Óleo Sobre Tela
Agilson Cerqueira
Manguezais
| Berçários de sobrevivência
Agilson Cerqueira
Vegetações
de escoras,
Vermelhos-manguezais!
Caranguejos,
aratus, guaiamuns;
Garças
brancas, gaivotas;
Cancioneiros,
barqueiros, canoeiros!
Vegetações
aéreas,
Pretos-manguezais!
Sol
aluarado de raios fortes;
Vela
suja, homem negro,
Tempo
marcado, homem definhado!
Manhã
cinzenta, mulher mulata, Velha beata!
Negro
azulado!.
Filho
mais novo, filho mais velho,
Estivadores,
pescadores, marisqueiros!
Velha
beata!
Raízes
fincadas,
Brancos-manguezais!
Mulheres
Negras,
Lamas
secas!
Apicuns!
Negros acinzentado!
* Que
força tem esse poema do Agilson Cerqueira! Ele pinta o manguezal não só como um
ecossistema, mas como um palco de sobrevivência e identidade.
* O
autor faz um retrato visceral da biodiversidade e da resistência humana ao
descrever:
* A
Botânica: Citando as "escoras" e as cores (vermelho, preto e branco)
que caracterizam as espécies de mangue típicas do Brasil.
* A
Fauna: O movimento dos caranguejos, aratus e aves que dependem desse
"berçário".
* O
Lado Humano: A figura do estivador, do canoeiro e das marisqueiras, cujas vidas
são moldadas pela lama e pelo "tempo marcado" da maré.
* É um texto que cheira a maresia e lama, celebrando o Apicum (a zona de transição) e a ancestralidade do povo que tira o sustento desse chão. Se precisar de uma análise mais técnica ou de mais informações sobre esse bioma, é só chamar! (F. P. Samuel*)
(2) O
poema de Agilson Cerqueira é uma:
- etnografia
em versos. Ele não olha para o mangue como um turista, mas como alguém que
entende a simbiose entre a lama e o corpo.
- Para aprofundarmos nessa leitura, podemos olhar para três pilares fundamentais que sustentam esses versos:
1. A
Trindade dos Mangues (Botânica) / Considerações (1):
O
autor organiza o poema citando as três espécies principais que definem o
ecossistema no Brasil. Cada uma tem uma função ecológica e uma estética visual
que ele aproveita:
Mangue-Vermelho
(Rhizophora mangle): As "vegetações de escoras". São as raízes que
sustentam a árvore no solo lodoso e instável.
Mangue-Preto
(Avicennia schaueriana): As "vegetações aéreas". Ele se refere aos
pneumatóforos, raízes que crescem para cima (fora da lama) para buscar
oxigênio.
Mangue-Branco
(Laguncularia racemosa): As "raízes fincadas". Geralmente encontrado
em áreas mais altas e firmes.
2. A
Cor da Sobrevivência (Identidade) / Considerações (2):
Note
como Agilson mistura as cores das árvores com as cores das pessoas. Há uma
fusão entre o homem e a paisagem:
"Negro
azulado", "mulher mulata", "negros acinzentados".
A
cor da pele se confunde com a cor da lama e com o reflexo do sol no
"apicum" (as áreas de solar onde a vegetação é escassa).
O
termo "homem definhado" e "tempo marcado" traz a dureza do
trabalho braçal. O manguezal é generoso em alimento, mas implacável com o corpo
de quem o explora.
3. O
Ciclo da Vida e do Trabalho
O
poema termina com uma imagem poderosa: as "Lamas secas" e o
"Apicum".
O
mangue é o "Berçário" (onde a vida começa), mas para as marisqueiras
e pescadores, é também o lugar onde a vida se consome.
A
menção à "Velha beata" e aos "filhos" (mais novo e mais
velho) mostra que o mangue é uma herança geracional — um modo de vida que passa
de pai para filho, de mãe para filha.
Comentários do poema no site Recanto das Letras:
Autoria: (*) Agilson Cerqueira - Poeta, Prosador e engenheiro
Fotos:
Produção
(*) F. P. Samuel: Escritor, Poeta e Crítico Literário

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