11.05.2025

“O Corcunda de Notre-Dame” - R. Santana

 


“O Corcunda de Notre-Dame”

                                                              R. Santana

     Não! Não! Não é o “Quasimodo” do romance de Victor Hugo. Não é o homem coxo e deformado que tocava os sinos da Catedral de Paris, o homem que se apaixonou pela cigana Esmeralda. A cigana que foi vítima de Cláudio Frollo, que amou Febo e foi amada até a sepultura por Quasimodo. O nosso “Corcunda de Notre-Dame” chamava-se Raimundo Pinheiro, mas gostava de ser chamado de “Pinheirinho”. Pinheirinho tinha certo mondrongo nas costas, todavia, andava mais ereto do que Quasimodo e não tinha o olho comprometido, sua postura era quase normal em relação ao monstro de Victor Hugo.
     Alguém com fumos de intelectual lhe deu o apelido de “O Corcunda de Notre-Dame”, certo seria se lhe fosse dado: “O Corcunda de São Caetano”, mas brasileiro é pedante, adora estrangeirismos, notadamente, os galicismos e os anglicismos, lhe deu o apelido francês. Tanaguchi jura de joelhos e mãos em oração que o brasileiro tem complexo de cachorro vira-lata, não perdeu ainda o complexo de inferioridade ao longo dos anos, sempre o que é de fora é mais bonito e mais genial.
     A maioria dos meninos, a faixa etária não passava dos 8 anos idade, Raimundo Pinheiro deveria, naquela época, ter uns 16 anos de vida, mas esta diferença de idade não nos afastava, mas nos aproximava pelo seu diferencial, é que Pinheirinho era desenhista e um exímio construtor artesanal de brinquedos de madeira, principalmente, os caminhões da “Ford”, da “Chevrolet” e da “Mercedes Benz”. Ele era fascinado pelos modelos da “Mercedes Benz”, e os construía com tanta perfeição que os modelos das lojas de brinquedos daquela época perdiam longe: cabina, volante, faróis (alimentados por pilhas de rádio), rodas revestidas de borracha, carroceria, estepe, buzina, pintura e etc.
     Pinheirinho era o nosso “Pop Star”, todos o admiravam, não havia bullying por causa do seu defeito físico, quando ele admoestava algum moleque, este fugia e saía gritando: “Corcunda de Notre-Dame!”, “Corcunda de Notre-Dame!”, “Corcunda de Notre-Dame!”, ele não xingava, não corria atrás para um corretivo no moleque, não se sabe se por dificuldade de locomoção, devido sua deformidade ou por sua natureza cordata, ninguém nunca o tinha visto numa briga nem falar um palavrão, era adolescente gentleman.
     Pinheirinho não tinha a altura de sua idade, era pequeno e rechonchudo, transitava bem entre os adultos e os meninos mais novos e, sem complexo. Alegre, festeiro, doido por festa junina e carnaval. No São João, ele não tomava licor de jenipapo, nem ponche, nem outra bebida que contivesse álcool, empanturrava-se de canjica, milho cozido e assado, pamonha e amendoim. Depois que se empanturrava de comida de milho e suco de jenipapo, reunia a garotada da rua, cada um com sua mochilinha de fogos, acendia a fogueira de sua casa e liderava os moleques na queima de bombas, traques, chuvinhas, cobrinhas e traques de bater, se algum moleque trouxesse uma bomba mais potente, ele não deixava explodi-la, evitava acidente. Se algum fogo desse chabu por defeito de fabricação, ele não deixava reutilizá-lo e alertava: “... pode explodir!”
     Quando chegava perto de meia noite, os fedelhos eram recolhidos pra cama pelos pais, enquanto Pinheirinho ia balançar o esqueleto no forró dum vizinho de sua casa, então, participar de quadrilhas juninas no caramanchão da praça. Às vezes, era barrado nas festas por causa de sua altura, mas como era festa de família, festa folclórica e como era dado com todos, sempre era admitido no ambiente, aparecia alguém pra argumentar: “ele só não tem tamanho, mas pegou carona na arca de Noé, kkkkk”, assim, tornou-se o festeiro oficial da pequena comunidade do Bairro São Caetano.
     No carnaval, ele fazia sua própria fantasia com folhas de tabuas pintadas e capim seco, por mais que soubéssemos que aquele “bicho” de máscara era Pinheirinho, corríamos de medo. Como não tinha dinheiro pra comprar lança-perfume, enchia uma mamadeira de água de cheiro natural pra esguichar na molecada. Os confetes e os adereços eram dados pelos seus pais. Ele gostava de lançar confetes nas moças de sua idade como galanteio.
     Para nós, os fedelhos, ele era admirado por seu artesanato, por sua arte, seu gênio criativo e os adultos admiravam-no pela promoção de festas nos feriados. Os adultos participavam com os recursos, Pinheirinho com as ideias e a execução. Não me lembro da data, mas lembro-me que em agosto, um dia do mês era reservado pra atividades folclóricas. Os adultos gostavam brincar de cabra-cega no pote, pau-de-sebo, corrida de saco e corrida de jegue. A meninada brincava de carniça, de amarelinha, de esconde-esconde, de gude, passa anel, as cinco-Marias e empinar papagaio.
     Pinheirinho também era aficionado por jogo de bola, um perna-de-pau, os homens não o deixavam jogar, sua deformidade era um empecilho físico, por isto, ele recorria à tolerância dos meninos, o importante não era competir, mas participar.
     Torcedor abusado quando seu time de várzea jogava, certa feita, quase foi agredido por um jogador de outro bairro que não o conhecia, alguém mais forte interveio: “olhe rapaz, você é grande e forte, não tem vergonha de agredir o nosso pequeno gandula!?”, o jogador se desculpou e voltou pra o campo.
     Naquele dia, o céu em bruma ameaçava grande queda de chuva, todos os habitantes sem saber o porquê sentiram um enorme presságio, um arrepio coletivo inusitado, uma premonição, é que chegou a notícia de morte prematura por afogamento de Raimundo Pinheiro, o nosso querido Pinheirinho. As explicações vieram logo: ele tinha por costume tomar banho todas as tardes, já perto de anoitecer, no Rio Cachoeira, este rio em tempos idos, quando ainda não era poluído, era bom pra nadar e pescar e foi na pesca que o nosso bom e querido “Corcunda de Notre-Dame” se foi ao pescar um acari.
     O Acari é um peixe cascudo de tamanho pequeno que gosta de se entocar nas pedras, é muito apetitoso quando cozido em óleo de coco e dendê. Há uma técnica apropriada pra lhe pescar, o pescador não pode de nenhuma forma puxar o acari com a mão por cima, pois ele incha e o pescador fica com a mão presa entre as pedras e ninguém pode salvá-lo. Os pecadores profissionais não correm esse risco, usam um arpão e o fisga sem nenhum dano.
     Pinheirinho foi vítima dum miserável acari! Ele nadava que só piaba, pescador de quatro costado, era useiro e vezeiro na pesca do cascudo, mas nesse dia, sem arpão, meteu a mão na toca erradamente e lá ficou.
     Estirado no caixão, Pinheirinho parecia um anjo, seu mondrongo assentou-se e, horizontalmente, dormiu pra sempre! Morreu o nosso “Quasimodo”, morreu nosso herói!...

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

A noiva que saiu do túmulo - R. Santana

 


A noiva que saiu do túmulo - R. Santana

     Tabitha Gabiele ia recostada no confortável banco de detrás da limusine. Trajava-se com vestido de noiva trabalhado, de véu, cabelos bem penteados, ostentava na cabeça uma coroa de flores de cristal, brincos cintilantes nas orelhas, sapatos de camurça de salto alto, anel de noiva da Tiffany no dedo anelar direito, buquê nas mãos e rosário entre os dedos, um look perfeito, um look de princesa.
     A limusine rosa de Tabitha saiu de algum lugar de Brotas, destino à Igreja Nosso Senhor do Bonfim, localizada na Sagrada Colina, na cidade de Salvador. A limusine desceu a ladeira dos Galés, trafegou com cuidado a Rua Djalma Dutra até o Largo das Sete Portas, aí, dobrou à esquerda e saiu na avenida J. J. Seabra e segue em frente, pouco tempo depois, chega ao Largo de Aquidabã, dobrou à direita e atingiu o túnel Américo Simas, trafega pela Avenida Frederico Pontes, rumo ao Largo da Calçada, seguiu por ruas e transversais até o Largo dos Mares, saiu na Barão de Cotegipe, depois na Avenida Fernandes da Cunha, de lá, o motorista chega à Praça Irmã Dulce, quando deu início ao final da viagem pela Dendezeiros...

