11.03.2025

A corrupção mata de longe - R. Santana

 


A corrupção mata de longe - R. Santana

A corrupção mata de longe
R. Santana
A minha esposa diz que não sou confiável politicamente, hoje, defendo com unhas e dentes A, amanhã, mudo pra B, depois, empunho a bandeira de C e no futuro execro A, B e C, é que, ela ainda não me compreende não obstante décadas de enfrentamento juntos nas dificuldades do dia a dia. Não sou dúbio de caráter nem de convicções políticas, mas, não tenho compromisso com político corrupto nem rezo para saúde de corruptor.
No processo do “Tríplex de Lula”, “Condomínio Solaris” Guarujá, defendi, aqui do meu canto, nas redes sociais, a inocência do ex-presidente Lula, naquela época, já se suspeitava a imparcialidade de Sérgio Moro e o tempo foi o senhor da razão: Sérgio Moro e Dallagnol produziram provas, manipularam testemunhas, grampearam conversas de Lula e Dilma, cercearam advogados de defesa e construíram um “PowerPoint” para incriminar ainda mais o ex-presidente Lula e no decorrer dos tempos, o desfecho foi inacreditável: Sérgio Moro deixou mais de 20 anos de magistratura vitoriosa para servir ao presidente eleito Jair Bolsonaro, como Ministro da Justiça e Segurança Pública, com “Carta Branca”, ele a transformou em soberania e maquinou contra o chefe para se eleger presidente do país em 2022.
Na eleição presidencial de 2018, votei no candidato a presidente Fernando Haddad, exortei suas qualidades intelectuais, sublimei seus erros na prefeitura de São Paulo, potencializei o benefício que faria ao Brasil se eleito presidente do Brasil e escrevi vários artigos “descaractizando” seu adversário, o candidato Jair Bolsonaro. Nesse ano, ainda acreditava que as denúncias de corrupção e de malversação do dinheiro público fossem recursos de retórica de políticos da oposição e da sociedade elitista conservadora.
Porém, quando li a enxurrada de denúncias de políticos da esquerda que se beneficiaram com o “petrolão”, o “mensalão”, dinheiro na cueca, Caixa 2 para registrar as despesas suspeitas, pagamento de palestras milionárias aos políticos do PT, condenação de Lula no processo do sítio de Atibaia pela juíza Gabriela Hardt, ratificado e acrescido o tempo pelo Tribunal Regional da 4ª. Região (TRF-4) e, homologado e diminuído o tempo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), não defendo mais essa gente, tomei ojeriza à esquerda.
A pandemia do coronavírus veio para revelar novos políticos corruptos insensíveis. Eles lucraram e ainda lucram com a doença e a morte de milhares de pessoas contaminadas pelo vírus chinês. O superfaturamento de respiradores, hospitais de campanha não utilizados e outros insumos hospitalares superfaturados representam o desperdício do dinheiro público e o roubo. A pandemia trouxe à tona esses desmandos na saúde de décadas, sempre morreu pobre nos corredores dos hospitais e enfermarias por falta de vaga, médicos e remédios. A Covid-19, apenas, descobriu a sujeira que estava embaixo do tapete.
Hoje, sem ser seguidor do presidente Bolsonaro, eu simpatizo com as políticas públicas do seu governo. Antes da pandemia, a economia dava sinais de revitalização, a taxa SELIC havia diminuído, a mais baixa historicamente, baixando os juros de mercado e impulsionando a economia, a inflação de 2019 foi a mais baixa de alguns anos, porém, o vírus chinês chegou e tudo degringolou. Todavia, o governo e o Congresso movimentaram a economia: a “Bolsa Família” foi ampliada, auxílio emergencial para 99 % dos brasileiros “invisíveis”, desempregados, camelôs, taxistas, autônomos MEI, antecipação do 13º dos aposentados e a liberação do FGTS.
O governo está ciente que depois da 5ª parcela do auxílio emergencial, a maioria do povo não dispõe de condições de sobrevivência sem ajuda, agora, fala-se num programa de “RENDA BRASIL”. Este programa vai atender às demandas de quem vive no nível de pobreza. Os programas assistenciais deram esperanças àquelas pessoas que nunca tiveram esperança.
Os procuradores da República, a Polícia Federal (PF) e outros órgãos de combate à corrupção nunca trabalharam tanto. Os corruptos da saúde terão que devolver ao país os recursos desviados. Alguns prefeitos e governadores estão sendo investigados e ex-secretários da saúde presos. Embora críticas da grande mídia e da esquerda que o general Eduardo Pazuello não é médico, que ele não possui formação técnica na área da saúde, ele vem fazendo um bom trabalho como ministro da saúde, as solicitações de estado e municípios são atendidas à medida que os gastos são necessários.
A corrupção destrói sonhos, vidas e famílias. Os recursos da saúde, educação, pesquisa científica, segurança e programas sociais desviados dariam pra fazer um país desenvolvido entre as principais nações do mundo. Portanto, a corrupção é pior do que o coronavírus, não se elimina com álcool em gel, máscara nem distanciamento social, a corrupção mata de longe.

Autor: Rilvan Batista de Santana

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Ler - R. Santana

 


Ler - R. Santana


     Com tristeza, eu testemunho que essa geração não gosta de ler. Os estudantes, os profissionais liberais e os técnicos, hoje, limitam-se pautar seus procedimentos de pesquisa e leitura nas bibliotecas eletrônicas específicas, em particular, o Google, que é uma biblioteca eletrônica de conhecimento universal. O livro no dia a dia perdeu seu “status quo” de sonho de consumo dos leitores.
     Não faz muito tempo, numa conversa com a mãe de um jovem advogado, em que eu defendia a necessidade de seu filho ler bons livros jurídicos para desempenhar bem seu papel de advogado, ela respondeu-me que livro era coisa do passado, "livro empoeira na estante", no mundo moderno todo saber está depositado em notebook, tablet, Smartphone, que nesses dispositivos, o advogado agenda a pauta, participa de videoconferência, tem modelo de petição, peticiona, existe tese jurídica pronta, fala com os amigos, ele participa de redes sociais e envia textos e imagens pelo WhatsApp, etc., etc.
     A leitura é o exercício da mente, a leitura alonga os neurônios, quem gosta de ler, segundo a ciência, não terá mal de Alzheimer e, se a doença se manifestar na velhice, o comprometimento do sistema nervoso tem tratamento, isto é, o indivíduo conviverá com lucidez por mais tempo. Não é demais compartilhar o pensamento do poeta Mário Quintana sobre a leitura: “Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem”, ou seja, não adianta o sujeito bacharelar-se ou licenciar-se num curso A ou B, se ele não lê, não estuda, a leitura estica a compreensão e aprimora o saber.
     É sabido que a correria profissional e a luta pela sobrevivência contribuem para o desleixo e a negligência com a leitura, porém, nunca é demais iniciar as novas gerações, filhos e netos, no hábito da leitura sem comprometimento de esportes físicos, artes, games, filmes e TV. A televisão fechada ou aberta tem programas educativos que estimulam a aprendizagem de crianças e adolescentes, todavia, o livro é responsável pela sua educação formal. A leitura e a escrita desenvolvem as faculdades cognitivas e a memória (faculdade de reter ideias, impressões e conhecimentos anteriores) de crianças e adolescentes.
     Ariano Suassuna numa de suas famigeradas palestras, disse que alguém lhe censurou a produção de mais um livro, entusiasmado com as teorias de Marshall McLuhan que vislumbrou a internet trinta anos antes de ser inventada, preconizou também, a ruína do livro com a evolução da tecnologia do computador e das telecomunicações. Inteligente e prudente com as novas tecnologias, Suassuna perguntou-lhe onde havia lido Marshall MacLuhan: “Li o livro”. Contrariado, Ariano Suassuna com ímpeto e impaciência, respondeu-lhe: “Rapaz, eu gosto de ler deitado numa rede ou numa cama, como irei embrulhar-me com um computador?” Suassuna, também, não entendia a linguagem escrita, sucinta e não convencional que grassa nas comunicações de e-mails e redes sociais do país. Para o dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor, a língua é patrimônio cultura de uma nação e identidade de um povo.
     Para Monteiro Lobato, o gênio da literatura infantil: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”. A leitura é condição “sine qua non” para o homem pensar, quem lê, maior é sua capacidade de discernimento. Mark Twain completa: “O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler”. Quem lê bons livros torna-se mais humano, menos limitado e visão universal. É necessário que se faça da leitura um hábito (Santo Agostinho: “O hábito é uma segunda natureza”), pois, a leitura melhora as funções do cérebro e faz bem à alma.
     Por falta de leitura e domínio do idioma, é que engolimos goela abaixo, os “estrangeirismos” que terminam em neologismos incorporados à língua ao longo do tempo. Hoje, está na moda a expressão: “Home Office (trabalho em casa ou, escritório em casa”). Mas, os galicismos e os anglicismos formam um novo idioma em nossa pátria. Temos que ter cuidado na defesa do nosso patrimônio cultural, mesmo que sejamos taxados de intolerantes. A nossa causa é a defesa de nossa identidade nacional, somente nossa língua será capaz de transmitir com rigorosa verdade os nossos valores culturais e a nossa História.
     Antes que algum desavisado diga que este texto é uma apologia para reprovar as ferramentas digitais, os dispositivos móveis eletrônicos, os aplicativos de leitura e escrita, os textos e imagens eletrônicas, que somos contra às novas tecnologias, ledo engano desse indivíduo, o objetivo deste texto é estimular a leitura e a escrita em quaisquer que sejam as ferramentas, eletrônicas ou físicas, todavia, os conteúdos de informação e aprendizagem em bibliotecas eletrônicas ou enciclopédias impressas são superficiais, jamais alguém irá ler uma obra literária ou científica de 25 ou 30 volumes ou um livro jurídico de 200 páginas ou mais páginas em ferramentas digitais, elas não oferecem comodidade à comodidade de um livro.
     Enfim, “a palavra voa, a escrita fica e o exemplo permanece”, dou-me como exemplo aos pré-adolescentes, adolescentes e adultos (elogiar-se é vitupério), na minha formação intelectual formal, tive muitas lacunas, face às minhas circunstâncias de estudante pobre da época, porém, eu consegui resolver a maioria dessas lacunas intelectuais com a leitura autodidata, de tal maneira que os meus contemporâneos deram-me o apodo carinhoso de: “O homem do livro”, levava o livro a tiracolo, aqui, ali e acolá.




