6.09.2026

Prioridades e Compromisso Pessoal - Rick Boxx

Prioridades e Compromisso Pessoal

Por Rick Boxx

Mark Cuban, empresário bilionário americano, e um dos investidores do reality show da tevê “Shark Tank – Negociando com Tubarões”, revelou suas prioridades pessoais ao criticar um dos empresários que fazia uma apresentação aos investidores, coletivamente conhecidos como “tubarões”.  Cuban disse querer que o comprometimento do empresário com o seu negócio fosse maior do que qualquer outra coisa  em sua vida. 

Cuban destacou que quando estabeleceu o seu primeiro negócio ficou sem tirar férias durante sete anos! Também falou de quando sua namorada lhe disse que ele teria que escolher entre ela e os negócios. Cuban gabou-se por ter escolhido os negócios. 

Um comprometimento total para com o trabalho parece não ser incomum para muitas pessoas.  Elas consideram ser um “workaholic”, alguém viciado em trabalho, uma virtude e não um indicativo de prioridades mal estabelecidas ou em desequilíbrio. Elas se orgulham de não perder um só dia de trabalho, ou de deixar de desfrutar dias ou semanas de férias aos quais têm todo o direito. Em algumas culturas não se conhece esse tipo de devoção ao trabalho, que chega a ser uma obsessão. A sesta depois do almoço, e mesmo várias semanas de férias, são comuns em algumas partes do mundo. Porém, em algumas sociedades ocidentais uma dedicação total, sem reservas ao trabalho é exibida como um emblema de honra. 

O objetivo não é desconsiderar aquelas pessoas que ao iniciar um negócio precisam sacrificar seu tempo e energia durante o período necessário para assegurar que o novo empreendimento esteja firmemente estabelecido. Depois disso, contudo, deve chegar a hora em que o dono do empreendimento ou o empregado faça uma merecida pausa em sua labuta.  Com nos diz Eclesiastes 3:1-5, “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu...tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou...tempo de derrubar e tempo de construir...tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las...”

O trabalho é parte da vida – uma parte muito importante – mas o trabalho não é a vida. Quando Deus declarou “Não terás outros deuses além de Mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra...” (Êxodo 20:3-4), estou certo de que Ele estava incluindo aí o trabalho e os negócios, porque eles também podem ser objeto de adoração. 

A Bíblia fala da “pessoa sã”, vendo-nos como indivíduos que apresentam muitas facetas, voltados para os relacionamentos e que precisam manter suas prioridades na devida ordem.   Quando Jesus respondeu uma pergunta afirmando “...Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.” (Mateus 22:37), Ele nos estava exortando a fazer de Deus nossa primeiríssima prioridade. Em seguida Ele nos ensinou que os relacionamentos – conjugais e familiares, em particular – devem ocupar o lugar seguinte em importância:  “...Ame o seu próximo como a si mesmo.” (Mateus 22:39).

Sem dúvida, o trabalho é um elemento muito significativo de nossa vida diária. Através dele obtemos as provisões para satisfazer nossas necessidades cotidianas. O que somos vocacionados a fazer pode nos dar grande satisfação e senso de realização. Entretanto, a Bíblia nos exorta a mantermos uma visão ampla de nossas vidas. Em Lucas 9:24-25 Jesus ensinou:  “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá;  mas quem perder a sua vida por Minha causa, este a salvará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?”. 

O senhor Cuban, sem dúvida, provou ser um líder empresarial extremamente bem-sucedido, mas a que preço? Muitos, no mundo dos negócios, presumem que atingir o sucesso exige colocar o trabalho acima de tudo o mais. As Escrituras nos dizem que Deus tem um plano melhor: Deus, família e só depois, trabalho.

Perguntas para Reflexão ou Discussão  

1. O que você pensa do conselho desse famoso empresário de colocar o compromisso com os negócios ou trabalho acima de tudo o mais? Explique sua resposta.

2. Se não devemos colocar a devoção ao trabalho acima de tudo em nossa vida, como podemos manter equilíbrio, especialmente quando as exigências de tempo e energia no ambiente de trabalho se avolumam?

3. Você concorda com a ideia de que o trabalho pode se transformar numa espécie de deus, objeto de adoração ou ídolo? Por quê?

4. Quais são as suas prioridades na vida, profissional e pessoalmente? Você tem uma abordagem ou estratégia pessoal para certificar-se de que essas prioridades permaneçam na ordem correta?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Salmos 127:2; Mateus 6:19-24; Efésios 2:10; Colossenses 3:17, 23; II Timóteo 3:16-17.

