PLÍNIO DE ALMEIDA
Patrono da Cadeira 13
Por Ruy Póvoas[1]
Este
texto tem o propósito de apontar algumas informações sobre o Professor Plínio
de Almeida. Não objetiva fazer uma análise do percurso estilístico, nem muito
menos estabelecer um inventário sob o olhar da crítica literária. Antes, porém,
um olhar espraiado sobre a trajetória do Patrono da Cadeira 13, da ALITA. Tal
movimento é muito mais guiado pelo sentimento, por memórias indeléveis, por uma
saudade empedernida. As demais possibilidades – que não são poucas – ficam à
espera de estudiosos versados em tais abordagens.
Desde
que o professor Flávio Simões Costa, de saudosa memória, publicou um alentado
volume, intitulado Plínio de Almeida: obra reunida[2],
pela Editus, em 2009, tudo o que a partir de então se cogite dizer sobre Plínio
de Almeida terá de se espelhar naquela publicação.
Pessoalmente,
conheci Plínio de Almeida de perto, mas bem de perto mesmo. Fomos colegas de
magistério durante anos no Colégio Divina Providência. E ainda posso
perfeitamente me lembrar dos vários assuntos a que nos dávamos o direito de
conversar. Era um tempo do governo militar. Vivíamos todos com um pé atrás. Por
isso mesmo, a nossa conversa só acontecia quando todos do colégio saíam e
ficávamos nós dois na diretoria do colégio, que era um espaço onde também
funcionava a secretaria.
O
sofá vermelho era o nosso preferido e nele debatíamos conversas sobre cultura,
principalmente sobre literatura. Lindaura Brandão, de vez em quando dava uma
penada. Inúmeras vezes, Plínio e eu trocávamos textos de nossa produção. Muitas
das opiniões de Plínio sobre poemas meus foram incorporadas ao meu primeiro
livro, Vocabulário da paixão.
Plínio
era cronista, articulista, poeta, pintor, orador primoroso. Por causa de seu
domínio sobre a oratória, ficou conhecido pelo cognome de Patativa grapiúna.
Era sempre convidado para os eventos formais, atos inaugurais, festejos
cívicos, situações em que sua palavra fazia todos se calarem para ouvi-lo.
E
foi no meio de um discurso que Plínio se foi, na antiga Loja Itarte,
numa solenidade de inauguração da exposição de Cholo, um artista plástico
peruano. Presenciei a partida do meu amigo que levou consigo pedaços de mim,
mas deixou comigo fragmentos dele que até hoje me compõem.
É
fácil, muito fácil mesmo, recolher os principais dados biográficos de Plínio de
Almeida no livro de Flávio Simões. Para além disso, a referida obra, conforme
explicita o próprio título, apresenta a maioria da produção poética de Plínio.
Ficava faltando, contudo, a produção em prosa.
Recentemente,
em conversa com a senhora Crystianne Almeida, uma das oito filhas de Plínio,
residente em Salvador, curadora da obra de seu pai, fui informado do riquíssimo
cabedal por ela preservado e zelado até hoje. Disse-me que possui mais de mil
crônicas produzidas por Plínio, além de uma vasta hemeroteca com recortes de
jornais em que o pai colaborava semanalmente.
Disse-me mais e o que me disse, cito textualmente:
Professor, não tenho para quem deixar esse acervo. Apenas guardo e zelo, na esperança de que apareça alguém digno de tal tesouro. Olhe, o que eu guardo de fotos da época de meu pai, dos eventos dos quais ele participava é digno de apreço. Tem mais, Professor: há algum tempo, doei à Biblioteca Municipal de Itabuna, que tem o nome de meu pai, um acervo enorme de fotografias de nossa família e de lugares por onde meu pai andou. Não sei lhe dizer se conservaram, se ainda existe, ou não.
Posteriormente, recebi
de Crystianne valiosa contribuição sobre Plínio de Almeida da qual constam dois
volumes do livro ALMEIDA, Crystianne S. (Coord.). Fragmentos: Coletânea
editada em comemoração ao centenário do nascimento de Plínio de Almeida
(1904-2004). Salvador: Associação de Fomento à Cultura, 2005.
Junto aos dois
exemplares a mim presenteados pela senhora Crystianne, outras raridades também
compuseram a oferta: duas fotos de Plínio, uma outra foto de toda a família
reunida, a segunda edição de uma palestra proferida por Plínio, intitulada As
datas maiores de Santo Amaro. E mais uma página do jornal Tribuna do
cacau, datada de 26 de setembro de 1975, em que o jornalista Charles Henri
publicou uma crônica intitulada Ao mestre com carinho, texto laudatório,
tendo por foco Plínio de Almeida.
Cumpre
perguntar, porém, quem foi o cidadão Plínio de Almeida. No já citado livro de
Flávio Simões, são apontadas várias datas e vários eventos vividos por Plínio.
Julgo interessante, para a nossa confraria, saber de alguns dados sobre ele. É
claro que o ato de o tomarmos por patrono de uma de nossas cadeiras, isso já
diz do nosso reconhecimento dos valores do poeta, prosador, professor e orador
que Plínio foi.
