Uma nuvem inédita no céu de
Nova York
11 de setembro de 2001 (em Nova York)
Não havia uma nuvem no céu de Nova York pela
manhã. Era um perfeito dia pré-outonal nesta cidade, que fica particularmente
bem no outono, e nosso programa incluiria caminhada matinal pelo Central Park
para comemorar o fim do calor e das chuvas que pegamos desde a nossa chegada,
no domingo. Mas todos os planos e possivelmente todas as vidas do mundo mudaram
em pouco mais de meia hora.
Antes das 9h, uma nuvem que ninguém poderia
prever ou imaginar cobria a ponta sul da ilha de Manhattan, onde as torres
ardiam. Uma nuvem que aumentou com a queda dos dois arranha-céus e ainda
perdura no ar enquanto escrevo. Estamos longe do sul de Manhattan, e o que se
vê nas ruas aqui por perto é apenas incredulidade, gente que mora fora da
cidade se comunicando com suas casas, já que todas as saídas da ilha foram
fechadas, e uma certa calma resignada, como se a tragédia fosse fenômeno
natural — talvez porque as cenas que darão a verdadeira dimensão do horror, a
dos mortos entre os escombros das torres destruídas, ainda não foram ao ar.
É difícil saber neste momento o que a nuvem
inédita, cujo único precedente para os americanos é a fumaça que pairou sobre
Pearl Harbor durante dias depois do ataque japonês, prenuncia. As TVs mostraram
cenas de palestinos comemorando os atentados. Todas as especulações sobre sua
autoria envolvem o fundamentalismo muçulmano, e o efeito mais direto do terror
será, provavelmente, uma mudança radical do posicionamento americano no
conflito entre judeus e palestinos, que tinha evoluído, na transição de Clinton
para Bush, de envolvimento cauteloso para distanciamento cauteloso. Se as
especulações estiverem certas, o distanciamento perdeu sentido: a guerra do
Oriente Médio foi trazida, espetacularmente, para cá.
Os Estados Unidos passaram por duas guerras
mundiais sem serem atacados, descontado o bombardeio do seu território
havaiano. Com o fim do confronto com a União Soviética, e da própria União
Soviética, acabou o pavor de uma guerra nuclear. Mas a nuvem cobrindo os
destroços do World Trade Center não foi a única cena inédita deste dia do qual,
confesso, eu estou esperando acordar a qualquer momento. Inédito também foi ver
americanos e visitantes olhando para o céu ao ouvir ruídos de aviões, sem saber
se são amigos ou inimigos.
Fonte: GLOBO
Foto: Google


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos