida.
     Depois de lê-lo, a minha sobrinha tomou-me o livro emprestado quase a pulso, então, na casa do sem jeito, roguei-lhe que não o recomendasse aos seus irmãos menores de idade.
     Não conhecia o escritor Clodomir Xavier de Oliveira, mas certa feita, eu parei numa “banca” de publicações periódicas e comecei bisbilhotar os jornais e revistas, quando me deparei com “Pulu”, a priori, não me chamou a atenção: o livro tinha algumas páginas coladas e o dorso colado com fita adesiva transparente, mas o preço e a recomendação do jornaleiro que “o livro é de um escritor de Ubaitaba”, aí, eu o adquiri.
     Pulu narra a história da região cacaueira na planície do Rio das Contas, uma mistura de ficção e realidade. O autor tem a preocupação de registrar os hábitos locais e Pulu, uma morena ingênua e sensual, é a personagem principal, naquele mundo de roças de cacau e jagunços das terras de Ubaitaba.
     O sindicalista, o político e o escritor Clodomir Xavier de Oliveira, será incluído, decerto, na galeria dos grandes nomes da literatura regional do Sul da Bahia para sempre, pois o seu dom ficcionista é raro, seu estilo é simples, inteligível e, prazeroso para o leitor.
     Itabuna é uma terra rica de escritores e poetas. Sou um leitor contumaz, leio quase tudo, principalmente, com o advento da Internet, o acesso às produções literárias ficou muito mais fácil. Ultimamente, os poetas e escritores usam vídeos e textos nas Redes Sociais para divulgarem seus trabalhos, aí, mais fácil fica a leitura, o áudio e a imagem.
     Dentre os poetas e declamadores populares, gosto de Glória Brandão, Joselito dos Reis, Adeildo Marques, Clovisnaldo Argolo, Genny Xavier, Lourival Piligra Júnior, Ruy Póvoas, Expedita Maciel, Gislene Marques, Donaciano Macedo e Zélia Possidônio.
Abre parêntesis:
     A mídia itabunense, as academias de letras e as entidades culturais têm sido injustas com o maior escritor de autoajuda de nosso planeta letra tupiniquim, refiro-me ao escritor e jornalista João Batista de Paula, cearense de nascimento e itabunense de coração. João de Paula é criativo e inesgotável é sua produção de textos de autoajuda. Possui uma mente fértil, uma veia cômica, é um ás da imaginação, se ele fosse burilado, tivesse um editor competente e patrocínio editorial, seria igualado aos escritores de autoestima deste país e talvez do mundo como: Augusto Cury, Daniel Goleman, Anselm Gron, Simão de Miranda, Cristophe André e François Lelord e padre Marcelo Rossi.
     Pra justificar tudo que foi dito no parágrafo anterior, permitam-me transcrever o trecho de um recente texto que enviou para o Saber-Literário:
     “Nada é nosso! Nem o vento, nem o sol, nem a lua, nem as estrelas, nem a terra e nem o mar. Podemos até ter o desejo de posse, ou posse deles e achar que somos os donos e proprietários. Pura ilusão!
     Tudo passa e estas grandiosas coisas permanecerão como as pedras, que duram muito mais tempo no universo que vivemos.
     Então, sejamos homens presentes e de boas ações, porque voga muito mais...”
     Li e reli os seus livros: “Viva Bem”, “Você é importante”, “Proibido Ler (A bela face do mal)” e “A Bíblia do Inconveniente (O Impossível Acontece)”. Além disto, João de Paula é solidário, amigo, não é falso, não é esnobe, é prestativo, ele é gente de bem.
Fecha Parêntesis.
     Depois da fundação da ALITA, tive contato literário com Hélio Pólvora, Florisvaldo Mattos, Aleilton Fonseca, Walker Luna e Ariston Caldas. Não os conheço com profundidade, li, apenas, alguns poemas e textos esparsos desses poetas e ficcionistas, todavia, pela biografia, pela obra, são grandes autores do Sul da Bahia e referências literárias obrigatórias.