Autor: Rilvan Batista de Santana
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Membro da Academia de Letragemas de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

História de Desagravo - R. Santana

 


História de Desagravo - R. Santana
 
HISTÓRIA - Em 19 de abril de 2011, numa das salas da Fundação Itabunense de Cidadania e Cultura-FICC, na Praça Tiradentes, a escol dos intelectuais desta terra, liderados pelo ex-juiz Dr. Marcos Bandeira e o escritor Cyro de Mattos, deram início à fundação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.
A diretoria era formada por ex-juízes, delegada, professores, advogados, escritores e o juiz Dr. Marcos Bandeira. Eu não conhecia, pessoalmente, nenhum dos intelectuais, fui chamado (desconheço o motivo) por Dr. Marcos Bandeira para integrar essa plêiade de homens das letras e do saber.
Nas reuniões que se sucederam, escolhemos por voto simples, a primeira diretoria com os cargos de presidente, vice-presidente, 1º. Secretário, 2º. Secretário, 1º. Tesoureiro, 2º. Tesoureiro, Diretor de Comunicação, Diretor da Revista e Diretor do site. Fui escolhido o primeiro tesoureiro.
Foi um ano de trabalho duro, fizemos o REGIMENTO e o ESTATUTO. Foi instituída a “logomarca” da academia, os brasões, o site funcionou e foi escolhido o nome da revista, “Guriatã”. O ESTATUTO e o REGIMENTO foram registrados em cartório e a academia tornou-se uma entidade jurídica com CNPJ, entidade de direito privado. Com base no modelo da academia francesa, foram indicados todos os 40 membros com os respectivos patronos e os membros correspondentes. Inicialmente, escolhi Machado de Assis, mas tive que ceder para atender ao desejo do escritor Hélio Pólvora e aceitei na casa do sem jeito e foi me dado o poeta Walker Luna como meu patrono.
Como 1º. Tesoureiro, conduzi os recursos da tesouraria com lisura. Tivemos que sair das dependências da FICC, passamos para uma escola do município em frente ao prédio do CNPC, de lá, através de Dr.ª Sônia Maron, a entidade foi instalada no Edifício Dilson Cordier, 2º. Andar, à Rua Ruffo Galvão, Centro. Coube à primeira diretoria, como presidente, Dr. Marcos Bandeira, administrar os recursos próprios (contribuição dos acadêmicos de 15 % do salário mínimo), foram adquiridos alguns móveis planejados, contratada uma funcionária e fizemos a festa de posse com “buffet”, no auditório da Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC, com a presença de autoridades do município itabunense.
Foram 2 anos de desenvolvimento cultural, apoio às produções acadêmicas, além disto, ações que visavam o reconhecimento da entidade pela comunidade. A administração do presidente Marcos Bandeira se caracterizou por liberdade de opinião, ele conduziu com sabedoria as divergências de ideias acadêmicas e administrativas, jamais alimentou picuinhas, fuxicos, seu trabalho teve como objetivo agregar todos os membros em prol da entidade.
Conheci Cyro de Mattos na ALITA, nessa época, ele era o presidente da FICC, por isto, começamos a desenvolver o projeto de fundação da academia de letras nas dependências dessa entidade municipal. No início dos trabalhos, na formatação da nova academia, ele demonstrou compreensão e domínio da parte burocrática, necessária à fundação da Academia de Letras de Itabuna – ALITA, seu reconhecimento como entidade jurídica. Por conta dessa experiência na construção da obra acadêmica, ele indicou 70 % dos membros da academia itabunense, além de se apossar do site e da revista Guriatã, ainda indicou todos os membros correspondentes sem resistência dos demais membros.
Mais de um ano depois, 18 de julho de 2012, embasado numa brincadeira de Dr. Marcos Bandeira que, pra Cyro de Mattos se imortalizar, “bastava morrer”, fiz uma crônica com o título: “Conheci um Imortal”. Crônica simples, despretensiosa, sem “puchaçaquismo”, mas, enaltecendo as qualidades literárias de Cyro de Mattos, sua vida devotada às letras, sua extensa bibliografia e seu amor cantado em verso e prosa a Itabuna.
No dia 12 de maio de 2013 em agradecimento ao livro “Berro de Fogo” que me foi dado pelo escritor Cyro de Mattos, publiquei uma crônica e apresentei “en passant” um estudo sobre o tema do livro, inclusive, que outros renomados escritores, a exemplo de Adonias Filho e Jorge Amado tinham explorado a odisseia dos migrantes de Sergipe e Alagoas ou outros estados do Nordeste, tangidos pela fama do cacau e das riquezas do Sul da Bahia, deixaram suas terras de nascimento, muitos tornaram-se jagunços cruéis e perigosos.
Logo depois da posse da ex-juíza Sônia Maron na ALITA, recebi em 05 de julho de 2013, uma ADVERTÊNCIA PROTOCOLADA, subscrita por 08 (oito) acadêmicos, encabeçada por Cyro de Mattos, embasada numa discussão na sala da ALITA, uma semana antes, que eu defendia, para evitar os privilégios de medalhões, na primazia das divulgações de suas produções, que, cada acadêmico tivesse sua página com senha para publicar seus textos. Porém, essa advertência, muito bem redigida, com citação de Tolstoi, que na discussão, eu defendia que todos acadêmicos tivessem a senha do site, que não é a mesma coisa, além de que fui mal-educado com a presidente e extrapolei os princípios éticos e a boa convivência.
Confesso que fiquei nervoso, pois já tinha reivindicado várias vezes e, não colocaram em pauta para que fosse discutida numa sessão que houvesse a presença da maioria absoluta dos acadêmicos não 2 ou 3 da diretoria. Porém, não houve xingamento nem agressão moral, sem apoio, retirei-me da reunião de 14 de junho de 2013, que ensejou a malfadada ADVERTÊNCIA PROTOCOLADA. Todavia, fiquei magoado, ressentido, porque, jogaram no lixo 2 anos de trabalho honesto que fiz na entidade e, em 34 anos de magistério, diretor de colégio, jamais havia recebido nenhuma admoestação e falta de apreço dos meus superiores hierárquicos.
Fiquei afastado da ALITA, voluntariamente, também, por brios feridos, decepcionado com os rumos dos acontecimentos na entidade, todavia, jamais deixei de contribuir mensalmente, 15% do salário mínimo vigente. Em 18 de maio de 2015, enviei uma carta parabenizando a nova diretoria da ALITA. Em 17.04. 2016, queixei-me mais uma vez, à confreira Raquel Rocha, sobre texto deletado nem divulgação regular.
Em 13 de dezembro de 2016, na reeleição de Sônia Maron, manifestei-me no meu blog Saber-Literário sobre sua reeleição. Porém, continuei alijado, não recebia e-mails de convocação de reunião ordinária nem extraordinária. Usava como recurso o meu blog para protestar, contudo, sempre com princípios éticos e morais, jamais denegrir pessoalmente, nenhum confrade, o nosso objetivo era chamar à atenção da entidade para que fosse reconhecida pela comunidade de utilidade pública cultural.
Fiz uma crônica contundente em 18.02.2017, com o título: “Site Literário ou obituário”. Fiz essa crônica para que não houvesse desvio de finalidade da entidade em seu site. Não condenava o registro do passamento da pessoa, reprovava o diretor do site que, o registro do óbito ficasse 1 ou 2 meses na primeira página. O site acadêmico tem por finalidade divulgar os eventos culturais, palestras pedagógicas em educandários ou outras instituições, história da academia, estatuto, regimento, lançamentos de livros, registros literários e científicos, “espaço do escritor”, em casos raros, políticas públicas perenes de interesse da comunidade e do país.
O site é um tipo de mídia que se caracteriza pelas postagens, sobretudo, pelas imagens, imagens que trazem repugnância, sentimentos de pesar, sentimentos dolorosos, jamais deverão permanecer no site além do registro do dia, as homenagens e imagens eternas devem ficar no arquivo para uma necessidade de pesquisa. O site literário não é um jornal de notícias, um semanário, o site literário se caracteriza pelo saber literário, afora isto, é contrassenso.
Pela defesa que fiz para que não houvesse desvio de finalidade da entidade, que as ações da academia fossem de interesse público, não houvesse privilégios entre os confrades, que o site e a revista fossem colocados a serviço de todos os 40 membros, não para alguns. Por isso, no dia 10.03.2017, sem ouvir-me, sem defesa, sem contraditório, eu fui denegrido publicamente, marginalizado no site “Itabuna Centenária, Arte e Literatura-ICAL” e semanários da cidade com um “MANIFESTO DE DESAGRAVO”. A seguir, transcrevo os “crimes” que eles acusam que cometi, mas são inverdades, inclusive, eles não apresentam provas, mas, insinuações, ilações e injúrias:
a) “...vêm manifestar seu repúdio às atitudes injuriosas e difamatórias do acadêmico e blogueiro Rilvan Batista de Santana contra a instituição e seus diretores atuais, sendo ele um dos integrantes do quadro associativo da entidade”;

b) “Quando usa seu blog, o acadêmico em foco o faz no afã de difundir o terrorismo cultural [3 anos depois, o senhor Cyro de Mattos produziu um texto chamando-me de “O Terrorista Cultural”. Se alguém observar com atenção, são conjecturas filosóficas], ferindo a ética, maltratando a verdade, tornando a vida tumultuada e feia. Demonstra, com isso, a natureza de alguém que, na condição de órfão do mundo [eu não sou órfão de pai e mãe, para os preclaros acadêmicos, eu sou órfão do mundo, uma pessoa extremamente infeliz], quer aparecer a qualquer custo e enganar os incautos”;

c) A Academia de Letras de Itabuna foi criada pelo idealismo do promotor Carlos Eduardo Lima Passos, dos juízes de Direito Antonio Laranjeira e Marcos Bandeira, do professor universitário e escritor Ruy Póvoas e do escritor Cyro de Mattos. [... e, Rilvan Batista de Santana]. Não surgiu para abrigar figuras inexpressivas em seu quadro, nem ser um clube de serviço onde circule o elogio fácil e o alimento da vaidade. [Nesta última sentença, eles confessam que não aceitam pessoas simples, mas figuras da elite, socialmente e financeiramente aquinhoadas, talvez, seja essa a frustração deles terem aceito uma pessoa desafortunada].

