No
romance Os Demônios de Dostoiévski, Pyotr Verkhovensky surge como o protótipo
perfeito do revolucionário niilista: um manipulador frio que exige dos outros
uma pureza ideológica absoluta, uma submissão canina à causa, onde qualquer
desvio do dogma equivale a traição mortal. Para si, porém, reserva o privilégio
da exceção: chantagem, intriga psicológica, mentira sistemática e, quando
necessário, o assassinato como instrumento de higiene partidária. Retirem-se os
cadáveres, e Pyotr espelha com fidelidade desconcertante certo “intelectual” da
direita contemporânea brasileira: o mesmo que aplica ao nome Bolsonaro,
sobretudo a Flávio, o crivo mais estreito, o filtro mais impiedoso, exigindo
dele uma lisura de santo laico, enquanto engole camelos e elefantes inteiros
das velhas improbidades esquerdistas, com a indiferença de quem já se habituou
ao cheiro de enxofre.
Há
quem invoque, em defesa de Flávio, a metáfora da mulher de César: não basta ser
honesto, é preciso parecer honesto. Nada o incrimina de fato, salvo as
“manipulações psicológicas” que a ala hipócrita da direita limpinha agora entoa
com afinco de réquiem. São as mesmas vedetes que, diante do breu mais denso da
nossa história recente, exigem luz absoluta dos únicos fósforos que restam
acesos e perdoam, ou convenientemente esquecem, as trevas mais antigas e mais
vastas da política nacional.
Essas
figuras lembram irresistivelmente outra grande criação da literatura russa: a
Condessa Lídia Ivánovna, de Anna Karenina, obra de Tolstói. Espécie de arauto
da moralidade mundana, ela encarna a elite pseudo-religiosa e farisaica que se
arroga o direito de julgar e condenar. É ela quem lidera o boicote implacável
contra Anna, não pelo adultério em si, pecado que a alta sociedade moscovita
sabia muito bem dissimular, mas pelo escândalo de haver rompido o pacto do
fingimento.
Enquanto
as aparências se mantivessem, tudo era tolerável; quebrado o verniz, a
guilhotina social caía sem misericórdia.
A
analogia com Flávio é quase cruel de tão exata. Aconselhado a “parecer
honesto”, a pedir desculpas públicas por um pecado que nunca cometeu, ele é
instado a participar do teatro da contrição para aplacar os moralistas de
plantão. E assim, vemos todos os dias que o fogo amigo não cessa porque a
guilhotina moral está reservada, com zelo particular, à família Bolsonaro. E
está, porque o exemplo bruto, quase despudorado de tão original e humano (e
vital) de Jair expõe, desde sempre, a hipocrisia ossificada dos que se dizem
seus pares. Eles não perdoam nele a ausência de fingimento. Repito: eles não
perdoam nele a ausência de fingimento, essa virtude rara que, para os fariseus
de todas as épocas, é o verdadeiro pecado imperdoável.
Fonte: Professor Bellei (cronista político)
Foto: Produção

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