     Enquanto o carro trafegava em ruas e avenidas com paradas obrigatórias, Tabitha refletia sobre os 5 anos de namoro e noivado com Andreas Folic. Conheceram-se no final do curso de medicina da UFBA, depois de diplomados e feitos os cursos de residência médica, noivaram e marcaram a data do casamento e aquele dia seria o dia D.
     Optou por um casamento tradicional e elegante, mas sem exageros nem extravagâncias, não gostava de nada espalhafatoso, a discrição e a sobriedade eram suas marcas. Católica praticante, amiga do bispo e do pároco, obteve autorização pra se casar em outra igreja, de maneira especial, a Igreja Senhor do Bonfim.
     Naquele dia, ela pediu aos pais que lhe esperassem no átrio da igreja até o início do ritual de entrada, queria chegar sozinha: sem os pais, sem padrinhos ou damas de honra de casamento.
     Não trocou uma palavra com o motorista, o pobre do homem tentou ser agradável, mas em vão, pediu-lhe, apenas, que se livrasse do congestionamento o quanto possível, pois o casamento estava marcado para 20 horas e o relógio já passava das 19h30 min, gostaria de assistir a missa de início.

                                                                                          ***


     Vincenzo e Antonella estavam impacientes, pois àquela hora, sua filha ainda não havia chegado. Eles estranharam a demora porque sua filha era disciplinada e exigente com os horários de trabalho e compromissos outros, portanto, atraso por menor que fosse não era normal para Tabitha. Vincenzo não cabia em si de contente, passou a noite de véspera ensaiando como entrar com sua filha até Andréas, por isto, praticou com Antonella todo ritual do casamento, não queria fazer feio perante parentes e amigos.
     Quando a ansiedade e a impaciência tomavam conta dos convidados, da família e do noivo, Tabitha surgiu do nada e mais ansiosa que todos, seus pais correram pra lhe socorrer:
     - Minha filha, vamos!

     Começou o cerimonial: o noivo entrou de braços dados com sua mãe, depois vieram os padrinhos de ambos e as damas de honra. A noiva entrou com o pai. As formalidades exigem que as mulheres entrem pelo lado esquerdo dos homens, exceto a noiva. No altar, o noivo permaneceu do lado esquerdo com os padrinhos e os pais, enquanto isto, a noiva ficou do lado direito com os pais e os padrinhos. Depois que o pai entregou sua filha ao noivo, os pais da noiva e do noivo retornaram à entrada e voltaram depois ao santuário com os casais trocados, ou seja, o pai da noiva de braços dados com a mãe do noivo e vice-versa, no altar, ambos os casais retornaram aos seus lugares de origem e, os noivos se postaram de fronte ao altar, daí o sacerdote iniciou a celebração:

     - Irmãos caríssimos, nos reunimos com alegria na casa do Senhor para participarmos nesta celebração matrimonial de Andreas Folic e Tabitha Gabiele, que neste dia, eles se propõem constituir o seu lar. Este momento, para eles, é de singular importância. Acompanhemo-los com o nosso afeto e amizade e com a nossa oração. Juntamente com eles escutemos a Palavra de Deus. Depois, em união com a Santa Igreja, por Jesus Cristo, Nosso Senhor, nós supliquemos ao Deus Pai que acolha benignamente estes servos, que desejam contrair Matrimônio. O Pai desça sobre estes servos suas bênçãos e os una para sempre...

     Meus amigos e amigas, neste ponto da história, decidimos por conta e risco, encurtar o ritual por dois motivos: primeiro pra que o blablablá não descambe em conversa fiada; depois, a descrição passo a passo do ritual não irá acrescentar para explicação lógica dos fatos, portanto, nada mais prático que registrar, apenas, seu início e fim.

                                                                                               ...


.     .. Nos ritos finais da missa, o sacerdote abençoa os esposos e o povo dizendo:
     - Deus Pai vos conserve unidos no amor, que habite em vós todos, aqui presentes, a paz de Jesus Cristo para sempre.
     - Todos: Amém! – O sacerdote finaliza:
     - E a vós todos, aqui presentes, abençoe Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e... – o sacerdote interrompe a bênção abruptamente:
     - Filha, isso foi o quê? Seu sangue está escorrendo pelo pescoço! – todos os convidados e parentes ficaram estonteados, todos correram para acudir a moça, o pandemônio tomou conta de todos e o tumulto e o medo se misturaram quando Tabitha desapareceu ao tempo que o motorista da limusine de Tabitha, entrava na igreja:
     - Seu Vincenzo, seu Vincenzo, sua filha morreu!
     Mais calmo, o motorista diante de convidados e parentes absortos, falou do acidente que havia ocorrido na Avenida dos Dendezeiros com sua limusine e feito Tabitha vítima fatal. Seu carro tinha sido empurrado por uma Toyota Hilux, Cabine Dupla 2010. O motorista da Hilux, numa ultrapassagem imprudente, empurrou a limusine para o acostamento que após subir num barranco vira duas vezes no asfalto. Tabitha sem cinto de segurança foi a vítima fatal.
     Hoje, o viandante que por ali passa, vai ler a inscrição numa placa de cimento na beira da estrada.
     “Tabitha, a noiva que saiu do túmulo! - *1980 / 2010”

 



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de letras de Itabuna

Foto: Google

O vermelho do arco-íris - R. Santana

 


O vermelho do arco-íris - R. Santana

O vermelho do arco-íris
R. Santana


     O mundo veio abaixo quando o advogado Paulo Gustavo Duskin soube que seu único filho homem é gay. No início, alimentou a esperança que tudo não passasse de futricas de vizinhos, despeito e inveja de amigos e familiares frustrados com o desempenho escolar de seu filho, pois Miguel com menos de 30 anos de vida é reconhecido como um infectologista de grande reputação no estado da Bahia e no país, porém, colocados tête-à-tête, seu filho foi duro e claro:


- Meu pai, cuide de sua vida sexual que cuido da minha!
- A minha é de natureza de homem, não de xibungo!
- O Senhor é homofóbico, lamento! – Paulo Gustavo conteve-se pra não lhe dar uns sopapos.


     Naquele dia, foi a última gota d´água que fez o copo transbordar: pouco tempo depois, Paulo Gustavo recebeu um convite de casamento de Miguel, convite padronizado com os nomes dos nubentes, acima, à direita e à esquerda; abaixo, os nomes dos pais, fotos dos pervertidos, etc. O convite não lhe foi entregue pessoalmente, mas entregue à velha empregada que o colocou em cima da escrivaninha de seu escritório. Após lê-lo, em voz baixa, fez alguns impropérios e xingamentos: “agora, o xibungo é Micaela, a “noiva”, e o outro veado Thiago é o “noivo”, safados... nojentos...”, “eu não vou ter estômago pra aguentar tanta nojeira... vou vomitar...”, “o filho da puta conseguiu enxovalhar o nome de minha família, mas...”, “renego-o para sempre, filho de Sodoma e Gomorra”, “peço a Deus que sua consciência seja mais pesada que a tampa de sua tumba”...
     Depois que leu o convite, Paulo Gustavo despiu-se de suas roupas suadas pelo trabalho forense, tomou banho, esquentou sua comida no micro-ondas, deixada pela empregada como de costume, acendeu um hollywood, deu umas baforadas, angustiado, ele tomou da escrivaninha caneta e papel e começou escrever para o filho:

 

     Para:
     Micaela? Não! Miguel:

