6.24.2026

Luiz Gonzaga - Dilva Frazão

 

Luiz Gonzaga (1912-1989) foi um músico brasileiro. Sanfoneiro, cantor e compositor, recebeu o título de "Rei do Baião". Foi responsável pela valorização dos ritmos nordestinos, levou o baião, o xote e o xaxado, para todo o país. A música "Asa Branca" feita em parceria com Humberto Teixeira, gravada por Luiz Gonzaga no dia 3 de março de 1947, virou hino do Nordeste brasileiro.

Infância, Adolescência e a primeira sanfona

Luiz Gonzaga nasceu na Fazenda Caiçara, em Exu, Sertão de Pernambuco, no dia 13 de dezembro de 1912. Era filho de Januário José dos Santos, o mestre Januário, "sanfoneiro de 8 baixos", e de Ana Batista de Jesus. O casal teve oito filhos.

Desde menino, Luiz Gonzaga pegava na enxada, mas preferia ficar olhando o pai tocar sua sanfona. Logo aprendeu a tocar e animar as festinhas da região. Cresceu ajudando o pai na roça e na sanfona, mas também fazia pequenos serviços para os fazendeiros da região.

Luiz Gonzaga era protegido do Coronel Manuel Aires de Alencar e de suas filhas, e com elas aprendeu a ler, escrever e falar correto. Aos 13 anos, com o dinheiro que juntou, mais o emprestado pelo coronel, Luiz foi para Ouricuri e comprou sua primeira sanfona. O primeiro dinheiro que ganhou foi tocando em um casamento, ali sentiu que a música era seu destino.

A Fuga de casa e a vida no Exército

Em 1929, com 17 anos, por causa de um namoro proibido pela família da moça, e de uma surra que levou da mãe, Luiz fugiu para o mato. Mas a fuga maior foi quando deixou sua casa para ir a uma festa no Crato, no Ceará. Luiz Gonzaga vendeu sua sanfona e foi para Fortaleza, onde buscava no Exército, uma vida melhor.

Com a Revolução de 30, viajou pelo país. Era o corneteiro da tropa. Em 1933, servindo em Minas Gerais, não entrou para a orquestra do quartel, pois não sabia a escala musical. Mandou fazer uma sanfona e decidiu ter aulas com Domingos Ambrósio, famoso sanfoneiro de Minas. Transferido para Ouro Fino, sul de Minas, tocou pela primeira vez em um clube.

Luiz Gonzaga no Rio de Janeiro

Em 1939, Luiz Gonzaga deixou o Exército, foram nove anos sem dar notícias à família. Enquanto esperava o navio para voltar para Pernambuco, Luiz ficou no Batalhão de Guardas do Rio de Janeiro, quando um soldado o aconselhou a ganhar dinheiro tocando na cidade.

Logo, Luiz estava tocando nos bares do Mangue, nas docas do porto e nas ruas, em busca de trocados. Acabou sendo convidado a tocar nos cabarés da Lapa. Nessa época, seu repertório era o exigido pelo público: tangos, fados, valsas, foxtrotes etc. Nesse ritmo fez sua primeira tentativa no rádio, em programa de calouros de Silvino Neto e Ary Barroso, mas sua nota não passava de 3.

Em 1940, um grupo de estudantes cearenses que estudavam no Rio o aconselhou a tocar as músicas dos sanfoneiros do sertão nordestino. Ao participar de um programa de calouros do rádio, tocando “Vira e Mexe”, Luiz ganhou nota 5 e o prêmio de primeiro lugar.

Certo dia, Luiz foi procurado por Januário França para acompanhar Genésio Arruda numa gravação. Luiz se saiu tão bem que foi convidado pelo diretor artístico da RCA, Ernesto Morais, para gravar um disco.

No dia 14 de março de 1941, Luiz gravou dois discos como solista de sanfona. No primeiro: a mazurca Véspera de São João e Numa Seresta. No segundo: Saudade de São João del Rei” e “Vira e Mexe, um chamego de sua autoria.

Durante cinco anos, Luiz Gonzaga gravou cerca de setenta músicas, das quais apenas 10 eram “chamegos”. Fez carreira no rádio e começou a luta para cantar e gravar as músicas nordestinas.

Fez parceria com Miguel Lima, que colocava letras em suas músicas, mas só em 11 de abril de 1945 gravou seu primeiro disco como sanfoneiro e cantor com a música Dança Mariquinha.