     Eles devem ser lidos e festejados pelos seus conterrâneos de Itamirim, Uruçuca e Itabuna. Hélio Pólvora morreu o ano passado, mas sempre será lembrado por suas obras e na história das academias, daqui e de Salvador. Na fundação da ALITA houve um episódio que sempre irei me lembrar: - na escolha dos patronos, escolhi Machado de Assis, meu escritor preferido, inclusive, ele é o patrono do Saber-Literário muito antes da academia de letras Itabunense. Hélio Pólvora condicionou seu ingresso à ALITA se o patrono também fosse Machado de Assis, pra não criar empecilho, escolhi Walker Luna, um grande poeta da Região.
     Seria injusto, em nosso passeio literário, esquecer as trovas de Francisco Minelvino, as irmãs Marília e Jasmínea Benício dos Santos, o patriarca Francisco Benício dos Santos, autodidata, historiador, deixou: “Aquarela, recordação e autobiografia”, aos textos com graça e humor de José Dantas de Andrade, “Dantinhas”, com os livros: “Espírito da roça”, “Documento Histórico e Ilustrado de Itabuna” e “Itabuna minha terra”, Ribeiro Gonçalves e Oscar Ribeiro Gonçalves com “Jequitibá da Taboca”, Manoel Lins, Antônio Lopes, Adelindo Kfoury e as crônicas diárias e os poemas de Plínio de Almeida.
     Jasmínea Benício escreveu 5 livros: “A vida cantada de Francisco Benício”, “Minha Rosa Vermelha”, “Devaneios e Saudade”, “Senhoras de Itabuna que se destacaram socialmente” e “Personagens Populares que marcaram o dia a dia de Itabuna”. Seus textos são cantos, são memórias de sua terra.
     Hoje, depois de sua morte, Jasmínea começa ser reconhecida por entidades culturais de Itabuna e intelectuais, mas ela está longe de ser popular, ou seja, ser reconhecida pelo povo.
     Marília e Francisco Benício produziram, também, bons textos: textos de viagem, experiências cotidianas e textos bucólicos. Acho que, Marília, Jasmínea e Francisco não ultrapassaram fronteiras, não pela má qualidade de suas produções, mas por terem produzido uma literatura lúdica, um hobby, escreveram, somente, pra colocar no papel suas experiências de Itabuna, do mundo, escreveram pra família e amigos e não para um grande público, isto é, não foram profissionais, foram sempre amadores das letras.
     Uma poetisa que ficará na minha memória para sempre enquanto eu existi é Valdelice Pinheiro. Conheci Valdelice na FAFI (Faculdade de Filosofia de Itabuna), na condição de aluno do curso de Filosofia, lembro-me que muitos colegas não desistiram do curso pela ascendência da professora Valdelice Pinheiro. Não que o curso não fosse bom, mas tínhamos compromisso que atender às demandas de mercado e o curso de filosofia, naquela época, não tinha mercado.
     Valdelice não é uma poetisa local, regional, mas universal. Pouco escreveu sobre Itabuna, rio Cachoeira e cacau, no entanto, ela fala de emoções, de amor, aqui, ali e acolá: - existência, origem, amor, medo, desencanto, obsessão, tristeza, alegria, Natal, Cristo, ecologia, seca...
     Escreveu pouco, afora alguns poemas esparsos publicados em coletâneas e periódicos, em vida fez: “De Dentro de Mim” e “Pacto ou Como São Francisco”. Em 2014, com o apoio da ALITA e do laboratório LIDI, seus poemas foram reunidos com sugestivo título: “O Canto Contido”.
     Meu poema preferido de Valdelice Pinheiro:
     “Teoria da origem
     Eu vim do musgo
     para o clarão de todas as esferas,
     Sou astro e relâmpago,
     água e flor.
     Caminharei nas ondas feito espuma,
     serei pó de estrelas
     e vento sobre o mar.
     Serei alga e musgo outra vez.”