Em 17.03.2017, escrevi a crônica-resposta: “Contrassenso na Academia de Letras de Itabuna”, que é um repúdio, a falta de bom senso dos acadêmicos da ALITA, em particular, os promotores do “Manifesto de Desagravo”, os acadêmicos Cyro de Mattos e Sônia Maron.
Em 04.06.2017, através de e-mails, ingenuamente (hoje, digo ingenuamente, porque a confreira Silmara Oliveira foi catapultada à presidência da ALITA por Cyro de Mattos), marcamos um encontro no Shopping Jequitibá para o meu retorno â academia, fiz-lhe algumas considerações, parabenizei-lhe pelo novo cargo, acreditava em sua independência na condução da ALITA e, acrescentei que o meu primeiro emprego de professor tinha sido em Itajuípe, a terra de Adonias Filho, a terra que Jorge Amado em seus romances regionais, deu colorido à história de Senhorzinho Badaró, da família Badaró, etc., etc.
Fiz uma pasta com os documentos do que havia ocorrido, fui ao encontro da presidente, fiz-lhe uma exigência do local, que não fosse na casa do escritor Cyro de Mattos nem na casa da ex-juíza Sônia Maron, então, propus-lhe o Shopping Jequitibá, face, sua residência ser em Itajuípe.
Fui ao seu encontro como se fosse um adolescente que volta à escola no primeiro dia de aula, cheio de expectativas e projetos, mas a decepção não poderia ser maior, ela e a confreira Lurdes Bertol disseram-me que não havia clima de meu retorno à ALITA, alguém havia condicionado: “Ele ou eu”. Lurdes Bertol ainda ensaiou provar pelo celular que eu havia denegrido os confrades, contudo, ela não encontrou a prova. Com a simplicidade dos bons, eu ainda lhes insisti que levassem a pasta de documentos para uma possível reconsideração... Acho que, pelo mal-estar que a presidente demonstrou em recebe-la, elas jogaram essa pasta no primeiro lixo que encontraram.
No dia 07.08.2017, enviei-lhe um e-mail reclamando que foi deletado do site da academia, um texto de minha autoria, com o título: “Digressões Literárias”, ela nem se dignou responder.
Quase um ano depois de meu desastrado encontro com as confreiras Silmara Oliveira e Lurdes Bertol, 19.02.2018, numa crônica: “A Cultura do Ódio”, na introdução conto a história de um amigo brigão, Antônio Charqueada, mas, brigão por boas causas e relato as injustiças que eu sofri na ALITA, injustiças por não ter aceito o autoritarismo e o preconceito de alguns e exalto a minha determinação e perseverança de não me ter curvado aos conluios e aos egocentrismos.
Eu ainda promovi o bom combate, a boa crítica, a crítica construtiva e publiquei, 8 meses depois: 24.10.2018, a crônica: “ALITA! Ó ALITA! Que foi feito de ti?” Nessa crônica, eu me preocupava o triste destino da Academia de Letras de Itabuna.
Dois textos que encerro a minha condição de membro ativo da academia: “Deitei o “Rei” no xadrez da ALITA” e “Revirando o Baú da ALITA”. O primeiro texto, deixo de contribuir (15% do salário mínimo vigente) mensalmente para entidade e declaro que fui vencido (não renunciei) pelo egocentrismo, ego inflado, maquiavelismo e maldade de alguns; o segundo texto, é uma reminiscência, as lembranças boas e más da academia. Os textos datam de: 12.08.2017/14.06.2019. Para mim, não importava mais que a ALITA subisse ou descesse, que essa gente que me prejudicou baixasse à tumba com a consciência dos anjos, até que no “Dia do Pai”, 08. 08. 2020, motivo desconhecido, pra variar, pelo escritor Cyro de Mattos, fui taxado numa narração mal feita de: “O terrorista cultural”.
Diz o provérbio popular que “quando Deus tira os dentes, alarga a goela”, Deus não me deu a oratória de Cícero, Demóstenes, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Martin Luther King, contudo, deu-me a paciência de Jó, a perseverança de Gandhi, a transpiração de Thomas Edson e a honestidade de Sócrates. Não sou intelectual de escol nem possuo o saber de alguns acadêmicos, porém, sou trabalhador, paciente, ético, generoso, honesto e determinado.
Em 34 anos de magistério e 4 anos de diretor geral do Colégio Estadual de Itabuna – CEI, nunca “puxei o tapete” de nenhum colega nem destruir o sonho de nenhum aluno. Eu era o primeiro chegar ao colégio e o último a sair, nunca negligenciei o conteúdo da disciplina, se não deixei o saber para meu aluno, deixei-lhe sabedoria, senso de responsabilidade e honestidade intelectual. Depois de 16 anos de aposentado, ainda sou tratado pelos meus ex-alunos com amizade e admiração e os meus ex-colegas com cordialidade e apreço.
A minha vida de educador deu-me algumas alegrias e prêmios, mais recente, em 16 de outubro de 2019, recebi numa festa de cinema na “TERCEIRA VIA HALL”, título de “Mérito Educacional FTC”, no mesmo ano, o título mais sonhado: “Cidadão Itabunense” pela Câmara de Vereadores de Itabuna. Na mocidade, fui vereador desta terra com o saudoso Plínio de Almeida, Dr. João Santana, Dr. Rafael (Rafa) Bríglia, Orlando Lopes, Antônio Calazans, dentre outros nomes de escol da cidade itabunense.
Embora não seja narcisista, nunca fiquei diante do espelho explorando minha beleza ou minha feiura, porém, nunca me senti uma “figura inexpressiva”, “figura grotesca”, “atarracada”, “cabeça grande” “cabeçorra”, “terrorista cultural”, apodos que ganhei na ALITA. Aquele que julga só a aparência é um preconceituoso, de mente limitada e caráter duvidoso. Lá em Samuel (16:7) está escrito: “Não considere sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração“.
Na realidade, os meus amigos de infância e mocidade nunca me deram apelidos, nunca foram preconceituosos comigo, eles sempre me admiraram pela retidão de caráter, pelo exemplo. Sobrevivi pelas aptidões que Deus me deu, não pelo físico de um brutamontes.
Não sou escritor, desejaria sê-lo. Ninguém se faz escritor, o leitor que faz o escritor. Se o escritor não é reconhecido, não tem público, sua obra não é reconhecida, não vende livro, ele é autor, não escritor. Muitos escritores e poetas não foram reconhecidos em vida, a exemplo de Euclides da Cunha, Álvares de Azevedo, Kafka, Antoine de Saint-Exupéry, Lima Barreto, Tobias Barreto, etc., ou seja, suas obras literárias foram reconhecidas após a morte.
Cora Coralina publicou o seu primeiro livro de poemas já idosa (75 anos de idade), sua consagração popular ocorreu depois dos encômios de Carlos Drummond de Andrade, antes, a doceira que cantava os becos e as ruas históricas de Goiás, era uma ilustre desconhecida do mundo dos modismos e das “Flips” das letras. Cora Coralina não era neófita na arte de escrever, escrevia contos e poemas desde adolescente, mas, seu reconhecimento de escritora chegou na idade decrépita, porém, ela teve a sorte de alcançar o reconhecimento de sua obra em vida.
Às vezes, as pessoas podem pensar “que me deito no chão para enganar urubu”, quando digo que não sou escritor. Realmente, não o sou, sou um escrevinhador, um autor. O escritor tem público, reconhecimento, editora, marketing, vende livro e, possui algum best-seller nas livrarias. Não tenho nenhum desses requisitos de escritor, portanto, não sou escritor.
Em 28 de agosto de 2008, recebi de Maria João, conhecida escritora portuguesa um livro de presente com o título: “O polvo não sabia que o mexilhão tinha asas”, e a dedicatória: “Para o Rilvan, meu amigo e companheiro de escrito, com um grande abraço”. Carinhosamente, respondi-lhe: “... Que honra para um desconhecido cidadão!... É que Maria, aqui na minha cidade, a maioria me conhece como um simples professor e não com o dom de colocar palavras bonitas e cheias de vida no papel. Não sou um mestre da prosa nem da poesia...”. Noutras palavras: não tenho a honra de ser um escritor!
No “Manifesto de Desagravo”, não fui tratado como escritor mas, de acadêmico e blogueiro, palavras que soaram pejorativamente: “... vêm manifestar seu repúdio às atitudes injuriosas e difamatórias do acadêmico e blogueiro!”. Só que o blog é um tipo de mídia prática, eficiente, um diário on-line onde o editor responsável publica fatos vários do dia a dia. Alguns blogs são de matérias específicas, a exemplo dos blogs de ciência e literários. Não é demérito intelectual ser blogueiro, demérito é usar o blog para denegrir a honra de A e B com postagens difamatórias e mentirosas ou usar o blog para “jabá”. Jabá é ganhar dinheiro escusos.
Eu não pedi para ser acadêmico, eles que me honraram com o título. Durante 2 anos, na presidência de Dr. Marcos Bandeira, dei tudo de mim na administração das contribuições financeiras da ALITA como 1º. Secretário e ajudei intelectualmente na formação de seu REGIMENTO E ESTATUTO, além da contribuição financeira de 15% do salário mínimo por mais de 3 anos.
Não obstante o honroso título acadêmico itabunense que recebi, ele não me realiza intelectualmente. No manifesto de desagravo publicado em 10.03.2017, no site ICAL, eles escreveram: “... melhor faria se, por coerência, pedisse o afastamento e, desligado da instituição”. Não o fiz porque não cometi nenhum “crime” ético, moral ou físico. Fui alijado pelas articulações maldosas e tendenciosas do escritor Cyro de Mattos e o autoritarismo da presidente da ALITA, naquela época, a ex-juíza Sônia Maron. Se eles, realmente, tivessem razão, por que não instalaram um conselho de ética? Não tinham subsídios reais!...
Na época do imbróglio, das acusações inconsistentes dessa gente poderosa e elitista, o único meio de defesa foi usar o blog Saber-Literário que administro desde 2005 e o Recanto das Letras desde 2012. Nas minhas crônicas e artigos, nunca detratei nem manchei a honra de nenhum confrade, sempre abordei os fatos em benefício da entidade. Por isto, resolvi elaborar este texto com títulos cronológicos com objetivo de registar a minha passagem na Academia de Letras de Itabuna-ALITA, que um dia haja uma reparação histórica, que eu não passe para as páginas da entidade de letras itabunense como um “Terrorista Cultural”.
Enfim, desejo que a ALITA ressurja das cinzas assim como a “Fênix”. Hoje, ninguém fala da nossa academia. Na gestão da diretoria de 2011/2012, é que, ela fosse reconhecida como de “utilidade pública”, assim estaria qualificada para receber ajuda de todos os níveis de governo, celebrar contratos, desde o governo municipal até o federal. Desejo que surja uma liderança com empatia, generosa e intelectualmente honesta para que a ALITA cumpra seu papel cultural na comunidade de Itabuna. Rilvan Batista de Santana, São Caetano, Itabuna (BA), Brasil.