Luiz foi em busca de um parceiro nordestino e conheceu o advogado cearense Humberto Teixeira, era o início de uma parceria que durou cinco anos.

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Luiz Gonzaga lançou músicas com versos simples, impregnado de modismos nordestinos. Sua música agora, era acompanhada de sanfona, triângulo e zabumba. Entre os sucessos da parceria, destacam-se: Baião, Asa Branca, Kalu, Paraíba, Assum Preto etc.

Asa Branca

A música “Asa Branca” foi um dos primeiros grandes sucessos nacionais de Luiz Gonzaga. O disco original foi lançado pela RCA, no dia 3 de março de 1947. Segundo Luiz Gonzaga, a música nasceu como toada, com raízes folclóricas.

Com letra de Humberto Teixeira e música de Luiz Gonzaga, Asa Branca retrata o sofrimento do povo do Sertão do Nordeste brasileiro diante da seca que assola a região. Asa Branca fez muito sucesso e foi gravada por diversos cantores, entre eles, Dominguinhos, Sérgio Reis e Baden Pawell.

A Volta para sua terra natal

Depois de longos anos, Luiz Gonzaga voltou para sua terra natal. Foi para o Recife e se apresentou em vários programas de rádio, sempre vestido com um gibão de couro, chapéu de vaqueiro e óculos escuro estilo Ray Ban aviador. Em 1949 levou sua família para morar no Rio de Janeiro.

Nesse mesmo ano, voltou ao Recife, quando conhece o médico Zé Dantas, que sabia cantarolar todas as suas músicas. Foi o início de uma parceria que lançou os sucessos: Vem Morena, A Dança da Moda, Cintura Fina e A Volta da Asa Branca.

Entre 1948 e 1954, Luiz Gonzaga morou em São Paulo, de onde viajava para todo o país. O seu sucesso não parou mais. Em 1980, Luiz Gonzaga cantou para o Papa João Paulo II, em Fortaleza.

Convidado pela cantora amazonense Nazaré Pereira, se apresentou em Paris. Recebeu o prêmio Nipper de ouro e dois discos de ouro com "Sanfoneiro Macho".

Família

Luiz Gonzaga teve um relacionamento com a cantora e dançarina Odaléia Guedes dos Santos. Em 1945, desse relacionamento, nasceu Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, conhecido como Gonzaguinha, que ficou órfão de mãe com dois anos de idade.

Em 1948, Luiz Gonzaga casou-se com a pernambucana Helena Neves Cavalcanti e juntos, criaram Gonzaguinha e adotaram a menina Rosa Gonzaga.

Morte e homenagens

Luiz Gonzaga lutou durante seis anos contra um câncer de próstata. No dia 21 de junho de 1989, foi internado no Recife, Pernambuco, no Hospital Santa Joana, já bastante debilitado. No dia 2 de agosto de 1989 faleceu vítima de uma parada cardíaca.

O caixão com o corpo de Luiz Gonzaga foi levado, em cima de um carro de bombeiro, para a Assembleia Legislativa, onde foi velado por uma multidão de admiradores. Em seguida, foi levado para ser sepultado em Exú, sua terra natal.

Em 2007, Luiz recebeu a "Ordem do Mérito Cultural. Em 2012, quando se comemorou 100 anos do nascimento de Luiz Gonzaga, foi lançado o filme "De Pai Para Filho", narrando a relação conflituosa entre Gonzaga e Gonzaguinha. O artista recebeu várias homenagens em todo o país.

Sucessos de Luiz Gonzaga

Asa Branca

Luar do Sertão

Súplica Cearense

A Feira de Caruaru

No Meu pé de Serra

A Triste Partida

Assum Preto

Olha Pró Céu

Balance Eu

Paraíba

Pau de Arara

Cintura Fina

Danado de Bom

Riacho do Navio

Xote das Meninas

No Ceará Não Tem Disso Não

Numa Sala de Reboco

Respeita Januário

Pagode Russo

Último Pau de Arara

O Fole Roncou

Zé Matuto

Dezessete e Setecentos

Dança Mariquinha

Baião de Dois

ABC do Sertão

 

Fonte: E-biografia / Dilva Frazão (Biblioteconomista e professora)

Vídeo: YouTube

Foto: Google


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6.23.2026

EXISTE SEMPRE UM PROBLEMA PARA VOCÊ - João de Paula- EJ.

 

EXISTE SEMPRE UM PROBLEMA PARA VOCE

De: João de Paula- EJ.

Deus abençoe sua caminhada.

Sua família.

Seus amigos.

Seus colaboradores

Seu trabalho.

Suas conquistas.

Seus encontros.

Suas realizações.

Não deixe que os problemas abreviem seus dias.

Salve Deus.

Problema existe sempre um para você, ou mais.

 

Então, fique esperto.

Não desanime!

Não pode é desanimar.

Baixar a cabeça.

Cruzar os braços.

Ficar lamuriando

Reclamando.

Não deixar a peteca cair.

É bola pra frente.

Pés no chão e o olhar voltado para o futuro.

Força.

FÉ.

Foco

FE.

Oração.

É vida que segue.

O importante é fazer o bem, ser útil, ser grato e querer mudar de nível.

Sair do plano infernal, doença, pobreza e conflito, para o plano celestial de paz, saúde e prosperidade.

Enfim, problema sempre existirá.

O essencial é procurar solucionar o problema mediante nossas possibilidades e vontade em priorizar as coisas que nos ajudam a viver bem hoje e sempre.

Eu sou o caminho, a verdade é a vida - disse Jesus Cristo.

Siga avante!

Desanimar, jamais.

Hei de vencer.


Autoria: João de Paula

Foto: Produção


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Cacau e peleja - R. Santana

 

            Cacau e peleja - R. Santana
 
I

    Joaquim Santos Almeida, conhecido por amigos e inimigos por “Kinkim”, do balaústre da sua casa, olhava a beleza que ficava abaixo do outeiro, na entrada da fazenda Angicos: uma cancela, uma estrada de pedras brutas multiformes com mais ou menos 500 m de comprimento por 8 m de largura, ladeada por palmeiras imperiais, mudas importadas de longe que lhe custou “os olhos da cara”; uma enorme represa, onde gansos e patos davam o toque de beleza ao cenário e os gramados laterais arborizados completavam a visão bucólica. Tudo aquilo não tinha sido construído de estalo, mas com muito trabalho, suas terras de mata e cacau formavam um grande latifúndio, possuía terras cultivadas e incultas às margens do Rio Pardo, no vale do Rio Panelão e às margens do Rio Panelinha.

    Kinkim e seu amigo Natalino Pataxó vieram para o Vargito na 2ª. Expedição liderada pelo médico José Elias Ribeiro, ambos, com um pouco mais de 17 anos de idade. Derrubaram matas, cabrocaram capoeiras, demarcaram terrenos e plantaram cacaueiros, mataram quem lhes quis atrapalhar, construíram casebres de pau a pique entrelaçados de varas amarradas com cipós em forma de quadrados e preenchidos de barro, casebres cobertos de piaçava, outrora, usavam as copas mais altas das árvores para passar a noite.

    No início do desbravamento, eles se alimentavam de peixes, tatus, saruês, quatis, carne-seca, toucinho, dobradinhas, farinha, sal e pimenta, de quando em vez, feijão e carne de boi e carne de porco adquiridas na feira-livre do Vargito. Além de lhes faltarem recursos financeiros, sem produtividade de cacau, toda economia era bem-vinda. Anos depois, lá para o ano de 1935, eles eram ricos fazendeiros e inimigos figadais.

    Kinkim tinha ambição desmedida, aumentou suas terras comprando-as por vinténs ou expulsando posseiros pelo argumento do bacamarte e do parabélum. Sovina, tudo que produzia em suas terras, o dinheiro era guardado sob sete capas. Não desperdiçava nada, até as mulheres de vida fácil do povoado Vargito não lhe arrancava dez-réis de mel coado, além do combinado.

    Kinkim não gostava de cachaça, não fumava, não jogava, seu único vício, era o bate-coxa no cabaré de Maria João. Gostava de andar sozinho, dizia que “puta só e ladrão só”, ou, “melhor sozinho do que mal acompanhado”. Quando enricou, junto com o dinheiro e os bens, vieram atrás de si, muitos inimigos, por conta disto, sofreu dois atentados rechaçados por tiros fatais ao inimigo, porém, num deles, o cavalo foi morto. Daí em diante, passou ser acompanhado por jagunços guarda-costas armados até os dentes com carabinas e pistolas.

