Cyro de Mattos
Foi nessa viagem gasta de alegria na avenida
que conheci a festa mais popular de Salvador. Aquele grande alvoroço tive nos
dias que eram apenas um cenário colorido de euforia. Confete, serpentina,
lança-perfume só para alegrar. Carros alegóricos, batucadas, caretas.
Lindo marujo, de lá para cá, percebeste que sobre outra onda foi rolar o mundo.
Na orla nunca soubeste por que tudo haveria de acontecer sem agitação um dia,
desligado do corpo daquele jovem inquieto, que de uns tempos para cá foi recolhido
cansado nos braços de um idoso. E, assim, sem cores e sons, o folião aposentado
foi i sendo levado, em silêncio, nas marés da nostalgia.
Em
Itabuna, antigamente os vizinhos costumavam colocar cadeiras no passeio para
desfiarem um dedo de prosa. Esse costume servia para que estreitassem os laços
de amizade, distraindo assim a mente cansada dos afazeres diários. Com a lua
clara prosseguia a conversa animada entre os vizinhos, geralmente em torno de
um assunto interessante ligado à cidade, até quando fosse chegada a hora de se
recolherem no sono que descansava e reconfortava. Numa dessas conversas entre
vizinhos, eu escutei seu Zeca, o dono da farmácia, dizer a meu pai que o começo
do carnaval em minha cidade remontava ao ano de 1908. A festa naqueles idos era
conhecida como “Domingo do Entrudo”.
Escutei
também o dono da farmácia dizer que no começo os bailes carnavalescos eram
realizados no armazém da rua do comércio ou no Cine Odeon. Com a inauguração do
primeiro clube, em 1940, os bailes mudariam de cenário. Durante quatro noites e
duas matinês, foliões adultos e pequenos seriam ser acolhidos agora nos salões
de um clube. Ao lado do carnaval nas ruas, a folia passava a contagiar no clube
os blocos formados por senhores e senhoras, rapazes e moças da elite. De bigode
retorcido nas pontas, de braço dado com as esposas, esses senhores sisudos
davam voltas contínuas no salão. Bem entusiasmados não paravam de cantar as
marchinhas “Linda Lourinha”, “Pirata da Perna de Pau”, “As Pastorinhas”, “Touradas
em Madri”, “Alá-lá-ô” e tantas outras que ficaram famosas em nosso cancioneiro
popular.
O carnaval de ontem era o da musa
colombina, pierrô apaixonado, arlequim sonhador, palhaços que não paravam de
brincar e soltar piadas para as moças. Era o carnaval dos quadros satíricos em
que não faltavam fantasias e brincadeiras bobas. Era comum a sátira ser usada
por blocos e cordões.
Pessoas
de minha cidade, que pertencem a uma geração mais velha, tem saudade do
carnaval daquele tempo. Uma dessas pessoas é seu Sessa. Funcionário Aposentado
do Banco do Brasil, outrora folião dos mais animados, disse certa vez que nunca
vai se esquecer daquele palhaço engraçado e da pastorinha enamorada. Daquele
palhaço de calças folgadas e nariz de limão, que não parava de pular e soltar
piadas no salão quando a orquestra fazia uma pausa para que os foliões
descansassem um pouco.
Seu
Dantinha, um home, de estatura baixa, que organizava as quermesses na época do
Natal, aproveitava um assunto de repercussão no ano e elegia como tema para
satirizar a autoridade que havia escondido no bolso o dinheiro do município.
Usava um calção como se fosse uma grande fralda, a chupeta pendurada no
pescoço, na cabeça o gorro de um bebê. Sustentava o cartaz com a caricatura do político
alvo da sátira, no qual tinha estes dizeres com letras graúdas:
COMEU A MERENDA DOS MENINOS AINDA QUERIA MAIS PRA AQUETAR A FOME BRABA.
Sorridente desfilava na avenida com o bloco “Mamãe Quero Mamar”, do qual
era o presidente de honra.
Já vai longe o tempo em que o carnaval
começava cedo, aos sábados.
Vestindo calça listrada, sem camisa,
usando cartola e fraque, o Zé Pereira aparecia em frente aos armazéns e
lojas, com meninos sujos e afoitos atrás. Ordenava aos comerciantes
que fechassem suas portas, a folia vai tomar conta da cidade, até as pedras do
calçamento na rua não vão parar de pular e cantar.
Em frente do estabelecimento comercial
batia o bombo sem parar. O Zé Pereira repetia a ordem a todo pulmão:
-
É pra já!
Autor: Cyro de Mattos
Imagem: Google

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