Conversa
sobre Vidas secas
Uma palestra com Graciliano Ramos — O sertanejo da zona árida — O homem no seu habitat
Rio,
14 — Graciliano Ramos recebe-nos às nove horas da noite, em sua residência, dos
lados de Bento Lisboa. Nós lhe havíamos pedido uma entrevista sobre o seu
último livro, Vidas secas, que aparecerá dentro de poucos dias em edição de
José Olympio, e o romancista de S. Bernardo, com a simplicidade de seu
trato, se dispõe a falar. Estamos numa pequena sala de jantar, por onde
entra, de vez em quando, uma leve viração, amenizando o mormaço da noite
carioca.
Graciliano
tem uma certa dureza no olhar, dureza que logo se desfaz no sorriso de
franqueza e simpatia com que o romancista entremeia, a todo momento, a palestra
Um
mundo com cinco personagens
—
Vidas secas será um romance?
—
Sim, um romance, mas um romance cujos capítulos podem ser considerados
destacadamente como contos, tal a maneira por que nele se desenvolvem e
encontram o seu desfecho e uma determinada situação. Publiquei vários capítulos
de Vidas secas, aqui e na Argentina, e todo mundo os considerou como narrativas
independentes. O livro tem, entretanto, uma unidade e o entrelaçamento de
todos esses capítulos forma a tessitura perfeita de um romance.
—
Por que Vidas secas?
—
Acha o título um tanto estranho, não? São as vidas dos sertanejos nordestinos,
existência miserável de trabalho, de luta, sob o guante da natureza implacável
e da injustiça humana.
—
Qual o ambiente do romance?
—
O de uma cozinha de fazenda velha na zona árida do sertão. Apenas cinco
personagens evoluem no livro: um homem, uma mulher, dois meninos e uma
cachorrinha. Com essa comparsaria limitadíssima, criei o meu mundo. Aliás, não
se trata de um romance de ambiente, como geralmente costumam fazer os
escritores nordestinos e os regionalistas em geral. Eles se preocupam apenas
com a paisagem, a pintura do meio, colocando os personagens em situação muito
convencional. Não estudam, propriamente, a alma do sertanejo. Limitam-se a
emprestar-lhe sentimentos e maneiras da gente da cidade, fazendo-os falar uma
língua que não é absolutamente o linguajar desses seres broncos e primários. O
estudo da alma do sertanejo, do Norte ou do Sul, ainda está por fazer em nossa
literatura regionalista. Quem ler os romances regionalistas brasileiros faz uma
ideia muito diversa do que seja o homem do mato. A falsidade e o
convencionalismo são berrantes. Quer que eu os acuse num detalhe apenas? O
sertanejo nordestino aparece na literatura como um tagarela, fazendo imagens
arrevesadas e desmesurando-se numa loquacidade extraordinária. Pois nada mais
postiço: o sertanejo daquelas bandas é de pouquíssimo falar. Sisudo e
macambúzio, ele vive quase sempre fechado consigo mesmo, sendo difícil
arrancar-lhe uma prosa.
Pesquisando
a alma do primário
—
O romance passa-se na zona árida do sertão?
—
Sim, mas não me preocupo em pintar o meio. O que me interessa é o homem, o
homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo
aparece na literatura. Os romancistas do Nordeste têm pintado geralmente o
homem da zona do brejo. É o sertanejo que aparece na obra de José Américo e
Zé Lins. Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na
zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o
mundo exterior, isto é, a hostilidade do mundo físico e da injustiça humana.
Por pouco que o selvagem pense — e os meus personagens são quase selvagens — o
que ele pensa merece anotação. Foi essa pesquisa psicológica que procurei
fazer, pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer,
porque comumente não conhecem o sertão, não são familiares do ambiente que
descrevem.
—
E o senhor esteve muito tempo nessa região?
—
Nasci na zona árida, numa velha fazenda, e ali passei quase toda a minha
infância, convivendo com o sertanejo. Fui depois para a cidade estudar e mais
tarde diversas vezes visitei o meu recanto natal, bem como outras paragens do
sertão nordestino. Os meus personagens não são inventados. Eles vivem em minhas
reminiscências, com suas maneiras bruscas, seu rosto vincado pela miséria e
pelo sofrimento.
—
Quer dizer que o senhor aplicou o princípio que Jacques de Lacretelle julga
básico para o romancista: inventar com o auxílio da memória?
—
Isso mesmo. Acho que ainda não descobrimos a alma do nosso primário e que o
regionalismo, contra o qual se tem erguido uma certa grita, ultimamente, é
coisa que ainda está por fazer. Os sertanejos aparecem sempre transplantados
para outro meio e nunca no seu “habitat”. O que procurei fazer foi mostrar o
homem no seu ambiente, vivendo a sua vida e falando a sua língua. É um livro
amargo, duro, ríspido, mas verdadeiro, profundamente verdadeiro…
E,
nessa altura, Graciliano desvia a palestra para outro assunto, achando talvez,
na sua modéstia excessiva, que já falara demais sobre o seu livro. O calor da
noite carioca continua cada vez mais abafado. E, na pequena sala onde nos
encontramos, Graciliano, no seu falar simples e no seu rosto vincado, onde se
vê o sinal de uma vida que não tem sido de sorrisos e amenidades — a áspera
vida do intelectual no Brasil — é bem o tipo do sertanejo do Nordeste, o homem
da zona árida, o beduíno do deserto brasileiro, mal-aclimatado neste recanto da
terra carioca.
Do livro Conversas, de Graciliano Ramos. Organização de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 66-72.
Fonte: Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla.
Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 66-72.


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