Soneto - Mário Andrade

 









Soneto

Tanta lágrima hei já, senhora minha,
Derramado dos olhos sofredores,
Que se foram com elas meus ardores
E ânsia de amar que de teus dons me vinha.

Todo o pranto chorei. Todo o que eu tinha,
caiu-me ao peito cheio de esplendores,
E em vez de aí formar terras melhores,
Tornou minha alma sáfara e maninha.

E foi tal o chorar por mim vertido,
E tais as dores, tantas as tristezas
Que me arrancou do peito vossa graça,

Que de muito perder, tudo hei perdido!
Não vejo mais surpresas nas surpresas
E nem chorar sei mais, por mor desgraça!

Mário de Andrade 

ANDRADE, M. Poesias completas: Volume 2, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014

6.08.2026

Resumo: “Sermão da Sexagésima” - Padre Antônio Vieira

 

O “Sermão da Sexagésima” é uma das obras mais célebres do Padre António Vieira, proferido em Lisboa no ano de 1655. Nele, Vieira discute a complexa arte de pregar e, principalmente, as razões pelas quais a pregação, apesar de abundante, muitas vezes se mostra ineficaz na conversão das almas e na reforma dos costumes.

O sermão inicia com a famosa pergunta que permeia toda a obra: “Por que razão a palavra de Deus não faz fruto?”. Esta indagação central serve de ponto de partida para uma profunda análise da retórica sacra e da responsabilidade dos pregadores.

Para desenvolver sua tese, Vieira parte da passagem evangélica de Lucas, onde Cristo instrui Pedro a lançar as redes para a pesca. Ele estabelece uma analogia magistral: os pregadores são pescadores de almas, e as redes são as palavras que devem ser lançadas para atrair os “peixes” (os ouvintes).

Vieira critica duramente os pregadores de seu tempo, que, segundo ele, se preocupavam mais com a eloquência vazia, com a exibição de erudição e com a busca por aplausos, do que com a verdadeira missão de mover os corações e as vontades dos fiéis. A beleza formal tornava-se um fim em si mesma.

O autor categoriza os “peixes” que o sermão deve capturar: os que creem, os que vivem, os que obram e os que amam. A maioria dos sermões, contudo, conseguia apenas um superficial “saber”, sem levar à verdadeira fé, ao amor ou à mudança de comportamento.

Para Vieira, a verdadeira arte de pregar não reside na complexidade da linguagem ou na ornamentação excessiva, mas na capacidade de ser claro, direto e, acima de tudo, eficaz. O objetivo primordial é tocar a vontade, convencendo o ouvinte a agir de acordo com os preceitos divinos.

Ele defende que o sermão deve ter “corpo e alma”: o corpo seria a forma, a estrutura; a alma, o espírito e a intenção de mover à conversão. Sem essa “alma”, o sermão é um mero cadáver retórico, incapaz de gerar frutos espirituais.

O Padre António Vieira argumenta que o pregador deve conhecer a quem prega, o que prega e como prega. A mensagem precisa ser adaptada ao público, focando nas suas necessidades e nos seus pecados, em vez de divagar por temas genéricos ou incompreensíveis.

O próprio sermão é um exemplo da maestria retórica de Vieira. Embora critique a prolixidade e a artificialidade, ele emprega uma estrutura complexa, cheia de antíteses e raciocínios encadeados, para demonstrar como a forma, quando bem utilizada, pode servir à clareza e à persuasão.

Considerado um marco da prosa barroca em língua portuguesa, o “Sermão da Sexagésima” transcende o contexto religioso. Ele oferece uma reflexão profunda sobre a comunicação, a persuasão e a ética do discurso, permanecendo relevante como estudo de retórica e crítica social até os dias de hoje.

Fonte: Padre Antônio Vieira

 Foto: Google

 

Ações Falam Mais Alto Que Palavras - Robert Tamasy

 

Ações Falam Mais Alto Que Palavras

Por Robert Tamasy

Vivemos em um mundo no qual líderes proeminentes de todas as áreas de empreendimento fazem promessas barulhentas e apressadas. Eles nos dizem o que queremos ouvir e presumem que assim ganham nossa confiança. Infelizmente, com demasiada frequência, as palavras não são seguidas pelo nível de desempenho que somos levados a esperar.