 
[***]



Rilvan Batista de Santana: Professor de Matemática aposentado, membro fundador da Academia de Letras de Itabuna-ALITA, ex-diretor do Colégio Estadual de Itabuna (CEI), ex-vereador de Itabuna, “Mérito Educacional FTC 2019”, “Cidadão de Itabuna" pela Câmara Municipal, membro da União Brasileira de Escritores (UBE 2018/2020), fundador do blog Saber-Literário. Produziu 21 livros impressos e virtuais, divulga nos sites: Recanto das Letras, Bookess, Amazon.com, etc.


Neco - R. Santana

 


Neco - R. Santana
 

     Quando o conheci, eu não passava de um adolescente de ginásio, Neco era um homem idoso de idade indefinida, não sei se naquela época, se ele tinha 60 anos de vida ou 70 anos de vida, sou daqueles que comunga com o pensamento popular: “... cada pessoa tem a idade que lhe parece”. Não foi sua idade que me moveu fazer esta crônica, mas, fazer jus à memória de um amigo velho que me incentivou ao culto das letras.
     Não tinha formação acadêmica, havia aprendido ler as coisas do mundo e, empiricamente, separar o bem e o mal. Sua experiência de vida, sua sabedoria e suas qualidades morais supriam as lições da escola que não frequentou, por isto, ele se via em mim na busca do conhecimento institucional. Ele se comprazia com o meu sucesso escolar, principalmente, quando era promovido de série. Sua expectativa de vida é que eu fosse um advogado, um grande tribuno de quatro costados, naquela época, Wilde Lima, Waly Lima, Adélcio Benício,  Raimundo Lima e Alberto Galvão eram os proeminentes da ciência do Direito e da Retórica de Itabuna.
     Neco, embora de bom caráter, generoso, solidário, prestativo, não era um virtuoso, tinha o vício de jogar cartas apostado. Ele gostava de ronda, bisca, canastra, buraco, etc. Não era exímio no carteado, porém, se saía muito bem, nos últimos anos de vida, ele tirava seu sustento com as apostas do jogo de baralho. Até no jogo, ele exercia a ética, nada de trapaça, de cartas marcadas, ganhava com honestidade e perdia com decência.
     Quando li o romance “Dom Casmurro” de Machado de Assis, Bento Santiago, “Bentinho” de Capitu e dona Glória, lá, encontrei Neco em José Dias. Neco e José Dias se faziam necessários e solícitos onde estivessem. José Dias, o homem dos superlativos, aplicou a homeopatia para curar os familiares e os agregados de Bento Santiago pai e Neco fez-se necessário nos negócios de jogatina no Bar de Pedro de propriedade de meu tio Pedro. Ambos, ganharam a simpatia dos progenitores, da família, foram ficando e ficaram.
     Neco se apresentou como mestre de obras, porém, ninguém nunca viu uma obra que lhe credenciasse um construtor, assim como José Dias não era médico, Neco não era mestre de obras, mas um “crupiê”. Confessou depois que tinha trabalhado em parques de diversões e cassinos, dirigindo as mesas de jogos de azar.
     Quando meu tio Pedro estava impedido por algum motivo de administrar a mesa de baralho, lá estava ele cuidando do cacife noite adentro. Pela manhã do dia seguinte, Neco prestava conta sem faltar um tostão sequer, era remunerado pela noite perdida, comprava o pão na padaria, ia pra casa levar o dinheiro pra sua velha comprar os mantimentos necessários à sobrevivência do dia a dia. Eles não tinham filhos, nunca os tiveram, nem parentes tinham, se tinham parentes, ficaram esquecidos em terras distantes.
     Recebi dele muitos estímulos para leitura, achava que a leitura era o principal instrumento para alcançar o conhecimento, valorizava a prática, aliás, sua vida havia sido construída por ações práticas, porém, a prática tornava-se mecânica e repetitiva, empírica, a leitura lhe dava a possibilidade de raciocínios dedutivos e indutivos com a interpretação de problemas. Recorria sempre ao pensamento do escritor Monteiro Lobato: “Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”, por isto, tornei-me um leitor contumaz. A leitura leva-nos aonde não podemos ir fisicamente.
     Neco não gostava da velhice. A velhice é a somatização dos males físicos, deveria ser a melhor idade pela experiência acumulada, a sabedoria, maior compreensão do outro e a idade da razão, no entanto, a velhice traz comorbidades incômodas e doloridas que, certamente, a velhice não é a melhor idade, mesmo a vida de um estoico, indiferente à dor e à adversidade.
     Neco era como uma estrela cadente, onde passava deixava um rastro luminoso, logo se apagava e deixava de ser estrela para ser pedra. Como estrela, espalhava bondade e não esperava reconhecimento. Alguns lhe eram gratos por toda vida, outros, faziam de conta que nunca o tinham visto. Ele não ligava, sempre dizia que o bem era maior. Dizia que o mal não se sustenta por muito tempo, a energia negativa por si se destrói enquanto o bem é uma centelha divina eterna.
     Acima ficou claro que Neco jogava mais por necessidade, não só por prazer. As noites não dormidas nas salas de jogos, a vida difícil e o cuidado com o cacife do outro, jogou-lhe por terra um AVC. Os amigos lhe acudiram, não lhe faltou o sustento, o remédio, o apoio moral, mas o corpo alquebrado chegou ao fim, seu exemplo moral e seu amor pelo saber permanecem até hoje.



Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

São Caetano - Itabuna / O fundador - R. Santana

 


São Caetano - Itabuna / O fundador - R. Santana

 