     Querida poetisa será que um dia ainda iremos nos encontrar pra falar de filosofia e amor?...
     Conheci Ceres Marylise há 40 anos, numa viagem de Itabuna-Ubaitaba, naqueles tempos idos, a nossa preocupação maior não era o canto dos poetas, mas repor as nossas perdas salariais e melhores condições de trabalho no magistério do estado, portanto, nós fomos em missão sindical, não em caráter pessoal. De lá pra cá, pouco nos encontramos, mas na fundação da ALITA em 2011, nós passamos ter interesses comuns e tive o privilégio de descobrir uma grande poetisa.
     Em 2014, Ceres publicou seu livro: “Atalhos e Descaminhos”. O poeta Paulo Afonso Ramos foi objetivo quando disse: “A poesia de Ceres Marylise é apaixonante pela pureza que brota em cada verso. Têm metáforas de grande envolvimento que criam uma empatia imediata com o leitor e tem a lucidez de aflorar temáticas quotidianas que são a fonte de nossa vida porque nos correm no sangue por existirmos. A emoção também poderosa que, mais que poesia, é a demonstração inequívoca de estarmos perante uma excelente pessoa com uma sensibilidade apurada.”
     “Em alguns poemas nota-se um ritmo musical que fariam deles boas canções.”
     Dizer mais o quê?...
     Conheci Helena Borborema nos idos dos anos 60, ela ensinava Geografia e História no Colégio Estadual de Itabuna. Ela sobressaia-se de pronto pela elegância e altura (um mulherão), mas nos cativava pela doçura e inteligência. Ela levava o aluno aprender e não decorar, dizia sempre: “... o conteúdo decorado tende ao esquecimento e compromete a aprendizagem”.
     Alguns anos depois, ela é secretária de educação municipal, bati em sua porta e pedi-lhe uma bolsa de estudo para faculdade de filosofia (havia passado no vestibular), além da bolsa de estudo, custeou quase todos os livros, justificava essa atitude de Mecenas, que tinha sido um dos seus melhores alunos no ginásio e não podia parar de estudar por falta de dinheiro pra comprar livro.
     Helena Borborema deixou “Terras do Sul”, é uma autora bucólica, uma historiadora, cantou e exaltou a beleza do campo, exaltou os costumes e a vida dos camaradas das fazendas de cacau, compreendeu os jagunços, não como heróis, mas produto de uma sociedade perversa e primitiva. Descreveu as manifestações culturais e costumes de sua cidade: o comércio e a indústria de quintal, os mascates, os armazéns, a política dos coronéis do cacau, a euterpe da cidade, as praças, o rio Cachoeira, o folclores, as artes, os cinemas, as novas ruas que avançavam em becos e avenidas, o trem que apitava, o trem que transportava pessoas e cargas e, que eventualmente descarrilava, enfim, o progresso da antiga Tabocas, o progresso de Itabuna.
     Faz-se necessário esclarecer que inclui-la no planeta letra tupiniquim não é gesto de gratidão de um ex-aluno, é o reconhecimento de sua obra, que pouco e pouco, é exaltada pela nossa comunidade e reconhecida na região que já foi do cacau.
     Helena Borborema não escreveu ficção, não cultuava a poesia, talvez, pela formação profissional de professora de História e Geografia, acostumada com fatos e datas não com hipóteses, conjeturas, porém, como Cecília Meireles, Rubem Braga e Clarice Lispector, cultivou a crônica e escreveu as melhores do dia a dia do seu tempo e botou no papel, apenas, os causos reais.
     Fecho este texto, com os poetas que representam Itabuna lá fora: Firmino Rocha, Telmo Padilha e José Bastos. Na época que não havia Internet, Redes Sociais, WhatsApp, as informações não eram conhecidas em tempo real, foi incrustado numa placa de bronze, na sede da ONU, em Nova York, um poema de um poeta do interior da Bahia, de uma cidade sul-baiana um dos mais significativos poemas da humanidade: “Deram um fuzil ao menino” de Firmino Rocha:
     Deram um Fuzil ao Menino - Firmino Rocha: Adeus luares de Maio / Adeus tranças de Maria / Nunca mais a inocência/nunca mais a alegria / nunca mais a grande música / no coração do menino / Agora é o tambor da morte / rufando nos campos negros / Agora são os pés violentos / ferindo a terra bendita / A cantiga, onde ficou a cantiga? / No caderno de números / o verso ficou sozinho / Adeus ribeirinhos dourados / Adeus estrelas tangíveis / Adeus tudo que é de Deus / DERAM UM FUZIL AO MENINO.
     Telmo Padilha foi um poeta e jornalista itabunense de mancheia, agraciado com vários prêmios literários, aqui e lá fora, traduzido na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos, em França, na Alemanha e no Japão. Telmo deixou uma obra vasta (Girassol do Espanto, Onde tombam os pássaros, Pássaro da noite, Canto Rouco, o Rio, Noite contra noite, etc.), passeou com facilidade em vários gêneros literários, 20 anos já passaram de sua morte, mas ainda é hoje é lembrado nas academias, nos centros de cultura, nas faculdades e no coração do povo simples.
     José Bastos é o nosso poeta parnasiano, nasceu no Arraial de Água Preta atual Antique. Seu único livro: “Hora Lírica”, foi reeditado no Cinquentenário de Itabuna. “José Bastos”, hoje, é nome da praça e de rua. Morreu com 32 anos, vítima de tuberculose. Sua poesia é um louvor à natureza, da utopia, da estética do belo.
     Enfim, este documento não é um ensaio com referência, autores e datas, para mim, é uma crônica histórica refletida das minhas experiências, quando necessitei de alguma fonte, fi-la com aspas. Tive a pretensão de registrar os escritores e poetas baianos que na minha visão e reflexão são os melhores. Claro que não encerra em si este texto, nem é verdade absoluta, outras pessoas devem ter outras preferencias literárias, outras leituras.



Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna-ALITA 

Imagem: Google 

Ah, se o próximo fosse igual à humanidade... - R. Santana

 

Ah, se o próximo fosse igual à humanidade... - R. Santana

     Eu fico aqui, ruminando as minhas ideias, no meu cantinho, à Rua Cosme Damião, 69, São Caetano, distante alguns metros do mercado a céu aberto mais velho do mundo que se tem notícia, que remonta às mais antigas civilizações egípcias, gregas e romanas: a feira-livre. Os judeus faziam dos seus templos feiras-livres, tanto que Jesus Cristo os expulsou com chicotes de cordas: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2,13-25), no Século I, de lá pra cá, mudou só o local, de templo pra praça, pra rua, mas o comércio livre permanece no mesmo molde. Porém, a nossa reflexão de hoje, não é pra falar de vendedores e feiras-livres, mas pra falar do homem, de sua natureza, de solidariedade, de amizade, de amor, e do maniqueísmo bem e mal.
     Nelson Rodrigues foi feliz quando disse: “É fácil amar a humanidade, difícil é amar o próximo”. Recorrendo mais uma vez a Jesus Cristo quando questionado no meio de judeus, fariseus, escribas, hebreus, essênios, gregos, reduziu os “Dez Mandamentos” em: ‘`Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” e, “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, - pois toda Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos.
     Amar o próximo não é fácil, ainda mais, quando o próximo está próximo. O provérbio popular “quer conhecer o outro, é comer sal juntos”, é de um conhecimento metafísico, a proximidade demais só se enxerga defeito e não qualidade, pois na intimidade o outro se expõe, se desnuda, aí fica difícil amá-lo.
     Diferente de Rousseau, o homem é de natureza má, a sociedade o torna bom. O nosso arquétipo atual de homem é diferente do homem de Thomas Hobbes O homem é essencialmente mau, bruto, animal, mas a educação e a instrução deixam-no humano e sociável.
     De acordo Claude Lévi-Strauss “o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro”, a função da sociedade através estado, é desenvolver esses mecanismos para que homem viva e conviva em seu meio ambiente de forma inteligente e civilizada. Se fosse possível voltar ao Homo erectus, ao Homo sapiens, ao homem de Neandertal, constatar-se-ia que a herança biológica é a mesma do homem atual, não houve evolução darwiniana, o homem não evoluiu do macaco, porém, a herança comportamental é diferente, esses homens eram animais e não “personas”, pessoas, ou seja, eles eram “bichos”, movidos por instintos primitivos, de sobrevivência, alguns nômades e outros sedentários.
     Mesmo com as boas competências socioemocionais, culturais, políticas e religiosas, adquiridas pelo homem ao longo do tempo, potencialmente, ele é egoísta, predador, possessivo, corruptor, passional, narcisista, sádico, torturador, desonesto, infiel, covarde, invejoso, falso e criminoso.
     Estimado leitor, faz-se necessário esclarecer, que grosso modo, o sujeito isolado, não desenvolve e não possui toda essa carga de emoções negativas, salvo, uma personalidade de distúrbios mentais sem limite, uma personalidade psicótica. O sujeito de atitudes consideradas “normais”, através da educação e da cultura, desenvolve sentimentos que o aproxima mais do seu próximo, a exemplo de generosidade, de lealdade, de fidelidade, de humildade, de gratidão, de coragem, de amizade, de solidariedade e de amor.
     Esses sentimentos não são psicogenéticos, hereditários, atávicos, isto é, não estão inscritos nos genes, no DNA; são sentimentos psicossociais, ou seja, adquiridos pelo sujeito por influência do seu grupo social ou de outros grupos sociais.
     No Século XIX, o médico e antropólogo criminal, Cesare Lombroso, sustentou a tese de que o sujeito nasce com predisposição criminosa, herança genética irreversível, como se fosse uma doença crônica, que se mantém latente com paliativos, jamais se obtém a cura definitiva. Ele até escreveu alguns ensaios científicos como identificar um criminoso pelas suas características físicas e patrimônios atávicos, que hoje, são referências históricas, literárias, mas sem validades científicas.
     Parece contradição dizer que o homem é essencialmente mau acima e contradizer Lombroso, porém, existe uma diferença significativa, não é porque o homem nasce de natureza má e necessariamente vir a ser um criminoso. O homem é como o barro de oleiro, essencialmente barro, todavia, ele poderá moldá-lo em tijolo, panela, brinquedo lúdico, tigela, etc. Por conseguinte, a matéria prima é a mesma, mas a finalidade é diversa.
     O homem é o único animal inteligente (os demais têm comportamentos inteligentes e a maioria absoluta age por instinto), além de vontade e discernimento, portanto, ele determina o seu destino. Ele não nasce “pronto”, mas constrói sua história de vida, evidentemente, com a influência do seu meio ambiente, ele tem livre arbítrio pra escolher se quer ser uma pessoa do mal ou uma pessoa do bem, ele é “santo e pecador”.
     Porém, não obstante a capacidade de escolha do homem, do seu livre arbítrio, de mecanismos psicológicos (dissimulação, reflexão, sublimação, racionalização, compensação, etc.), ele está sujeito a certos mecanismos sociais de limite e convivência: leis, normas, respeito às tradições, religião, política de governo, política de estado e, princípios éticos e morais.
     A violência, os crimes contra vida, os crimes de conduta e os crimes ambientais têm sua origem na deficiência de educação, na deficiência de instrução, na ausência de políticas públicas de cidadania, na ausência de políticas públicas de combate à miséria (não confundir com assistencialismo), no afrouxamento das leis, na deficiência de outras políticas de estado, de governo, e, na ausência de princípios religiosos, morais e éticos, porque ninguém nasce criminoso, ladrão, estuprador, predador...
     Enfim, o próximo não é igual à humanidade, o próximo é o repositório de fatores instintivos do comportamento, de linguagem articulada, de fatores conscientes, de razão, enquanto a humanidade é a sublimação do gênero humano, a purificação... O pensamento “é fácil amar a humanidade, difícil é amar o próximo” é emblemático, embora humanidade se refira à natureza humana, às características humanas, é um conceito ideal, abstrato, não é palpável quanto o homem, o próximo, que se é indiferente, que se odeia ou que se ama.

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de letras de Itabuna

Imagem: Google

Zé Pequeno - R. Santana

 

Zé Pequeno R. Santana

Zé Pequeno
R. Santana

- Teja prezo!
- Num Tejo - acrescentou:
- Dunde vem filhoti de anum?
- Sô artoridade da poliça!
- Disde qoando nigro é artoridade?!
- Cê num tá mi respêtando seo Virbo!
- Um neguin di seo tamanho, dô de xicote...