     Recebi seu convite de casamento que me causou repulsa, uma afronta! Jamais pensei que você tivesse coragem de enxovalhar a dignidade de nossa família, acintosa e publicamente. Não fiquei feliz, antes, nessas condições, ficaria feliz se fosse para reconhecer seu corpo na pedra de um IML num lugar qualquer.
     Não acredito que um padre ou um pastor irá fazer do sacramento do casamento uma ação de heresia. O casamento é um sacramento sagrado, não para 2 maricas, mas um ato de fé aos pés da Santa Cruz de um homem e uma mulher que se amam e aptos à reprodução humana. Certamente, vocês irão fazer uma ação simulada diante de um desses padres “moderninhos” ou dum pastor pederasta, jamais diante de um homem de Deus.
     A Bíblia condena a pederastia há 2000 anos: “E com homem não te deitarás, como se fosse uma mulher. Isto é, abominação” (Levítico 18:22). Lá adiante, ele completa: Deus disse: “E se um homem se deitar com homem como se fosse com mulher, ambos fizeram abominação, certamente, serão mortos: o seu sangue está neles” (Levítico 20:13). A Bíblia adverte: “Não seja controlado pelo seu corpo. Mate qualquer desejo pelo tipo errado de sexo” (Colossenses 3:5).
     Miguel, não culpo Sigmund Freud por sua homoafetividade, você sempre “disputou” sua mãe comigo. Lembro-me do seu chamego infantil com Júlia, e ao invés de ficar com ciúme, ria-me por dentro pelo seu interesse pelo sexo oposto, não considerava esse desejo infantil incestuoso, pois incestuoso foi Édipo ao se casar com Jocasta, sua mãe, e filhos tiveram. Considerava seu interesse por sua mãe uma fase natural do desenvolvimento infantil, um fenômeno psicológico que iria definir sua opção heterossexual no futuro.
     Orgulhava-me quando você namorava as “gatinhas” em sua adolescência. Não havia sinais de homossexualidade, mas, “espada”, macho, homem. Depois que você foi estudar medicina, longe de sua cidade e de seu estado, aparece-me como veado passivo, “noiva” e, vai se casar. Claro que não vai me dar netos (depósito de fezes não é útero), dessa relação espúria, pecaminosa, de amor doentio, de homossexualismo, de mente perturbada.
     Miguel, eu acredito que a OMS não foi feliz quando retirou o homossexualismo da lista de doenças, ninguém nasce com formação genética (existe o fenômeno hermafrodita, mas é outra história), ou psicológica gay, assim como ninguém nasce pedófilo, drogado, alcóolatra, jogador compulsivo, são vícios, são doenças adquiridas, desejos e impulsos não contidos, são condutas condenáveis de libertinagem, de licenciosidade, de devassidão, que podem ser revertidas com terapias embasadas na Psicologia, na Psicanálise, na Psiquiatria. Por isto, Miguel, eu sugiro-lhe que se quiser honrar a minha memória, procure ajuda nessas ciências, depois que me for...
     Miguel não se iluda com os estímulos da sociedade, com os apelos escusos da mídia escrita e televisada. A sociedade é hipócrita, em nome do livre arbítrio, dos direitos individuais, do respeito à diversidade, ela dá uma de João-sem-braço, “politicamente correta”, ela promove a cultura do cinismo, fecha os olhos para os abusos desses segmentos, inclusive, nas escolas.
     Os pais dessa sociedade hipócrita de hoje, são iguais aos narcotraficantes: eles vendem drogas para o filho do outro e as proíbem, terminantemente, para o seu filho; é fácil aceitar o filho gay do outro e, são intolerantes com o seu filho.
     Não faz muito tempo, você me chamou de homofóbico, não sou homofóbico, não cultivo o ódio nem a intolerância nem estimulo a violência aos homoafetivos, porém, não lhe aceito nem lhe aceitarei nunca como Micaela, porém, não perco o sono se o filho ou a filha do outro é homossexual, não sou a palmatória do mundo pra corrigir os desvios de conduta sexual de A e B, se não resolvo meus problemas como irei resolver os problemas alheios? Para mim, esses veados não fedem nem cheiram, trato-os com respeito, mas não com amizade.
     Miguel, outra coisa que me chocou nesse convite, ricamente trabalhado, foi mudar seu nome masculino para nome feminino, além de acintosamente, acrescentar o meu nome, o de sua mãe, in memoriam, como os pais da noiva “Micaela”. Já não se identifica com o seu gênero? Deixou de ser homem pra ser mulher? Decerto, você está com transtorno de personalidade por essas pseudoteorias de ideologia de gênero. Quando o recém-nascido vem ao mundo sua genitália é masculina ou feminina, salvo, as aberrações da natureza, como é o caso do hermafroditismo, androginia.
         Rapaz ou, moça? Já não sei! Sei que gênero não é uma construção social. Gênero é a formação biológica de órgãos genitais de homem ou de mulher. Identidade de gênero e ideologia de gênero são construções sociais, ideias abstratas, crenças sem base científica. A criação de um terceiro gênero ou de um quarto gênero, etc., tem por objetivo, de acordo alguns estudiosos, tirar a primazia histórica da família de homem, mulher e filhos. Essa desestruturação da família convencional surgiu com Karl Marx em que tudo seria submetido aos interesses do estado, inclusive, a família.
     Enfim, não irei ao seu “casamento”, não reconheço Micaela como filha. O meu filho Miguel morreu quando tinha 16 anos de idade. Agora, eu morrerei com essa memória que o tempo não conseguiu corromper. O meu sangue, decerto, manchará as cores do seu arco-íris e deixará o vermelho do seu arco mais vermelho. Reprimendas eternas, Paulo Gustavo Duskin.


Uma hora depois:
- Delegado, veja isto! – Uma carta sobrescrita: “Para o doutor Delegado - Nesta”. O advogado deixou claro que seu ato foi voluntário e um protesto pela ignomínia do filho, a sociedade hipócrita e a mídia desprovida de princípio ético e moral. Pensou tirar a vida do filho no dia de seu “casamento”, porém, não tinha natureza criminosa, por isto, fez-se vítima.


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

 

 

Carta para Eugênio - R. Santana

 

Carta para Eugênio - R. Santana

Caro Eugênio:

Há nos manuais dos escritores (não é o meu caso, sou um escrevinhador e não um escritor), uma restrição ao uso do gerúndio à toa e o excesso de gerúndio é classificado de gerundismo. Veja o que diz o site Wikipédia: “Gerundismo é uma locução verbal que consiste no uso sistemático de verbos no gerúndio, cujo emprego é relativamente recente no português, particularmente o brasileiro. A concordância da construção com a sintaxe do português não é ponto pacífico, sendo, por vezes, considerada um vício de linguagem”.
Eu sou criterioso com a língua, todavia, mais importante que corrigir gramática num texto de ficção, é a mensagem subjacente e se o texto é uma boa história e criativo. O artista da palavra não está preocupado com filigranas gramaticais, pois se assim fosse, não teríamos um Lima Barreto e um Guimarães Rosa. Este escreveu grandes obras que muitas palavras foram inventadas e, o primeiro deu trabalho enorme aos redatores em corrigi-lo.
Há dois tipos de linguagem: a linguagem convencional e a linguagem coloquial, além da linguagem de terceiros, que não é do autor, e, é colocada entre aspas e não há cobrança se é certa ou errada.
Hoje, eu tenho 300 títulos (contos, crônicas, cartas, etc.) no site de nível nacional RECANTO DAS LETRAS, além de 5 romances, inclusive, 13 livros no site Domínio Público – MEC. Acho que estes sites priorizam a gramática, mas acima de tudo a CRIATIVIDADE
Uma catadora de lixo, no Rio de Janeiro, de nome Carolina Maria de Jesus, escreveu: “Quarto de Despejo”. Será que ela era eximia no idioma? Claro que não, mas sua história foi best-seller por muito tempo em todo país.
Se você lê no Google os comentários que algumas pessoas fizeram nessa história: “A noiva que saiu do túmulo”, para mim foram estimuladores e valeu a pena lhe solicitar e demais amigos, o roteiro de ruas e avenidas de Salvador para que eu pudesse construir esse conto.
Fico grato com suas observações, porém, ficou triste por não ter atingido (olhe o gerúndio aí!), seu interesse pela interpretação do texto, da história, ou seja, se a história foi boa ou ruim. Cordialmente, Rilvan. Itabuna, 25.09.2017

Post Scriptum:

Eu irei publicar este texto no “Saber-Literário”, para que muitas pessoas não usem o gerúndio aleatoriamente, sem falsa modéstia, irá servir de lição para muitos leitores.

O idioma é falado 90% na linguagem coloquial e 10% na linguagem clássica. Não faz muito tempo, meus tímpanos quase estouram quando um "intelectual" insistiu em falar "estadia" no lugar de "estada". O primeiro termo, é o prazo de carga e descarga que o navio tem para ficar em um porto; o segundo termo, é o ato de estar em algum lugar. Porém, seus interlocutores entenderam que sua estada em algum lugar foi por tempo “xis”.

