Do Ofício de Entender o Nada
Agilson Cerqueira
Há um instante em que a manhã se abre sem pedir licença. A luz atravessa a noite com a naturalidade dos fenômenos que ignoram a vontade humana. O dia não nasce para mim.
Nasce porque o universo não interrompe seus movimentos.
Aprendi a olhar esse amanhecer sem promessas. Não por rebeldia, mas por convicção. Há uma serenidade difícil em admitir que a existência não exige um propósito para justificar-se.Vejo apenas a matéria em sua longa travessia.
O que hoje chamo de eu não passa de uma organização temporária do universo. Minha pele, meus ossos, meu sangue e meus pensamentos são o resultado de uma cadeia quase inimaginável de acontecimentos. Antes da vida, havia estrelas. Antes das estrelas, a expansão do espaço. Depois vieram os elementos, os planetas, a química, as mutações e a lenta insistência da evolução. Nada foi escrito para que eu existisse. Ainda assim, existo.
Mas toda resposta produz uma dúvida maior.
Quanto mais compreendo os mecanismos da realidade, mais se desfaz a ilusão das certezas. O universo não responde às perguntas humanas. Permanece silencioso, indiferente e imenso. Somos nós que atribuímos significado ao que talvez nunca tenha precisado de significado.
É nesse ponto que o nada começa.
Não como vazio absoluto, mas como a ausência das explicações que confortam. O nada é o território onde desaparecem as verdades definitivas. É nele que a consciência perde os apoios e descobre que pensar também é aceitar os próprios limites.
Entender o nada talvez seja reconhecer que a vida não foi construída para satisfazer expectativas humanas. Ela apenas acontece. Floresce, transforma-se e desaparece. A matéria não lamenta aquilo que deixa de ser; apenas reorganiza suas formas.
Também nós seguimos essa lei.
Vivemos alguns instantes entre dois silêncios cósmicos. O primeiro antecede nosso nascimento. O segundo sobreviverá à nossa ausência. Entre ambos, chamamos de vida essa breve oportunidade de observar o universo e de sermos observados apenas pela nossa própria consciência.
Talvez a verdadeira grandeza do ser humano não esteja em encontrar respostas, mas em continuar perguntando. Não porque espera vencer o mistério, mas porque a dúvida é a forma mais elevada da lucidez.
Quando a manhã retorna, já não procuro sinais sobrenaturais. Basta-me a luz atravessando as folhas, o vento movendo o que é passageiro e a certeza de que também sou movimento. Um acontecimento improvável da matéria, destinado a desaparecer, mas capaz de compreender, ainda que por um breve instante, a extraordinária beleza de existir sem explicações.
E talvez seja exatamente isso o que chamamos de liberdade: caminhar em direção ao desconhecido sem inventar certeza para diminuir sua imensidão.
Agilson Cerqueira
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.
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