5.27.2026

ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA – ALITA PLÍNIO DE ALMEIDA


ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA – ALITA

PLÍNIO DE ALMEIDA

Patrono da Cadeira 13  

                                                                                                Por Ruy Póvoas[1]

 

          Este texto tem o propósito de apontar algumas informações sobre o Professor Plínio de Almeida. Não objetiva fazer uma análise do percurso estilístico, nem muito menos estabelecer um inventário sob o olhar da crítica literária. Antes, porém, um olhar espraiado sobre a trajetória do Patrono da Cadeira 13, da ALITA. Tal movimento é muito mais guiado pelo sentimento, por memórias indeléveis, por uma saudade empedernida. As demais possibilidades – que não são poucas – ficam à espera de estudiosos versados em tais abordagens.

Desde que o professor Flávio Simões Costa, de saudosa memória, publicou um alentado volume, intitulado Plínio de Almeida: obra reunida[2], pela Editus, em 2009, tudo o que a partir de então se cogite dizer sobre Plínio de Almeida terá de se espelhar naquela publicação.

          Pessoalmente, conheci Plínio de Almeida de perto, mas bem de perto mesmo. Fomos colegas de magistério durante anos no Colégio Divina Providência. E ainda posso perfeitamente me lembrar dos vários assuntos a que nos dávamos o direito de conversar. Era um tempo do governo militar. Vivíamos todos com um pé atrás. Por isso mesmo, a nossa conversa só acontecia quando todos do colégio saíam e ficávamos nós dois na diretoria do colégio, que era um espaço onde também funcionava a secretaria.

          O sofá vermelho era o nosso preferido e nele debatíamos conversas sobre cultura, principalmente sobre literatura. Lindaura Brandão, de vez em quando dava uma penada. Inúmeras vezes, Plínio e eu trocávamos textos de nossa produção. Muitas das opiniões de Plínio sobre poemas meus foram incorporadas ao meu primeiro livro, Vocabulário da paixão.

          Plínio era cronista, articulista, poeta, pintor, orador primoroso. Por causa de seu domínio sobre a oratória, ficou conhecido pelo cognome de Patativa grapiúna. Era sempre convidado para os eventos formais, atos inaugurais, festejos cívicos, situações em que sua palavra fazia todos se calarem para ouvi-lo.

          E foi no meio de um discurso que Plínio se foi, na antiga Loja Itarte, numa solenidade de inauguração da exposição de Cholo, um artista plástico peruano. Presenciei a partida do meu amigo que levou consigo pedaços de mim, mas deixou comigo fragmentos dele que até hoje me compõem.

          É fácil, muito fácil mesmo, recolher os principais dados biográficos de Plínio de Almeida no livro de Flávio Simões. Para além disso, a referida obra, conforme explicita o próprio título, apresenta a maioria da produção poética de Plínio. Ficava faltando, contudo, a produção em prosa.

          Recentemente, em conversa com a senhora Crystianne Almeida, uma das oito filhas de Plínio, residente em Salvador, curadora da obra de seu pai, fui informado do riquíssimo cabedal por ela preservado e zelado até hoje. Disse-me que possui mais de mil crônicas produzidas por Plínio, além de uma vasta hemeroteca com recortes de jornais em que o pai colaborava semanalmente.

          Disse-me mais e o que me disse, cito textualmente:

Professor, não tenho para quem deixar esse acervo. Apenas guardo e zelo, na esperança de que apareça alguém digno de tal tesouro. Olhe, o que eu guardo de fotos da época de meu pai, dos eventos dos quais ele participava é digno de apreço. Tem mais, Professor: há algum tempo, doei à Biblioteca Municipal de Itabuna, que tem o nome de meu pai, um acervo enorme de fotografias de nossa família e de lugares por onde meu pai andou. Não sei lhe dizer se conservaram, se ainda existe, ou não.

Posteriormente, recebi de Crystianne valiosa contribuição sobre Plínio de Almeida da qual constam dois volumes do livro ALMEIDA, Crystianne S. (Coord.). Fragmentos: Coletânea editada em comemoração ao centenário do nascimento de Plínio de Almeida (1904-2004). Salvador: Associação de Fomento à Cultura, 2005.

Junto aos dois exemplares a mim presenteados pela senhora Crystianne, outras raridades também compuseram a oferta: duas fotos de Plínio, uma outra foto de toda a família reunida, a segunda edição de uma palestra proferida por Plínio, intitulada As datas maiores de Santo Amaro. E mais uma página do jornal Tribuna do cacau, datada de 26 de setembro de 1975, em que o jornalista Charles Henri publicou uma crônica intitulada Ao mestre com carinho, texto laudatório, tendo por foco Plínio de Almeida.

Cumpre perguntar, porém, quem foi o cidadão Plínio de Almeida. No já citado livro de Flávio Simões, são apontadas várias datas e vários eventos vividos por Plínio. Julgo interessante, para a nossa confraria, saber de alguns dados sobre ele. É claro que o ato de o tomarmos por patrono de uma de nossas cadeiras, isso já diz do nosso reconhecimento dos valores do poeta, prosador, professor e orador que Plínio foi.

Plínio não nasceu grapiúna. Ele era natural de Santo Amaro, cidade do recôncavo baiano, em 9 de setembro de 1904. E já se vão 120 anos desde então. Lá viveu seus primeiros anos e lá estudou os primeiros cursos. Santo Amaro ficou pequeno para Plínio que já nasceu com asas destinadas a grandes voos. Partiu para a Europa a fim de se aprimorar em Belas Artes, curso no qual já era formado.

A Europa não pôde segurá-lo. Afinal, sua alma era genuinamente brasileira. Retornou para o Brasil e, em dezembro de 1927, casou-se com Etelvina e residiu em Jacobina. De tal união, nasceram 9 filhos: Cybele, Reynamor, Consuelo, Clycia, Cyntia, Cyane, Crystianne, Crysvalda e Cryzélia. Mudou-se depois, para Bonfim de Feira. Retornou a Santo Amaro e, finalmente, em 1951, fixou residência em Itabuna. Em 1959, fez parte do grupo de fundadores da Academia de Letras de Ilhéus, conforme consta em ata lavrada daquele acontecimento.

Até mesmo por obrigação de se fazer justiça, aqui transcrevo o que consta na publicação do Professor Flávio Simões, um sumário biográfico de Plínio de Almeida. A citação é longa, mas um fragmento dela vale a pena rever:

        Poeta, romancista, cronista, jornalista, folclorista, artista plástico e professor, Plínio Sérgio de Almeida nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Beco do Armazém, em 09 de Setembro de 1904, sendo filho de Manoel José de Almeida e de Hermínia Alexandrina de Almeida

         Concluiu os estudos primários na sua cidade natal e trabalhou no jornal A Tarde, no tempo de Simões Filho, e no Diário de Notícias, para depois ir morar no Rio de Janeiro, onde fez o curso livre da Escola Nacional de Belas Artes. Após o que foi à Europa, onde visitou vários países. Sobre esse assunto, ele mesmo afirma, em crônica publicada no Jornal do Município, de Santo Amaro, em 04 de setembro de 1936:

Estive na Espanha, atravessei toda a Itália, Lisboa, Coimbra e o Porto. Não tem segredo para mim Trivolli e Salerno. Conheci Vigo e Barcelona, estudei em Sevilha. Visitei Florença onde observei minuciosamente  a ponte sobre o rio Arno, na qual Dante, o sublime poeta, falou pela primeira vez à Beatriz. De Gênova fui a Turim, e de Turim botei-me a Milão, do alto da catedral vi o famigerado panorama da grande cidade trabalho.

De volta ao Brasil, Plínio visitou várias cidades do país realizando exposições e trabalhando na imprensa por onde passava. Há registos de opiniões da crítica e da imprensa de diversas cidades do país e de Portugal sobre sua obra e exposições. [...]

Plínio e eu nos conhecemos na antiga Faculdade de Filosofia de Itabuna e nos tornamos colegas e amigos no Colégio Divina Providência.

Amargamos juntos a vigência dos anos de chumbo do famigerado regime militar. O que nos fazia preservar a sanidade mental era o nosso fazer literário, o gosto pelas artes, o zelo pela língua culta, a história universal. Para sempre, comigo, os momentos em que Flávio Simões, que costumava adentrar o colégio cantando hinos católicos – fazia isso a título de ironia –, vinha juntar-se a Plínio e a mim, para nossas conversas particulares.

Vale também lembrar que Plínio e Flávio sempre tomaram gosto pelas lides políticas partidárias, caminhos pelos quais eu nunca quis trilhar. Eu era líder estudantil da FAFI e caí no olho da Polícia Federal. Minha vida foi vasculhada, minha correspondência aberta nos Correios e minha frágil e modestíssima conta bancária foi vasculhada. São fatos arquivados na minha memória, dos quais pouquíssimas pessoas tomaram conhecimento. Flávio ainda foi preso, mas Plínio sabia navegar nas nuvens.

Ele foi vereador, Presidente da Câmara Municipal de Itabuna, instituição que lhe concedeu o título de Cidadão Itabunense. Em 26 de setembro de 1975, em pleno discurso de inauguração das obras de Cholo, Plínio se foi. E do alto do seu patronato, para além de tudo isso, Plínio vive conosco, no coração da ALITA, regendo a Cadeira 13, na qual a Academia quis, um dia, que eu me sentasse nela.

17/11/24

ajalah@uol.com.br


[1] Ruy do Carmo Póvoas (1943), ilheense, fixado em Itabuna, licenciado em Letras (FAFI), Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), Doutor Honoris Causa (UESC). Em Itabuna,
fundou o Ilê Axé Ijexá, terreiro de candomblé de origem nagô, de nação Ijexá, no qual exerce a função de babalorixá.

              Sua produção escrita abrange o verso e a prosa. Tem publicado: Vocabulário da paixão, A linguagem do candomblé, Itan dos mais-velhos, Itan de boca a ouvido, A fala do santo, VersoREverso, Da porteira para fora, A memória do feminino no candomblé, Mejigã e o contexto da escravidão, Fazenda de contos, A viagem de Orixalá, Novos dizeres, Representações do escondido, Matéria acidentada, Oratório, A sombra no espelho, Dizeres esparsos, Confessionário, Dizeres do avesso, Dizeres avulsos, Outros dizeres, O risco e o laço, Perfis da resistência.

Fundador do Laboratório de Redação e do Núcleo de Estudos Afro-Baianos Regionais ─ Kàwé, da Universidade Estadual de Santa Cruz, do qual foi coordenador durante dezesseis anos, sendo editor do Jornal Tàkàdá, do Caderno Kàwé e da Revista Kàwé. Ocupa a cadeira 18 da Academia de Letras de Ilhéus e é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna.

ajalah@uol.com.br

[2] COSTA, Flávio José Simões (Org.). Obra reunida. Ilhéus: Editus, 2009.

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