6.03.2026

O Desafio de Saber Quando Bater em Retirada Por Jim Mathis

 
O Desafio de Saber Quando Bater em Retirada

Por Jim Mathis

É difícil não emocionar-se quando ouvimos e vemos relatos de inundações catastróficas, seja nas áreas costeiras do Golfo no Texas ou na Flórida, nos Estados Unidos, como temos visto em meses recentes, na Itália, Indonésia ou Índia. As imagens que vemos de casas destruídas e famílias separadas pela devastação nos deixa um sentimento de tristeza e desamparo. 
Depois que o furacão Harvey atingiu as regiões mais baixas de Houston, Texas, falei com um amigo que vive ali e ele disse que ele e a família estavam em lugar seco, mas que a propriedade em que se encontrava sua casa se transformara numa ilha. Eles estavam cercados por muita água. Quando desastres assim acontecem, fico imaginando como eu reagiria, bem como qual seria o meu nível de prontidão para mim mesmo e minha família caso uma calamidade similar ocorresse em nossa região. Até que ponto uma pessoa se determina a permanecer e perseverar, e quando é que toma a decisão de bater em retirada e buscar segurança em outra parte?

Esta pergunta é tanto prática quanto metafórica. Ela pode se aplicar a calamidades naturais ou às adversidades que encontramos na vida diária e no trabalho. Nossa sociedade enfatiza a perseverança, o permanecer firme e forte diante do desastre. Entretanto, não se fala muito sobre reconhecer o momento de fugir, fechar um negócio ou evacuar uma área. 
Uma definição de sabedoria tomada por empréstimo do velho ditado que se refere ao jogo de cartas diz: “Saber quando segurá-las, saber quando descartá-las”. Em outras palavras, saber quando permanecer no jogo e saber quando desistir da rodada. A história empresarial está repleta de nomes de companhias que se apegaram a uma mão perdedora por tempo demais. A Kodak, as lojas de departamento Montgomery Ward e a Borders Books são algumas delas. Todas permaneceram firmes, apegadas a suas culturas e práticas, mesmo quando ondas de mudanças se levantaram ao seu redor. Eventualmente elas sucumbiram a essa “inundação”. 
Quer estejamos liderando uma companhia, quer tentando construir uma carreira de sucesso deveríamos tomar como alerta esses fracassos tão conhecidos. Diante de graves tempestades, sejam ameaças naturais – furacões, tornados, inundações ou incêndios florestais – ou tempestades metafóricas tais como um trabalho não satisfatório, uma linha de produtos não lucrativos ou viver em uma região em depressão econômica, será que sabemos qual é o ponto de mudança? Será que somos capazes de reconhecer quando devemos decidir: “É hora de sair.  Não posso mais esperar. Estou indo embora”?

Saber quando agir de forma que leve ao melhor resultado é sinal de sabedoria. Aqui estão alguns princípios extraídos da Bíblia sobre como encontrar a sabedoria necessária: 
Saber onde depositar sua confiança.  Às vezes uma tempestade é apenas um teste para revelar onde está sua confiança – em sua própria habilidade ou em Deus. Ele pode nos guiar em meio às adversidades que pensamos serem intransponíveis. “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e Ele endireitará as suas veredas.”  (Provérbios 3:5-6). 


Não tenha medo de tentar algo novo.  As Escrituras apresentam inúmeros relatos de pessoas que foram levadas por Deus a deixar sua zona de conforto e fazer coisas drasticamente novas. Noé, Abraão, José, Rute e Daniel são apenas alguns dos exemplos do Antigo Testamento.  “Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova! Ela já está surgindo! Vocês não a reconhecem? Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.” (Isaías 43: 18-19).    

6.02.2026

Espelhos Negros - Cristiane Sobral

Espelhos Negros

Diante do colapso enfrentado pelo país em decorrência da crise de imagem, o Presidente decidiu anunciar um decreto. Em atitude emergencial, entrou em rede nacional para pronunciar um discurso oficial com a divulgação de uma nova lei: A partir daquela data, o uso de espelhos ou outros aparelhos e objetos com propriedades reflexivas estava permanentemente proibido.

Toda crise traduz um momento de ruptura anunciado. Essa crise atingiu imediatamente a reputação, ponto nevrálgico daquele país emergente com profundas cicatrizes mal curadas de um passado escravocrata e colonial.