    Natalino Pataxó tornou-se também homem rico, não tanto quanto Kinkim, não tinha a mesma ambição desmedida do outro, fazendeiro de 2000 arroubas de cacau que lhe propiciou ter casa em Itabuna para manter os meninos na escola e o filho mais velho foi estudar engenharia em Salvador. Também, não tinha vícios, de quando em vez, fumava um charuto para distrair-se não por necessidade.

    Jovem, teve que enfrentar com clavinote e pistola, índios indolentes e jagunços travestidos de posseiros para se estabelecer, porém, intuitivamente, sempre teve bom senso para separar o certo e o errado. Sempre soube separar o pioneiro do desbravador sanguinário, não atacava, contra-atacava, rompeu a amizade com Kinkim porque ele era desprovido de senso moral, ele não separava a justiça da injustiça, “os meios justificam os fins”, com este marco, ele ceifou a vida de muitos inocentes para construir seu latifúndio.

    Natalino herdou dos pais o sentimento religioso, sua mãe era papa hóstia, seu pai não ficava atrás, a Bíblia era o seu livro de cabeceira, não perdia uma missa, chovesse ou fizesse sol, não tinha inimigos, pequeno agricultor, sua fazendola nunca foi além de 200 arroubas de cacau e, louvava a Deus todos os dias, seus filhos não passarem fome e levarem uma vida digna. Natalino saiu de casa a contragosto, ele e a mulher passaram dias na igreja orando para que nada lhe acontecesse, só relaxaram a devoção quando souberam que o filho estava no Vargito são e salvo.

    Por isso, não se tomou como surpresa o misticismo de Natalino depois de maduro. No início, ingressou numa igreja evangélica, depois pelos caminhos tortuosos da vida, ele começou a frequentar um candomblé da redondeza e com a morte do “Pai de Santo”, ele assumiu os trabalhos com o título: “Pataxó Babalorixá”. Algum tempo depois, transferiu o terreiro de sua seita para sua fazenda num grande e suntuoso caramanchão.

    Tinha consciência que corria perigo de morte desde que recusou, peremptoriamente, vender suas terras da fazenda Jupará para Kinkim, pois seus 150 hectares, afora a produtividade de cacau, possuía boa aguada, 30 hectares de mata, 40 hectares de pastos piquetados e, inviabilizava seu arquiinimigo estender suas terras pelo lado norte de sua fazenda. Não tinha medo dele tête-à-tête, porém, o conhecia desde o tempo das “vacas magras”, o homem era mais traiçoeiro do que corajoso, se vacilasse, ele viraria comida de urubu por algum jagunço de seu desafeto, escondido atrás de uma jaqueira ou um pé de vinhático, a soldo de Kinkim, por isto, nunca se desapartou de um parabélum ou um clavinote.
II


    Natalino Pataxó teve razão em alimentar por muito tempo a covardia de Kinkim, naquela manhã, “Joaquinzinho” presenciou a conversa particular do seu pai com um conhecido pistoleiro:

        - Vesgo, ele vai ver a mulher e os filhos em Itabuna!

        - Quando?

        - Dia 30, deste mês!

        - Ele tem fama de bruxo...

        - Supersticioso?

        - Não!

        - Medo é pra maricas, rapaz!

        - Eu sou homem de fé...

        - Quer desistir?

        - Não! – Completou:

        - Não sou homem de mijar acocorado, patrão!

        Silêncio...

        - Quanto é o serviço?

        - Dez contos de réis!

        - Tudo isso?

        - É bagatela. Ainda lhe trago a cabeça e os colhões!

´        -Tá doido, Rapaz!?

        - É costume!

        - Negócio fechado. Daqui a 15 dias compareça aqui, quero lhe dar uma carabina nova e munições, vá lá que surja muita gente lhe...

      - Patrão, desculpe-me, mas não uso ferramenta alheia, tenho por costume fazer uma marca na coronha do meu clavinote, cada vez que eu envio um daqui pra o lado de lá! – ele mostrou a coronha da arma toda picotada.

        - Até mais ver!

        - Até!
III


    Joaquinzinho não aprovou a conversa de Vesgo e seu pai, inclusive, tiveram uma discussão. Não compreendia aquela inimizade, pois na mocidade ambos eram carne e unha. Trabalharam como um condenado, construíram suas fazendas, até tinham casa em Itabuna para que os filhos pudessem estudar. Entendia que matar um homem só em legítima defesa, principalmente, se esse homem era compadre recíproco. Gostava do padrinho e faria tudo para evitar que ele fosse assassinado. Gostava também do seu pai, mas depois que ele começou estudar na capital, lhe reprovava o comportamento desumano, primitivo, sua ambição não tinha limite, pressentia que seus últimos dias de vida não tardariam chegar.

