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5.13.2026

Uma nuvem inédita no céu de Nova York - Érico Veríssimo

Uma nuvem inédita no céu de Nova York

11 de setembro de 2001 (em Nova York)

Não havia uma nuvem no céu de Nova York pela manhã. Era um perfeito dia pré-outonal nesta cidade, que fica particularmente bem no outono, e nosso programa incluiria caminhada matinal pelo Central Park para comemorar o fim do calor e das chuvas que pegamos desde a nossa chegada, no domingo. Mas todos os planos e possivelmente todas as vidas do mundo mudaram em pouco mais de meia hora.

Antes das 9h, uma nuvem que ninguém poderia prever ou imaginar cobria a ponta sul da ilha de Manhattan, onde as torres ardiam. Uma nuvem que aumentou com a queda dos dois arranha-céus e ainda perdura no ar enquanto escrevo. Estamos longe do sul de Manhattan, e o que se vê nas ruas aqui por perto é apenas incredulidade, gente que mora fora da cidade se comunicando com suas casas, já que todas as saídas da ilha foram fechadas, e uma certa calma resignada, como se a tragédia fosse fenômeno natural — talvez porque as cenas que darão a verdadeira dimensão do horror, a dos mortos entre os escombros das torres destruídas, ainda não foram ao ar.

É difícil saber neste momento o que a nuvem inédita, cujo único precedente para os americanos é a fumaça que pairou sobre Pearl Harbor durante dias depois do ataque japonês, prenuncia. As TVs mostraram cenas de palestinos comemorando os atentados. Todas as especulações sobre sua autoria envolvem o fundamentalismo muçulmano, e o efeito mais direto do terror será, provavelmente, uma mudança radical do posicionamento americano no conflito entre judeus e palestinos, que tinha evoluído, na transição de Clinton para Bush, de envolvimento cauteloso para distanciamento cauteloso. Se as especulações estiverem certas, o distanciamento perdeu sentido: a guerra do Oriente Médio foi trazida, espetacularmente, para cá.

Os Estados Unidos passaram por duas guerras mundiais sem serem atacados, descontado o bombardeio do seu território havaiano. Com o fim do confronto com a União Soviética, e da própria União Soviética, acabou o pavor de uma guerra nuclear. Mas a nuvem cobrindo os destroços do World Trade Center não foi a única cena inédita deste dia do qual, confesso, eu estou esperando acordar a qualquer momento. Inédito também foi ver americanos e visitantes olhando para o céu ao ouvir ruídos de aviões, sem saber se são amigos ou inimigos.


Fonte: GLOBO

Foto: Google

 

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