Esta nação de terceiro mundo vivia urna crise diante do avassalador sistema capitalista de consumo desenfreado. A obsessão pela "boa" aparência e a extrema vaidade atingiu as raias da loucura na maior parte da população. As empresas informaram prejuízos decorrentes dos constantes atrasos dos funcionários, preocupados com sua apresentação pessoal; dos frequentes atestados médicos destinados à recuperação após a realização de cirurgias plásticas e outros procedimentos estéticos; a polícia estava enfrentando uma crise nunca antes vista, em virtude da dificuldade de identificação dos prisioneiros, a ludibriar o sistema com a exibição de novos rostos, e até mesmo de novos sexos. Todos queriam ser como os artistas, viver como eles, enfim, criar paraísos na terra, ilhas de salvação, encontros perfeitos, enquanto a desigualdade e a fome estavam a crescer em torno das cidades "grandes".

Até mesmo as crianças já não brincavam como antes, preocupadas com a aparência, exigiam procedimentos estéticos dos mais diversos e alguns pais chegavam até a comprar lentes de contato para os bebês, loirinhos, lamentavelmente sem olhos azuis, alegando uma correção genética; as pessoas passavam horas a cuidar da aparência enquanto a violência e o uso de drogas cresciam assustadoramente; ninguém queria investir nas ciências, na assistência social, todos queriam estar impecáveis diante de um mundo mágico criado pela televisão. O realismo fantástico televisivo estava mesmo engolindo o mundo real.

A notícia atingiu a população como um raio. O decreto do Presidente foi recebido com revolta e desespero: as pessoas estavam cometendo o suicídio em massa nas praças, nas escolas. As clínicas de estética estavam sendo fechadas, assim como os salões de cabeleireiros - nas ruas o trânsito estava caótico, sem direção.

As pessoas vagavam em busca de um miradouro, de um ponto turístico onde pudessem enxergar a si mesmas. Infelizmente, as fontes de água estavam escassas, não havia um lago, um córrego, um fiapo de rio onde pudessem mirar­se. As cidades beiravam o caos, com pessoas perdidas, enlouquecidas, à deriva dos afetos.

Moisés era um repórter investigativo incansável na busca pela notícia. Também estava devastado pelo decreto. Em seus 43 anos, tinha o orgulho de ter se reinventado, pois construíra, junto ao seu meio referencial, a crença de que nascera feio.

Não estava muito à vontade com a sua identidade negra, nem com o seu cabelo crespo, que detestava. Acreditava não ter muitos atributos físicos especiais e investira muito tempo e dinheiro para tornar-se um homem melhor, diante da inevitável evolução: branco, ou quase isso, devido ao tom de pele que conseguira com o auxílio da cosmética, magro, alto, lindo, um exemplo a ser seguido, já que apresentava semanalmente um programa televisivo. E agora não poderia contemplar a sua própria imagem?

Resolveu investigar a fundo. Logo descobriu que o sistema não estava de brincadeira. Várias pessoas estavam desaparecendo misteriosamente após terem sido flagradas portando espelhos. Alguns clubes de senhoras foram bombardeados após a denúncia anônima de que esses locais praticavam cultos de imagem fechados a sete chaves.

Pessoas estavam sendo torturadas após a denúncia de práticas de tráfico de espelhos. Nas ruas da cidade, nos becos, você poderia pagar uma fortuna para que alguém lhe permitisse olhar, ainda que de relance, a sua imagem no espelho. Moisés estava desnorteado, sem saber a quem procurar, quando foi apresentado a um jovem engenheiro de vinte e cinco anos, "nerd", artista plástico. Foram apresentados durante um coquetel badalado e Moisés ficou sabendo por fontes seguras que o rapaz era "hacker", e que tinha informações a revelar. Marcaram um encontro para o dia seguinte. Num café, no centro da capital. Moisés não queria rodeios:

− Fiquei sabendo que você sabe mais do que a maioria, tenho interesse, pago pelas informações e prometo sigilo.

O jovem sorriu, um riso largo que escorria pela boca e inundava o corpo inteiro. Um sorriso de satisfação.

− Vocês jornalistas são mesmo insensíveis. Não vai me oferecer um café? Conversar sobre amenidades? Sempre engolidos pelo tempo... Sei que foram moldados durante a faculdade a manifestar-se de forma clara, direta e objetiva, mas uma boa oratória é parte das relações humanas... Nesse momento não tenho o menor interesse em colaborar com você, digamos que nós, os humanos, somos movidos pelas sensações...

Moisés ficou irritado. Era mesmo o que faltava. Um filósofo, existencialista ...

