6.21.2026

COR E AUSÊNCIA DE COR - Agilson Cerqueira

 

COR E AUSÊNCIA DE COR

Agilson Cerqueira


Pinte a pobreza, a fome e todas as formas de desigualdade. Pinte a exclusão, o abandono e as injustiças que insistem em marcar a vida de tantos. Faça da arte um grito de indignação diante do sofrimento humano, uma denúncia silenciosa ou estrondosa contra tudo aquilo que diminui a dignidade das pessoas. Que suas cores revelem as feridas que muitos preferem não ver e que seus traços exponham as contradições de uma sociedade capaz de produzir abundância para alguns e escassez para outros.


Mas não pinte apenas a dor. De vez em quando, pinte também o belo. Pinte a delicadeza de um gesto, a serenidade de um olhar, a luz que atravessa a sombra e a esperança que resiste mesmo nos lugares mais improváveis. Pinte a inquietude que move o pensamento e a doçura que conforta a alma. Pinte os encontros, os afetos, os sonhos e as pequenas alegrias que tornam a existência suportável e, por vezes, extraordinária.


A arte não deve ser prisioneira nem da denúncia nem do encanto. Ela encontra sua plenitude quando transita entre ambos os mundos: quando revela o que precisa ser transformado e, ao mesmo tempo, preserva aquilo que merece ser celebrado. Afinal, o ser humano não vive apenas de revolta, assim como não vive apenas de contemplação. Necessita da consciência que questiona, mas também da beleza que inspira; da inquietude que provoca mudanças, mas igualmente da doçura que oferece abrigo.


Por isso, pinte o mundo como ele é, com suas feridas e desigualdades, mas não se esqueça de pintá-lo também como ele pode ser: mais justo, mais sensível, mais humano. Entre a indignação e a ternura, entre o protesto e a contemplação, talvez resida uma das mais nobres missões da arte.


Agilson Cerqueira
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.
Licença: Creative Commons

Um comentário:

Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos

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