    Mantinha boa relação com Natalino, a contragosto do seu pai, argumentava que o padre da paróquia dizia que “o padrinho é um segundo pai”, por isto, não tinha nada a ver com suas desavenças.

    Seu padrinho o tinha como filho, lhe dispensava os mesmos cuidados que dispensava aos próprios filhos, até a idade de 12 anos, passava mais tempo na casa do padrinho que na casa dos seus pais, depois do rompimento de amizade dos adultos, é que passou se encontrar de quando em vez com Natalino, portanto, vê-lo morrer numa tocaia promovida pelo seu pai, seria o mesmo o que Judas Iscariotes fez ao Cristo.

    Enfim, às escondidas, seu padrinho dava-lhe uma mesada mensal para que não lhe faltasse nada em Salvador.

IV

    Naquele dia 30 de junho de 1937, às 17 horas, Natalino e mais 3 camaradas, encilharam os animais para seguirem viagem até Vargito de lá para Itabuna, que se o tempo tivesse bom, eles levariam 2 dias na viagem, mesmo com trechos íngremes, riachos e ribeirões para os cavalos atravessarem, se o tempo tivesse chuvoso e relampejando, o tempo na estrada seria maior. De sua fazenda Jupará até o Vargito dista 1,5 légua, por isto, ele e os camaradas programaram sair mais cedo e pernoitarem no povoado. Além dos animais de montaria, levaram mais 3 animais de cargas que seriam usados no retorno com os caçuás de mantimentos.

    Ardiloso, dessa vez não quis viajar sozinho e preparou vários artifícios para não ser pego desprevenido em alguma tocaia desde que recebeu um bilhete  de Joaquinzinho: “...padrinho o senhor está na mira do clavinote de Vesgo, cuidado quando for viajar”. Por isto, quando saiu do descampado ainda dia e entrou na mata, frouxou o cabresto de uma égua e esperou sua reação, repassou as estratégias combinadas com os camaradas, à frente do grupo, um boneco tamanho homem, vestido com um capote colonial de luvas e chapéu confundia qualquer cabra por mais sagaz que fosse, não tardou a égua sair do grupo e adentrar na mata atrás de algum cavalo ali, enquanto o boneco avançava e recebia uma saraivada de balas, ao mesmo tempo, todos saíram agachados em direção contrária à linha de fogo.

    Quando Vesgo entendeu que havia caído numa cilada quatro carabinas miravam suas costas, tentou reagir, mas uma bala certeira despedaçou a coronha de sua arma, enquanto Natalino gritava: “A próxima será em sua cabeça, levante as mãos!” Vesgo, boca dura, quis dar uma de pistoleiro ético e recusou-se falar do mandante, então, 2 camaradas amarraram o pistoleiro, jogaram-no em cima dum cavalo, uma corda foi laçada no seu pescoço e a ponta amarrada num galho de ipê amarelo, Natalino Pataxó argumentou:

        - Cabra, aqui tem 4 carabinas apontadas pra você, se quiséssemos já tínhamos lhe matado e jogado seu corpo no pasto para os urubus, porém, dou-lhe a chance de viver se disser quem mandou me matar (ele sabia...), mas se insiste vou soltar este cavalo, você sabe o que irá lhe acontecer. Vou contar até 10:

        - Um, dois, três, quatro, cinco, seis... – na casa do sem jeito, Vesgo gritou:

        - Foi seu Kinkim!!!
V

    Na manhã seguinte, Natalino abre a cancela da fazenda Angicos com 6 homens armados com carabinas engatilhadas, parabéluns pendentes nos arções da sela, peixeiras nas cinturas, numa distância prudente, Natalino Pataxó, grita:

        - Kinkim! Kinkim! Kinkim! – ele aparece com dois cabras:

        - Quem lhe autorizou você entrar em minha propriedade? – os cabras se mexeram, mas foram desarmados pelo pessoal de Natalino numa ação relâmpago...