     A História da Humanidade é feita de vencedores, vencidos e anônimos. Os vencedores são os líderes que surgem no curso da história, são eles os responsáveis pelo progresso material, desenvolvimento tecnológico e científico, normalidade jurídica e suporte militar de segurança de cada povo. Os vencidos são aqueles que suas ideias não foram recebidas nem aceitas pela sociedade. Os anônimos são os verdadeiros responsáveis pelas ações práticas, sem os trabalhadores braçais, sem os trabalhadores artesanais, sem os intelectuais, sem os cientistas, sem os técnicos, sem as ações militares, sem as ações eclesiásticas e sem as ações culturais (todos anônimos), as sociedades e os estados não seriam formados.
     Pedro Batista de Santana, hoje, com 93 anos de vida, é um desses vencedores. Saiu de Lagarto (SE), muito jovem, imberbe, fez uma breve estada em Maria Jape, distrito de Ilhéus, após, fixou-se em Itabuna num lugar com a alcunha de “Fuminho”, depois São Caetano, há 73 anos. O “Fuminho” era um aglomerado de 14 casebres espalhados, no início do lugar, o que havia de mais importante era uma estrada de chão de 19 km de distância de Itabuna a Macuco, hoje, Buerarema, onde os caminhões escoavam a produção do cacau e levavam os produtos de subsistência para população da cidade vizinha.
     O “Fuminho” era uma grande fazenda de roças de cacau, roças de mandioca, bananeiras, jaqueiras, canaviais, frutas em abundância, muita mata e uma fauna maravilhosa e muitas nascentes e ribeirões. Sua gente era de trabalhadores rurais, pequenos posseiros, grileiros, pescadores, caçadores, oleiros, carpinteiros, marceneiros, lavadeiras, parteiras, benzedeiras, pedreiros, açougueiros e jagunços que serviam aos coronéis do cacau.
     Faz-se necessário dizer que foi a população da cidade daqueles tempos que deu o nome de “Fuminho” ao lugar, hoje, bairro São Caetano, porque 2 ladrões chinfrins, roubaram umas bolas de fumo na cidade e foram presos logo depois com o atravessador, o bodegueiro Permínio, que tinha uma bodega no início do lugar. Naquela época, não havia Direitos Humanos nem humanos direitos, advogado era luxo, coisa de gente rica, os pobres diabos devem ter levado uma boa surra de cipó-de-boi ou foram corrigidos com palmatória de jacarandá e soltos. Os habitantes da cidade, pejorativamente, começaram a chamar o lugar do outro lado do Rio Cachoeira de “Fuminho” e “Fuminho” ficou por muito tempo até os habitantes do lugar substituir por São Caetano, bairro São Caetano de Itabuna.
     A fazenda que deu origem ao bairro São Caetano, supostamente, pertencia ao agricultor José Batista Caetano. Digo supostamente, porque a área foi reivindicada pelos herdeiros do coronel Tertuliano Guedes de Pinho, depois de sua morte, num litígio com os herdeiros de José Batista Caetano que durou mais de 20 anos em todas as instâncias estaduais e federais e culminou com a vitória de Dr. Durval Guedes de Pinho, filho do coronel do cacau, Tertuliano Guedes de Pinho.
     O bairro não herdou o nome de “Caetano” de José Batista “Caetano”, mas da proliferação duma planta trepadeira chamada de São Caetano, que produz o fruto melão-de-São Caetano. Em cada palmo de chão do lugar se achava a planta São Caetano. O povo em sua sabedoria, ao longo do tempo, batizou o lugar de São Caetano e São Caetano ficou até os dias atuais, em 1963, o vereador Antônio Calazans tentou mudar, mas o sentimento bairrista do povo foi maior, ele foi derrotado.
     Pedro chegou aqui nessa época, início de 1948, em que o “Fuminho” era 1 dúzia de casebres miseráveis, sem ruas, mais caminhos e veredas, lugar de fazendas de cacau, terras do sem fim, terras de muitos posseiros e muitos donos, onde os descamisados anônimos começaram a construir suas moradias toscas de adobe e chão batido e casas de taipa. O lugar era habitado por gente boa e simples, porém, homiziava-se, também, pistoleiros e ladrões. Pedro pouco e pouco era a referência comercial (construiu um quiosque, um armazém de tudo um pouco), o líder do lugar.
     José Batista Caetano deixou 2 filhos biológicos e 1 de criação. Com a morte do pai, os filhos Potomiano (Peó) e Zezinho começaram a aforar os terrenos, o “bairro” já ia de vento em popa, o povo já tinha construído seus casebres por conta e risco, sem ajuda ou interferência de ninguém, uma invasão pacífica como se a terra não tivesse dono. No início, houve resistência, ninguém quis pagar o foro aos novos senhorios, mais uma vez, Pedro intercedeu entre as partes, ficou combinado que o foro seria pago a partir daquela data ou no ato da transferência do imóvel e assim foi até a posse de Dr. Durval Guedes de Pinho como novo proprietário beneficiado por um ato jurídico. Dr. Durval para se livrar da lei de “usucapião”, pois a maioria já tinha mais de 10 anos na posse do terreno, passou vende-lo com escritura em cartório e registro.
     Peó e Zezinho eram 2 negros cordatos, incapazes de fazer qualquer mal ao outro, porém, eram indolentes, lânguidos, avesso à atividade produtiva, gostavam de bem-estar, vida tranquila, sem estresse e os aforamentos dos terrenos lhes davam essa condição, pouco esforço laboral. Potomiano Batista Caetano (Peó) instalou e sortiu uma bodega, na entrada do bairro São Caetano, hoje, Avenida princesa Isabel e, José Batista Caetano Filho (Zezinho), vivia do aluguel de suas avenidas e dinheiro a juro. Ele morava num chalé, dentro dum pasto, nas imediações do atual escritório do DNIT - Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - Unidade Itabuna. Mais folgado que Peó, ele vivia bater pernas, aqui, ali e acolá, atrás das prostitutas. Uns parasitas que nunca fizeram nada para o crescimento e o desenvolvimento do bairro.
     Parco, econômico, Pedro Batista de Santana, agora, “seu” Pedro, ainda nos tempos de “Fuminho”, além dum quiosque (armazém de secos e molhados) que construiu na “rua” principal do bairro, deu início à construção de pequenas casas de tijolos, alvenarias, rebocadas com massa de cimento e cobertas de telhas de barro queimado. Ele não construía várias casas de uma vez, pelos seus parcos recursos, vendia uma casa, para construção de outra, porém, deu início à construção de moradias populares, modernas, não casas de adobe e chão batido ou casas de taipa.
     A inteligência social de “seu” Pedro contribuiu para ações de relações públicas, com a divulgação que o bairro era promissor e lugar de bem-estar, ele atraiu moradores mais qualificados profissional e economicamente, a exemplo de gerente de banco, escriturários de empresas comerciais, dentista prático, comerciários, pequenos empresários, além de junto ao poder público, escola primária e tratores para abertura de ruas por engenheiros civis. Na esteira desse progresso, surgiram casas de lazer para os machos, à noite, descarregarem seus estresses, as mais chiques, as casas das caftinas Helvécia e Rosa.
     A prática espiritual é condição sine qua non para que qualquer comunidade sustente sua fé. Naquela época, finais dos anos 50 e início dos anos 60, as crendices populares eram diversas, desde curas de doenças físicas às curas de pessoas obsessivas, histéricas, não obstante o esforço da igreja católica na evangelização racional dos seus fiéis, o sincretismo religioso era mais forte. Por isto, peço licença ao leitor para transcrever parte de um texto, de minha autoria, que foi publicado no site Recanto das Letras e Saber-Literário, com o título: “São Caetano, 24.06.2012, vejamos:
     Porém, em tempos idos, muito antes de Frei Joaquim Cameli desembarcar por estas bandas, muito antes dos padres capuchinhos passarem aqui, na época das missões, a fé dos moradores do São Caetano era confiada a Dona Pedrina, Manuel Canguruçu, Mãe Ester, Caboclo Ló e Maria Sertaneja, os primeiros e principais pais-de-santo, filhos de Iansã, Obá, Ibeji, Oxossi, Ogum, Iemanjá e outros orixás, filhos da umbanda de Angola...
     O seu sincretismo religioso fazia inveja às ideias ecumênicas atuais. Todos, sem traumas, tinham ideias cristãs permeadas de orixás, salvo, os pais-de-santo charlatães, de interesses escusos, manifestavam crença nos exus como meio de solucionar os males físicos e os casos de possessão dos seus clientes. Naquele tempo, todo barracão tinha um espaço reservado aos santos, à queima de velas, às oferendas e um quartinho escuro cheio de mistério, onde segundo a lenda, o babalorixá mantinha o Diabo preso e o soltava em sessões especiais.
     Missa? Missa nos eventos anuais: Sexta-Feira Santa, Natal, Dia de São José e Quarta- feira de Cinzas. Os moradores emperiquitados, roupa domingueira, cabelo brilhantina, desciam a pé, a cavalo ou de carroça para o centro da cidade, no retorno, se despiam daquela parafernália indumentária, arregaçavam a bainha, penduravam os sapatos nas costas e voltavam pegando picula na estrada, às vezes, estrada enlameada.
     Porém, os adultos gostavam mais das festas e danças de candomblé, não movidos pela fé, mas pela superstição e requebro dos quadris das morenas e negras ao som dos tambores, possuídas pelos orixás... O som dos tambores era ouvido ao longe e ao invés do som repicado e monótono dos sinos, era mágico o som dos tambores de D. Pedrina ou de Manoel Canguruçu ou de Maria Sertaneja. As filhas de santo, de corpo escultural, de roupa branca e descalça, todo o corpo se mexendo, principalmente, os quadris e os ombros, movimentos eróticos levavam à loucura os filhos de santo, de vez em quando, uma filha de santo embuchava do pai-de-terreiro ou dos filhos-de-santo, aí, o pobre coitado ficava na casa do sem jeito, o jeito era amancebar-se. O pai-de-terreiro participava da dança de candomblé ou ficava sentado num estrado com postura de bispo, abençoando-os e recebendo louvores.
     Cada pai-de-santo incorporava um orixá (Bará, Ogum, Oiá-Iansã, Exu, Ibeji, Odé, Otim, Oxalé), estes orixás controlam (conforme a crença), as forças da natureza, portanto, existe o orixá de cura, o orixá para expulsar os espíritos maus, orixá pra controlar as paixões, orixá Tinhoso, orixá para benzer as encruzilhadas, orixá da fortuna, enfim, orixá para fazer o bem e orixá para fazer o mal.
     Os candomblés mais arrumados eram o de Dona Pedrina, o de Manoel Canguruçu e o candomblé de Maria Sertaneja. O candomblé de Pedrina era frequentado pela elite e pelos políticos, a elite, interessada em suas lindas filhas de santo e os políticos interessados no aumento do seu cacife eleitoral. O candomblé de Manoel Canguruçu era voltado para cura de pessoas com obsessão de perseguição, vítimas de bruxaria, endemoninhadas, possessas, e, não para o tratamento de neuroses histéricas, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, esquizofrenias e outras psicopatias. O candomblé de Maria Sertaneja cuidava dos despachos, da coisa-feita e das mandingas de encruzilhada.
     Os malucos eram tratados por Manoel Canguruçu por certa “unguentoterapia”, uma substância estranha de rato morto, sapo, urubu, cobra, lagartixa que ele triturava tudo num pilão e deixava de fusão com uma mistura de ervas, após alguns dias, no sol e no sereno, aquilo se tornava uma “pasta putrefata” que era espalhada no corpo do maluco que se não ficasse bom...