Às vezes, as convenções servem para atrapalhar a criatividade. Quantas pessoas criativas se perdem por causa de nosso complicado português? Quantos potenciais escritores e poetas têm medo de colocar no papel suas ideias? Enésimos! Por isto, a criatividade deveria se sobrepor ao convencional.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 10/11/2017

Alcântara - R. Santana

 


Alcântara - R. Santana

Alcântara
R. Santana

Eu o conheci na adolescência, ele já era um homem maduro. A meninada o apelidava de seu “Arranca”, os adultos seu “Alcântara”. Quando Alcântara chegava a algum lugar era uma festa, o povo o idolatrava. Foi o político mais popular e mais carismático da história de Itabuna. Ele era simpático, bem apessoado, de traços europeus. As moças e menos moças gostavam de receber afagos e galanteios de seu “Alcântara”, porém, tudo não passava de amizade de político, pois ele era fiel como um cão a Florisbela, para amigos e não amigos Dona Sarinha Alcântara.
José de Almeida Alcântara foi eleito prefeito de Itabuna, duas vezes, deputado estadual da Bahia, uma vez, não teve o mesmo desempenho quando prefeito, ele tinha talento para executar não para legislar, porém, foi atuante na defesa dos interesses da Região do Sul da Bahia. Findo seu mandato de deputado estadual, volta para sua terra e concorre de novo para eleição de prefeito com José Soares Pinheiro (Pinherinho), um filho da terra, um dos maiores líderes políticos, daquela época, além de empresário autorizado de revenda de automóveis da Willys, Pinheirinho era grande cacauicultor e pioneiro no cultivo da seringa no Sul da Bahia.
Pinheirinho foi presidente da câmara de vereadores por várias legislaturas. Não era má pessoa, contribuía material e financeiramente em várias obras sociais e programava outras, filantropo e empreendedor, porém, era de natureza afetada, introspectivo, não era político popular, não tinha intimidade com a pobreza quanto o seu adversário político José de Almeida Alcântara. Este, a elite e o empresariado da cidade consideravam-no populista e demagogo.
A campanha para prefeitura de Itabuna em 1966 ainda permanece na memória dos itabunenses daquela época: os ricos, os intelectuais e as forças conservadoras versus os pobres, as igrejas e a classe média. Pinheirinho fez uma campanha embasada em novo modelo de gestão pública: combate ao desperdício da coisa pública e à corrupção, planejamento dos recursos públicos, projetos comunitários, enxugamento do quadro de servidores comissionados e apadrinhados, promoção de concurso público, auditagem dos desvios de recursos financeiros das gestões anteriores e criação de novos postos de trabalho com a implantação de um parque industrial através de isenção de tributos por anos, apoio material, ou seja, de olho no aporte de capitais do Sul e Sudeste com o objetivo de desenvolver econômica e financeiramente a terra do cacau.
Alcântara fez sua campanha no que tinha feito em seu primeiro mandato de prefeito de Itabuna, na boa gestão do seu sucessor e afilhado político, o jovem engenheiro Félix Mendonça e no apoio político do deputado federal Antônio Carlos Magalhães (ACM), e em seu razoável desempenho na assembleia estadual baiana. Não obstante os adversários políticos tê-lo como demagogo, ele fez promessas de pé no chão, não foi megalômano, enfim, prometeu fazer o que não tinha feito na primeira gestão, terminar as obras que seu antecessor não teve tempo de terminá-las e promover políticas publicas que atendessem à demanda do povo.
Naquela época não havia agência de publicidade como hoje, que cuida da imagem do candidato até do que ele vai falar aos eleitores com base nos institutos de pesquisa, todavia, Pinheirinho assessorou-se das melhores cabeças da comunicação local. Seu “Staff” só tinha gente qualificada, intelectuais de escol, pessoas versadas em Política, Sociologia e Psicologia. As atitudes e reações coletivas eram estudadas e analisadas cientificamente. Ainda não existia a “Lei Falcão”, por isto, as principais emissoras de rádio da cidade e as melhores gráficas estavam engajadas na eleição do candidato José Soares Pinheiro a prefeito.
Os layouts de Pinheirinho das paginas de jornais, dos semanários, cartazes e outdoors chamavam a atenção dos eleitores pela criatividade, imagem do candidato, mensagens de efeitos administrativos e esteticamente perfeitos. Os brindes tinham o designer de um pé de pinheiro em copos, chaveiros, caixas de fósforos, isqueiros, canetas, lápis, etc. Os “santinhos” foram substituídos por fotos e pôsteres de tamanho pequeno, médio e grande.
Pinheirinho era um dos maiores oradores da cidade naqueles tempos idos, não possuía formação escolar completa, apenas, o Fundamental I, ou seja, o curso primário, porém, era um autodidata, um leitor contumaz, em sua residência, a biblioteca chamava a atenção pela quantidade de obras, em particular, livros de Economia, de Administração, Direito Tributário e Contabilidade Pública. Por conta do seu saber nessa área de conhecimento, ele era constantemente convidado para palestras em clubes de lojistas, grandes empresas, faculdades, maçonarias e prefeituras.
Naquela época, não havia showmício, o candidato a prefeito e os candidatos ao legislativo municipal, eram as principais atrações, cada candidato a vereador levava seus correligionários e seu “Staff”. No comício de Pinheirinho havia grande concentração de pessoas e automóveis, por isto, seus adversários debochavam: “se carro votasse, Pinheirinho estaria eleito!”, decerto, seu apoio vinha do eleitor da elite e dos intelectuais.
Alcântara não era nenhum abestalhado nem intelectual, mas possuía educação média, de boa família (um dos irmãos, desembargador da Bahia). Coletor (agente fiscal) aposentado do estado da Bahia quando concorreu à prefeitura itabunense pela primeira vez. Não era bom orador, mas era emotivo e prático, falava a linguagem do povo, conhecia todas suas necessidades e carências. Sua força política maior vinha do contato, do corpo-a-corpo. Quando chegava a alguma casa por mais humilde que fosse, ia até a cozinha xeretar e, não saía de lá sem provar um cafezinho ou triscar levemente numa cachacinha.
Nos comícios de Alcântara, se contavam os automóveis nos dedos das mãos e, automóveis não eram necessários para seus eleitores, eles iam a pé, de carroça, a cavalo, de jegue, de ônibus... Os comícios eram lotados de gente simples de todos os bairros: os bairros centrais, a periferia, os distritos e a área rural, o povo chegava aos montes, como formigas que saem apressadas de um formigueiro. Tudo que Alcântara falava o povo aplaudia insistentemente. Quando ele terminava o discurso, descia do palanque (carroceria de caminhão), se misturava com o povo, abraça um, afaga outro, beija uma criança, toma-a nos braços, aí o povo ia ao delírio: “É de colher!” / “É de colher!” / “É de colher!” / “Alcântara é o prefeito!”, ou, parodiando “Pisa na Fulô” de João do Vale:
“Pisa na fulô, pisa na fulô / Pisa na fulô / Alcântara já ganhou!
Um dia desses / Fui dançar lá em Perdizes / Na rua do Pinheiro / Eu gostei da brincadeira / Zé Pretinho era o tocador / Mas só tocava / Pisa na fulô / Alcântara já ganhou!
Não precisa me pagar / Mas por favor / Arranje outro tocador / Que eu também quero Pisa na fulô / Pisa na fulô / pisa na fulô / Alcântara já ganhou!” (bis)

Para o entendimento do nosso leitor, esclareço que a colher tornou-se símbolo das campanhas políticas de José de Almeida Alcântara e, foi construído na Praça Jardim do Ó, na entrada de Itabuna, início da Avenida Cinquentenário, um monumento que representa uma colher para se reportar à eleição de 1966: “Essa vai ser de colher”. Em 1994, a praça foi reurbanizada e o antigo símbolo foi substituído por um designer mais moderno, que não lembra a colher de seu “Alcântara”.
Pinheirinho foi derrotado na eleição de 1966 por significativa percentagem de votos. A elite não se conformou, desenterrou um processo administrativo (não havia a “Lei da Ficha Limpa”), do tempo que Alcântara era chefe da Coletoria de Itabuna. Conta-se que houve uma grande enchente no Rio Colônia / Rio Cachoeira, nos meados de 1950, e a população ribeirinha de Itapé (naquela época, distrito de Itabuna), foi muito prejudicada, os ribeirinhos perderam seus haveres e barracos, e ao invés dele encaminhar o pedido oficial de ajuda ao governo, usou o dinheiro da coletoria em mantimentos e agasalhos para socorrer os flagelados, depois, comunicou às autoridades responsáveis.
Uma comissão de mulheres da alta sociedade, dentre elas, uma cunhada de José Soares Pinheiro, a educadora Celina Bacelar, foi a Brasília com o processo a tiracolo do prefeito eleito, falar com o presidente e marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, cujo objetivo seria impedir a posse de Alcântara, pois estávamos no início da Revolução Militar de 1964, período discricionário e arbitrário da República. Porém, elas deram com a cara na porta, assim que chegaram ao palácio, encontraram o jovem deputado federal Antônio Carlos Magalhães (ACM), amicíssimo de Alcântara, pois lhe transferiu mais de 10.000 votos nessa eleição, ACM saiu de Itabuna, praticamente, eleito.
A zombaria foi geral na cidade. Os gozadores diziam que o presidente sugeriu que elas fossem cuidar dos seus lares e dos seus filhos ao invés de se envolverem em picuinhas políticas partidárias locais. Os mais gozadores afirmavam de pés juntos e mãos em oração que o presidente sugeriu-lhes que fossem procurar uma lavagem de roupa. Por outro lado, os correligionários do candidato derrotado afirmavam que as damas tinham sido bem tratadas, que o marechal foi cavalheiro, que havia as recebido bem e prometeu-lhes encaminhar o processo aos órgãos responsáveis para apuração devida.
Alcântara foi empossado prefeito. O “processo” deve ter ficado em algum arquivo no subsolo do palácio, ninguém falou mais no assunto, Castelo Branco morreu em 18 de julho de 1967 e José de Almeida Alcântara em 7 de abril de 1968.
Esta modesta crônica histórica não é tendenciosa e Jamais irá manchar a memória desses homens públicos que prestaram relevantes serviços a esta terra que já foi do cacau, portanto, faz-se necessário dizer que eles não se locupletaram de recursos públicos, a exemplo de propinas, caixa 2, desvios de dinheiro do povo, licitações viciadas, etc. Pinheirinho não ficou mais rico nem Alcântara deixou fortuna para seus herdeiros. A lisura e o zelo pela coisa pública eram preocupações de ambos.
O maior fenômeno eleitoral de Itabuna foi vencido pela lei da morte (infarto fulminante) prematura. Não desejo conjeturar o passado, porque não se profetiza o que já passou, diria que Alcântara morreu no poder como prêmio da Providência pelo seu amor às causas dos menos contemplados da vida, enquanto Pinheirinho teve como prêmio mais alguns anos de vida.
Enfim, se o céu é reservado para os homens bons e o inferno para os homens maus, Alcântara e Pinheirinho foram homens bons, logo, eles foram pra o ceu.