        - A polícia! Você conhece o sargento Barreto? – Kinkim empalideceu, respondeu:

       - Não! Não tenho nada ver com a polícia, saiam de minhas terras! – O sargento não aguentou:

        - O senhor está preso!

        - Por quê?

        - Mandou assassinar Natalino Pataxó!

        - Quais as provas?

        - O pistoleiro Vesgo preso, mais dez contos de réis! – ele tentou reagir, mas o sargento tirou sua arma do coldre com um tiro.

        - Mãos pra cima, está preso!

    Cena macabra: o temido fazendeiro Joaquim Santos Almeida em cima do seu cavalo com os punhos atados, desarmado, seus asseclas atrás, sete carabinas prontas para qualquer eventualidade, cavalgavam lentamente em direção ao Vargito. Começava, ali, a Lei dos homens ser cumprida naquelas terras do sem fim.


Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA
Foto: Google

6.22.2026

O ENCANTO DO EXISTIR - Agilson Cerqueira



 O ENCANTO DO EXISTIR 

Agilson Cerqueira 


Basta ver o sol brilhar para que algo dentro de mim desperte. Basta a lua se manifestar silenciosa no céu da noite para que eu me recorde de que há beleza mesmo onde não procuro. Basta sentir o vento soprar sobre a pele, atravessando caminhos invisíveis, para que eu compreenda que a vida está em movimento, ainda que eu permaneça parado.


O calor e o frio, cada qual à sua maneira, anunciam a passagem do tempo. A luz que nasce e o escurecer que chega lembram que tudo se transforma, que nada permanece exatamente igual. As árvores abanam seus ramos, os campos ondulam, as nuvens seguem viagem, e eu sigo com elas em pensamento.


Não preciso de grandes acontecimentos para me maravilhar. O viver já é um acontecimento extraordinário. O sonhar, uma forma de prolongar o horizonte para além do que os olhos alcançam. Há uma alegria discreta nas coisas simples: no brilho da manhã, na serenidade da noite, no vento que passa sem pedir licença.


E, quando observo tudo isso, percebo que existir é participar de um espetáculo antigo e sempre novo. Sou testemunha do sol, da lua, do vento, da luz e da sombra. Sou parte do movimento que anima o mundo. E, por um instante, apenas por estar aqui, vendo, sentindo e sonhando, encontro razões suficientes para celebrar a vida.


Agilson Cerqueira

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.

Licença: Creative Commons

Canção - Cecília Meireles

 

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Canção


Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles


Fonte: Pensador

Foto: Google

Descobri o meu país - Clarice Lispector

 








Descobri o meu país

 

Subi a montanha

e no seu topo os anjos me cercaram

e me engrinaldaram a fronte

com as flores do céu.

Asas zumbiam

em harmonias fragílimas

e vozes de arcanjos louvavam a paz.

Derramaram sobre meu corpo

sete bálsamos purificadores

e fizeram-me beber

ambrosia e mel.

Banharam-me no rio da música

e eu saí ingênua

como o canto de uma criança.

E depois surgiram novos anjos

e não havia noite

e não havia dia.

E a ambrosia e o néctar

deslizavam com fartura celestial.

E novas canções se entoaram

sempre em louvor a Deus.

E não havia noite

e não havia dia.

E aos poucos cresceu dentro de mim

o desespero

e eu busquei em vão os olhos celestiais.

Eles nada diziam

e cantavam a paz.

E aos poucos uma nostalgia

me enlanguesceu

e eu era o arco distendido

sem a flecha

e eu buscava o ar

sem respirar.

Um anjo me interrogou: mais néctar?

Eu gritei: quero cheiro da terra!

E o anjo me perdoou

E eu cansei de ser perdoada,

eu queria sofrer.

E não havia noite e não havia...

Quebrei minhas asas,

desci a montanha

e vivi na Terra!

 

Homens amavam

e cansavam do amor.

Homens bebiam sangue

e descobriam

que não desejavam brigar

Entoavam-se cânticos místicos

onde só havia a insatisfação.

E depois homens morriam

e todos sabiam que era o fim.

Nem a terra,

nem o céu!

 

Fechei-me num quarto,

inventei outro Deus,

outro céu, outra terra

e outros homens.

Clarice Lispector Dom Casmurro, 25 out. 1941. In: Moser, Benjamin. A Newly Discovered Poem By Clarice Lispector. Revista de Literatura Brasileira, n. 36, p. 37-46, ano 20, 2007.