Verbo tinha flagrado sua mulher com outro na cama no “sapeca iaiá”, matou a mulher a tiro de espingarda de caça de veado campeiro e, decepou o pescoço do indivíduo com afiado biscol de podar os cacaueiros e cabrocar as capoeiras. O crime foi brutal, comoveu os habitantes do “Fuminho” e os habitantes da cidade itabunense, não porque ambos não merecessem morrer (era o costume da época, pagar com a morte, a infidelidade conjugal), mas pela forma como eles foram executados: nus e indefesos.
As más línguas juravam de pés juntos e mãos em oração que Verbo era galhudo fazia muito tempo por um rapaz que poderia ser filho seu ou de Clô, porque o sedutor tinha pouco mais de 18 anos de idade. A vizinhança cochichava sobre a sem-vergonhice de sua mulher, mas ninguém tinha coragem de dizer nada ao marido, primeiro, pela imprevisibilidade de sua reação; segundo, pela fama de valentão que Verbo tinha em toda zona do cacau. Soube-se depois que ele tinha recebido uma carta anônima e simulou, naquele dia fatídico, uma pescaria, voltou do caminho e os flagrou na descaração!...
O “Fuminho” não era um vilarejo, tampouco um bairro, mas um pequeno aglomerado de casebres dentro das roças de cacau sem ruas, mas de caminhos abertos pela enxada e definidos pelos pés dos moradores. Conta-se que o apelido do lugarejo surgiu com o roubo de umas bolas de fumo do outro lado do rio Cachoeira, na cidade itabunense e, os ladrões perseguidos pela polícia atravessaram o rio e se esconderam do lado de cá, no lugarejo, apelidado depois de “Fuminho”, hoje, São Caetano.
Verbo era um cariboca com quase 2 m de altura, de forte compleição física, temperamento irascível, com pouco mais 40 anos de idade. Clô tinha a mesma faixa etária, morena sensual, longilínea, lábios grossos, mãos compridas e pernas torneadas e porte de rainha, um desperdício de mulher dentro das roças de cacau. Eles eram casados há 20 anos e ambos frustrados por falta de filho. Este, talvez, foi o motivo do adultério de Clô.

Naquele início de semana, o delegado de calça curta, Célio Marques, chamou seu inspetor ajuramentado para uma conversa a sós:
- Compadre Zé, eu tenho uma missão pra você!
- Sô toudo ovido cumpadre...
- Você Sabe que nesta delegacia, eu tenho dois meganhas, mas nenhum com sua inteligência e coragem... – passou “sabão” e continuou:
- Quero que vá buscar o homem que matou a mulher e o amante lá no “Fuminho”!
- O tá do Virbo?
- Sim!
- Suzinho cumpadre?
- Frouxaste, homem!? – não esperou a resposta:
- Chame o soldado Barbosa!
- Vô pricisar de 2 cavalus!
- Vá pela ponte dos velhacos na Abissínia, logo depois, na estrada de Macuco encontrará a Fazenda Santa Fé de compadre Tertuliano, peça-lhe emprestado em meu nome...

Zé Pequeno e Barbosa chegaram ao “Fuminho” pouco antes das 18 horas, naquele ermo de mata fechada estava tudo escuro. Barbosa e Zé Pequeno pernoitaram na casa de um conhecido. Na alvorada do dia, eles foram atrás de Verbo com auxílio de um guia que tremia como vara verde e, distante uns 30 m da casa do assassino, ele lhes deixou à própria sorte e “pernas que te quero” de volta pra casa.
Zé Pequeno, filho de Xangô e Iansã, protegido por todos os orixás, desconfiado e escorregadio, não tocaiou Verbo pela frente de sua casa, o esperou no caminho do córrego que era costume ele se banhar ao Sol nascer, de acordo o guia que lhes levou, o córrego não ficava muito longe da casa do valentão.
Não demorou muito, um pouco mais de um quarto de hora, apareceu Verbo no caminho com uma saboneteira na mão e uma toalha no ombro, quando foi confrontado por Zé Pequeno e o Soldado Barbosa:

(...) - Um neguin di seo tamanho, dô de xicote!
- Espremente!
Verbo deixou cair a toalha e a saboneteira e enviou-lhe uma tapona, mas o inspetor juramentado desviou o rosto e o tapa pegou de cheio no soldado Barbosa que caiu rolando pelo chão, ao mesmo tempo, Zé Pequeno deu três mariscombonas pra trás e três pra frente e num chute atingiu a caixa de peitos de Verbo que se desmoronou, mas ligeiro como um gato, levantou-se e partiu pra cima do adversário de cabeça (Zé Pequeno esquivou-se da cabeçada em um giro de 360º), em vão, bateu as fuças no chão, rolou, levantou-se e encontrou o soldado Barbosa de frente, empunhando um revólver, que lhe deu ordem de prisão:
- Teja prezo!!!
- Num tejo! – com a velocidade e um raio, deu uma cambalhota no ar e golpeou o adversário com os calcanhares, jogando longe o revólver.
- Dexe cumigo sordado!!!
Zé Pequeno deu uma rasteira em Verbo, já cansado, ele caiu como uma jaca, estatelado, o negro não lhe deu chance, num voo de morcego, deu-lhe uma tesoura, imobilizando-o por definitivo e gritou:
- Sordado traiz uma curda!!!
Às 10 horas daquele dia, para assombro e vivas dos moradores, passava pela “rua” principal do lugarejo, preso, amarrado e escanchado no cavalo, o tal Verbo, criminoso desalmado de sua mulher e de seu amante.
Ali, naquele confim de mundo, começou a Lei Maria da Penha!...