Autor: Rilvan Batista de Santana
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Major Dórea - R. Santana

 

Major Dórea
R. Santana


     O ano deve ter sido 1964 ou 1965, não me recordo a data precisa, naquela época, eu não passava de um rapazote sem ideologia política, a minha única ideologia era a ideologia da sobrevivência. Lembro-me que foi após o Golpe de Estado de 1964, que encerrou o governo popular de João Belchior Goulart, popularmente, “Jango” e, estabeleceu-se o regime militar no país que ocorreu essa história burlesca e hilária que contarei a seguir.
     O “Bar de Pedro” era o point principal do Bairro São Caetano. Ali, os moradores tinham o seu lugar de prazer e diversão dia e noite, pois além de bar de jogos de sinucas, de dominós e de baralhos, havia um arremedo de lanchonete com sorveteria. A freguesia era enorme, gente simples, cordata, conhecida, não obstante recinto de jogos e bebidas, a polícia e a justiça não tiveram trabalho durante anos que o “Bar de Pedro” foi o principal point do São Caetano.
     Dentre esses fregueses, “José Pedreiro” (só se conhecia o prenome e o apodo, o nome e o sobrenome nunca se soube). José Pedreiro gabava-se ter sido soldado da FEB (Força Expedicionária Brasileira), e lutou nos campos da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, além de ter participado da vitória de Monte Castelo.
     Não se levava a sério José Pedreiro, todos achavam que suas histórias não passavam de apego doentio pelo exército brasileiro, contos da carochinha, um aficionado, principalmente, a influência recente do Golpe Militar de 64, e suas histórias da FEB na Itália serem contadas quando ele já tinha tomado alguns goles de água que passarinho não bebe.
     Uma molecada divertida frequentava o “Bar de Pedro” com assiduidade e fidelidade, notadamente, estudantes do CEI (Colégio Estadual de Itabuna), às vezes, pra jogar sinuca, outras vezes, pra lanchar, chupar picolé, tomar sorvete, contar suas últimas conquistas amorosas, gozar do colega que não tinha ido bem à prova da escola, jogar conversa fora, tudo era motivo de gozação e brincadeira.
     Foi essa molecada que criou um imbróglio institucional que, por pouco, não é chamado o SNI ou DOI – CODI pra apurar uma denúncia de José Pedreiro, mas a denúncia foi parar em major Dórea, brioso oficial do exército que trabalhava em Ilhéus e morava em Itabuna, é que a molecada havia rasgado uma bandeira (não oficial) do Brasil, colada na vitrine do balcão de doces e massas do “Bar de Pedro”. A molecada, com a conivência do proprietário do bar, provocou José Pedreiro e rasgou a bandeira de papel para lhe irritar, pois estávamos na semana da pátria e o ato era, conforme seu entendimento, um desrespeito à pátria ao governo e coisa de comunista.
     Dois dias depois, quando ninguém se lembrava mais da brincadeira, para uma "Aero Willys" reluzente na porta do bar com um homem fardado verde oliva e José Pedreiro, todos perceberam a embrulhada: ele tinha ameaçado e cumprido a promessa de denúncia, e o pior: os restos da bandeira brasileira ainda se achavam colados na vitrine. Todos ficaram assustados...
     Os dois homens desceram do automóvel e, eles caminharam em direção ao bar, José Pedreiro um pouco atrás, de paletó e gravata, noutra situação, a molecada o teria ridicularizado de tanto rir, mas naquele momento ninguém riu. O major que o conhecia de “eu ouvi dizer e fama ”, ia à frente, de estatura normal, um pouco obeso, não tinha a aura de um Napoleão quando derrotou os Austríacos e assinou o “Tratado de Campo Formio” nem o porte do general cartaginês Aníbal nem do intelectual Júlio César que transformou a República Romana em Império Romano, se não fosse o peso da farda, não passaria, naquele momento, de uma figura de somenos importância e caricata.
     Os moleques deram “pernas pra que te quero?...”, o dono do bar, Pedro Batista de Santana, vulgo “Pedro do Bar”, sergipano intrépido, arretado, afeito às situações mais difíceis da vida, desde que migrou de Sergipe e comeu o pão que o “Diabo amassou” em Maria Jape de Ilhéus, apresentou-se ao major Dórea como proprietário do estabelecimento. Depois que o major bufou e ameaçou todos os presentes com prisão e processo, que aquilo era prática comunista, Pedro com segurança e raciocínio perfeitos, argumentou que ali ninguém tinha ideologia política, que os moleques muito menos, que todos estavam satisfeitos com o governo, que tudo não tinha passado de uma brincadeira pra irritar José Pedreiro que bebia mais que trabalhava, que o denunciante tinha um “parafuso a menos na cabeça”, etc., etc.
     Felizmente, o major Dórea reconheceu o ridículo que o “dedo duro” fê-lo passar e “rabo entre as pernas” entrou no carro e voltou para sua tropa e seu quartel, porém, para que sua autoridade não fosse maculada, burlesca, enxovalhada, que sua ida ali tomasse ares de ofício e inteligência, exigiu:
     - Seu Pedro, cole outra bandeira do mesmo padrão na vitrine e distribua uma grosa entre os estudantes no dia 7 de Setembro! – quando ele ia longe, um moleque do sinuca brincou:
     - Pedro, isso é o quê? Grosa se come?
     - Sei lá, peste!...



Autoria: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna- ALITA

Imagem: Google

Pedantes das letras - R. Santana

 

Pedantes das letras - R. Santana

Pedantes das letras - R. Santana
 

Eu já disse algumas vezes que não sou escritor, mas sou leitor contumaz, leio tudo que vejo, até bula de remédio, quando eu era jovem, os meus contemporâneos me chamavam de “homem do livro”, pois sempre levava a tiracolo um livro, uma professora da terra, deu-me o apodo de “homem pensante”. Hoje, com os cabelos encanecidos e o peso da idade, aprendi ser mais seletivo: dispenso as futilidades.

Itabuna é terra de grandes poetas e escritores. As crônicas de Marília Benício dos Santos e Francisco Benício dos Santos, não são crônicas, são poemas de doçura e realidade em forma de prosa. Os versos de Jasmínea parecem ingênuos, mas são fontes de inspiração do belo. Valdelice Pinheiro outra poetisa que explora a estética das coisas, seus versos desmistificam a metafísica, a filosofia. Ninguém contou melhor a História de Itabuna, que José Dantas de Andrade, “Dantinhas”, e Adelindo Kfoury. Helena Borborema colocou no papel o cotidiano de sua terra como ninguém. Firmino Rocha e José Bastos foram gênios da palavra versada. Telmo Padilha alçou voos internacionais... Jorge Amado e Hélio Pólvora dispensam loas porque são conhecidos e reconhecidos como escritores, aqui, ali e alhures.

Adonias Filho, Florisvaldo Mattos, Aleilton Fonseca, Sósigenes Costa e Euclides Neto, embora eles não sejam deste chão, têm uma ligação profunda com nossa gente, é como de Itabuna, eles fossem.