O adágio “Ações falam mais alto que palavras” permanece verdadeiro. Bob Doll, chefe de estratégia de capital de uma firma de gerenciamento de ativos, expressou isso da seguinte forma: “Você constrói o seu testemunho quando é o melhor naquilo que faz, sua ocupação e vocação, e é o melhor na forma como faz isso...como trata as pessoas, suas ações e atitudes.” 

Recentemente tivemos diversos projetos de reforma em nossa casa. Os homens que faziam o trabalho – um pintor, um encanador e o empreiteiro – foram todos altamente recomendados. Graças a Deus, as indicações que recebemos sobre a qualidade de suas habilidades foram confirmadas.  Eles claramente tinham orgulho de seu trabalho e nós ficamos satisfeitos com as mudanças que fizeram. 

Para aqueles entre nós que reivindicam ser seguidores de Jesus Cristo, isso deveria também ser sempre verdadeiro. O Deus que servimos criou com excelência o mundo que nos cerca e tudo o que vemos. Como pessoas criadas à Sua imagem (Gênesis 1:26), uma das formas de demonstrarmos isso é através da qualidade do nosso trabalho, seja ele qual for. Ao servirmos como “embaixadores no mercado de trabalho”, como o CBMC gosta de dizer, o que as pessoas com as quais trabalhamos todos os dias veem em nós pode facilmente influenciar suas atitudes em relação a Cristo. Aqui estão algumas coisas que a Bíblia diz sobre a forma de comunicarmos nossa fé aos outros não apenas através das palavras que proferimos, mas, talvez mais poderosamente ainda, através das ações que adotamos. 

Reconhecer para Quem estamos trabalhando.  Geralmente nossa atitude no trabalho é: se pudermos satisfazer nosso supervisor imediato, já é o suficiente. Os seguidores de Jesus, porém, têm um padrão mais elevado: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo.” (Colossenses 3:23-24). 

Trabalhar para os outros como gostaria que trabalhassem para você. Quando estamos no papel de cliente, esperamos que as pessoas que nos fornecem produtos ou serviços nos deem o seu melhor. Do mesmo modo, quando realizamos um trabalho para outra pessoa – seja para aqueles a quem nos reportamos, nossos colegas, clientes ou a companhia como um todo, temos a obrigação de oferecer-lhes o nosso melhor. “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam;...” (Mateus 7:12). 

Saber que o bom trabalho será reconhecido. Olhando a nossa volta, vemos que muitas pessoas parecem satisfeitas em fazer o mínimo possível no trabalho, o suficiente para manter seu emprego, mas nada que requeira um esforço intenso.  Nesse ambiente, o trabalho consistente e dedicado não pode deixar de ser notado. “Você já observou um homem habilidoso em seu trabalho? Será promovido ao serviço real; não trabalhará para gente obscura.” (Provérbios 22:29). 

Demonstrar que nosso trabalho é tão bom quanto nossas palavras. A palavra nos faz muitas promessas vazias, que nunca serão realizadas. Ser alguém que mantém suas promessas – buscando mesmo exceder as expectativas sempre que possível – vai construir uma sólida reputação, e jamais haverá falta de trabalho no futuro. “Todo trabalho árduo traz proveito, mas o só falar leva à pobreza.” (Provérbios 14:23). 

Questões Para Reflexão ou Discussão  

1. Você concorda com o ditado “Ações falam mais alto que palavras”? Você pode citar um exemplo de quando as ações contradisseram o que tinha sido prometido ou traíram o que reivindicavam crer? 

2. Como o que fazemos e a forma como o fazemos afeta o nosso testemunho como embaixadores de Cristo – Seus representantes – no mercado de trabalho?

3. O que significa trabalhar com excelência?

4. Você já teve o seu trabalho abertamente reconhecido e recompensado? E alguma vez seu trabalho já ficou abaixo do padrão, com o seu conhecimento, e outra pessoa chamou sua atenção para isso? Compare como se sentiu em ambas as ocasiões. 

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Eclesiastes 2:24-25; Colossenses 3:17; Efésios 2:10; II Timóteo 3:16-17. 

 

 

O livro do ano no Japão - Hideki Wada

 

O livro do ano no Japão:

 

O psicólogo Hideki Wada publicou um livro intitulado “A Parede dos 80 Anos”. Assim que foi lançado, o livro superou 500.000 cópias vendidas, tornando-se o mais vendido do momento. Se essa tendência continuar, as vendas deverão ultrapassar 1 milhão de exemplares, tornando-se o livro do ano no Japão.

