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2.18.2026

Conversa sobre Vidas secas - Graciliano Ramos

                                                         

              Conversa sobre Vidas secas

Uma palestra com Graciliano Ramos — O sertanejo da zona árida — O homem no seu habitat

Rio, 14 — Graciliano Ramos recebe-nos às nove horas da noite, em sua residência, dos lados de Bento Lisboa. Nós lhe havíamos pedido uma entrevista sobre o seu último livro, Vidas secas, que aparecerá dentro de poucos dias em edição de José Olympio, e o romancista de S. Bernardo, com a simplicidade de seu trato, se dispõe a falar. Estamos numa pequena sala de jantar, por onde entra, de vez em quando, uma leve viração, amenizando o mormaço da noite carioca.

Graciliano tem uma certa dureza no olhar, dureza que logo se desfaz no sorriso de franqueza e simpatia com que o romancista entremeia, a todo momento, a palestra

Um mundo com cinco personagens

— Vidas secas será um romance?

— Sim, um romance, mas um romance cujos capítulos podem ser considerados destacadamente como contos, tal a maneira por que nele se desenvolvem e encontram o seu desfecho e uma determinada situação. Publiquei vários capítulos de Vidas secas, aqui e na Argentina, e todo mundo os considerou como narrativas independentes. O livro tem, entretanto, uma unidade e o entrelaçamento de todos esses capítulos forma a tessitura perfeita de um romance.

— Por que Vidas secas?

— Acha o título um tanto estranho, não? São as vidas dos sertanejos nordestinos, existência miserável de trabalho, de luta, sob o guante da natureza implacável e da injustiça humana.

— Qual o ambiente do romance?

— O de uma cozinha de fazenda velha na zona árida do sertão. Apenas cinco personagens evoluem no livro: um homem, uma mulher, dois meninos e uma cachorrinha. Com essa comparsaria limitadíssima, criei o meu mundo. Aliás, não se trata de um romance de ambiente, como geralmente costumam fazer os escritores nordestinos e os regionalistas em geral. Eles se preocupam apenas com a paisagem, a pintura do meio, colocando os personagens em situação muito convencional. Não estudam, propriamente, a alma do sertanejo. Limitam-se a emprestar-lhe sentimentos e maneiras da gente da cidade, fazendo-os falar uma língua que não é absolutamente o linguajar desses seres broncos e primários. O estudo da alma do sertanejo, do Norte ou do Sul, ainda está por fazer em nossa literatura regionalista. Quem ler os romances regionalistas brasileiros faz uma ideia muito diversa do que seja o homem do mato. A falsidade e o convencionalismo são berrantes. Quer que eu os acuse num detalhe apenas? O sertanejo nordestino aparece na literatura como um tagarela, fazendo imagens arrevesadas e desmesurando-se numa loquacidade extraordinária. Pois nada mais postiço: o sertanejo daquelas bandas é de pouquíssimo falar. Sisudo e macambúzio, ele vive quase sempre fechado consigo mesmo, sendo difícil arrancar-lhe uma prosa.


Pesquisando a alma do primário

— O romance passa-se na zona árida do sertão?

— Sim, mas não me preocupo em pintar o meio. O que me interessa é o homem, o homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece na literatura. Os romancistas do Nordeste têm pintado geralmente o homem da zona do brejo. É o sertanejo que aparece na obra de José Américo e Zé Lins. Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do mundo físico e da injustiça humana. Por pouco que o selvagem pense — e os meus personagens são quase selvagens — o que ele pensa merece anotação. Foi essa pesquisa psicológica que procurei fazer, pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer, porque comumente não conhecem o sertão, não são familiares do ambiente que descrevem.

— E o senhor esteve muito tempo nessa região?

— Nasci na zona árida, numa velha fazenda, e ali passei quase toda a minha infância, convivendo com o sertanejo. Fui depois para a cidade estudar e mais tarde diversas vezes visitei o meu recanto natal, bem como outras paragens do sertão nordestino. Os meus personagens não são inventados. Eles vivem em minhas reminiscências, com suas maneiras bruscas, seu rosto vincado pela miséria e pelo sofrimento.

— Quer dizer que o senhor aplicou o princípio que Jacques de Lacretelle julga básico para o romancista: inventar com o auxílio da memória?


— Isso mesmo. Acho que ainda não descobrimos a alma do nosso primário e que o regionalismo, contra o qual se tem erguido uma certa grita, ultimamente, é coisa que ainda está por fazer. Os sertanejos aparecem sempre transplantados para outro meio e nunca no seu “habitat”. O que procurei fazer foi mostrar o homem no seu ambiente, vivendo a sua vida e falando a sua língua. É um livro amargo, duro, ríspido, mas verdadeiro, profundamente verdadeiro…

E, nessa altura, Graciliano desvia a palestra para outro assunto, achando talvez, na sua modéstia excessiva, que já falara demais sobre o seu livro. O calor da noite carioca continua cada vez mais abafado. E, na pequena sala onde nos encontramos, Graciliano, no seu falar simples e no seu rosto vincado, onde se vê o sinal de uma vida que não tem sido de sorrisos e amenidades — a áspera vida do intelectual no Brasil — é bem o tipo do sertanejo do Nordeste, o homem da zona árida, o beduíno do deserto brasileiro, mal-aclimatado neste recanto da terra carioca.

Do livro Conversas, de Graciliano Ramos. Organização de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 66-72.


Fonte: Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. 

Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 66-72.

Foto: Google



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