     Porém, as mulheres malucas, as moças histéricas, de calundu, as moças mal-amadas, reprimidas pela ignorância dos pais e dos costumes, cheias de faniquitos, eram tratadas por Manoel Canguruçu com água de cheiro e muita mordomia, as más línguas juravam que elas caíam na lábia e na cama do pai-de-terreiro como a “mosca no leite”.
     O fundador de fato do São Caetano, Pedro Batista de Santana, era de natureza ecumênica, manifestava disposição de diálogo com outras pessoas de confissões religiosas diferentes, embora fosse católico de nascimento, todavia, longe de ser beato, ia à igreja, geralmente, em eventos religiosos e alguns sacramentos: batismo, matrimônio e extrema-unção. O importante que o ecumenismo fosse uma prática, não uma teoria doutrinária.
     Pedro nasceu com o estigma de empreendedor, depois que passou anos com venda de alimentos e bebidas, pequeno construtor imobiliário, viajante, fundou uma casa de dança, pejorativamente, um cabaré chamado “brejinhos”, um bate-coxas de final de semana, onde os machos e as mulheres solteiras do bairro se divertiam a gosto. Foi uma breve passagem, a casa ficava num lugar ermo, escanteado do São Caetano. Não foi longe o empreendimento, as arruaças eram frequentes depois das 2 horas do dia seguinte. O negócio demorou só alguns meses.
     No ano de 1958, depois que “seu” Pedro vendeu uma casa-bodega numa das transversais da Rua São José (esquina), hoje, uma academia de musculação, para um cidadão de prenome “Aquino”, ele comprou um terreno do lado contrário da mesma transversal (esquina), frente à Rua princesa Isabel, nº. 1020, aí, encerrou sua carreira de construtor de imóveis e compra e venda de casas, permanece nesse imóvel até hoje aos 93 anos de vida.
     Foi nesse imóvel que ele instalou um bar de sinucas e dominós, durante o governo do general Juracy Magalhães que liberou o jogo de azar. O jogo de baralho foi incorporado à jogatina do estabelecimento que se popularizou com o nome fantasia de “Bar de Pedro”.
     O “Bar de Pedro” não ostentava placa ou letreiro em sua fachada, o nome surgiu boca-a-boca, como principal ponto de referência do São Caetano: “... eu lhe encontro no Bar de Pedro”, “no Bar de Pedro o pessoal lhe mostra onde moro”, “...aonde vou? Vou ao Bar de Pedro!”, “... deixe a encomenda no Bar de Pedro!” etc., etc.
No meado dos anos 70, as sinucas, os dominós e o jogo de azar foram substituídos pela primeira sorveteria do bairro. O “Bar de Pedro” não era mais o mesmo no modo de ver do povo, frequência e lucro.
     Esse bar foi por muitos anos o principal “point” do São Caetano. Seu salão serviu até para festas carnavalescas, naquela época não havia clube, os moradores (mais ou menos 1000), ou brincavam nos blocos de rua ou no salão do “Bar de Pedro”. Algum tempo depois, os moradores se associaram e fundaram o “Clube do São Caetano” (Pedro foi um dos diretores), sob à presidência de “Milton Candomblezeiro”, Milton do DNER, porém, não funcionou por muito tempo, em parte, pela falta de apoio da comunidade.
     No início dos anos 60, “seu” Pedro tornou-se político. No seu bar passaram alguns políticos de expressão nacional, a exemplo do deputado federal Ney Ferreira, os prefeitos Alcântara, Félix Mendonça, Fernando Cordier, Dr. Simão Fiterman, José Oduque e o deputado estadual Daniel Gomes e Fernando Gomes.
     Com essas amizades políticas, ele conseguiu trazer energia elétrica e água encanada para o São Caetano, no governo de Alcântara. Com Simão Fiterman e José Oduque, à abertura de novas ruas e a pavimentação de outras. Além do cargo de subdelegado por algum tempo. Na administração de José Oduque e Fernando Gomes, ele foi nomeado: “Chefe da Patrulha Mecânica Municipal”.
     Um fato que ocorreu no início dos anos 60, demonstrou o amor e o compromisso comunitário de Pedro do Bar pelo bairro São Caetano e permita-me o leitor, novamente, usar parte de um texto antigo (02.02.2011), de minha autoria:
     Com o assassinato do presidente dos E U A, John F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963, os bajuladores dos ianques espalhados em todo mundo, deram o seu nome, in memoriam, aos bairros, ruas, praças, jardins etc. Nós, de terras tupiniquins, das terras do sem fim, não fugimos à regra. O vereador Antônio Calazans, velha raposa política, quis pegar o bonde da História e elaborou um anteprojeto de lei que mudava o nome de São Caetano para bairro presidente John Kennedy. A reação dos líderes comunitários Pedro Batista de Santana (Pedro do Bar), Eduardo Fonseca e o povo, foi enfurecida, irrefreável, movimentos de protestos pipocaram nos quatro cantos do bairro.
     Os reclames do povo e dos líderes comunitários chegaram ao prefeito, o Sr. José de Almeida Alcântara (apelidado carinhosamente pela meninada de “Arranca”, derivativo deformado de Alcântara), mestre da demagogia e da encenação. Ele foi sensível e oportunista aos protestos e reclames da comunidade caetanense, prometeu aos líderes e à comunidade, negociar com os vereadores, vetar o projeto, tirou proveito político o quanto pode...
     Os vereadores Calazans e Antônio Côrtes (relator da matéria), insistiam em submeter o projeto à assembleia para votação final, estavam irredutíveis, queriam a qualquer custo americanizar o bairro, trocando “São Caetano” por “John Kennedy”, a data da votação foi definida, parecia que os caetanenses estavam na casa do sem jeito, num beco sem saída, teriam mesmo que embolar a língua e pronunciar: - John Kennedy!...
     O dia D chegou. Os vereadores estavam convencidos da aprovação fácil do seu projeto, pouco se lixando para população, quando o prédio da Câmara de Vereadores (atual prédio da 27ª. Zona Eleitoral), a Praça Olinto Leone e as ruas circunvizinhas, foram tomadas de assalto por milhares de populares, moradores do bairro São Caetano e doutros bairros, gritando palavras de ordem, discursos, carro-de-som, faixas, cartazes, apitos, numa demonstração de cidadania e civismo nunca visto.
     Calazans acuado, sem respaldo popular, sem apoio político das autoridades da cidade (exceto seus pares), numa saída de mestre, esvaziou o plenário da Câmara, suspendeu o projeto por falta de quorum, articulou com os líderes do bairro uma nova proposta: não mudar o nome do bairro, mas manter a homenagem ao presidente americano, dando-lhe o seu nome à principal avenida, por muito tempo, o São Caetano teve sua “Avenida Kennedy”, mas graça ao sentimento patriótico das novas gerações, a posteriori, foi batizada com o nome de gente nossa: - Avenida Manoel Chaves!...
     Voltando no tempo, anos 70, Pedro do Bar usou o seu patrimônio político para eleger a vereador do município de Itabuna, pelo PMDB, o seu sobrinho, Rilvan Batista de Santana, naquela época, estudante universitário. A importância dessa eleição, foi um tento histórico, o seu sobrinho foi o primeiro legislador, genuinamente, são-caetanense.
     Nas eleições subsequentes, 1974/1977 e 1978/1981, com seu apoio, foi eleito e reeleito Eduardo Fonseca, misto de amigo e cunhado de Pedro do Bar. Faz-se justiça dizer que Eduardo Fonseca foi um importante protagonista na História do São Caetano, todavia, sua atividade principal era de caminhoneiro, morava no centro da cidade, Rua Almirante Tamandaré, meado dos anos 50, escoou muito cacau de Macuco – Itabuna – Ilhéus. No meado dos anos 60, fixou-se definitivamente no São Caetano e ajudou “seu” Pedro na reivindicação de algumas iniciativas públicas, foi um dos líderes no movimento que impediu mudar o nome de São Caetano para John Kennedy.
     Porém, o interesse maior de “Fonsequinha” era alavancar seu loteamento, num terreno de 10 hectares, vizinho do São Caetano, e, conseguiu, hoje, bairro Fonseca. A dobradinha política Pedro-Fonsequinha, permitiu que muitas obras públicas fossem desenvolvidas e implantadas no São Caetano e bairro Fonseca, principalmente, nos governos de Alcântara, Dr. Simão Fiterman e José Oduque Teixeira e Fernando Gomes nos seus primeiros mandatos.
     O objetivo deste texto é reconhecer Pedro do Bar como o principal protagonista na História do São Caetano, resguardando às devidas proporções, comparo o trabalho de Pedro Batista ao fundador da cidade, Firmino Alves, este foi mais longe, solicitou do governador José Marcelino a separação de Tabocas de Ilhéus e, consequentemente, o fundador de Itabuna. Pedro Batista de Santana foi um empreendedor mais modesto, mas, empenhou-se tão quão Firmino Alves, no desenvolvimento e no reconhecimento do São Caetano como lugar bom para morar e trabalhar.
     Como pesquisador histórico autodidata, depois duma revisão (análise de fatos históricos e informações orais), não poderia dar esse crédito, esse título de fundador do bairro São Caetano, ao agricultor José Batista Caetano, ele não deixou nenhum legado que o justificasse. As terras que, supostamente, eram suas, elas pertenciam de fato e direito ao coronel Tertuliano Guedes de Pinho. E, a topografia e a situação estratégica contribuíram para que o povo mansamente ocupasse essas terras. Ademais, seus herdeiros usufruíram do foro indevidamente, não tinham a legitimidade de proprietários da terra pelo entendimento de vários tribunais do país.
     O São Caetano, hoje, é uma cidade do outro lado da cidade, com mais de 50.000 habitantes, feira-livre, comércio pujante, mercados, farmácias, oficinas, agência da Caixa Econômica Federal, Santander, Banco do Brasil, sede da prefeitura da cidade, etc. É o centro financeiro e comercial de bairros circunvizinhos (Sarinha, Novo São Caetano, Pedro Jerônimo, etc.), o São Caetano tem mais importância logística, econômica e financeira que muitas cidades brasileiras.
     Alguém poderá perguntar qual foi a fonte de referência que usou o cronista para construção deste texto? Responderia que não existe nenhuma fonte de referência oficial, documental, até onde se sabe, nenhum historiador registrou esses fatos e os tornou público, tudo se baseia na tradição oral e em nossa vivência. A minha credibilidade é que fui testemunha da maioria desses acontecimentos e prestei um trabalho em educação por mais de 30 anos, que me credenciou receber do poder legislativo municipal, o título de “Cidadão Itabunense”.
     Fonsequinha, os herdeiros de José Batista Caetano e os herdeiros diretos do coronel Tertuliano Gudes de Pinho não estão mais entre os vivos, portanto, temos que nos valer dos arquivos vivos que foram testemunhas desses fatos desde a formação do bairro São Caetano.
     Hoje, “seu” Pedro, Pedro Batista de Santana com 93 anos de idade não é mais o mesmo empreendedor de antes e o São Caetano tem vida própria, é um organismo vivo, os milhares de seus habitantes e os poderes públicos cuidam do seu destino, não é mais necessário um líder para tomar decisões pessoais. As ações públicas, são ações de governo não de indivíduos.
     Por outro lado, as autoridades municipais de todos os tempos ainda não reconheceram os méritos desse pioneiro, desse homem que fundou esse bairro e deu-lhe identidade e vida. “Seu” Pedro ainda não foi reconhecido nem com título de “Cidadão Itabunense”. Ele é merecedor de reconhecimento, de busto na praça e nome de rua, agora, não homenagem depois de morto. No recôndito de sua alma simples, ele deve pensar em suas palavras, as palavras de Rui Barbosa: “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”.