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Itabuna, 10.08.2017

Deitei o “Rei” no xadrez da Academia de Letras de Itabuna – ALITA / R. Santana

 


Deitei o “Rei” no xadrez da Academia de Letras de Itabuna – ALITA R. Santana

Deitei o “Rei” no xadrez da Academia de Letras de Itabuna – ALITA
R. Santana


Em um jogo de xadrez o “Xeque-Mate!” é pra quando o jogo chega ao fim, porém, nem sempre é assim, quando o adversário tem menor número de peças e o bom senso indica que não existe saída aí, ele “deita o rei”, simbolicamente, ele abandona o jogo, dá-se por vencido, foi o que ocorreu comigo em relação à Academia de Letras de Itabuna – ALITA: - Deitei o rei!...

Não tenho mais motivação nem força pra continuar lutando contra o despotismo e o maquiavelismo de Cyro de Mattos e Sônia Maron. O primeiro, se assenhorou da entidade, indicou mais da metade de seus membros de fidelidade canina, hoje, ele manipula todo o colegiado a seu bel prazer; a segunda, em nome de uma amizade septuagenária, endossa todos os seus atos e transfere-lhe suas responsabilidades acadêmicas.

“Deitei o rei” porque ousei ter uma postura não atrelada aos interesses de outrem, me insurgir contra o domínio da entidade acadêmica, por extensão, o domínio de seu site e da revista “Guriatã” tão bem engendradas pelo escritor Cyro de Mattos. No site e na revista, suas produções literárias são a vitrine dessas mídias.

“Deitei o rei” por rebelar-me em meu diário on-line “Saber-Literário”, contra esse domínio, contra essa maquinação, essa eminência parda, por isto, recebi no início da gestão da Dr.ª Sônia Maron, uma “advertência” protocolada e a “proibição” (ela cancelou o meu e-mail da relação de endereços eletrônicos da academia), para participar de reuniões ordinárias, extraordinárias e eventos. Mais recente, no dia 10 de março do ano em curso, a “diretoria” da ALITA publicou em sites e jornais, um “Termo de Desagravo” que me atingiu moral e eticamente, com calúnias, injúrias e termos desairosos.

Não obstante o meu “alijamento”, eu continuei contribuindo de acordo o Regimento, com 10% do salário mínimo de maio de 2011/agosto de 2017, sem faltar um mês sequer.

Abre Parêntesis:

Além de membro fundador da ALITA, fui o seu primeiro tesoureiro e cuidei com cuidado a gestão do dinheiro da entidade e fui “campeão” de presença no dizer do seu presidente. O presidente, naquela época, Dr. Marcos Bandeira, fez a instalação e posse dos seus membros, com Buffet contratado com recursos próprios, no auditório da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Itabuna – FTC, e, ainda tínhamos uma funcionária efetiva.

Marcos Bandeira não se deixou tutelar, fez uma administração ímpar, agregadora, sem sectarismo, sem intolerância, sem preferência individual, democrática. Fez com a diretoria, o Regimento e o Estatuto da ALITA, para que ela deixasse de ser uma hipótese, desejo de alguns, para tornar-se um fato, uma pessoa jurídica, assim, ele a habilitou seu reconhecimento como entidade cultural pelas autoridades municipais, estaduais, federais, e os filantropos, os mecenas da cidade.

Com a eleição da Dr.ª Sônia Maron, para presidente, perdemos ou deixaram de frequentar à academia, membros importantes do ponto de vista da cultura e das letras e das artes, o escritor e jornalista Antônio Lopes, as poetisas Genny Xavier e Marialda Jovita Silveira, Gustavo Fernando Veloso Menezes, Antônio Laranjeira Barbosa, dentre outros. Com devida vênia, a ex-juíza, Dr.ª Sônia Maron, não teve capacidade para aglutinar cabeças pensantes diferentes, produzir literatura, nem a promoção sociocultural da academia, a exemplo de doutor Ivann Krebs Montenegro, na sua coirmã AGRAL.

Fecha parêntesis

Depois da posse da confreira Silmara Oliveira, na presidência da ALITA, em 19 de abril deste ano, escrevi um e-mail e lhe solicitei uma entrevista com o objetivo de solucionar os meus problemas de relacionamento com a ALITA. Encontramo-nos no Shopping Jequitibá com sua vice-presidente, a professora Lurdes Bertol. Levei uma pasta com todos os documentos que tinha sobre a academia, embora tenha se apresentado como uma “pessoa de diálogo”, eu percebi que não haveria evolução em nossa conversa, os dignitários da direção condicionaram afastar-se da entidade com a minha presença, mesmo assim, acordamos que ficaria ciente das atividades da ALITA, que não seriam divulgadas no “Saber-Literário” sem a sua anuência. Hoje, penitencio-me da minha incompetência, fui incauto com meu gesto de humildade e aproximação, pois ela foi indicada e sacramentada na presidência da ALITA, pelos senhores Cyro de Mattos e Sônia Maron.

