5.15.2026

A Forma do Inevitável - Agilson Cerqueira

 


A Forma do Inevitável

Agilson Cerqueira


Há uma violência silenciosa na natureza das coisas. Não a violência do grito ou do choque imediato, mas aquela que se instala devagar, como o desgaste da água sobre a pedra, como o tempo que consome sem pedir licença. Tudo parece obedecer a uma ordem antiga, inevitável, anterior ao próprio entendimento humano. A vida avança enquanto desfaz a si mesma, e cada criatura carrega no corpo a memória de sua luta para permanecer.


O mundo não está ancorado na delicadeza. Sob a beleza das paisagens, sob o canto das aves e o movimento tranquilo das folhas ao vento, existe uma engrenagem invisível feita de fome, medo, defesa e sobrevivência. A natureza cria enquanto destrói; alimenta enquanto exige sacrifícios. Nada nela é completamente inocente. Até a luz do amanhecer nasce da dissolução da noite.


O homem observa tudo isso como quem tenta compreender o próprio reflexo. Porque também nele habitam os instintos primitivos, os impulsos contraditórios, a necessidade de continuar apesar das perdas. Há dias em que o ser humano se acredita distante da brutalidade do mundo natural, protegido por suas cidades, suas palavras e suas invenções. Mas basta o silêncio certo para perceber que ainda carrega dentro de si a mesma matéria inquieta das tempestades e dos animais feridos.


O inevitável não chega apenas como tragédia. Às vezes, manifesta-se na transformação lenta das coisas: no corpo que envelhece, nas relações que mudam, nos sonhos que precisam morrer para que outros possam nascer. A existência parece construída sobre despedidas contínuas, mesmo quando insistimos em chamar certos momentos de permanência.


Ainda assim, há algo profundamente belo nessa condição transitória. Talvez porque a fragilidade torne tudo mais intenso. Talvez porque a consciência da perda ensine o valor da presença. Cada instante vivido torna-se raro justamente porque não pode ser retido. Cada afeto ganha profundidade porque está ameaçado pelo tempo.


E assim seguimos: criaturas frágeis tentando encontrar sentido dentro de uma ordem que não se explica completamente. Caminhamos entre ruínas e flores, entre esperança e desgaste, sustentados por uma espécie de coragem silenciosa. No fundo, viver talvez seja isso — aprender a contemplar o inevitável sem deixar que ele nos roube a capacidade de sentir encanto diante da existência.

Agilson Cerqueira
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 
Licença: Creative Commons



Um comentário:

  1. Estimado Agilson, sua reflexão é uma realidade insofismável, existe uma cumplicidade entre a vida e o desgaste natural da matéria. Enquanto a vida avança, o tempo "destrói" o que é natural. Parabéns pela reflexão da vida e das coisas. Irei transferir para o WhatsApp da ALITA.

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