− Como é mesmo o seu nome? Pedro? Desculpe, mas estou muito aflito, há dias não me enxergo diante de um espelho, estou meio abalado, confuso... Mas você parece estar tranqüilo?

Pedro está a fazer palavras cruzadas. Totalmente concentrado.

Meu caro, nem todos têm as mesmas preocupações... Moisés quer voltar ao assunto, está impaciente.

– Preciso de informações sobre um movimento rebelde, ouvi dizer que eles ainda têm espelhos, sei que você conhece o assunto. Eu pago bem.

Pedro interrompe a jogada. Olha Moisés com atenção.

– Você é um cara decifrável em poucas letras. Já vi muitos assim. Guarda as palavras cruzadas. Podemos partir hoje ainda.

– Esse lugar existe mesmo? É seguro?

Pedro ri.

– A viagem é longa.

Os dois tomam um farto café da manhã. Saem juntos.

Para chegar à cidade esperada, sete dias são necessários. Nos dois primeiros, Pedro não disse palavra alguma. No terceiro dia também não. No quarto, percebendo que Moisés estava muito só, resolveu falar:

– O funcionamento dos espelhos sempre me intrigou.

Quando soube da existência desse grupo, logo quis mudar de vida, aderir ao movimento. Estava sentindo falta de pertencer a algum lugar.

Moisés está impaciente:

– Mas como eles conseguem ter espelhos lá?

Mais um dia de viagem sem palavras. Moisés nunca vivera em meio ao seu silêncio. Foi necessário esperar um dia para obter a resposta desejada.

– Não estão preocupados com as tradições. Já ouviu falar em espelhos negros?

Moisés esboça certo nervosismo.

– Não fico muito à vontade com a palavra "negro". Acho uma palavra muito pesada, carregada. Gosto mais das cores claras, trazem mais leveza.

Pedro está pensativo, os dois continuam a caminhar por uma estrada deserta, já é noite, venta muito. No dia seguinte, Pedro comenta, em tom reflexivo:

– Um espelho negro reflete tanto quanto os outros, mas vai além, pois a imagem que ele forma é diferente, a superfície negra cria diferentes perspectivas, valoriza outros aspectos.

Moisés fica indignado:

– Você quer que eu enxergue alguma coisa diante de um espelho negro? Isso é coisa de maluco, de artistas, de viciados, de gente que não tem o que fazer! Espelhos negros! E eu perdendo o meu tempo acreditando que iria fazer a reportagem da minha vida! Isso é uma igreja, ou sei lá o quê!

Pedro continua com o seu sorriso dialético.

– E você? Um negro que não assume a própria identidade, que procura um espelho para reafirmar o branqueamento que comprou com o auxílio da indústria cosmética porque não é capaz de olhar, de enxergar a si mesmo diante da dialética da percepção? Realmente somos artistas, e muitas vezes aproveitamos o nosso tempo para não ter o que fazer, não vivemos em função do que temos, e sim do que somos. Sim, estamos diante dos nossos espelhos negros, olhando para nós mesmos, enxergando as nossas memórias, a nossa ancestralidade, sem medo da nossa escuridão.

É o sétimo dia da viagem. Moisés está exausto, tenta sentar e desaba. Chora intenso, com lágrimas que se propõe a desfazer máscaras, a limpar a alma cansada. Vive o seu mistério profundo. Renasce durante um tempo sem fim. Quando volta a si, percebe que já estão às portas da cidade. Há um portal onde se lê "Seja bem-vindo a Miradouro".

Pedro convida:

– Se você se enxergar diante de um espelho negro, aprenderá a conviver com as suas sombras, com as suas luzes, alterando a sua percepção. Isso influenciará decisivamente a sua existência. Vamos, Moisés, não olhe para trás, senão vai virar uma estátua de sal!

Moisés, trêmulo de medo, levanta, com certa dificuldade, amparado por Pedro. É quase noite. O fim do dia mostra um intenso tom de vermelho, acolhedor. Ao longe é possível ouvir sons de festa na cidade dos vivos. Os dois chegam a Miradouro, um ponto de onde se desfruta um largo panorama, aberto às dialéticas da percepção. Pelo menos por enquanto, estava completa a jornada dos espelhos.

(Espelhos, Miradouros, Dialéticas da percepção, 2011).