Hoje, a nossa terra tupiniquim não tem representatividade literária estadual e nacional só em sonho. Temos mais pedantes das letras, que talentos da criatividade, da imaginação, da erudição, muitos aparentam ter conhecimentos que não possuem na realidade. É comum, ostentarem nas Redes Sociais seus codinomes: “João Poesia”, “Graça Poeta”, “Elza Trovadora” e quando eles assinam um texto de crônica ou receita de bolo, a presunção não tem tamanho: “João de Mattos, advogado, é poeta e escritor, é membro titular da Academia de Letras da Conchinchina e do Penta Clube de Poetas de Macau. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Hong Kong. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Oiapoque, 50 livros publicados, 10 infantis, traduzidos na Alemanha, Itália, França, Espanha, EUA, etc.”

Os escritores e os poetas talentosos jamais se darão ao ridículo dessas baboseiras, dessas propagandas enganosas. Ninguém leu textos de José Saramago, Machado de Assis, Jorge Amado, Adonias Filho, Gabriel Garcia Marquez, Drummond, ou, outros talentos da poesia e da prosa com esse arrazoado de títulos.

Dois próceres de nossa terra, em tempos diferentes, disseram-me: “Rilvan, a filha de minha esposa que mora na Alemanha, percorreu bibliotecas e livrarias para comprar um livro do escritor “JM”, em vão, debalde...” então, “Estive na Itália para um encontro de espíritas, procurei entre os autores brasileiros, um livro de “JM”, mas não o encontrei...”, ou seja, o preclaro escritor se preocupa mais com o falso marketing do que com o conteúdo de sua “obra”.

Acredito que depois dessa febre de cultura inútil dos WhatsApp, dos e-mails, das mensagens rápidas de vídeos, do excesso de informação instantânea, o povo irá se conscientizar que o uso indevido da mente em que o homem não pensa, mas “vomita” a informação elaborada por outrem obscurece o conhecimento e num futuro não muito longe, seremos massa de manobra de quem pensa, do “Grande Irmão”. Aí, o homem irá valorizar a imaginação, a criatividade, a produção elaborada, não, o cotidiano fútil.

Enfim, a contragosto (não gosto de usar o que o outro pensou), transcrevo para os pedantes da letras, os presunçosos da arte e do conhecimento, um pensamento que li em “Apologia de Sócrates”: “... desqualificar a sabedoria e o comportamento do que apregoavam certo domínio intelectual, e mostrar que a presunção de ignorância e a desconfiança são princípios básicos de qualquer tentativa de conhecimento - senão o mais importante de todos os saberes.”


Rilvan Batista de Santana

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Nota Editorial:

 
Para justificar nossa crônica dos "Pedantes das Letras", ao fechar a página inicial, li por acaso, uma matéria num blog literário que em 10.03.2017, se prestou, sem ética, publicar um manifesto de desagravo da ALITA, com calúnias e desídias a mim, um dos signatários e líder desse aludido manifesto, foi o escritor Cyro de Mattos, que de maneira competente faz marketing de suas produções de escritor e sucesso editorial, que se diz conhecido, aqui, ali e alhures. Segundo o escritor, o "Centro Lusófono russo prepara antologia de contos brasileiros que incluirá o escritor Cyro de Mattos”. Será que é verdade? Ou, será mais uma propaganda enganosa? Qual é o site deste Centro Lusófono Russo? Que é de o e-mail que lhe faz inclusão e o ato público desse Centro Lusófono? Quais as provas de 12 livros no exterior e as editoras, desse senhor? Quais as entidades e os meios de comunicação que publicaram essa iniciativa do Centro Lusófono? Que é de o edital? Ninguém leu ainda seus livros no exterior, pelo menos não se tem referência, eu e meus leitores estamos ansiosos e queremos provas!...
Viola de boca é fácil de se tocar! Uma coisa é certa: o Sr.º Cyro de Mattos é mestre em alijar  e desqualificar quem não lhe "puxa o saco"... Ele conseguiu me expulsar da ALITA, academia que ajudei fundar e prestei por dois anos, o trabalho honesto de  primeiro tesoureiro.

 
 
 







 

Pedro, o Grande - R. Santana

 

Pedro, o Grande - R. Santana

     Não, não, não falo de Pedro, o Grande, da Rússia, o Czar do Czarado, mas falo de Pedro Batista de Santana, de apelido “Pedro do Bar”, valente nordestino que deixou Lagarto no finais dos anos 40 e migrou para Ilhéus, Maria Jape, em cima dum pau-de-arara, não o pau-de-arara dos porões de governos discricionários no início do Século XX, mas num caminhão “Ford” ou “Chevrolet”, ou num caminhão “GMC”, adaptado com bancos de madeira (tábuas de 35 cm de largura, em horizontal, que eram travadas nas laterais da carroceria.