Faz-se necessário esclarecer que a atual presidente, professora Silmara Oliveira, é uma pessoa competente, bem articulada, administrou com lisura e desenvoltura, o Memorial Adonias Filho em Itajuípe, todavia, politicamente, não seria a pessoa mais indicada para dirigir a ALITA neste momento, pois mora e trabalha em outra cidade, não tem trânsito livre nem é conhecida pelas autoridades locais nem pela comunidade itabunense. Evidente, ela foi envolvida com “presente de grego” por mentes ardilosas com o objetivo de continuarem no comando da entidade das letras itabunenses.

No dia 14 de julho, publiquei no Recanto das Letras e noutros sites de literatura um quase “ensaio” com o título: “Digressões Literárias”. Pelo fato do site da ALITA, as produções não são renovadas com frequência, enviei uma cópia para diretora do site, a confreira Raquel Rocha, que pra minha surpresa foi publicado, mas a minha alegria durou pouco - ainda brinquei com minha esposa: “olhe, eles publicaram” - , menos de uma semana depois o texto foi deletado. Então, enviei 2 e-mails para presidente para conhecer o motivo da eliminação do texto, tive como resposta o silêncio, o descaso.

Nesse “ensaio” fiz uma digressão, um “passeio” com os autores baianos, aqueles poetas e escritores que admiro sem nenhum estudo técnico. Deixei claro que me expressava como leitor, que outras pessoas poderiam ter outra opinião de acordo seus princípios e leituras literárias.

Enfim, não irei renunciar (eles que resolvam, juridicamente, a minha permanência ou não no quadro da ALITA), apenas, irei me afastar por tempo indeterminado até que os ventos mudem de direção. Não tenho mais tempo nem saúde pra ficar cuidando de egos inflados, cabeças não resolvidas e a mesquinhez do nada. Rilvan B. Santana – Itabuna, 13 de agosto de 2017
Rilvan Santana

O velho e o menino - R. Santana

 


O velho e o menino - R. Santana

Estava sentado no banco da praça “X” quando fui atingido por uma bola e atrás da bola um menino, de chofre lembrei-me do saudoso locutor Nilton Silva que na sua “Voz do Povo” (rede de alto falantes), alertava os motoristas: “Cuidado motorista, atrás duma bola vem sempre uma criança!”, Nilton Silva, aliás, conhecido por amigos e inimigos pelo apelido de “Lagartixa”, era um

sujeito pretensioso em sua simplicidade, às 4: 00 h da manhã, ele acordava os moradores com seu programa sertanejo, mas antes anunciava: “Amigos e amigas, bom dia! A “Voz do Povo”, do seu estúdio, à Avenida Princesa Isabel, 1020, Bairro São Caetano, a partir de agora, fala para Itabuna, o Brasil e o mundo!...”.
De quando em vez, eu o caçoava: “Lagartixa os seus alto-falantes são ouvidos, somente, no São Caetano – e, olhe lá! -, não Itabuna, Brasil e mundo, ah ah ah...”, ele justificava: “Os nativos daqui são itabunenses, mas há gente de Sergipe, de Alagoas, de Pernambuco, etc., ou seja, gente de outros brasis, e, gente português, espanhol, inglês, logo, do mundo” – fazia sentido... Aí, dei-me conta do meu devaneio quando um loirinho me tocou:
- Vô, desculpe, foi sem querer... – fiz-me de zangado:
- Garoto, quase quebra meu óculos! - Mas... mas... eu... eu lhe pedi desculpas... – com cara de choro.
- Oh, não precisa chorar garoto! – brinquei:
- Homem não chora! – selamos nossa amizade com um toque de mãos espalmadas, depois com o toque das mãos em punhos:
- Seu nome?
- Paulo Guilherme! – mais descontraído:
- E o seu, vô?
- Narvil!
- Hum... hum...que nome bonito!
- O meu nome é comum, mas o seu é cheio de significado: Guilherme foi um grande rei normando, cujo codinome era o “Conquistador”; Paulo um líder de todos os tempos da religião cristã, um apóstolo de Jesus Cristo!
- Uau!!! Você é sábio!?
- Quê sábio!?...
- Meu pai disse que os velhos são sábios...
- Paulinho, seu pai quis dizer que “alguns velhos são sábios”, não foi?
- Não sei!
- Você tem quantos aninhos?
- Seis!
- Já sabe ler e escrever? – acrescentei:
- Paulinho, quer ler aqueles nomes?
-Mi...xi... mixi... ri... cas...”Mixiricas!”; de...ta...lhes...”Detalhes!”; so...a...res...”Soares!”; con...sul...”Cônsul!”...
- Parabéns, Paulinho!
- Vô, ainda não leio de uma vez... gaguejo... não é?
- Paulinho é assim no início, com o tempo, você irá ler corrido igual um trem bala!
- Você gaguejou quando era pequeno?...
- Pior, Paulinho! Na sua idade, eu ainda estava no ABC, não soletrava. A professora lia corrido o alfabeto, depois furava um buraco numa folha de papel, colocava aleatoriamente o buraco do papel na letra e perguntava: “Quê letra é esta?”, se errasse...
- Se errasse, vô?
- Bem... se errasse, ela dava na mão com palmatória!
- Palmatória é o quê?
- É uma peça circular pequena de madeira com um cabo (eu a desenhei no chão do jardim), antigamente, quando o aluno não acertava a lição, ele tomava “bolo” nas mãos!
- Tia Ruth não me bate, quando não sei a lição, eu fico de castigo pra pensar!
- E, quando sabe a lição?
- Eu assisto aos filmes, desenhos na TV e, uso os brinquedos da escola!
- Ufa!... Quais são os filmes e desenhos que você gosta?
- Peppa Pig, Os Três Porquinhos, Capitão América, Homem Aranha, Frozen, Dora, Chaves, Patati Patatá, Atchim e Espirro...
- Um bocado, né?
- Sim!
- Mas... os que você mais gosta?