Autoria: Cristiane Sobral

Foto: google

 

 

Grupo Social / Antissocial - R. Santana




 

Grupo Social / Antissocial

R. Santana 

          Nunca participei de um grupo social tão insosso, tão insípido, tão sem sal que o grupo social da Academia de Letras de Itabuna–ALITA. Faz algum tempo que o objetivo principal do grupo é registrar as efemérides de alguma data significativa, os aniversários de seus membros ou registrar o passamento de escritores importantes ou alguém conhecido na comunidade. O substrato do conhecimento é o pensamento e pouco se tem exercitado o pensamento, falta reflexão e sobra futilidade. O grupo tem que ser dinâmico, versátil, discutir as necessidades prementes da comunidade, o grupo pode cantar o "Rio Cachoeira" e o "Rio Salgado", antes, todavia, contudo, deve promover ações para despoluir esses rios. 

          Não existe interação entre seus membros, seria produtivo a contribuição de ideias positivas para resolução de problemas se os seus membros interagissem numa discussão saudável para produção duma literatura moderna que se adequasse aos novos tempos. Na academia de Aristóteles, os alunos (peripatéticos) interagiam caminhando, trocando ideias, porém,  ninguém era o dono da verdade nem Aristóteles, gênio da humanidade. 

          Os grupos sociais literários atuais não podem viver numa redoma de vidro como se não fossem atingidos pela realidade do cotidiano. Além de escritor, poeta, cientista, sábio, padre, pastor, babalorixá,  eles não são imunes de encargos do dia a dia. Nenhum homem é uma ilha, ele faz parte de um todo, por mais que se isole, os problemas externos atingem-no sem pedir licença.

          Os egos inflados num grupo literário não influem para manifestação coletiva, os talentos inibidos jamais irão se manifestar, desenvolver seu potencial criativo, se alguém ou algumas pessoas de maneira presunçosa, vaidosa, alardeiam diuturno que já escreveu “n” livros e muitos foram premiados, aqui, ali e acolá, com medalhas de latão, mas, nunca escreveram um “Best Seller”, um prêmio Camões, um prêmio Jabuti, etc. Se algum curioso chegar no Galileu (escola de elite), perguntar ao 3º. Ano do ensino médio: “Conhece o escritor X de Itabuna”, 99%, vão responder que não conhecem.

          As postagens feitas no “Grupo Social” da ALITA, acho que são tão ruins ou não são lidas que pensam: “Ninguém tá nem aí pra você”. Agora, se algum desavisado elogiar algum político, o “Regimento” adverte, depois expulsa por opinião imprópria, desvio de conduta e aplica-lhe infração “regimental”.

          As políticas públicas têm que ser discutidas em qualquer ambiente social, pois, elas afetam a sobrevivência e a existência do homem. Hoje, os juros da dívida pública de 4 trilhões, contribuem para menos comida na mesa, menos saúde e menos educação.  As estatais falidas e um judiciário político e desaprovado pela sociedade e o crime organizado infiltrado no poder público e assumindo as funções do estado, somente, os ignóbeis, não se dão conta que os seus filhos e netos estarão com o futuro ameaçado.  

          Quem leu “Farda, Fardão Camisola de Dormir” de Jorge Amado aprende que as grandes transformações sociais são feitas pelas camadas inteligentes da sociedade. O ignorante que não tem conhecimento dos seus direitos civis além de não ter nenhuma inspiração, ele está acostumado com a mediocridade que as circunstâncias lhe reservaram.

          Essas velhas literaturas não contribuem para o desenvolvimento da nação. Se não houvessem homens de ações, como Jean-Jacques Rousseau, Napoleão Bonaparte, Gandhi, Mandela, Jesus Cristo (não escreveu uma linha), Montesquieu, Rui Barbosa, Franklin Roosevelt, ou seja, homens políticos, pensantes, literatos não sonhadores, o mundo ainda estaria na idade primitiva.

          O líder de um “Grupo Social”, além de se preocupar com o espaço físico e outros afazeres, existe a necessidade de agregar pessoas, de lhes proporcionar bem-estar, de transformar um grupo social numa família,  que não haja dissensões, isolamentos ou predileções. O líder não pode formar grupos que lhes são aperfeiçoados ou, ser tendencioso.

          Argumento inconteste: um grupo minúsculo de 40 acadêmicos, 29 frequentam e a inadimplência é maior que a receita, a administração tem que se ressignificar.


Autoria: Rilvan Batista de Santana

Membro Fundador da Academia de Letras Itabuna - ALITA 

Licença: Creative Commons

Foto: Google


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

  02.06.2026


"Quem tenta ajudar umas borboleta a sair do casulo a mata. Há certas coisas que não podem ser ajudadas, tem que acontecer de dentro pra fora" Rubem Alves 

 

         

         

         

         

         

            

 

         

 

 

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