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2.17.2026

No Tempo do Zé Pereira - Cyro de Mattos

 No Tempo do Zé Pereira

Cyro de Mattos

       Foi nessa viagem gasta de alegria na avenida que conheci a festa mais popular de Salvador. Aquele grande alvoroço tive nos dias que eram apenas um cenário colorido de euforia. Confete,  serpentina, lança-perfume só para alegrar. Carros alegóricos, batucadas, caretas.  Lindo marujo, de lá para cá, percebeste que sobre outra onda foi rolar o mundo. Na orla nunca soubeste por que tudo haveria de acontecer sem agitação um dia, desligado do corpo daquele jovem inquieto, que de uns tempos para cá foi recolhido cansado nos braços de um idoso. E, assim, sem cores e sons, o folião aposentado foi i sendo  levado, em silêncio, nas marés da nostalgia.  

      Em Itabuna, antigamente os vizinhos costumavam colocar cadeiras no passeio para desfiarem um dedo de prosa. Esse costume servia para que estreitassem os laços de amizade, distraindo assim a mente cansada dos afazeres diários. Com a lua clara prosseguia a conversa animada entre os vizinhos, geralmente em torno de um assunto interessante ligado à cidade, até quando fosse chegada a hora de se recolherem no sono que descansava e reconfortava. Numa dessas conversas entre vizinhos, eu escutei seu Zeca, o dono da farmácia, dizer a meu pai que o começo do carnaval em minha cidade remontava ao ano de 1908. A festa naqueles idos era conhecida como “Domingo do Entrudo”.

       Escutei também o dono da farmácia dizer que no começo os bailes carnavalescos eram realizados no armazém da rua do comércio ou no Cine Odeon. Com a inauguração do primeiro clube, em 1940, os bailes mudariam de cenário. Durante quatro noites e duas matinês, foliões adultos e pequenos seriam ser acolhidos agora nos salões de um clube. Ao lado do carnaval nas ruas, a folia passava a contagiar no clube os blocos formados por senhores e senhoras, rapazes e moças da elite. De bigode retorcido nas pontas, de braço dado com as esposas, esses senhores sisudos davam voltas contínuas no salão. Bem entusiasmados não paravam de cantar as marchinhas “Linda Lourinha”, “Pirata da Perna de Pau”, “As Pastorinhas”, “Touradas em Madri”, “Alá-lá-ô” e tantas outras que ficaram famosas em nosso cancioneiro popular.

     O carnaval de ontem era o da musa colombina, pierrô apaixonado, arlequim sonhador, palhaços que não paravam de brincar e soltar piadas para as moças. Era o carnaval dos quadros satíricos em que não faltavam fantasias e brincadeiras bobas. Era comum a sátira ser usada por blocos e cordões. 

      Pessoas de minha cidade, que pertencem a uma geração mais velha, tem saudade do carnaval daquele tempo. Uma dessas pessoas é seu Sessa. Funcionário Aposentado do Banco do Brasil, outrora folião dos mais animados, disse certa vez que nunca vai se esquecer daquele palhaço engraçado e da pastorinha enamorada. Daquele palhaço de calças folgadas e nariz de limão, que não parava de pular e soltar piadas no salão quando a orquestra fazia uma pausa para que os foliões descansassem um pouco. 

      Seu Dantinha, um home, de estatura baixa, que organizava as quermesses na época do Natal, aproveitava um assunto de repercussão no ano e elegia como tema para satirizar a autoridade que havia escondido no bolso o dinheiro do município. Usava um calção como se fosse uma grande fralda, a chupeta pendurada no pescoço, na cabeça o gorro de um bebê. Sustentava o cartaz com a caricatura do político alvo da sátira, no qual  tinha estes  dizeres com letras graúdas: COMEU A MERENDA DOS MENINOS AINDA QUERIA MAIS PRA AQUETAR A FOME BRABA. Sorridente  desfilava na avenida com o bloco “Mamãe Quero Mamar”, do qual era o presidente de honra.  

      Já vai longe o tempo em que o carnaval começava cedo, aos sábados.    

     Vestindo calça listrada, sem camisa, usando cartola e fraque, o Zé Pereira aparecia em frente aos armazéns e lojas,  com meninos sujos e afoitos atrás.  Ordenava aos comerciantes que fechassem suas portas, a folia vai tomar conta da cidade, até as pedras do calçamento na rua não vão parar  de pular e cantar.

     Em frente do estabelecimento comercial batia o bombo sem parar. O Zé Pereira repetia a ordem a todo pulmão: 

          - É pra já!   


Autor: Cyro de Mattos

Imagem: Google







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