O Dr. Wada, de 61 anos, é um médico especializado em doenças mentais em idosos. Ele condensou os segredos de uma vida “afortunada” para os jovens de 80 anos em 44 frases, listadas a seguir:

* Continue caminhando.

* Quando estiver zangado, respire profundamente.

* Faça exercícios suficientes para que seu corpo não fique rígido.

* Beba mais água ao usar ar-condicionado no verão.

* Quanto mais você mastigar, mais ativos estarão seu cérebro e seu corpo.

* A perda de memória não se deve à idade, mas à falta de uso do cérebro.

* Não há necessidade de tomar medicação em excesso.

* Não é necessário reduzir excessivamente a pressão arterial e o açúcar.

* Estar sozinho não é solidão; é passar o tempo em paz.

* A preguiça não é motivo de vergonha.

* Não é necessário gastar dinheiro com carteira de motorista (há uma campanha no Japão para que os idosos devolvam suas habilitações).

* Faça o que quiser; não faça o que não gosta.

* Os desejos naturais permanecem mesmo na velhice.

* Em qualquer caso, não fique sentado em casa o tempo todo.

* Coma o que quiser; um pouco de sobrepeso é melhor.

* Faça tudo com cuidado.

* Não se envolva com pessoas de quem você não gosta.

* Não assista televisão o tempo todo.

* “Quando o carro chega à montanha, o caminho aparece”: esta é a frase mágica da felicidade para os idosos.

* Coma frutas e saladas frescas.

* O tempo de banho não deve ultrapassar 10 minutos.

* Se não conseguir dormir, não se obrigue.

* As atividades que trazem alegria aumentam a atividade cerebral.

* Diga o que sente; não pense demais.

* Encontre um “médico de família” o quanto antes.

* Às vezes, mudar de ideia está tudo bem.

* Se você parar de aprender, envelhece.

* Não deseje fama; o que você tem já é suficiente.

* Quanto mais difícil é algo, mais interessante se torna.

* Tomar sol traz felicidade.

* Faça coisas que beneficiem os outros.

* Passe o dia de hoje com tranquilidade.

* O desejo é a chave da longevidade.

* Viva com alegria.

* Respire com leveza.

* Os princípios da vida estão em suas próprias mãos.

* Aceite tudo em paz.

* Pessoas alegres são amadas por todos.

* Um sorriso traz boas energias.

Com a perspectiva correta e hábitos diários saudáveis, os anos depois dos 60 podem ser os mais gratificantes da vida.

Compartilhe isto com todos os “jovens de idade avançada” que você conhece.

 

Fonte: Celmar Batista de Santana (Brasília - DF)

Foto: Google

 

Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

6.07.2026

O MENINO E O HOMEM - Frnando Sabino

 

