ITABUNA
Diante de teus alaridos,
me silencio.
Face a teus silêncios,
me viro pelo avesso.
Quando te calam,
enfrento com escarcéu.
Abrandas-me desencontros
comigo mesmo.
Açulas-me quando emudeço.
Sem meu pedido,
construíste para mim
afetos e amores
em montes e montanhas
de bem querer.
Sempre tens tempo
para ler meus versos
e me dizer coisas
que brotam do fundo
de tua alma meio agreste,
meio menina ou garotão,
mas rejeitas as marcas
de tua senectude.
Até hoje, me tratas
igualmente ao início,
quando apenas me abraçaste,
sem perguntas
e me acolheste no teu seio.
E para sempre,
te guardei no centro
de meus anseios.
E ainda achando pouco,
já me ofereceste
a última morada.
Do fundo de meu silêncio,
afirmo com toda força:
Te levarei para sempre,
comigo,
com teu Cachoeira e unas,
terra querida, Itabuna.
Ruy do Carmo Póvoas
Fundador e liderança do Ilê Axé
Ijexá Orixá Olufon em Itabuna - BA. Licenciado em Letras (FAFI), Mestre em
Letras Vernáculas (UFRJ), Doutor Honoris Causa (UESC). Escritor com vasta
produção em verso e prosa. Fundador do NEAB da UESC. Editor do Jornal Tàkàdá,
do Caderno e Revista Kàwé. Sua produção escrita abrange o verso e a prosa. Tem
publicado: Vocabulário da paixão, A linguagem do candomblé, Itan dos
mais-velhos, Itan de boca a ouvido, A fala do santo, VersoREverso, Da porteira
para fora, A memória do feminino no candomblé, Mejigã e o contexto da
escravidão, Fazenda de contos, A viagem de Orixalá, Novos dizeres,
Representações do escondido, Matéria acidentada, Oratório, A sombra no espelho,
Dizeres esparsos, Confessionário, Dizeres do avesso e, agora, Perfis da
resistência. Na Academia de Letras de Itabuna, ocupa a Cadeira 13, cujo patrono é Plínio de
Almeida.
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