Autoria: Rilvan Batista de Santana

Membro efetivo da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Licença: Creative Commons

Foto: Pedro Batista de Santana

O Cortiço R. Santana (*)

 


O Cortiço 

R. Santana (*)

 

     Eu fico aqui em meu canto, no São Caetano, junto da feira-livre, em que o homem disputa com os urubus, o resto de comida na concha de lixo. Não existe o fogo de Dante Alighieri, mas, é uma cena dantesca.      Não sou nem serei nunca um chato politicamente correto, temos que combater as injustiças e os preconceitos sociais com trabalho, educação e eliminar as ações dos corruptos através do exercício da democracia, isto é, usar o voto para escolhermos políticos corretos, idôneos para os cargos públicos, não com posições radicais e reacionárias.
     Já li e reli algumas vezes “O cortiço” do naturalista Aluísio Azevedo que numa crítica social à condição do negro naquela época, que para o negro ficar livre, teria que comprar o “forro” e ficar desobrigado, alforriado.
     “O cortiço” é a história de um sujeito ambicioso, João Romão, que era empregado de um armazém de certo português. O português volta para sua terra e João Romão, econômico, “unha de fome”, adquire o armazém do seu ex-patrão. Não muito distante do seu negócio, uma crioula trintona, Bertoleza, recém viúva dum português carroceiro, tem uma quitanda rendosa. João Romão vê ali uma oportunidade lucrativa, amigar-se com a crioula, ganhou-lhe a confiança e passou ser seu procurador nos negócios e seu amante
     Pouco tempo depois, ela confessou-lhe que era escrava dum cego que morava em Juiz de Fora, um tal Freitas de Melo e tinha que lhe pagar o “Jornal” para ficar livre do seu Senhor. João Romão matutou, engendrou um documento de alforria, ficou com seu dinheiro e disse-lhe, após ele lê o falso documento de alforria: "... agora, você não tem mais Senhor, o cego recebeu tudo que tinha direito, tu és livre!" Ingenuamente, ela lhe responde: “Coitado! A gente se queixa é da sorte. Ele como meu senhor, exigia o “jornal”, exigia o que era dele”.
     Com as economias de Bertoleza, ele comprou o terreno do lado esquerdo da bodega, depois, mais outro, mais outro, mais outro e deixou o rico português Miranda, seu vizinho, limitado nos terrenos de sua mansão, cerceado pela ambição de João Romão que adquiriu todos os terrenos ao redor, com o objetivo de instalar uma estalagem e no fundo dos terrenos, uma pedreira bastante produtiva e lucrativa.
     A ambição de João Romão foi crescente, construiu a “Estalagem São Romão”, com dezenas de casinhas e tinas com muita água para as lavadeiras e ampliou sua bodega que não era mais bodega, mas, o maior armazém de secos, molhados e variedades daquelas redondezas. João Romão era, então, o novo capitalista de Botafogo.
     Miranda, seu vizinho, era aristocrático, nobre, com título de nobreza, um visconde. Sua mulher, dona Estela, era uma messalina, viciada em sexo, levou para cama até o Henrique, rapazola estudante de medicina, filho dum rico fazendeiro de Minas Gerais, seu pai lhe confiou à proteção de Miranda, enquanto estudante de medicina na capital. Miranda tinha uma única filha, a Zulmira, que João Romão botou os olhos e ajudado por Botelho, parasita e agregado da família, pediu-a em casamento.
     Agora, o problema de João Romão era desvencilhar-se de Bertoleza, mas, a negra criara raízes, ajudou-o a construir um pequeno império e não iria largar o “filé mignon”. Um dia, ela flagrou conversa de João Romão e Botelho e, descontrolou-se:
     - Você está muito desenganado, seu João, se cuida que se casa e me atira à toa! - exclamou ela - Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me comeu a carne tem que roer-me os ossos! Então há de uma criatura ver entrar ano e sair ano, puxar pelo corpo todo santo dia que Deus manda no mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para depois ser jogada no meio da rua, como galinha podre? Não! Não há de ser assim, seu João!
     Dias depois, João Romão confiou ao parasita Botelho que Bertoleza era escrava do cego Freitas de Melo, que ainda não havia adquirido a liberdade, que o cego havia morrido e, Botelho lhe perguntou: “Ele não deixou herdeiro?”, aí João Romão caiu em si, iria encarregar Botelho procurar os herdeiros de Freitas Melo e entregar Bertoleza ao seu dono, porque, ele tinha enganado o tempo todo a negra e lhe surrupiado o dinheiro. Sem Bertoleza o caminho estaria livre para se casar com Zulmira e tornar-se visconde: “Sim, sim, visconde! Por que não? E, mais tarde, com certeza, conde!”
     O desfecho foi triste, a negra acocorada tratava escamas e tripas de peixe, quando o filho mais velho de Freitas Melo chegou (ela o reconheceu) acompanhado de 2 urbanos, deu-lhe voz de prisão, a reação de Bertoleza foi inesperada e suicida: “... Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro rasgara o ventre de lado a lado”.
     Antes que os vermes comessem as carnes de Bertoleza, na sepultura, houve o enlace matrimonial de Zulmira e João Romão. Ninguém sabe se foram felizes, o recado de Aluísio Azevedo encerrou-se com a morte da negra. O trabalho do escritor foi descrever a condição social e moral do escravo daquela época e o surgimento dos novos ricos e o declínio dos nobres, dos falsos fidalgos.
     Fiz essa resenha de “O cortiço” do Século XIX para justificar o resgate social dos afro-brasileiros e afrodescendentes, a sociedade brasileira lhes deve mais de 5 séculos de injustiças, o negro sempre foi visto como sub-raça, mão de obra desqualificada, barata, para trabalhos braçais. Até os aforismos eram depreciativos: “Preto correndo é ladrão, parado é suspeito”, então, “Preto quando não suja na entrada, suja na saída”, “Preto com alma de branco”, etc., etc.
     Por outro lado, faz medo as ações politicamente corretas, elas não corrigem as injustiças, aprofundam as diferenças, as discriminações e as segregações. A intolerância e o preconceito se combatem com amor, não com ódio. O negro não precisa de privilégios, de cotas, o negro necessita de oportunidades no mercado de trabalho, educação, políticas públicas de inserção e de inclusão permanentes.
     Hoje, a intolerância não é só com o negro, mas condutas de retaliações de negros com brancos e condutas exacerbadas de ódio irracional e aversão pelo outro por causa de raça, por causa da profissão de fé, condição social, da religião, etc.
     Condutas afetivas, amorosas, de homem e mulher, antes normais, hoje, são condutas morais reprovadas pela sociedade, a exemplo de seduções e flertes que se confundem com assédios, insistências importunas, crimes sexuais. É necessário, portanto, que se faça uma diferença entre o joio e o trigo. Nunca se cobrou tanto do homem sua capacidade de discernimento, bom senso para não confundir a conduta afetiva com atitude criminosa.
     Enfim, "devagar com o andor, que o santo é de barro", antes de qualquer atitude desastrosa, exige-se calma, ponderação, não imputar ao outro, gratuitamente, conduta leviana, preconceito, discriminação, assédio moral, senão, muitos inocentes serão destruídos.

 

"Sempre que puder espalhe o amor, já tem gente demais espalhando o ódio" (Edna Frigato)


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

(*) Negra / Foto Google

Dom Casmurro - R. Santana

lvan Santana em 09/10/2020
 

Dom Casmurro
R. Santana

 

     Esta semana, mexendo e remexendo os meus livros na estante, encontrei o livro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, que nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e faleceu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Ele nunca esteve no exterior nem a passeio, viveu e morreu no seu país. Acho que Machado de Assis foi, ainda é, o maior escritor brasileiro, quiçá do mundo! Porém, dos seus livros: Ressurreição, A mão e a luva, Helena, Iaiá Garcia, Esaú e Jacó, Memorial de Aires e outros, eu gosto demais de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Memórias Póstumas de Brás Cubas, pela originalidade, é o primeiro romance brasileiro que o autor conta suas memórias depois de morto. Jorge Amado, muitos anos depois, produziu o romance “A morte e a morte de Quincas Berro D´água”, que é a morte dupla de Quincas Berro D`água. Ele não conta sua história depois de morto, seus colegas de mar que o coloca de pé (depois de morto), na proa da embarcação e simulam que ele está vivo e fazem várias peripécias, depois jogam o corpo no mar.

     Dom Casmurro é a história duma traição de amor e a materialização da fé. Dom Casmurro é o apelido de Bento de Albuquerque Santiago, Bentinho. Bentinho, depois de velho, conta sua história a partir de uma viagem no trem da Central. Durante a viagem, ele conhece um poeta de obra desconhecida que lhe pede para fazer uma avaliação dos seus poemas. Não se sabe se os poemas eram bons ou maus. Bentinho, absorto, triste, sorumbático, quase que não lhe deu atenção e o poeta o difamou de casmurro, Dom Casmurro.

     Depois de algumas percas, Dona Glória não chegava dar à luz, então, ela prometeu a Deus, Bentinho ainda na barriga, se ele “vingasse”, fazê-lo padre. E, quando o rapazola completasse 17 anos, ela lhe mandaria para o seminário sob as bênçãos do protonotário Cabral, o padre Cabral, assim, cumpriria a promessa.

     Na casa de Bentinho todos eram viúvos, Dona Glória, sua mãe, seu tio Cosme, advogado, e a prima Justina. José Dias, o agregado da família era a exceção, era um celibatário, não era dado a casamento. José Dias apresentou-se ao pai de Bentinho como médico homeopata, curou muita gente na fazenda, ganhou a confiança da família, com a morte do Sr. Albuquerque Santiago, herdou uma apólice, mas, o pedido de Dona Glória pra que ficasse, foi mais significativo que a apólice. José Dias era um homem ilustrado, useiro e vezeiro dos superlativos, não pronunciava 2 frases que não recorresse aos superlativos. Sua cisma era com o vizinho de Dona Glória, o Pádua, que se gabava sempre de ter sido administrador interino duma repartição do Ministério da Guerra. José Dias o alcunhou de Tartaruga, porque era baixo, grosso, braços e pernas curtas.

     Pádua, Dona Fortunata e Capitu formavam a “ gente do Pádua” no dizer de José Dias. Capitu, “olhos de ressaca”, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. O coração de Bentinho ardia de paixão e amor por Capitu, enquanto, ele crescia em sabedoria e conhecimento; ela crescia em dissimulação, fingimento e reflexão, tinha uma presença de espírito de fazer inveja. Várias vezes flagrada de namoro com Bentinho, dissimulava para os pais brincadeira em fração de segundo. Quando soube da intenção de Dona Glória, fazer dele um padre, articulou para que José Dias a dissuadisse. Vários projetos são pensados por Capitu e Bentinho, respaldado por José Dias para demover a promessa de Dona Glória fazer do seu filho padre: que ele fosse estudar em Portugal, Suíça, estudar Leis em Recife ou São Paulo. Bentinho pensou até falar com o imperador: “... Sua majestade pedindo, mamãe cede”, conjecturas...

     Nem o seu tio Cosme, habilidoso nas palavras e no convencimento, que tinha certa ascendência sobre a irmã, foi incapaz de dissuadir-lhe, promessa feita, promessa cumprida. Na casa do sem jeito, Bentinho foi para o seminário São José. Não se adaptou, se acomodou, não tinha vocação para sacerdote, ademais, Capitu lá fora, não deixava sua consciência em paz, foi nesse inferno existencial que conheceu Escobar e ficaram amigos em todo o tempo.

     Bentinho no final de semana ia em casa, voltava com o coração despedaçado por ter que se separar de Capitu. O seminário lhe era um suplício, inventaram uma doença, Dona Glória se apavorou com a debilidade do filho, a consciência lhe culpava, Bentinho estava desmilinguido... Num acordo com o Protonotário Apostólico Cabral e os superiores do seminário, chegaram a um consenso que o rapazola não tinha vocação para o sacerdócio que poderia servir a Deus sem ser padre, mas para que a promessa fosse cumprida pelo menos em parte, então, arranjaram um substituto e Dona Glória lhe provesse os estudos.

     Longe do seminário, mais perto de Capitu, foi estudar Direito em São Paulo e volta em 1864 para o Rio de Janeiro, bacharel em Direito. Logo, instala escritório no centro da cidade e casa com Capitu com pompa e ostentação. Escobar largou os estudos e seguiu sua vocação comercial e casou-se com Sancha, unha e carne, a corda e a caçamba de Capitu. Ambos os casais foram morar não muito distante um do outro.

     Escobar grande negociante, Bentinho, grande advogado do Rio de Janeiro daquela época. Sancha engravidou logo após o casamento. Depois da gravidez, Sancha e Escobar deram à filha o mesmo prenome de "Capitolina", para os íntimos e para madrinha que lhe emprestou o nome, Capituzinha. Quando ninguém mais esperava, Capitu deu a Bentinho um filho que no registro civil e na pia de bastimo, recebeu o nome de Ezequiel A. de Santiago. Bentinho, Capitu, Dona Glória, José Dias, tio Cosme, prima Josefina, todos não eram felizes, estavam felizes... A felicidade absoluta não existe, porém, momentos de felicidade. Quando tudo parecia feliz entre às famílias: filhos nascidos, famílias estimadas, sucesso empresarial, advogado de sucesso, numa manhã nebulosa, mar indomável, mar revolto, morre afogado, o melhor amigo de Bentinho, Escobar.