     Pedro chegou ao Sul da Bahia, fugindo da seca e do trabalho estafante do cultivo e produção de fumo in natura em sua terra natal. Trazia na mala de couro curtido desenhado (o chique do chique da época), roupas de linho, cáqui, brim e uma única calça de casimira tropical que seu padrinho João de Juvência lhe presenteou no dia da viagem e, uma força indômita de vencer.
     Em Maria Jape comeu “o pão que o Diabo amassou”, se não se valesse para seu sustento da fauna dos mangues e do rio Cachoeira, ou rapadura com charqueada e farinha seca do Japu e de Buerarema, ele teria morrido de fome. Seu primeiro emprego, se tirar madeira na mata para fazer feixe de lenha (não havia gás de cozinha, todos cozinhavam com lenha), pra vender na feira-livre de Ilhéus, é considerado emprego, foi aí que ele começou em terras grapiúnas.
     Se algum pesquisador da História do Bairro São Caetano, for honesto e competente, lhe elegerá como principal fundador deste bairro itabunense. Claro que o fundador oficial foi José Batista Caetano, depois, na linha sucessória, seus ociosos filhos: Peó e Zezinho. Eram negros cordatos, amigos, direitos, mas onde pisavam, o capim morria, viviam no ócio do aforamento dos terrenos do bairro e sustentaram um litígio judicial por mais de 20 anos com Dr. Durval Guedes de Pinho, pela titularidade e reconhecimento de propriedade das terras do bairro, mas perderam a causa e o patrimônio com as custas de advogados.
     Pedro chegou à Itabuna no ano de 1949, quando São Caetano não era São Caetano, mas “Fuminho”. Aliás, há uma estória folclórica no início do bairro: contavam os antigos que quando ainda não existia a ponte Francisco Lacerda sobre o Rio Cachoeira, 2 ladrões roubaram na cidade, umas bolas de fumo e se homiziaram, depois duma travessia perigosa no Cachoeira (nessa época o rio não era poluído, era caudaloso com grandes correntes de água, atravessá-lo de canoa e carregada, era uma epopeia), e esconderam o produto do roubo nesse bairro que não passava de um pequeno vilarejo com meia dúzia de casebres de famílias e de putas, mais de putas do que de famílias, além de muita mata e roças de cacau.
     A polícia encontrou os ladrões, também, o produto do roubo e o vilarejo passou ser conhecido por “Fuminho”, alguns anos depois, em homenagem ao fundador, José Batista Caetano, e o fato das terras possuírem grande quantidade de plantas de São Caetano, o bairro foi batizado com este nome.
     Pedro sempre foi um empreendedor, um negociante nato, desde menino, ele ia pra feira-livre de Lagarto com 1 litro de cachaça, vendê-la a varejo. Quando saiu de Maria Jape e chegou ao “Fuminho”, logo, comprou um quiosque e fê-lo ponto comercial e residência. O quiosque tinha de tudo, desde o fósforo à carne-de-sol, a farinha, o toucinho e o feijão. Pouco depois, passou construir pequenas casas e vendi-as com facilidade, pois o bairro crescia a olhos vistos.
     Pedro tinha compromisso moral em Lagarto: lá deixou uma noiva. A despeito dos comentários desairosos, que ele não voltaria para honrar esse compromisso matrimonial (tinha fama de namorador e raparigueiro), voltou 6 anos depois e se casou com a jovem Celsa que o esperou por todo esse tempo. Ele não podia ter feito coisa melhor, tirou a sorte grande, porque, desde o início do casamento, ela demonstrou determinação, fidelidade, generosidade e trabalhadora. Depois do casamento, os seus negócios cresceram e ele passou ter não só um pé-de-meia, mas, dois pés-de-meia.
     Os filhos vieram, todos cresceram no trabalho e no estudo, hoje, o mais velho é engenheiro agrônomo, o do meio, juiz de direito e, o mais novo, administrador e aposentado pelo Banco do Brasil. Não foram criados com mimos e vícios, mas na labuta do dia a dia. Desde cedo, os pais lhes ensinaram que a vida se baseia num tripé: conhecimento, respeito ao outro e Deus.
     O “Bar de Pedro” surgiu em 1957, com 2 sinucas mesas de dominós, um arremedo de lanchonete e algum tempo depois, uma sorveteria, na esquina da Avenida Princesa Isabel, 1020, São Caetano. Não demorou muito, tornou-se o principal point e referência de endereço, aqui, ali e alhures - o sujeito em São Paulo, ensinava: “no Bar de Pedro, todos sabem onde moro”. Porém, foi no governo do Gal. Juracy Magalhães (1959 – 1963), que liberou geral o jogo de azar, o período mais próspero do “Bar de Pedro”, o dinheiro corria a rodo de cacifes, no final da noite, feito o caixa, havia uma dinheirama, isto ajudou que Pedro educasse todos os filhos e construísse um pequeno patrimônio.
     O trabalho no bar era cansativo, se não fosse Celsa, sua esposa, que além “pé de boi”, fazia mingaus e doces para abastecer o bar como ninguém! Às 6 horas, quando a rotina do bar começava, Celsa já tinha pronto para seus fregueses, panelas de mingau de milho, de puba, arroz doce, bolos, canjicas, torradas, vitamina de banana ou abacate, chocolate, café, leite, etc.
     No bar, não havia roleta. O jogo de baralho preenchia às necessidades dos jogadores contumazes, viciados, que jogavam dia e noite. Quantas vezes acordei no crepúsculo da madrugada e estava lá, Pedro, atento para que o cacife não fosse negligenciado.
     Os jogadores são gozadores, principalmente, com os “perus”, lembro-me de “Crente” ou, “Gordo”. Não obstante “Crente” fosse de família abastada, sobrinho do pecuarista e deputado estadual Paulo Nunes, era um malandro, um gozador, cuja atividade principal era o jogo apostado de baralho, de sinuca, ou dominó. Possuía (Deus o tenha em sua misericórdia), uma língua ferina e facilidade para botar apelido mesmo quem já o tinha. Ele colocou: “Lubião” no negro Crispim; “Papagaio de Pirata” em Lopeu; “Maneta” em Zé Urubu”; “Mão-de-gato” em Altino; "Soldado Meganha" em Dico...
     Certa feita, Lubião perdeu os últimos centavos no jogo de baralho, o sortudo foi “Crente” que limpou todos os parceiros, ao lhe solicitar ajuda financeira para reverter sua má sorte, “Crente” lhe propôs: “Se você comer aquela barata sem vomitar, eu lhe darei Cr$100,00 (cem cruzeiros), não é que o negro “Lubião” comeu a barata?! Pois sim, comeu a barata e fez da má sorte, a sorte grande, limpou todos os parceiros, inclusive, “Gordo”.
     Pedro não fazia sua felicidade com a infelicidade do outro, o jogo de azar era uma atividade de maduros, de velhos, adolescentes, menores de 18 anos de idade, não jogavam, os jovens de 18 anos de idade e acima desta faixa etária, jogavam dominó e sinuca, mas esportivamente, nada de aposta, somente, o prazer de saber quem era o mais apto no taco de sinuca ou, no jogo de dominó, isto é, divertir-se, hobby...
     Pedro, embora de poucas letras e pouco leitura, gosta de política, não somente a consciência cidadã, a polis de Aristóteles, o exercício de cidadania, a consciência de direitos e deveres, mas a política partidária. Por insistência de Daniel Gomes, filiou-se ao MDB, hoje, PMDB. Dentre os políticos de expressão da terra que apoiou, que pediu voto e votou: Simão Fiterman, Alcântara, Fernando Cordier, Pinheirinho, Oduque e Fernando Gomes (5 vezes eleito prefeito de Itabuna e 2 vezes deputado federal). Naquela época e ainda hoje, com a idade provecta de 90 anos, cultiva boas amizades políticas, não mais participa como antes das campanhas, porém, é o caudilho da família, seu pedido político pode ser avaliado, nunca desconsiderado. Eu sou em exemplo emblemático: ilustre desconhecido nos anos 70, comerciário e estudante de Filosofia, com sua indicação, fui um dos mais jovens vereadores do legislativo itabunense de 1970 pra cá, eleito pelo MDB, com 584 votos, o 3º. mais votado, depois de Orlando Lopes e Plínio de Almeida, águias da política daquelas eras. .
     Nos governos de Oduque e Fernando Gomes, como chefe da patrulha mecânica, prestou um grande serviço à comunidade de Itabuna, principalmente, os menos favorecidos e os ribeirinhos em especial. Seu trabalho social foi e ainda é significativo, sem chamar a atenção, usa um dos mandamentos de Jesus Cristo: “Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita” (Mateus 6:3).
     Hoje, com 90 anos de idade, lúcido, aposentado, patrimônio considerável, filhos formados e independentes, netos e bisnetos, ainda trabalha em sua bodega, no fundo da única casa lotérica do Bairro São Caetano. Não mais trabalha para ganhar “o pão nosso de cada dia”, mas pelo hábito (segundo Santo Agostinho, o hábito é uma segunda natureza), para não ficar ocioso dentro de casa e os males da idade se agravarem.
     Há 2 anos o destino lhe deu um tombo emocional, lhe quedou, jogou-o no chão, mas pouco e pouco, ele tenta soerguer-se, conformar-se, aceitar como fato inevitável de todos os seres vivos: a morte. Foi a morte que levou Josefa Batista de Santana, Celsa, aos 83 anos de vida e mais de 60 anos de vida conjugal. Celsa foi seu norte, seu “pé de boi”, mulher sem vaidade, sem exigência material ou financeira, esposa, mãe e amiga.
     Enfim, que a História de Itabuna lhe faça justiça e o eleja o fundador do São Caetano, pois foi ele que aqui chegou nos anos 40, impulsionou o comércio, a construção civil, politicamente, trouxe energia elétrica e água encanada para o bairro, abriu ruas, elegeu os primeiros vereadores do bairro: Rilvan Santana e Eduardo Fonseca. Hoje, ele é nome de rua no Bairro Jaçanã, homenagem justa e merecida, pois ali, também, foi um dos pioneiros na formação desse bairro com Epaminondas Pinho Lima, porém, é o São Caetano que lhe deve 70 anos de pioneirismo e trabalho.



Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA


A cultura do ódio - R. Santana

 


A cultura do ódio - R. Santana
 
Conheci um sujeito na pré-adolescência, brigão e polêmico, pecava pela franqueza, de quando em quando, ele estava envolvido em confusão. Não entendia a causa daquelas desavenças, porque Charqueada de costume, era um negro amigo, fiel, prestativo, solidário e generoso.

Como todo ser humano, ele tinha seus defeitos, dentre esses defeitos, tinha fama de “pavio curto”, que não levava desaforo para casa e temido pelo manejo de seu “Tramontina” de 20 polegadas.

Tinha-lhe certa afeição, pelos seus causos e, por sua proteção. Certa feita, um sujeito surgiu do nada e passou beber na bodega do meu tio Pedro, quando já tinha bebido quase um litro de cachaça e estava de cabeça cheia, quis me dar o calote: alegou que tinha deixado o dinheiro em casa. Passei lhe acompanhar aqui, ali e acolá, nada de chegar ao destino desse sujeito, quando íamos à altura do DNIT (naquela época, capoeira e mata fechada cortada por um caminho), embaixo duma Jaqueira, surge Charqueada:

- Ei moço, aonde vai com este menino!? – O cara titubeou, tremeu na base (Charqueada tinha quase 1,90 m de altura, os braços enormes e musculosos), apontou o lugar: “acolá, ali perto do...”, o meliante não completou a frase, recebeu uma bofetada em cima das fuças, caiu, levantou, tomou mais bofetadas, e pernas pra que te quero? Sumiu nas perambeiras...

Um dia, eu lhe perguntei:

- Charqueada, por que tanta rixa?

- Doutorzinho, eu não mexo com as pessoas, elas que mexem com a minha pessoa!

- Compreendo...

Hoje, 6 décadas depois, não me sai da cabeça, o significado da frase de Charqueada: “Doutorzinho, eu não mexo com as pessoas, elas que mexem com a minha pessoa”. Algumas pessoas não conseguem se relacionar com outras de forma natural, são rejeitadas sem motivo, não são simpáticas, não são envolventes, por mais que se esforcem, às vezes, elas se impõem pelo exemplo, pela firmeza e coerência de suas atitudes, mas não aceitas de bom grado, elas sempre são cutucadas de graça, sem motivo significativo. Eu sou um pouco Charqueada, eu não mexo com as pessoas, elas que mexem comigo, como não sei usar um “Tramontina”, Deus deu-me o dom da caneta.

Em 2017, fui ultrajado publicamente em sites e revistas pela direção da ALITA, daquela época, minha dignidade pessoal foi achincalhada, se tenho algum mérito intelectual foi para Cucuia, eles espalharam a cultura do ódio, muitos confrades viraram-me a cara, fui taxado de “pavio curto”, "Sujeito difícil...", não participei da primeira revista histórica Guriatã, por mais que me penitenciasse, fui alijado pela entidade que ajudei fundar. O crime que fiz, foi criticar publicamente (não tinha espaço no grupo intolerante e tendencioso), a má gestão desses próceres e lhes sugerir novos caminhos no blog que administro Saber-Literário.