PRÓLOGO O MENINO E O HOMEM Q UANDO chovia, no meu tempo de menino, a casa virava um festival de goteiras. Eram pingos do teto ensopando o soalho de todas as salas e quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o que mais houvesse para aparar a água que caía e para que os vazamentos não se transformassem numa inundação. Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu não entendia a razão: aquilo era uma distração das mais excitantes. E me divertia a valer quando uma nova goteira aparecia, o pessoal correndo para lá e para cá, e esvaziando as vasilhas que transbordavam. Os diferentes ruídos das gotas d'água retinindo no vasilhame, acompanhados do som oco dos passos em atropelo nas tábuas largas do chão, formavam uma alegre melodia, às vezes enriquecida pelas sonoras pancadas do relógio de parede dando horas. Passado o temporal, meu pai subia ao forro da casa pelo alçapão, o mesmo que usávamos como entrada para a reunião da nossa sociedade secreta. Depois de examinar o telhado, descia, aborrecido. Não conseguia descobrir sequer uma telha quebrada, por onde pudesse penetrar tanta água da chuva, como invariavelmente acontecia. Um mistério a mais, naquela casa cheia de mistérios. O maior, porém, ainda estava por se manifestar. NAQUELE dia, assim que a chuva passou, fui como sempre brincar no quintal. Descalço, pouco me incomodando com a lama em que meus pés se afundavam, gostava de abrir regos para que as poças d'água, como pequeninos lagos, escorressem pelo declive do terreiro, formando o que para mim era um caudaloso rio. E me distraía fazendo descer por ele barquinhos de papel, que eram grandes caravelas de piratas. Desta vez, o que me distraiu a atenção foi uma fila de formigas a caminho do formigueiro, lá perto do bambuzal, e que o rio aberto por mim havia interrompido. As formiguinhas iam até a margem e, atarantadas, ficavam por ali procurando um jeito de atravessar. Encostavam a cabeça umas nas outras, trocando idéias, iam e vinham, sem saber o que fazer. Algumas acabavam tão desorientadas com o imprevisto obstáculo à sua frente que recuavam caminho, atropelando as que vinham atrás e estabelecendo na fila a maior confusão. Do outro lado, entre as que já haviam passado, reinava também certa confusão. Enquanto as que iam mais à frente prosseguiam a caminhada até o formigueiro, sem perceber o que acontecia á retaguarda, as ainda próximas do rio ficavam indecisas, indo e vindo por ali, junto à margem, pintando uma forma qualquer de ajudar as outras a atravessar. Resolvi colaborar, apelando para os meus conhecimentos de engenharia. Em poucos instantes construí uma ponte com um pedaço de bambu aberto ao meio, e procurei orientar para ela, com um pauzinho, a fila de formigas. Estava empenhado nisso, quando senti que havia alguém em pé atrás de mim. Uma voz de homem, que soou familiar aos meus ouvidos, perguntou: — Que é que você está fazendo? Sem me voltar, tão entretido estava com as formigas, expliquei o que se passava. Logo consegui restabelecer o tráfego delas, recompondo a fila através da ponte. O homem se agachou a meu lado, dizendo que várias formigas seguiam por um caminho, uma na frente de duas, uma atrás de duas, uma no meio de duas. E perguntou: — Quantas formigas eram? Pensei um pouco, fazendo cálculos. Naquele tempo eu achava que era bom em aritmética: uma na frente de duas faziam três; uma atrás de duas eram mais três; uma no meio de duas, mais três. — Nove! — exclamei, triunfante. Ele começou a rir e sacudiu a cabeça, dizendo que não: eram apenas três, pois formiga só anda em fila, uma atrás da outra. Então perguntei a ele o que é que cai em pé e corre deitado. — Cobra? — ele arriscou, enrugando a testa, intrigado. Foi a minha vez de achar graça: — Que cobra que nada! É a chuva — e comecei a rir também. — Você sabe o que é que caindo no chão não quebra e caindo n'água quebra? — Sei: papel. Gostei daquele homem: ele sabia uma porção de coisas que eu também sabia. Ficamos conversando um tempão, sentados na beirada da caixa de areia, como dois amigos, embora ele fosse cinqüenta anos mais velho do que eu, segundo me disse. Não parecia. Eu também lhe contei uma porção de coisas. Falei na minha galinha Fernanda, nos milagres que um dia andei fazendo, e de como aprendi a voar como os pássaros, e a minha aventura de escoteiro perdido na selva, as espionagens e investigações da sociedade secreta Olho de Gato, o sósia que retirei do espelho, o Birica, valentão da minha escola, o dia em que me sagrei campeão de futebol, o meu primeiro amor, o capitão Patifaria, a passarinhada que Mariana e eu soltamos. Pena que minha amiga não estivesse por ali, para que ele a conhecesse. Levei-o a ver o Godofredo em seu poleiro: — Fernando! — berrou o papagaio, imitando mamãe: — Vem pra dentro, menino! Olha o sereno! Hindemburgo apareceu correndo, a agitar o rabo. Para surpresa minha, nem o homem ficou com medo do cachorrão, nem este o estranhou; parecia feliz, até lambeu-lhe a mão. Depois mostrei-lhe o Pastoff no fundo do quintal, mas o coelho não queria saber de nós, ocupado em roer uma folha de couve. O homem disse que tinha de ir embora — antes queria me ensinar uma coisa muito importante: — Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto da sua vida? — Quero — respondi. O segredo se resumia em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos: — Pense nos outros. Na hora achei esse segredo meio sem graça. Só bem mais tarde vim a entender o conselho que tantas vezes na vida deixei de cumprir. Mas que sempre deu certo quando me lembrei de segui-lo, fazendo-me feliz como um menino. O homem se curvou para me beijar na testa, se despedindo: — Quem é você? — perguntei ainda. Ele se limitou a sorrir, depois disse adeus com um aceno e foi-se embora para sempre.

Autoria: Fernando Sabino

Foto: Google

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