     À medida que crescia Ezequiel, ele lembrava o finado Escobar, nos gestos, no jeito de andar, nas imitações, nos gostos, dúvida sobre dúvidas apavoravam o espírito de Bentinho, o pestinha era o debuxo que faltava colorir, até Dona Glória e prima Justina, dissimuladamente, questionavam a semelhança, o fosso entre o casal foi se alargando. Bentinho recordou encontros casuais que flagrou de Capitu e Escobar, que creditava à amizade de família. Capitu nunca perdia a serenidade enquanto Escobar mal disfarçava sua perturbação.

     Por um triz do destino Bentinho não se suicida e por acidente o menino quando sobre a escrivaninha da biblioteca, encontrava-se um café envenenado. Capitu jurava inocência, que a semelhança de Ezequiel e Escobar não passava de capricho do destino que queria incriminá-la, Bentinho queria acreditar, mas o destino teria caprichado demais no debuxo e nas tintas.

     Quando a situação ficou insuportável, mãe e filho foram levados para Suíça. Correspondiam-se, agora, por cartas, ela, cada vez mais apaixonada, ele, cada vez mais, distante e seco, aos amigos e amigas, ele dizia que Capitu estava bem e feliz, não pensava em voltar, havia se acostumado às condições climáticas do continente europeu, que Ezequiel adaptou-se bem e já dominava a língua estrangeira. Para atender à curiosidade social, viajava para Suíça todos os anos e simulava vê-los, todavia, não os procurava.

     Já não escondia sua tristeza, casmurro, que lhe pegou o apelido do poeta anônimo: “Dom Casmurro”. “Dom Casmurro” ficou para os amigos e não amigos. Por outro lado, na Suíça, Capitu vergava-se, dia a dia, em amarguras e remorsos. O filho já adulto, ela morreu longe de tudo e de todos, longe de sua terra, de seus amigos e, desprezada do homem que mostrou amar desde a adolescência.

     Um dia, quando Bentinho já achava tudo distante e preparava-se para vestir-se, recebeu um cartão: “Ezequiel A. de Santiago” Ele perguntou ao criado se a pessoa estava ali, ciente, pediu ao criado que o fizesse aguardá-lo. Demorou alguns minutos para refazer o equilíbrio de suas emoções, não se comportou como um pai extremado, afetuoso, porém, contido, convencional, principalmente, quando o encontrou: “... Ei-lo aqui, diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obséquio e a mesma graça. Ansiava por ver-me. A mãe falava muito de mim, louvando-me extraordinariamente, como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido”. “... era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário São José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo... Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço, era o filho do seu pai”. Não demorou muito, retornou para encontrar 2 colegas numa expedição `científica, arqueológica, à Grécia, Egito e à Palestina. Onze meses depois, morreu Ezequiel de febre tifoide e sepultado nas imediações de Jerusalém. Seus colegas lhe prestaram a última homenagem com a inscrição em seu túmulo: “Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia de tua criação” Bentinho não desejou sua morte, no entanto, não esconde o alívio de romper com o último elo que o ligava ao passado. Em algum momento da vida, desejou que Ezequiel fosse seu filho verdadeiro, aliás, ele foi vítima da leviandade e infidelidade de Escobar e Capitu, seus verdadeiros pais, tanto quanto ele, finaliza: “... a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve”.

     Em “Dom Casmurro” o autor expõe as sutilezas da mente. A capacidade de alguém dissimular e reinventar um acontecimento. Era da natureza de Capitu essa habilidade de enganar. Não era uma Messalina, mas, respondia com frieza de ânimo às situações mais adversas. Há no texto um exemplo significativo: eles estavam no quintal em namoro quando surge de repente, Pádua, seu pai, ela se transformou em segundos e lhe diz que eles estavam jogando SISO quando o pai lhe questiona: - Por que ele não sorri? – ela lhe justifica que Bentinho era tímido, tinha vergonha, forçou que seu coleguinha risse, em vão, ele estava apavorado!...

     Alguns críticos sustentam que Machado de Assis foi duro com a principal protagonista de sua história. Apresentou aos seus leitores uma Capitu infiel, dissimulada, arteira, fingida e um Bentinho virtuoso, de fé no outro, o que é verdade, a própria Capitu definiu para seu filho o perfil desse homem: “... como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido”. Alguns críticos acusam Bentinho de ciumento, possessivo, que fazia da fraqueza força para ser o centro da atenção dos que lhe amavam. Filho único e mimado, sempre esteve sob os cuidados de parentes e aderentes, além de ter nascido em “berço de ouro”, diferente de sua companheira de sorte, que desde cedo teve que lutar com as dificuldades existenciais, por isto, teve que se utilizar de alguns mecanismos de defesa para sobreviver, não o amava, o admirava, não gostava de homem fraco e Escobar não era um fraco. Uniu-se a Bentinho por compaixão e não perder o bonde do oportunidade.

     Enfim, houve traição, são fortes as evidências. Porém, o mal de Capitu foi não assumir o seu romance, se tivesse assumido, seria contada uma grande história de renúncia, coragem e amor.

 



Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons 

Membro da Academia de Letras de Itabuna-ALITA 

Imagem: Google

 

Curiosidade: Na fundação da ALITA,  eu apresentei Machado de Assis como meu patrono, mas, um escritor famoso condicionou que só seria membro da academia que estava nascendo, se somente se, Machado de Assis fosse seu patrono, então, eu cedi e sobrou-me Walker Luna.





“Quem me dá um abraço?...” R. Santana

 “Quem me dá um abraço?...” R. Santana

 
“Como a gente se engana com as pessoas, ainda bem... que decepção não mata, ensina viver”

Não sei se foi na capital de São Paulo ou alguma cidade do interior desse estado que um morador de rua segurava uma cartolina com a frase: “Quem me dá um abraço?...”, talvez, esse apelo emocional an passant, seja encarado por alguns como fútil, desejo gratuito de aparecer, todavia, não é verdade, a pandemia do coronavírus deixou evidente essa realidade.

O homem é um animal político, um ser social, o homem não nasceu para viver isolado na ilha de Robinson Crusoé. Nessa Covid-19, que a palavra de ordem era: “Fique em casa!”, ou, a recomendação quase obrigatória: “Distanciamento social!”. É sabido que nesse período de pandemia viral, a violência matrimonial exacerbou-se, aumentaram-se os crimes sexuais de feminicídio e a Lei Maria da Penha não conteve toda a maldade machista.

Afora os portadores de algumas doenças mentais e necessidades especiais, que de alguma forma, vivem isolados, diferente de pessoas que, naturalmente, sentem necessidade de interação social, ajuntamento, corpo a corpo, aperto de mão, abraço, beijo, sexo, isto é, as relações afetivas são condições sine qua non para existência humana. As medidas sanitárias de isolamento social e distanciamento social produziram transtornos de ansiedade, depressão, comprometimento cognitivo, perda parcial de memória e suicídio, portanto, doenças tão prejudiciais quanto os danos do coronavírus.

A criança do campo que coloca os pés no chão, banha-se nos ribeirões, alimenta-se de produtos naturais, monta a cavalo, pratica futebol de várzea, toma leite nas mamas da vaca, brinca de pega-pega, brinca de bodoque, gude, cantigas de roda, ela possui mais resistência às doenças infantis e estrutura socioafetiva e física mais que a criança da cidade, isolada em apartamento, sedentária, que se alimenta de produtos industrializados, presa aos games, aos playstation, ao WhatsApp, jogos de aplicativos diversos e esportes de norma e disciplina inflexíveis.

Portanto, não é pieguice, sentimentalismo exagerado, desejo de aparecer desse morador de rua, o isolamento e o distanciamento sociais são antinaturais à natureza humana. O sujeito pode estar num mar de gente, se não houver motivação, interação social e relação afetiva, ele é um solitário cercado de gente por todos os lados. O exemplo desse morador de rua serve para subsidiar o argumento que o homem é mente e corpo qualquer implicação de um ou de outro compromete a existência humana.

Em todas as pandemias, de imediato, os sanitaristas propõem o isolamento social, foi assim com a Gripe Espanhola, a Peste Bubônica e a Lepra, agora, a Covid-19, porém, o amor e a fé têm vencido essas doenças em muitos casos. Na juventude, lembro-me de ter assistido ao filme “Bem-Hur”, Judah Bem-Hur, naquela época, interpretado por Charlton Heston e Messala seu irmão de criação e Dismas irmão de Esther. Afora as brigas políticas, o atentado de Dismas a Pilatos e a disputa das corridas de bigas, chamou-me a atenção a cura de Esther, seguidora de Jesus Cristo, ela e sua mãe são curadas da lepra pelo milagre da fé e o amor de Judah Bem-Hur.

As medidas de lockdown, isolamento e distanciamento socais contribuem, mas não são definitivas para erradicar a pandemia do coronavírus, da covid-19, ou, outras pandemias, enquanto não se resolve antes, os problemas psicológicos do indivíduo, ou seja, cuida-se da cabeça primeiro, depois, do resto do corpo.

A frase que “Ao lado de um grande homem, sempre há uma grande mulher” é significativa e aplica-se para ambos protagonistas, além de simplificar as condutas racionais e afetivas. A família é que dar todas as condições necessárias para o homem alcançar o sucesso pessoal e profissional. Ninguém alcançará o cume duma montanha sem a base, da mesma forma que ninguém fará sucesso pessoal e profissional se por detrás não tiver base familiar sólida.

A autoestima é o combustível da vida. Sem motivação, o objetivo e o apoio do cônjuge, dos filhos, parentes e aderentes, o homem é frágil e inseguro, sem os ingredientes da alma e do coração, o homem tenderá à depressão e ao fracasso.

A aceitação social e a aceitação familiar não podem dar lugar à rejeição. O morador de rua acima não é exceção é regra. Hoje, o mundo tem milhões de pessoas portadoras de carências afetivas crônicas, depressão, transtorno de ansiedade, obesidade, síndrome de Burnout, síndrome do pânico, etc. Com o advento da Internet, dos aplicativos, das redes sociais, dos dispositivos móveis, dos Smartphones, dos PDA, dos Notebooks e dos Netbooks, além da violência, o próximo é cada vez mais, menos próximo.


Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons

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