- Vô, gosto muito de Chaves, Capitão América, Homem Aranha, os brinquedos eletrônicos e os jogos pra encaixar peças!
- Paulinho, eu tenho inveja de sua época, na minha época, não havia esses super-heróis em DVD, os heróis vinham em revistas de quadrinhos, literatura de cordel, depois surgiram as revistas de Walt Disney e histórias de livros escolares, aliás, não havia TV, não havia videogame, brinquedos educativos, etc., até as novelas eram radionovelas!
- Vocês brincavam de quê?
- Paulinho, as nossas brincadeiras contribuíam para o desenvolvimento da mente e do físico mais que hoje. As meninas brincavam de boneca, bambolê, pular corda, amarelinha, esconde-esconde; os meninos, de peteca, jogo de bola, de carrinho de rolimã, de pipa, de esconde-esconde, de pega-pega, de gude, de corrida de bicicleta... – fomos interrompidos por 2 casais de pombos.
Paulinho é um menino precoce, mas como todo menino de sua idade, os passarinhos, as aves, os cachorros, os gatos, os cavalos, os jegues, enfim, os animais, exercem um fascínio que as crianças e os adultos não resistem. Ele me deixou sozinho sentado no banco da praça e, tirou do bolso um pacotinho de biscoitos de chocolate e começou alimentá-los, os pombinhos, num instante, ficaram seus amigos e ele foi puxando-os para um canto distante de onde estávamos. Quando não mais havia farelo de biscoito, os pombos bateram asas e voaram.
Paulinho voltou para mim, quis lhe falar que não era sábio, pois cada um é sábio de sua sabedoria, que de acordo o nosso pensador Paulo Freire: “Não há saber mais nem saber menos, há saberes diferentes”, e, daria o exemplo que ele sabia todas as histórias dos super-heróis atuais, enquanto eu não sabia nada, porém, tal conversa havia sido esgotada, por isto, puxei conversa que mais lhe agradaria naquela hora:
- Cadê os pombos?
- Quando terminou o biscoito, eles voaram!
- Você não ficou zangado, Paulinho?
- Não vô, é assim mesmo, quando eu como, vou brincar, capo o gato!
- Você gosta dos bichinhos, né Paulinho?
- Minha mãe me ensinou gostar! Lá em casa ninguém mata nem formiga, meu pai é médico, diz que os bichinhos têm vida, só Deus tem o direito de tirar a vida. Você gosta dos bichinhos, vô?
- Claro!
- Vô, meu pai tem uma fazenda não muito longe daqui. Lá têm cachorro, boi, vaca, cavalo, égua, frutas, verduras, e, no fundo da casa principal, ele fez um jardim com muitas flores!


- Flores?
- Muitas flores... rosas.... jasmins... orquídeas... antúrio... helicônias... hibisco... bastão-do-imperador... gengibre ornamental.... muitas flores, vô!
- Você as reconhece pelos nomes, Paulo Guilherme?
- Sim!
- Quem lhe ensinou?
- Minha mãe!

- Eu sou um ignorante, não sei diferenciar uma orquídea amarela de uma orquídea vermelha, aliás, eu não reconheço nem... uma rosa branca de uma rosa rosa!...
- Verdade!?
- Sim!
- Pois vô, eu converso com as flores, com meu cavalinho “Zé Pequeno” e minha vaquinha “Gerusa”!
- Os animais e as flores entendem sua fala?
- Sim!
- Sim? Por quê?
- No jardim, quando chego, elas estão murchas, pra baixo, quando eu chamo cada uma pelo nome, elas começam abrir-se... dentro de pouco tempo, tudo está florido e bonito!
- E os animais?
- Eu passo a mão pelo lombo, chamo-os também pelo nome, daqui a pouco, eles tão saltitantes e alegres!
- Cuidado com coices!
- Vô, não foi rápido, primeiro, o vaqueiro fez um trabalho de domesticação, depois foi minha vez! – foi interrompido por sua mãe:
- Paulo Guilherme, vamos embora! – ele me apresentou:
- Minha mãe, seu Narvil, ele, agora, é meu vô, ele é maneiro! – cumprimentamo-nos e, fiquei de visitar sua casa no Góis Calmon, por fim:
- Tchau, vô!
-Tchau, Paulinho!...


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna
Fonte (figuras): Google

 

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