Primeiro Faça a Lição de Casa - Rick Boxx

Primeiro Faça a Lição de Casa  

Rick Boxx

 

Assisti pela televisão a um reality show intitulado “Shark Tank” (N.T. em português, “Shark Tank: Negociando com Tubarões”), no qual cinco investidores de sucesso consideram financiar empreendimentos inovadores. Nesse episódio um jovem empreendedor cometeu o maior dos erros de estratégia. Ele não preparou adequadamente sua apresentação para conquistar o interesse e suporte dos investidores. 

 

Aquele provável homem de negócios corajosamente pediu aos cinco investidores, que são chamados de “tubarões” por ser este um termo usado algumas vezes para descrever líderes empresariais muito agressivos e perceptivos, para investirem US$ 1 milhão em seu inovador empreendimento. Esse jovem, porém, não tinha feito sua lição de casa. Com um mínimo de pesquisa ele teria compreendido que o seu pedido de financiamento era ridiculamente elevado, especialmente porque ele ainda não fizera nenhuma venda e seu produto, embora interessante na teoria, ainda não fora testado. 

 

O aspirante a empreendedor claramente também não estava preparado para responder às perguntas básicas dos “tubarões”, típicas do programa, nada extremamente complicado ou capcioso. Na verdade, aqueles homens de negócios poderiam ter providenciado os recursos para que ele iniciasse o seu empreendimento, mas o jovem falhou em fornecer a eles as informações que pediram. Sua falta de compreensão de todo o processo de desenvolver e apresentar um plano de negócios crível fez com que saísse do programa de mãos vazias e desapontado.

 

A Bíblia apresenta bons conselhos sobre a forma apropriada de abordar uma situação assim. Provérbios 3:13-14 ensina:  “Como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento, pois a sabedoria é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro.” Um aspirante a empresário mais sábio teria se aconselhado com algum conhecido que tivesse experiência e discernimento sobre os “como, o que e por quê” de se iniciar uma nova empreitada. Tal pessoa então, de posse dessas informações, formularia um plano de negócios e pediria ao seu “mentor” que o revisasse antes de fazer uma apresentação pública tão crucial. 

 

Talvez você não esteja iniciando um novo negócio. Este princípio, contudo ainda se aplica quer você esteja buscando convencer um cliente potencial a comprar seus produtos e serviços, tentando influenciar um consumidor sobre uma estratégia que você acredita ele poderia empregar, ou apresentando um novo conceito ou procedimento a empregados acostumados a fazer as coisas “do modo antigo”. Antes de expor suas ideias aos outros, você deve fazer sua lição de casa para compreender o que é esperado. Seus resultados serão muito melhores. Aqui estão outros princípios bíblicos relacionados a este processo, não importa qual seja sua plateia:

 

Aborde as primeiras coisas em primeiro lugar. Às vezes o entusiasmo sobre um projeto nos leva a pular etapas, deixando de completar o trabalho preliminar que é essencial para o sucesso duradouro. “Termine primeiro o seu trabalho a céu aberto; deixe pronta a sua lavoura. Depois constitua família.”  (Provérbios 24:27). 

 

Ancore os preparativos na oração. Enquanto faz a necessária “lição de casa”  e busca conselhos sábios sobre como proceder, também é prudente orar pedindo a Deus para dirigir cada passo ao longo do caminho. “Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.” (Provérbios 16:3). 

 

Confie em Deus quanto aos resultados. Se estivermos corretamente preparados poderemos confiar em Deus pelas decisões que ao final serão tomadas.  “O coração do rei é como um rio controlado pelo Senhor; Ele o dirige para onde quer.” (Provérbios 21:1).

 

 

Perguntas para Reflexão ou Discussão  

1.  Já aconteceu de você não se preparar suficientemente para uma apresentação importante? Como se sentiu e qual foi o resultado?
2.  Como você reagiria se alguém estivesse fazendo uma apresentação para você e ficasse claro que a pessoa não tinha se preparado?
3.  Qual o papel da sabedoria na preparação de apresentações, não importando quais sejam os ambientes ou as circunstâncias?
4.  “O coração do rei é como um rio controlado pelo Senhor; Ele o dirige para onde quer.” O que você acha que isto significa? Quem é o “rei”?

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos Salmos 37:4-5; Provérbios 12:15; 15:22; 16:1, 9, 33; 19:20; 20:24; 27:1. 

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