Por isso, surpreendi-me quando no dia 6 de fevereiro, deste ano, recebi um e-mail do escritor Cyro de Mattos, convidando-me para enviar um texto para 3ª. Revista Guriatã, de chofre, achei que o convite não passava de um “acidente”:

“Alitanos: Enviei no ano passado vários comunicados aos membros da ALITA para que enviassem colaborações para o número 3 de Guriatã.

Recebi apenas textos de Sônia Maron, Ruy Póvoas, João Otávio e Ceres Marylise.

Estou fechando o número 3 da revista, que suponho terá o mesmo nível dos números anteriores ou melhor.

Mantenho contato com uma gráfica para obter os custos da edição em torno de 3 mil reais, abaixo dos das edições anteriores.

Quem quiser, ainda pode enviar suas colaborações para este número de Guriatã, três páginas no máximo, ensaio, crônica, conto, menos poesia, até o dia 13 deste mês de fevereiro.” Cyro de Mattos.


Respondi-lhe no mesmo dia:

“Acho que este e-mail para mim foi um "acidente", pois fui "expulso" da ALITA, mas se não foi "acidente", eu tenho 168 contos publicados, poderei selecionar o mais lido e enviar-lhe” Cordialmente, Rilvan Batista de Santana

Mesmo assim, enviei-lhe um pequeno conto infantil, despretensioso, que exalta o amor filial com o título: “O Segredo”, recebi no dia 14.02, o e-mail:

“Seu texto não se encaixa na revista Guriatã, por ser de natureza infantil, destinado ao público infantil. Obrigado.” Cyro de Mattos

Queixei-me, sabia a priori, que meus textos não seriam publicados, ele respondeu-me:

“Lembro que seu texto Jupará foi publicado no número 2 de Guriatá. Foi publicado por suas qualidades. O autor nem sempre acerta no que escreve. Nem os grandes. Perfeito só Deus. Lerei logo este novo texto de sua autoria.” Cyro de Mattos

Enviei-lhe mais um texto, desta vez, não escolhi texto infantil, mas um texto filosófico e metafísico sobre o “nada”, “O cadáver”:

“E, esse, prezado acadêmico? É um texto de adulto, inclusive, filosófico: uma discussão sobre a morte”.

“Sei, a priori, que nenhum texto meu, será publicado, porém, recebi um e-mail de V. S.ª solicitando a colaboração dos acadêmicos para completar a edição da revista.

Se não for possível não será necessário responder-me...” Cordialmente, Rilvan Batista de Santana


Não me respondeu, certamente, não será publicado. A cultura do ódio ainda continua. Lembro-me que a presidente atual me disse no Shopping Jequitibá, quando manifestei meu desejo de voltar e frequentar às sessões da ALITA: “O senhor não se sentirá confortável, não existe clima...”, e a professora Lourdes Bertol completou: “Fulano e sicrano disseram na reunião: - ele ou nós!”

Acho que eles não leram “O cadáver”, pois, lá diz:

“Ele estava ali estirado, o cadáver, o nada diante do tudo e tudo diante do nada, mas o tudo é o nada... Deus, ó Deus, onde estás que não vês o nada?! Nós todos, somos o nada diante de Ti! O nada é o cadáver, mas o cadáver já foi o tudo e o tudo um dia será o nada! O nada é o que existe...”


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons





Saudade eterna!... - R. Santana

 


Saudade eterna!... - R. Santana

Itabuna, 03 de julho de 2000.

À Direção, Coordenação, Supervisão, docentes e discentes do IMEAM

Prezados colegas:

Parafraseando o poeta popular, diria que quem parte, parte chorando, quem fica, fica.... bem... quem fica, fica chorando de dor ou de alegria por ter se livrado de uma persona non grata que não irá fazer falta ao grupo, principalmente, não irá fazer falta à comunidade docente e discente dessa escola.
Não iria me aposentar pela prefeitura, agora, teria mais 3 (três) anos pela frente, todavia, pelas mudanças constantes das leis previdenciárias, averbei 3 (três) anos de uma escola de Itajuípe e fui pendurar as minhas chuteiras no cabide do Instituto Nacional da Previdência Social – INSS.
Se a prefeitura dispusesse da figura jurídica do abono de permanência do estado da Bahia em sua relação de trabalho tê-lo-ia solicitado, pois o meu desejo seria ficar mais algum tempo junto com a família do IMEAM. Todavia, nem a vida é eterna, tudo tem o seu tempo e o meu tempo chegou, consola-me ter a consciência do cumprimento do dever.
Levo no baú das recordações mais alegrias do que tristezas dessa escola, mágoa e ódio nenhum. Sempre serei eternamente grato aos gestos e ações solidárias que recebi dos meus colegas nos momentos de dor com a minha filha Ana Paula. Lembrando dela e do seu infortúnio, não poderia deixar de lembrar, por gratidão e justiça, o meu singelo e eterno reconhecimento às preocupações de Alzair, Gracinha, Elza, Nivalda, Inês, Rose Mangabinha, Nildinha e Edulindo, que comungaram comigo no dia a dia dessa nefasta caminhada.
Sei que construir algumas arestas, o meu discurso político, às vezes, é rude entre alguns colegas, uns por dificuldade de empatia; outros, em discordância dos meus princípios políticos. Porém, peço-lhes vênia para lembrá-los que quanto à minha ousada posição ideológica, sempre fui coerente, fiel, mas sem subserviência, fuxico ou alguma conduta desairosa.
Sempre usei de honestidade e lisura com os meus colegas, independente de sua matiz ideológica, porque os governantes são efêmeros, não perenizam, porém, a amizade e a estima são tesouros imperecíveis.
Orgulho-me sobremaneira, encerrar a minha participação nessa escola e ter como diretores uma plêiade de profissionais sensíveis, éticos e compromissados, pautados, somente, na solução dos problemas funcionais dessa instituição, que sem alimentar futricas, intrigas e alardes, vêm conduzindo com sabedoria o IMEAM, deixando para posteridade exemplo de dignidade e trabalho a ser seguido.
Gostaria de deixar uma palavra de carinho para minha amiga Vera Monteiro, que com seu jeito intempestivo e turbulento, transmite uma fortaleza obtusa, mas não passa de uma menina crescida que se desmancha em lágrimas quando por força de sua função tem que exercer autoridade com um colega.
Não quero, aqui, fazer exercício de futurologia: “mor” irá fazer uma falta inestimável aos quadros do IMEAM quando tiver de deixá-lo – sem puxa-saquismo, pois, agora, irei mamar nas tetas do governo federal, de pernas...
Sem presunção, sem afetação, direi aos meus colegas do giz e da saliva que estamos passando por um processo de abrupta mudança e avanços pedagógicos dos especialistas em educação, essas mudanças são irreversíveis enquanto perdurar o modelo político neoliberal, do livre mercado, da competitividade, da produtividade. Se não quisermos ser sucumbidos pelos novos tempos, teremos que nos adequar profissionalmente. Porém, confio na inteligência dos meus pares e na sua capacidade de discernimento e adaptação.
O desequilíbrio é necessário para o crescimento do sujeito, entretanto, é necessário a priori, que sintamos o desejo de mudar, sem ideias preconcebidas e atitudes preconceituosas. Contudo, não devemos abrir mão da luta por melhores condições de trabalho e de salários justos (não sou daqueles que me constranjo ao falar de salário, afinal, saco vazio não se põe em pé), e também, que não enfiemos goela adentro todas baboseiras teóricas daqueles que ficam nos gabinetes conjecturando ideias panaceias para justificarem a probidade dos seus salários em completo desacordo com a realidade.
O professor de Matemática e disciplinas afins, são os únicos que lidam em sua prática diária com os raciocínios lógicos, com as construções hipotéticas, indutivas, dedutivas, por isto, têm potenciais condições intelectuais para contribuir, sobremaneira, nesse processo de mudança pedagógica, onde a preocupação com a aprendizagem do sujeito e sua formação cidadã constituem as vigas mestras da escola moderna, contemporânea.

Plagiando o imortal Euclides da Cunha, em os Sertões, diria, duas linhas:

“O meu eterno agradecimento à família IMEAM.
Que a paz, a concórdia e o trabalho sejam as divisas da bandeira dessa escola”.


Cordialmente,

Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Nota Editorial:

Hoje, fuçando o meu arquivo, encontrei esta missiva que fiz quando me aposentei do IMEAM, ao corpo docente e discente. Quê saudade? Eterna saudade!...

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