Plínio
não nasceu grapiúna. Ele era natural de Santo Amaro, cidade do recôncavo
baiano, em 9 de setembro de 1904. E já se vão 120 anos desde então. Lá viveu
seus primeiros anos e lá estudou os primeiros cursos. Santo Amaro ficou pequeno
para Plínio que já nasceu com asas destinadas a grandes voos. Partiu para a
Europa a fim de se aprimorar em Belas Artes, curso no qual já era formado.
A
Europa não pôde segurá-lo. Afinal, sua alma era genuinamente brasileira.
Retornou para o Brasil e, em dezembro de 1927, casou-se com Etelvina e residiu
em Jacobina. De tal união, nasceram 9 filhos: Cybele, Reynamor, Consuelo,
Clycia, Cyntia, Cyane, Crystianne, Crysvalda e Cryzélia. Mudou-se depois, para
Bonfim de Feira. Retornou a Santo Amaro e, finalmente, em 1951, fixou
residência em Itabuna. Em 1959, fez parte do grupo de fundadores da Academia de
Letras de Ilhéus, conforme consta em ata lavrada daquele acontecimento.
Até mesmo por obrigação de se fazer justiça, aqui transcrevo o que consta na publicação do Professor Flávio Simões, um sumário biográfico de Plínio de Almeida. A citação é longa, mas um fragmento dela vale a pena rever:
Poeta,
romancista, cronista, jornalista, folclorista, artista plástico e professor,
Plínio Sérgio de Almeida nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Beco do
Armazém, em 09 de Setembro de 1904, sendo filho de Manoel José de Almeida e de
Hermínia Alexandrina de Almeida
Concluiu os estudos primários na sua cidade natal e trabalhou no jornal A Tarde, no tempo de Simões Filho, e no Diário de Notícias, para depois ir morar no Rio de Janeiro, onde fez o curso livre da Escola Nacional de Belas Artes. Após o que foi à Europa, onde visitou vários países. Sobre esse assunto, ele mesmo afirma, em crônica publicada no Jornal do Município, de Santo Amaro, em 04 de setembro de 1936:
Estive na Espanha, atravessei toda a Itália, Lisboa, Coimbra e o Porto. Não tem segredo para mim Trivolli e Salerno. Conheci Vigo e Barcelona, estudei em Sevilha. Visitei Florença onde observei minuciosamente a ponte sobre o rio Arno, na qual Dante, o sublime poeta, falou pela primeira vez à Beatriz. De Gênova fui a Turim, e de Turim botei-me a Milão, do alto da catedral vi o famigerado panorama da grande cidade trabalho.
De volta ao Brasil, Plínio visitou várias cidades do país realizando exposições e trabalhando na imprensa por onde passava. Há registos de opiniões da crítica e da imprensa de diversas cidades do país e de Portugal sobre sua obra e exposições. [...]
Plínio
e eu nos conhecemos na antiga Faculdade de Filosofia de Itabuna e nos tornamos
colegas e amigos no Colégio Divina Providência.
Amargamos
juntos a vigência dos anos de chumbo do famigerado regime militar. O que nos
fazia preservar a sanidade mental era o nosso fazer literário, o gosto pelas
artes, o zelo pela língua culta, a história universal. Para sempre, comigo, os
momentos em que Flávio Simões, que costumava adentrar o colégio cantando hinos
católicos – fazia isso a título de ironia –, vinha juntar-se a Plínio e a mim,
para nossas conversas particulares.
Vale
também lembrar que Plínio e Flávio sempre tomaram gosto pelas lides políticas
partidárias, caminhos pelos quais eu nunca quis trilhar. Eu era líder
estudantil da FAFI e caí no olho da Polícia Federal. Minha vida foi vasculhada,
minha correspondência aberta nos Correios e minha frágil e modestíssima conta
bancária foi vasculhada. São fatos arquivados na minha memória, dos quais
pouquíssimas pessoas tomaram conhecimento. Flávio ainda foi preso, mas Plínio
sabia navegar nas nuvens.
Ele
foi vereador, Presidente da Câmara Municipal de Itabuna, instituição que lhe
concedeu o título de Cidadão Itabunense. Em 26 de setembro de 1975, em pleno
discurso de inauguração das obras de Cholo, Plínio se foi. E do alto do seu
patronato, para além de tudo isso, Plínio vive conosco, no coração da ALITA,
regendo a Cadeira 13, na qual a Academia quis, um dia, que eu me sentasse nela.
17/11/24
ajalah@uol.com.br
[1]
Ruy do Carmo Póvoas (1943), ilheense, fixado em Itabuna, licenciado em
Letras (FAFI), Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), Doutor Honoris Causa (UESC).
Em Itabuna,
fundou o Ilê Axé Ijexá, terreiro de candomblé de origem nagô, de
nação Ijexá, no qual exerce a função de babalorixá.
Fundador
do Laboratório de Redação e do Núcleo de Estudos Afro-Baianos Regionais ─ Kàwé,
da Universidade Estadual de Santa Cruz, do qual foi coordenador durante
dezesseis anos, sendo editor do Jornal Tàkàdá, do Caderno Kàwé e
da Revista Kàwé. Ocupa a cadeira 18 da Academia de Letras de Ilhéus e é
membro fundador da Academia de Letras de Itabuna.
[2] COSTA, Flávio José Simões (Org.). Obra
reunida. Ilhéus: Editus, 2009.


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